Meu amigo, Pinta

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No mundo fantasioso da publicidade, não são poucos os que se intitulam criativos, alguns até nem se envergonham se proclamarem gênios.

Eu vivi uns 30 anos nesse meio, onde sempre me considerei um competente trabalhador intelectual, fazendo algo que muitos outros poderiam fazer e até melhor.

Os que se auto proclamam criativos, na maior parte das vezes eram re-leitores de criações alheias, adaptadores de obras feitas e muitas vezes meros plagiadores.

Convivi com algumas exceções.

Talvez arriscando cometer algumas injustiças, lembro do Beto Soares, do Flávio Teixeira e da Graça Craidy. Mas nenhum foi maior do que o Pinta – o Roberto Pintaúde – nessa área.

Ele está para a publicidade gaúcha, como o Luís Fernando Veríssimo está para a crônica. Nem sei se suas peças foram eficientes em ajudar seus clientes, o que afinal é o objetivo da propaganda. Mas o que criou para a loja Homem e para diversos motéis são peças que ultrapassam a mera publicidade.

Acho que nem eram coisas racionais dentro dos critérios de comunicação.

O Pinta, como diziam no passado, deve ter um parafuso a menos ou a mais e isso é que faz a diferença.

Ele não pensa e não cria como os outros. A sua lógica, ou falta de lógica, é diferente. Ele é um ser anárquico que não segue os padrões habituais. Talvez até por isso não tenha se transformado num empresário de sucesso na área de propaganda, como tantos outros

Nos conhecemos na Famecos, onde ele foi meu aluno, depois o acompanhei como concorrente em outras agências e nos reencontramos há pouco quando ele lançou uma nova ideia maluca, uma “rádia”, isso é uma rádio web feminina.

Por que estou escrevendo isso agora? Porque nós dois estamos num grupo de risco (velhos) e ele ainda está com problemas de coração no Cardiologia. Espero que ainda estejamos vivos nos próximos anos, mas não custa deixar logo registrada a admiração, e um pouco de inveja, que tenho pelo seu talento.

O Partido do Exército

O grande partido político brasileiro se chama Partido do Exército.
Sua hegemonia começou com o advento da República em 1889 e veio se consolidando com o passar dos anos.
Inicialmente era um partido segmentado em várias correntes de pensamento e com objetivos diferentes. Essa fragmentação se tornou explícita na década de 20, quando os segmentos mais baixos da oficialidade se tornaram, em grande parte revolucionários.
O fato mais revelador dessa tendência foi a Coluna Prestes.
Com o governo Vargas, começou a consolidação do Exército como o partido da Ordem, embora ainda houvesse focos de subversão dele, como foi o caso do movimento de 1935 feito sob a liderança da Aliança Nacional Libertadora e com a presença forte de militares.
Com o início da Guerra Fria e a polarização do mundo entre dois caminhos opostos – o socialismo e o capitalismo – o Exército Brasileiro foi cada vez mais sendo usado como uma poderosa força destinada a manter o status quo, não importando mais quanto isso significasse de injustiças sociais.
Sob influência direta dos Estados Unidos, que começaram a treinar os oficiais brasileiros, o Exército se tornou um partido de centro de direita, destinado a preservar a ordem social na medida em que representava apenas o interesse do imperialismo.
A última vez em que o Exército se dividiu foi em 1961 com o movimento da Legalidade.
Três anos depois, ele decidiu que não mais seria representado no poder por políticos civis e assumiu o governo por longos 21 anos e só deixou o comando do país para os civis, quando um grande pacto o transformou num moderno Poder Moderador, pronto para intervir em casos que achasse necessário.
Isso ocorreu recentemente, quando o seu comandante, o general Villas Boas interveio diretamente no pleito eleitoral que se aproximava, garantindo o afastamento do candidato indesejado – Lula – e assegurando a possibilidade de vitória do candidato preferido – Bolsonaro.
Nos dias atuais, mais do que nunca, é o Partido do Exército a grande força de sustentação de um dos governos mais incapaz e corrupto da vida política brasileira.
Nesses mais de 100 anos de República, outros partidos foram se formando e em algum momento,tiveram grande importância política o Brasil.
Vamos falar de alguns deles.
O Partido Religioso sempre foi um dos mais ativos.
Representado pela Igreja Católica, inicialmente, ele agiu durante muito tempo como linha auxiliar dos governos conservadores , como na ditadura de Vargas, mas depois assumiu um papel ativo na preparação do golpe de 64, quando mobilizou multidões contra o governo Jango.
Durante a ditadura a Igreja Católica perdeu a sua unidade interna, com o surgimento de forças de esquerda no seu seio e hoje tem pouca importância na definição dos rumos do Pais.
Quem comanda o Partido Religioso no Brasil são as igrejas evangélicas. Cabe a elas um papel muito claro: mobilizar seus crentes em defesa de políticos populistas de direita e assumir o papel que foi da Igreja Católica de funcionar como o verdadeiro ópio do povo.
Outro grande partido que só tem crescido na vida política brasileira é o Partido da Mídia. Com o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação, primeiro o rádio, depois da televisão e agora as chamadas mídias sociais, o Partido da Mídia se tornou um agente político de grande expressão. Até há poucos atrás mobilizado na defesa dos interesses da alta burguesia e do imperialismo, sua fragmentação atual e a concorrência entre seus representantes, tem feito diminuir sua capacidade de atuar numa só direção.
Finalmente, o outro grande partido, que deveria historicamente liderar a maior parcela da população é o Partido Operário, que foi com o passar dos anos perdendo sua força política.
Seu período de maior expressão foram anos que se iniciaram com o governo democrático de Vargas em 1950 e se prolongaram até o golpe de 64.
Principalmente durante o governo de João Goulart, por inspiração dos comunistas, o Partido Operário ganhou enorme força nas decisões políticas do período. Suas lideranças, com os primeiros embriões das centrais sindicais (o CGT foi criado em 1962) eram ativas participantes das decisões políticas.
Com o golpe de 64 e a ditadura militar, o Partido Operário foi dizimado e sua vocação revolucionária, ao menos na teoria, liquidada. O que surgiu durante a ditadura e ganhou força depois da democratização, foi um Partido Operário dirigido por sindicatos que ajudaram a consolidar o sistema capitalista.
Sob a liderança do PT, o Partido Operário ganhou extraordinária força eleitoral, mas sempre operou dentro das regras do sistema, se limitando a pleitos de cunho salarial.
A margem da lei e fora de um caráter público, crescem outros partidos que vão ganhando força na vida brasileira e começam a influir na sua vida política. Dois deles podem ser lembrados, o Partido das Milícias, usado como força auxiliar pelo governo Bolsonaro e pelos governos estaduais afins, principalmente no caso do Rio de Janeiro e o Partido Bandido, que começou centrado no Jogo do Bicho (no Rio era o grande promotor do carnaval) e que migrou para o tráfico de drogas.
Caso alguém lembre o Partido Parlamentar, o Partido dos Negociantes ou o Partido da Justiça, é bom que se diga que seus líderes representam, em suas origens, os partidos do Exército, da Mídia e da Religião e politicamente agem na defesa dos seus interesses específicos.

