Suas últimas palavras

Será sua última chance de ser lembrado por algo criativo, de impacto,memorável.
Mas, lembre-se, vai depender só de você.
Não vai ser como nos filmes, com trilha sonora dramática ou efeitos especiais É você prestes a abrir a porta da eternidade.
Concentre-se: é sua última chance de fazer com que as pessoas esqueçam todas as bobagens que você já disse, para ser lembrado apenas pelas suas palavras finais.
Eu, por exemplo, não quero ser surpreendido e chegar a essa hora decisiva sem um texto pronto e decorado.
Andei lendo as últimas palavras de gente célebre e vi como muitos quase puseram a perder suas biografias por dizerem banalidades numa hora tão solene.


Elvis Presley disse à namorada: “Vou ao banheiro para ler”

 

Frank Sinatra, podendo falar da Ava Gardner, das suas músicas e de seus filmes, disse apenas: “Estou perdendo”.

 

Alfred Hitchcock, que sempre soube terminar bem seus filmes, sobre a vida: “Nunca se sabe o final”.
Salvador Dali queria saber apenas, “Onde estão meus relógios?”.
Outros não perderam a pose nessa hora crucial.

Churchill: “Estou entediado com tudo isso”
Frida Kaklo: “Espero que a saída seja alegre porque nunca mais vou retornar.”
Beethoven: “Aplaudam amigos, a comédia terminou.”
Anna Pavlova, esperava continuar dançando: “Aprontem a minha fantasia de cisne branco”.


Marx foi contestador até o fim: ”Últimas palavras são para tolos que nunca disseram o suficiente”.
O outro Marx, Groucho sobre o que lhe aguardava:“Por que eu deveria me importar com a posteridade? Ela nunca fez nada por mim. “


O melhor de todos foi Getúlio Vargas que deixou por escrito suas últimas palavras: “Saio da vida para entrar na história”.
Munido de todos esses exemplos estou preparando meu discurso final, que espero seja provocativo suficiente para não abalar a minha fama de mau. Não pretendo nesse último momento, amolecer o coração para ser lembrado depois como aquele cara que “apesar de tudo, no fundo era um bom sujeit

Síndrome da nostalgia.

A partir de certa idade, as pessoas mais velhas são atacadas irremediavelmente pela doença da nostalgia e precisam falar sobre isso sem parar. Tudo era melhor nesse passado idílico, mesmo que saibam racionalmente que, na maioria dos casos, era bem pior.
Não se trata de uma doença nova, gerada por uma sociedade consumista que despreza os mais importantes valores morais, como esses doentes costumam afirmar para justificar suas crises de incompatibilidade com o presente. Quase diria que é uma doença congênita. Nascemos com seus genes e, a partir de certa idade, na maioria dos casos por volta dos 50 anos, eles começam a se desenvolver rapidamente.
Como um dos portadores dessa síndrome, sei de experiência própria, que a nossa geração de nostálgicos não inventou essa doença. Ela é bem antiga e dou um exemplo pessoal para comprovar a tese.
Quando criança, na casa dos avós, ouvia um lamento permanente sobre as agruras do presente:
– Bom era antigamente.
Antigamente era melhor em tudo, principalmente no valor dos objetos. Absolutamente todas as coisas eram melhores e mais baratas nesses tempos que compunham o que chamavam de antigamente. Tanto falaram que me convenceram – então um menino de 6 ou 7 anos – que os tempos de antigamente eram melhores e comecei a sonhar com sua volta.
Um dia, me deram uma cédula, provavelmente de uns 10 cruzeiros, ou talvez 10 mil reis, para comprar o boné que eu tanto queria. Quando, depois, me perguntaram se eu tinha comprado o tal boné, respondi, demonstrando, já em tão tenra idade, um comportamento extremamente prudente, que iria esperar pela volta do “antigamente”, quando certamente me sobrariam alguns trocados, depois de comprar o boné, possivelmente para comprar um sorvete, que obviamente seria também melhor que os atuais.
Os pacientes dessa doença têm a característica de estabelecer relações com outros que padecem de sintomas semelhantes para se dedicar à manifestação mais clássica de sua presença insidiosa: falar do passado. Com meu amigo Ibsen, falo sobre os velhos times do Internacional e formamos grandes seleções simbólicas misturando duas ou três gerações que existem hoje em nossas lembranças: Ivo, Nena, Salvador, Oreco, Tesourinha, Adãozinho, Chinesinho, Ávila e Carlitos.
Com o Luís Augusto, percorria, com os velhos bondes da Carris, os bairros da cidade, enumerando um a um os cinemas de cada avenida, do centro até os vários fins de linhas. Começando do Centro, do Imperial, Guarani, Rex, Ópera, Carlos Gomes e Continente, seguimos até o fim da linha Floresta, que era na Igreja São João e depois foi um pouco mais adiante, até a entrada da Vila do IAPI, passando, então, pelo Ipiranga (que foi até o fim com suas cadeiras de madeira), Colombo (onde passavam os filmes da Metro, junto com o Avenida), Orfeu (que virou Astor), Eldorado e Rosário (que, junto com o Imperial, Ritz e Marrocos, foi o pioneiro do cinemascope em Porto Alegre).
Para qualquer bairro que os bondes nos levavam, sempre tinha um cinema à nossa espera: o Rival, na Auxiliadora; o Ritz, em Petrópolis; o Marrocos, no Menino Deus; e o Teresópolis, lá na Praça Guia Lopes. Nos melhores dias, lembrávamos o Palermo, o Gioconda, o Rio Branco o Navegantes, o Atlas, o América, o Rei e o Talia.
Nessa linha cinematográfica, mas aí entrando nos cinemas para ver os filmes, com o Hélio Nascimento a quem, infelizmente, encontro muito pouco, falamos de Einsentein, Bergmann, De Sica, Renais, Visconti, Kurosava e Kubrick, como grandes amigos que conhecemos no Clube do Cinema, juntos com o P.F.Gastal.
Com o Gonzales, são dos publicitários e jornalistas incrivelmente mais inteligentes e criativos que os atuais, sobre os quais falamos, enumerando suas qualidades e idiossincrasias.
Com o Eloy, falamos co curso de História da Ufrgs, de como a maioria dos seus professores eram conservadores e nunca esquecemos da a única resposta que o Schmidt aceitava como correta para a pergunta – o que aconteceu com a expedição de Colombo na véspera da descoberta da América – era “do alto da gávea Rodrigo de Triana viu uma luz bruxuleante no horizonte”.
Com o Batista Filho, os diálogos são sobre políticos, chegando sempre à invariável conclusão que nunca existiu nenhum tão corajoso e correto como o doutor Brizola.
Com o Werner, é a desconstrução das biografias de personagens conhecidos da vida pública desde os tempos da TV Piratini.
Com o Dr. Franklin, as memórias vão desde época em que os gaúchos sonhavam em ser aviões da Varig e a gente acreditava piamente que o socialismo estava a um passo, logo ali dobrando a esquina, até o Pitigrilli, da Loura Dolicocéfala, que as pessoas hoje nem advinham quem seja.
As mulheres parecem sucumbir menos a esta moléstia, mas, às vezes, também podemos diagnosticar nelas alguns traços da doença.
Uma amiga, a quem perguntei de modo galhofeiro se a nossa amizade incluía alguma chance de uma “transadinha” rápida, se queixou depois para uma conhecida, que os homens não eram mais como os de antigamente, que, no máximo, convidavam as mulheres, primeiro para um cineminha e depois, no melhor dos casos, para uma pizza.
Caso ao ler essa crônica, que é mais um desabafo, você tenha percebido que também é portador de algum desses sintomas, por favor aproveite o espaço e fale de alguma coisa importante que se perdeu no seu passado.
Curar essa doença, não cura, mas ajuda a passar o tempo…pelo menos, aquele que ainda nos resta.
Em tempo: Post Scriptum (conhecido também como Roberto Pintaúde) criou na sua Web e/ou um programa só sobre nostalgia, no caso sobre o futebol de antanho, chamado Barba, Cabelo e Bigode.

