A COISA

O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.

Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.

Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.

Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.

Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.

A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.

O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.

Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.

O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.

Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.

É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.

Mas isso é assunto para outra história.

O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.

Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.

No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.

Interessante como esse processo é quase que universal.  As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.

O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.

Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.

Em 1961, Jânio  Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.

Varre, varre, varre vassourinha! / Varre, varre a bandalheira!

Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasilmoralizado

Governou por sete meses e depois renunciou.

Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.

Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente.

Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.

Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.

Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.

A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.

Independente do Bolsonaro ser um produto que vai cumprir as promessas que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.

.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.

Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.

Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida, uma coisa.

Contra pulgas e baratas,use Detefon, dizia aquele velho anúncio.

Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.

Pior é que mais da metade dos brasileiros que votaram no ano passado acreditaram nisso.

 

 

 

Conversando com o Barão de Itararé

 

Em 1961, eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista: era redator auxiliar na sucursal de Porto Alegre do jornal Última Hora.
Com apenas 20 anos de idade, sonhava em escrever grandes matérias, mas naquela manhã de verão, a incumbência que recebi do secretário de redação, era procurar o Barão de Itararé, hospedado no Hotel Plaza da Senhor dos Passos, o Plazinha e pegar uma declaração dele sobre qualquer assunto.
O secretário me explicou ainda que era um pedido do Samuel Wainer, dono do jornal, mas não podia ser coisa grande, porque a sucursal tinha pouco espaço para suas matérias na edição nacional.
Lá fui eu, a pé e sem a companhia de um fotógrafo, o que era um sinal de pouco prestígio da matéria, em direção ao hotel.
O Barão, Apparíco Fernando de Brinkerhoff Torelly, com 67 anos de idade (iria morrer 4 anos depois) já estava aposentado como jornalista, político e sobretudo humorista, atividades que lhe deram fama, principalmente na década de 40.
Seu espaço como o principal humorista político do País era disputado agora por Millor Fernandes, na revista O Cruzeiro e Sérgio Porto, na Última Hora, 30 anos mais jovens. Coincidentemente, os dois também usavam apelidos para assinar seus textos, Millor, eventualmente como Emmanuel Vão Gogo, no espaço da revista chamado Pif Paf e Sérgio Porto, sempre como Stanislaw Ponte Preta, na sua inesquecível criação do FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País.
Eu sabia quase toda a história do Barão. O apelido surgira como uma brincadeira. Ele dizia que como tinha muitos duques na história do Brasil, por modéstia ele ficaria com um título menor, Barão, e como era uma honraria fictícia, homenagearia uma batalha prevista, mas não acontecida na Revolução de 1930, a Batalha do Itararé.
Nascido no Rio Grande, aluno dos jesuítas em São Leopoldo e quase médico (abandonou o curso no quarto ano) começaria a se destacar no Rio de Janeiro, escrevendo uma página de humor no jornal A Manhã. Seu sucesso foi tanto, que logo a página se tornaria independente com o nome de A Manha, sem o til.
Pouco apreciado pela ditadura de Vargas, sua redação era constantemente invadida pela polícia para empastelar o jornal e bater nos jornalistas, o que levou o Barão a mandar colocar na porta este aviso para os policiais: Entre sem bater.
Em 1947, elegeu-se vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Comunista (foi o oitavo mais votado numa bancada de 18 comunistas), com este slogan de campanha: Mais Leite. Mais água. Mas menos água no leite.
Um ano depois, junto com toda a bancada do PCB teve seu mandato cassado pelo Presidente Dutra, mas não deixou de ironizar: Um dia é da caça…outro da cassação.
Imaginando perguntar algo sobre um desses assuntos, cheguei na portaria do hotel, para ouvir da recepcionista que o Barão pedira para não ser incomodado.
Depois de muita insistência, ela concordou em ligar para o apartamento dele e me por na linha.
Gentil, o Barão explicou que estava descansando e tinha poucas coisas para dizer, mas que se eu tivesse alguma pergunta importante, poderia fazê-la pelo telefone.
Caprichando na colocação do pronome, perguntei:
– O que trouxe a Porto Alegre, Barão?
– Isso, eu posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.
Desconsertado com a resposta e vendo que minha missão não teria sucesso, apelei para uma chantagem explicita. Era um iniciante no jornal e se voltasse à redação sem a entrevista, certamente seria despedido.
Funcionou a estratégia. O Barão mandou subir e não só conversamos durante muito tempo, como acabamos almoçando juntos.
Naquela arrogância típica dos jovens, o achei muito repetitivo e suas histórias pouco engraçadas.
No final, outra surpresa. O Barão, talvez duvidando da minha capacidade em registrar corretamente seus comentários, propôs, ele mesmo escrever as perguntas e as respostas.
Assim, fiquei com a missão de voltar na manhã seguinte no hotel para apanhar o que o Barão escreveria durante à noite.
De fato, no dia seguinte, na portaria do hotel estava um envelope em meu nome, com dezenas de páginas escritas na letra redonda e caprichada do Barão.
Voltei para a redação para ouvir uma carraspana do secretário (Está pensando que isso é um semanário. Sai num dia e volta no outro) e escrever duas ou três laudas de texto.
No dia seguinte, lá estava o fruto de todo o meu esforço, perdido numa página interna da Última Hora:
– Barão de Itararé, em Porto Alegre, defende Fidel Castro e diz que futuro está no socialismo.
Guardei aquelas folhas com as observações do Barão e muitos anos depois, trabalhando na MPM, fui procurá-las para usá-las como textos inéditos num livro que a agência preparava como brinde de fim-de-ano.
Infelizmente, não os encontrei, por mais que os procurasse. Provavelmente teriam se perdido em alguma de minhas mudanças de residência.
Em homenagem ao Barão, termino este texto reproduzindo onze (como um time de futebol) de suas frases mais célebres, que felizmente foram conservadas e permanecem sempre atuais:
– O que se leva da vida é a vida que a gente leva.
– Sábio é o homem que tem consciência da sua ignorância.
– Não é triste mudar de ideia. Triste é não ter ideia para mudar.
– De onde mais se espera, daí é que não sai nada.
– O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresentar provas suficientes que não precisa do dinheiro.

