Fundamentalistas x radicais

Uma amiga criticou meus textos no facebook dizendo que eu era um fundamentalista político. Expliquei a ela que o fundamentalismo é, em princípio, empregado apenas para a religião, mas que hoje, por extensão ,se aplica também em outras áreas para aquelas pessoas que não admitem discutir seus pontos de vista. Disse mais que, como admirador dos conceitos de Marx, seria uma contradição, negar que tudo está em evolução e que não existe nada definitivo, principalmente na política, que se ocupa das relações entre os homens. O que pretendo é ser radical, o que é bem diferente de fundamentalista.
Como não sei se ela entendeu bem, volto ao tema para repetir: fundamentalista é um qualificativo reservado para quem pratica uma religião seguindo suas normas de uma forma rígida e que enxerga suas leis como dogmas de fé. Então, um católico que acredita que a humanidade nasceu de Adão e Eva poderia ser chamado de fundamentalista e isso depois que até o Papa ficou em dúvidas sobre essa história.
Hoje, o termo, por extensão, é usado para pessoas que não aceitam discutir um determinado fato político ou que se aferram a uma verdade sem exibir qualquer prova de sua validade, embora nesse caso seja preciso ter cuidado em distinguir fundamentalismo de convicção.
Até que me provem o contrário, estou convicto, por exemplo, que as denúncias de corrupção por parte de membros do Governo do PT, têm por trás delas o objetivo de substituir esse governo por outro mais de acordo com o neoliberalismo que interessa aos representantes do pensamento neoliberal.
Na medida que eu aprofundo os argumentos em favor dessa tese, estou radicalizando meus argumentos porque examinei detidamente todas as variáveis da questão. Estou, portanto, indo às raízes do processo.
Marx era um radical e não um fundamentalista.
Ele estudou profundamente as origens e os fundamentos do capitalismo antes de divulgar suas teses. O fundamentalista busca o imobilismo e Marx pregava a mobilidade. Na linha do pensamento dos grandes filósofos gregos, ele via o mundo, a economia e as pessoas em movimento contínuo.
Heráclito de Éfeso disse que o homem não toma banho duas vezes no mesmo rio. Lavosier dizia que nada se cria, nada se perde e tudo se transforma. Marx afirmou que tudo que é sólido, desmancha no ar. Marshall Berman, por exemplo, usou a frase de Marx para título de um livro que fez muito sucesso há uns 20 anos, “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
O fundamentalista pretende que as coisas fiquem estáticas, que as verdades sejam eternas, contrariando a própria física que prova que o mundo e tudo dentro dele, estão em movimento perpétuo.
 Usando de certa forma uma licença poética, poderíamos dizer que aquelas pessoas que agem politicamente negando a existência desse movimento permanente, desse constante devir, seriam fundamentalistas, embora em todos casos que possamos pensar, existe sempre uma certa dose de exagero.
Por exemplo, o historiador americano Francis Fukuiama, ao ver no capitalismo ocidental, o último degrau no avanço social da humanidade, poderia ser classificado de fundamentalista, não fosse a suspeita que ele sempre estará tendo alguma vantagem material ao se colocar como defensor do sistema.
Bin Laden seria um fundamentalista – e até pode ser um bom exemplo pelo seu lado religioso – mas seus objetivos políticos nunca foram definitivos. Ele e seus seguidores foram armados pelos Estados Unidos para combaterem os russos no Afeganistão, mas depois se voltaram contra seus apoiadores.
Seria o Bolsonaro um fundamentalista?
Alguém que trocou sete vezes de partido e que está sempre em busca da promoção de suas ultrapassadas ideias é mais um venal e oportunista, do que fundamentalista.

Assim é melhor deixar estes exemplos pouco práticos de lado e ficar com o conceito de que radicalismo é diferente de fundamentalismo e se alguém não concordar com isso, ótimo, abrimos mais uma discussão

