Bolsonaro e seus ex-amigos

Cá entre nós, o Bolsonaro tem razão em se sentir traído pelos governadores e parlamentares que ajudou a eleger em 2018 e que agora, quando o seu barco tá afundando, vão pulando fora. O Witzel,, no Rio era tão radical quanto o Bolsonaro. O Dória vestiu uma camisa com seu nome na campanha eleitoral.; o Moisés, de Santa Catarina e o Caiado, de Goiás, eram bolsonaristas desde criançinhas. Aqui no Rio Grande do Sul, o Leite e o Sartori faziam juras de amor ao Capitão. O Bolsonaro, a rigor só deve favores ao Moro, que tirou o Lula da corrida presidencial e ao General Vilas Bôas, que enquadrou o Supremo impedindo que libertasse o Lula. Ao Moro ele pagou com um ministério e a promessa de indicação para o STF. O general ganhou uma sinecura no Palácio. O Bolsonaro era o único capaz de derrotar o candidato do PT, o professor Haddad, um sujeito decente, inteligente, mas sem nenhum carisma. Os projetos neoliberais bancados pelo PSDB, derrotados em quatro eleições seguidas, nunca teriam os votos necessários para eleger um Presidente, como foi com o FHC na época do Plano Real. Então a estratégia, depois que o primeiro turno da eleição presidencial detonou com os candidatos do sistema, principalmente o Alckmin, foi apostar num desvairado, que carregava na bagagem milhões de votos do lumpesinato nacional e da massa alienada de evangélicos. O neo liberalismo, que ganhou muito, mas não tudo que pedia, nos governos do PT, um Ministro da Fazenda pertencente a sua facção mais radical – o Paulo Guedes – iria garantir agora. Não deu pra fazer tudo ainda, mas boa parte já foi conseguida com as tais reformas trabalhista e previdenciária, mais o sucateamento da indústria nacional, principalmente a naval e a aeronáutica, além da a promessa de liquidação das estatais estratégicas como a Petrobrás e a Eletrobrás. Coroando esse modelo de governo, uma politica externa serviçal aos interesses americanos. Agora, depois que esse trabalho sujo já foi feito em parte, esse pessoal sempre de terno e gravata, quer expulsar o Bolsonaro porque ele não sabe se comportar na mesa. O problema dessa “elite” é que o trabalho ainda não foi completado, o presidente perde prestígio junto aos seus eleitores e a oposição, ainda que timidamente está pondo as manguinhas de fora. Imagine se o Bolsonaro continua cada vez mais desligado da realidade e o PT ganha as eleições de 2022. Aí terão que pedir aos milicos que voltem, por favor.

