Carta a Sérgio Gonzales

Publicitários arrependidos
O Sérgio Gonzales é um dos mais lúcidos publicitários brasileiros. Durante anos ele dirigiu o Departamento de Criação da MPM, conquistando a todos com base numa liderança que misturava uma alta dose de criatividade pessoal com uma extrema tolerância em relação às fraquezas dos outros.
Por alguns anos, tive a sorte de trabalhar ao seu lado e muito aprendi.
Agora, ele traz, dos seus arquivos implacáveis, um velho anúncio dos tempos anteriores a MPM, de enaltecimento da função da Propaganda (vou discutir isso mais adiante) e por tabela do regime militar da época.
Publicitário, com boa formação política (entenda-se por boa formação, ser de esquerda), Sérgio não se furta de um mea-culpa e de uma justificativa: fazíamos isso para ganhar nosso pão e ironicamente, como uma pessoa inteligente que é, diz que também para o uísque de fim da tarde. Não lembro se ela fala uísque ou outra qualquer bebida, o que dá no mesmo.
Pois, é, Sérgio. Naquela época, havia outros jovens como nós, talvez até mais talentosos, que em vez de fazer anúncios pegaram em armas contra o regime. Certo ou errado, eles morreram e nós sobrevivemos pelas escolhemos que fizemos.
O Julio Ribeiro, ícone da propaganda brasileira, disse uma vez que o publicitário brasileiro era um jagunço das multinacionais, o que não o impediu de ganhar muito dinheiro com a conta da Fiat e claro com o seu talento.
Nós, que sobrevivemos airosamente aos anos de chumbo (não me lembro de nenhum publicitário que tenha sido preso e na época, eles prendiam por qualquer coisa) hoje somos todos de esquerda.
Todos não, alguns. No meu modo de ver, os mais inteligentes. Ou melhor, os mais sensíveis aos valores humanos (acho que faltou testosterona nessa última frase, mas vá lá).
Agora, me diz uma coisa, Sérgio, ou melhor duas:
1 – Por que não assumimos nossa velha canalhice e admitamos que ajudamos com atos, palavras e pensamentos (era assim que começavam nossas confissões antes de nos tornamos ateus praticantes) a manter esse velho status quod que ainda hoje nos incomoda? Éramos os divulgadores da face risonha e franca do capitalismo predador. Eu, confesso, fiz pior. Além de fingir acreditar nele, vendi este peixe (mal cheiroso) durante anos na universidade.
2 – O que é um publicitário de esquerda? Existe esta categoria?  Os dois Roberto, por exemplo, o Callage e o Philomena.  Gente, pessoalmente, do maior valor. Cheios de talento e criatividade. Pelo que escrevem, hoje, parecem ser de esquerda. Pode? Eles ficaram ricos fazendo anúncios coloridos, bonitos, emocionantes para empresários que ganharam ou ainda ganham dinheiro, ficando com a “mais valia” dos empregados. Quem é de esquerda sabe o que é isso.  O Marx inventou o termo e todos nós, os de esquerda, o tomamos como verdade. Quem sabe, o “ser de esquerda” é tão amplo que permite ser a favor do sistema capitalista e continuar sendo de esquerda, esquecendo os ensinamentos de Marx.
Então, onde nos classificamos?  Socialistas? O partido socialista, aqui no Brasil vota com a direita e até com a extrema direita. Depois, não podemos esquecer que a sigla  NAZI significava nacional-socialismo. Comunista, então? A Manoela é comunista e a gente nunca votou nela. Nos governos do Lula e da Dilma, o PCdoB, ficava quase no centro.
Quem sabe anarquistas?
E aí, Sérgio Gonzales, como dirimir tantas dúvidas?
Certo estavam aqueles publicitários que, aparentemente, sempre estiveram felizes com a condição de ser assim chamados. Lembro de alguns e espero não colocar mais alguns esquerdistas nesta lista. Acho que não. O João Satt (grande vencedor nessa área), o Luís Augusto Cama (capaz de teorizar horas inteiras sobre os grandes valores da publicidade), o Marcos Eizerick (um talento como criador), o Itamar Graven (um homem prático), o Laerte Martins (que emprestou o nome para uma agência de sucesso), o Antônio D´Álessandro (que rompeu a hegemonia da MPM no mercado local), o Faveco ( que me abriu as portas para esta festa), a Bárbara Openheimer ( bonita e inteligente) o Eduardo Willrich ( que me despediu duas vezes das suas agências), o Dick Schertel ( o destemido) e o Zeca Honorato ( uma pessoa de fino trato – nunca ninguém me chamou assim – e que preside com brilho a ARP) e tantos outros, cujos nomes me escapam agora. Todos assumidamente publicitários, com muito orgulho.
Então, Sérgio, ficamos assim:
Ou assumimos a inutilidade social do que fizemos como profissionais de publicidade e como nos velhos expurgos da União Soviética, confessamos nossas culpas ou cinicamente, admitamos que estamos usando esta capa de esquerdistas para aliviar nossas culpas.

Pelo que escrevi até agora, amigo Sérgio, parece que estou escolhendo o primeiro caminho, embora nada seja definitivo na vida.
OS FALCÕES DA PROPAGANDA GAÚCHA E SEUS MITOS FUNDADORES
Durante cerca de 30 anos, entre 1970 e 2.000, trabalhei nas principais agências de propaganda de Porto Alegre, desempenhando funções mais ou menos importantes e conhecendo alguns dos seus principais líderes.
Praticamente nenhum deles tinha, ou pretendia ter, alguma base teórica para o seu trabalho. Eram, acima de tudo, talentosos negociantes, capazes de ganhar dinheiro em qualquer atividade comercial, inclusive na propaganda.
É sobre eles que vou escrever a seguir, analisando seus perfis, o que certamente não coincidirá com o que pensam sobre eles, outras pessoas.
É apenas o que penso.
Nessa minha seleção, vou incluir Flávio Antônio Correa, Hugo Hoffmann, Ito Ferrari, Antônio Mafuz, Rolf Poganski, Salimen Júnior e Daltro Franchini.

