Palavrão, o grande excluído

Nada exprime melhor um sentimento de indignação em relação a determinadas coisas, nem identifica com mais precisão certas pessoas do que um grande e sonoro palavrão.

Apesar disso, aprendemos cedo na vida familiar e principalmente na escola, que as boas normas do comportamento o excluem do nosso dia a dia, deixando-o para ele apenas um pequeno espaço naquela área escura e incontrolável que existe dentro de todos nós.

Mesmo assim, quando por um descuido nosso, ele explode com toda a sua força, mandam os bons hábitos de civilidade, que logo peçamos desculpas por deixá-lo vir à luz.

Enquanto na literatura brasileira, uso do palavrão sempre foi corrente e as ligas da moral e dos bons costumes pouco se preocuparam com isso, talvez porque o hábito da leitura da população sempre foi pequeno ou porque nos livros ele está inserido num diálogo pessoal (o autor e o leitor), nos demais meios de comunicação, a censura nunca baixou sua guarda.

Mesmo hoje, em tempos de grande liberalidade, onde até o chamado beijo gay chegou a televisão, um simples “vai à merda” continua interditado. No rádio, a mesma coisa. Em jornais e revistas, a rica e a quase sempre bem-humorada linguagem popular, cheia de adjetivos para ilustrar o comportamento das pessoas, é substituída pela língua culta, pernóstica, excludente e adjetivada.

A publicidade, a mais vigiada das atividades de comunicação, sempre foi ousada e criativa no Brasil, mas raramente ultrapassou os normas da boa educação na sua linguagem oral. Outro dia, parodiando estes limites, os canais de televisão exibiram uma campanha muito inteligente da Tigre, usando frases sem sentido para substituir os palavrões que a situação mostrada exigiria.

Com a ajuda do Luiz Octavio Vieira, lembrei que toda árvore é frondosa, toda a chuva copiosa, as paixões são doentias e o mocotó suculento, sempre substantivos e adjetivos que podem ser anunciados em voz alta sem ferir nossos padrões comportamentais.

É claro que essa discriminação contra o falar popular é também uma questão de classe, uma forma de ajudar na diferenciação de ricos e pobres. Os jornais e revistas são feitos para os bens nascidos, que no passado tinham dicionários em casa (hoje tem o Google) e que sabem o significado das palavras.

Procela, por exemplo, você não ouve ninguém falando na rua, mas pode encontrar em algum texto pretencioso (a plebe diria, com mais propriedade, metido a sebo), inclusive na minha página no facebook.

O cinema americano só foi se liberar da rígida censura moral imposta pelo chamado Código Hays (referência ao seu criador, Will Hays, um pastor presbiteriano) na década de 60, depois de durante 30 anos, interferindo na criação cinematográfica.

Segundo esse código, certos assuntos eram classificados como Dont´s ((proibidos) e outros como Be Carefuls (exigiam muitos cuidados para serem exibidos). Exemplo de assunto Dont´s: não casados dormirem juntos.

Quando assustado com algo insólito, um ator de um filme normalmente diria  “que merda está acontecendo”, o código mandava ele dizer: “macacos me mordam se isso é verdade”.

O código, naquilo que em que ele era mais rígido – a alusão ao sexo entre não casados – começou a ruir com a famosa cena do beijo nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Debora Kerr (ela, casada com o comandante da base militar onde Burt era um simples sargento) no filme A Um Passo da Eternidade (1953), de Fred Zinnnemann.

Outro tabu, as relações inter-raciais, foi quebrado no filme de 1957, Ilha dos Trópico, quando a branca Joan Fontaine beijou o negro, Harry Belafonte. Até então, mesmo nos filmes mais progressistas de Hollywood, brancos namoravam brancas e negros namoravam negras.

Hoje, liberado totalmente para fazer o que bem entende (obviamente um recurso mercadológico para enfrentar a televisão) o cinema americano está cheio de fucks you (ou fock you), ainda que você não consiga ler a sua tradução verdadeira nas legendas no Brasil.

Nos Estados Unidos, pode tudo, mas na Rússia, não pode mais nada. O Presidente Putin sancionou lei do Parlamento, proibindo o uso de palavrões em todos os meios de comunicação, da literatura ao cinema. Multa para quem transgredir a nova lei: 50 mil rublos, cerca de mil euros, ou 4 mil reais.

Enquanto a linguagem popular permanece banida dos principais meios de comunicação no Brasil, na literatura, ela não sofre restrições.