Bolcheviques x Mencheviques

 

Tarso Genro é seguramente, de todos os políticos brasileiros, um dos poucos que enxerga a política além das disputas eleitorais.

Hoje, no Sul 21, ele se dispõe a responder aquela famosa pergunta de Lenin sobre a revolução soviética, “o que fazer ?”.

Diz ele, no fechamento do seu texto: “Construir uma doutrina nova do partido emancipacionista, adequada aos tempos presentes, exige revisar os termos do dissenso – dado em plena segunda revolução industrial- entre bolcheviques e mencheviques. Por dois motivos fundamentais: primeiro, esta segunda revolução já expeliu do seu ventre uma terceira; e segundo, os dois modelos que dali emergiram podem ter deixados saudades, mas o mundo social que os contempla é inteiramente outro. E os vê como melancolia do tempo presente”.

Para quem não estudou a Revolução de 17, os dois grandes partidos socialistas da época eram os bolcheviques e os mencheviques. A grosso modo, os bolcheviques queriam fazer a revolução, aproveitando a guerra, a fome no campo e a fraqueza da burguesia russa e depois tratar de construir o socialismo; os mencheviques queriam uma república parlamentarista para esgotar o modelo capitalista e depois fazer a revolução, numa leitura inadequada de Marx para as condições russas. (Trotsky era menchevique no início e depois se passou para o lado dos bolcheviques).

A conclusão de Tarso é imobilizadora, na medida que afirma que os tempos são outros. Obviamente que são na aparência, mas a oposição fundamental continua sendo a mesma, a luta de classes, ainda que obscurecida entre o capital e o trabalho.

Ele mesmo, em outros artigos, tem mostrado quanto é falaciosa a existência de uma classe intermediária entre os dois extremos, gerada pelo mundo tecnológico.

O neologismo “uberização”, que ele mesmo já denunciou, mostra que o conflito é o mesmo, ainda que com uma roupagem nova e o que precisa ser mudado,não são os objetivos da luta, mas suas estratégias.

A falta que os comunistas fazem

Um país civilizado pode administrar sua economia entregando o seu controle à iniciativa privada (sistema capitalista) ou pode socializá-la deixando que a sociedade comande os meios de produção (sistema socialista). Entre um e outro extremo, temos algumas variantes, dependendo de uma maior ou menor participação do Estado na economia e o controle que sobre ele exercem as classes sociais em que se divide o país.

Para efeito da discussão a que se propõe este texto, vamos deixar de lado as tais variantes e nos concentramos nas duas extremidades. Vamos considerar também, que a possibilidade de opção entre capitalismo e socialismo só é viável numa sociedade razoavelmente desenvolvida, onde os meios de produção já tenham alcançado umcrescimento que permita vislumbrar a existência de classes sociais com interesses antagônicos.

O Brasil, uma das maiores economias do mundo, embora ainda atrelada aos interesses do imperialismo norte-americano, tem, mesmo que teoricamente, condições materiais de oferecer a sua população a possibilidade de optar entre os dois sistemas: o capitalista e o socialista.

Por que isso não acontece? E mais, por que simplesmente quem se dispuser propor publicamente esta questão, dificilmente seria levado a sério?

