As Benevolentes – uma alegoria sobre o capitalismo selvagem.

O livro As Benevolentes – Les Bienveillantes – (edição brasileira Objetiva, 2007, 906 páginas), de Jonathan Littell, mais do que uma descrição crua e pormenorizada dos horrores dos campos de extermínio dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, é uma alegoria do que seria o sistema capitalista levado ao extremo da sua finalidade maior, a desumanização do ser humano transformado em instrumento na busca do lucro a qualquer custo.

Nos campos de concentração e extermínio de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes físicos e mentais, nos quais se incluíram as mais diversas nacionalidades, inclusive alemães, os nazistas aplicaram os mais modernos meios de administração em busca do grande objetivo do capitalismo: o maior lucro possível, no menor prazo de tempo e com investimentos baixos.

N a estratégia de Hitler e seus sequazes, este projeto tinha dois objetivos muito claros em relação às populações não germânicas: usá-las como força de trabalho escravo até a sua completa exaustão e eliminar aqueles considerados incapazes para o trabalho. Para isso, foram construídos grandes campos de concentração no território da Alemanha, basicamente voltados para a produção e nos territórios da Polônia e Ucrânia, destinados ao extermínio, inicialmente através de fuzilamentos e mais tarde com o uso de câmaras de gás. Dentro da Alemanha, os principais campos de trabalho forçado foram os de Sachsenhausen, em Orienenburg, próximo de Berlim, Buchewald, próximo a Weimar (onde esteve internado o escritor Jorge Semprun) e Dachau.  Na Polônia, foi erguido o maior número de campos. Os principais foram Auschwitz- Birkenau, onde morreram mais de 1 milhão de pessoas, Lublin, Sobidor e Treblinka.

Nos portões de ingresso dos prisioneiros nesses campos, ironicamente, um letreiro afirmava que “Arbeit Macht Frei”, o trabalho liberta.

Até hoje, essa política é vista como uma perversão do espírito maligno de Hitler, mas por trás dela havia a frieza que caracteriza busca do sucesso empresarial a qualquer custo.  Para as empresas, o que seria melhor do que trabalhadores sem nenhum direito e usados como verdadeiras máquinas? Por outro lado, a estratégia de reduzir drasticamente as populações nativas da Polônia, Ucrânia e Rússia objetivava liberar grandes extensões de terras agrícolas para a produção de alimentos destinados ao consumo interno da Alemanha.

Junto a estes campos, tanto na Alemanha, inicialmente e depois nos países ocupados, com orientação de Albert Speers, o Ministro do Armamento, se estabeleceram importantes indústrias alemãs e por incrível que possa parecer,  até mesmo filiais alemãs de empresas americanas, para usar a mão de obra escrava.

Ao lado da IG Farber, que fabricava o gás Zyklon B, usado nas câmaras de gás e que depois da guerra se tornou a Bayer, estavam a Siemens, que construiu as câmaras de gás, Hugo Boss, que desenhou e fabricou os uniformes dos nazistas, a Wolkswagen, cujo presidente Ferdinand Porsche, criou o popular Wolkswagen ( carro do povo) a pedido pessoal de Hitler e também marcas americanas  quem se beneficiaram das facilidades criadas pelo trabalho escravo durante o nazismo. A filial da Coca Cola, na Alemanha, pela falta do xarope para fabricar a sua bebida líder, criou Fanta, especialmente para os soldados alemães. Também as filiais da Kodak, IBM e GE mantiveram suas ligações com o regime nazista, principalmente na fase anterior a entrada dos Estados Unidos na guerra.

Hannah Arendt, no seu clássico livro Eichmman em Jerusalém (Eichmman in Jerusalem: A Report on the Banality of Evyl – Companhia das Letras, 2011), já havia flagrado o caráter quase burocrático da ação dos nazistas nos campos de concentração, cunhando a expressão “a banalidade do mal”.

Jonathan Littell, segue na mesma linha. Sua descrição da vida na frente de batalha russa e nos campos de concentração amplia essa visão de até onde pode chegar a maldade humana livre de qualquer barreira ditada pela civilização. Para ele, não há culpados, nem vítimas, apenas aqueles que tudo podem e aqueles que nada têm, a não ser suas vidas, transformadas em mercadorias.

Jonathan Littell é filho do escritor de romances de espionagem Robert Littell, bastante popular na França e seu livro As Benevolentes (uma ironia com uma peça do grego Ésquilo) ganhou o Prêmio Goncourt em 2006 e vendeu mais de 700 mil exemplares no ano do seu lançamento.  Filho de uma família judia, nascido nos Estados Unidos, mas educado na França, Jonathan escreveu este seu primeiro livro depois de anos de pesquisa sobre as ações dos nazistas na guerra, principalmente das Schutzstaffel (tropas de proteção), as tristemente famosas SS.

Para contar a sua história, Littell criou um personagem fictício, o oficial das SS Maximilien Aué, encarregado de analisar as ações de extermínio sob o ponto de vista administrativo, usando sistemas de avaliação tirados da prática empresarial capitalista. Nessa tarefa, ele vai interagir com sinistros personagens nazistas como Himmler e Eichmman, que num organograma civil poderiam ser vistos como o diretor e o gerente operacional de uma grande empresa.

A visão do personagem é de que, embora muitas vezes desagradável, sua tarefa pessoal se dilui num grande esforço de todos os adeptos do nacional-socialismo de criar uma vida melhor para o povo alemão, ainda que a custo da desgraça de muitos outros povos.  Nessa tarefa, ele lembra que seus adversários nessa luta fizeram o mesmo no passado, ingleses e franceses nas colônias africanas e asiáticas, e os Estados Unidos, no seu próprio país, formado a partir das guerras contra os índios e os latinos.