O professor Mário Souto Maior se deu ao trabalho de pesquisar o uso de palavrões pelo povo brasileiro e sua presença na nossa literatura.

Seu livro, O Dicionário de Palavrões e Termos Afins, colecionou 3 mil verbetes considerados chulos, mas sua edição em 1974 foi proibida pela censura militar e só chegou ao público em 1980.

Uma curiosidade revelada pelo livro é de que Jorge Amado é o escritor brasileiro que mais se socorre das palavras ditas obscenas em seus textos.

Para quem não leu o livro, vamos citar cinco delas, quase todas de uso corrente na terra de Amado, a Bahia, tentando traduzi-las com algum cuidado, para não ferir também aqui suscetibilidades.

Dar a Maricotinha – o doador de sexo anal

Fechar a cancela –  aposentar-se das práticas sexuais

Levanta cacete – mulher jovem e sensual

Papar – ter relações sexuais

Zebedeu –  o pênis.

Fica faltando um glossário rio-grandense para concorrer com o baiano, tarefa da qual o publicitário Roberto Pintaúde poderia se ocupar, já que há muito tempo vem divertindo seus admiradores com o uso sistemático da rica linguagem, dita chula, que nós gaúchos costumamos usar.

Para fechar de uma maneira elegante, mas não culta, esta página, vamos citar Antônio Carlos Jobim comentando sua experiência de viver no exterior, de uma forma pouco acadêmica.

“Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

 

 

A magia da realidade

O intelectual é por princípio um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase – “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (Deus não é grande), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

Em seu livro mais conhecido no Brasil (Deus – um delírio) Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais,

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

Dawkins propõe então chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.

 

O que você sabe sobre a Coréia?

Agora que a Coréia está novamente em evidência no noticiário internacional, talvez seja o momento adequado para falar um pouco da sua história milenar.
Embora já haja resquícios de ações de grupos humanos no período paleolítico, as primeiras formas de organização social na Península da Coréia aparecem por volta do ano 2.000 antes de Cristo, com o surgimento da dinastia Tangun, que governaria a região por 12 séculos, até a ocupação chinesa em 1.122 antes de Cristo.
A partir daí até o final do século XIX da nossa era, a história da Coréia registra uma série de retomada de reinos independentes e de ocupações chinesas.
No início do século XX, o Japão surge como a grande potência asiática. Em 1910, ele ocupa a Coréia e a transforma numa colônia. A partir da anexação, o japonês se torna língua oficial da Coréia e toda a sua produção industrial, já importante na época, é colocada a serviço da economia japonesa. A reação nacionalista, de início, pouco expressiva, cresce na medida em que o Japão aumenta o grau de exploração da colônia, até que explode em grandes manifestações em 1919, reprimida com extrema violência pelo Japão.
As lideranças nacionalistas coreanas se transferem então para Xangai, na China, onde organizam um governo no exílio, com o apoio expresso do governo americano, marcando o início da interferência dos Estados Unidos nas questões internas da Coréia.
Durante a segunda guerra, o Japão alistou 2,6 milhões de coreanos como força de trabalho. Mais de 700 mil pessoas foram enviadas para trabalhar em territórios ocupados pelos japoneses no exterior. Em janeiro de 1945, os coreanos representavam 32% da força de trabalho japonesa. Em agosto, quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, 25% dos mortos eram coreanos.
Com o fim da segunda guerra mundial na Europa e o anunciado colapso das forças japonesas no Pacífico, Estados Unidos e União Soviética decidiram na Conferência de Potsdam, em 1945, que elas dividiriam a Coréia em duas áreas de ocupação, os russos ao norte e os americanos ao sul, até que ocorresse a reunificação do país sob um governo independente, prevista para 1950.
É interessante notar que o modelo de divisão de um território ocupado pelo inimigo, no caso o Japão na Coréia, seguia o que fora acertado na mesma conferência em relação à Alemanha, também dividida em duas áreas de influência: o leste ficaria sob a tutela soviética e o oeste, sob controle de americanos, ingleses e franceses.
O início da guerra fria, já em 1945, esvaziou os planos de reunificação, tanto da Coréia como da Alemanha. Na Alemanha, o processo começou com a transferência, em 1948, do poder no lado ocidental para o partido liderado por Konrad Adenauer e a criação de uma nova moeda, o Deutschmark, ao que os soviéticos responderam no ano seguinte, apoiando a criação da República Democrática Alemã. A reunificação só se tornaria realidade 42 anos depois, em 1990.
Enquanto na Alemanha, apesar das constantes crises e ameaças de confronto armado, a paz foi mantida, na Coréia, as diferenças entre as duas zonas acabaram provocando uma sangrenta guerra entre 1950 e 1953, que quase provocou um novo conflito mundial.
Como no caso da Alemanha, a política americana foi a mesma na Coréia: apoiar o surgimento de um governo separatista na sua área de influência, invalidando a possibilidade de uma futura reunificação.
Impedidos de participar das discussões a respeito do seu futuro como nação, os coreanos, a partir de 1946 realizaram uma série de manifestações contra as tropas de ocupação, principalmente no Sul. A mais importante delas, ocorreu na Ilha de Jeju, onde cerca de 60 mil pessoas teriam sido mortas, levando as forças de ocupação americana a decretar a lei marcial no país.
Pondo fim a expectativa de um acordo que permitisse a reunificação, em 10 de maio de 1949 a Coréia do Sul realiza eleições que vão indicar Syngman Rhee (1875-1965) como presidente. A Coréia do Norte responde a 25 de agosto, escolhendo Kim Il-Sung (1912/1994), um herói da resistência contra os japoneses, como seu presidente.
Em junho de 1950, ano previsto para a reunificação da Coréia, tropas do Norte invadem o Sul e em poucos dias tomam a sua capital Seul.
Sob a bandeira da ONU, os Estados Unidos vão entrar na guerra e logo conseguem conter o avanço das tropas da Coréia do Norte e iniciam a invasão da área além do paralelo 38, a linha que separava as duas partes da Coréia a partir de 1945. Em setembro, a China entra na guerra ao lado da Coréia do Norte. A partir daí, o conflito vai oscilar com vitórias parciais dos dois lados, até que um armistício é assinado em 1953 e a Coréia volta a ser dividida pelo paralelo 38, como está até hoje.
O trágico saldo dessa guerra, além da imensa destruição das riquezas do país, foi a morte de 1milhão e 200 mil pessoas, entre coreanos, chineses e norte-americanos.
Uma lição que se espera que as partes envolvidas no conflito atual levem em consideração, antes que a situação chegue a um ponto em que não haja mais a possibilidade de um acordo de paz duradouro
Para os coreanos, deve valer o mesmo que alimentou os sonhos dos alemães durante anos, o de viver num mesmo país, unificado e em paz.