– A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
– Esse mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
– O fígado é o maior inimigo da bebida.
– Devo tanto que se chamar alguém de “meu bem”, o banco toma.
– Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.
– Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados

E o Lula?

E o Lula, qual é o seu projeto político?

Depois daquele compreensível desabafo no discurso do sindicato do ABC, ele se mantém em silêncio até hoje (14/11/19) estimulando todo o tipo de especulações.

Basicamente ele tem duas opções: ou prepara as candidaturas do PT para as eleições municipais do próximo ano, como prévias para um grande confronto com Bolsonaro em 2022 ou inicia uma aproximação com um nome do centro (Huck?) que garanta a permanência de um mínimo de democracia e que respeite os direitos dos trabalhadores que estão sendo paulatinamente suprimidos pelo atual governo.

A primeira opção só seria viável se o próprio Lula fosse candidato em 22. Escolher o Haddad, como ´parece ser a preferência de Lula, é repetir o caminho da derrota como foi em 2018. Lula candidato, com chances de vitória, é uma alternativa que os golpistas que derrubaram Dilma e os militares dificilmente aceitarão, a menos que ela venha apoiada em manifestações populares ao estilo chileno.


Vamos aguardar para ver se o Lula tenha algum coelho escondido na sua cartola mágica.

Campos de concentração nos Estados Unidos.


Nem todas as pessoas sabem, mas como os nazistas durante a guerra e os russos durante a época de Stalin, os Estados Unidos também tiveram seus campos de concentração. Não estamos falando de Guantanamo, na ilha de Cuba, onde são mantidos presos, sem julgamento e submetidos a um regime de isolamento total, dezenas de prisioneiros árabes, vagamente acusados de terrorismo. Falamos de imensos campos de prisioneiros dentro do território norte-americano.
Episódio pouco lembrado pelos que insistem em ver nos Estados Unidos um modelo de democracia que respeita os direitos humanos, os campos de concentração americanos, distribuídos pelos estados da Califórnia, Arizona, Wyoming, Idaho, Utah e Arakansas, são mais uma nódoa na imagem americana.