Essa visão de um capitalismo extremado e selvagem em ação, traz a memória a advertência de Rosa de Luxemburgo, feita há quase um século atrás de que a humanidade só tem duas opções: o socialismo ou a barbárie.

Quando do seu lançamento  no Brasil, o falecido escritor Moacyr Scliar, fez uma resenha do livro para a Revista Veja, que termina assim: “Littell sugere repetidamente que os nazistas não eram uma exceção. No extermínio dos judeus, por exemplo, tinham a decidida colaboração de ucranianos. Ou seja: a humanidade tem dentro de si um componente de intolerância, de loucura mesmo, que pode ser mobilizado com resultados catastróficos. A tese é talvez controversa. Mas Littell a defende com brilho desde as primeiras páginas do livro, quando  anuncia como será sua narrativa: – É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto a vocês”

Pra onde vai Tarso Genro?

Prefeito de Porto Alegre, Governador do Rio Grande do Sul, Ministro da Justiça e Ministro da Educação, Taro Genro é uma voz que precisa sempre ser ouvida.
Hoje, o site UOL, da Folha, publicou uma longa declaração dele, a propósito da sua recusa em participar da festa dos 40 anos do PT.
Primeiro, ele fez uma análise das ações do Partido, principalmente quando governou o País por 14 anos.
Antes de tudo, uma afirmação categórica – “Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.” – para seguir com uma avaliação do PT e seus dirigentes, começando pela velha proposta de “refundação” do partido, tão combatida na época em que ele a lançou.
“A “autocrítica” que eu defendi não significava transformar o partido em delegacia de polícia. Quadros do PT cometeram erros ao longo destes 40 anos e isso não é nenhuma novidade em qualquer partido de qualquer ideologia. A reestruturação que eu defendia e defendo vai bem além”.
Depois de lembrar que o modelo de classe trabalhadora é outro hoje no Brasil, ele individualiza procedimentos que considera que foram errados: “O nome da companheira Dilma foi aprovado pelo partido através de uma proposta do presidente Lula, sem debate. Hoje, a opinião generalizada do PT é que ela teve uma enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas que o partido tinha”
Faz uma previsão sobre o futuro do Brasil: “Acho que nos próximos 15 anos deveremos ter alguns governos mais ao centro, mais à direita e ameaças fascistas como o governo Bolsonaro. E acredito que o PT vai manter mais ou menos seu status e eleitorado, permanecendo atuante na sociedade brasileira”
Dentro desse porvir, vê o PT integrando à uma frente de esquerda, onde o partido precisará trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial.
“Acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto. Eu defendo Lula ou Haddad como candidatos, mas nossa opinião tem que ser avalizada sinceramente por todas as forças convergentes”.
Na entrevista, sobrou tempo para Tarso Genro fazer uma mea culpa:
“Já fiz várias autocríticas nesta jornada de 58 anos de militância. Tenho meus arrependimentos. Quem não tem é porque não está na vida. O maior deles foi ter derrotado o então governador Olívio Dutra na prévia do PT em 2002. Impedi o Olívio de tentar a reeleição e perdi.”
Porém, a questão mais importante que Tarso coloca é a sua análise da divisão de classes no Brasil e a partir dela os objetivos viáveis para o movimento de esquerda.
Para ele, o PT não percebeu o que mudou. “Nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente.”
Além dessa mudança, ele vê uma tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual.
“Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas. Temos que aprender urgentemente como falar com este mundo novo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede. A luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores.”
Tarso diz que continua na luta: ‘Eu e um grupo de companheiros elaboramos documentos que submetemos aos partidos de esquerda. Sigo discutindo e escrevendo artigos. Pretendo ajudar, com meus limites, não somente ao PT, mas os companheiros de todos os partidos de esquerda que pensam numa renovação de paradigmas da esquerda.”
Raro na política brasileira, o discurso de Tarso será demonizado pelos “estalinistas” do PT para os quais o “grande guia” está sempre certo, mas merecia ser discutido com mais profundidade.
Duas questões são fundamentais: primeiro, os trabalhadores desapareceram realmente como classe social – os coveiros do capitalismo no dizer de Marx – e segundo, com o fim das lutas classes, decorrente da aceitação da primeira premissa, que modelo pretende Tarso para o Brasil?
Parece que o desaparecimento da representatividade dos trabalhadores, reunidos em poderosos sindicatos nas grandes fábricas, não significa que eles tenham desaparecidos como classe social.
Podem ter perdido a representatividade, mas não perderam a identidade.
Eles são milhões em sub- empregos, em trabalhos precarizados, os “uberizados”, mas continuam gerando mais valia para os empresários, mesmo os virtuais.
Podem não ter consciência de que são pessoas vivendo do seu trabalho, mas na realidade o são.
O que pode ter outros aspectos é a luta de classes entre as pessoas que assumem posições opostas no relacionamento com o trabalho, mas ela continua existindo.
Negar a existência da luta de classes, ainda que com uma nova moldura, é sepultar o sonho de uma sociedade socialista.
A outra questão é decorrente dessa primeira. Como não enxerga mais uma luta de classes na sociedade brasileira, Tarso parece admitir que o modelo a ser perseguido seria uma sociedade capitalista, onde a força das organizações ditas de esquerda, dentro de uma democracia parlamentar, seriam capazes de criar uma sociedade onde os direitos sociais seriam não só respeitados, mas ampliados.
Uma nova versão de um estado do bem estar social. Talvez um modelo ao estilo escandinavo.
Na Copa do Mundo de 1958, quando ouviu do treinador Feola explicar o melhor jeito vencer seus adversários, os temíveis russos, Garrincha perguntou: o senhor já combinou isso com eles?
Com todo o respeito que merece, parodiando Garrincha, gostaria de perguntar ao Tarso Genro sobre essa concertação entre ricos e pobres: o senhor já perguntou para os ricos se eles concordam?