Uma vez, fomos radicais

No seu poema Nosso Tempo, Carlos Drummond de Andrade começa dizendo que “esse é tempo de partido, tempo de homens partidos” e termina lembrando: “tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo perderam o sentido, apenas querem explodir”.
O poeta certamente ficaria escandalizado vendo e ouvindo o que dizem os homens de hoje nos jornais, na televisão, no parlamento, quase todos incapazes de se posicionar radicalmente sobre questões que tem apenas dois lados. Deveria ser “sim” ou “não” e você ouve “quem sabe”, “vamos ver”, “talvez”. Em nome da prudência, as pessoas não se posicionam, não assumem um lado.
Talvez apenas no futebol, ainda sobre um resquício dessa paixão por uma cor, por uma bandeira, embora em vez de Inter e grêmio você já ouça um Barcelona, um Manchester United ou Bayer de Munique.
Que eu lembre, não éramos assim na infância. Tínhamos posições definitivas, o que não impedia que pudéssemos mudá-las diante de argumentos racionais.
Era importante fazer uma escolha e nessa escolha nos afirmávamos como homens em formação: você não podia ser colorado ou gremista ao mesmo tempo; seu herói ou era Capitão Marvel ou o Super Homem. A Folha Esportiva nos ajudava nessas escolhas: sem nunca ter entrado no Prado, eu torcia para o Ganganeli Cunha contra o Armando Reina nas estatísticas do melhor jóquei e era fã do Bochófilo Navegantes no campeonato de bocha.
Algumas escolhas, percebemos depois que estavam equivocadas, como a do mocinho do faroeste contra os índios ou a dos americanos contra os mexicanos e então mudamos de lado.
A opção, às vezes, refletia a influência do nosso pai: eu era PTB, contra o PSD e a UDN.
Unanimidade surgia apenas no nosso relacionamento com as gurias. De insuportáveis e chatas, que não jogavam futebol, nem bolinha de gude, a partir de certo momento, elas se transformaram em objetivos de vida.
Salvo alguns comportamentos divergentes daqueles meninos que nossas mães diziam que eram apenas bem comportados e que nós, maldosamente, chamávamos de “frescos”, quase ao mesmo tempo, todos nós passamos a sonhar com a possibilidade de chegar ao tesouro que, sabíamos que elas escondiam em seus santuários inexpugnáveis.
Fomos ensinados em casa, na escola e na igreja, que para entrar naqueles santuários, cujos nomes só poderiam ser pronunciados “a bocca chiusa”, tínhamos que cumprir um longo ritual pela frente. Eu e quase todos meus amigos cumprimos esse trajeto, até podermos abrir a caixa de Pandora, muitas caixas, algumas surpreendentemente vazias.
Em determinado momento da vida e diante de outras situações, muitos de nós foram mudando, por entender que estariam mais próximos de algum tipo de sucesso se não fossem tão radicais em suas opiniões e gostos.
Lembrando mais uma vez nosso poeta maior, nem todos aceitaram a sua sina: “Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: vai Carlos ser gauche na vida”.
Poucos quiseram ser “gauches” e a maioria se transformou nessas pessoas que hoje nos aconselham à moderação, a respeitar o politicamente correto, a esperar para ver para onde vai a corrente, antes de embarcar em alguma idéia.
Pelo que vejo e ouço, eles são a maioria e estão em toda a parte, principalmente na universidade, nos meios de comunicação e da política.
Proponho um teste para identificá-los, perguntando qual figura histórica eles mais admiram: Galileu Galileu ou Giordano Bruno.
Os dois enfrentaram a ira do Santo Ofício da Igreja Católica em 1600. Galileu, fundamentalmente por ensinar que a Terra se movia em torno do Sol e Giordano Bruno por duvidar de alguns dogmas da Igreja. Galileu não só renegou sua ciência como afirmou na sua confissão:
“E eu juro que no futuro não direi nem asseverarei oralmente ou por escrito essas coisas nem aquelas que me forem similarmente suspeitas; e se eu ficar sabendo de algum herético, ou de um suspeito de heresia, eu irei denunciá-lo para este Santo Ofício, ou para o Inquisidor ou para o Ordinário do lugar onde eu estiver.”
Segundo a lenda, depois de escrever sua confissão, e ser poupado da fogueira, Galileu teria murmurado “e pur si muove” (porém, ela se move).
Já Giordano Bruno se recusou a mudar o que havia escrito e ensinado e antes de ir para a fogueira, afirmou aos seus juízes: “vocês devem estar sentindo mais medo ao pronunciar esta sentença, do que eu a ouvi-la”
Sou mais Giordano Bruno que Galileu. E espero continuar assim.