O MEU E O NOSSO

Quando os homens começaram a se fixar na terra e se transformaram de caçadores em agricultores, começou também a divisão entre os que, por serem mais fortes, mais inteligentes ou que tiveram mais sorte, ficaram com as melhores terras e prosperarem, enquanto outros – a maioria – fracassaram.

Os que prosperaram trataram rapidamente de garantir seu poder, organizando as primeiras forças policiais para defender o que consideravam somente seu e por extensão, de suas famílias e  de seus filhos.

A partir daí, passando pelos vários ciclos econômicos em que viveu a humanidade, do escravismo ao capitalismo, o grande problema foi sempre manter passivos os excluídos dos bens materiais que iam sendo gerados.

A partir de determinado momento, os proprietários se deram conta que a coerção policial seria incapaz de manter incólume para sempre essa ordem injusta.

Era preciso convencer os excluídos que isso acontecia por uma razão maior, que era independente da vontade das pessoas.

Durante séculos e até hoje, a religião serviu para isso. O ópio do povo, como definiria mais tarde com precisão, Karl Marx.

Mas, o advento do capitalismo trouxe com ele também o seu coveiro, o proletário, mais uma vez lembrando Marx.

É dele também a justificativa ética para o que antes era apenas a cobiça pelos bens do próximo.

É preciso dividir entre todos o que alguns pensam que é só seu.

O Meu precisava ser substituído pelo Nosso.

O século XX viu essa verdade transformada em bandeira de luta de milhões de pessoas no mundo inteiro, culminando com a revolução de 1917, na Rússia.

Não bastavam agora para convencer os excluídos a aceitar a exclusão, as forças de coerção de policial, ou o consolo da religião.

Então, como dizia a aquele velho ditado “é preciso dar os anéis para não perder os dedos”, foram surgindo os “estados do bem estar social”,com limites de exploração nas horas trabalhadas, mais férias, aposentadoriasm e outros direitos.