As experiências socialistas no mundo inteiro não deram certo, dizem os defensores da realidade capitalista em que vivemos, certamente porque não acreditam na famosa frase de Rosa Luxemburgo, “Socialismo ou Barbárie”,  que Istvan Meszáros usou como título de seu livro, acrescentando uma data, “No século XXI”

É possível que historicamente tenham razão, na medida que considerarem a experiência na União Soviética um fracasso, embora o retorno dos países que formavam esta confederação ao sistema capitalista tenha outras causas que não caberia examinar aqui.

Por que então a possibilidade de um Brasil socialista não é mais colocada, nem ao menos para uma discussão teórica, a não ser por parte de pequenos grupos inexpressivos politicamente?

Embora ainda hoje persistam partidos políticos que ostentam em seus nomes uma referência ao socialismo (PSB e PSOL), ou ao trabalhismo (PT e PDT) e outros ainda carreguem a velha sigla dos comunistas (PCdoB), todos eles não passam de agremiações que pretendem apenas uma reforma na sociedade capitalista em que vivemos, melhorando no possível e quando possível, a vida dos trabalhadores.

Com todos os seus grandes equívocos políticos, os comunistas, principalmente depois da segunda guerra, empurravam os governos brasileiros para a esquerda e ofereciam, quando a legislação eleitoral assim o permitia, a opção por propostas de caráter socialista.

Nas eleições de 1945, o desconhecido Yedo Fiuza, apoiado pelos comunistas, quando Dutra foi eleito presidente, recebeu cerca de 10% dos votos. Na mesma ocasião Luís Carlos Prestes foi eleito senador e mais 17 membros do PCB foram eleitos para a Câmara Federal, provando a força dos comunistas, que surgiam como um partido capaz de disputar a hegemonia política no Brasil com o PSD, PTB e UDN.

Um ano depois todos os seus representantes seriam cassados e o partido colocado na ilegalidade. Mesmo assim, o PCB, ainda que na clandestinidade, continuou interferindo na vida pública do País, pressionando os governos a adotar posições mais à esquerda do que suas composições políticas pareciam indicar.

Foi assim no segundo governo Vargas, com Juscelino e principalmente com Jango, quando Prestes acreditava que seu partido, de alguma maneira, ainda que reservadamente, já fazia parte do governo.

O golpe militar de 1964 praticamente liquidou com o partido e quando a democracia formal foi retomada, 20 anos depois, a influência dos comunistas praticamente desapareceu.

Seu lugar foi ocupado pelo PDT de Brizola e o PT de Lula, partidos que, apesar de compromissados com a melhoria de vida dos mais pobres, sempre tiveram um horizonte político limitado pelas ideias reformistas e não revolucionárias dos seus líderes.

Depois do quarto governo do PT, quando o partido, acuado pela reação da extrema direita, adotou políticas cada vez mais contrárias aos interesses dos trabalhadores e finalmente com a chegada ao poder de um grupo que flerta publicamente com o fascismo, seria importante a existência de um partido que de forma radical, ainda que utopicamente, erguesse a bandeira do socialismo.

É essa, a falta que fazem os comunistas.

 

Os últimos passos de um homem.

 

Certamente Jair Bolsonaro jamais verá esse filme, nem os milhares de brasileiros, que como ele, defendem a pena de morte.
Mas deviam.
Em 1995, Tim Robbins, Susan Sarandon e Sean Penn, estiveram juntos no filme Os Últimos Passos de Um Homem (Dead Man Walking).
Tim Robbins, um excelente ator, como provou em “Sobre Meninos e Lobos” (Mystic River), de Clint Eastwood e em “Shorts Cuts – Cenas da Vida”, de Robert Altmann, foi o diretor do filme e com ele ganhou o Oscar da Academia como o melhor diretor do ano.
Sean Penn, também de Sobre Meninos e Lobos e Milk, ganhou o prêmio de melhor ator
Susan Sarandon, a inesquecível atriz de Thelma e Louise, recebeu o Globo de Ouro como melhor atriz.
Em comum, os três tinham, além do enorme talento, também o ativismo em defesa das boas causas políticas nos Estados Unidos.
A luta contra a pena de morte é uma dessas boas causas.
Os Estados Unidos são único país do Ocidente onde a pena de morte ainda figura na legislação de 30 dos seus 50 Estados.
Entre 1975 e 2015, foram executados 1.447 presos, dos quais 541 no Texas.
Além da barbárie da punição, existe sempre o risco de estarem sendo condenadas pessoas inocentes. Nos últimos 40 anos, 151 pessoas condenadas à pena capital, foram inocentadas posteriormente.
Hoje a maioria das execuções nos Estados Unidos é através de uma injeção letal. A última execução por qualquer outro método que não a injeção letal, ocorreu em 2013, na Virgínia, onde o prisioneiro Robert Gleason foi executado na cadeira elétrica.
No passado, o método mais utilizado era a cadeira elétrica, mas também já foram utilizados câmara de gás, enforcamento e fuzilamento.
Pesquisa do Pew Research Center, há dois anos, revelou que 56% dos americanos ainda são favoráveis à pena de morte. Há 20 anos, esse percentual era de 78%.
Além de todos os motivos humanitários contra a pena capital, os legisladores americanos se inclinam em alguns estados pela sua erradicação pelos seus altos custos.
Um estudo no estado do Kansas, revelou que o custo de uma sentença capital era até 70% mais alto que uma condenação ao cárcere.
O principal argumento pelo fim da pena de morte, no entanto, é o fato de que ela simplesmente não funciona – não, pelo menos, na redução da criminalidade. Exemplo: nos estados americanos que adotam a pena, o índice de assassinatos por 100 mil habitantes é maior que o registrado nos outros estados que não adotam

É preciso salvar a História, dos historiadores.

