Pra onde vai Tarso Genro?

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Prefeito de Porto Alegre, Governador do Rio Grande do Sul, Ministro da Justiça e Ministro da Educação, Taro Genro é uma voz que precisa sempre ser ouvida.
Hoje, o site UOL, da Folha, publicou uma longa declaração dele, a propósito da sua recusa em participar da festa dos 40 anos do PT.
Primeiro, ele fez uma análise das ações do Partido, principalmente quando governou o País por 14 anos.
Antes de tudo, uma afirmação categórica – “Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.” – para seguir com uma avaliação do PT e seus dirigentes, começando pela velha proposta de “refundação” do partido, tão combatida na época em que ele a lançou.
“A “autocrítica” que eu defendi não significava transformar o partido em delegacia de polícia. Quadros do PT cometeram erros ao longo destes 40 anos e isso não é nenhuma novidade em qualquer partido de qualquer ideologia. A reestruturação que eu defendia e defendo vai bem além”.
Depois de lembrar que o modelo de classe trabalhadora é outro hoje no Brasil, ele individualiza procedimentos que considera que foram errados: “O nome da companheira Dilma foi aprovado pelo partido através de uma proposta do presidente Lula, sem debate. Hoje, a opinião generalizada do PT é que ela teve uma enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas que o partido tinha”
Faz uma previsão sobre o futuro do Brasil: “Acho que nos próximos 15 anos deveremos ter alguns governos mais ao centro, mais à direita e ameaças fascistas como o governo Bolsonaro. E acredito que o PT vai manter mais ou menos seu status e eleitorado, permanecendo atuante na sociedade brasileira”
Dentro desse porvir, vê o PT integrando à uma frente de esquerda, onde o partido precisará trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial.
“Acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto. Eu defendo Lula ou Haddad como candidatos, mas nossa opinião tem que ser avalizada sinceramente por todas as forças convergentes”.
Na entrevista, sobrou tempo para Tarso Genro fazer uma mea culpa:
“Já fiz várias autocríticas nesta jornada de 58 anos de militância. Tenho meus arrependimentos. Quem não tem é porque não está na vida. O maior deles foi ter derrotado o então governador Olívio Dutra na prévia do PT em 2002. Impedi o Olívio de tentar a reeleição e perdi.”
Porém, a questão mais importante que Tarso coloca é a sua análise da divisão de classes no Brasil e a partir dela os objetivos viáveis para o movimento de esquerda.
Para ele, o PT não percebeu o que mudou. “Nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente.”
Além dessa mudança, ele vê uma tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual.
“Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas. Temos que aprender urgentemente como falar com este mundo novo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede. A luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores.”
Tarso diz que continua na luta: ‘Eu e um grupo de companheiros elaboramos documentos que submetemos aos partidos de esquerda. Sigo discutindo e escrevendo artigos. Pretendo ajudar, com meus limites, não somente ao PT, mas os companheiros de todos os partidos de esquerda que pensam numa renovação de paradigmas da esquerda.”
Raro na política brasileira, o discurso de Tarso será demonizado pelos “estalinistas” do PT para os quais o “grande guia” está sempre certo, mas merecia ser discutido com mais profundidade.
Duas questões são fundamentais: primeiro, os trabalhadores desapareceram realmente como classe social – os coveiros do capitalismo no dizer de Marx – e segundo, com o fim das lutas classes, decorrente da aceitação da primeira premissa, que modelo pretende Tarso para o Brasil?
Parece que o desaparecimento da representatividade dos trabalhadores, reunidos em poderosos sindicatos nas grandes fábricas, não significa que eles tenham desaparecidos como classe social.
Podem ter perdido a representatividade, mas não perderam a identidade.
Eles são milhões em sub- empregos, em trabalhos precarizados, os “uberizados”, mas continuam gerando mais valia para os empresários, mesmo os virtuais.
Podem não ter consciência de que são pessoas vivendo do seu trabalho, mas na realidade o são.
O que pode ter outros aspectos é a luta de classes entre as pessoas que assumem posições opostas no relacionamento com o trabalho, mas ela continua existindo.
Negar a existência da luta de classes, ainda que com uma nova moldura, é sepultar o sonho de uma sociedade socialista.
A outra questão é decorrente dessa primeira. Como não enxerga mais uma luta de classes na sociedade brasileira, Tarso parece admitir que o modelo a ser perseguido seria uma sociedade capitalista, onde a força das organizações ditas de esquerda, dentro de uma democracia parlamentar, seriam capazes de criar uma sociedade onde os direitos sociais seriam não só respeitados, mas ampliados.
Uma nova versão de um estado do bem estar social. Talvez um modelo ao estilo escandinavo.
Na Copa do Mundo de 1958, quando ouviu do treinador Feola explicar o melhor jeito vencer seus adversários, os temíveis russos, Garrincha perguntou: o senhor já combinou isso com eles?
Com todo o respeito que merece, parodiando Garrincha, gostaria de perguntar ao Tarso Genro sobre essa concertação entre ricos e pobres: o senhor já perguntou para os ricos se eles concordam?


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