Mas o exemplo da revolução russa, com o surgimento da União Soviética, ainda assombrava o mundo.  Era preciso desconstruí-la na mente dos trabalhadores, para os quais ela foi feita, principalmente depois da Segunda Guerra, quando,  praticamente sozinha , derrotou a wehrmacht nazista, a maior máquina de guerra jamais montada no mundo.

Começou então um extraordinário esforço de comunicação, capitaneado pelos Estados Unidos para vender, principalmente através do cinema, para o mundo inteiro o chamado ‘ameircan way of life’, basicamente a defesa de um individualismo feroz, em que os mais inteligentes e hábeis são sempre premiados e os perdedores, a maioria, são perdedores por sua exclusiva culpa.

Nesses últimos anos, estamos assistindo esse esforço de comunicação romper todas s barreiras éticas que ainda existiam, e se tornar cada vez mais poderoso, com a utilização das redes sociais para impor formas de governo e governantes comprometidos a manter a maioria da população excluída dos bens que a tecnologia criou para todos.

No Netflyx e no youtube há dois documentários – Hackeando a Privacidade e Driblando a Democracia que, se referindo aos mesmos personagens – Robert  Mercer e Steve Bonnon –  e as mesmas empresas  – Cambridge Analytic e o Facebook –    mostram com detalhes como foram fraudadas  as eleições americanas em benefício de Trump,nos Estados Unidos e o Brexit, na Inglaterra e mais adiante na eleição de Bolsonaro no Brasil.

O processo se sofisticou. A tentativa de conquistar a adesão das pessoas, feitas no passado através da exposição de pseudos valores de uma sociedade – a democracia capitalista – em  oposição à “ditadura” comunista – hoje é feita de uma maneira em que o eleitor/consumidor está completamente indefeso, vítima do que poderíamos chamar de algoritmos do mal.

Ano que vem teremos eleições municipais no Brasil e certamente, ainda que em menor escala, serão também corrompidas por esse processo espúrio de influência sobre a mente dos eleitores.

Seria trágico que os partidos de esquerda participassem desse jogo, como se fosse um processo eleitoral confiável, (como parece que vai acontecer, a acreditar o que dizem seus líderes a começar por Lula), em vez de aproveitar  o tempo na mídia para denunciar toda essa farsa.

 

Apenas um sonho impossível?

Em março de 2013, o ex-deputado Carlos Araújo, deu um depoimento para a Comissão da Verdade, no qual denunciou que, quando foi torturado em São Paulo, durante a ditadura militar, na década de 70, empresários ligados à FIESP, além de financiarem os órgãos repressores, como a OBAN e o DOI-CODI, assistiam as sessões de tortura.

Talvez quisessem, como é típico dos capitalistas, conferir se o seu dinheiro estava sendo bem empregado.

O caso mais emblemático dessa participação de empresários em sessões de torturas foi o do empresário dinamarquês, naturalizado brasileiro, Henning Albert  Boilensen. Segundo testemunhos de presos, Boilensen, diretor do Grupo Ultragás, além de participar das sessões, teria contribuído com a criação de uma nova ferramenta de tortura, chamada Pianola de Boilensen, uma espécie de teclado que emitia choques elétricos ao ser tocado.

Boilensen foi justiçado em 15 de abril de 1971 por militantes da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Além dele, também são citado como financiadores da OBAN empresários dos grupos Ford, GM, Camargo Corrêa, Objetivo, Folha e Bradesco.

A ação desse grupo de empresários, numa época em que o recrudescimento da ditadura militar gerou uma resistência armada e com ela uma forte instabilidade política, está dentro da ótica capitalista de usar o Estado para conquistar seus objetivos de classe. Na década de 70, principalmente, ela se mostrava com uma crueldade sem disfarces, porque havia um visível conflito de interesses de classes.

Com o fim da ditadura e a democratização das atividades políticas, mudaram os métodos, mas o grande empresariado jamais abriu mão de usar as ações do Estado para seu benefício.  Através da mídia e das igrejas conservadoras, foi “vendido” ao povo brasileiro a idéia de que o único caminho possível para o país era o modelo capitalista de produção, que ao contrário do socialista, geraria ganhos para todos e era mais democrático.

Mesmo os governos progressistas de Lula e Dilma, jamais avançaram em medidas de caráter socializantes, como fizeram os governos de Allende, no Chile, no passado e de Chavez, na Venezuela e Morales, na Bolívia, mais recentemente.

Em vez disso, financiaram o capital privado com juros subsidiados e a contratação de grandes obras públicas, apostando na geração de mais empregos e na melhoria das condições de vida dos mais pobres.