Uma história do Sionismo

Tenho com o médico e acadêmico Franklin Cunha, além de várias afinidades culturais e políticas, um interesse comum pela história de Israel, preocupados, os dois, em entender como um grande movimento, pacifista na sua origem e que deveria servir para por fim a séculos de perseguições aos judeus, deu origem a um Estado militarista, que pratica uma política de apartheid contra seus vizinhos palestinos.
Numa de suas frequentes idas às livrarias de Buenos Aires e Montevidéu, o Dr. Franklin me trouxe mais um livro, entre tantos outros que temos lido, analisando a questão judaica e a formação do Estado de Israel.
O livro – “Breve historia del sionismo” –  uma edição em língua espanhola da Alianza Editorial – é assinado pelo Professor de História Contemporânea da Universidade Autônoma de Barcelona, Joan B; Culla.
O livro, em formato de poket book, em suas pouco mais de 300 páginas, narra a história do movimento sionista, lançado por Theodor Herzl,  no final do século XIX, até a consolidação do Estado de Israel depois da Segunda Guerra.
Com um viés assumidamente simpático aos ideais sionistas, o livro, nem por isso, deixa de ser uma fonte indispensável para quem se interesse pelo assunto. É notável o esforço do autor em detalhar tudo que aconteceu nesse processo, único da história da humanidade, de idealização, construção e depois a solidificação de um estado moderno, numa região onde havia antes praticamente só adversários desse objetivo.
Algumas revelações do livro sobre o processo que, começando com as manobras diplomáticas de Herzl no sentido de obter apoios para a criação do Estado de Israel, chamam a atenção de que, como o objetivo final foi sendo modificado com o correr do tempo. Num primeiro momento, Herzl chegou a negociar, sem êxito, com o Sultão da Turquia, cujo império dominava o mundo árabe, uma concessão para criar um estado judeu na Palestina.
Mais adiante, em 1903, no congresso sionista da Basiléia, conseguiu aprovar por 295, a favor, 178, contra e 98 abstenções a ideia de fundar um estado judeu em Uganda, na África.
Essa possibilidade foi depois posta de lado e voltou-se novamente ao objetivo inicial, o retorno à Palestina, onde ainda existia uma pequena comunidade judaica.
Duas tendências, as vezes se opondo, outras vezes se complementando, passaram a coexistir então: uma buscava algum tipo de apoio das grandes potências da época para o reconhecimento dos judeus de criar seu próprio estado e outra, que defendia a aceleração de um processo migratório de judeus, principalmente da Rússia, para a Palestina e o uso dos donativos financeiros das comunidades judaicas, principalmente dos Estados Unidos para a compra de terras dos árabes a fim de assentar esses colonos judeus
A primeira guerra mundial mudou completamente o panorama na Palestina. Primeiro, porque precisando apoio financeiro dos grandes bancos controlados por judeus na Europa, o governo inglês deu sua garantia de apoio à criação de “um lar judeu” na Palestina. É a famosa Declaração de Balfour, uma carta do ministro inglês ao Barão de Rotschild . de apoio a causa judaica. Segundo, porque a derrota da Turquia, colocou toda a região sob a tutela da Inglaterra.
O período entre as duas grandes guerras só faz crescer os atritos entre os judeus, que cada vez chegavam em maior número à região e o começo de uma forte resistência dos árabes a este processo e a ação diplomática da Inglaterra, ora favorecendo a um grupo, ora a outra.
A partir da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha, um novo parceiro se intromete nesse jogo. Como tanto os judeus, quanto os árabes, enxergavam em determinados momentos, a Inglaterra como inimiga, contatos foram feitos em busca de um apoio alemão.
Enquanto o mufti (líder religioso) dos palestinos, Haj Amin al-Husseine, manteve contatos diretos com os líderes nazistas, inclusive Hitler, os judeus foram mais discretos. Como a Inglaterra criara uma série de impedimentos para a migração para Palestina, só aceitando aqueles que pudessem comprovar a posse de mil libras palestinas, dirigentes judeus negociaram com o governo alemão para que este permitisse que   judeus alemães saíssem, levando as mil libras. Em troca, a comunidade judaica da Palestina exportava para a Alemanha produtos que o bloqueio da Inglaterra impedia que ele recebesse de ouros países.
O livro de Culla mostra com riquezas de detalhes como as grandes potências europeias agiram no Oriente Médio, interferindo em seus processos políticos e determinando seu futuro.
Em primeiro lugar, a Inglaterra, que se aproveitando da falência do Império Otomano, que dominava a região até a Primeira Guerra, representou o principal papel   no drama palestino, ora estimulando a criação do Estado de Israel, ora bloqueando o acesso de colonos judeus à região,  ora fazendo o jogo dos árabes e afinal se indispondo com todas as partes.
Depois, os Estados Unidos, que de Roosevelt a Trumann, foram sempre indecisos em relação à constituição de um estado judaico. Embora sofrendo a pressão do lobby judaico americano, a Casa Branca temia a influência soviética na futura nação. O que levava a essa suspeita, segundo Culla, era o grande número de colonos judeus vindos da Rússia e a existência entre as lideranças judias na Palestina de um forte sentimento em favor de uma organização socialista na economia.
Em terceiro lugar, mas talvez o mais decisivo de todos na visão do autor do livro, foi a ação da União Soviética, que temendo uma expansão do poder inglês na região, apoiou fortemente a criação do Estado de Israel, primeiro através do Chanceler Gromiko, na ONU e depois, quando Israel já tinha sido criada, sustentando a guerra contra os árabes.
Como Estados Unidos e Inglaterra haviam bloqueado o acesso de armas par a região, conflagrada numa guerra entre árabes e judeus, foi através da Checoslováquia, já socialista, que Israel pode se armar e vencer a guerra pela sua independência.

Esse auxílio foi tão fundamental que o seu principal dirigente militar, Yithzah Rabin, depois primeiro ministro de Israel por mais de uma vez, disse na ocasião:  “Seja qual for o juízo que os judeus possam fazer dos comunistas, deve figurar em letras bem grandes que sem as armas checas, que importamos com o conhecimento da União Soviética, teríamos perdido a guerra para os árabes”