FLÁVIO ANTÔNIO CORREA – FAVECO
O conheci no departamento de jornalismo da TV Piratini. Era filho de um dos herdeiros dos negócios de Assis Chateaubriand e voltava a trabalhar depois de enfrentado e vencido uma grave doença. Ficou pouco na televisão. Logo se transformou num publicitário de sucesso. Me convidou em 1969 a trabalhar na sua agência, a Standard, com um argumento imbatível: vais ganhar muito mais. O Faveco, nascido em berço esplêndido, não tinha qualquer inibição no trato com as demais pessoas, fosse ela o Governador do Estado ou a faxineira da agência. Autocrítica, era algo que não fazia parte de sua personalidade. Uma vez o Ibsen Pinheiro disse que o sujeito era tão confiante em si, que seria capaz de andar de cuecas na frente da Rainha da Inglaterra, como se estivesse vestindo um fraque. Assim era o Faveco. Naqueles anos que trabalhei na Standard, um dos seus diretores era o Plínio Cabral. Ele tinha sido dirigente do Partido Comunista e depois Chefe da Casal Civil no segundo governo de Ildo Meneghtti. Autor de vários livros, um intelectual de respeito, mas que se submetia à autoridade do Faveco nas discussões internas da agência, o que sempre causava algum tipo de espanto para alguém que, como eu, acreditava na superioridade da inteligência sobre a impulsividade irracional.
HUGO HOFFMANN
Quase trabalhei com ele. Tinha fama no mercado de ser extremamente grosseiro com seus funcionários. Dizia que costumava rasgar na frente dos seus autores as peças publicitárias que não gostava. Uma vez, me convidou para trabalhar na sua agência a Mercur. Nos encontramos numa sexta-feira na sua sala. Depois de duas ou três frases, me perguntou qual era a minha linha ideológica. Quando disse que pretendia ser socialista, sacou a pergunta que já tinha preparado, porque obviamente conhecia previamente minhas tendências políticas.
– Como um socialista pode trabalhar numa empresa que defende o capitalismo?
– Estou sendo convidado para ser empregado ou patrão? Como empregado, não vejo problema. Como patrão, teria que pensar melhor.
Fiel ao seu estilo, ele encerrou a conversa na hora com uma frase definitiva.
– O emprego é teu. Começas na segunda-feira.
Trabalhar na agência significaria ter que abandonar as aulas de História na UFRGS, pela manhã. Fiquei na dúvida durante todo o fim de semana e na manhã de segunda, até chegar a agência e ficar sentado numa sala esperando a pessoa que iria me mostrar minha mesa de trabalho.
Nessa hora tomei a decisão: levantei da cadeira, abri a porta e fui embora para nunca mais voltar. Depois disso nunca mais falei com Hugo Hoffmann.
ITO FERRARI
O conheci quando escrevia o Repórter Esso na TV Piratini e ele era o diretor regional da MacErickson, a agência que tinha conta da Esso. Anos mais tarde,  deu o grande lance de sua vida, saindo da agência com as principais contas na mão e se associando a Eduardo Willrich Neto e Gilberto Lehnen, na Marca, até então uma pequena agência. Esse período coincidiu com a minha ida para a Marca, quando pude conhecê-lo melhor. Ameno no trato, passava sempre a ideia de que as pessoas serviam apenas para fazer com que seus negócios dessem certo. Era aquele sujeito que não prejudicava ninguém intencionalmente, mas que não ajudaria ninguém também, se isso trouxesse um prejuízo, por menor que fosse, a possibilidade de ganhar mais dinheiro. Na agência, era motivo de piadas a necessidade que tinha de arrumar patrocinadores para os programas que sua mulher apresentava na televisão. Diziam que era o pedágio que os patrocinadores pagavam para ter suas contas atendidas por ele. Embora poucos lembrem, foi ele o criador do curso de Propaganda na Famecos, desmembrando-o do Jornalismo.
ANTÔNIO MAFUZ
Nos três ou quatro anos que passei na MPM, devo ter falado com ele uma meia dúzia de vezes. Vivia encastelado em sua grande sala no último andar do prédio da rua Silveiro, onde só se sentia acesso mediante chamado dele. Sempre me pareceu uma pessoa afável, mas um pouco entediada com as tarefas do dia-a-dia da agência, as quais entregava inteiramente a uns poucos diretores, mais seus amigos de muitos anos que profissionais do ramo. A MPM parecia naqueles anos uma verdadeira cidade com vida própria, que atraia a atenção e a inveja de concorrentes, clientes e políticos. Era comum, nos fins de tarde, ver chegando no estacionamento da agência, o então governador Jair Soares, que segundo se dizia vinha pedir conselhos ao Mafuz. A agência tinha as maiores contas do Estado, algumas até conflitantes entre si, mas que não abriam a mão de ser “atendidas pelo seu Mafuz”. Isso começou a ruir, quando um então auxiliar de atendimento convenceu um desses grandes clientes, um fabricante de calçados, a deixar a MPM e criar uma nova agência para ele.
ROLF POGANSKI
Tinha sido diretor financeiro da MPM, de onde saiu para fundar a sua agência, a Módulo. Sua ideia era repetir nos menores detalhes a história da MPM. Um talento incomum na arte de ganhar dinheiro, vivia, como disse uma vez o Fernando Henrique, na fronteira do eticamente permissível. Aproveitando o fato de que, com o fim da ditadura militar, as contas publicitárias do Governo, até então cativas da MPM, caíram no mercado, escolheu o PMDB como ponto de apoio para suas reivindicações na disputa que se iniciava. Foi bem-sucedido e durante o governo Sarney não parou de ganhar dinheiro. Quando o Collor chegou com outros protegidos, vendeu a agência e foi ganhar mais dinheiro na construção civil. Era um homem rústico, quase sem nenhuma cultura, mas com uma capacidade imensa de usar o talento dos outros para obter o que queria. Religioso, de formação Batista, espalhava seus fiéis (mais fiéis a ele do que a sua igreja) nas funções financeiras da agência, certo de que isso garantiria sua retaguarda. Eu era o intelectual de esquerda que ele gostava de exibir em certas rodas. Foi o único momento em minha vida de publicitário que tive oportunidade de ganhar muito dinheiro, mas não aproveitei.
SALIMEN JÚNIOR
Trabalhei com o Salimen praticamente no fim da sua carreira de publicitário, na Símbolo Propaganda. Alguns anos antes tinha sido convidado por ele para trabalhar na sua agência, a Publivar, mas preferi ir para a MPM, o que ele depois sempre me cobrava como uma ingratidão. Nas décadas anteriores tinha sido um dos mais famosos apresentadores de programas de auditório nas emissoras de rádio e mais tarde na televisão. Orgulhava-se de ter dirigido a primeira transmissão externa a cores pela televisão, durante a Festa da Uva de 1972, em Caxias do Sul, pela TV Difusora. A lembrança que guardo dele era de uma pessoa extremamente humana, preocupada com o bem-estar dos seus amigos e devotando um grande amor aos filhos. Me chamava de poeta, o que sempre recebi como um elogio. Era uma pessoa com o nível intelectual bem acima da média dos publicitários a quem conheci. No final da vida, se tornou um dos diretores do Jornal do Comércio.
DALTRO FRANCHINI
Meu último emprego numa grande agência de Propaganda foi com ele, na Símbolo, Tinha estado algum tempo fora do mercado e voltei por indicação do Itamar Graven e com aprovação dele, num momento em que o mercado se fechava para os profissionais mais velhos. Embora tenha sido presidente da Federação Nacional das Agências de Propaganda e exercido uma grande liderança na área, era uma pessoa tímida, avessa às discussões. A partir de um certo momento, durante meus anos na Símbolo, a nossa relação, sem deixar de ser profissional, se tornou bem mais amigável, apesar da enorme diferença entre nossos pontos de vista sobre política, principalmente. Guardo uma boas lembranças das nossas conversas principalmente sobre a história de alguns políticos conhecidos.

A angustiante sensação de não existir


Por alguns longos minutos vivi a incrível sensação de não existir. Tudo começou quando, morando em Gramado, fui na agência da Caixa para receber aquela humilhante aposentadoria que meus mais de 30 anos de trabalho fizeram jus. O terminal eletrônico da Caixa tem aquela aba na parte superior, onde para não bater a cabeça você deve ficar sempre curvado. O decorador que bolou aquela engenhoca deve pensar que todos os brasileiros têm no máximo 1,60 de altura.O terminal, antes de liberar teu dinheiro, sempre tem muitas perguntas para fazer (código cheio de letras e números, nome, cpf, etc) o que te obriga, como no meu caso, a enfiar os óculos na ponta do nariz. É preciso, também inserir aquele cartão de plástico que a Caixa te deu, mas que pede que guardes como um tesouro. Então, saco o cartão de dentro da carteira, que hoje uso apenas para guardar todos aqueles documentos que são exigidos para permitir que se possa viver na sociedade de consumo. No visor do caixa eletrônico aparece o aviso para não pedir auxilio a ninguém. Cautela, mil ladrões estão observando meus gestos. Nesse momento fatídico, coloco a carteira sobre uma aba lateral do caixa eletrônico, introduzo o cartão magnético de plástico e depois de inserir aquele código idiota, espero que finalmente ele me libere o dinheiro que o governo me dá todos os meses pelos serviços que prestei a varias empresas capitalistas durante décadas. Mas, aí começa o drama. O visor me avisa que não pode autorizar o saque porque o valor excede meu limite diário. Esqueci que nesse mês estou recebendo, além daquele mísero provento (chamam assim, porque deve ser um dinheiro que o vento leva), um pequeno acréscimo com o tal empréstimo consignado. Então, preciso ir diretamente no caixa normal. Antes disso devo tirar uma senha de outro instrumento eletrônico, que me faz novas perguntas para só então permitir minha entrada naquele recinto protegido por um sistema de portas controladas magneticamente e guardas armados. Finalmente consigo entrar e durante meia hora espero numa fila, até chegar ao caixa e finalmente receber o que é meu por direito. Nesse momento, me dou conta que tenho na mão apenas o cartão magnético da Caixa. E a carteira com os outros documentos? Certamente ficou naquela aba do caixa eletrônico. Volto rápido. Nada. Pergunto à simpática e distraída recepcionista. Nada. Ela me dá um conselho, depois que respondendo a sua pergunta sobre onde tinha estado antes de chegar na Caixa, digo que passei no Correio. Deve ter ficado lá. Saio quase correndo rumo ao Correio, ainda com o cartão da Caixa na mão. No caminho, penso – que idiota que sou – só estou com o cartão na mão porque o tirei da carteira na malfadada operação do caixa eletrônico – mesmo assim prossigo.Obviamente, não ficara no Correio. Volto para a Caixa. Nesses minutos todos, sou alguém que não existe.
Vivo, sem poder provar que existo. O passe para andar de graça de ônibus deve ser a perda mais inútil. Ele só serve para Porto Alegre e agora vivo em Gramado. A carteira de motorista, que me custou um par de óculos novos para conquistá-la, também não importa muito porque não tenho carro aqui em Gramado.. Mas a ausência do RG me torna um vivo improvável. O cartão de crédito perdido vai impedir que continue consumindo como se dinheiro tivesse. E o bilhete da mega sena, que esta vez estaria premiado, vai tornar outra pessoa milionária e me condena à pobreza definitiva. Como um morto vivo chego novamente na Caixa. Antes que fale, uma outra recepcionista que não tinha percebido na primeira vez, me responde a pergunta com tudo aquilo que eu queria ouvir.
-E esta?
Era minha carteira. Estou vivo novamente.