Do Coronel Kurtz ao Capitão Bolsonaro.

Daqui alguns anos, quando uma maior distância dos fatos nos permitir examinar com mais isenção os acontecimentos políticos de hoje no Brasil, a figura de Jair Bolsonaro poderá ser vista com toda a sua dimensão de um pobre fanfarrão que, mesmo assim, foi capaz de representar um tipo de comportamento de uma grande parte da população.
Em seu livro “Siempre nos quedará Paris”, que o Dr. Franklin Cunha trouxe de Buenos Aires e gentilmente me emprestou, o filósofo argentino Jose Pablo Feinmann analisa o comportamento humano a partir de uma série de importantes filmes americanos.
Quando trata do filme Apocalypse Now, que Francis Ford Coppola fez em 1979, ele examina as razões que levam o enlouquecido coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) a se internar nas selvas do Vietnam, onde reproduz em escala menor, tudo que os soldados americanos – teoricamente ainda não enlouquecidos – praticavam na guerra “oficial” contra os vietnamitas.
Diz Feinmann que não se pode fazer uma guerra racionalmente e que o filme é importante porque nos mostra a guerra como uma forma de loucura , onde seus participantes acabam assumindo por sua própria loucura que trazem latentes dentro de si e que a guerra, apenas faz aflorar.
Quando o coronel Kurtz, se defronta com o capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) enviado pelo exército para encontrá-lo e matá-lo ele diz: “Vocês fazem a guerra igual a mim, em vocês está a barbárie do mesmo jeito que eu a exerço. Sou mais autêntico porque assumo a guerra com toda a atrocidade que a guerra implica.
Mesmo que a violência pregada pelo Bolsonaro, ao contrário do coronel Kurtz, se exerça num plano mais teórico – afinal, o Brasil ainda não vive numa guerra – ele apenas verbaliza um tipo de proposta com a qual comunga, ainda que não queira confessar isso, uma boa parte da população.
O exército americano realizou uma guerra extremamente selvagem no Vietnam bombardeando populações civis e destruindo a infraestrutura do país, mas seus generais sempre falaram que estavam lutando pela democracia.
O coronel Kurtz fazia o mesmo, sem qualquer tipo de desculpas.
Durante os governos militares no Brasil, os generais presidentes usaram da violência contra a população, mas raramente admitiam que a faziam . Ao contrário, diziam que estavam defendendo o país da subversão comunista.
O capitão Bolsonaro pretende usar toda essa violência, mas não esconde essa intenção, a exemplo do coronel enlouquecido do filme do Coppola.
O que nos deve deixar horrorizado é que personagens como Bolsonaro só são possíveis porque as pessoas carregam esse sentimento de violência que ele externa, escondido dentro de si e que raramente admitem sua existência..
Bolsonaro funciona como uma catarse coletiva, permitindo que milhões de pessoas – seus eleitores – possam extravasar esses sentimentos menos nobres e continuarem convivendo na sociedade como pessoas aparentemente civilizadas.
Bolsonaro diz o que elas pensam, inclusive na forma tosca da linguagem que costuma usar, permitindo que elas possam continuar se comportando de uma forma normal em seus relacionamentos.
No filme analisado por Feinmann, o capitão Willard percebe que ao se aproximar do coronel Kurtz se aproxima da loucura que está dentro dele também, porque sabe que “o coração das trevas a que se dirige, é uma viagem ao seu próprio interior, até suas próprias trevas”.
Os eleitores do Bolsonaro se recusam a se aproximar das razões que os levaram a esse voto insano, porque sabem que isso os levará também a assumir a condição de pessoas violentas e irracionais.