O perigo mora nos sites de relacionamento

Mulher, 30 anos, viúva, profissional liberal, procura senhor com 30 anos ou mais, no máximo, branco, com formação superior, para relacionamento sério.
A foto na rede social mostrava uma mulher bonita, loura, de olhos azuis. Minhas credenciais só não batiam na questão da idade exigida. Mas, como as amigas sempre me davam uns 10 anos menos na avaliação física que faziam a meu respeito – eram pessoas muito gentis comigo – resolvi arriscar, já que atendia as outras exigências. Era branco, formado em Filosofia e estava mesmo a fim de um novo relacionamento sério, depois que meu quinto casamento terminara, como terminaram os quatro primeiros, quando fora expulso de casa.
Marcamos um encontro no Mahomé, ali na Bonfim. Quando cheguei, levei um susto: quem me esperava era uma mulher com traços que me lembravam a foto da rede social, mas era seguramente uns 20 anos mais velha.
Antes que reclamasse de propaganda enganada, a mulher se apresentou:
– Sou Odete, mãe da Valdete.
Fui informado então que a Valdete era muito tímida, que seu casamento anterior com o Edgar, um velho diretor classe B de comerciais de varejo, fora muito ruim, e que depois da morte dele, afogado no Campeche, ela se recusava a ter um novo relacionamento. O anúncio na rede social fora posto pela Odete, que se dispusera a analisar pessoalmente todos os candidatos.
Simpatizei com a Odete e ela comigo. Logo ficou acertado que ela conversaria com a Valdete, que era dentista com consultório no Sarandi, e montaria um esquema para nos aproximar.
Dois meses, iniciamos, eu e a Valdete, um relacionamento sério. Ela veio morar no meu apartamento na Zona Sul e trouxe junto a mãe, Odete, um cachorro pequinês, o Joubert.
Eu tinha um gato malhado e castrado, chamado Hermenegildo.
Enquanto meu relacionamento entre eu, a Odete e a Valdete ia às mil maravilhas, o do Joubert, que a Odete se recusava a castrar, com o Hermenegildo, quase virara uma guerra aberta, nos obrigando a estabelecer zonas de exclusão no apartamento para o cão e o gato.
Valdete saia cedo para o seu consultório no Sarandi, a Odete passava o dia vendo os programas da Globo na televisão, enquanto eu ficava escrevendo para sites que ninguém lia ou conversando no Facebook com o Pintaúde e o Sérgio Gonzales sobre um pocket show que pretendíamos montar com o Roberto Callage e o Beto Soares, contando a história da MPM.
Um dia, faltou energia elétrica na Zona Sul e como não dava para ver televisão, nem escrever no computador, acabou acontecendo o que qualquer um pode imaginar que aconteceria entre a Odete e eu.
A Valdete não se incomodou muito com o ocorrido, a Odete publicou um novo anúncio nas redes sociais e ela logo encontrou outro senhor para um novo relacionamento sério.
Era um sujeito chamado Sepé de los Angeles, muito simpático, apelidado de Foguinho, que tinha uma pet shop na Cavalhada. Os dois foram morar num condomínio na Otto Niemayer e a Valdete, felizmente levou junto a Joubert.
Como a Odete não saia da frente da televisão e eu do computador, ela sugeriu que trouxéssemos sua irmã gêmea, a Marlete, que se separara do marido, em Esteio, o Albano, para morar conosco e ajudar na cozinha e na limpeza do apartamento
Estamos juntos, os três, há quase um ano e por enquanto vai tudo bem, principalmente depois que sugeri que fizéssemos um “ménage à trois”.
Inicialmente as duas ficaram um pouco incomodadas com o uso desse galicismo, mas quando traduzi para os nossos hábitos, ficou tudo bem.
A Odete e a Marlete gritaram quase ao mesmo tempo.
– Ah… é a nossa tradicional suruba.
Por enquanto vai tudo bem. Passo o dia no computador, a Odete na televisão e a Marlete na cozinha. À noite, dividimos a mesma cama, a única que temos. O Hermenegildo recuperou o domínio de todo o apartamento.
Só quem não vai bem é a Valdete, que anda ameaçando abandonar o Albano.
Falei para a Odete e a Marlete que onde comem três, comem quatro, mas por enquanto elas ainda não aprovaram o tal “ménage a quatre”.
(Do livro Meu Tipo Inesquecível)

Meu amigo, Pinta

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No mundo fantasioso da publicidade, não são poucos os que se intitulam criativos, alguns até nem se envergonham se proclamarem gênios.

Eu vivi uns 30 anos nesse meio, onde sempre me considerei um competente trabalhador intelectual, fazendo algo que muitos outros poderiam fazer e até melhor.

Os que se auto proclamam criativos, na maior parte das vezes eram re-leitores de criações alheias, adaptadores de obras feitas e muitas vezes meros plagiadores.

Convivi com algumas exceções.

Talvez arriscando cometer algumas injustiças, lembro do Beto Soares, do Flávio Teixeira e da Graça Craidy. Mas nenhum foi maior do que o Pinta – o Roberto Pintaúde – nessa área.

Ele está para a publicidade gaúcha, como o Luís Fernando Veríssimo está para a crônica. Nem sei se suas peças foram eficientes em ajudar seus clientes, o que afinal é o objetivo da propaganda. Mas o que criou para a loja Homem e para diversos motéis são peças que ultrapassam a mera publicidade.

Acho que nem eram coisas racionais dentro dos critérios de comunicação.

O Pinta, como diziam no passado, deve ter um parafuso a menos ou a mais e isso é que faz a diferença.

Ele não pensa e não cria como os outros. A sua lógica, ou falta de lógica, é diferente. Ele é um ser anárquico que não segue os padrões habituais. Talvez até por isso não tenha se transformado num empresário de sucesso na área de propaganda, como tantos outros

Nos conhecemos na Famecos, onde ele foi meu aluno, depois o acompanhei como concorrente em outras agências e nos reencontramos há pouco quando ele lançou uma nova ideia maluca, uma “rádia”, isso é uma rádio web feminina.

Por que estou escrevendo isso agora? Porque nós dois estamos num grupo de risco (velhos) e ele ainda está com problemas de coração no Cardiologia. Espero que ainda estejamos vivos nos próximos anos, mas não custa deixar logo registrada a admiração, e um pouco de inveja, que tenho pelo seu talento.

