Síndrome da nostalgia.

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A partir de certa idade, as pessoas mais velhas são atacadas irremediavelmente pela doença da nostalgia e precisam falar sobre isso sem parar. Tudo era melhor nesse passado idílico, mesmo que saibam racionalmente que, na maioria dos casos, era bem pior.
Não se trata de uma doença nova, gerada por uma sociedade consumista que despreza os mais importantes valores morais, como esses doentes costumam afirmar para justificar suas crises de incompatibilidade com o presente. Quase diria que é uma doença congênita. Nascemos com seus genes e, a partir de certa idade, na maioria dos casos por volta dos 50 anos, eles começam a se desenvolver rapidamente.
Como um dos portadores dessa síndrome, sei de experiência própria, que a nossa geração de nostálgicos não inventou essa doença. Ela é bem antiga e dou um exemplo pessoal para comprovar a tese.
Quando criança, na casa dos avós, ouvia um lamento permanente sobre as agruras do presente:
– Bom era antigamente.
Antigamente era melhor em tudo, principalmente no valor dos objetos. Absolutamente todas as coisas eram melhores e mais baratas nesses tempos que compunham o que chamavam de antigamente. Tanto falaram que me convenceram – então um menino de 6 ou 7 anos – que os tempos de antigamente eram melhores e comecei a sonhar com sua volta.
Um dia, me deram uma cédula, provavelmente de uns 10 cruzeiros, ou talvez 10 mil reis, para comprar o boné que eu tanto queria. Quando, depois, me perguntaram se eu tinha comprado o tal boné, respondi, demonstrando, já em tão tenra idade, um comportamento extremamente prudente, que iria esperar pela volta do “antigamente”, quando certamente me sobrariam alguns trocados, depois de comprar o boné, possivelmente para comprar um sorvete, que obviamente seria também melhor que os atuais.
Os pacientes dessa doença têm a característica de estabelecer relações com outros que padecem de sintomas semelhantes para se dedicar à manifestação mais clássica de sua presença insidiosa: falar do passado. Com meu amigo Ibsen, falo sobre os velhos times do Internacional e formamos grandes seleções simbólicas misturando duas ou três gerações que existem hoje em nossas lembranças: Ivo, Nena, Salvador, Oreco, Tesourinha, Adãozinho, Chinesinho, Ávila e Carlitos.
Com o Luís Augusto, percorria, com os velhos bondes da Carris, os bairros da cidade, enumerando um a um os cinemas de cada avenida, do centro até os vários fins de linhas. Começando do Centro, do Imperial, Guarani, Rex, Ópera, Carlos Gomes e Continente, seguimos até o fim da linha Floresta, que era na Igreja São João e depois foi um pouco mais adiante, até a entrada da Vila do IAPI, passando, então, pelo Ipiranga (que foi até o fim com suas cadeiras de madeira), Colombo (onde passavam os filmes da Metro, junto com o Avenida), Orfeu (que virou Astor), Eldorado e Rosário (que, junto com o Imperial, Ritz e Marrocos, foi o pioneiro do cinemascope em Porto Alegre).
Para qualquer bairro que os bondes nos levavam, sempre tinha um cinema à nossa espera: o Rival, na Auxiliadora; o Ritz, em Petrópolis; o Marrocos, no Menino Deus; e o Teresópolis, lá na Praça Guia Lopes. Nos melhores dias, lembrávamos o Palermo, o Gioconda, o Rio Branco o Navegantes, o Atlas, o América, o Rei e o Talia.
Nessa linha cinematográfica, mas aí entrando nos cinemas para ver os filmes, com o Hélio Nascimento a quem, infelizmente, encontro muito pouco, falamos de Einsentein, Bergmann, De Sica, Renais, Visconti, Kurosava e Kubrick, como grandes amigos que conhecemos no Clube do Cinema, juntos com o P.F.Gastal.
Com o Gonzales, são dos publicitários e jornalistas incrivelmente mais inteligentes e criativos que os atuais, sobre os quais falamos, enumerando suas qualidades e idiossincrasias.
Com o Eloy, falamos co curso de História da Ufrgs, de como a maioria dos seus professores eram conservadores e nunca esquecemos da a única resposta que o Schmidt aceitava como correta para a pergunta – o que aconteceu com a expedição de Colombo na véspera da descoberta da América – era “do alto da gávea Rodrigo de Triana viu uma luz bruxuleante no horizonte”.
Com o Batista Filho, os diálogos são sobre políticos, chegando sempre à invariável conclusão que nunca existiu nenhum tão corajoso e correto como o doutor Brizola.
Com o Werner, é a desconstrução das biografias de personagens conhecidos da vida pública desde os tempos da TV Piratini.
Com o Dr. Franklin, as memórias vão desde época em que os gaúchos sonhavam em ser aviões da Varig e a gente acreditava piamente que o socialismo estava a um passo, logo ali dobrando a esquina, até o Pitigrilli, da Loura Dolicocéfala, que as pessoas hoje nem advinham quem seja.
As mulheres parecem sucumbir menos a esta moléstia, mas, às vezes, também podemos diagnosticar nelas alguns traços da doença.
Uma amiga, a quem perguntei de modo galhofeiro se a nossa amizade incluía alguma chance de uma “transadinha” rápida, se queixou depois para uma conhecida, que os homens não eram mais como os de antigamente, que, no máximo, convidavam as mulheres, primeiro para um cineminha e depois, no melhor dos casos, para uma pizza.
Caso ao ler essa crônica, que é mais um desabafo, você tenha percebido que também é portador de algum desses sintomas, por favor aproveite o espaço e fale de alguma coisa importante que se perdeu no seu passado.
Curar essa doença, não cura, mas ajuda a passar o tempo…pelo menos, aquele que ainda nos resta.
Em tempo: Post Scriptum (conhecido também como Roberto Pintaúde) criou na sua Web e/ou um programa só sobre nostalgia, no caso sobre o futebol de antanho, chamado Barba, Cabelo e Bigode.


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