A democracia no discurso de Tarso

O ex-governador  e  ex-ministro Tarso Genro é um dos poucos políticos brasileiros com talento e cultura suficientes, para ir bem mais além da maioria dos críticos de esquerda, que se limitam a adjetivar o governo de Bolsonaro.

Principalmente no espaço que ocupa semanalmente no Sul-21,  além da critica contundente às medidas anti-populares da dupla Bolsonaro/Guedes na área sócio econômica, Tarso tem se dedicado a alertar às pessoas para o viés de caráter fascista que emana principalmente das declarações do presidente e de seus ministros.

Ao contrário do fascismo clássico de Hitler e Mussolini, que      comandaram estados – Alemanha e Itália – fortemente nacionalistas  e que exerciam uma autoridade sem limites,o governo Bolsonaro é extremamente submisso ao imperialismo norte-americano  e obrigado a conviver com um parlamento e um judiciário pouco submissos à sua vontade política, além de uma imprensa formalmente independente.

Como antídoto a esse viés de caráter fascista, que Tarso identifica no atual governo, ele tem proposto um projeto nacional de aprofundamento democrático. A julgar pelos seus textos, sua proposta é da formação de uma frente de partidos e organizações que ocupem um espectro político que vai da esquerda socialista a um centro liberal, com o objetivo de defender a continuidade do atual processo democrático e se possível  aprofundá-lo.

Dentro dessa perspectiva, um elemento clássico do Marxismo, a luta de classes como um fator acelerador do avanço em direção a uma sociedade socialista, teoricamente o objetivo final das esquerdas, não faz parte do discurso de Tarso.

Possivelmente, ela possa estar imaginando que levantar essa bandeira agora, dividiria a oposição anti-Bolsonaro, embora a história ensine que sempre que os trabalhadores, teoricamente os representantes mais interessados no socialismo, se uniram a seguimentos da burguesia – os defensores do capitalismo – para derrotar uma força ainda mais reacionária, sempre foram esquecidos depois da vitória final.

É possível que Tarso tenha posto o objetivo de conquista do socialismo como uma meta muito distante e defenda hoje um modelo capitalista parlamentar aos moldes das democracias europeias como a Inglaterra, França, Espanha e Portugal, todas elas possíveis apenas dentro do capitalismo.

Só que esse modelo, que preza o bem estar social, parece estar com seus dias contados diante do novo e voraz capitalismo financeiro globalizado, que não respeita fronteiras nem direitos democráticos.

Com suas economias dependentes, os países da América do Sul têm mostrado nesses últimos anos que as parcas conquistas sociais dos governos reformistas dos primeiros anos do século, estão sendo derrubadas uma a uma, ora por processos eleitorais fraudados pelo poder econômico, ora por golpes parlamentares e até mesmo pela velha violência dos golpes militares.

Foi assim no Paraguai, com Lugo; no Brasil, com Dilma, no Equador, com Correa; na Bolívia com Evo Morales e no Uruguai, com Tabaré Vasquez. A eleição de Fernandez na Argentina pouco muda esse quadro e só foi possível porque Macri, como FHC, no Brasil, praticamente quebrou o país.

Logo, logo, ele será enquadrado pelas forças anti-populares que também são fortes no seu país. O seu discurso de posse foi um bom sinal de que ele entendeu o recado. Defendeu com ênfase o feminismo, uma bandeira de luta plenamente aceitável dentro do capitalismo globalizado e não falou nada sobre o enfrentamento ao imperialismo, além de ter dispensado a presença de Lula e Morales na sua posse, os dois mais importantes políticos defensores de uma política de compensações sociais.

Na última eleição presidencial brasileira, o candidato do PT, Fernando Haddad ao propor o que poderia ser a sua política sócio econômica, num dos seus poucos momentos de franqueza, disse que os benefícios dados aos trabalhadores nos governos de Lula e Dilma só foram possíveis porque a conjuntura econômica internacional permitiu isso, sem que fosse necessário tirar dos mais ricos, mas que agora isso não seria mais possível e que os ricos teriam que dar sua contribuição.

Talvez até por isso, não foi eleito.

Aliás, o próprio Lula, sentindo-se traído pela grande burguesia, disse mais de uma vez que nunca empresários e banqueiros ganharam tanto como nos seus governos.

Voltando ao discurso de Tarso.

Uma grande união para resistir ao governo Bolsonaro é possível e necessária, ampliar as conquistas democráticas é fundamental, mas tudo sem perder de vista que a conquista do socialismo  deve ser o objetivo final.