A Vizinha

A VIZINHA
Quem deu a notícia foi a minha mulher, a Natália
– Temos vizinhos novos.
No condomínio de prédios populares em que morávamos, o apartamento de frente para a janela da nossa sala estava vazio há muitos meses. Agora segundo a Natália, ele iria ser ocupado por um jovem casal e eu fiquei pensando que talvez pudesse recuperar aquelas sessões de sexo explícito que eu assistia todas as tardes, quando o apartamento era ocupado pela Dona Mercedes e o seu Francisco.
Dona Mercedes era uma mulata gorda, já adiantada nos anos, mas ainda muito interessada nas batalhas do sexo. À tarde, quando seu Francisco saia para o trabalho, ela levava sempre algum garoto para lhe fazer companhia. Acho que por uma questão de respeito com o leito conjugal, ela se divertia com os meninos sempre na sala.
Bastava eu chegar na janela e lá estava Dona Mercedes fazendo sexo de todas as maneiras imagináveis com seus pequenos convidados. As três da tarde, invariavelmente, começava meu programa vespertino. Naquela época, já desempregado, eu me aproveitava daquele espetáculo gratuito que terminava para mim sempre com o consolo da masturbação.
Um dia, a polícia bateu no apartamento e levou Dona Mercedes. Um vizinho a havia denunciada por aliciamento de menores. Dizem que o seu Francisco ficou tão abalado com o fato que morreu pouco depois.
Agora, com os novos inquilinos, talvez voltasse as minhas sessões de voyeurismo.
Por alguns dias, as janelas ficaram com as cortinas baixadas, até que numa segunda feira, elas se abriram novamente e pude conhecer a nova vizinha. O seu parceiro, eu imaginava ser o rapaz que me perguntou onde havia uma padaria no bairro quando eu saia para a minha caminhada matinal.
Agora conhecia a mulher. Era uma morena bem joveme pelo que pude observar também muito bonita. Fingindo que olhava alguma coisa no horizonte mais distante, levei alguns segundos para fixar os olhos nela. Surpreendentemente, ela sorriu e me cumprimentou.
Confesso que na hora fiquei tão perturbado que nem respondi e fui me abrigar num canto da sala onde ela não pudesse me ver. Ali permaneci, por alguns segundos, tomando coragem, até que voltei a olhar diretamente para a janela, esperando que ela já tivesse desaparecido.
Em vez disso, lá estava ela ainda sorrindo para mim. Ela havia se afastado alguns passos para trás e pude ver então que ela estava praticamente despida e parecia me fazer um gesto.
Estou sonhando, pensei, mas não. Com as mãos, ela me fazia aquele gesto inconfundível me chamando até ela.
 Não era sonho. Ela estava lá, sorria quase desnuda e me chamava.
Ela deve ter percebido que eu ainda estava indeciso. Então levantou um pequeno cartaz onde estava escrito
Apto. 204. Venha logo!
Era agora ou nunca. Sai quase correndo, desci as escadas aos pulos e corri para o prédio vizinho. O apartamento 204 ficava no segundo andar. Cheguei ofegante e antes de tocar a campainha esperei alguns segundos para me recuperar.
Depois toquei rapidamente a campainha para não chamar a atenção de ninguém no prédio.
Ao primeiro toque, ninguém atendeu. Desesperado, toquei várias vezes. Ouvia a campainha soar no interior do apartamento, mas a porta não se abria.
A porta que se abriu foi do apartamento ao lado, o 206. Uma senhora de avental e uma panela na mão, me perguntou se eu procurava alguém.
_ A senhora que mora no apartamento 204

– Não mora ninguém nesse apartamento. Desde que a Dona Mercedes foi presa o apartamento está vazio.

Quase fui ator de teatro

A minha longa amizade com Ênio Gonçalves, infelizmente falecido no ano passado, começou nas peladas dos campinhos que existiam na época – na metade da década de 50 –  nas ruas Marquês do Alegrete e Augusto Severo, no Bairro São João, mas logo se tornou mais intensa quando descobrimos uma outra afinidade: o gosto pelo cinema.
Durante a semana, percorríamos os cinemas que acompanhavam a linha do bonde Floresta, do América, com seus programas duplos, passando pelo Rosário, Eldorado, Orfeu, Colombo, até chegar ao Ipiranga, com suas cadeiras ainda de madeira, ao longo da Assis Brasil, Benjamin Constant e Cristóvão Colombo.
Eventualmente, se havia um grande filme em exibição, íamos aos cinemas do centro, não esperando que ele chegasse aos cinemas de bairro.
Depois do cinema, no fim da noite, o programa era quase sempre o mesmo, caminhar pelas ruas da Vila do IAPI, onde segundo a lenda estava reunido o maior contingente de garotas dispostas a se entregar ao que hoje chamam de amassos, mas que na época era as bolinas e os agarramentos.
Eram sempre expedições fracassadas, mas que permitiam que trocássemos ideais sobre qual seria o nosso futuro. Enquanto eu, depois de perdido o sonho de ser centroavante do Internacional, pensava num vestibular para Medicina, o Ênio se referia sempre a uma misteriosa opção que ele não revelava qual era.
Algum tempo depois, ela ficaria conhecida quando ele ingressou no curso de teatro da Universidade Federal e eu acabei optando pelo curso de História. Continuávamos amigos, mas as sessões de cinema e as caminhadas pelas ruas do IAPI não aconteciam mais. O interesse pelas moças mais liberadas continuava, porém.
Ele, com muito mais sucesso do que eu. Cheio de inveja, eu atribuía o seu sucesso com o sexo oposto o fato dele estar envolvido com o teatro, onde de forma machista, imaginava que se reuniam todas as moças que “davam” para os namorados.  O fato do Ênio ser um cara extremamente bonito e eu dentuço e magricela, parecia não influir no meu julgamento.
Talvez cansado das minhas observações, um dia o Ênio veio com uma proposta.
– Tem um grupo que está preparando uma peça e precisavam de muitos rapazes da nossa idade. Topas para fazer um teste junto comigo?
Era a chance de conhecer as tais moças que “davam” para os namorados.
E lá fui eu junto com o Ênio para o teste na sede de um sindicato de empregados do comércio na Rua da Praia.
Havia uma meia dúzia de rapazes, que quando eram chamados ao palco, recitavam uma pequena fala sempre para uma mesma moça, que respondia com apenas uma palavra.
Eu fiquei como o último e já estava pronto para desistir depois de ouvir o Ênio recitar a plenos pulmões no palco
– SUA MEGERA, PROSTITUTA, MESSALINA, JAMAIS ME DOBRAREI AOS TEUS CAPRICHOS DE MULHER INFIEL. VOU TE FAZER PAGAR COM JUROS ESTA TUA TRAIÇÃO ATÉ A ÚLTIMA GOTA DO TEU SANGUE.
A moça respondia no mesmo tom desafiador
– O QUÊ?
Enquanto caminhava trêmulo para o pequeno palco, pensando “o que estou fazendo aqui”, resolvi dar outra conotação ao texto, mais de acordo com o que estava sentido na ocaisão. Em vez de um desafio, um lamento de quem se sente traído.
Disse o texto quase um sussurro:
– sua megera, prostituta, messalina, jamais me dobrarei aos teus caprichos de mulher infiel.  Vou te fazer pagar com juros esta tua traição, até a última gota do teu sangue.
A resposta dela deixou de ser um desafio. Ela não deve ter ouvido direito e respondeu com uma pergunta.
– O quê?
Aí, a plenos pulmões, com havia ouvido o Ênio fazer, gritei
– SUA MEGERA, PROSTITUTA, MESSALINA, JAMAIS ME DOBRAREI AOS TEUS CAPRICHOS DE MULHER INFIEL. VOU TE FAZER PAGAR COM JUROS ESTA TUA TRAIÇÃO ATÉ A ÚLTIMA GOTA DO TEU SANGUE.
O diretor da cena gostou. Achou interessante, o que ele chamou de uma nova leitura do texto e me mandou voltar na semana seguinte quando seriam feitos os ensaios mais completos da peça.

Obviamente, eu nunca mais voltei para que não descobrissem o meu truque, apesar da insistência do Ênio (ele se transformou depois em um ator conhecido de cinema e televisão e um autor com peças de sucesso em São Paulo) e nunca fiquei conhecendo as tais moças que “davam” para os namorados e que só poderiam ser encontradas no teatro.