Licença para matar

 

Desde que Jair Bolsonaro foi eleito Presidente, o Brasil vive uma cultura da violência como nunca tinha acontecido antes. Ele e o triste governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel,defendem abertamente o uso da força bruta contra os mais fracos, contra os que contestam esse regime espúrio em que vivemos.

Bolsonaro, quando da votação do impeachment da presidente Dilma, espantou as pessoas civilizadas do Brasil dizendo que seu voto era em homenagem ao coronel Brilhante Ustra, um dos poucos militares que a Justiça reconheceu como torturador e ser um torturador é a infâmia máxima  a que um ser humano é capaz de se entregar.

Nem os militares da ditadura, mesmo que praticassem, defendiam a tortura e até mais não admitiam que a fizessem uso dela contra seus presos.O

O governador do Rio, Wilson Witzel, ele mesmo acompanhou seus atiradores, que de helicópteros alvejavam pessoas nos morros da cidade, onde vive a população mais pobre e ainda mais, ensinava que os atiradores deveriam mirar nas “cabecinhas” das pessoas.

Gente desse tipo merecia há muito tempo ser enviada para o lixo da história, mas infelizmente continua por aí pregando seus valores atentatórios às práticas civilizadas.

E o pior. O repúdio a Bolsonaro e Witzel, que deveria ser total, é restrito a poucos e quase sempre nos é apresentado envolto num discurso com o cheiro de disputa eleitoral e não a defesa apaixonada da nossa condição humana.

Talvez esteja nos faltando alguém como Miguel de Unamuno.

Em outubro de 1936, quando a Espanha mergulhava nas trevas do franquismo, como reitor da Universidade de Salamanca, ele ouviu o general Millan Astray, um aleijado de guerra, cego de um olho e sem um braço, bradar o grito de guerra dos fascistas “Viva La Muerte” nas comemorações do chamado “Dia da Raça”, 12 de outubro, dia da Descoberta da América.

Sua resposta corajosa ficou para a história e está viva até hoje e deveria ser repetida no Brasil em que vivemos.

Agora mesmo ouvi um grito necrófilo e insensato, ‘Viva a morte’. Eu devo dizer-lhes que considero este esdrúxulo paradoxo repelente. O General Millán Astray é um aleijado, que isso seja dito sem nenhuma condescendência. Ele é um inválido de guerra. Cervantes também era. Infelizmente há demasiados aleijados na Espanha agora. Entristece-me pensar que o general Millán Astray venha ditar o padrão da psicologia de massas. Um aleijado, que não possui a grandeza espiritual de um Cervantes acostuma-se a buscar alívio causando mutilados em volta dele.”

Millan respondeu “Muerte los inlectuales. Viva La muerte”

Unamuno retomou seu discurso sem se abalar e sem se acovardar

 “Estamos no templo do intelecto. E nele eu sou o sumo sacerdote. São vocês que profanam esses espaços sagrados. Vocês vão vencer, por que têm mais que o necessário de força bruta. Mas vocês não convencerão. Pois para convencer é preciso persuadir. E para persuadir vocês necessitarão o que não têm: razão e justiça na luta. Eu considero fútil exortá-los para que pensem na Espanha. Eu o fiz.”

A Espanha vivia tempos de guerra interna, com a vitória dos franquistas sobre a República. Nós vivemos numa democracia, que pode ser frágil, mas que ainda sobrevive.

Por que então esse silêncio?

É ele que permite que no lugar da cultura da inteligência, do saber, da civilidade, Bolsonaro  e seu grupo, estejam impondo ao país a cultura da brutalidade e da violência.

Em vez de argumentos civilizados, a força das armas.

Esse episódio recente na Zona Sul de Porto Alegre, quando um jovem massacrou uma família inteira por causa de um simples acidente de trânsito, mostra claramente como esse discurso está sendo aceito e praticado por muitos.

O professor Marcos Rolim, em artigo publicado no Sul 21, traçou o retrato do homem bolsonariano: “Um jovem de 24 anos, sem antecedentes criminais, sem histórico de doença mental, ex-militar, membro de uma “família estruturada”, defendia o porte de armas para “se defender de bandidos” e se declarava evangélico e temente a Deus”

Mais do que um disputa eleitoral que se aproxima, o que está em jogo é a escolha de um modelo de vida para os brasileiros. Se vamos nos decidir pela cultura da morte ou pelo respeito à vida como nosso bem maior?

Ninguém deve ter licença para matar.

Eu opto pela vida.