Logo depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941,o governo norte-americano decidiu criar campos de concentração, principalmente na Califórnia, onde foram confinados durante o restante da guerra cerca de 120 mil pessoas, na sua maior parte de etnia japonesa, embora mais da metade delas fossem cidadãos norte-americanos.
Estes campos estiveram ativos de 1942 a 1948 e receberam também descendentes de japoneses de países da América Latina. Foram 2.264 pessoas, a maioria do Peru, mas também da Bolívia Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e Venezuela.
Durante a guerra, 860 desses japoneses latinos foram trocados por prisioneiros americanos feitos pelo Japão e mais tarde, ao final do conflito, 900 foram deportados para o Japão


As famílias de etnia japonesa nos Estados Unidos recebiam um prazo de 4 dias para se desfazerem de seus bens, antes de serem internados nos campos de concentração, de onde não poderiam sair até o final da guerra.
Os campos foram construídos longe de áreas habitadas e obedeciam a medidas extremas de segurança. Eram cercados com arame farpado e vigiados por guardas armados com ordens de abater os que tentassem fugir.
Uma grande campanha de mídia levou o parlamento a apoiar essas medidas, assustando as pessoas com o “perigo amarelo”.
Um exemplo disso é esse comentário do jornal Los Angeles Times na época:
“Uma víbora é uma víbora, sem importar onde se abra o ovo. Do mesmo jeito, um japonês-norte-americano, nascido de pais japoneses, converte-se num japonês, não num norte-americano”.

Quando a paranoia contra os estrangeiros se tornou quase incontrolável nos Estados Unidos, se cogitou também internar nos campos de concentração alemães e italianos que viviam no país, mas houve tantos protestos que o governo norte-americano desistiu, argumentando que a estrutura econômica dos Estados Unidos ver-se-ia afetada e que o moral dos cidadãos descendentes de alemães e italianos decairia.
Somente em 1988, durante o governo Reagan, os Estados Unidos pediram desculpas oficiais às famílias dos internados e ofereceram uma compensação de 20 mil dólares para os seus sobreviventes.

Losurdo e a Revolução

Nós, os de esquerda, estamos sempre fuçando no passado em busca de exemplos para nos orientar no presente.

Já na Revolução Russa, os comunistas divididos em bolcheviques, mencheviques e socialistas revolucionários  morriam de medo da repetição do “thermidor” da Revolução Francesa.

Nós hoje nos perguntamos, onde foi que eles erraram e entregaram setenta anos de lutas e sacrifícios para o capitalismo predador?

De todas as análises que se faz Revolução Russa, nada mais é repetitivo que o discurso de uma esquerda que se diz democrática. É uma postura descomprometida com a realidade e que se apóia na ideia utópica de que seja possível fazer uma revolução dentro dos parâmetros de uma democracia liberal.

Como Marx e Engels se transformaram quase em santos a serem preservados, são seus seguidores como Lenin, Stalin e Trotski, que foram à luta para tornar realidade o comunismo proposto por ele, que são vistos, principalmente Stalin, como os agentes que deformaram os mais puros  conceitos marxistas e no final puseram tudo a perder.

Dizem que Lenin não entendeu que a Rússia não era o lugar previsto por Marx e Engels  para fazer uma revolução socialista  e atropelou a marcha da História.

Que Trotski também não assimilou os ensinamentos do marxismo de que antes de se formar um estado socialista, seria preciso passar pelo estágio da democracia burguesa, como queriam os mencheviques e ajudou Lenin a fazer a revolução.

Stalin foi outro que não entendeu o que diziam Marx e Engels sobre o conteúdo internacionalista da revolução e comandou um estado socialista que arrancou a Rússia da condição de um país quase feudal para transformá-la numa grande potência mundial.

A pretexto de um retorno ao ”marxismo puro”, se condena quase tudo que foi feito na URSS.