Há mais de 100 anos Rosa Luxemburgo disse que a opção ao socialismo, era a barbárie, ao que István Mészáros  acrescentou no seu livro Socialismo no Século XXI, que a barbárie podia ser a melhor das hipótese,  porque o que o capitalismo está gerando é a perda das condições de vida humana no planeta.

Nessa hora será preciso desmistificar mais uma vez o conteúdo de classe com que o status quo enxerga a democracia e dar a ela um sentido realmente progressista e revolucionário.

Um pequeno livro lançado há pouco pela editora Boitempo, recupera alguns discursos de Lenin sobre o tema,  principalmente nos debates que travou com Kautsky sobre a questão da democracia. Disse o pensador e revolucionário russo: “ A democracia representativa se tornou a forma padrão de dominação burguesa, funcionando para os trabalhadores como uma forma de ditadura de fato”.

“A menos que se queira zombar do bom senso e da história, não se pode falar em democracia pura enquanto existirem classes diferentes. Só se pode falar em democracia de classes”

Em outra passagem dos seus discursos, Lenin é mais explicito no que deve ser a posição dos trabalhadores sobre o tema: “Nós dissemos à burguesia: vocês, exploradores e hipócritas, falam de democracia, ao mesmo tempo que levantam a cada passo milhares de obstáculos à participação das massas  oprimidas na vida política. Nós pegamos vocês pela palavra e exigimos, no interesse dessas massas, a ampliação da sua democracia burguesa, a fim de preparar as massas para a revolução, para a derruba de vocês, exploradores”.

Lenin disse isso em 1917, no início do seu governo socialista, na Rússia. Será que seu discurso envelheceu e não faz mais sentido hoje?

Slavoj Zizek, o grande filósofo e pensador esloveno, pensa que não: “Esta é a grande lição de Lenin para os dias de hoje: paradoxalmente, é só problematizando a democracia – deixando claro que a democracia liberal a priori não pode sobreviver sem a propriedade privada capitalista –  que poderemos nos tornar verdadeiramente anticapitalistas”

Palavrão, o grande excluído

Nada exprime melhor um sentimento de indignação em relação a determinadas coisas, nem identifica com mais precisão certas pessoas do que um grande e sonoro palavrão.

Apesar disso, aprendemos cedo na vida familiar e principalmente na escola, que as boas normas do comportamento o excluem do nosso dia a dia, deixando-o para ele apenas um pequeno espaço naquela área escura e incontrolável que existe dentro de todos nós.

Mesmo assim, quando por um descuido nosso, ele explode com toda a sua força, mandam os bons hábitos de civilidade, que logo peçamos desculpas por deixá-lo vir à luz.

Enquanto na literatura brasileira, uso do palavrão sempre foi corrente e as ligas da moral e dos bons costumes pouco se preocuparam com isso, talvez porque o hábito da leitura da população sempre foi pequeno ou porque nos livros ele está inserido num diálogo pessoal (o autor e o leitor), nos demais meios de comunicação, a censura nunca baixou sua guarda.

Mesmo hoje, em tempos de grande liberalidade, onde até o chamado beijo gay chegou a televisão, um simples “vai à merda” continua interditado. No rádio, a mesma coisa. Em jornais e revistas, a rica e a quase sempre bem-humorada linguagem popular, cheia de adjetivos para ilustrar o comportamento das pessoas, é substituída pela língua culta, pernóstica, excludente e adjetivada.

A publicidade, a mais vigiada das atividades de comunicação, sempre foi ousada e criativa no Brasil, mas raramente ultrapassou os normas da boa educação na sua linguagem oral. Outro dia, parodiando estes limites, os canais de televisão exibiram uma campanha muito inteligente da Tigre, usando frases sem sentido para substituir os palavrões que a situação mostrada exigiria.

Com a ajuda do Luiz Octavio Vieira, lembrei que toda árvore é frondosa, toda a chuva copiosa, as paixões são doentias e o mocotó suculento, sempre substantivos e adjetivos que podem ser anunciados em voz alta sem ferir nossos padrões comportamentais.

É claro que essa discriminação contra o falar popular é também uma questão de classe, uma forma de ajudar na diferenciação de ricos e pobres. Os jornais e revistas são feitos para os bens nascidos, que no passado tinham dicionários em casa (hoje tem o Google) e que sabem o significado das palavras.

Procela, por exemplo, você não ouve ninguém falando na rua, mas pode encontrar em algum texto pretencioso (a plebe diria, com mais propriedade, metido a sebo), inclusive na minha página no facebook.

O cinema americano só foi se liberar da rígida censura moral imposta pelo chamado Código Hays (referência ao seu criador, Will Hays, um pastor presbiteriano) na década de 60, depois de durante 30 anos, interferindo na criação cinematográfica.

Segundo esse código, certos assuntos eram classificados como Dont´s ((proibidos) e outros como Be Carefuls (exigiam muitos cuidados para serem exibidos). Exemplo de assunto Dont´s: não casados dormirem juntos.

Quando assustado com algo insólito, um ator de um filme normalmente diria  “que merda está acontecendo”, o código mandava ele dizer: “macacos me mordam se isso é verdade”.

O código, naquilo que em que ele era mais rígido – a alusão ao sexo entre não casados – começou a ruir com a famosa cena do beijo nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Debora Kerr (ela, casada com o comandante da base militar onde Burt era um simples sargento) no filme A Um Passo da Eternidade (1953), de Fred Zinnnemann.