É preciso salvar urgentemente a História dos historiadores, assim como a política, dos políticos; a medicina, dos médicos, a economia, dos economistas, a justiça, dos juristas e assim por diante

Quem já fez um curso universitário de História, sabe que os mesmos fatos e seus personagens (da História do Brasil por exemplo), começam a ser contados nos primeiros anos do colégio e só terminam na universidade, como se fosse uma novela de televisão que se desdobra em vários capítulos

A cada ano que se avança, novos dados são acrescentados a biografia dos heróis e os fatos ganham um desenho mais completo.

Começa assim: Dom Pedro proclamou a independência do Brasil a 7 de setembro de 1822 às margens do arroio Ipiranga, em São Paulo e termina com uma análise do comportamento pessoal do Imperador, a influência de José Bonifácio e as intrigas das cortes no Rio e em Lisboa.

Com certo exagero, algumas vezes, se chega ao detalhamento das condições do ambiente que cercava o imperador naquele momento crucial de sua vida, quem eram os acompanhantes, como estavam vestidos e a que hora realmente Dom Pedro bradou: ”Laços fora, soldados! Independência ou Morte, seja a nossa divisa”

Muitas vezes se faz apenas a tradução em palavras do que Pedro Américo já mostrou em seu quadro famoso. O máximo que se diz, fora da descrição linear do fato histórico, é um exercício barato de psicologia sobre os sentimentos de prepotência de quem preferia ser rei no Brasil do que príncipe em Portugal, com pitadas de conhecimentos sobre a conjunção de interesses existentes na época entre o imperialismo inglês e os defensores da independência na colônia.

Outro exemplo (verídico) dessa superficialidade: numa aula de História da América, o professor – falando sobre a chegada de Colombo na nova terra – faz uma pergunta que ele imagina importante para o conhecimento do aluno: o que Rodrigo de Triana, na madrugada de 12 de outubro de 1492, viu do alto da gávea da caravela Pinta?

Para esta pergunta, só havia uma resposta certa: uma luz bruxuleante no horizonte.

Esquecendo o ensinamento de Plekhanov (1856/1918) de que “a história decorre de leis objetivas, mas os homens fazem história, na medida em que atuam, avançando ou retrocedendo em função dessas leis”, o foco principal se localiza, quase sempre no relato dos feitos dos grandes homens que lideraram guerras ou revoluções.

Nada contra essa postura. Ela, porém, é incompleta, mas, certamente, é ainda melhor do que a atual moda de minimização dos grandes feitos históricos, substituídos pelos acontecimentos do cotidiano, como é comum dos novos filósofos e comunicadores franceses.

O correto seria inserir cada um dos grandes personagens da História na vida real de suas épocas, seus condicionamentos sociais, políticos e econômicos e analisar as razões e contra- razões de suas atitudes, avaliar suas consequências e inferir até que ponto elas tiveram maior ou menor relevância para o avanço ou retrocesso do processo histórico.

Tomemos, apenas como motivação para um debate o que está sendo dito por historiadores sobre e os personagens da “Santíssima Trindade Soviética”: Lenin, Stalin e Trotsky.

O último, até porque muito cedo foi afastado do poder na União Soviética e pode assim se transformar numa fonte viva de informações sobre a revolução de 1917, ganhou uma biografia exemplar de Isaac Deutscher com a sua trilogia: “O Profeta Armado, Desarmado e Banido”.

Lenin e Stalin, entretanto, enquanto perdurou a URSS, mereceram apenas biografias laudatórias, despidas de qualquer espírito crítico. Com o fim da União Soviética e a abertura dos arquivos mantidos em segredo até então, imaginava-se que com todo esse material, os historiadores poderiam, enfim, traçar uma história dos 60 anos de vida da experiência soviética e o que fizeram ou deixaram de fazer seus líderes.

Duas das obras mais badaladas sobre estes líderes soviéticos são; “Stalin – a Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore e “Lenin – a biografia definitiva”, de Robert Service.

O primeiro – vencedor do prêmio de melhor livro de história do British Book Awards de 2004 – se perde nas minúcias da vida privada de Stalin e transforma sua atuação nos grandes expurgos de 1937, na Segunda Guerra e no fortalecimento do seu poder pessoal, num enredo digno da Revista Caras.

Stalin manda matar seus antigos companheiros de revolução, mas, ao mesmo tempo é um pai de família carinhoso. Isso pode ajudar a conhecer a dubiedade de um ser humano, mas é pouco importante para entender o grande (para o bem e para o mal) personagem histórico.