A Matadora

A MATADORA

O hospital fica em frente a uma grande praça. Quando me sinto um pouco melhor, como hoje, consigo chegar à janela e posso ficar olhando à praça. São 5 horas da tarde e nessa hora, ela começa a ficar cheia de pessoas fazendo exercícios, muitas crianças brincando, gente puxando seus cachorros e principalmente casais nos bancos, namorando.
Meu olhar sempre procura estes casais, num misto de inveja e também de pena. Alguns são mais pudicos nos carinhos que trocam, mas outros, sem maior atenção com seus vizinhos, estão começando uma relação sexual, que certamente não se dará aqui, mas num dos motéis que agora existem em praticamente todos os bairros da cidade.
Minha atenção maior se dirige para estes casais, que quase não conseguem suportar a ansiedade e o desejo sexual. Fico pensando se eles se sentirão gratificados depois que consumarem seu desejo ou terão muitos motivos para se arrependerem como aconteceu comigo.
Minha história, que está terminando agora na janela desse hospital para doentes portadores de HIV, começou há pouco menos de um ano e seus primeiros momentos foram extremamente distantes do drama que estava se armando e do qual eu não percebi nenhuma indicação do que iria acontecer.
Tudo teve início quando vi no facebook um post da minha Graça com uma foto em que ela aparecia sorridente entre um grupo de mulheres. O pequeno texto dizia que se tratava de um encontro comemorativo aos 20 anos de formatura da turma de comunicação da PUC e não dava o nome das pessoas que estavam na foto.
Além da Graça e de uma outra mulher, a Carol que eu havia sido também professora, como eu, na PUC, me chamou a atenção outra mulher, de óculos, quase escondida no fundo da foto. Tentei mentalmente tirar aqueles óculos para ver se a identificava melhor.
Continuei na dúvida, mas já decidido a confirmar ou não, quem eu desconfiasse que fosse.
Liguei para a Graça e ela me disse
– Sim era a Marga, aquela aluna da qual vivias enrabichado.
A Marga era uma morena espetacular. Rosto bonito, morena, dentes alvos, um corpo esbelto, seios desafiadores querendo romper suas blusas decotadas e uma bunda arrebitada.
Foi minha aluna no último ano do curso e naquele período, transávamos com frequência, embora eu, como homem casado e interessado também em outras alunas, tivesse que dosar minha atenção com ela.
Quando ela se formou, a perdi de vista durante algum tempo. A reencontrei dois ou três anos depois, quando fui convidado para fazer uma palestra numa agência de propaganda.
Continuava solteira, livre e interessada em sexo. Retomamos a duas ou três semanas de encontros em motéis, até que por alguma razão que não recordo nos separamos outra vez.
Cinco ou seis anos depois, a encontrei por acaso no supermercado. Estava mais madura, mas ainda extremamente atraente. Me disse que tinha casado e se separara algum tempo depois.
Continuamos a conversa num motel próximo.
Depois desse encontro, só a revi de relance saindo de uma loja de produtos infantis, ostentando uma enorme barriga de grávida.
Com essa visão, a risquei definitivamente da minha memória, até reencontrá-la agora quase 20 anos depois.
Foi mais a curiosidade do que qualquer tipo de desejo, que me fez ligar novamente para ela.
Não tinha me esquecido, não. Estava descasada novamente. O filho que vi na sua barriga há tantos anos atrás, tinha nascido, estava bem-criado, já formado e vivendo no exterior.
Ela vivia sozinha num apartamento da Zona Norte e teria prazer em me receber para um drinque no fim da tarde.
Fui. A tesão tinha ficado no passado. Era uma mulher ainda razoavelmente atraente, certamente ainda bem melhor fisicamente do que eu, mas sem aquele apelo sexual que dela transpirava em outros tempos.
Sua conversa agora se voltava para assuntos relacionados com a conservação da saúde, beber muita água, só comer coisas naturais.
Como éramos feitos do mesmo material das estrelas, a luz que fazia crescer as plantas, se transferia para nós quando as usávamos como alimento.
Falava de Jung, Ghandi e Alan Kardec, de budismo, espiritismo, misturando tudo numa grande salada que ia aos poucos me fazendo ficar arrependido pela visita.
Levei o assunto para o lado do sexo. Era um tema que a interessava, mas logo vi que não mais como no passado. Dizia que naqueles tempos era apenas usada como mulher e que agora buscava uma comunhão de sensações com o homem com quem ia para a sua cama.
Percebi que aquelas boas transas do passado tinham acabado, mas como, por precaução, eu havia me munido de uma pílula de 50 mgs de Viagra, resolvi me integrar à sua preocupação. Cinicamente, fui dizendo que eu havia mudado, nada mais de sexo casual, de posições dominadoras na cama. Quase usando as mesmas palavras que ela, propus uma experiência mística, onde através do sexo buscaríamos um orgasmo único. Até eu mesmo me convenci que acreditava nisso.
Meia hora depois, estávamos nus na cama e descontada a aparência dos nossos corpos, debilitados um pouco pelo tempo, mais ou meu do que o dela, estava pronto para começar a penetração, quando ela interrompeu o processo.
– Sem camisinha, não pode ser.
E agora. Eu nem havia pensado nisso. Minha lembrança era do tempo em que se dizia que fazer sexo com camisinha era como chupar picolé sem tirar a embalagem.
Insisti um pouco.
– Não tem problema. Fiz exame de sangue na semana passada – mentira – e deu tudo normal.
Não adiantou. Era uma questão de princípios para ela. Sexo, só protegido.
E agora?
Ela disse que a uma quadra do seu apartamento havia uma farmácia. Em cinco minutos, eu poderia ir na farmácia e voltar.
E a tesão, resistiria?
Não havia outra coisa a fazer. Botei a roupa rapidamente e sai para buscar a tal camisinha. No caminho engoli outro comprimido de Viagra. Não queria fraquejar de maneira nenhuma. Aguentaria depois a dor de cabeça que aquela pílula azul sempre deixa, para nos lembrar que o prazer sempre tem um custo.
Na farmácia pedi a camisinha, mas não pude deixar de olhar a mulata que acabara de comprar um vidro de perfume. Nem a Marga, que me esperava no apartamento, nos seus melhores tempos, se comparava a esta mulher que acabara de encontrar na farmácia.
Uma mulata alta, esguia, rosto anguloso, lábios carnudos, seios grandes, tudo que eu gostava aos pedaços, reunido num só corpo.
O sorriso de dentes alvos que me dirigiu, era mais que um convite
– Está tão apressado assim em usar a camisinha?
Não eu não tinha pressa nenhuma.
O que será que a Marga ficou pensando quando eu não voltei naquele dia. Hoje, acho que ele teve muita sorte. Quem teve muito azar fui eu, ao encontrar aquela linda mulata
Quando perguntei como era seu nome, disse que eu a chamasse apenas de Matadora.
– Matadora?  Por que?
– Logo, logo tu vais entender.
Fomos para o motel, onde fortalecido pelos dois comprimidos de Viagra fiz sexo como nos melhores tempos.
Perguntei pela camisinha e ela disse para esquecer.
– Sexo com camisinha é como chupar picolé com a embalagem.
Ela sabia até mesmo aquele velho ditado.
De manhã, quando estávamos nos vestindo para sair, ela falou
– Ficastes curioso para saber porque esse nome, Matadora.
– Por quê?
 -`Porque minha meta é matar todos os homens promíscuos. Um deles, uma vez, me transmitiu essa doença infernal. Eu agora me vingo, transmitindo-a para homens bem vestidos que agora querem usar camisinhas para se preservar.
Ela explicou que era portadora da doença, mas imune às suas consequências.
– Eu agora sou uma arma mortal para vingar a todas as mulheres contaminadas por homens egoístas. Sou a Matadora. Entendeu o porquê do apelido?
Na hora, pensei que era brincadeira, mas um mês depois o diagnóstico médico foi devastador.
– O senhor está contaminado pelo vírus do HIV.

Era a Aids que me trouxe para este hospital e agora da janela fico imaginando se a Matadora não é uma daquelas mulheres que enxergo de longe namorando num banco da praça.

