A democracia no discurso de Tarso

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O ex-governador  e  ex-ministro Tarso Genro é um dos poucos políticos brasileiros com talento e cultura suficientes, para ir bem mais além da maioria dos críticos de esquerda, que se limitam a adjetivar o governo de Bolsonaro.

Principalmente no espaço que ocupa semanalmente no Sul-21,  além da critica contundente às medidas anti-populares da dupla Bolsonaro/Guedes na área sócio econômica, Tarso tem se dedicado a alertar às pessoas para o viés de caráter fascista que emana principalmente das declarações do presidente e de seus ministros.

Ao contrário do fascismo clássico de Hitler e Mussolini, que      comandaram estados – Alemanha e Itália – fortemente nacionalistas  e que exerciam uma autoridade sem limites,o governo Bolsonaro é extremamente submisso ao imperialismo norte-americano  e obrigado a conviver com um parlamento e um judiciário pouco submissos à sua vontade política, além de uma imprensa formalmente independente.

Como antídoto a esse viés de caráter fascista, que Tarso identifica no atual governo, ele tem proposto um projeto nacional de aprofundamento democrático. A julgar pelos seus textos, sua proposta é da formação de uma frente de partidos e organizações que ocupem um espectro político que vai da esquerda socialista a um centro liberal, com o objetivo de defender a continuidade do atual processo democrático e se possível  aprofundá-lo.

Dentro dessa perspectiva, um elemento clássico do Marxismo, a luta de classes como um fator acelerador do avanço em direção a uma sociedade socialista, teoricamente o objetivo final das esquerdas, não faz parte do discurso de Tarso.

Possivelmente, ela possa estar imaginando que levantar essa bandeira agora, dividiria a oposição anti-Bolsonaro, embora a história ensine que sempre que os trabalhadores, teoricamente os representantes mais interessados no socialismo, se uniram a seguimentos da burguesia – os defensores do capitalismo – para derrotar uma força ainda mais reacionária, sempre foram esquecidos depois da vitória final.

É possível que Tarso tenha posto o objetivo de conquista do socialismo como uma meta muito distante e defenda hoje um modelo capitalista parlamentar aos moldes das democracias europeias como a Inglaterra, França, Espanha e Portugal, todas elas possíveis apenas dentro do capitalismo.

Só que esse modelo, que preza o bem estar social, parece estar com seus dias contados diante do novo e voraz capitalismo financeiro globalizado, que não respeita fronteiras nem direitos democráticos.

Com suas economias dependentes, os países da América do Sul têm mostrado nesses últimos anos que as parcas conquistas sociais dos governos reformistas dos primeiros anos do século, estão sendo derrubadas uma a uma, ora por processos eleitorais fraudados pelo poder econômico, ora por golpes parlamentares e até mesmo pela velha violência dos golpes militares.

Foi assim no Paraguai, com Lugo; no Brasil, com Dilma, no Equador, com Correa; na Bolívia com Evo Morales e no Uruguai, com Tabaré Vasquez. A eleição de Fernandez na Argentina pouco muda esse quadro e só foi possível porque Macri, como FHC, no Brasil, praticamente quebrou o país.

Logo, logo, ele será enquadrado pelas forças anti-populares que também são fortes no seu país. O seu discurso de posse foi um bom sinal de que ele entendeu o recado. Defendeu com ênfase o feminismo, uma bandeira de luta plenamente aceitável dentro do capitalismo globalizado e não falou nada sobre o enfrentamento ao imperialismo, além de ter dispensado a presença de Lula e Morales na sua posse, os dois mais importantes políticos defensores de uma política de compensações sociais.

Na última eleição presidencial brasileira, o candidato do PT, Fernando Haddad ao propor o que poderia ser a sua política sócio econômica, num dos seus poucos momentos de franqueza, disse que os benefícios dados aos trabalhadores nos governos de Lula e Dilma só foram possíveis porque a conjuntura econômica internacional permitiu isso, sem que fosse necessário tirar dos mais ricos, mas que agora isso não seria mais possível e que os ricos teriam que dar sua contribuição.

Talvez até por isso, não foi eleito.

Aliás, o próprio Lula, sentindo-se traído pela grande burguesia, disse mais de uma vez que nunca empresários e banqueiros ganharam tanto como nos seus governos.

Voltando ao discurso de Tarso.

Uma grande união para resistir ao governo Bolsonaro é possível e necessária, ampliar as conquistas democráticas é fundamental, mas tudo sem perder de vista que a conquista do socialismo  deve ser o objetivo final.

Há mais de 100 anos Rosa Luxemburgo disse que a opção ao socialismo, era a barbárie, ao que István Mészáros  acrescentou no seu livro Socialismo no Século XXI, que a barbárie podia ser a melhor das hipótese,  porque o que o capitalismo está gerando é a perda das condições de vida humana no planeta.

Nessa hora será preciso desmistificar mais uma vez o conteúdo de classe com que o status quo enxerga a democracia e dar a ela um sentido realmente progressista e revolucionário.

Um pequeno livro lançado há pouco pela editora Boitempo, recupera alguns discursos de Lenin sobre o tema,  principalmente nos debates que travou com Kautsky sobre a questão da democracia. Disse o pensador e revolucionário russo: “ A democracia representativa se tornou a forma padrão de dominação burguesa, funcionando para os trabalhadores como uma forma de ditadura de fato”.

“A menos que se queira zombar do bom senso e da história, não se pode falar em democracia pura enquanto existirem classes diferentes. Só se pode falar em democracia de classes”

Em outra passagem dos seus discursos, Lenin é mais explicito no que deve ser a posição dos trabalhadores sobre o tema: “Nós dissemos à burguesia: vocês, exploradores e hipócritas, falam de democracia, ao mesmo tempo que levantam a cada passo milhares de obstáculos à participação das massas  oprimidas na vida política. Nós pegamos vocês pela palavra e exigimos, no interesse dessas massas, a ampliação da sua democracia burguesa, a fim de preparar as massas para a revolução, para a derruba de vocês, exploradores”.

Lenin disse isso em 1917, no início do seu governo socialista, na Rússia. Será que seu discurso envelheceu e não faz mais sentido hoje?

Slavoj Zizek, o grande filósofo e pensador esloveno, pensa que não: “Esta é a grande lição de Lenin para os dias de hoje: paradoxalmente, é só problematizando a democracia – deixando claro que a democracia liberal a priori não pode sobreviver sem a propriedade privada capitalista –  que poderemos nos tornar verdadeiramente anticapitalistas”


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