A coragem de Tarso

A notícia de que o PT, por orientação de Lula, estaria disposto a apoiar a candidatura de Rodrigo Maia, um dos comandantes do processo de impeachment de Dilma, para a presidência da Câmara de Deputados, motivou uma carta aberta de Tarso Genro, publicada no Sul21, aos deputados federais Henrique Fontana, Pepe Vargas, Paulo Pimenta e Paulo Teixeira, denunciando a manobra e defendendo que o partido, pelo menos na ação desses deputados, se mantenha fiel ao seu programa partidário e a ética política que sempre defendeu.
O documento, extremamente corajoso, do ex-governador gaúcho pode ser o fecho do seu processo de afastamento das lideranças nacionais do partido, abrindo caminho para que possa liderar um grande movimento em favor de uma nova postura da esquerda brasileira.
Diz Tarso, num trecho de sua carta, reconhecendo os erros praticados pelo partido: “ Não é novidade para os filiados do nosso Partido e seus militantes mais próximos, que o PT e uma boa parte da esquerda no país, enfrentam uma crise de identidade política e moral, que tem nos abalado fortemente. Esta crise não foi inventada pela mídia nem pelos Procuradores. A mídia oligopolizada e uma parte não significativa, em termos quantitativos, do Judiciário e de outros aparatos do Estado – opositores radicais do projeto que representamos – souberam, isto sim, manipular nossos erros políticos, equívocos de gestão e mesmo a ilusória sensação de impunidade (que às vezes leva ao delito), que afetou em alguma medida parte de companheiros nossos. Manipulando contra toda a evidência, porém, vincularam artificialmente a Presidenta à corrupção e assim promovem a sua derrubada, colocando no Poder uma Confederação de Denunciados e Investigado”.
Ao analisar as possibilidades hoje existentes para a efetiva realização de uma política ética, como o PT defendia quando estava fora do governo, Tarso confessa que “com as estruturas políticas atuais, a política brasileira, o Estado brasileiro, os partidos no país, não funcionariam sem corrupção, sem fisiologismo. Nem se moveriam sem o clientelismo secular, que formou nosso Estado e a nossa tradição política. Imersos em alianças para governar, vários dos nossos fugiram das boas regras do republicanismo e nos atolaram nas formas tradicionais de governabilidade, pragmatismo e financiamentos de mandatos”
Mais adiante, Tarso faz uma forte crítica à atuação do PT, que não soube aproveitar suas vitórias eleitorais para realizar aquilo que prometeu nas campanhas eleitorais e na sua plataforma de governo: “o grande erro de concepção dos grupos hegemônicos do PT, partindo de um juízo de boa vontade a respeito dos seus objetivos,  foi iludir-se que as classes dominantes brasileiras – aquela parte mais ligada ao rentismo e aos negócios e negociatas globais-  iria permitir que o PT gerisse o Estado com os métodos que eles mesmos sempre geriram-no, para acumular dentro e fora da lei, usando-os -da nossa parte-   para distribuir renda e dar substância  à democracia social. Nossa omissão para promover a reforma política, a democratização da mídia e para acabar com a regressividade dos impostos, está na essência da nossa crise e na nossa impotência de equilibrar politicamente o pais, para novos avanços na geração de renda, na produção de empregos, na democratização das decisões públicas, no enfrentamento com o modelo liberal-rentista”
Tarso, numa crítica pouco comum nos meios políticos, aponta para a direção do PT na hora de cobrar os erros cometidos: “ a grande responsabilidade vem da omissão dos nossos grupos dirigentes majoritários, que viram nosso projeto definhar sem dizer uma palavra de revolta, em nome da estabilidade e da conciliação com os atrativos do poder. Não podemos esquecer que ainda são muito recentes as palavras de um líder parlamentar nosso, na Câmara Federal, dizendo que Eduardo Cunha era um “parlamentar honrado”, que dignificava aquela Casa, na vã esperança de comprar apoio político com o recurso inflacionado do elogio retórico”.
No final, Tarso faz um apelo aos deputados aos quais é endereçada a carta aberta “´é preferível ter poucos votos, com uma chapa republicana, composta por pessoas sérias, declinando de uma aliança com Rodrigo Maia e seus companheiros de “ideais”, ou sermos identificado com os dissidentes do golpismo, que querem apenas uma parte maior do botim neoliberal?  Parece-me que a primeira hipótese é digna e tem futuro. E que a segunda é sombria e suicida. E mais: seria uma demonstração que não aprendemos nada com os nossos erros e que não estamos dispostos a mudar em nada”.
É difícil imaginar que, mesmo que os dirigentes do PT optem pelo silêncio, afim de minimizar a repercussão desse documento, que Tarso Genro não tenha queimado as pontes que o ligam a um partido do qual ele foi, aqui no Rio Grande do Sul, ao lado de Olívio Dutra, um dos seus principais líderes e pelo qual se elegeu Prefeito de Porto Alegre Governador do Estado.

Como Tarso Genro é essencialmente um homem político, resta saber quais serão seus caminhos para o futuro.