Outro tabu, as relações inter-raciais, foi quebrado no filme de 1957, Ilha dos Trópico, quando a branca Joan Fontaine beijou o negro, Harry Belafonte. Até então, mesmo nos filmes mais progressistas de Hollywood, brancos namoravam brancas e negros namoravam negras.

Hoje, liberado totalmente para fazer o que bem entende (obviamente um recurso mercadológico para enfrentar a televisão) o cinema americano está cheio de fucks you (ou fock you), ainda que você não consiga ler a sua tradução verdadeira nas legendas no Brasil.

Nos Estados Unidos, pode tudo, mas na Rússia, não pode mais nada. O Presidente Putin sancionou lei do Parlamento, proibindo o uso de palavrões em todos os meios de comunicação, da literatura ao cinema. Multa para quem transgredir a nova lei: 50 mil rublos, cerca de mil euros, ou 4 mil reais.

Enquanto a linguagem popular permanece banida dos principais meios de comunicação no Brasil, na literatura, ela não sofre restrições.

O professor Mário Souto Maior se deu ao trabalho de pesquisar o uso de palavrões pelo povo brasileiro e sua presença na nossa literatura.

Seu livro, O Dicionário de Palavrões e Termos Afins, colecionou 3 mil verbetes considerados chulos, mas sua edição em 1974 foi proibida pela censura militar e só chegou ao público em 1980.

Uma curiosidade revelada pelo livro é de que Jorge Amado é o escritor brasileiro que mais se socorre das palavras ditas obscenas em seus textos.

Para quem não leu o livro, vamos citar cinco delas, quase todas de uso corrente na terra de Amado, a Bahia, tentando traduzi-las com algum cuidado, para não ferir também aqui suscetibilidades.

Dar a Maricotinha – o doador de sexo anal

Fechar a cancela –  aposentar-se das práticas sexuais

Levanta cacete – mulher jovem e sensual

Papar – ter relações sexuais

Zebedeu –  o pênis.

Fica faltando um glossário rio-grandense para concorrer com o baiano, tarefa da qual o publicitário Roberto Pintaúde poderia se ocupar, já que há muito tempo vem divertindo seus admiradores com o uso sistemático da rica linguagem, dita chula, que nós gaúchos costumamos usar.

Para fechar de uma maneira elegante, mas não culta, esta página, vamos citar Antônio Carlos Jobim comentando sua experiência de viver no exterior, de uma forma pouco acadêmica.

“Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

 

 

A magia da realidade

O intelectual é por princípio um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase – “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (Deus não é grande), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

Em seu livro mais conhecido no Brasil (Deus – um delírio) Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais,

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

Dawkins propõe então chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.

 

O que você sabe sobre a Coréia?

Agora que a Coréia está novamente em evidência no noticiário internacional, talvez seja o momento adequado para falar um pouco da sua história milenar.
Embora já haja resquícios de ações de grupos humanos no período paleolítico, as primeiras formas de organização social na Península da Coréia aparecem por volta do ano 2.000 antes de Cristo, com o surgimento da dinastia Tangun, que governaria a região por 12 séculos, até a ocupação chinesa em 1.122 antes de Cristo.
A partir daí até o final do século XIX da nossa era, a história da Coréia registra uma série de retomada de reinos independentes e de ocupações chinesas.
No início do século XX, o Japão surge como a grande potência asiática. Em 1910, ele ocupa a Coréia e a transforma numa colônia. A partir da anexação, o japonês se torna língua oficial da Coréia e toda a sua produção industrial, já importante na época, é colocada a serviço da economia japonesa. A reação nacionalista, de início, pouco expressiva, cresce na medida em que o Japão aumenta o grau de exploração da colônia, até que explode em grandes manifestações em 1919, reprimida com extrema violência pelo Japão.
As lideranças nacionalistas coreanas se transferem então para Xangai, na China, onde organizam um governo no exílio, com o apoio expresso do governo americano, marcando o início da interferência dos Estados Unidos nas questões internas da Coréia.
Durante a segunda guerra, o Japão alistou 2,6 milhões de coreanos como força de trabalho. Mais de 700 mil pessoas foram enviadas para trabalhar em territórios ocupados pelos japoneses no exterior. Em janeiro de 1945, os coreanos representavam 32% da força de trabalho japonesa. Em agosto, quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, 25% dos mortos eram coreanos.
Com o fim da segunda guerra mundial na Europa e o anunciado colapso das forças japonesas no Pacífico, Estados Unidos e União Soviética decidiram na Conferência de Potsdam, em 1945, que elas dividiriam a Coréia em duas áreas de ocupação, os russos ao norte e os americanos ao sul, até que ocorresse a reunificação do país sob um governo independente, prevista para 1950.
É interessante notar que o modelo de divisão de um território ocupado pelo inimigo, no caso o Japão na Coréia, seguia o que fora acertado na mesma conferência em relação à Alemanha, também dividida em duas áreas de influência: o leste ficaria sob a tutela soviética e o oeste, sob controle de americanos, ingleses e franceses.
O início da guerra fria, já em 1945, esvaziou os planos de reunificação, tanto da Coréia como da Alemanha. Na Alemanha, o processo começou com a transferência, em 1948, do poder no lado ocidental para o partido liderado por Konrad Adenauer e a criação de uma nova moeda, o Deutschmark, ao que os soviéticos responderam no ano seguinte, apoiando a criação da República Democrática Alemã. A reunificação só se tornaria realidade 42 anos depois, em 1990.
Enquanto na Alemanha, apesar das constantes crises e ameaças de confronto armado, a paz foi mantida, na Coréia, as diferenças entre as duas zonas acabaram provocando uma sangrenta guerra entre 1950 e 1953, que quase provocou um novo conflito mundial.
Como no caso da Alemanha, a política americana foi a mesma na Coréia: apoiar o surgimento de um governo separatista na sua área de influência, invalidando a possibilidade de uma futura reunificação.
Impedidos de participar das discussões a respeito do seu futuro como nação, os coreanos, a partir de 1946 realizaram uma série de manifestações contra as tropas de ocupação, principalmente no Sul. A mais importante delas, ocorreu na Ilha de Jeju, onde cerca de 60 mil pessoas teriam sido mortas, levando as forças de ocupação americana a decretar a lei marcial no país.
Pondo fim a expectativa de um acordo que permitisse a reunificação, em 10 de maio de 1949 a Coréia do Sul realiza eleições que vão indicar Syngman Rhee (1875-1965) como presidente. A Coréia do Norte responde a 25 de agosto, escolhendo Kim Il-Sung (1912/1994), um herói da resistência contra os japoneses, como seu presidente.
Em junho de 1950, ano previsto para a reunificação da Coréia, tropas do Norte invadem o Sul e em poucos dias tomam a sua capital Seul.
Sob a bandeira da ONU, os Estados Unidos vão entrar na guerra e logo conseguem conter o avanço das tropas da Coréia do Norte e iniciam a invasão da área além do paralelo 38, a linha que separava as duas partes da Coréia a partir de 1945. Em setembro, a China entra na guerra ao lado da Coréia do Norte. A partir daí, o conflito vai oscilar com vitórias parciais dos dois lados, até que um armistício é assinado em 1953 e a Coréia volta a ser dividida pelo paralelo 38, como está até hoje.
O trágico saldo dessa guerra, além da imensa destruição das riquezas do país, foi a morte de 1milhão e 200 mil pessoas, entre coreanos, chineses e norte-americanos.
Uma lição que se espera que as partes envolvidas no conflito atual levem em consideração, antes que a situação chegue a um ponto em que não haja mais a possibilidade de um acordo de paz duradouro
Para os coreanos, deve valer o mesmo que alimentou os sonhos dos alemães durante anos, o de viver num mesmo país, unificado e em paz.