 

Entrevista do Lula

Vão dizer que tenho má vontade com o Lula, mas leiam a entrevista dele para o UOL e vejam quanto ele é limitado nas suas propostas. O que ele diz da religião, do governo Bolsonaro e da política em geral, poderiam ser ditas por qualquer político do MDB. Como diziam lá no Campo da Tuca, o Lula já era. Vou copiar algumas frases dele para confirmar esse triste diagnóstico.
Vem a aí o PT evangélico:
“Lula conta que, diante da falta de opções na TV aberta, sua companheira de cela nos 580 dias em que permaneceu preso na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, ele assistia aos cultos religiosos. E disse que há o que aprender com a ação das igrejas. “E eles estão entrando na periferia, porque o povo, quando está desempregado e necessitado, a fé dele aumenta. Essa fé, do povo brasileiro, é muito grande e nós temos que respeitar. E ao invés de sermos do contra, temos que saber como é que a gente lida com esse novo modo de pensar do povo brasileiro. Inclusive de pensar a religião”,
O Bolsonaro não é assim tão ruim, “só tem que parar de falar bobagens”
“”Mesmo quem votou contra o Bolsonaro tem que saber o seguinte: ele é presidente. Eu vou ficar sentado na cadeira, dizendo que ele não presta e torcendo para que dê tudo errado? Não. Ele tem a obrigação de governar pensando no bem, no ser humano, no mais pobre, no país, na nossa soberania, nos nossos estudantes, no nosso povo trabalhador… E parar de falar bobagem..
Sempre a visão do sindicalista sobre a politica.
“O que difere é que, em 1980, a Volkswagen tinha quase 44 mil trabalhadores e, hoje, tem 9 mil. Os trabalhadores originários de onde o PT foi formado estão diminutos. Você tem trabalhadores em outras atividades da economia — fazendo entrega de comida, no Uber, em serviços de microempreendedores. Está muito difusa a organização da classe trabalhadora e é inclusive difícil para o movimento sindical se situar.”
A falta de visão da divisão de classes continua:
“O senhor sempre falou que os bancos nunca lucraram tanto como no seu mandato. Falo ainda hoje. Tenho consciência que fui eleito para governar para todas as pessoas. Para o banqueiro e o bancário, o fazendeiro e o trabalhador rural. O que a pessoa tem que saber é que eu vou governar como um coração de mãe..
Sobre as eleições:
“O PT está disposto. como sempre esteve, a fazer aliança política. Com o segundo turno, todo o partido político tem direito de ter o seu candidato, de ter o seu tempinho na televisão, de defender o seu programa. Se não for para o segundo turno, esse partido, então, faz aliança para apoiar alguém que foi. É o jeito mais decente de fazer política.”

Meu amigo, Ibsen Pinheiro

Aos 84 anos, morreu Ibsen Pinheiro.  As pessoas o conheceram como o deputado que presidiu a Câmara Federal no e se tornou famoso por liderar a votação do impeachment de Collor e  candidato em potencial  à Presidente da República  ou como o diretor do Internacional, que junto com mais alguns companheiros – os Mandarins – revolucionou o futebol colorado e mais adiante como o político que caiu em desgraça e conseguiu dar a volta por cima.

Eu o conheci como um amigo.

Ele era quatro anos mais velho do que eu e quando o encontrei naquele grupo de intelectuais que se reuniam na Rua da Praia, no início da década de 60, esses quatro anos faziam muita  diferença.

Eu chegava aos 20 anos sem nenhuma história para contar e ele já tinha muito para falar com sua vida na clandestinidade do Partido Comunista e também como jornalista da Tribuna.

A Rua da Praia era uma tribuna aberta a todos que chegavam para discutir principalmente política, literatura e cinema. Ele, o Werner Becker, o Flávio Tavares e o Hélio Nascimento, entre outros, eram a estrelas e eu um ouvinte interessado.

Um pouco mais adiante fui seu colega de trabalho nas redações do jornal Última Hora, primeiro na Galeria do Rosário e depois na 7 de Setembro, eu como um auxiliar de repórter e ele como um brilhante copy desk.

É dessa época que começou a criar fama com o seu dom de respostas rápidas, precisas e quase sempre ferinas para quem o questionava.

Na Última Hora havia por parte de um diretor de redação, a obsessão pela síntese nas noticias.

O Ibsen recebe o texto de um repórter policial sobre um crime de morte e reduz tudo àquelas clássicas respostas às perguntas de “o quê, quem,quando,, onde, como e por que” para formar o lead e entrega ao diretor.

Ele, olha e pede que o texto seja reduzido ainda mais.

O Ibsen reduz, mas ainda assim o diretor não está satisfeito.

Na terceira vez, o Ibsen volta com a redução definitiva.

– João matou Maria. Leia maiores detalhes na Folha da Tarde, o jornal concorrente da Última Hora, na época.

Depois o Ibsen foi trabalhar no Jornal do Brasil, no Rio e nos encontrávamos quando ele vinha prestar exames aqui na Faculdade de Direito.

Envolvido em outras histórias, acompanhei de longe sua carreira política como vereador, deputado estadual e deputado federal e principalmente como  o diretor vitorioso do nosso Internacional.

Na época, nos encontrávamos, esporadicamente, no apartamento do Werner Becker na Rua Riachuelo. Mais adiante, quando era deputado federal já famoso,nos reunirmos umas poucas vezes no seu apartamento  da  rua General João Teles, ou no meu, da rua Sato Antônio.

A última vez que o vi foi num almoço dominical na casa do Werner e da Rejana, ano passado, quando estavam presentes outros velhos companheiros da Ultima Hora, o João Souza e o Florianinho.

Saímos juntos e ele me pareceu o mesmo cara de sempre, embora já se percebessem alguns sinais de decadência física

Há poucos meses atrás, ele me ligou e falamos bastante tempo, quase que só do passado, que ficava sempre mais distante. Foi quando ele me disse que tinha um problema de sangramentos internos que o debilitavam bastante e que os médicos não conseguiam descobrir a causa.

Mesmo assim, foi uma surpresa e um choque quando minha filha Tatiana, ligou na sexta à noite para dizer – o Ibsen morreu.