Fruto de décadas de lavagem cerebral, hoje a ideia de um caminho socialista para o Brasil parece algo extremamente distante. Os partidos que poderiam ergue esta bandeira, nem inscrevem mais esta proposta em suas plataformas.

Mas, nem sempre foi assim. Quando terminou a segunda guerra mundial as grandes vitórias da União Soviética, responsável maior pela derrota do nazismo, difundiram no mundo inteiro as idéias igualitárias do comunismo. Embora o grande esforço americano de valorizar a sua atuação e a dos ingleses na segunda guerra, a verdade histórica é que a Wehrmacht  foi destruída pelo Exército Vermelho em memoráveis batalhas.

O famoso Dia D, com o desembarque dos aliados na Normandia, em junho  de 44, foi feito quando os alemães já estavam praticamente vencidos e ele só ocorreu porque ingleses e americanos temiam que os russos, na sua ofensiva contra a Alemanha pudessem chegar a libertar toda a Europa Ocidental. Churchill e Roosevelt adiaram quanto puderam a abertura de uma segunda frente na Europa, calculando que a continuidade da guerra entre russos e alemães exauriria os dois lados, deixando o campo livre para americanos e ingleses assumirem liderança do mundo com o fim da guerra.

Em 1945, a imagem da União Soviética e do caminho socialista de governo eram extremamente simpáticos à maioria das pessoas no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Um bom exemplo disso era o nosso poeta maior, Carlos Drummond de

Andrade, que depois de enaltecer a vitória dos soviéticos em Stalingrado, termina assim o seu poema: O poeta Declina de toda responsabilidade  / Na marca do mundo capitalista  / E com suas palavras, instituições, símbolos e outras armas / Promete ajudar / A destruí-lo / Como uma pedreira, uma floresta, Um verme”.

.Nas eleições de 1945, Luís Carlos Prestes, talvez o político brasileiro de mais prestígio na ocasião, preferiu não arriscar-se na disputa pela presidência, e indicou o desconhecido Yedo Fiúza, prefeito de Petrópolis, para concorrer em seu lugar, pela legenda do PCB. Fiúza fez mais de 570 mil votos, contra 3 milhões e pouco de Dutra, que foi eleito e 2 milhões do brigadeiro Eduardo Gomes. A estratégia do PCB foi de formar bancadas numerosas nas Assembleias Estaduais, na Câmara e no Senado, o que de fato ocorreu.

Para combater a imagem de que o caminho socialista era uma alternativa viável, os Estados Unidos desfecharam uma imensa campanha publicitária no mundo inteiro, investiram milhões de dólares na transformação da Alemanha Ocidental numa vitrina colorida diante da cinzenta Alemanha Oriental, refizeram alianças com adeptos do fascismo, como Franco na Espanha e Salazar em Portugal e usaram a força armada quando essas alternativas não eram mais possíveis, como na deposição de Mossadeh, no Irã.

O cinema foi a grande arma para vender no mundo inteiro o famoso “american way of life”, onde todos os sonhos eram possíveis, em oposição ao socialismo dos soviéticos, onde o “Estado dizia o que cada pessoa devia fazer no seu dia-a-dia”. Até mesmo a pintura, uma arte aparentemente não politizável, foi utilizada para vender o conceito de liberdade dos americanos. O pintor abstracionista Jackson Pollock confessou que ele mesmo não entendia seu prestigio, já que se considerava um artista de entendimento difícil pára os leigos. A explicação veio mais tarde quando se descobriu que suas exposições no mundo inteiro tinham o patrocínio do governo americano, que via no seu abstracionismo uma resposta libertária à pintura

figurativista dos russos, que seria fruto de uma determinação do Estado. Mesmo aqui em Porto Alegre foi possível assistir-se de graça no auditório da reitoria da Universidade Federal a grande orquestra sinfônica de Nova York, regida por Dimitris Mitropoulos. Certamente não foi a reitoria quem pagou seus cachês.

Essa grande ação de mídia, enaltecedora das virtudes da sociedade capitalista era combinada com uma forte repressão interna para quem ainda sonhasse nos Estados Unidos com o ideal socialista. A famosa comissão liderada pelo senador Joseph McCarthy acusou de comunista e interrompeu as carreiras de importantes nomes das artes nos Estados Unidos, principalmente no cinema, que era a ponta de lança da divulgação dos chamados “ideais americanos”. Além de Charles Chaplin, o mais famoso de todos, foram processados os escritores Arthur Miller e Dashiell Hammett, a cantora e atriz Judy Holliday, o diretor de cinema Edward Dmytryk, e o roteirista Dalton Trumbo, entre outros. A acusação de serem espiões dos russos levou à cadeira elétrica os cientistas Julius e Ethel Rosemberg.