O livro sobre Lenin, do também professor inglês, Robert Service, apesar do otimismo do subtítulo – a biografia definitiva – é ainda mais detalhista em determinados períodos da vida do grande líder revolucionário russo – como no caso da execução do seu irmão mais velho, acusado de ações terroristas contra o czar – mas perde de vista os grandes feitos de Lenin como condutor da Revolução de Outubro, suas motivações e consequências. Além de tudo, o autor faz questão de manifestar suas posições anticomunistas, típicas do período da guerra fria, que não condizem com a sua pretensa objetividade.

Para quem estiver interessado nesses três personagens, aqui vão algumas sugestões: sobre Trotsky, além de Deutscher   é preferível que leia até uma obra de ficção como “O Homem que Amava os Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, muito mais interessante do que os livros de alguns historiadores oficiais.

Sobre Lenin e Stalin, ninguém é melhor do que Slavoj Zizek, ainda que, sua obra, “Às Portas da Revolução” – cubra apenas um período da vida de Lenin– os preparativos e o desfecho da revolução e “Em defesa das causas perdidas”, Stalin é mais um dos inúmeros personagens que povoam o livro,

Algumas frases soltas sobre Lenin, Stalin e Trotsky, extraídas de livros e entrevistas de Zizek, mostram, mesmo em poucas linhas, a originalidade do filósofo esloveno:

“Precisamos retornar a Lenin de um modo crítico. Pensar e analisar os seus erros, para não repeti-los. Lênin foi um filósofo – primitivo e vulgar, mas um filósofo –. Por esta via, retornamos a Marx, porém criticamente, com o intuito de repeti-lo de maneira diferente”.

“Stalin e Hitler não foram iguais. A prova é a existência de dissidentes. Stalin teve a todo tempo de lutar contra quem o questionava. Muita gente dizia que ele tinha traído o comunismo autêntico. Trotsky é um exemplo. Não havia ninguém assim no nazismo, nenhum grupo questionando Hitler, dizendo que ele era traidor do nazismo autêntico.“

“Na União Soviética, algo que originalmente era para dar na libertação do povo – a Revolução de Outubro– terminou em um pesadelo. Mas o objetivo inicial era outro. O nazismo era diferente. Os nazistas conseguiram exatamente o que eles queriam.”

“A figura de Trotsky continua sendo crucial, na medida em que ela representa o elemento que perturba a alternativa entre o socialismo (social) democrático ou o totalitarismo estalinista. O que encontramos em Trotsky, em seus textos e em sua prática revolucionária nos primeiros anos da União Soviética, é o terror revolucionário, o domínio do partido e assim por diante, mas de modo diferente do estalinismo. Foram as atitudes do Trotsky que impossibilitaram que sua orientação vencesse a luta pelo poder estatal”.

‘Zizek não é especificamente um historiador, mas um intelectual, um filósofo com muitas preocupações e interesses, inclusive sobre a história.

Para completar: o melhor livro sobre a história do Oriente Médio não é de um historiador tradicional, mas de um jornalista atuante: Robert Fisk com sua monumental obra “A Grande Guerra pela Civilização”

 

 

A árvore e a floresta

Talvez o mais difícil para as pessoas que analisam os eventos políticos seja se desprender do singular e compreender o todo. É aquela velha história de enxergar a árvore e não perceber a floresta Na época em que dirigia a FM Cultura, eu fazia um programa de debates sobre cultura e política.Naquela ocasião,a jornalista Eliane Brum, havia lançado um livro sobre a Coluna Prestes, que fazia sucesso, na medida em que ela dava voz aos críticos da coluna a partir de indivíduos que viram a Coluna passar por seus vilarejos.. Para debater com ela, chamei o professor Mário Maestri Confesso que deixei de lado a posição de mediador e modestamente tratei de ajudar o Mário a mostrar a ela que não faz sentido enxergar os grandes movimentos históricos (as revoluções) pelos possíveis prejuízos que trouxeram a algumas pessoas. Esse parece ser um vício de jornalistas e não de historiadores. Um historiador verá na Revolução Francesa uma grande e vitoriosa luta de classes; o jornalista só enxergará a guilhotina. O historiador verá na Revolução Russa a primeira tentativa de construir um regime socialista; ao jornalista, só vai interessar o perfil ditatorial de Stalin. O historiador verá na Revolução Cubana a libertação de um povo do jugo colonialista americano; o jornalista só enxergará o Paredon. A maioria das pessoas segue normalmente o que dizem os jornalistas.No caso do fascismo e do nazismo, tudo se reduziria à maldade de Mussolini e Hitler. No Brasil, elas se dividirão entre os que sonham com a volta do Lula e os que votaram no Bolsonaro. Fora disso é conversa fiada de historiadores.

As Benevolentes – uma alegoria sobre o capitalismo selvagem.

O livro As Benevolentes – Les Bienveillantes – (edição brasileira Objetiva, 2007, 906 páginas), de Jonathan Littell, mais do que uma descrição crua e pormenorizada dos horrores dos campos de extermínio dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, é uma alegoria do que seria o sistema capitalista levado ao extremo da sua finalidade maior, a desumanização do ser humano transformado em instrumento na busca do lucro a qualquer custo.

