As Benevolentes – uma alegoria sobre o capitalismo selvagem.

O livro As Benevolentes – Les Bienveillantes – (edição brasileira Objetiva, 2007, 906 páginas), de Jonathan Littell, mais do que uma descrição crua e pormenorizada dos horrores dos campos de extermínio dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, é uma alegoria do que seria o sistema capitalista levado ao extremo da sua finalidade maior, a desumanização do ser humano transformado em instrumento na busca do lucro a qualquer custo.

Nos campos de concentração e extermínio de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes físicos e mentais, nos quais se incluíram as mais diversas nacionalidades, inclusive alemães, os nazistas aplicaram os mais modernos meios de administração em busca do grande objetivo do capitalismo: o maior lucro possível, no menor prazo de tempo e com investimentos baixos.

N a estratégia de Hitler e seus sequazes, este projeto tinha dois objetivos muito claros em relação às populações não germânicas: usá-las como força de trabalho escravo até a sua completa exaustão e eliminar aqueles considerados incapazes para o trabalho. Para isso, foram construídos grandes campos de concentração no território da Alemanha, basicamente voltados para a produção e nos territórios da Polônia e Ucrânia, destinados ao extermínio, inicialmente através de fuzilamentos e mais tarde com o uso de câmaras de gás. Dentro da Alemanha, os principais campos de trabalho forçado foram os de Sachsenhausen, em Orienenburg, próximo de Berlim, Buchewald, próximo a Weimar (onde esteve internado o escritor Jorge Semprun) e Dachau.  Na Polônia, foi erguido o maior número de campos. Os principais foram Auschwitz- Birkenau, onde morreram mais de 1 milhão de pessoas, Lublin, Sobidor e Treblinka.

Nos portões de ingresso dos prisioneiros nesses campos, ironicamente, um letreiro afirmava que “Arbeit Macht Frei”, o trabalho liberta.

Até hoje, essa política é vista como uma perversão do espírito maligno de Hitler, mas por trás dela havia a frieza que caracteriza busca do sucesso empresarial a qualquer custo.  Para as empresas, o que seria melhor do que trabalhadores sem nenhum direito e usados como verdadeiras máquinas? Por outro lado, a estratégia de reduzir drasticamente as populações nativas da Polônia, Ucrânia e Rússia objetivava liberar grandes extensões de terras agrícolas para a produção de alimentos destinados ao consumo interno da Alemanha.

Junto a estes campos, tanto na Alemanha, inicialmente e depois nos países ocupados, com orientação de Albert Speers, o Ministro do Armamento, se estabeleceram importantes indústrias alemãs e por incrível que possa parecer,  até mesmo filiais alemãs de empresas americanas, para usar a mão de obra escrava.

Ao lado da IG Farber, que fabricava o gás Zyklon B, usado nas câmaras de gás e que depois da guerra se tornou a Bayer, estavam a Siemens, que construiu as câmaras de gás, Hugo Boss, que desenhou e fabricou os uniformes dos nazistas, a Wolkswagen, cujo presidente Ferdinand Porsche, criou o popular Wolkswagen ( carro do povo) a pedido pessoal de Hitler e também marcas americanas  quem se beneficiaram das facilidades criadas pelo trabalho escravo durante o nazismo. A filial da Coca Cola, na Alemanha, pela falta do xarope para fabricar a sua bebida líder, criou Fanta, especialmente para os soldados alemães. Também as filiais da Kodak, IBM e GE mantiveram suas ligações com o regime nazista, principalmente na fase anterior a entrada dos Estados Unidos na guerra.

Hannah Arendt, no seu clássico livro Eichmman em Jerusalém (Eichmman in Jerusalem: A Report on the Banality of Evyl – Companhia das Letras, 2011), já havia flagrado o caráter quase burocrático da ação dos nazistas nos campos de concentração, cunhando a expressão “a banalidade do mal”.