A Carta

O envelope era bastante comum. O papel, quase transparente, permitia ver no seu interior uma folha de caderno escolar dobrada em três partes. A primeira reação do Dr. Pompílio foi de jogá-lo no lixo. Devia ser um pedido de contribuição para algum asilo ou uma das tais correntes de Santo Antônio. O envelope estava no meio da enorme correspondência que a Dona Maria, a empregada, colocava sobre a mesa do café do Dr. Pompílio, todas as manhãs. Havia um envelope cinza, tamanho ofício, com o timbre do Tribunal de Justiça, destinado ao Dr. Pompílio de Toledo, Digníssimo Juiz de Direito da Comarca de Nova Roma; outro, menor, branco, com um recorte, identificando seu nome nas faturas dobradas do Cartão de Crédito; um boletim de uma agência de turismo oferecendo um safari na África do Sul; uma carta do Rotary informando sobre uma próxima reunião; material promocional de uma loja de automóveis, o jornal Folha de São Paulo, que ele assinava há alguns meses; avisos de pagamento de contas e perdido no meio de todo este material, aquele envelope. Antes de jogá-lo no lixo, o Dr.Pompílio o levantou contra a luz e pode perceber então que, no meio da folha do caderno escolar , havia o que parecia ser um recorte de jornal. Com a lâmina de cabo de marfim que usava para abrir a sua correspondência, ele cortou cuidadosamente uma das margens do envelope e deixou cair sobre a mesa a folha de caderno escolar. Depois, como se estivesse lidando com algo que pudesse contaminá-lo, desdobrou vagarosamente a folha. Colocado no centro da folha, estava um recorte do jornal Gazeta da Cidade com sua foto sob o título Magistrado Visita a Itália. A notícia era antiga. Há dois meses atrás, o Dr Pompílio tinha representado o Rotary de Nova Roma numa convenção em Milão. Viajara sozinho e passara uma semana fora. Embaixo do recorte do jornal, alguém escrevera a máquina: Por que você não pergunta a sua mulher o que ela fez durante a sua viagem ?
Era isso então. Não uma carta pedindo esmolas ou oferecendo uma corrente milionária. Mas sim uma carta anônima, tentando por em dúvida a honra da sua mulher. O Dr. Pompílio, aos 57 anos, depois de ficar viúvo durante 5 anos, casara com Dolores, uma ex-aluna do curso de direito, de 25 pedira para ser nomeado para uma comarca nova, de preferência numa cidade pequena, bem longe da capital. Mesmo com a diferença de idade, ele tinha absoluta confiança na fidelidade da mulher. Não seria uma carta anônima que iria abalar esta confiança. O que o irritava era o atrevimento de tentar envolver o Juiz de Direito da cidade num negócio tão sujo como este. No Rotary, ele soubera que outras pessoas já tinham recebido cartas deste tipo. O Dr. Heraldo, o farmacêutico chegou a mostrar uma carta que recebera com insinuações sobre o comportamento de sua mulher.  Se comentava também que o divórcio do engenheiro Fabião, depois de um casamento de 20 anos e 5 filhos com Dona Dileta, tinha a ver com umas cartas que ele vinha recebendo há algum tempo. O Coronel Aristides disse que chegara a pensar em pedir transferência da cidade, quando começou a encontrar em sua correspondência caricaturas em que aparecia sempre com longos chifres. Quando ele contou isso na última reunião do Rotary algumas pessoas não conseguiram disfarçar um sorriso irônico. A cidade inteira sabia que a mulher do Coronel Aristides tivera vários casos extra-conjugais, o último dos quais com um locutor da Rádio Cidade, que sentindo-se por demais assediado, informara no ar que iria embora para a capital por causa de uma relação mal resolvida com as forças armadas. Todo o mundo entendeu a insinuação, menos o Coronel Aristides, que proclamava a fidelidade da mulher.
– A Gertrudes é uma santa. Quando eu mostrei as caricaturas, ela disse que a cidade não mereceria alguém como eu. Que eu devia pedir transferência para a capital, que era uma cidade grande, onde não existiam estas fofocas.
O Dr Pompílio colocou a carta no bolso, engoliu rapidamente o café e se levantou decidido. Com ele a coisa seria diferente, iria por tudo em pratos limpos. Ele estava há menos de um ano na cidade e jamais permitiria que sua honra fosse conspurcada. Logo que chegasse no fórum, convocaria  o Delegado Ataliba e determinaria uma investigação rigorosa. A carta fôra postada na própria cidade. Nova Roma tinha uma população de umas 200 mil pessoas e umas 30 mil residências. Nem que fosse necessário bater de porta-em-porta, o delegado teria que descobrir a máquina onde fora batido o bilhete. Quando pegassem o canalha, iria pedir ao promotor, o Dr. Péricles, que apresentasse uma denúncia muito forte, enquadrando o sujeito em todos os artigos possíveis do Código Penal. Agora seria para valer. Este cara vai se arrepender pelo resto da vida em ter brincado com um magistrado, pensava o Dr. Pompílio enquanto dirigia o seu carro para o fórum.
Quando chegou, ligou para a delegacia e mandou chamar o Delegado Ataliba à sua sala.
Meia-hora depois, o delegado estava na sua frente. Era um homem de uns cinquenta e poucos anos, grande, gordo e famoso na cidade por uma truculência inversamente proporcional à sua  inteligência.
– Em que posso servi-lo Excelência ?
O Dr. Pompílio pensou que, num primeiro momento,  seria melhor não dar ao caso das cartas anônimas um caráter pessoal, até para sondar a disposição do delegado sobre o assunto.
– O assunto é sigiloso, Dr. Ataliba. Eu fiquei sabendo que alguém anda enviando cartas anônimas pondo em dúvida a honra de algumas senhoras da nossa cidade. Isso é ruim, porque deixa as pessoas inseguras e até porque algum marido mais esquentado poderá tentar resolver as coisas por conta própria. O senhor sabe como é, Delegado, é melhor prevenir do que remediar.
– Estou entendendo doutor. Posso lhe fazer uma pergunta?
– Claro
– Espero que o senhor não se incomode com ela. É apenas para a investigação começar direito. O senhor sabe, pau que nasce torto, morre torto.
O Dr. Pompílio já imaginava qual seria a pergunta e rapidamente pensou em que atitude deveria assumir em relação a ela. O mais correto era ficar indignado e terminar a reunião na hora, se possível passando ainda uma descompostura no delegado. Ou quem sabe, assumir um ar irônico e dizer: começa mal a sua investigação, delegado.
 – O que o senhor quer saber, delegado ?
– O senhor também recebeu uma carta destas ?
– Como também ?
– Olha, doutor. Eu vou ser franco com o senhor. Eu recebi uma carta sacana destas pondo em dúvida a honestidade da pobre da minha Jurema. Todo mundo na cidade recebeu. Com o perdão da palavra, dizem que até o Padre José recebeu.
– Mas o padre não é casado.
– Ora doutor, toda a cidade sabe que ele vive amancebado com aquela castelhana.
– Quem ? A Francisquinha ?
– Há anos, doutor.
– Mas ela não é a dona daquele bordel na Vila Quitéria ?
– Isso mesmo, doutor. O pessoal fala até que aquele sacristão – o Cristiano – é filho dos dois.
– Puxa, Dr.Ataliba. Eu não sabia nada disso.
– E a carta ?
– Que carta ?
– A carta. O senhor não recebeu também uma delas?
– A carta ? Não, Dr. Ataliba, eu não recebi. Mas o senhor não investigou, não descobriu nada ? Não tem nenhum suspeito ?
– Tenho, doutor.
– Quem ?
– O Coronel Aristides
– O senhor está louco, delegado. O coronel também foi uma vítima das cartas.
–  Doutor, o senhor é homem ilustre. Já leu de tudo. Certamente, sabe melhor do que eu, que se fazer de vítima, é uma das armas que os culpados sempre usam para escapar da lei.
– É, pode ser delegado. Mas se o senhor tem algum indício, deve levar imediatamente ao conhecimento do doutor Promotor. Procure o Dr. Péricles e conte tudo que o senhor sabe. Não fale nada para mim, porque depois eu posso ser chamado a julgar o caso e nesse caso eu teria que declarar a minha suspeição.