A magia da realidade

Há alguns anos, num voo de São Paulo para Porto Alegre, sentei ao lado de um famoso advogado, conhecido pela sua militância nos partidos de esquerda e pelo seu confessado ateísmo ou, no mínimo, um agnosticismo militante.
A viagem era tranquila até o momento em que o avião começou a enfrentar uma forte turbulência. Para o meu espanto, o tal advogado repetiu várias vezes o sinal da cruz. Intrigado com aquele ritual, perguntei se isso não contrariava suas convicções. Ele prontamente me interrompeu, dizendo:
– Não é hora de discutir estes assuntos. Estamos no território Dele. Quando chegarmos em terra firme, podemos conversar sobre isso.
Será que todas as pessoas submetidas a algum tipo de estresse não acabam se socorrendo de práticas místicas e velhos fetiches, em busca de algum tipo de conforto e segurança?
Lembrei, então, aquele livro maravilho do Roger Martin de Gard, não “Les Thibault”, pelo qual ganhou o Nobel de Literatura em 1937, mas outro, de 1914, “Jean Barois”, que, em português, ganhou um explicativo no título,”O Drama de Jean Barois”. O tal drama era a dúvida de Jean Barois entre a fidelidade ao seu passado de intelectual ateu e o doente quase terminal em que se transformou na velhice. Ele morre consolado pela fé religiosa que fez parte da sua infância, mas ao abrir o seu testamento, a filha, uma freira que batalhara com sucesso pela conversão do pai, é surpreendida já na primeira frase do documento: “O que pensa o homem que sou hoje, lúcido e consciente, deve prevalecer sobre o velho que serei um dia”. Nas linhas seguintes, Jean Barois defende sua crença na ciência como único caminho para entender o mundo em que vivemos e repudia qualquer forma de misticismo, comuns na senilidade que marca o fim da vida.
Essas minhas lembranças das duas histórias – a recaída do advogado famoso e o livro de Roger Martin de Gard – se explicam pela leitura de um outro livro muito interessante.
Nessa época de leituras em tablets e Ipod, nada melhor do que ter nas mãos um livro de capa dura, com papel da melhor qualidade e ilustrações coloridas para lembrar um prazer que hoje interessa a poucos. Estou falando do livro “A Magia da Realidade – Como sabemos o que é verdade” (The Magic of Reality), de Richard Dawkins, com belas ilustrações de Dave McKean, que a Companhia das Letras lançou no Brasil. Dawkins, um ex-professor da Universidade de Oxford, é conhecido no mundo inteiro como um grande divulgador da ciência, principalmente da obra de Charles Darwin e teve seu livro de maior sucesso, “Deus, um delírio”, também lançado pela mesma editora em 2007, hoje já na décima segunda reimpressão.
Nesse novo livro, Dawkins conta em 12 capítulos quais são as respostas da ciência para questões sobre o que é realidade, o que é magia, porque existente tantos tipos de animais, quem foi a primeira pessoa, e o que é um milagre. Segundo ele, as respostas que as ciências ainda hoje são incapazes de dar para muitas questões, serão dadas um dia e que, muitas coisas que nossos antecipados viam como um milagre, são hoje plenamente respondidas pelo conhecimento científico.
Diz ele no último capítulo do seu livro: “Há cerca de dois mil anos, um pregador judeu itinerante chamado Jesus estava em uma festa de casamento quando o vinho acabou. Ele pediu água e usou seus poderes milagrosos para transformá-la em vinho – um vinho excelente, diz a história. Pessoas que ririam da ideia de que uma abóbora pode se transformar em carruagem e que sabem perfeitamente que lenços não viram coelhos, acreditam que um profeta transformou água em vinho ou, como crêem devotos de outra religião, voou para o céu num cavalo alado” – para concluir mais adiante no mesmo capítulo – “Quanto mais refletimos, mais percebemos que a própria ideia de um milagre sobrenatural não tem sentido. Se acontecer algo que pareça inexplicável pela ciência, podemos, com segurança, concluir uma dentre duas coisas. Ou não aconteceu realmente (o observador se enganou, mentiu ou foi logrado por um truque), ou estamos diante de algo que a ciência ainda não sabe explicar. Se a ciência atual encontra uma observação ou um resultado experimental que não consegue entender, não devemos descansar até que ela evolua o suficiente para encontrar a explicação”.
Quando Dawkins esteve em Porto Alegre, fui ouvi-lo. Guardo até hoje o seu livro “Magia da Realidade”, autografado por ele
É bom saber que existem pessoas como ele que ajudam com argumentos nosso orgulho de ser ateu.

Suas últimas palavras

Será sua última chance de ser lembrado por algo criativo, de impacto,memorável.
Mas, lembre-se, vai depender só de você.
Não vai ser como nos filmes, com trilha sonora dramática ou efeitos especiais É você prestes a abrir a porta da eternidade.
Concentre-se: é sua última chance de fazer com que as pessoas esqueçam todas as bobagens que você já disse, para ser lembrado apenas pelas suas palavras finais.
Eu, por exemplo, não quero ser surpreendido e chegar a essa hora decisiva sem um texto pronto e decorado.
Andei lendo as últimas palavras de gente célebre e vi como muitos quase puseram a perder suas biografias por dizerem banalidades numa hora tão solene.


Elvis Presley disse à namorada: “Vou ao banheiro para ler”

 

Frank Sinatra, podendo falar da Ava Gardner, das suas músicas e de seus filmes, disse apenas: “Estou perdendo”.

 

Alfred Hitchcock, que sempre soube terminar bem seus filmes, sobre a vida: “Nunca se sabe o final”.
Salvador Dali queria saber apenas, “Onde estão meus relógios?”.
Outros não perderam a pose nessa hora crucial.

Churchill: “Estou entediado com tudo isso”
Frida Kaklo: “Espero que a saída seja alegre porque nunca mais vou retornar.”
Beethoven: “Aplaudam amigos, a comédia terminou.”
Anna Pavlova, esperava continuar dançando: “Aprontem a minha fantasia de cisne branco”.