Jonathan Littell, segue na mesma linha. Sua descrição da vida na frente de batalha russa e nos campos de concentração amplia essa visão de até onde pode chegar a maldade humana livre de qualquer barreira ditada pela civilização. Para ele, não há culpados, nem vítimas, apenas aqueles que tudo podem e aqueles que nada têm, a não ser suas vidas, transformadas em mercadorias.

Jonathan Littell é filho do escritor de romances de espionagem Robert Littell, bastante popular na França e seu livro As Benevolentes (uma ironia com uma peça do grego Ésquilo) ganhou o Prêmio Goncourt em 2006 e vendeu mais de 700 mil exemplares no ano do seu lançamento.  Filho de uma família judia, nascido nos Estados Unidos, mas educado na França, Jonathan escreveu este seu primeiro livro depois de anos de pesquisa sobre as ações dos nazistas na guerra, principalmente das Schutzstaffel (tropas de proteção), as tristemente famosas SS.

Para contar a sua história, Littell criou um personagem fictício, o oficial das SS Maximilien Aué, encarregado de analisar as ações de extermínio sob o ponto de vista administrativo, usando sistemas de avaliação tirados da prática empresarial capitalista. Nessa tarefa, ele vai interagir com sinistros personagens nazistas como Himmler e Eichmman, que num organograma civil poderiam ser vistos como o diretor e o gerente operacional de uma grande empresa.

A visão do personagem é de que, embora muitas vezes desagradável, sua tarefa pessoal se dilui num grande esforço de todos os adeptos do nacional-socialismo de criar uma vida melhor para o povo alemão, ainda que a custo da desgraça de muitos outros povos.  Nessa tarefa, ele lembra que seus adversários nessa luta fizeram o mesmo no passado, ingleses e franceses nas colônias africanas e asiáticas, e os Estados Unidos, no seu próprio país, formado a partir das guerras contra os índios e os latinos.

Essa visão de um capitalismo extremado e selvagem em ação, traz a memória a advertência de Rosa de Luxemburgo, feita há quase um século atrás de que a humanidade só tem duas opções: o socialismo ou a barbárie.

Quando do seu lançamento  no Brasil, o falecido escritor Moacyr Scliar, fez uma resenha do livro para a Revista Veja, que termina assim: “Littell sugere repetidamente que os nazistas não eram uma exceção. No extermínio dos judeus, por exemplo, tinham a decidida colaboração de ucranianos. Ou seja: a humanidade tem dentro de si um componente de intolerância, de loucura mesmo, que pode ser mobilizado com resultados catastróficos. A tese é talvez controversa. Mas Littell a defende com brilho desde as primeiras páginas do livro, quando  anuncia como será sua narrativa: – É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto a vocês”

Pra onde vai Tarso Genro?