Nos campos de concentração e extermínio de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes físicos e mentais, nos quais se incluíram as mais diversas nacionalidades, inclusive alemães, os nazistas aplicaram os mais modernos meios de administração em busca do grande objetivo do capitalismo: o maior lucro possível, no menor prazo de tempo e com investimentos baixos.

N a estratégia de Hitler e seus sequazes, este projeto tinha dois objetivos muito claros em relação às populações não germânicas: usá-las como força de trabalho escravo até a sua completa exaustão e eliminar aqueles considerados incapazes para o trabalho. Para isso, foram construídos grandes campos de concentração no território da Alemanha, basicamente voltados para a produção e nos territórios da Polônia e Ucrânia, destinados ao extermínio, inicialmente através de fuzilamentos e mais tarde com o uso de câmaras de gás. Dentro da Alemanha, os principais campos de trabalho forçado foram os de Sachsenhausen, em Orienenburg, próximo de Berlim, Buchewald, próximo a Weimar (onde esteve internado o escritor Jorge Semprun) e Dachau.  Na Polônia, foi erguido o maior número de campos. Os principais foram Auschwitz- Birkenau, onde morreram mais de 1 milhão de pessoas, Lublin, Sobidor e Treblinka.

Nos portões de ingresso dos prisioneiros nesses campos, ironicamente, um letreiro afirmava que “Arbeit Macht Frei”, o trabalho liberta.

Até hoje, essa política é vista como uma perversão do espírito maligno de Hitler, mas por trás dela havia a frieza que caracteriza busca do sucesso empresarial a qualquer custo.  Para as empresas, o que seria melhor do que trabalhadores sem nenhum direito e usados como verdadeiras máquinas? Por outro lado, a estratégia de reduzir drasticamente as populações nativas da Polônia, Ucrânia e Rússia objetivava liberar grandes extensões de terras agrícolas para a produção de alimentos destinados ao consumo interno da Alemanha.

Junto a estes campos, tanto na Alemanha, inicialmente e depois nos países ocupados, com orientação de Albert Speers, o Ministro do Armamento, se estabeleceram importantes indústrias alemãs e por incrível que possa parecer,  até mesmo filiais alemãs de empresas americanas, para usar a mão de obra escrava.

Ao lado da IG Farber, que fabricava o gás Zyklon B, usado nas câmaras de gás e que depois da guerra se tornou a Bayer, estavam a Siemens, que construiu as câmaras de gás, Hugo Boss, que desenhou e fabricou os uniformes dos nazistas, a Wolkswagen, cujo presidente Ferdinand Porsche, criou o popular Wolkswagen ( carro do povo) a pedido pessoal de Hitler e também marcas americanas  quem se beneficiaram das facilidades criadas pelo trabalho escravo durante o nazismo. A filial da Coca Cola, na Alemanha, pela falta do xarope para fabricar a sua bebida líder, criou Fanta, especialmente para os soldados alemães. Também as filiais da Kodak, IBM e GE mantiveram suas ligações com o regime nazista, principalmente na fase anterior a entrada dos Estados Unidos na guerra.

Hannah Arendt, no seu clássico livro Eichmman em Jerusalém (Eichmman in Jerusalem: A Report on the Banality of Evyl – Companhia das Letras, 2011), já havia flagrado o caráter quase burocrático da ação dos nazistas nos campos de concentração, cunhando a expressão “a banalidade do mal”.

Jonathan Littell, segue na mesma linha. Sua descrição da vida na frente de batalha russa e nos campos de concentração amplia essa visão de até onde pode chegar a maldade humana livre de qualquer barreira ditada pela civilização. Para ele, não há culpados, nem vítimas, apenas aqueles que tudo podem e aqueles que nada têm, a não ser suas vidas, transformadas em mercadorias.

Jonathan Littell é filho do escritor de romances de espionagem Robert Littell, bastante popular na França e seu livro As Benevolentes (uma ironia com uma peça do grego Ésquilo) ganhou o Prêmio Goncourt em 2006 e vendeu mais de 700 mil exemplares no ano do seu lançamento.  Filho de uma família judia, nascido nos Estados Unidos, mas educado na França, Jonathan escreveu este seu primeiro livro depois de anos de pesquisa sobre as ações dos nazistas na guerra, principalmente das Schutzstaffel (tropas de proteção), as tristemente famosas SS.

Para contar a sua história, Littell criou um personagem fictício, o oficial das SS Maximilien Aué, encarregado de analisar as ações de extermínio sob o ponto de vista administrativo, usando sistemas de avaliação tirados da prática empresarial capitalista. Nessa tarefa, ele vai interagir com sinistros personagens nazistas como Himmler e Eichmman, que num organograma civil poderiam ser vistos como o diretor e o gerente operacional de uma grande empresa.

A visão do personagem é de que, embora muitas vezes desagradável, sua tarefa pessoal se dilui num grande esforço de todos os adeptos do nacional-socialismo de criar uma vida melhor para o povo alemão, ainda que a custo da desgraça de muitos outros povos.  Nessa tarefa, ele lembra que seus adversários nessa luta fizeram o mesmo no passado, ingleses e franceses nas colônias africanas e asiáticas, e os Estados Unidos, no seu próprio país, formado a partir das guerras contra os índios e os latinos.