Marx foi contestador até o fim: ”Últimas palavras são para tolos que nunca disseram o suficiente”.
O outro Marx, Groucho sobre o que lhe aguardava:“Por que eu deveria me importar com a posteridade? Ela nunca fez nada por mim. “


O melhor de todos foi Getúlio Vargas que deixou por escrito suas últimas palavras: “Saio da vida para entrar na história”.
Munido de todos esses exemplos estou preparando meu discurso final, que espero seja provocativo suficiente para não abalar a minha fama de mau. Não pretendo nesse último momento, amolecer o coração para ser lembrado depois como aquele cara que “apesar de tudo, no fundo era um bom sujeit

Síndrome da nostalgia.

A partir de certa idade, as pessoas mais velhas são atacadas irremediavelmente pela doença da nostalgia e precisam falar sobre isso sem parar. Tudo era melhor nesse passado idílico, mesmo que saibam racionalmente que, na maioria dos casos, era bem pior.
Não se trata de uma doença nova, gerada por uma sociedade consumista que despreza os mais importantes valores morais, como esses doentes costumam afirmar para justificar suas crises de incompatibilidade com o presente. Quase diria que é uma doença congênita. Nascemos com seus genes e, a partir de certa idade, na maioria dos casos por volta dos 50 anos, eles começam a se desenvolver rapidamente.
Como um dos portadores dessa síndrome, sei de experiência própria, que a nossa geração de nostálgicos não inventou essa doença. Ela é bem antiga e dou um exemplo pessoal para comprovar a tese.
Quando criança, na casa dos avós, ouvia um lamento permanente sobre as agruras do presente:
– Bom era antigamente.
Antigamente era melhor em tudo, principalmente no valor dos objetos. Absolutamente todas as coisas eram melhores e mais baratas nesses tempos que compunham o que chamavam de antigamente. Tanto falaram que me convenceram – então um menino de 6 ou 7 anos – que os tempos de antigamente eram melhores e comecei a sonhar com sua volta.
Um dia, me deram uma cédula, provavelmente de uns 10 cruzeiros, ou talvez 10 mil reis, para comprar o boné que eu tanto queria. Quando, depois, me perguntaram se eu tinha comprado o tal boné, respondi, demonstrando, já em tão tenra idade, um comportamento extremamente prudente, que iria esperar pela volta do “antigamente”, quando certamente me sobrariam alguns trocados, depois de comprar o boné, possivelmente para comprar um sorvete, que obviamente seria também melhor que os atuais.
Os pacientes dessa doença têm a característica de estabelecer relações com outros que padecem de sintomas semelhantes para se dedicar à manifestação mais clássica de sua presença insidiosa: falar do passado. Com meu amigo Ibsen, falo sobre os velhos times do Internacional e formamos grandes seleções simbólicas misturando duas ou três gerações que existem hoje em nossas lembranças: Ivo, Nena, Salvador, Oreco, Tesourinha, Adãozinho, Chinesinho, Ávila e Carlitos.
Com o Luís Augusto, percorria, com os velhos bondes da Carris, os bairros da cidade, enumerando um a um os cinemas de cada avenida, do centro até os vários fins de linhas. Começando do Centro, do Imperial, Guarani, Rex, Ópera, Carlos Gomes e Continente, seguimos até o fim da linha Floresta, que era na Igreja São João e depois foi um pouco mais adiante, até a entrada da Vila do IAPI, passando, então, pelo Ipiranga (que foi até o fim com suas cadeiras de madeira), Colombo (onde passavam os filmes da Metro, junto com o Avenida), Orfeu (que virou Astor), Eldorado e Rosário (que, junto com o Imperial, Ritz e Marrocos, foi o pioneiro do cinemascope em Porto Alegre).
Para qualquer bairro que os bondes nos levavam, sempre tinha um cinema à nossa espera: o Rival, na Auxiliadora; o Ritz, em Petrópolis; o Marrocos, no Menino Deus; e o Teresópolis, lá na Praça Guia Lopes. Nos melhores dias, lembrávamos o Palermo, o Gioconda, o Rio Branco o Navegantes, o Atlas, o América, o Rei e o Talia.
Nessa linha cinematográfica, mas aí entrando nos cinemas para ver os filmes, com o Hélio Nascimento a quem, infelizmente, encontro muito pouco, falamos de Einsentein, Bergmann, De Sica, Renais, Visconti, Kurosava e Kubrick, como grandes amigos que conhecemos no Clube do Cinema, juntos com o P.F.Gastal.
Com o Gonzales, são dos publicitários e jornalistas incrivelmente mais inteligentes e criativos que os atuais, sobre os quais falamos, enumerando suas qualidades e idiossincrasias.
Com o Eloy, falamos co curso de História da Ufrgs, de como a maioria dos seus professores eram conservadores e nunca esquecemos da a única resposta que o Schmidt aceitava como correta para a pergunta – o que aconteceu com a expedição de Colombo na véspera da descoberta da América – era “do alto da gávea Rodrigo de Triana viu uma luz bruxuleante no horizonte”.
Com o Batista Filho, os diálogos são sobre políticos, chegando sempre à invariável conclusão que nunca existiu nenhum tão corajoso e correto como o doutor Brizola.
Com o Werner, é a desconstrução das biografias de personagens conhecidos da vida pública desde os tempos da TV Piratini.
Com o Dr. Franklin, as memórias vão desde época em que os gaúchos sonhavam em ser aviões da Varig e a gente acreditava piamente que o socialismo estava a um passo, logo ali dobrando a esquina, até o Pitigrilli, da Loura Dolicocéfala, que as pessoas hoje nem advinham quem seja.
As mulheres parecem sucumbir menos a esta moléstia, mas, às vezes, também podemos diagnosticar nelas alguns traços da doença.
Uma amiga, a quem perguntei de modo galhofeiro se a nossa amizade incluía alguma chance de uma “transadinha” rápida, se queixou depois para uma conhecida, que os homens não eram mais como os de antigamente, que, no máximo, convidavam as mulheres, primeiro para um cineminha e depois, no melhor dos casos, para uma pizza.
Caso ao ler essa crônica, que é mais um desabafo, você tenha percebido que também é portador de algum desses sintomas, por favor aproveite o espaço e fale de alguma coisa importante que se perdeu no seu passado.
Curar essa doença, não cura, mas ajuda a passar o tempo…pelo menos, aquele que ainda nos resta.
Em tempo: Post Scriptum (conhecido também como Roberto Pintaúde) criou na sua Web e/ou um programa só sobre nostalgia, no caso sobre o futebol de antanho, chamado Barba, Cabelo e Bigode.