O MEU E O NOSSO

Quando os homens começaram a se fixar na terra e se transformaram de caçadores em agricultores, começou também a divisão entre os que, por serem mais fortes, mais inteligentes ou que tiveram mais sorte, ficaram com as melhores terras e prosperarem, enquanto outros – a maioria – fracassaram.

Os que prosperaram trataram rapidamente de garantir seu poder, organizando as primeiras forças policiais para defender o que consideravam somente seu e por extensão, de suas famílias e  de seus filhos.

A partir daí, passando pelos vários ciclos econômicos em que viveu a humanidade, do escravismo ao capitalismo, o grande problema foi sempre manter passivos os excluídos dos bens materiais que iam sendo gerados.

A partir de determinado momento, os proprietários se deram conta que a coerção policial seria incapaz de manter incólume para sempre essa ordem injusta.

Era preciso convencer os excluídos que isso acontecia por uma razão maior, que era independente da vontade das pessoas.

Durante séculos e até hoje, a religião serviu para isso. O ópio do povo, como definiria mais tarde com precisão, Karl Marx.

Mas, o advento do capitalismo trouxe com ele também o seu coveiro, o proletário, mais uma vez lembrando Marx.

É dele também a justificativa ética para o que antes era apenas a cobiça pelos bens do próximo.

É preciso dividir entre todos o que alguns pensam que é só seu.

O Meu precisava ser substituído pelo Nosso.

O século XX viu essa verdade transformada em bandeira de luta de milhões de pessoas no mundo inteiro, culminando com a revolução de 1917, na Rússia.

Não bastavam agora para convencer os excluídos a aceitar a exclusão, as forças de coerção de policial, ou o consolo da religião.

Então, como dizia a aquele velho ditado “é preciso dar os anéis para não perder os dedos”, foram surgindo os “estados do bem estar social”,com limites de exploração nas horas trabalhadas, mais férias, aposentadoriasm e outros direitos.

Mas o exemplo da revolução russa, com o surgimento da União Soviética, ainda assombrava o mundo.  Era preciso desconstruí-la na mente dos trabalhadores, para os quais ela foi feita, principalmente depois da Segunda Guerra, quando,  praticamente sozinha , derrotou a wehrmacht nazista, a maior máquina de guerra jamais montada no mundo.

Começou então um extraordinário esforço de comunicação, capitaneado pelos Estados Unidos para vender, principalmente através do cinema, para o mundo inteiro o chamado ‘ameircan way of life’, basicamente a defesa de um individualismo feroz, em que os mais inteligentes e hábeis são sempre premiados e os perdedores, a maioria, são perdedores por sua exclusiva culpa.

Nesses últimos anos, estamos assistindo esse esforço de comunicação romper todas s barreiras éticas que ainda existiam, e se tornar cada vez mais poderoso, com a utilização das redes sociais para impor formas de governo e governantes comprometidos a manter a maioria da população excluída dos bens que a tecnologia criou para todos.