–  Eu não posso falar com o Dr. Péricles.
– Por quê ?
– Eu acho que ele é cúmplice do Coronel Aristides neste negócio.
– O promotor ?
– É, ele nunca me enganou com aqueles ares afetados. O coronel é corno e o promotor um maricas. O senhor já deve ter lido em seus alfarrábios que este tipo de gente quando se junta é pra fazer sacanagens.
– Dr. Ataliba, eu acho que é melhor terminarmos por aqui a nossa reunião. Por favor, deixe-me sozinho, que eu preciso trabalhar, agora.
Bem que o haviam advertido quando chegou na cidade: cuidado com o delegado, ele é completamente louco. Juntar o Coronel Aristides com o Dr. Péricles nesta trama, era coisa que só podia partir da cabeça de um maluco.
Todo mundo sabia que o Coronel era um corno manso e tinha até um certo sentido imaginar que, por causa disso, ele quisesse insinuar que a maioria dos homens de Nova Roma também o fossem, mas o Promotor estava acima de qualquer suspeita. Ou, não ? Mesmo o Juiz, que se considerava uma pessoa tolerante e sem preconceitos, as vezes também se incomodava um pouco com certas atitudes do Dr. Péricles. Por exemplo: no julgamento do Machadinho, um homossexual assumido, que matou o amante por questões de ciúmes, o Dr. Péricles foi tão enfático em denominar o crime como sendo “um delito, fruto de uma paixão incompreendida”, que como juiz, o Dr. Péricles, se obrigou a observar que o papel de defensor cabia ao Dr. Hermógenes e não a ele. Fora desse incidente, as relações com o Dr. Péricles eram muito boas. Algumas vezes os dois  ficavam até mais tarde no fórum conversando sobre poesia. O Dr. Pompílio era radical: poeta era Castro Alves e recitava de cor todo o Navio Negreiro. O Dr. Péricles gostava dos franceses, como Rimbaud e Baudelaire, os quais citava sempre no original. Estava decidido, quando se encontrassem novamente, no final do expediente, nada de poesia, o Dr. Pompílio puxaria o assunto sobre as cartas.
– O senhor também, Dr. Pompílio ?
– Eu não, mas o senhor ?
– Claro, a cidade toda está recebendo.
– Mas o senhor casou há tão pouco tempo. Um ano, não é ?
– Seis meses, doutor.
– Mas….
– É pura ignomínia, doutor. Mas eu já estou investigando.
– O senhor já tem algum suspeito ?
– Tenho, doutor, mas ainda me faltam as provas.
– De quem o senhor suspeita, Dr. Péricles ?
– Eu tenho quase certeza, doutor, que o autor destas infâmias usa batina.
– O Padre José ?
– Ele mesmo, o Padre José Maria da Anunciação.
– Cuidado, Doutor, eu não quero criar uma crise religiosa aqui na cidade.
– Eu sei. Mas os indícios que tenho me levam na direção da sacristia.
– Mas que indícios são estes?
– Doutor, o senhor já leu estas cartas ?
– Claro que não. Eu só ouvi falar sobre elas.
– É o estilo, doutor.
– O estilo ?
– Gongórico, bíblico eu diria. Um estilo que só quem passou muitos anos em seminário é capaz.
Na medida em que falava, o promotor ia ficando cada vez mais excitado. Do bolso do casaco, tirou um papel dobrado e mostrou umas linhas para o Juiz.
– Leia aqui: se o teu olho te escandalizar, arranca fora o olho. Veja este outro pedaço: nunca te deitarás com outro homem. Aqui na cidade, só um padre poderia escrever assim.
– É a sua carta ?
O Promotor hesitou por alguns segundos, enquanto voltava a dobrar a carta para enfiar no bolso e acabou não respondendo diretamente a pergunta.
– As cartas têm todas este estilo. Eu vou continuar investigando e qualquer coisa nova, falo com o senhor.
Quando ficou sozinho, o Juiz se pôs a pensar: arrancar o olho, não deitar com outro homem, quem escreveu para o Promotor está também desconfiando da masculinidade dele. Mas seria o Padre? O Dr. Pompílio era maçom e sempre manteve um pé atrás com os clérigos, mas o Padre José Maria  lhe pareceu ser um bom sujeito, incapaz de prejudicar alguém, ainda mais mandar cartas anônimas. Agora, num mesmo dia vem o Delegado e diz que o Padre tem mulher na Zona; depois vem o Promotor e diz que ele é o autor destas sacanagens. Teria que conversar com o Padre. Mas, como? O Dr. Pompílio só entrava na Igreja se fosse um compromisso oficial, inerente ao seu cargo. Em missa, nem pensar. Chamar o Padre no Fórum, seria uma demasia. Teria que encontrar um lugar neutro para falar com o Padre. Enquanto voltava para a casa, o Dr. Pompílio ia pensando na melhor fórmula para isso. A solução surgiu mais rápido do que ele poderia imaginar. Ao entrar na Av. Júlio de Castilhos, no rumo de casa, o Dr. Pompílio viu o Del Rey da Cúria estacionado no meio-fio, um pneu murcho e o Padre José parado ao lado, com um ar consternado. Era agora, ou nunca. O Dr. Pompílio encostou o seu Santana 97 ao lado do Del Rey e ofereceu carona.
Mal o padre se acomodou ao seu lado no banco dianteiro, o Dr.Pompílio foi direto ao assunto
– Foi bom eu ter encontrado o senhor. A nossa cidade está enfrentando um grave problema e o senhor, como pastor de um grande rebanho, está convocado a ajudar a resolvê-lo.
– O senhor me assusta falando deste jeito, doutor. O grande problema da nossa cidade é o desemprego, desde que fechou a fábrica de sapatos e quanto a isso, a gente faz o que pode.
– Eu sei, Padre. O problema agora é outro.
– Maior que o desemprego ?
– Diferente. É um problema de ordem moral.
– Moral ?
– Sim. Eu me refiro a estas cartas anônimas.
– Ah…isso deve ser uma brincadeira de alguns desocupados.
– Desocupados ou não, isso já foi longe demais, atingindo a honra de cidadãos ilibados, cidadãos acima de qualquer suspeita.
– Certo, doutor, mas o que o senhor quer que eu faça ?
– Padre, o senhor é um homem influente, que certamente recebe muitas informações e pode ajudar a descobrir os autores desta infâmia.
Surpreendentemente, para o Dr. Pompílio, que esperava uma reação forte do Padre quando falasse nas cartas – quem sabe até um rubor incontrolável do rosto – ele parecia despreocupado com o assunto e até se permitiu uma brincadeira.
– As únicas informações que tenho são protegidas pelo segredo da confissão.
– O senhor parece não se dar conta da gravidade da situação. Eu gostaria de contar com a sua participação nesta cruzada, mas se o senhor quiser se omitir, eu entendo. Aliás, não seria surpresa mais esta omissão de um alto representante da Igreja Católica.
– Eu sou um modesto pároco, Doutor.
– O senhor é o mais alto dignitário da Igreja Católica Apostólica Romana em Nova Roma.
– Eu sou o único, Doutor, mas não vamos brigar por isso. Eu estou disposto a ajudar no que for necessário.
– Um nome.
– Que nome ?
– Um suspeito. É impossível que alguém não tenha lhe procurado para falar no assunto. As pessoas procuram o padre para falar sobre tudo.
– Certos assuntos, as pessoas só falam na confissão.
– Então o senhor tem um nome ou vários nomes ?
– Protegidos pelo segredo da confissão.
– Ora, Padre José, os interesses maiores da nossa cidade devem estar acima destes segredos.
– Não é o que pensa a Igreja.
O carro chegou em frente da Cúria. O Padre José abriu a porta para descer e sorrindo agradeceu o Juiz pela carona. Este, antes que o Padre se afastasse em definitivo, resolveu jogar sua última cartada.
– Tem uma outra questão que vamos resolver e que certamente sua igreja vai apoiar.
– Qual, doutor ?
– Precisamos erradicar a prostituição de Nova Roma.
– Isso é um problema social, Doutor.
– Não vamos prender as prostitutas. Vamos apenas impedir que elas sejam exploradas. Descobrimos que a mulher que está por trás de toda a rede de prostituição é uma castelhana, uma tal de Dona Francisquinha, que inclusive está ilegal no País. O Delegado Ataliba já iniciou os trâmites legais para expulsá-la daqui.
O Dr. Pompílio não esperou a resposta do Padre, fechou a porta e arrancou o carro. Pelo espelho retrovisor viu que ele permanecia parado na beira da calçada e mesmo de longe pode perceber sua cara de espanto.