O Partido do Exército

O grande partido político brasileiro se chama Partido do Exército.
Sua hegemonia começou com o advento da República em 1889 e veio se consolidando com o passar dos anos.
Inicialmente era um partido segmentado em várias correntes de pensamento e com objetivos diferentes. Essa fragmentação se tornou explícita na década de 20, quando os segmentos mais baixos da oficialidade se tornaram, em grande parte revolucionários.
O fato mais revelador dessa tendência foi a Coluna Prestes.
Com o governo Vargas, começou a consolidação do Exército como o partido da Ordem, embora ainda houvesse focos de subversão dele, como foi o caso do movimento de 1935 feito sob a liderança da Aliança Nacional Libertadora e com a presença forte de militares.
Com o início da Guerra Fria e a polarização do mundo entre dois caminhos opostos – o socialismo e o capitalismo – o Exército Brasileiro foi cada vez mais sendo usado como uma poderosa força destinada a manter o status quo, não importando mais quanto isso significasse de injustiças sociais.
Sob influência direta dos Estados Unidos, que começaram a treinar os oficiais brasileiros, o Exército se tornou um partido de centro de direita, destinado a preservar a ordem social na medida em que representava apenas o interesse do imperialismo.
A última vez em que o Exército se dividiu foi em 1961 com o movimento da Legalidade.
Três anos depois, ele decidiu que não mais seria representado no poder por políticos civis e assumiu o governo por longos 21 anos e só deixou o comando do país para os civis, quando um grande pacto o transformou num moderno Poder Moderador, pronto para intervir em casos que achasse necessário.
Isso ocorreu recentemente, quando o seu comandante, o general Villas Boas interveio diretamente no pleito eleitoral que se aproximava, garantindo o afastamento do candidato indesejado – Lula – e assegurando a possibilidade de vitória do candidato preferido – Bolsonaro.
Nos dias atuais, mais do que nunca, é o Partido do Exército a grande força de sustentação de um dos governos mais incapaz e corrupto da vida política brasileira.
Nesses mais de 100 anos de República, outros partidos foram se formando e em algum momento,tiveram grande importância política o Brasil.
Vamos falar de alguns deles.
O Partido Religioso sempre foi um dos mais ativos.
Representado pela Igreja Católica, inicialmente, ele agiu durante muito tempo como linha auxiliar dos governos conservadores , como na ditadura de Vargas, mas depois assumiu um papel ativo na preparação do golpe de 64, quando mobilizou multidões contra o governo Jango.
Durante a ditadura a Igreja Católica perdeu a sua unidade interna, com o surgimento de forças de esquerda no seu seio e hoje tem pouca importância na definição dos rumos do Pais.
Quem comanda o Partido Religioso no Brasil são as igrejas evangélicas. Cabe a elas um papel muito claro: mobilizar seus crentes em defesa de políticos populistas de direita e assumir o papel que foi da Igreja Católica de funcionar como o verdadeiro ópio do povo.
Outro grande partido que só tem crescido na vida política brasileira é o Partido da Mídia. Com o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação, primeiro o rádio, depois da televisão e agora as chamadas mídias sociais, o Partido da Mídia se tornou um agente político de grande expressão. Até há poucos atrás mobilizado na defesa dos interesses da alta burguesia e do imperialismo, sua fragmentação atual e a concorrência entre seus representantes, tem feito diminuir sua capacidade de atuar numa só direção.
Finalmente, o outro grande partido, que deveria historicamente liderar a maior parcela da população é o Partido Operário, que foi com o passar dos anos perdendo sua força política.
Seu período de maior expressão foram anos que se iniciaram com o governo democrático de Vargas em 1950 e se prolongaram até o golpe de 64.
Principalmente durante o governo de João Goulart, por inspiração dos comunistas, o Partido Operário ganhou enorme força nas decisões políticas do período. Suas lideranças, com os primeiros embriões das centrais sindicais (o CGT foi criado em 1962) eram ativas participantes das decisões políticas.
Com o golpe de 64 e a ditadura militar, o Partido Operário foi dizimado e sua vocação revolucionária, ao menos na teoria, liquidada. O que surgiu durante a ditadura e ganhou força depois da democratização, foi um Partido Operário dirigido por sindicatos que ajudaram a consolidar o sistema capitalista.
Sob a liderança do PT, o Partido Operário ganhou extraordinária força eleitoral, mas sempre operou dentro das regras do sistema, se limitando a pleitos de cunho salarial.
A margem da lei e fora de um caráter público, crescem outros partidos que vão ganhando força na vida brasileira e começam a influir na sua vida política. Dois deles podem ser lembrados, o Partido das Milícias, usado como força auxiliar pelo governo Bolsonaro e pelos governos estaduais afins, principalmente no caso do Rio de Janeiro e o Partido Bandido, que começou centrado no Jogo do Bicho (no Rio era o grande promotor do carnaval) e que migrou para o tráfico de drogas.
Caso alguém lembre o Partido Parlamentar, o Partido dos Negociantes ou o Partido da Justiça, é bom que se diga que seus líderes representam, em suas origens, os partidos do Exército, da Mídia e da Religião e politicamente agem na defesa dos seus interesses específicos.