Do Coronel Kurtz ao Capitão Bolsonaro.

Daqui alguns anos, quando uma maior distância dos fatos nos permitir examinar com mais isenção os acontecimentos políticos de hoje no Brasil, a figura de Jair Bolsonaro poderá ser vista com toda a sua dimensão de um pobre fanfarrão que, mesmo assim, foi capaz de representar um tipo de comportamento de uma grande parte da população.
Em seu livro “Siempre nos quedará Paris”, que o Dr. Franklin Cunha trouxe de Buenos Aires e gentilmente me emprestou, o filósofo argentino Jose Pablo Feinmann analisa o comportamento humano a partir de uma série de importantes filmes americanos.
Quando trata do filme Apocalypse Now, que Francis Ford Coppola fez em 1979, ele examina as razões que levam o enlouquecido coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) a se internar nas selvas do Vietnam, onde reproduz em escala menor, tudo que os soldados americanos – teoricamente ainda não enlouquecidos – praticavam na guerra “oficial” contra os vietnamitas.
Diz Feinmann que não se pode fazer uma guerra racionalmente e que o filme é importante porque nos mostra a guerra como uma forma de loucura , onde seus participantes acabam assumindo por sua própria loucura que trazem latentes dentro de si e que a guerra, apenas faz aflorar.
Quando o coronel Kurtz, se defronta com o capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) enviado pelo exército para encontrá-lo e matá-lo ele diz: “Vocês fazem a guerra igual a mim, em vocês está a barbárie do mesmo jeito que eu a exerço. Sou mais autêntico porque assumo a guerra com toda a atrocidade que a guerra implica.
Mesmo que a violência pregada pelo Bolsonaro, ao contrário do coronel Kurtz, se exerça num plano mais teórico – afinal, o Brasil ainda não vive numa guerra – ele apenas verbaliza um tipo de proposta com a qual comunga, ainda que não queira confessar isso, uma boa parte da população.
O exército americano realizou uma guerra extremamente selvagem no Vietnam bombardeando populações civis e destruindo a infraestrutura do país, mas seus generais sempre falaram que estavam lutando pela democracia.
O coronel Kurtz fazia o mesmo, sem qualquer tipo de desculpas.
Durante os governos militares no Brasil, os generais presidentes usaram da violência contra a população, mas raramente admitiam que a faziam . Ao contrário, diziam que estavam defendendo o país da subversão comunista.
O capitão Bolsonaro pretende usar toda essa violência, mas não esconde essa intenção, a exemplo do coronel enlouquecido do filme do Coppola.
O que nos deve deixar horrorizado é que personagens como Bolsonaro só são possíveis porque as pessoas carregam esse sentimento de violência que ele externa, escondido dentro de si e que raramente admitem sua existência..
Bolsonaro funciona como uma catarse coletiva, permitindo que milhões de pessoas – seus eleitores – possam extravasar esses sentimentos menos nobres e continuarem convivendo na sociedade como pessoas aparentemente civilizadas.
Bolsonaro diz o que elas pensam, inclusive na forma tosca da linguagem que costuma usar, permitindo que elas possam continuar se comportando de uma forma normal em seus relacionamentos.
No filme analisado por Feinmann, o capitão Willard percebe que ao se aproximar do coronel Kurtz se aproxima da loucura que está dentro dele também, porque sabe que “o coração das trevas a que se dirige, é uma viagem ao seu próprio interior, até suas próprias trevas”.
Os eleitores do Bolsonaro se recusam a se aproximar das razões que os levaram a esse voto insano, porque sabem que isso os levará também a assumir a condição de pessoas violentas e irracionais.

A democracia no discurso de Tarso

O ex-governador  e  ex-ministro Tarso Genro é um dos poucos políticos brasileiros com talento e cultura suficientes, para ir bem mais além da maioria dos críticos de esquerda, que se limitam a adjetivar o governo de Bolsonaro.

Principalmente no espaço que ocupa semanalmente no Sul-21,  além da critica contundente às medidas anti-populares da dupla Bolsonaro/Guedes na área sócio econômica, Tarso tem se dedicado a alertar às pessoas para o viés de caráter fascista que emana principalmente das declarações do presidente e de seus ministros.

Ao contrário do fascismo clássico de Hitler e Mussolini, que      comandaram estados – Alemanha e Itália – fortemente nacionalistas  e que exerciam uma autoridade sem limites,o governo Bolsonaro é extremamente submisso ao imperialismo norte-americano  e obrigado a conviver com um parlamento e um judiciário pouco submissos à sua vontade política, além de uma imprensa formalmente independente.