Prefeito de Porto Alegre, Governador do Rio Grande do Sul, Ministro da Justiça e Ministro da Educação, Taro Genro é uma voz que precisa sempre ser ouvida.
Hoje, o site UOL, da Folha, publicou uma longa declaração dele, a propósito da sua recusa em participar da festa dos 40 anos do PT.
Primeiro, ele fez uma análise das ações do Partido, principalmente quando governou o País por 14 anos.
Antes de tudo, uma afirmação categórica – “Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.” – para seguir com uma avaliação do PT e seus dirigentes, começando pela velha proposta de “refundação” do partido, tão combatida na época em que ele a lançou.
“A “autocrítica” que eu defendi não significava transformar o partido em delegacia de polícia. Quadros do PT cometeram erros ao longo destes 40 anos e isso não é nenhuma novidade em qualquer partido de qualquer ideologia. A reestruturação que eu defendia e defendo vai bem além”.
Depois de lembrar que o modelo de classe trabalhadora é outro hoje no Brasil, ele individualiza procedimentos que considera que foram errados: “O nome da companheira Dilma foi aprovado pelo partido através de uma proposta do presidente Lula, sem debate. Hoje, a opinião generalizada do PT é que ela teve uma enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas que o partido tinha”
Faz uma previsão sobre o futuro do Brasil: “Acho que nos próximos 15 anos deveremos ter alguns governos mais ao centro, mais à direita e ameaças fascistas como o governo Bolsonaro. E acredito que o PT vai manter mais ou menos seu status e eleitorado, permanecendo atuante na sociedade brasileira”
Dentro desse porvir, vê o PT integrando à uma frente de esquerda, onde o partido precisará trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial.
“Acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto. Eu defendo Lula ou Haddad como candidatos, mas nossa opinião tem que ser avalizada sinceramente por todas as forças convergentes”.
Na entrevista, sobrou tempo para Tarso Genro fazer uma mea culpa:
“Já fiz várias autocríticas nesta jornada de 58 anos de militância. Tenho meus arrependimentos. Quem não tem é porque não está na vida. O maior deles foi ter derrotado o então governador Olívio Dutra na prévia do PT em 2002. Impedi o Olívio de tentar a reeleição e perdi.”
Porém, a questão mais importante que Tarso coloca é a sua análise da divisão de classes no Brasil e a partir dela os objetivos viáveis para o movimento de esquerda.
Para ele, o PT não percebeu o que mudou. “Nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente.”
Além dessa mudança, ele vê uma tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual.
“Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas. Temos que aprender urgentemente como falar com este mundo novo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede. A luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores.”
Tarso diz que continua na luta: ‘Eu e um grupo de companheiros elaboramos documentos que submetemos aos partidos de esquerda. Sigo discutindo e escrevendo artigos. Pretendo ajudar, com meus limites, não somente ao PT, mas os companheiros de todos os partidos de esquerda que pensam numa renovação de paradigmas da esquerda.”
Raro na política brasileira, o discurso de Tarso será demonizado pelos “estalinistas” do PT para os quais o “grande guia” está sempre certo, mas merecia ser discutido com mais profundidade.
Duas questões são fundamentais: primeiro, os trabalhadores desapareceram realmente como classe social – os coveiros do capitalismo no dizer de Marx – e segundo, com o fim das lutas classes, decorrente da aceitação da primeira premissa, que modelo pretende Tarso para o Brasil?
Parece que o desaparecimento da representatividade dos trabalhadores, reunidos em poderosos sindicatos nas grandes fábricas, não significa que eles tenham desaparecidos como classe social.
Podem ter perdido a representatividade, mas não perderam a identidade.
Eles são milhões em sub- empregos, em trabalhos precarizados, os “uberizados”, mas continuam gerando mais valia para os empresários, mesmo os virtuais.
Podem não ter consciência de que são pessoas vivendo do seu trabalho, mas na realidade o são.
O que pode ter outros aspectos é a luta de classes entre as pessoas que assumem posições opostas no relacionamento com o trabalho, mas ela continua existindo.
Negar a existência da luta de classes, ainda que com uma nova moldura, é sepultar o sonho de uma sociedade socialista.
A outra questão é decorrente dessa primeira. Como não enxerga mais uma luta de classes na sociedade brasileira, Tarso parece admitir que o modelo a ser perseguido seria uma sociedade capitalista, onde a força das organizações ditas de esquerda, dentro de uma democracia parlamentar, seriam capazes de criar uma sociedade onde os direitos sociais seriam não só respeitados, mas ampliados.
Uma nova versão de um estado do bem estar social. Talvez um modelo ao estilo escandinavo.
Na Copa do Mundo de 1958, quando ouviu do treinador Feola explicar o melhor jeito vencer seus adversários, os temíveis russos, Garrincha perguntou: o senhor já combinou isso com eles?
Com todo o respeito que merece, parodiando Garrincha, gostaria de perguntar ao Tarso Genro sobre essa concertação entre ricos e pobres: o senhor já perguntou para os ricos se eles concordam?