Francisco, o boquirroto

Jorge Mario Bergoglio, o cardeal argentino que virou Papa da Igreja Católica, vai passar para a história como um grande divulgador de obviedades, todas elas transformadas em lemas de vida para seus seguidores menos inteligentes.
“Nossa vida é um caminho, quando paramos, não vamos para frente”.
“Apenas os que dialogam podem construir pontes e vínculos”.
Frases como essa mereceriam figurar em para-choque de caminhão, mas são repetidas por muitos com uma prova da alta cultura papal.
Agora, o Bergoglio, boquirroto que é, se meteu numa enrascada com seus cardeais mais conservadores, ao fazer comentários (se é que fez isso) sobre Adão e Eva, o fogo do inferno e as evoluções que Deus vem sofrendo nos últimos tempos.
O Vaticano não acredita muito que o Papa tenha evoluído tanto assim e divulgou nota pondo em dúvida os pensamentos do Bergoglio.
“Notícia” publicada em vários idiomas, diz que o Papa Francisco afirmou que a Bíblia está antiquada em muitas passagens como a “fábula de Adão e Eva” ou o inferno, que todas as religiões são iguais, que Deus está mudando e evoluindo e a verdade religiosa também, e outras coisas semelhantes”
Afirmando que pela internet circulam milhares de histórias falsas, a Santa Sé diz que se a palavras atribuídas ao Papa não aparecerem nos meios oficiais do Vaticano, é muito provável que sejam falsas.
Como já pôs em dúvida a existência do inferno, o próximo passo é ele questionar a existência do céu e de toda hierarquia divina.
Mais do que ninguém, Jorge Mario Bergoglio, ou o Papa Francisco como é mais conhecido, deve ter informações privilegiadas sobre o assunto e além de tudo, está amparado num dogma da Igreja Católica, (se é que o dogma não foi revogado), que diz que o Papa é infalível quando fala em assuntos sobre a fé.

Vamos aguardar ansiosos novas mensagens papais

O que Zero Hora não disse sobre a Venezuela

Zero Hora tem feito um grande esforço para fugir da imagem que os jornais tabloides têm, no mundo inteiro, de fazer um jornalismo sensacionalista. Para isso, tem investido em reportagens de mais profundidade, principalmente para suas edições de final de semana, enviando seus jornalistas para coberturas internacionais.
Falta, porém, ao jornal isenção, que por exemplo, até um jornal conservador com o Estadão tem e jornalistas competentes, com uma boa formação histórica, para dar conta dessas missões e o que restam dessas matérias internacionais são descrições que os leitores bem informados já conhecem através dos serviços internacionais de notícias.
Nada sequer parecido com o que escreve, por exemplo, um Robert Fisk no The Independent. Seus artigos sobre o Oriente Médio se transformaram em livros memoráveis como A Grande Guerra pela Civilização e Pobre Nação, sobre o Líbano e são, sem sombra de dúvida, os melhores guias para quem almeja conhecer a realidade daquela região.
No último fim-de-semana ZH reservou várias páginas para uma reportagem de Léo Gerchmann sobre a Venezuela, que em nenhum momento é chamada pelo seu nome oficial de República Bolivariana da Venezuela.
Mais do que uma matéria jornalística, o texto é quase um grande release dos partidos e da mídia de oposição ao Presidente Maduro.
Todo mundo sabe que a Venezuela vive uma profunda crise econômica, fruto da grande queda nos preços do petróleo no mercado internacional. O produto é o principal item de exportação do País e tem um peso de quase 90% da sua balança comercial.
Atendendo interesses econômicos dos importadores norte-americanos, a Arábia Saudita e outros produtores do Oriente Médio, puxaram o preço do petróleo para baixo, hoje cotado a aproximadamente 45 dólares o barril, quando o ideal para um país como a Venezuela é que ele chegasse, no mínimo a 60 ou 80 dólares o barril.
A sangria da Venezuela é ainda maior, porque a o País subsidia a venda de gasolina para a população, como faz também a Bolívia, para impedir a elevação do custo de vida, mas ela é contrabandeada para venda ilegal na Colômbia e no Caribe.
Consequência disso é um desabastecimento generalizado de itens que vão de produtos alimentícios a remédios. A ação do Governo disciplinando a distribuição e consumo do que existe disponível, bastante criticada na matéria, é a única forma de impedir que os grandes comerciantes se aproveitem da dificuldade para aumentar seus lucros.
O que existe muito claro é que a oposição venezuelana, várias vezes derrotada nas urnas, busca se aproveitar da crise para liquidar à chamada “Revolução Bolivariana”, iniciada por Chávez em 1998 e para isso conta com um apoio de uma mídia golpista e com o suporte do governo norte-americano.
As intervenções dos Estados Unidos nos negócios internos da Venezuela são antigas e sempre tiveram a ver com a intenção de privatizar a produção e distribuição do petróleo. Em 1953, foram os americanos que promoveram o golpe de estado de Perez Jimenez e sustentaram seu governo ditatorial até 1958.
O caso mais flagrante dessa ingerência se deu em 2002, quando um golpe engendrado a partir dos Estados Unidos, com o apoio direto dos principais veículos de comunicação de Caracas, conseguiu derrubar e prender Chavez, mas que foi abortado poucos dias depois pela ampla reação do povo venezuelano.
Hoje, o problema do desabastecimento da população é usado para tentar derrubar o governo de Maduro, usando técnicas já testadas com sucesso no Chile, quando uma greve de caminhoneiros provocou a falta de alimentos em Santiago e criou condições para o golpe do General Pinochet.
Antes de viajar para a Venezuela, o jornalista poderia ter lido uma longa entrevista do ex-ministro de Chavez, Elias Juá, divulgada pela Carta Capital, na qual, mesmo reconhecendo erros do seu governo, principalmente pela concentração das atividades econômicas no petróleo, diz o que está sendo feito para tentar reverter a crise.
Entre essas medidas está o enfrentamento do problema de produção e distribuição de alimentos que hoje está nas mãos de capitalistas e de máfias interessadas apenas em aproveitar a crise para faturar cada vez mais.
Nos dias que permaneceu em Caracas – quatro segundo ele – o jornalista de Zero Hora constatou um clima de violência nas ruas e a existência de bolsões pobreza em favelas da capital.
Nada que não poderia ver também em Dallas, nos Estados Unidos, onde cinco policiais foram mortos por grupos de revoltosos ou em Bruxelas, Paris e Istambul, onde grupos armados costumam explodir estações de trens, restaurantes e aeroportos.
Ele fala que, do aeroporto de Caracas em direção ao seu hotel, teve que permanecer com os vidros do carro fechados para evitar uma bala de assaltantes, igualzinho ao que acontece quase diariamente na Linhas Vermelha, no Rio de Janeiro, ou aqui mesmo em Porto Alegre, em muito de suas vilas.
Prova que os Estados Unidos continuam tentando manipular a crise política na Venezuela foram as declarações do Secretário de Estado John Kerry, esta semana, de que o seu Conselheiro, Thomas Shannon, que já conversa com a oposição, vai inclur, agora, discussões também com o governo, segundo Kerry em busca de uma solução negociada para a crise.