No Netflyx e no youtube há dois documentários – Hackeando a Privacidade e Driblando a Democracia que, se referindo aos mesmos personagens – Robert  Mercer e Steve Bonnon –  e as mesmas empresas  – Cambridge Analytic e o Facebook –    mostram com detalhes como foram fraudadas  as eleições americanas em benefício de Trump,nos Estados Unidos e o Brexit, na Inglaterra e mais adiante na eleição de Bolsonaro no Brasil.

O processo se sofisticou. A tentativa de conquistar a adesão das pessoas, feitas no passado através da exposição de pseudos valores de uma sociedade – a democracia capitalista – em  oposição à “ditadura” comunista – hoje é feita de uma maneira em que o eleitor/consumidor está completamente indefeso, vítima do que poderíamos chamar de algoritmos do mal.

Ano que vem teremos eleições municipais no Brasil e certamente, ainda que em menor escala, serão também corrompidas por esse processo espúrio de influência sobre a mente dos eleitores.

Seria trágico que os partidos de esquerda participassem desse jogo, como se fosse um processo eleitoral confiável, (como parece que vai acontecer, a acreditar o que dizem seus líderes a começar por Lula), em vez de aproveitar  o tempo na mídia para denunciar toda essa farsa.

 

Apenas um sonho impossível?

Em março de 2013, o ex-deputado Carlos Araújo, deu um depoimento para a Comissão da Verdade, no qual denunciou que, quando foi torturado em São Paulo, durante a ditadura militar, na década de 70, empresários ligados à FIESP, além de financiarem os órgãos repressores, como a OBAN e o DOI-CODI, assistiam as sessões de tortura.

Talvez quisessem, como é típico dos capitalistas, conferir se o seu dinheiro estava sendo bem empregado.

O caso mais emblemático dessa participação de empresários em sessões de torturas foi o do empresário dinamarquês, naturalizado brasileiro, Henning Albert  Boilensen. Segundo testemunhos de presos, Boilensen, diretor do Grupo Ultragás, além de participar das sessões, teria contribuído com a criação de uma nova ferramenta de tortura, chamada Pianola de Boilensen, uma espécie de teclado que emitia choques elétricos ao ser tocado.

Boilensen foi justiçado em 15 de abril de 1971 por militantes da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Além dele, também são citado como financiadores da OBAN empresários dos grupos Ford, GM, Camargo Corrêa, Objetivo, Folha e Bradesco.

A ação desse grupo de empresários, numa época em que o recrudescimento da ditadura militar gerou uma resistência armada e com ela uma forte instabilidade política, está dentro da ótica capitalista de usar o Estado para conquistar seus objetivos de classe. Na década de 70, principalmente, ela se mostrava com uma crueldade sem disfarces, porque havia um visível conflito de interesses de classes.

Com o fim da ditadura e a democratização das atividades políticas, mudaram os métodos, mas o grande empresariado jamais abriu mão de usar as ações do Estado para seu benefício.  Através da mídia e das igrejas conservadoras, foi “vendido” ao povo brasileiro a idéia de que o único caminho possível para o país era o modelo capitalista de produção, que ao contrário do socialista, geraria ganhos para todos e era mais democrático.

Mesmo os governos progressistas de Lula e Dilma, jamais avançaram em medidas de caráter socializantes, como fizeram os governos de Allende, no Chile, no passado e de Chavez, na Venezuela e Morales, na Bolívia, mais recentemente.

Em vez disso, financiaram o capital privado com juros subsidiados e a contratação de grandes obras públicas, apostando na geração de mais empregos e na melhoria das condições de vida dos mais pobres.

Fruto de décadas de lavagem cerebral, hoje a ideia de um caminho socialista para o Brasil parece algo extremamente distante. Os partidos que poderiam ergue esta bandeira, nem inscrevem mais esta proposta em suas plataformas.

Mas, nem sempre foi assim. Quando terminou a segunda guerra mundial as grandes vitórias da União Soviética, responsável maior pela derrota do nazismo, difundiram no mundo inteiro as idéias igualitárias do comunismo. Embora o grande esforço americano de valorizar a sua atuação e a dos ingleses na segunda guerra, a verdade histórica é que a Wehrmacht  foi destruída pelo Exército Vermelho em memoráveis batalhas.

O famoso Dia D, com o desembarque dos aliados na Normandia, em junho  de 44, foi feito quando os alemães já estavam praticamente vencidos e ele só ocorreu porque ingleses e americanos temiam que os russos, na sua ofensiva contra a Alemanha pudessem chegar a libertar toda a Europa Ocidental. Churchill e Roosevelt adiaram quanto puderam a abertura de uma segunda frente na Europa, calculando que a continuidade da guerra entre russos e alemães exauriria os dois lados, deixando o campo livre para americanos e ingleses assumirem liderança do mundo com o fim da guerra.

Em 1945, a imagem da União Soviética e do caminho socialista de governo eram extremamente simpáticos à maioria das pessoas no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Um bom exemplo disso era o nosso poeta maior, Carlos Drummond de

Andrade, que depois de enaltecer a vitória dos soviéticos em Stalingrado, termina assim o seu poema: O poeta Declina de toda responsabilidade  / Na marca do mundo capitalista  / E com suas palavras, instituições, símbolos e outras armas / Promete ajudar / A destruí-lo / Como uma pedreira, uma floresta, Um verme”.