Quarta-feira, era a noite que o Juiz reunia em sua casa um grupo amigos para jogar gamão. O prefeito, Outobrino Paixão, o Doutor Caligaro, diretor do hospital da cidade, e o presidente do Clube Comercial, Francisco Milagres eram participantes constantes da roda. Para esta noite estavam confirmados também o Coronel Aristides e o presidente da Câmara de Vereadores, Adroaldo Fuscaldino.
Quarta-feira, era também a noite em que Dona Dolores, a mulher do juiz, participava do encontro do Movimento Literário Feminino no  Clube Comercial.
Quando o juiz chegou, sua mulher já tinha saído. Eram 7 horas da noite e os convidados só começariam a chegar por volta das 8. Dava tempo para um banho rápido e uma olhada nos processos que trouxera do Fórum. Depois que jogo terminasse, normalmente em torno da meia-noite, ele examinaria mais detidamente os casos mais difíceis para chegar no outro dia com todas as sentenças já encaminhadas. Antes, porém, de entrar no banho, o telefone tocou.
Era o padre José.
– Doutor Pompílio, acho que encontrei uma fórmula para ajudar naquele seu problema sem trair o segredo da confissão.
– Muito bem, Padre, vamos ver então o que senhor sabe.
– Antes, Doutor, eu gostaria de lhe fazer um pedido.
– Pois, não, Padre José.
– É aquela questão de erradicar a prostituição.
– Uma coisa nada tem a ver com a outra.
– Eu sei, Doutor, mas mesmo assim eu gostaria de contar com a sua compreensão. Aquelas mulheres são acima de tudo vítimas e precisam ser ajudadas e não discriminadas.
– Muito bem, Padre, eu concordo, mas gostaria de saber onde o senhor quer chegar?  O senhor tem algum interesse particular neste caso?
– Eu, pessoalmente, não, Doutor, mas a nossa igreja tem. Nós estamos desenvolvendo um programa social de ajuda a estas mulheres. Nós divulgamos normas de higiene e saúde e tentamos apoiar as mulheres que querem trabalhar ou estudar para buscar novos caminhos na vida.
– Ótimo, Padre, mas continuo não entendendo o que o senhor quer. 
– É simples, Doutor, eu vou direto ao assunto: o senhor falou em expulsar uma estrangeira que estaria ilegal no País. Certamente o senhor estava se referindo a Dona Francisquinha ?
– Pode ser, Padre.
– Pois, Doutor, a Dona Francisquinha é a pessoa que lidera estas mulheres e é através dela que nós estamos avançando na nossa missão. Expulsá-la agora, poria a perder todo o nosso esforço.
– Vamos ver, Padre, vou pensar neste assunto. Mas, o senhor não tinha uma informação para mim ? Não ia me ajudar a descobrir o autor das cartas anônimas?
– É o Prefeito.
– Quem ?
– O prefeito, Dr. Outobrino Paixão
– Isso é uma loucura. As pessoas todas ficaram loucas nesta cidade. Me diga, por que o prefeito mandaria cartas anônimas para tantas pessoas ?
– Não são tantas, doutor. São apenas algumas e para as pessoas mais proeminentes da cidade.
– Isso é verdade, Padre, mas a pergunta continua sem resposta.
– O prefeito quer se reeleger e certamente ele está buscando denegrir seus adversários em potencial.
– É, tem lógica. Mas que provas o senhor tem ?
– O erre.
– O erre ?
– Sim, a letra erre.
– O que tem esta letra ?
– Ela é serifada.
– Serifada ?
– Sim, em todas as cartas anônimas o erre tem sempre uma serifa.
– Eu não sabia. Mas em que isso incrimina o Prefeito ?
– Confira nas cartas expedidas pelo gabinete do Prefeito. A máquina de escrever do gabinete do Prefeito tem a tecla da letra erre diferente das outras. Ela é serifada.
– Interessante. Mas certamente não é o prefeito quem bate as cartas.
– Claro, deve ser a secretária dele. O senhor sabe quem é a secretária do Prefeito?
– É a Janete.
– E a Janete é filha de quem?
– Do Prefeito.
– E a chefe de gabinete?
– É a Dona Jurema, a mulher do Prefeito
– É isso, Doutor, puro nepotismo. O Dr. Outobrino quer assegurar por mais quatro anos a renda da família. A mulher e a filha são cúmplices.
– É o erre serifado, Padre ? Eu tenho comigo alguns documentos do gabinete do Prefeito e vou verificar isso imediatamente.
– E a Dona Francisquinha ?
– A gente fala sobre isso outra hora, padre.
O Dr. Pompílio desligou e foi procurar nos arquivos que guardava em casa algum documento da Prefeitura. Não precisou procurar muito. Numa pasta rosa, com a palavra Convites escrita com uma caneta hidrocor preta na capa, estava um ofício convidando o Juiz para a solenidade de entrega da nova bandeira brasileira à Câmara de Vereadores. Todos os erres eram serifados.
O Dr. Pompílio tirou do bolso, onde ainda guardava dobrada, a carta anônima que recebera pela manhã. Lá estavam os mesmos erres, todos serifados. Não havia dúvidas, a máquina que escrevera a carta anônima era a mesma que mandara o convite da Prefeitura. O Juiz se deu conta que o mistério estava terminando. Esta noite, antes do jogo de gamão, ele teria uma conversa muito séria com o Prefeito. Dependendo da sua resposta – e o juiz não conseguia imaginar que resposta ele poderia dar, a não ser aceitar a sua culpa – o único caminho seria o impeachment do Prefeito.
A sua intenção de falar com o Prefeito, antes de começar a rodada de gamão, ficou prejudicada porque ele chegou junto com o Dr. Caligaro e o Presidente da Câmara. A melhor hora , decidiu o Dr. Pompílio, seria no final. Ele pediria ao Prefeito que ficasse mais uns minutos para discutir um problema qualquer entre o Fórum e a Prefeitura e sozinhos, mostraria as provas. O Juiz aproveitaria o tempo do jogo para analisar o comportamento do Prefeito. Que cara-de-pau, pensava o Juiz, enquanto o Prefeito, totalmente descontraído como era seu hábito, brincava com seus parceiros.
– O Coronel tem muita sorte no jogo. Se aquele velho ditado fôr verdadeiro, ele vai ter muito azar no amor. 
– O Milagres vem jogar aqui, enquanto nossas mulheres ficam todas reunidas no clube dele lá no centro da cidade. Não sei, não, mas acho que ele devia deixar um espião lá, para saber o que elas estão fazendo.
– Fuscaldino, acho que vamos ter que cassar o teu mandato na Câmara. Do jeito que tu estás ganhando neste jogo, deve ter uma trapaça por baixo.
O Juiz ficou sério o tempo inteiro, não se permitindo nem ao menos as citações históricas que costumava fazer para explicar algumas de suas jogadas. Uma das mais comentadas entre os parceiros do gamão foi na noite que faltou luz e o Dr. Pompílio citou Leônidas nas Termópolis para justificar porque continuava jogando: melhor combateremos à sombra. Com nessa noite o Juiz pouco falou, o jogo terminou mais cedo. Às 10 horas, todos estavam saindo. Como planejara antes, o Dr. Pompílio reteve o Prefeito pelo braço e pediu que ele o acompanhasse por alguns minutos até o seu escritório.
– Prefeito, creio que o senhor já sabe da minha preocupação com estas cartas anônimas que estão circulando pela cidade.
– Sim, o Delegado me falou a respeito. Ele até já tem um suspeito. Mas, cá entre nós, acho que tudo isso não passa de uma molecagem de gente que não tem o que fazer.
– Eu penso diferente, Prefeito. Por isso mesmo andei fazendo umas investigações e acabei descobrindo que todas as cartas tem algo em comum: são escritas com uma máquina que tem o erre serifado.
– Que é isso, Doutor ?
– É um tipo diferente de letra.
– Ótimo. Agora só é preciso descobrir quem tem uma máquina assim e chegamos ao autor das cartas.
– Eu já descobri, Prefeito.
– Quem é, Doutor ?
– A Prefeitura
– A Prefeitura não tem mais máquina de escrever, Doutor. Informatizamos tudo. A Janete reclamou tanto daquela velha máquina, que acabei mandando fazer uma concorrência e compramos um micro computador Pentium de última geração. O senhor sabe como é este pessoal jovem, só quer saber de computador.
– Mas eu tenho uma correspondência da Prefeitura batida a máquina e com o erre serifado. Era um convite para a entrega da bandeira nacional para a Câmara.
– Isso é do mês passado, Doutor. Há 30 dias, que a Prefeitura só manda correspondência digitada no computador.
– E a velha máquina ?
– Nós emprestamos para o Movimento Literário Feminino. Uma comissão esteve na Prefeitura – a sua esposa inclusive, Doutor – pedindo apoio para o trabalho que elas estavam fazendo em favor da cultura do município e a gente cedeu a máquina de escrever e também algum material de expediente.
E agora, pensou o Dr. Pompílio, tudo voltou à estaca zero. Será que a autora das cartas anônimas era uma das mulheres do Movimento Literário Feminino.
Normalmente as reuniões no Clube Comercial terminavam muito tarde nas quartas-feiras e o Dr. Pompílio costumava dormir antes de sua esposa chegar. Esta noite, porém, ele decidiu esperar por ela.