Na contramão desse pensamento, dominante nos meios acadêmicos e na intelectualidade de esquerda, se coloca o professor italiano Domenico Losurdo, autor de uma provocadora biografia de Stalin e que agora nos oferece para discussão o livro “Marx e o balanço histórico do século 20”.

O ponto central da argumentação dos que pretendem se apoiar em Marx e Engels para criticar o que chamam de “socialismo real”, em oposição ao desejado “socialismo democrático” seria a centralização do poder no sistema soviético e o domínio de um partido de profissionais sobre as organizações operárias.

Losurdo lembra que somente um sistema fortemente centralizado seria capaz de enfrentar a situação em que viveu a União Soviética depois da revolução, com a guerra civil, a intervenção de exércitos estrangeiros, o bloqueio econômico que durou por anos e depois a invasão nazista.

Para justificar esse tipo de totalitarismo existente na Rússia, Losurdo se socorre de uma afirmação, não de algum comunista, mas de John Stuart Mill, o grande filósofo e economista inglês do século XIX,quando ele diz que é plenamente legítimo “que se assuma um poder absoluto sob a forma de uma ditadura temporária em caso de necessidade extrema ou mesmo de uma enfermidade do corpo político que não possa ser curada com métodos menos violentos”.

Quanto à hegemonia do partido sobre as organizações operárias (sindicatos, sovietes) Losurdo lembra que o próprio Marx foi bastante claro ao lembrar que uma classe operária oprimida pelo poder da burguesia, não tem o distanciamento crítico suficiente para propor a saída revolucionária necessária. Essa será uma tarefa dos intelectuais comprometidos com os trabalhadores.

Diz Losurdo “Marx já tornou explicita a distinção entre classe em si e classe para si, pensamento mais tarde amplamente elaborado por Lenin”.

Quantas coisas já foram ditas para justificar o fim da União Soviética – falta de liberdades civis, ditadura de uma “nomenklatura” corrupta, enfim, a ausência de uma democracia aos moldes ocidentais (possivelmente a norte-americana) – menos, talvez a que Losurdo apresenta, ao lembrar que “ao abrir as portas da educação também às grandes massas populares antes excluídas, ao satisfazer em certa medida as necessidades básicas mais imediatas, o regime totalitário foi corroído pelos seus fundamentos. Não tinha como sobreviver a seu período heróico, nem o socialismo de guerra, nem a experiência de construção de um Estado de orientação não capitalista desenvolvido em condições dramáticas e excepcionais, porque, chamado a ajustar as contas com a democracia e suas garantias e suas regras, de modo a se elevar ao nível da sociedade civil avançada que ele próprio ajudara a criar, foi incapaz uma resposta adequada Trata-se uma oportunidade histórica miseravelmente perdida’.

E o que tem a ver Marx e Engels com isso? Para Losurdo, eles não são solução do problema da história real, mas são, eles próprios, parte constitutiva de tal história, a ser entendida, obviamente, não como um processo uniforme e linear, mas como um processo onde existem saltos, rupturas,avanços e regressões, algumas pavorosas”.

O que você precisa saber está nos livros

 

Na semana que está passando  estive na Feira do Livro de Porto Alegre,na Praça da Alfândega, pela terceira vez , para autografar um livro de crônicas. Nas outras 62 edições estive lá como leitor. Essa fidelidade aos livros vem desde os primeiros anos da minha juventude quando descobri que tudo o de mais importante que a humanidade já construiu está  nas páginas dos livros.

Minhas grandes descobertas se fizeram nos livros, principalmente nos romances. O humanismo socialista tem muito a ver com Jacques, do livro de Roger Martin Du Gard, Les Thibault. Foi esse mesmo autor que me ajudou a superar a ignorância da religião com o Drama de Jean Barois.

Com o passar dos anos transformei desconhecidos em grandes amigos, independente de suas nacionalidades.

A intimidade se tornou tão grande que hoje nem falo mais seus nomes completos.

Nessa grande confraria tem brasileiros, como Machado, Drummond, Érico, Amado, Raduan, Chico, Euclides e Rosa.