Essa visão de um capitalismo extremado e selvagem em ação, traz a memória a advertência de Rosa de Luxemburgo, feita há quase um século atrás de que a humanidade só tem duas opções: o socialismo ou a barbárie.

Quando do seu lançamento  no Brasil, o falecido escritor Moacyr Scliar, fez uma resenha do livro para a Revista Veja, que termina assim: “Littell sugere repetidamente que os nazistas não eram uma exceção. No extermínio dos judeus, por exemplo, tinham a decidida colaboração de ucranianos. Ou seja: a humanidade tem dentro de si um componente de intolerância, de loucura mesmo, que pode ser mobilizado com resultados catastróficos. A tese é talvez controversa. Mas Littell a defende com brilho desde as primeiras páginas do livro, quando  anuncia como será sua narrativa: – É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto a vocês”

Pra onde vai Tarso Genro?

Prefeito de Porto Alegre, Governador do Rio Grande do Sul, Ministro da Justiça e Ministro da Educação, Taro Genro é uma voz que precisa sempre ser ouvida.
Hoje, o site UOL, da Folha, publicou uma longa declaração dele, a propósito da sua recusa em participar da festa dos 40 anos do PT.
Primeiro, ele fez uma análise das ações do Partido, principalmente quando governou o País por 14 anos.
Antes de tudo, uma afirmação categórica – “Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.” – para seguir com uma avaliação do PT e seus dirigentes, começando pela velha proposta de “refundação” do partido, tão combatida na época em que ele a lançou.
“A “autocrítica” que eu defendi não significava transformar o partido em delegacia de polícia. Quadros do PT cometeram erros ao longo destes 40 anos e isso não é nenhuma novidade em qualquer partido de qualquer ideologia. A reestruturação que eu defendia e defendo vai bem além”.
Depois de lembrar que o modelo de classe trabalhadora é outro hoje no Brasil, ele individualiza procedimentos que considera que foram errados: “O nome da companheira Dilma foi aprovado pelo partido através de uma proposta do presidente Lula, sem debate. Hoje, a opinião generalizada do PT é que ela teve uma enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas que o partido tinha”
Faz uma previsão sobre o futuro do Brasil: “Acho que nos próximos 15 anos deveremos ter alguns governos mais ao centro, mais à direita e ameaças fascistas como o governo Bolsonaro. E acredito que o PT vai manter mais ou menos seu status e eleitorado, permanecendo atuante na sociedade brasileira”
Dentro desse porvir, vê o PT integrando à uma frente de esquerda, onde o partido precisará trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial.
“Acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto. Eu defendo Lula ou Haddad como candidatos, mas nossa opinião tem que ser avalizada sinceramente por todas as forças convergentes”.
Na entrevista, sobrou tempo para Tarso Genro fazer uma mea culpa:
“Já fiz várias autocríticas nesta jornada de 58 anos de militância. Tenho meus arrependimentos. Quem não tem é porque não está na vida. O maior deles foi ter derrotado o então governador Olívio Dutra na prévia do PT em 2002. Impedi o Olívio de tentar a reeleição e perdi.”
Porém, a questão mais importante que Tarso coloca é a sua análise da divisão de classes no Brasil e a partir dela os objetivos viáveis para o movimento de esquerda.
Para ele, o PT não percebeu o que mudou. “Nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente.”
Além dessa mudança, ele vê uma tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual.
“Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas. Temos que aprender urgentemente como falar com este mundo novo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede. A luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores.”
Tarso diz que continua na luta: ‘Eu e um grupo de companheiros elaboramos documentos que submetemos aos partidos de esquerda. Sigo discutindo e escrevendo artigos. Pretendo ajudar, com meus limites, não somente ao PT, mas os companheiros de todos os partidos de esquerda que pensam numa renovação de paradigmas da esquerda.”
Raro na política brasileira, o discurso de Tarso será demonizado pelos “estalinistas” do PT para os quais o “grande guia” está sempre certo, mas merecia ser discutido com mais profundidade.
Duas questões são fundamentais: primeiro, os trabalhadores desapareceram realmente como classe social – os coveiros do capitalismo no dizer de Marx – e segundo, com o fim das lutas classes, decorrente da aceitação da primeira premissa, que modelo pretende Tarso para o Brasil?
Parece que o desaparecimento da representatividade dos trabalhadores, reunidos em poderosos sindicatos nas grandes fábricas, não significa que eles tenham desaparecidos como classe social.
Podem ter perdido a representatividade, mas não perderam a identidade.
Eles são milhões em sub- empregos, em trabalhos precarizados, os “uberizados”, mas continuam gerando mais valia para os empresários, mesmo os virtuais.
Podem não ter consciência de que são pessoas vivendo do seu trabalho, mas na realidade o são.
O que pode ter outros aspectos é a luta de classes entre as pessoas que assumem posições opostas no relacionamento com o trabalho, mas ela continua existindo.
Negar a existência da luta de classes, ainda que com uma nova moldura, é sepultar o sonho de uma sociedade socialista.
A outra questão é decorrente dessa primeira. Como não enxerga mais uma luta de classes na sociedade brasileira, Tarso parece admitir que o modelo a ser perseguido seria uma sociedade capitalista, onde a força das organizações ditas de esquerda, dentro de uma democracia parlamentar, seriam capazes de criar uma sociedade onde os direitos sociais seriam não só respeitados, mas ampliados.
Uma nova versão de um estado do bem estar social. Talvez um modelo ao estilo escandinavo.
Na Copa do Mundo de 1958, quando ouviu do treinador Feola explicar o melhor jeito vencer seus adversários, os temíveis russos, Garrincha perguntou: o senhor já combinou isso com eles?
Com todo o respeito que merece, parodiando Garrincha, gostaria de perguntar ao Tarso Genro sobre essa concertação entre ricos e pobres: o senhor já perguntou para os ricos se eles concordam?

