Meu amigo, Ibsen Pinheiro

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Aos 84 anos, morreu Ibsen Pinheiro.  As pessoas o conheceram como o deputado que presidiu a Câmara Federal no e se tornou famoso por liderar a votação do impeachment de Collor e  candidato em potencial  à Presidente da República  ou como o diretor do Internacional, que junto com mais alguns companheiros – os Mandarins – revolucionou o futebol colorado e mais adiante como o político que caiu em desgraça e conseguiu dar a volta por cima.

Eu o conheci como um amigo.

Ele era quatro anos mais velho do que eu e quando o encontrei naquele grupo de intelectuais que se reuniam na Rua da Praia, no início da década de 60, esses quatro anos faziam muita  diferença.

Eu chegava aos 20 anos sem nenhuma história para contar e ele já tinha muito para falar com sua vida na clandestinidade do Partido Comunista e também como jornalista da Tribuna.

A Rua da Praia era uma tribuna aberta a todos que chegavam para discutir principalmente política, literatura e cinema. Ele, o Werner Becker, o Flávio Tavares e o Hélio Nascimento, entre outros, eram a estrelas e eu um ouvinte interessado.

Um pouco mais adiante fui seu colega de trabalho nas redações do jornal Última Hora, primeiro na Galeria do Rosário e depois na 7 de Setembro, eu como um auxiliar de repórter e ele como um brilhante copy desk.

É dessa época que começou a criar fama com o seu dom de respostas rápidas, precisas e quase sempre ferinas para quem o questionava.

Na Última Hora havia por parte de um diretor de redação, a obsessão pela síntese nas noticias.

O Ibsen recebe o texto de um repórter policial sobre um crime de morte e reduz tudo àquelas clássicas respostas às perguntas de “o quê, quem,quando,, onde, como e por que” para formar o lead e entrega ao diretor.

Ele, olha e pede que o texto seja reduzido ainda mais.

O Ibsen reduz, mas ainda assim o diretor não está satisfeito.

Na terceira vez, o Ibsen volta com a redução definitiva.

– João matou Maria. Leia maiores detalhes na Folha da Tarde, o jornal concorrente da Última Hora, na época.

Depois o Ibsen foi trabalhar no Jornal do Brasil, no Rio e nos encontrávamos quando ele vinha prestar exames aqui na Faculdade de Direito.

Envolvido em outras histórias, acompanhei de longe sua carreira política como vereador, deputado estadual e deputado federal e principalmente como  o diretor vitorioso do nosso Internacional.

Na época, nos encontrávamos, esporadicamente, no apartamento do Werner Becker na Rua Riachuelo. Mais adiante, quando era deputado federal já famoso,nos reunirmos umas poucas vezes no seu apartamento  da  rua General João Teles, ou no meu, da rua Sato Antônio.

A última vez que o vi foi num almoço dominical na casa do Werner e da Rejana, ano passado, quando estavam presentes outros velhos companheiros da Ultima Hora, o João Souza e o Florianinho.

Saímos juntos e ele me pareceu o mesmo cara de sempre, embora já se percebessem alguns sinais de decadência física

Há poucos meses atrás, ele me ligou e falamos bastante tempo, quase que só do passado, que ficava sempre mais distante. Foi quando ele me disse que tinha um problema de sangramentos internos que o debilitavam bastante e que os médicos não conseguiam descobrir a causa.

Mesmo assim, foi uma surpresa e um choque quando minha filha Tatiana, ligou na sexta à noite para dizer – o Ibsen morreu.


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