Portugueses, como Eça e Saramago.

Russos, como Tolstoi, Gorki.Nobokov e Dostoiesviski.

Alemães, como Mann, Brecht e Hesse.

Italianos, como Eco, Moravia, Calvino e Lampedusa

Franceses, como Du Gard, Rolland,Stendhal, Balzac, Flaubert  Sartre.

Os  americanos, como Hemingway, Mailler, Roth, Bukowski, Vidal, Faulkner, Talese, Capote

Os ingleses, como Shakespeare, D.H Laurence, Huxley, McEvans, Agatha, Wilde, Orwell, J.K. Rowlling.

Os espanhóis,  como Cervantes, Lorca e Semprúm.

Os latinos como Garcia Marques, Llosa, Cortazar, Neruda, Borges, Benedetti, Galeano, Fuentes, Padura, Martinez, Scorza, Mariategui.

Devo ter esquecido, como sempre acontece, alguns desses amigos.

Sem abandoná-los, em algum momento, achei que era necessário ler livros “sérios” que analisassem o mundo contemporâneo e me ensinassem o caminho para o humanismo marxista, começando pelo velho Marx, uma leitura nem sempre fácil, mas compensadora.

Depois, Engels, Lenin, Trotsky e os novos como Zizek, Meszaros, Losurdo.

Misturado com eles os historiadores como Chomsky, Deutcher, Hobsbawn, Shire. Gorender,  Werneck Sodré, Caio Prado.

Os combatentes pelo ateísmo como Richard  Dawkins, Hitchens;

Os filósofos, os ensaístas e os que escreveram grandes as biografias.

Em cada um deles, um ensinamento, um passo adiante na busca do verdadeiro homo sapiens que todos nós deveríamos almejar ser, principalmente agora que o Brasil está sendo governado por pessoas que certamente abominam os livros

 

Como era boa a minha francesa.

Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e disse

-Allons.

Não era um convite, nem uma pergunta. Não tinha um ponto de interrogação no final. Se tivesse alguma coisa, seria um ponto de exclamação.

Eu ainda brinquei, fingindo de desentendido.

– Para onde?

– Chez moi. Tu habiteras avec moi.

Ela estava séria e determinada.

Eu morava em Porto Alegre e ela em Paris.

Em que língua, será que nos comunicávamos?

Meu francês era precário, mal aprendido nas aulas do professor Lovato, no Julinho.

Eu sabia recitar La Mort de Loup, de Alfred de Vigny (ou seria o Alfred de Musset?) e algumas estrofes da Marsellaise, “Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé”

Mas não devo ter recitado a poesia, nem o hino.

Naquela época eu estava mais interessado em futebol e naquela menina que morava em frente a minha casa na Rua Cruz Alta, a Lourdes Helena e que fingia que eu não existia.

Mas, a francesa era determinada e não tirava os olhos de mim. Ela falava pouco, mas não parava com as mãos.

Do português, ela aprendeu apenas “te amo”, que ela repetia com um sorriso nos lábios e pior (ou melhor), ela falava isso com aquele maravilhoso sotaque francês que me excitava ainda mais.

Afinal, eu tinha apenas 18 anos.

Pelos meus cálculos, ela teria 30.

Mais do que uma mulher maravilhosa, ela tinha aquela sensualidade que só as mulheres francesas dos filmes “rigorosamente proibidos até 18 anos” tinham

E melhor ainda, acho que estava apaixonada por mim.

Não lembro o que ela viera fazer no Brasil. Talvez algum filme passado em paisagens exóticas, como os diretores europeus gostavam de incluir em suas obras na época

E, como chegou a Porto Alegre?

Nunca fiquei sabendo. Talvez estivesse de passagem para Buenos Aires e seu avião fez uma escala aqui.

Eu era aprendiz de jornalista, na época.

Deve ter sido isso: mandaram fazer uma matéria sobre a famosa artista francesa e ela se apaixonara de cara por mim.

Será que ela me via como um “latin lover”?