Este enorme esforço de convencimento das pessoas no mundo inteiro conseguiu transformar em poucos anos a imagem da União Soviética e por conseqüente da proposta socialista de organização social, de libertadora dos povos na segunda guerra naquilo que Churchill chamou de “a cortina de ferro”.

Mesmo assim, todo esforço não seria suficiente para liquidar com a experiência socialista no leste da Europa, se além dele e também dos reconhecidos erros dos dirigentes soviéticos, não tivesse a União Soviética tentado acompanhar a corrida armamentista desencadeada no governo Reagan e com isso exaurido sua economia, tornando cada vez mais difícil atender as necessidades das suas populações.

O fim da União Soviética não é, porém, como afirmam os defensores do capitalismo, o fim do ideal socialista. A cada dia fica mais claro que as nações europeias, depois que viram secar as possibilidades de exploração colonial na África e na Ásia, nunca mais recuperaram seu antigo esplendor e vivem hoje atreladas às decisões norte-americanas. Os Estados Unidos, por sua vez, só fazem funcionar sua economia levando a guerra aos confins da terra, como foi no passado o Iraque e Afeganistão. Mas essas soluções cobram sempre um custo posterior muito alto.

Quando as crises sistemáticas, provocadas pelo beco sem saída que o sistema capitalista gerou no mundo, são cada vez mais seguidas, com a destruição de riquezas e empobrecimento das populações, não há como não pensar na alternativa do socialismo, mesmo para o Brasil.

 

As não pessoas

No seu livro Vida Precária, um dos ensaios de Judith Butler é sobre a existência de pessoas detidas por prazo indefinido, pelos Estados Unidos na base de Guantanamo, sem quaisquer direitos ,mesmo o de serem julgados por algum tipo de crime.

Nem prisioneiros de guerra eles são considerados pelo tratado de Genebra. São não-pessoas, que mesmo assim sofrem os mais diversos tipos de tortura.

A base de Guantanamo, um território de 116 Km2, teoricamente fica sob jurisdição de Cuba, mas desde 1903 foi arrendada de forma permanente pelos Estados Unidos. Pelo acordo os americanos pagam anualmente 4 mil dólares ao governo cubano. Desde a revolução cubana de 1959 o governo de Havana devolve esse cheque ao Tesouro Americano.

Em 1942, depois do ataque a Pearl Harbor a ilha recebeu milhares de americanos filhos de japoneses. A partir de 2002 começou a receber combatentes islâmicos do Afeganistão.Os campos de segurança máxima, onde foram comprovados vários tipos de tortura, chegaram a ter 700 presos, mas hoje seu número não passa de 40.

Obama havia prometido desativar a prisão, mas Trump não concordou com a medida.

A COISA

O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.

Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.

Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.

Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.

Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.

A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.

O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.

Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.

O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.

Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.

É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.

Mas isso é assunto para outra história.

O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.

Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.

No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.

Interessante como esse processo é quase que universal.  As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.

O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.

Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.

Em 1961, Jânio  Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.

Varre, varre, varre vassourinha! / Varre, varre a bandalheira!

Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasilmoralizado

Governou por sete meses e depois renunciou.

Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.

Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente.

Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.

Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.

Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.

A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.

Independente do Bolsonaro ser um produto que vai cumprir as promessas que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.

.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.

Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.

Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida, uma coisa.

Contra pulgas e baratas,use Detefon, dizia aquele velho anúncio.

Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.

Pior é que mais da metade dos brasileiros que votaram no ano passado acreditaram nisso.