Bolcheviques x Mencheviques

 

Tarso Genro é seguramente, de todos os políticos brasileiros, um dos poucos que enxerga a política além das disputas eleitorais.

Hoje, no Sul 21, ele se dispõe a responder aquela famosa pergunta de Lenin sobre a revolução soviética, “o que fazer ?”.

Diz ele, no fechamento do seu texto: “Construir uma doutrina nova do partido emancipacionista, adequada aos tempos presentes, exige revisar os termos do dissenso – dado em plena segunda revolução industrial- entre bolcheviques e mencheviques. Por dois motivos fundamentais: primeiro, esta segunda revolução já expeliu do seu ventre uma terceira; e segundo, os dois modelos que dali emergiram podem ter deixados saudades, mas o mundo social que os contempla é inteiramente outro. E os vê como melancolia do tempo presente”.

Para quem não estudou a Revolução de 17, os dois grandes partidos socialistas da época eram os bolcheviques e os mencheviques. A grosso modo, os bolcheviques queriam fazer a revolução, aproveitando a guerra, a fome no campo e a fraqueza da burguesia russa e depois tratar de construir o socialismo; os mencheviques queriam uma república parlamentarista para esgotar o modelo capitalista e depois fazer a revolução, numa leitura inadequada de Marx para as condições russas. (Trotsky era menchevique no início e depois se passou para o lado dos bolcheviques).

A conclusão de Tarso é imobilizadora, na medida que afirma que os tempos são outros. Obviamente que são na aparência, mas a oposição fundamental continua sendo a mesma, a luta de classes, ainda que obscurecida entre o capital e o trabalho.

Ele mesmo, em outros artigos, tem mostrado quanto é falaciosa a existência de uma classe intermediária entre os dois extremos, gerada pelo mundo tecnológico.

O neologismo “uberização”, que ele mesmo já denunciou, mostra que o conflito é o mesmo, ainda que com uma roupagem nova e o que precisa ser mudado,não são os objetivos da luta, mas suas estratégias.

A falta que os comunistas fazem

Um país civilizado pode administrar sua economia entregando o seu controle à iniciativa privada (sistema capitalista) ou pode socializá-la deixando que a sociedade comande os meios de produção (sistema socialista). Entre um e outro extremo, temos algumas variantes, dependendo de uma maior ou menor participação do Estado na economia e o controle que sobre ele exercem as classes sociais em que se divide o país.

Para efeito da discussão a que se propõe este texto, vamos deixar de lado as tais variantes e nos concentramos nas duas extremidades. Vamos considerar também, que a possibilidade de opção entre capitalismo e socialismo só é viável numa sociedade razoavelmente desenvolvida, onde os meios de produção já tenham alcançado umcrescimento que permita vislumbrar a existência de classes sociais com interesses antagônicos.

O Brasil, uma das maiores economias do mundo, embora ainda atrelada aos interesses do imperialismo norte-americano, tem, mesmo que teoricamente, condições materiais de oferecer a sua população a possibilidade de optar entre os dois sistemas: o capitalista e o socialista.

Por que isso não acontece? E mais, por que simplesmente quem se dispuser propor publicamente esta questão, dificilmente seria levado a sério?

As experiências socialistas no mundo inteiro não deram certo, dizem os defensores da realidade capitalista em que vivemos, certamente porque não acreditam na famosa frase de Rosa Luxemburgo, “Socialismo ou Barbárie”,  que Istvan Meszáros usou como título de seu livro, acrescentando uma data, “No século XXI”

É possível que historicamente tenham razão, na medida que considerarem a experiência na União Soviética um fracasso, embora o retorno dos países que formavam esta confederação ao sistema capitalista tenha outras causas que não caberia examinar aqui.

Por que então a possibilidade de um Brasil socialista não é mais colocada, nem ao menos para uma discussão teórica, a não ser por parte de pequenos grupos inexpressivos politicamente?

Embora ainda hoje persistam partidos políticos que ostentam em seus nomes uma referência ao socialismo (PSB e PSOL), ou ao trabalhismo (PT e PDT) e outros ainda carreguem a velha sigla dos comunistas (PCdoB), todos eles não passam de agremiações que pretendem apenas uma reforma na sociedade capitalista em que vivemos, melhorando no possível e quando possível, a vida dos trabalhadores.