Tudo isso, porém, você não vai encontrar na matéria sobre a República Bolivariana da Venezuela em Zero Hora.

Blecaute e o pedreiro Waldemar

Como a minha amiga Vera Spolidoro não conhecia o cantor Blecaute, resolvi relembrar minha época de professor de História e explicar o que Segunda Guerra teve a ver com ele. Acontece que preocupado com um possível ataque alemão à costa brasileira, o governo decidiu instruir a população no uso de máscaras contra gases e fazer exercícios de blackout em toda a orla marítima do país.
Em setembro de 1942, por segurança, o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, ficou três noites na mais completa escuridão. Obviamente, como havia escassez de energia o governo matava dois coelhos com uma só cajadada (novo esse ditado, hein?).
Na época, fazia sucesso um cantor negro como carvão ou como diria José de Alencar sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel, tinha os cabelos negros como a asa da graúna, que aproveitou sua cor para se apelidar de BLECAUTE (Otávio Henrique de Oliveira – 1919/1983), facilitando a pronúncia.
Ele teve grande destaque defendendo marchinhas de carnaval, duas das quais ficaram famosas, ambas de 1949, o Pedreiro Waldemar, de Wilson Batista e o General da Banda, de Tancredo Silva, Sátiro Melo e José Alcides.

O Pedreiro Waldemar, antecessor de Pedro Pedreiro, do Chico Buarque, tinha forte conteúdo de denúncia social:

“Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece?
Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar
Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Waldemar que é mestre no oficio
Constrói um edifício
E depois não pode entrar”

Já o General da Banda, era em tom de galhofa:
“Chegou o general da banda,he he
Chegou o general da banda,he a,he a
Chegou o general da banda,he he
Chegou o general da banda,he a,he a
Mourão mourão
Vara madura que não cai
Mourão,mourão,mourão
Catuca por baixo que ele vai
Mourão mourão
Vara madura que não cai
mourão,mourão,mourão”

Engraçado que, no golpe de 64, quem desfechou o primeiro movimento militar para derrubar o Presidente Goulart foi o General Mourão, Olímpio Mourão Filho, que se intitulava A Vaca Fardada.

Melhor que fosse o General da Banda e não o General do Golpe como uns que outros ainda vivos.

George Clooney, Tarso Genro e o “ajuste”

