A magia da realidade

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Há alguns anos, num voo de São Paulo para Porto Alegre, sentei ao lado de um famoso advogado, conhecido pela sua militância nos partidos de esquerda e pelo seu confessado ateísmo ou, no mínimo, um agnosticismo militante.
A viagem era tranquila até o momento em que o avião começou a enfrentar uma forte turbulência. Para o meu espanto, o tal advogado repetiu várias vezes o sinal da cruz. Intrigado com aquele ritual, perguntei se isso não contrariava suas convicções. Ele prontamente me interrompeu, dizendo:
– Não é hora de discutir estes assuntos. Estamos no território Dele. Quando chegarmos em terra firme, podemos conversar sobre isso.
Será que todas as pessoas submetidas a algum tipo de estresse não acabam se socorrendo de práticas místicas e velhos fetiches, em busca de algum tipo de conforto e segurança?
Lembrei, então, aquele livro maravilho do Roger Martin de Gard, não “Les Thibault”, pelo qual ganhou o Nobel de Literatura em 1937, mas outro, de 1914, “Jean Barois”, que, em português, ganhou um explicativo no título,”O Drama de Jean Barois”. O tal drama era a dúvida de Jean Barois entre a fidelidade ao seu passado de intelectual ateu e o doente quase terminal em que se transformou na velhice. Ele morre consolado pela fé religiosa que fez parte da sua infância, mas ao abrir o seu testamento, a filha, uma freira que batalhara com sucesso pela conversão do pai, é surpreendida já na primeira frase do documento: “O que pensa o homem que sou hoje, lúcido e consciente, deve prevalecer sobre o velho que serei um dia”. Nas linhas seguintes, Jean Barois defende sua crença na ciência como único caminho para entender o mundo em que vivemos e repudia qualquer forma de misticismo, comuns na senilidade que marca o fim da vida.
Essas minhas lembranças das duas histórias – a recaída do advogado famoso e o livro de Roger Martin de Gard – se explicam pela leitura de um outro livro muito interessante.
Nessa época de leituras em tablets e Ipod, nada melhor do que ter nas mãos um livro de capa dura, com papel da melhor qualidade e ilustrações coloridas para lembrar um prazer que hoje interessa a poucos. Estou falando do livro “A Magia da Realidade – Como sabemos o que é verdade” (The Magic of Reality), de Richard Dawkins, com belas ilustrações de Dave McKean, que a Companhia das Letras lançou no Brasil. Dawkins, um ex-professor da Universidade de Oxford, é conhecido no mundo inteiro como um grande divulgador da ciência, principalmente da obra de Charles Darwin e teve seu livro de maior sucesso, “Deus, um delírio”, também lançado pela mesma editora em 2007, hoje já na décima segunda reimpressão.
Nesse novo livro, Dawkins conta em 12 capítulos quais são as respostas da ciência para questões sobre o que é realidade, o que é magia, porque existente tantos tipos de animais, quem foi a primeira pessoa, e o que é um milagre. Segundo ele, as respostas que as ciências ainda hoje são incapazes de dar para muitas questões, serão dadas um dia e que, muitas coisas que nossos antecipados viam como um milagre, são hoje plenamente respondidas pelo conhecimento científico.
Diz ele no último capítulo do seu livro: “Há cerca de dois mil anos, um pregador judeu itinerante chamado Jesus estava em uma festa de casamento quando o vinho acabou. Ele pediu água e usou seus poderes milagrosos para transformá-la em vinho – um vinho excelente, diz a história. Pessoas que ririam da ideia de que uma abóbora pode se transformar em carruagem e que sabem perfeitamente que lenços não viram coelhos, acreditam que um profeta transformou água em vinho ou, como crêem devotos de outra religião, voou para o céu num cavalo alado” – para concluir mais adiante no mesmo capítulo – “Quanto mais refletimos, mais percebemos que a própria ideia de um milagre sobrenatural não tem sentido. Se acontecer algo que pareça inexplicável pela ciência, podemos, com segurança, concluir uma dentre duas coisas. Ou não aconteceu realmente (o observador se enganou, mentiu ou foi logrado por um truque), ou estamos diante de algo que a ciência ainda não sabe explicar. Se a ciência atual encontra uma observação ou um resultado experimental que não consegue entender, não devemos descansar até que ela evolua o suficiente para encontrar a explicação”.
Quando Dawkins esteve em Porto Alegre, fui ouvi-lo. Guardo até hoje o seu livro “Magia da Realidade”, autografado por ele
É bom saber que existem pessoas como ele que ajudam com argumentos nosso orgulho de ser ateu.

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