Com todos os seus grandes equívocos políticos, os comunistas, principalmente depois da segunda guerra, empurravam os governos brasileiros para a esquerda e ofereciam, quando a legislação eleitoral assim o permitia, a opção por propostas de caráter socialista.

Nas eleições de 1945, o desconhecido Yedo Fiuza, apoiado pelos comunistas, quando Dutra foi eleito presidente, recebeu cerca de 10% dos votos. Na mesma ocasião Luís Carlos Prestes foi eleito senador e mais 17 membros do PCB foram eleitos para a Câmara Federal, provando a força dos comunistas, que surgiam como um partido capaz de disputar a hegemonia política no Brasil com o PSD, PTB e UDN.

Um ano depois todos os seus representantes seriam cassados e o partido colocado na ilegalidade. Mesmo assim, o PCB, ainda que na clandestinidade, continuou interferindo na vida pública do País, pressionando os governos a adotar posições mais à esquerda do que suas composições políticas pareciam indicar.

Foi assim no segundo governo Vargas, com Juscelino e principalmente com Jango, quando Prestes acreditava que seu partido, de alguma maneira, ainda que reservadamente, já fazia parte do governo.

O golpe militar de 1964 praticamente liquidou com o partido e quando a democracia formal foi retomada, 20 anos depois, a influência dos comunistas praticamente desapareceu.

Seu lugar foi ocupado pelo PDT de Brizola e o PT de Lula, partidos que, apesar de compromissados com a melhoria de vida dos mais pobres, sempre tiveram um horizonte político limitado pelas ideias reformistas e não revolucionárias dos seus líderes.

Depois do quarto governo do PT, quando o partido, acuado pela reação da extrema direita, adotou políticas cada vez mais contrárias aos interesses dos trabalhadores e finalmente com a chegada ao poder de um grupo que flerta publicamente com o fascismo, seria importante a existência de um partido que de forma radical, ainda que utopicamente, erguesse a bandeira do socialismo.

É essa, a falta que fazem os comunistas.

 

Os últimos passos de um homem.

 

Certamente Jair Bolsonaro jamais verá esse filme, nem os milhares de brasileiros, que como ele, defendem a pena de morte.
Mas deviam.
Em 1995, Tim Robbins, Susan Sarandon e Sean Penn, estiveram juntos no filme Os Últimos Passos de Um Homem (Dead Man Walking).
Tim Robbins, um excelente ator, como provou em “Sobre Meninos e Lobos” (Mystic River), de Clint Eastwood e em “Shorts Cuts – Cenas da Vida”, de Robert Altmann, foi o diretor do filme e com ele ganhou o Oscar da Academia como o melhor diretor do ano.
Sean Penn, também de Sobre Meninos e Lobos e Milk, ganhou o prêmio de melhor ator
Susan Sarandon, a inesquecível atriz de Thelma e Louise, recebeu o Globo de Ouro como melhor atriz.
Em comum, os três tinham, além do enorme talento, também o ativismo em defesa das boas causas políticas nos Estados Unidos.
A luta contra a pena de morte é uma dessas boas causas.
Os Estados Unidos são único país do Ocidente onde a pena de morte ainda figura na legislação de 30 dos seus 50 Estados.
Entre 1975 e 2015, foram executados 1.447 presos, dos quais 541 no Texas.
Além da barbárie da punição, existe sempre o risco de estarem sendo condenadas pessoas inocentes. Nos últimos 40 anos, 151 pessoas condenadas à pena capital, foram inocentadas posteriormente.
Hoje a maioria das execuções nos Estados Unidos é através de uma injeção letal. A última execução por qualquer outro método que não a injeção letal, ocorreu em 2013, na Virgínia, onde o prisioneiro Robert Gleason foi executado na cadeira elétrica.
No passado, o método mais utilizado era a cadeira elétrica, mas também já foram utilizados câmara de gás, enforcamento e fuzilamento.
Pesquisa do Pew Research Center, há dois anos, revelou que 56% dos americanos ainda são favoráveis à pena de morte. Há 20 anos, esse percentual era de 78%.
Além de todos os motivos humanitários contra a pena capital, os legisladores americanos se inclinam em alguns estados pela sua erradicação pelos seus altos custos.
Um estudo no estado do Kansas, revelou que o custo de uma sentença capital era até 70% mais alto que uma condenação ao cárcere.
O principal argumento pelo fim da pena de morte, no entanto, é o fato de que ela simplesmente não funciona – não, pelo menos, na redução da criminalidade. Exemplo: nos estados americanos que adotam a pena, o índice de assassinatos por 100 mil habitantes é maior que o registrado nos outros estados que não adotam

É preciso salvar a História, dos historiadores.