Licença para matar

 

Desde que Jair Bolsonaro foi eleito Presidente, o Brasil vive uma cultura da violência como nunca tinha acontecido antes. Ele e o triste governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel,defendem abertamente o uso da força bruta contra os mais fracos, contra os que contestam esse regime espúrio em que vivemos.

Bolsonaro, quando da votação do impeachment da presidente Dilma, espantou as pessoas civilizadas do Brasil dizendo que seu voto era em homenagem ao coronel Brilhante Ustra, um dos poucos militares que a Justiça reconheceu como torturador e ser um torturador é a infâmia máxima  a que um ser humano é capaz de se entregar.

Nem os militares da ditadura, mesmo que praticassem, defendiam a tortura e até mais não admitiam que a fizessem uso dela contra seus presos.O

O governador do Rio, Wilson Witzel, ele mesmo acompanhou seus atiradores, que de helicópteros alvejavam pessoas nos morros da cidade, onde vive a população mais pobre e ainda mais, ensinava que os atiradores deveriam mirar nas “cabecinhas” das pessoas.

Gente desse tipo merecia há muito tempo ser enviada para o lixo da história, mas infelizmente continua por aí pregando seus valores atentatórios às práticas civilizadas.

E o pior. O repúdio a Bolsonaro e Witzel, que deveria ser total, é restrito a poucos e quase sempre nos é apresentado envolto num discurso com o cheiro de disputa eleitoral e não a defesa apaixonada da nossa condição humana.

Talvez esteja nos faltando alguém como Miguel de Unamuno.

Em outubro de 1936, quando a Espanha mergulhava nas trevas do franquismo, como reitor da Universidade de Salamanca, ele ouviu o general Millan Astray, um aleijado de guerra, cego de um olho e sem um braço, bradar o grito de guerra dos fascistas “Viva La Muerte” nas comemorações do chamado “Dia da Raça”, 12 de outubro, dia da Descoberta da América.

Sua resposta corajosa ficou para a história e está viva até hoje e deveria ser repetida no Brasil em que vivemos.

Agora mesmo ouvi um grito necrófilo e insensato, ‘Viva a morte’. Eu devo dizer-lhes que considero este esdrúxulo paradoxo repelente. O General Millán Astray é um aleijado, que isso seja dito sem nenhuma condescendência. Ele é um inválido de guerra. Cervantes também era. Infelizmente há demasiados aleijados na Espanha agora. Entristece-me pensar que o general Millán Astray venha ditar o padrão da psicologia de massas. Um aleijado, que não possui a grandeza espiritual de um Cervantes acostuma-se a buscar alívio causando mutilados em volta dele.”

Millan respondeu “Muerte los inlectuales. Viva La muerte”

Unamuno retomou seu discurso sem se abalar e sem se acovardar

 “Estamos no templo do intelecto. E nele eu sou o sumo sacerdote. São vocês que profanam esses espaços sagrados. Vocês vão vencer, por que têm mais que o necessário de força bruta. Mas vocês não convencerão. Pois para convencer é preciso persuadir. E para persuadir vocês necessitarão o que não têm: razão e justiça na luta. Eu considero fútil exortá-los para que pensem na Espanha. Eu o fiz.”

A Espanha vivia tempos de guerra interna, com a vitória dos franquistas sobre a República. Nós vivemos numa democracia, que pode ser frágil, mas que ainda sobrevive.

Por que então esse silêncio?

É ele que permite que no lugar da cultura da inteligência, do saber, da civilidade, Bolsonaro  e seu grupo, estejam impondo ao país a cultura da brutalidade e da violência.

Em vez de argumentos civilizados, a força das armas.

Esse episódio recente na Zona Sul de Porto Alegre, quando um jovem massacrou uma família inteira por causa de um simples acidente de trânsito, mostra claramente como esse discurso está sendo aceito e praticado por muitos.

O professor Marcos Rolim, em artigo publicado no Sul 21, traçou o retrato do homem bolsonariano: “Um jovem de 24 anos, sem antecedentes criminais, sem histórico de doença mental, ex-militar, membro de uma “família estruturada”, defendia o porte de armas para “se defender de bandidos” e se declarava evangélico e temente a Deus”

Mais do que um disputa eleitoral que se aproxima, o que está em jogo é a escolha de um modelo de vida para os brasileiros. Se vamos nos decidir pela cultura da morte ou pelo respeito à vida como nosso bem maior?

Ninguém deve ter licença para matar.

Eu opto pela vida.