.Nas eleições de 1945, Luís Carlos Prestes, talvez o político brasileiro de mais prestígio na ocasião, preferiu não arriscar-se na disputa pela presidência, e indicou o desconhecido Yedo Fiúza, prefeito de Petrópolis, para concorrer em seu lugar, pela legenda do PCB. Fiúza fez mais de 570 mil votos, contra 3 milhões e pouco de Dutra, que foi eleito e 2 milhões do brigadeiro Eduardo Gomes. A estratégia do PCB foi de formar bancadas numerosas nas Assembleias Estaduais, na Câmara e no Senado, o que de fato ocorreu.

Para combater a imagem de que o caminho socialista era uma alternativa viável, os Estados Unidos desfecharam uma imensa campanha publicitária no mundo inteiro, investiram milhões de dólares na transformação da Alemanha Ocidental numa vitrina colorida diante da cinzenta Alemanha Oriental, refizeram alianças com adeptos do fascismo, como Franco na Espanha e Salazar em Portugal e usaram a força armada quando essas alternativas não eram mais possíveis, como na deposição de Mossadeh, no Irã.

O cinema foi a grande arma para vender no mundo inteiro o famoso “american way of life”, onde todos os sonhos eram possíveis, em oposição ao socialismo dos soviéticos, onde o “Estado dizia o que cada pessoa devia fazer no seu dia-a-dia”. Até mesmo a pintura, uma arte aparentemente não politizável, foi utilizada para vender o conceito de liberdade dos americanos. O pintor abstracionista Jackson Pollock confessou que ele mesmo não entendia seu prestigio, já que se considerava um artista de entendimento difícil pára os leigos. A explicação veio mais tarde quando se descobriu que suas exposições no mundo inteiro tinham o patrocínio do governo americano, que via no seu abstracionismo uma resposta libertária à pintura

figurativista dos russos, que seria fruto de uma determinação do Estado. Mesmo aqui em Porto Alegre foi possível assistir-se de graça no auditório da reitoria da Universidade Federal a grande orquestra sinfônica de Nova York, regida por Dimitris Mitropoulos. Certamente não foi a reitoria quem pagou seus cachês.

Essa grande ação de mídia, enaltecedora das virtudes da sociedade capitalista era combinada com uma forte repressão interna para quem ainda sonhasse nos Estados Unidos com o ideal socialista. A famosa comissão liderada pelo senador Joseph McCarthy acusou de comunista e interrompeu as carreiras de importantes nomes das artes nos Estados Unidos, principalmente no cinema, que era a ponta de lança da divulgação dos chamados “ideais americanos”. Além de Charles Chaplin, o mais famoso de todos, foram processados os escritores Arthur Miller e Dashiell Hammett, a cantora e atriz Judy Holliday, o diretor de cinema Edward Dmytryk, e o roteirista Dalton Trumbo, entre outros. A acusação de serem espiões dos russos levou à cadeira elétrica os cientistas Julius e Ethel Rosemberg.

Este enorme esforço de convencimento das pessoas no mundo inteiro conseguiu transformar em poucos anos a imagem da União Soviética e por conseqüente da proposta socialista de organização social, de libertadora dos povos na segunda guerra naquilo que Churchill chamou de “a cortina de ferro”.

Mesmo assim, todo esforço não seria suficiente para liquidar com a experiência socialista no leste da Europa, se além dele e também dos reconhecidos erros dos dirigentes soviéticos, não tivesse a União Soviética tentado acompanhar a corrida armamentista desencadeada no governo Reagan e com isso exaurido sua economia, tornando cada vez mais difícil atender as necessidades das suas populações.

O fim da União Soviética não é, porém, como afirmam os defensores do capitalismo, o fim do ideal socialista. A cada dia fica mais claro que as nações europeias, depois que viram secar as possibilidades de exploração colonial na África e na Ásia, nunca mais recuperaram seu antigo esplendor e vivem hoje atreladas às decisões norte-americanas. Os Estados Unidos, por sua vez, só fazem funcionar sua economia levando a guerra aos confins da terra, como foi no passado o Iraque e Afeganistão. Mas essas soluções cobram sempre um custo posterior muito alto.

Quando as crises sistemáticas, provocadas pelo beco sem saída que o sistema capitalista gerou no mundo, são cada vez mais seguidas, com a destruição de riquezas e empobrecimento das populações, não há como não pensar na alternativa do socialismo, mesmo para o Brasil.

 

As não pessoas

No seu livro Vida Precária, um dos ensaios de Judith Butler é sobre a existência de pessoas detidas por prazo indefinido, pelos Estados Unidos na base de Guantanamo, sem quaisquer direitos ,mesmo o de serem julgados por algum tipo de crime.

Nem prisioneiros de guerra eles são considerados pelo tratado de Genebra. São não-pessoas, que mesmo assim sofrem os mais diversos tipos de tortura.

A base de Guantanamo, um território de 116 Km2, teoricamente fica sob jurisdição de Cuba, mas desde 1903 foi arrendada de forma permanente pelos Estados Unidos. Pelo acordo os americanos pagam anualmente 4 mil dólares ao governo cubano. Desde a revolução cubana de 1959 o governo de Havana devolve esse cheque ao Tesouro Americano.

Em 1942, depois do ataque a Pearl Harbor a ilha recebeu milhares de americanos filhos de japoneses. A partir de 2002 começou a receber combatentes islâmicos do Afeganistão.Os campos de segurança máxima, onde foram comprovados vários tipos de tortura, chegaram a ter 700 presos, mas hoje seu número não passa de 40.

Obama havia prometido desativar a prisão, mas Trump não concordou com a medida.