O único cinema de Gramado (contraditoriamente a cidade do Festival de Cinema) é parcimonioso na apresentação de algum filme interessante, mas nesse fim-de-semana (quando a sala é aberta) abriu uma exceção e exibiu um filme que me fez sair da minha zona de conforto e comprar um ingresso (meia entrada para sênior – eufemismo de velho) para assistir O Jogo do Dinheiro (Money Monster).
O filme, longe de ser lembrado pelas suas qualidades, nos faz pensar mais uma vez sobre como o capitalismo, na sua versão financeira, se tornou nocivo para a sociedade e totalmente inútil como gerador de riquezas, como já foi no passado.
Quem viu o trailer do filme, já conhece praticamente tudo, ficando apenas a dever a sua conclusão, aliás facilmente perceptível desde as primeiras cenas.
Quem dirige o Jogo do Dinheiro é a antiga e boa atriz Jodie Foster, tem a sempre bela Julia Roberts no elenco, mas quem manda no filme é George Clooney, cada vez mais histriônico e canastrão, fazendo caras e bocas no papel de Lee Gates, um enlouquecido apresentador de um programa de televisão sobre a bolsa de valores.
Um dia, alguém que perdeu todo seu dinheiro acreditando nos conselhos de Clooney, invade armado o estúdio, ameaçando tudo explodir. Como sua exigência é de que as imagens não sejam cortadas, o drama se desenrola ao vivo para milhões de expectadores.
Tudo isso em meio a um roteiro quase inverossímil, mas que de qualquer maneira nos ajuda a entender que o mundo das grandes finanças é intrinsicamente desonesto e os pequenos investidores ingênuos e egoístas, restando como salvação para a humanidade, a conversão de Clooney e de uma improvável relações públicas da bolsa de valores aos bons costumes americanos.
O Jogo do Dinheiro está longe em qualidade e força de denúncia de a A Grande Aposta (The Big Short) de Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carrel, Ryan Gosling e Brad Pitt, quase uma obra prima na denúncia das manipulações de bancos e financeiras responsáveis pela explosão da chamada “Bolha Imobiliária”, nos Estados Unidos, em 2008.
Agora, o que o George Clooney tem a ver com Tarso Genro e o “ajuste”, anunciado no título?
É que os dois filmes mostram algo que já aconteceu nos Estados Unidos e que Tarso está prevendo que possa acontecer no Brasil, segundo texto que publicou essa semana em seu blog no Sul21, ou seja, a liquidação da base econômica construída à duras penas no Brasil e a adoção em definitivo de um modelo de capitalismo cada vez mais antissocial.
Pode ser também que a minha leitura esteja equivocada e o ex-governador não se referia a isso quando diz: “ aqui, (no Brasil) o que bloqueia a democracia é a radicalização da “exceção”. Dentro da crise, a “exceção” se completa, para poder promover o “ajuste” por fora das instituições tradicionais do Estado de Direito”
Enquanto as democracias burguesas mais antigas definham, de acordo com Tarso, mas têm em suas organizações políticas ainda sólidas, uma garantia contra o “ajuste”, aqui no Brasil, a “exceção” se infiltra no tecido constitucional com um apoio social bastante amplo, pelos “resultados” que oferece, imediatamente, na luta contra a corrupção. O seu objeto, porém, não é a luta contra a corrupção, mas estabelecer um nexo, entre a corrupção e a necessidade do “ajuste”, ele mesmo a suprema corrupção das funções públicas do Estado. E o “ajuste” não pode ser feito sem esta decomposição, que passa pela manutenção do sistema político, ofertante gracioso de uma Confederação de Investigados e Denunciados, dispostos – pela sua situação penal precária- a cumprirem a trajetória do “ajuste”
O resultado desse “ajuste” de que fala Tarso, se faz fundamentalmente no plano econômico. São as primeiras imagens de uma nova sociedade que o Jogo do Dinheiro e A Grande Aposta nos antecipam em forma de espetáculos cinematográficos.

Marino Boeira é professor universitário

Saudades dos velhos casamentos

Ligo para o amigo que não vejo há muito tempo e pergunto pela família.
– Estou separado há mais de um ano, me responde ele.
Mais um. Pensei que fosse só eu.
Parece que o casamento é uma instituição que não está dando mais certo, ou ao contrário, é algo tão bom que as pessoas estão querendo experimentá-lo mais de uma vez, com parceiros diferentes.
Diga-se de passagem, que são as mulheres que estão pondo fim àquelas velhas e longevas uniões.
Eu, por exemplo, já fui dispensado duas vezes.
O casamento parecia ser uma instituição tão sólida como a Igreja Católica e o Partido Comunista, mas fazendo justiça ao que disse Marx uma vez, tudo que é sólido está se desmanchando no ar.
Foram as mulheres se cansaram do casamento ou pelo menos do seu parceiro da vez, na maioria das vezes argumentando que ele, o casamento, se tornou uma rotina monótona e desinteressante.
Elas acham a rotina monótona, quando era a rotina que sustentava o casamento. Nada melhor que uma boa rotina doméstica. Almoço e janta na hora certa, o chinelo confortável, o futebol na televisão e até mesmo sessões de sexo vez que outra.
O macho, é claro, tinha seus passatempos fora de casa (nada muito profundo), enquanto a fêmea cuidava do lar. Pelo menos, era isso que os machos ingênuos pensavam que fosse verdade.
Enquanto os homens achavam que estava “tudo igual como dantes no quartel de Abrantes”, um movimento sedicioso para acabar com aquela paz estava em andamento.
Visão machista? Claro, o macho só pode pensar como macho, salvo aqueles sujeitos alternativos que dizem valorizar seu lado feminino.
Mas, isso são outros quinhentos e falar sobre esse tipo de comportamento pode ser considerado politicamente incorreto.
As fêmeas, enquanto os machos dormiam em berço esplêndido, já tinham iniciado a sua revolução de hábitos e costumes
Então, as mulheres foram para a rua e começaram a tirar seus homens da zona de conforto. Muito justo. Bom para elas, embora haja alguma divergência sobre isso.
O certo é que o casamento tradicional dançou. Sobraram as uniões por tempo limitado, aproximação de corpos, as vezes alguma interação cultural, mas dentro daquela nova ordem: eu na minha casa e tu, na tua.
Antigamente (hoje, tudo virou antigamente) se falavam em amizades coloridas, ou seja, amizades que envolviam mais do que olhares e sorrisos, mas não pressupunham compromissos para a vida inteira. Hoje o termo da moda é relacionamentos.
Os relacionamentos podem ser múltiplos ou aos pares, dependendo do gosto e das condições financeiras dos interessados, porque numa sociedade capitalista tudo tem custo.
Antes você comia feijão com arroz durante a semana inteira com a sua cara-metade (outra expressão que saiu de moda) e no domingo partia para um churrasco como muita cerveja.
Hoje, um relacionamento que se preze exige um bom investimento: restaurante com toalhas de linho, luz de velas e vinho importado, de preferência um espumante cheio de gás.
Qual o melhor para o futuro? Há 50 anos atrás Sartre e Simone Beauvoir já pregavam o casamento livre. Cada um na sua, as vezes juntos, outras separados. Parceiros múltiplos e todos amigos entre si.
Não sei não, se está alternativa é viável. Imagina a tua ex te apresentando para o novo parceiro (por favor, não chame o cara de Ricardão). O sujeito é vegetariano, não bebe, votou na Marina, acha o Moro a salvação da lavoura e além de tudo é gremista.
Falar o quê, com um cara destes?
Saudades dos velhos e bons casamentos.