 

 

 

Conversando com o Barão de Itararé

 

Em 1961, eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista: era redator auxiliar na sucursal de Porto Alegre do jornal Última Hora.
Com apenas 20 anos de idade, sonhava em escrever grandes matérias, mas naquela manhã de verão, a incumbência que recebi do secretário de redação, era procurar o Barão de Itararé, hospedado no Hotel Plaza da Senhor dos Passos, o Plazinha e pegar uma declaração dele sobre qualquer assunto.
O secretário me explicou ainda que era um pedido do Samuel Wainer, dono do jornal, mas não podia ser coisa grande, porque a sucursal tinha pouco espaço para suas matérias na edição nacional.
Lá fui eu, a pé e sem a companhia de um fotógrafo, o que era um sinal de pouco prestígio da matéria, em direção ao hotel.
O Barão, Apparíco Fernando de Brinkerhoff Torelly, com 67 anos de idade (iria morrer 4 anos depois) já estava aposentado como jornalista, político e sobretudo humorista, atividades que lhe deram fama, principalmente na década de 40.
Seu espaço como o principal humorista político do País era disputado agora por Millor Fernandes, na revista O Cruzeiro e Sérgio Porto, na Última Hora, 30 anos mais jovens. Coincidentemente, os dois também usavam apelidos para assinar seus textos, Millor, eventualmente como Emmanuel Vão Gogo, no espaço da revista chamado Pif Paf e Sérgio Porto, sempre como Stanislaw Ponte Preta, na sua inesquecível criação do FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País.
Eu sabia quase toda a história do Barão. O apelido surgira como uma brincadeira. Ele dizia que como tinha muitos duques na história do Brasil, por modéstia ele ficaria com um título menor, Barão, e como era uma honraria fictícia, homenagearia uma batalha prevista, mas não acontecida na Revolução de 1930, a Batalha do Itararé.
Nascido no Rio Grande, aluno dos jesuítas em São Leopoldo e quase médico (abandonou o curso no quarto ano) começaria a se destacar no Rio de Janeiro, escrevendo uma página de humor no jornal A Manhã. Seu sucesso foi tanto, que logo a página se tornaria independente com o nome de A Manha, sem o til.
Pouco apreciado pela ditadura de Vargas, sua redação era constantemente invadida pela polícia para empastelar o jornal e bater nos jornalistas, o que levou o Barão a mandar colocar na porta este aviso para os policiais: Entre sem bater.
Em 1947, elegeu-se vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Comunista (foi o oitavo mais votado numa bancada de 18 comunistas), com este slogan de campanha: Mais Leite. Mais água. Mas menos água no leite.
Um ano depois, junto com toda a bancada do PCB teve seu mandato cassado pelo Presidente Dutra, mas não deixou de ironizar: Um dia é da caça…outro da cassação.
Imaginando perguntar algo sobre um desses assuntos, cheguei na portaria do hotel, para ouvir da recepcionista que o Barão pedira para não ser incomodado.
Depois de muita insistência, ela concordou em ligar para o apartamento dele e me por na linha.
Gentil, o Barão explicou que estava descansando e tinha poucas coisas para dizer, mas que se eu tivesse alguma pergunta importante, poderia fazê-la pelo telefone.
Caprichando na colocação do pronome, perguntei:
– O que trouxe a Porto Alegre, Barão?
– Isso, eu posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.
Desconsertado com a resposta e vendo que minha missão não teria sucesso, apelei para uma chantagem explicita. Era um iniciante no jornal e se voltasse à redação sem a entrevista, certamente seria despedido.
Funcionou a estratégia. O Barão mandou subir e não só conversamos durante muito tempo, como acabamos almoçando juntos.
Naquela arrogância típica dos jovens, o achei muito repetitivo e suas histórias pouco engraçadas.
No final, outra surpresa. O Barão, talvez duvidando da minha capacidade em registrar corretamente seus comentários, propôs, ele mesmo escrever as perguntas e as respostas.
Assim, fiquei com a missão de voltar na manhã seguinte no hotel para apanhar o que o Barão escreveria durante à noite.
De fato, no dia seguinte, na portaria do hotel estava um envelope em meu nome, com dezenas de páginas escritas na letra redonda e caprichada do Barão.
Voltei para a redação para ouvir uma carraspana do secretário (Está pensando que isso é um semanário. Sai num dia e volta no outro) e escrever duas ou três laudas de texto.
No dia seguinte, lá estava o fruto de todo o meu esforço, perdido numa página interna da Última Hora:
– Barão de Itararé, em Porto Alegre, defende Fidel Castro e diz que futuro está no socialismo.
Guardei aquelas folhas com as observações do Barão e muitos anos depois, trabalhando na MPM, fui procurá-las para usá-las como textos inéditos num livro que a agência preparava como brinde de fim-de-ano.
Infelizmente, não os encontrei, por mais que os procurasse. Provavelmente teriam se perdido em alguma de minhas mudanças de residência.
Em homenagem ao Barão, termino este texto reproduzindo onze (como um time de futebol) de suas frases mais célebres, que felizmente foram conservadas e permanecem sempre atuais:
– O que se leva da vida é a vida que a gente leva.
– Sábio é o homem que tem consciência da sua ignorância.
– Não é triste mudar de ideia. Triste é não ter ideia para mudar.
– De onde mais se espera, daí é que não sai nada.
– O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresentar provas suficientes que não precisa do dinheiro.