Outro dia, revi minhas fotos com 20 anos. Não tinha nada do amante latino clássico. Era magrela, dentuço e com cabelos crespos.

Ainda preciso descobrir quais seriam meus encantos e se alguns deles ainda persistem.

E o que será feito da minha francesa?

Será que a minha Carla Orlandina Sanfelici,que mora em Paris, a conhece?

Ah.se eu fui com ela para Paris?

Claro que não, senão não estaria contando essa história.

Por que não fui?

Acho que tinha um jogo do Inter no fim-de-semana e eu não quis perder.

Ou, quem sabe, de repente ela mudou de ideia?

As francesas são sempre muito volúveis.

Os alienados.

Você está vendo um jogo do Internacional no Acre pela televisão e eles aparecem,mesmo que seja num grupo pequeno, com suas camisas vermelhas, torcendo por um time cuja sede fica a mais de mil quilômetros do estádio.

Em menor proporção, isso acontece também com o grêmio.

Em alguns jogos maiores, esses grupos podem ser de torcidas organizadas que viajam com o time, mas eles estão presentes também em jogos de pouca expressão.

Se os juniores do Inter, ou seu time feminino vai jogar em Pindamonhangaba , no interior paulista, lá estão eles, os vermelhos.

Isso, em menor escala, ocorre também quando o Inter joga no Exterior, mesmo que seja na Ásia ou na África

Claro que podem ser gaúchos perdidos no mundo e seus familiares, mas é também uma certa forma de alienação.

As pessoas teimam em introjetar valores, que não são seus ou que já não são mais seus.

Vamos pensar além do futebol para nos dar conta da extensão desse fenômeno.

Quando fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez, tinha 17 anos e uma das visitas que me cobrei a fazer, além dos tradicionais Pão de Açúcar, Corcovado, Praia de Copacabana e Maracanã, foi aos estúdios da Rádio Nacional, no edifício do jornal A Noite, na Praça Mauá.

Fui assistir ao vivo, numa sexta-feira, o programa humorístico Edifício Balança Mas Não Cai, com o primo rico, Paulo Gracindo e o primo pobre, Brandão Filho, que já ouvia quando ainda morava em Farroupilha.

A Rádio Nacional, uma emissora pública, com seus programas de humor  (antes o PRK 30 e depois, o Balança); de auditório (programas  Manuel Barcelos , às quintas  e Cesar de Alencar, aos sábados, com suas estrelas Marlene e Emilinha Borba);, seus musicais (aos domingos ao meio dia com Francisco Alves, o Rei da Voz); os noticiários (O Repórter Esso, com Heron Domingues) e as transmissões esportivas (com Antônio Cordeiro e Jorge Cury) faziam o papel que a Rede Globo viria a desempenhar depois na conquista dos corações e mentes das pessoas.

No início da década de 50, quando se acirrou a guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, os americanos, que vinham vendendo para o mundo há muito tempo, o chamado “american way of  life” decidiram que o cinema, mais do que nunca, seria sua principal arma de conquista .

Claro que continuaram fazendo algumas guerras – a da Coréia foi a maior de todas – mas Hollywood passou a ser o grande divulgador do que era apresentado ao mundo  como a “democracia americana” em oposição ao “comunismo ateu e destruidor das famílias”

A famosa Comissão de Atividades Antiamericanas do senador McCarthy já havia depurado Hollywood de qualquer pensamento de esquerda, pondo na lista negra de Hollywood alguns dos seus mais importantes diretores e roteiristas principalmente, além de atores e escritores de alguma forma ligados ao cinema.

A imensa lista de suspeitos tinha nomes como Charles Chaplin, Orson Welles, Dashel Hemmet, Joseph Losey, Edward Dimytrick, Lillian Hellmann, José Ferrer, John Garfield, Willian Shirer, Zero Mostel, Leonard Berstein, Paul Robertson, Dalton Trumbo e Jules Dassin.  O grande diretor Elia Kaza (Um Bonde Chamado Desejo, Vidas amargas, Sindicato de Ladrões  e Viva Zapata, entre outros filmes),indiciado como suspeito,  inicialmente, se safou denunciando os companheiros.