É preciso salvar urgentemente a História dos historiadores, assim como a política, dos políticos; a medicina, dos médicos, a economia, dos economistas, a justiça, dos juristas e assim por diante

Quem já fez um curso universitário de História, sabe que os mesmos fatos e seus personagens (da História do Brasil por exemplo), começam a ser contados nos primeiros anos do colégio e só terminam na universidade, como se fosse uma novela de televisão que se desdobra em vários capítulos

A cada ano que se avança, novos dados são acrescentados a biografia dos heróis e os fatos ganham um desenho mais completo.

Começa assim: Dom Pedro proclamou a independência do Brasil a 7 de setembro de 1822 às margens do arroio Ipiranga, em São Paulo e termina com uma análise do comportamento pessoal do Imperador, a influência de José Bonifácio e as intrigas das cortes no Rio e em Lisboa.

Com certo exagero, algumas vezes, se chega ao detalhamento das condições do ambiente que cercava o imperador naquele momento crucial de sua vida, quem eram os acompanhantes, como estavam vestidos e a que hora realmente Dom Pedro bradou: ”Laços fora, soldados! Independência ou Morte, seja a nossa divisa”

Muitas vezes se faz apenas a tradução em palavras do que Pedro Américo já mostrou em seu quadro famoso. O máximo que se diz, fora da descrição linear do fato histórico, é um exercício barato de psicologia sobre os sentimentos de prepotência de quem preferia ser rei no Brasil do que príncipe em Portugal, com pitadas de conhecimentos sobre a conjunção de interesses existentes na época entre o imperialismo inglês e os defensores da independência na colônia.

Outro exemplo (verídico) dessa superficialidade: numa aula de História da América, o professor – falando sobre a chegada de Colombo na nova terra – faz uma pergunta que ele imagina importante para o conhecimento do aluno: o que Rodrigo de Triana, na madrugada de 12 de outubro de 1492, viu do alto da gávea da caravela Pinta?

Para esta pergunta, só havia uma resposta certa: uma luz bruxuleante no horizonte.

Esquecendo o ensinamento de Plekhanov (1856/1918) de que “a história decorre de leis objetivas, mas os homens fazem história, na medida em que atuam, avançando ou retrocedendo em função dessas leis”, o foco principal se localiza, quase sempre no relato dos feitos dos grandes homens que lideraram guerras ou revoluções.

Nada contra essa postura. Ela, porém, é incompleta, mas, certamente, é ainda melhor do que a atual moda de minimização dos grandes feitos históricos, substituídos pelos acontecimentos do cotidiano, como é comum dos novos filósofos e comunicadores franceses.

O correto seria inserir cada um dos grandes personagens da História na vida real de suas épocas, seus condicionamentos sociais, políticos e econômicos e analisar as razões e contra- razões de suas atitudes, avaliar suas consequências e inferir até que ponto elas tiveram maior ou menor relevância para o avanço ou retrocesso do processo histórico.

Tomemos, apenas como motivação para um debate o que está sendo dito por historiadores sobre e os personagens da “Santíssima Trindade Soviética”: Lenin, Stalin e Trotsky.

O último, até porque muito cedo foi afastado do poder na União Soviética e pode assim se transformar numa fonte viva de informações sobre a revolução de 1917, ganhou uma biografia exemplar de Isaac Deutscher com a sua trilogia: “O Profeta Armado, Desarmado e Banido”.

Lenin e Stalin, entretanto, enquanto perdurou a URSS, mereceram apenas biografias laudatórias, despidas de qualquer espírito crítico. Com o fim da União Soviética e a abertura dos arquivos mantidos em segredo até então, imaginava-se que com todo esse material, os historiadores poderiam, enfim, traçar uma história dos 60 anos de vida da experiência soviética e o que fizeram ou deixaram de fazer seus líderes.

Duas das obras mais badaladas sobre estes líderes soviéticos são; “Stalin – a Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore e “Lenin – a biografia definitiva”, de Robert Service.

O primeiro – vencedor do prêmio de melhor livro de história do British Book Awards de 2004 – se perde nas minúcias da vida privada de Stalin e transforma sua atuação nos grandes expurgos de 1937, na Segunda Guerra e no fortalecimento do seu poder pessoal, num enredo digno da Revista Caras.

Stalin manda matar seus antigos companheiros de revolução, mas, ao mesmo tempo é um pai de família carinhoso. Isso pode ajudar a conhecer a dubiedade de um ser humano, mas é pouco importante para entender o grande (para o bem e para o mal) personagem histórico.