– A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
– Esse mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
– O fígado é o maior inimigo da bebida.
– Devo tanto que se chamar alguém de “meu bem”, o banco toma.
– Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.
– Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados

E o Lula?

E o Lula, qual é o seu projeto político?

Depois daquele compreensível desabafo no discurso do sindicato do ABC, ele se mantém em silêncio até hoje (14/11/19) estimulando todo o tipo de especulações.

Basicamente ele tem duas opções: ou prepara as candidaturas do PT para as eleições municipais do próximo ano, como prévias para um grande confronto com Bolsonaro em 2022 ou inicia uma aproximação com um nome do centro (Huck?) que garanta a permanência de um mínimo de democracia e que respeite os direitos dos trabalhadores que estão sendo paulatinamente suprimidos pelo atual governo.

A primeira opção só seria viável se o próprio Lula fosse candidato em 22. Escolher o Haddad, como ´parece ser a preferência de Lula, é repetir o caminho da derrota como foi em 2018. Lula candidato, com chances de vitória, é uma alternativa que os golpistas que derrubaram Dilma e os militares dificilmente aceitarão, a menos que ela venha apoiada em manifestações populares ao estilo chileno.


Vamos aguardar para ver se o Lula tenha algum coelho escondido na sua cartola mágica.

Campos de concentração nos Estados Unidos.


Nem todas as pessoas sabem, mas como os nazistas durante a guerra e os russos durante a época de Stalin, os Estados Unidos também tiveram seus campos de concentração. Não estamos falando de Guantanamo, na ilha de Cuba, onde são mantidos presos, sem julgamento e submetidos a um regime de isolamento total, dezenas de prisioneiros árabes, vagamente acusados de terrorismo. Falamos de imensos campos de prisioneiros dentro do território norte-americano.
Episódio pouco lembrado pelos que insistem em ver nos Estados Unidos um modelo de democracia que respeita os direitos humanos, os campos de concentração americanos, distribuídos pelos estados da Califórnia, Arizona, Wyoming, Idaho, Utah e Arakansas, são mais uma nódoa na imagem americana.

Logo depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941,o governo norte-americano decidiu criar campos de concentração, principalmente na Califórnia, onde foram confinados durante o restante da guerra cerca de 120 mil pessoas, na sua maior parte de etnia japonesa, embora mais da metade delas fossem cidadãos norte-americanos.
Estes campos estiveram ativos de 1942 a 1948 e receberam também descendentes de japoneses de países da América Latina. Foram 2.264 pessoas, a maioria do Peru, mas também da Bolívia Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e Venezuela.
Durante a guerra, 860 desses japoneses latinos foram trocados por prisioneiros americanos feitos pelo Japão e mais tarde, ao final do conflito, 900 foram deportados para o Japão


As famílias de etnia japonesa nos Estados Unidos recebiam um prazo de 4 dias para se desfazerem de seus bens, antes de serem internados nos campos de concentração, de onde não poderiam sair até o final da guerra.
Os campos foram construídos longe de áreas habitadas e obedeciam a medidas extremas de segurança. Eram cercados com arame farpado e vigiados por guardas armados com ordens de abater os que tentassem fugir.
Uma grande campanha de mídia levou o parlamento a apoiar essas medidas, assustando as pessoas com o “perigo amarelo”.
Um exemplo disso é esse comentário do jornal Los Angeles Times na época:
“Uma víbora é uma víbora, sem importar onde se abra o ovo. Do mesmo jeito, um japonês-norte-americano, nascido de pais japoneses, converte-se num japonês, não num norte-americano”.

Quando a paranoia contra os estrangeiros se tornou quase incontrolável nos Estados Unidos, se cogitou também internar nos campos de concentração alemães e italianos que viviam no país, mas houve tantos protestos que o governo norte-americano desistiu, argumentando que a estrutura econômica dos Estados Unidos ver-se-ia afetada e que o moral dos cidadãos descendentes de alemães e italianos decairia.
Somente em 1988, durante o governo Reagan, os Estados Unidos pediram desculpas oficiais às famílias dos internados e ofereceram uma compensação de 20 mil dólares para os seus sobreviventes.