Foi inicialmente através do cinema que os Estados Unidos construíram no mundo inteiro um sentimento, que ainda perdura, de defesa do sistema capitalista, ainda que ele exista apenas para beneficiar uma minoria poderosa e que exclui de suas vantagens, a maioria da população.

Para a grande maioria de homens e mulheres no mundo inteiro, o desfrute dos bens que a sociedade produz ( casas com piscina, carros, roupas caras, bebidas finas e viagens a  lugares exóticos) se faz apenas virtualmente, antes pelo cinema, hoje principalmente pela televisão e pelas redes sociais.

Mesmo assim, essa maioria de despossuídos, é a primeira a defender a continuidade desse sistema e de até morrer por ele.

Isso apenas confirma o que Marx disse há muito tempo, de que as massas têm a ideologia da classe dominante.

Numa escala menor, bem menor, se você mora em Rio Branco, no Acre e torce pelo Flamengo, Corinthians e grêmio, você é um alienado.

Se torcer pelo Inter, talvez seja apenas pelo vermelho da sua camisa, que lembra a Revolução.

 

A Revolução possível

Outro dia, quando critiquei a proposta de luta de Tarso Genro para os próximos anos da nossa esquerda, minha amiga Vera Spolidoro, me desafiou a sugerir uma alternativa melhor.

Talvez não seja ainda a resposta definitiva, mas relendo o livro de Jacob Gorender, Marxismo sem Utopia, vi algumas possibilidades.

Depois de dizer que o PT, que em certa época pareceu encarnar a possibilidade de uma solução socialista, se tornou, depois dos seus êxitos eleitorais, num partido social-democrata, Gorender lembra a greve de 1968 na França:

“O movimento foi iniciado pelos estudantes e já desencadeado, recebeu o apoio dos operários, dando lugar a uma greve de 9 milhões de trabalhadores com duração de 3 semanas. Sem dúvida, a maior greve da história.

Os trabalhadores foram os últimos a entrar no movimento e os primeiros a sair. Quando saíram, depois de concluir um acordo com o patronato e o governo, esvaziaram p movimento.

Numa conjuntura revolucionária, pode-se ter a expectativa de que o esquema se reproduza com um final diferente”.

Sintetizando sua ideia, Gorender diz que “a força social capaz de abrir caminho para a revolução só poderá ser o bloco de assalariados, dirigido por assalariados intelectuais. Um bloco constituído portanto, por segmentos variados no âmbito do trabalho assalariado, tendo a frente aqueles que são pagos para realizar tarefas intelectuais.”.

Esses acontecimentos no Equador e no Chile, não poderiam ser vistos como a repetição do maio de 68 da França?

Padura, Stalin e Trosky

Convidado pelo professor Mário Maestri, participei de um debate com a professora Nara Machado sobre o livro do Leonardo Padura, O Homem que Amava os Cachorros, na Livraria Ladeira.

Minha preocupação inicial foi chamar a atenção para o jogo que o Padura faz com seus leitores mais politizados, misturando fatos e personagens históricos com outros imaginários e com a mais pura ficção.

Nada contra, ressaltei, mas nada original.

Lembrei que Norman Mailer fez isso várias vezes. No livro Marilyn, ele diz que a CIA tramou a morte da atriz famosa para evitar que seu romance com Robert Kennedy pudesse por em risco alguns segredos do governo americano; em Uma Casa na Floresta, ele afirma que o pai de Hitler era seu avô; em Lee Osvald, ele também mistura a vida do presumível assassino de John Kennedy com grandes tramas envolvendo a máfia.

Mas não foi só Normal Mailler. Phillip Roth transformou Charles Lindbergh, a Águia Solitária, o grande herói americano e admirador dos nazistas, em presidente dos Estados Unidos,derrotando Roosevelt em 1942, no livro Complô Contra a América.

José Saramago recontou a história de Cristo numa visão de esquerda em o Evangelho Segundo Jesus Cristo.