O livro sobre Lenin, do também professor inglês, Robert Service, apesar do otimismo do subtítulo – a biografia definitiva – é ainda mais detalhista em determinados períodos da vida do grande líder revolucionário russo – como no caso da execução do seu irmão mais velho, acusado de ações terroristas contra o czar – mas perde de vista os grandes feitos de Lenin como condutor da Revolução de Outubro, suas motivações e consequências. Além de tudo, o autor faz questão de manifestar suas posições anticomunistas, típicas do período da guerra fria, que não condizem com a sua pretensa objetividade.

Para quem estiver interessado nesses três personagens, aqui vão algumas sugestões: sobre Trotsky, além de Deutscher   é preferível que leia até uma obra de ficção como “O Homem que Amava os Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, muito mais interessante do que os livros de alguns historiadores oficiais.

Sobre Lenin e Stalin, ninguém é melhor do que Slavoj Zizek, ainda que, sua obra, “Às Portas da Revolução” – cubra apenas um período da vida de Lenin– os preparativos e o desfecho da revolução e “Em defesa das causas perdidas”, Stalin é mais um dos inúmeros personagens que povoam o livro,

Algumas frases soltas sobre Lenin, Stalin e Trotsky, extraídas de livros e entrevistas de Zizek, mostram, mesmo em poucas linhas, a originalidade do filósofo esloveno:

“Precisamos retornar a Lenin de um modo crítico. Pensar e analisar os seus erros, para não repeti-los. Lênin foi um filósofo – primitivo e vulgar, mas um filósofo –. Por esta via, retornamos a Marx, porém criticamente, com o intuito de repeti-lo de maneira diferente”.

“Stalin e Hitler não foram iguais. A prova é a existência de dissidentes. Stalin teve a todo tempo de lutar contra quem o questionava. Muita gente dizia que ele tinha traído o comunismo autêntico. Trotsky é um exemplo. Não havia ninguém assim no nazismo, nenhum grupo questionando Hitler, dizendo que ele era traidor do nazismo autêntico.“

“Na União Soviética, algo que originalmente era para dar na libertação do povo – a Revolução de Outubro– terminou em um pesadelo. Mas o objetivo inicial era outro. O nazismo era diferente. Os nazistas conseguiram exatamente o que eles queriam.”

“A figura de Trotsky continua sendo crucial, na medida em que ela representa o elemento que perturba a alternativa entre o socialismo (social) democrático ou o totalitarismo estalinista. O que encontramos em Trotsky, em seus textos e em sua prática revolucionária nos primeiros anos da União Soviética, é o terror revolucionário, o domínio do partido e assim por diante, mas de modo diferente do estalinismo. Foram as atitudes do Trotsky que impossibilitaram que sua orientação vencesse a luta pelo poder estatal”.

‘Zizek não é especificamente um historiador, mas um intelectual, um filósofo com muitas preocupações e interesses, inclusive sobre a história.

Para completar: o melhor livro sobre a história do Oriente Médio não é de um historiador tradicional, mas de um jornalista atuante: Robert Fisk com sua monumental obra “A Grande Guerra pela Civilização”

 

 

A árvore e a floresta

Talvez o mais difícil para as pessoas que analisam os eventos políticos seja se desprender do singular e compreender o todo. É aquela velha história de enxergar a árvore e não perceber a floresta Na época em que dirigia a FM Cultura, eu fazia um programa de debates sobre cultura e política.Naquela ocasião,a jornalista Eliane Brum, havia lançado um livro sobre a Coluna Prestes, que fazia sucesso, na medida em que ela dava voz aos críticos da coluna a partir de indivíduos que viram a Coluna passar por seus vilarejos.. Para debater com ela, chamei o professor Mário Maestri Confesso que deixei de lado a posição de mediador e modestamente tratei de ajudar o Mário a mostrar a ela que não faz sentido enxergar os grandes movimentos históricos (as revoluções) pelos possíveis prejuízos que trouxeram a algumas pessoas. Esse parece ser um vício de jornalistas e não de historiadores. Um historiador verá na Revolução Francesa uma grande e vitoriosa luta de classes; o jornalista só enxergará a guilhotina. O historiador verá na Revolução Russa a primeira tentativa de construir um regime socialista; ao jornalista, só vai interessar o perfil ditatorial de Stalin. O historiador verá na Revolução Cubana a libertação de um povo do jugo colonialista americano; o jornalista só enxergará o Paredon. A maioria das pessoas segue normalmente o que dizem os jornalistas.No caso do fascismo e do nazismo, tudo se reduziria à maldade de Mussolini e Hitler. No Brasil, elas se dividirão entre os que sonham com a volta do Lula e os que votaram no Bolsonaro. Fora disso é conversa fiada de historiadores.