Pelo menos, não tinham surpresas desagradáveis

A imagem do capitalismo numa campanha publicitária

Quando se tornou hegemônico na Europa, principalmente na Inglaterra e França, a partir da segunda metade do século 18, o capitalismo foi um extraordinário fator de progresso, rompendo as amarras do feudalismo, que prendia o desenvolvimento econômico do mundo civilizado
Ele rompeu barreiras nacionais, trouxe a secularização dos costumes, a igualdade política das pessoas dentro de uma democracia formal consubstanciada no formato republicano (ainda que a Inglaterra continuasse um reino) e criou um novo modelo de busca de felicidade para os homens, representado pela sua realização econômica como indivíduo.
Ao lado desse lado positivo, trouxe também grandes malefícios para a humanidade, como guerras, exploração de populações inteiras fora do seu centro de poder e a destruição sistemática da natureza.
Há muito tempo, o modelo capitalista esgotou sua capacidade de gerar progresso e seus aspectos negativos se tornam cada vez mais dominadores.
Para se manter vivo,ele dispõe de muitas armas, desde a coerção armada das populações descontentes, à manipulação permanente da opinião pública através dos meios de comunicação, divulgando a ideia de que o modelo capitalista é o único possível e que o máximo de aspiração possível para a humanidade é o seu aprimoramento dentro da lógica da democracia representativa em que vivemos.
Nessa última tarefa, cumpre papel fundamental a Publicidade, ao transformar produtos nocivos ao ser humano em em objetos de desejo. É ela quem promove a destruição sistemática de bens de consumo ainda válidos, para que novos produtos possam ser consumidos. É ela, a Publicidade, que, a serviço de negociantes inescrupulosos, cria ilhas de prosperidade em meio a um mar de necessidades. É finalmente ela, que financiando com seus anúncios os meios de comunicação, permite a existência de um sistema de voltado fundamentalmente para a manutenção intacta do status quod injusto atual.
Um bom exemplo de como isso é processado pode ser visto, analisando um dos comerciais de televisão de maior sucesso no País nas últimas décadas do século passado e que até hoje pode sintetizar o que pretende o capitalismo: levar vantagem em tudo.
Trata-se de uma campanha publicitária para o cigarro Vila Rica, da multinacional J. Reynolds, criado pelo publicitário José Monserrat Filho, da agência Caio Domingues Associados em 1976. O comercial usava o testemunho do jogador Gerson, que tinha sido campeão do mundo em 1970 e que na época era comentarista de futebol. Uma frase dita no comercial de TV, por Gerson, acabou como símbolo de quem age sem escrúpulos, sempre querendo ter lucro a qualquer custo (ideia básica do capitalismo): “Gosto de levar vantagem em tudo. Certo?” O interessante é que o criador do comercial, José Monserrat, era um homem de esquerda, vindo de uma longa temporada de estudos na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou.
Dizem que Gerson se arrependeu depois de ter feito esta campanha publicitária que reforçou no brasileiro o conceito de que é preciso levar vantagem em tudo, enquanto o seu criador, o então publicitário José Monserrat, explicou que a ideia não era de valorizar quem passa os outros para trás, mas quem sai na frente, embora admitindo que o espírito popular, na sua sabedoria, entendeu do primeiro jeito.