No clássico Les Thibault, de Roger Martin du Gard, o personagem principal, Jacque Thibault se envolve em reuniões com dirigentes socialistas reais na luta para impedir a Primeira Grande Guerra.

Mais recentemente, em seu livro Submissão, Michel Houellebeck, descreve como um islâmico .ainda que  não radical, se torna presidente da França em 2022, numa aliança com a esquerda para evitar a vitória da extrema direita e começa a desmontar as conquistas sociais da sociedade laica francesa.

Puxando a brasa para o meu assado, conto que fiz algo parecido com meu livro Tudo Começou em1964, que só existe como e-book da Amazon, misturando a vida de um jornalista boêmio de Porto Alegre, na década de 60, com ações políticas de Leonel Brizola e dos eventos relacionados com a Legalidade.

Mas, o que estava adjacente à discussão sobre o livro do Padura e que interessava a platéia eram fundamentalmente os comportamentos de Trotsky e Stalin.

Como todos sabem, o homem que amava os cachorros, que dá título ao livro, é Ramon Mercader, ou Jacques Monard ou ainda Frank Jacson, enviado por Stalin para assassinar Trotsky  em  Coyocan, o que se consumou no dia 20 de agosto de 1940.

Mercader ficaria preso no México durante 20 anos e depois de libertado, dividiria seu restante tempo de vida entre Moscou e Havana, onde acaba por se tornar o personagem principal  de Padura.

Até o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Josef Stalin, que comandou a URSS  durante mais de 30 anos, até sua morte em 1953,era chamado o Guia Genial dos Povos.

No dia 25 de fevereiro de 1955, tudo começou a mudar, quando Nikita Kruchiov, que havia sido seu fiel seguidor  durante muitos anos, leu perante os membros mais importantes do partido, o seu relatório secreto, apontando os crimes de Stalin, principalmente os decorrentes dos julgamentos de 1937, da coletivização forçada agricultura e do processo acelerado de industrialização do país.

A partir daí, a imagem de Stálin se transformou de herói em vilão enquanto que a de Trotsky, o criador do Exército Vermelho, depois exilado e mais tarde assassinado a mando de Stalin, cresceu entre grupos comunistas do mundo inteiro, embora ele nunca tenha sido reabilitado até o fim da União Soviética.

Duas ou três questões, levantadas pelos presentes, mostraram logo que havia quase uma unanimidade na platéia: Stalin era um criminoso e Trotsky um herói.

Como todo o pensamento maniqueísta, esse olhar sobre a história da revolução russa, me pareceu equivocado.

A realidade mostra que durante os longos anos da ditadura de Stalin, a Rússia se transformou na república líder da União Soviética, e o país foi arrancado do estado quase feudal em que vivia para se transformar numa grande potência mundial.

Seu povo, quase analfabeto antes, teve acesso à educação e à saúde e viveu sempre numa sociedade onde o pleno emprego era a regra.

Mais adiante, a partir do início da Segunda Guerra Mundial, foi sob a liderança de Stalin, ou apesar dele, como querem seus críticos, que a mais poderosa máquina de guerra até então montada, a Wehrmacht, o exército nazista, foi derrotada pelo Exército Vermelho e o mundo escapou de viver sob o tacão de Hitler.

Lembrei para os presentes que hoje, a partir dos documentos liberados com o fim da União Soviética, é possível se avaliar melhor o papel desses dois grandes nomes da revolução soviética, Stalin e Trotsky.

Para as pessoas presentes e para os meus possíveis leitores recomendo o livro do historiador italiano Domenico Losurdo, Stalin, a História de uma Lenda Negra, que tenta analisar o que aconteceu na URSS durante os longos anos do governo de Stalin, da forma mais isenta possível.

Para os que já optaram por Stalin e querem novos argumentos para a defesa que possam fazer dele, nada melhor que a obra do belga Ludo Martens, Stalin,Um Novo Olhar .

É dele a linha imaginária que mostra os agentes da destruição da experiência socialista russa. Ela começa com Trotsky, segue com Kruchiov, Brejnev, e termina com Gorbachov.