Como antídoto a esse viés de caráter fascista, que Tarso identifica no atual governo, ele tem proposto um projeto nacional de aprofundamento democrático. A julgar pelos seus textos, sua proposta é da formação de uma frente de partidos e organizações que ocupem um espectro político que vai da esquerda socialista a um centro liberal, com o objetivo de defender a continuidade do atual processo democrático e se possível  aprofundá-lo.

Dentro dessa perspectiva, um elemento clássico do Marxismo, a luta de classes como um fator acelerador do avanço em direção a uma sociedade socialista, teoricamente o objetivo final das esquerdas, não faz parte do discurso de Tarso.

Possivelmente, ela possa estar imaginando que levantar essa bandeira agora, dividiria a oposição anti-Bolsonaro, embora a história ensine que sempre que os trabalhadores, teoricamente os representantes mais interessados no socialismo, se uniram a seguimentos da burguesia – os defensores do capitalismo – para derrotar uma força ainda mais reacionária, sempre foram esquecidos depois da vitória final.

É possível que Tarso tenha posto o objetivo de conquista do socialismo como uma meta muito distante e defenda hoje um modelo capitalista parlamentar aos moldes das democracias europeias como a Inglaterra, França, Espanha e Portugal, todas elas possíveis apenas dentro do capitalismo.

Só que esse modelo, que preza o bem estar social, parece estar com seus dias contados diante do novo e voraz capitalismo financeiro globalizado, que não respeita fronteiras nem direitos democráticos.

Com suas economias dependentes, os países da América do Sul têm mostrado nesses últimos anos que as parcas conquistas sociais dos governos reformistas dos primeiros anos do século, estão sendo derrubadas uma a uma, ora por processos eleitorais fraudados pelo poder econômico, ora por golpes parlamentares e até mesmo pela velha violência dos golpes militares.

Foi assim no Paraguai, com Lugo; no Brasil, com Dilma, no Equador, com Correa; na Bolívia com Evo Morales e no Uruguai, com Tabaré Vasquez. A eleição de Fernandez na Argentina pouco muda esse quadro e só foi possível porque Macri, como FHC, no Brasil, praticamente quebrou o país.

Logo, logo, ele será enquadrado pelas forças anti-populares que também são fortes no seu país. O seu discurso de posse foi um bom sinal de que ele entendeu o recado. Defendeu com ênfase o feminismo, uma bandeira de luta plenamente aceitável dentro do capitalismo globalizado e não falou nada sobre o enfrentamento ao imperialismo, além de ter dispensado a presença de Lula e Morales na sua posse, os dois mais importantes políticos defensores de uma política de compensações sociais.

Na última eleição presidencial brasileira, o candidato do PT, Fernando Haddad ao propor o que poderia ser a sua política sócio econômica, num dos seus poucos momentos de franqueza, disse que os benefícios dados aos trabalhadores nos governos de Lula e Dilma só foram possíveis porque a conjuntura econômica internacional permitiu isso, sem que fosse necessário tirar dos mais ricos, mas que agora isso não seria mais possível e que os ricos teriam que dar sua contribuição.

Talvez até por isso, não foi eleito.

Aliás, o próprio Lula, sentindo-se traído pela grande burguesia, disse mais de uma vez que nunca empresários e banqueiros ganharam tanto como nos seus governos.

Voltando ao discurso de Tarso.

Uma grande união para resistir ao governo Bolsonaro é possível e necessária, ampliar as conquistas democráticas é fundamental, mas tudo sem perder de vista que a conquista do socialismo  deve ser o objetivo final.

Há mais de 100 anos Rosa Luxemburgo disse que a opção ao socialismo, era a barbárie, ao que István Mészáros  acrescentou no seu livro Socialismo no Século XXI, que a barbárie podia ser a melhor das hipótese,  porque o que o capitalismo está gerando é a perda das condições de vida humana no planeta.

Nessa hora será preciso desmistificar mais uma vez o conteúdo de classe com que o status quo enxerga a democracia e dar a ela um sentido realmente progressista e revolucionário.

Um pequeno livro lançado há pouco pela editora Boitempo, recupera alguns discursos de Lenin sobre o tema,  principalmente nos debates que travou com Kautsky sobre a questão da democracia. Disse o pensador e revolucionário russo: “ A democracia representativa se tornou a forma padrão de dominação burguesa, funcionando para os trabalhadores como uma forma de ditadura de fato”.

“A menos que se queira zombar do bom senso e da história, não se pode falar em democracia pura enquanto existirem classes diferentes. Só se pode falar em democracia de classes”

Em outra passagem dos seus discursos, Lenin é mais explicito no que deve ser a posição dos trabalhadores sobre o tema: “Nós dissemos à burguesia: vocês, exploradores e hipócritas, falam de democracia, ao mesmo tempo que levantam a cada passo milhares de obstáculos à participação das massas  oprimidas na vida política. Nós pegamos vocês pela palavra e exigimos, no interesse dessas massas, a ampliação da sua democracia burguesa, a fim de preparar as massas para a revolução, para a derruba de vocês, exploradores”.

Lenin disse isso em 1917, no início do seu governo socialista, na Rússia. Será que seu discurso envelheceu e não faz mais sentido hoje?

Slavoj Zizek, o grande filósofo e pensador esloveno, pensa que não: “Esta é a grande lição de Lenin para os dias de hoje: paradoxalmente, é só problematizando a democracia – deixando claro que a democracia liberal a priori não pode sobreviver sem a propriedade privada capitalista –  que poderemos nos tornar verdadeiramente anticapitalistas”