O vidente


Havia apenas um letreiro meio desbotado na fachada, Bar do Manoel. Uma verdadeira espelunca, mas era exatamente o que eu estava esperando.
Prudentemente, havia deixado o carro estacionado a uma quadra adiante e acabara caminhando pela rua Piauí, no Passo da Areia, até chegar na frente do bar.
Como eu imaginava, naquela hora da manhã o bar estava ainda vazio. Atrás do balcão, com cara de poucos amigos, estava aquele que deveria ser o Manoel, que dava o nome ao bar. Um homem gordo, aparentando uns 50 anos, quase careca e com um enorme bigode, o típico português das piadas. Além dele, apenas um empregado, que com uma vassoura, tratava de empurrar pedaços de papel e tocos de cigarro para a soleira da porta.
Eu já tinha vivido situações parecidas e sabia quais os problemas que haveria de enfrentar, mas o que fazer, teria que ir em frente.
Dei um bom dia e recebi de volta um resmungo.
– Seu Manoel, preciso saber se o senhor recebeu uma encomenda, um engradado de bebidas finas, champanha, vinhos, uísques, conhaques.
Com uma visível irritação, o seu Manoel em vez de responder, me fez outra pergunta.
– O que o senhor quer saber? É vendedor de bebidas? Então não estou interessado. A bebida que mais vendo aqui é cachaça.
Usando a melhor diplomacia possível tentei informar ao seu Manoel que recebera um aviso que essa encomenda tinha sido entregue no seu bar e precisava apenas saber se ele a recebera.
O seu Manoel parecia agora a beira de um ataque de fúria. 
– Não tem nada de encomenda e o melhor é o senhor não brincar comigo
Pus uma nota de 50 reais sobre o balcão e pedi uma dose de cachaça, logo eu que nunca bebia cachaça, mas achei que isso acalmaria o homem.
Realmente parece ter funcionado um pouco. Seu Manoel serviu a cachaça num pequeno copo, jogou o dinheiro na gaveta e dela retirou umas moedas de troco.
– Não se preocupe, seu Manoel, pode ficar com o troco. É uma paga pelo incômodo.
O clima ficou então bem melhor e ele quis saber, porque eu estava interessado numa encomenda que disse que não tinha chegado
– É difícil de explicar, mas o senhor me faria um grande favor se verificasse se não tinha mesmo chegado a encomenda.
O empregado que varria o chão, parou um momento e entrou na conversa
– Seu Manoel, chegou um engradado de bebidas esta manhã e eu pensei que o senhor tinha encomendado. Está naquele canto, embaixo do balcão.
– Quem trouxe?
– Ninguém trouxe – quer dizer – quando cheguei para abrir o bar, estava do lado de fora, encostado na porta, o engradado.
Tinha alguma nota, um recibo de entrega ou pagamento?
– Nada, seu Manoel, só o engradado
Seu Manoel se voltou para mim, novamente ríspido.
– O senhor colocou na minha porta. Por quê? Eu já lhe disse que não vendo essas porcarias aqui. Agora pegue o seu engradado e dê o fora.
Não teve explicação. Tive que pegar o engradado e levá-lo nas costas até o meu carro, estacionado quase na Assis Brasil. Pelo menos essa vez, eu tinha tirado alguma vantagem do episódio: ficaria com um estoque de bebidas finas.
Nas outras vezes, não ganhara nada, só incômodos.
Repentinamente, eu ficava sabendo que havia uma encomenda nos Correios em nome de Fulano de Tal, morador em tal endereço e ele não sabia disso. Podia ser algo importante, eu procurava o sujeito e ele só faltava chamar a polícia. Tinha que insistir muito para que ele procurasse os correios. Talvez, até para se livrar de mim, o sujeito acabava ligando para a agência do correio e realmente tinha uma encomenda lá para ele. Alguns ficavam interessados na maneira como eu ficara sabendo do fato e eu explicava que não sabia, subitamente, aparecia na minha mente uma mensagem com nome e endereço. Na maioria das vezes, surgia sempre aquela brincadeira: quando lhe informarem os números da mega sena, me avisa. Isso nunca havia aparecido naquelas visões, nem os números da loteria, se o Inter iria ser campeão ou se a Dilma voltaria à Presidência.
Agora, eu estava sendo diante do Dr. Franklin, psicanalista, tentando lhe explicar o que ocorria comigo. Ele, felizmente, me ouvia com atenção, possivelmente porque já me enquadrara numa das categorias dos distúrbios da mente estudados por Freud e costumava não se espantar com nada que seus pacientes pudessem dizer.
Essa vez, porém, seria diferente.
– Depois desse episódio do bar do seu Manoel, o senhor teve outra visão?
– Pois é, doutor, uma das razões para eu estar aqui é que tive uma visão de um fato que vai acontecer com o senhor;
– O Dr. Franklin não conseguiu disfarçar um sorriso irônico, mas me mandou seguir em frente.
– O senhor vai fazer 52 anos amanhã, não é verdade?
Ele sorriu novamente e disse que sim, provavelmente imaginando que eu havia procurado antes me informar de seu aniversário em algum almanaque médico.
– O problema, Dr. Franklin é que o senhor não vai completar os 52 anos e eu vim aqui para lhe avisar que hoje é o seu último dia de vida.
Embora ainda conservasse o sorriso irônico no rosto, ele pareceu ficar um pouco preocupado com a minha informação.
– O que o senhor quer dizer com isso?
– Esses nomes – Dr. Infante e Dra. Lorena – lhe dizem alguma coisa?
Agora ele estava muito atento.
– O Dr. Infante foi meu companheiro de faculdade e a Dra. Lorena é sua esposa e divide esse consultório comigo. Ela é também psicanalista.
– E o senhor tem um caso com a Dra. Lorena?
Ele enrubesceu um pouco e negou o fato sem muita convicção
– Foi caso do passado. Um relacionamento rápido. Mas como o senhor sabe disso?
– Não sei como, mas sei. Esse é o problema. O outro problema é que o Dr. Infante também sabe disso e quer acabar com tudo.
– Como acabar com tudo? O que senhor viu na sua imaginação?
– Infelizmente acho, pelas minhas experiências passadas, que não é apenas imaginação. Eu vi que ele entra no seu consultório e lhe dá um tiro na cabeça. O senhor está sentado nessa cadeira, exatamente como está agora, atendendo um paciente, no caso eu, ele abre a porta, entra e não fala uma palavra, apenas lhe dá um tiro na cabeça.
O Dr. Franklin, nesta altura já bastante pálido, ia dizer alguma coisa, quando tocou o telefone e eu ouvi a secretária, com uma voz aflita, avisando.
– O Dr.Infante passou voando por aqui e está entrando diretamente no seu consultório