Dolores era filha de um militar viúvo e aposentado. Aos 16 anos, contra a vontade do pai, viajou com mais duas amigas para assistir um festival de rock na praia, onde teve a sua primeira experiência sexual. O nome do parceiro, ela nunca ficou sabendo. Ao voltar à Capital, para fugir à ira do pai, passou a morar com uma tia. Um ano depois foi ser mochileira na Europa, onde se apaixonou por um negro que tocava sax num bar de Amsterdan. Viveram juntos 6 meses até ela encontrar um jornalista argentino, correspondente do El Clarin na Europa. Foi paixão a primeira vista. Durante dois anos, ela o acompanhou pelas principais cidades européias, até que ele foi chamado de volta a Buenos Aires. Dolores ficou sozinha em Paris. Loira, alta e bonita, acabou trabalhando como apresentadora dos produtos de beleza da Lancôme. Quando achou que nunca mais deixaria a Europa, recebeu um telefonema angustiado da tia, dizendo que seu pai estava muito doente e queria vê-la antes de morrer. Pegou um avião uma semana depois para retornar ao Brasil, mas quando chegou soube que o pai tinha falecido dois dias antes. Segundo a sua tia, nos minutos finais de vida, ele só falava no nome da filha. Emocionada, ela decidiu não voltar a Europa e ficar aqui para cumprir um sonho antigo do pai: ser uma advogada famosa. Passou 3 meses fechada em casa, estudando e no fim do ano passou em terceiro lugar no vestibular para a Faculdade de Direito. No primeiro ano do curso, quase desistiu e por influência de um novo namorado, um dirigente do sindicato dos bancários, começou a frequentar um grupo de teatro. Chegou a trabalhar na montagem de uma peça de Brecht que ficou apenas uma semana em cartaz. No segundo ano da Faculdade, foi ser aluna do Professor Pompílio na Cadeira de Direito Constitucional. Ficou impressionada com a seriedade com que ele encarava a sua função de professor. Suas aulas começavam e terminavam exatamente no horário previsto. Explicava todas as questões minuciosamente e embora estimulasse bastante a participação dos alunos, era extremamente rigoroso com qualquer indisciplina. Uma colega de turma contou um dia que ele já deveria ser desembargador, mas que tinha sido prejudicado em sua carreira por problemas políticos durante a didatura. O Professor Pompílio jamais falava sobre questões pessoais em sala de aula, mas Dolores acabou sabendo que ele era viúvo há 2 anos e que não tinha filhos. A cada semana de aula, crescia a sua admiração por ele. Começou a estudar com tanto afinco o Direito Constitucional que logo chamou atenção do Professor. Quando a aula terminava, ficavam conversando sobre as questões mais polêmicas do Direito. Um mês depois, ela sugeriu que podiam continuar discutindo estes assuntos durante um jantar. Ele aceitou entusiasmado. Quando o semestre terminou, estavam almoçando e jantando praticamente todos os dias juntos. No final de novembro, timidamente ele sugeriu que passassem um fim-de-semana juntos na Serra. Ela aceitou. Mais algum tempo e ele formalizou um pedido de casamento. Casaram em março. Antes ele havia imposto uma condição: iriam morar no Interior, de preferência numa pequena cidade. Ela concordou, mesmo tendo que abandonar o curso de Direito. Antes do casamento, ele fez também uma confissão: uma operação na próstrata tinha o tornado estéril e com dificuldades de ereção. Dolores disse que isso não era motivo para impedir o casamento. Em abril, foram morar em Nova Roma
– Ainda acordado ? Que surpresa.
– Fiquei revisando alguns documentos. E você, como foi no clube de mulheres?
– Movimento Literário Feminino.
– Está certo. Como foi a sessão no Movimento Literário Feminino ?
– Foi ótima. Estamos discutindo como os franceses mostram as mulheres em suas obras artísticas.
– Como é ?
– Ao contrário daqui, onde os homens tem suas amantes e as mulheres ficam em casa, lá – pelo menos no cinema e nos livros – as mulheres é quem têm seus amantes.
– E os homens ficam em casa ?
– Nem sempre, mas ter um amante, pelo menos uma vez na vida, é comum entre as mulheres.
– De onde saiu isso ?
– Por exemplo, de Madame Bovary, que estamos lendo há algum tempo.
– Mas Ema Bovary termina a vida de forma trágica.
– Porque foi Flaubert, um homem, quem escreveu o livro. Aliás, este é outro tema que estamos debatendo: como o artista homem pune em suas obras a mulher independente. Esta noite nós vimos um filme francês com a Emmanuelle Béart que mostra como os homens não aceitam a sexualidade feminina.
– Que filme é este, que eu nunca ouvi falar ?
– Em português é Desejos Secretos, em francês se chama Une Femme Française.
– Talvez fosse melhor vocês verem um clássico no gênero, como Jules e Jim, de Truffaut.
– A gente já viu. Viu também Hiroshima Meu Amor, do Renais.
– Puxa vida, eu não imaginava que as mulheres de Nova Roma estivessem tão evoluidas.
– Você ainda não viu nada. As mulheres de Nova Roma ainda vão dar muito que falar.
– As tais cartas anônimas têm alguma coisa a  ver com isso ?
– Quem sabe ?
– A propósito, tem muita gente achando que elas são escritas com uma máquina de escrever que está lá no Movimento Feminino.
– A máquina que tem lá é uma peça de museu. Foi doada pelo Prefeito, mas nunca funcionou porque os carretéis estão quebrados. Certamente foi por isso que ele fez a doação. Tudo que sai em nome do Movimento, eu digito aqui em casa no nosso computador.
– Você tem certeza ?
– De que eu digito aqui em casa ?
– Não, que a máquina não funciona ?
– Claro. Por quê?
– Deixa prá lá. Eu acho que vou dormir. O dia foi muito agitado e amanhã promete ser ainda pior.
No dia seguinte, ao chegar ao Fórum, encontrou sobre sua mesa um envelope branco subscrito apenas, Para o Juiz Pompílio, em letras de imprensa, sem selos, carimbos ou indicação de remetente. Abriu rapidamente. Numa folha, cuidadosamente datilografado numa máquina com o erre serifado, estava o seguinte texto: “Prezado Dr. Pompílio. Fiquei sabendo da sua preocupação em descobrir o autor das já famosas cartas anônimas que põem em dúvida a fidelidade de algumas damas da nossa sociedade. Se o senhor permitir, gostaria de dizer que a procura do autor destas cartas não é o melhor caminho a seguir. A sua pista – os erres serifados – não vão lhe levar a lugar algum. Há alguns atrás, um vendedor muito esperto negociou uma grande partida de máquinas de escrever para as repartições públicas de Nova Roma e todas elas tinham uma característica comum: o erre serifado. Ao que parece, quando montaram as máquinas no Brasil, faltaram as teclas correspondentes a letra erre e importador usou um similares nacionais, com serifa. Por outro lado, o senhor nunca pensou em que estas cartas anônimas pudessem contar fatos verdadeiros ? Outra possibilidade que gostaria que o senhor examinasse, é a existência de um sedutor solitário que estivesse silenciosamente satisfazendo algumas senhoras e ornamentando a cabeça de seus respectivos maridos? Por favor, não pense que esta insinuação tenha algo pessoal. É só uma alternativa. Uma possível caracterização deste tipo, poderá ser encontrada na primeira novela, da terceira jornada, do livro Il Decameron, de Giovanni Boccaccio. Se o senhor preferir trocar a procura do autor das cartas, pela busca deste novo personagem, talvez tenha mais sucesso. Atenciosamente. Um admirador.”
Nem bem terminara a leitura, o Dr. Pompílio chamou em voz alta, o que não era seu hábito, a secretária.
– Dona Rosa, a senhora viu quem deixou este envelope sobre a minha mesa?
– Não, Dr. Pompílio. Eu hoje me atrasei um e acabei chegando um pouquinho  depois do senhor.
– Alguém entrou aqui e deixou este envelope.
– Talvez, alguém da limpeza.
– Verifique isso para mim, Dona Rosa e avise o pessoal que está me esperando, que as audiências vão atrasar. Eu devo ir em casa conferir um documento.
O Dr. Pompílio nem esperou a resposta da secretária e saiu porta à fora. Dez minutos depois estava em sua biblioteca. A grossa edição do Il Decameron, da Hemus Livraria e Editora,  estava no meio de muitos livros jurídicos. A quantidade de pó indicava que há muitos anos ele não era aberto. O Juiz procurou rapidamente pela primeira novela, da terceira jornada, durante o reinado de Neifile. Lá estava na página 166 a história da Masetto de Lamporechio, um hortelão que para arranjar trabalho num convento de freiras, se faz passar por mudo. Com isso, imaginando que ele não poderia contar a ninguém o que viesse a acontecer, todas freiras, inclusive a madre superiora, sem que uma soubesse da outra,  o levam para a cama. No final, não aguentando mais o ardor das religiosas, Masetto recupera a voz para se queixar à madre superiora. Este fato é visto como um milagre e tudo se arranja no convento, com o hortelão servindo a todas as freiras, mas dentro de um rodízio que não esgote suas forças. 
Existiria alguém em Nova Roma – pensou o Juiz – se passando por mudo para seduzir secretamente as mulheres ?
Quando retornou ao Fórum, a primeira coisa que o Dr.Pompílio fez foi chamar o seu Anastácio, o mais velho servidor da Comarca e que conhecia praticamente todos os moradores da cidade.
– O senhor conhece alguém aqui em Nova Roma que seja mudo ?
– Mudo ?
– É um sujeito que não possa falar.
– Me desculpe, Doutor, mas por que o senhor precisa de um mudo ?
– Não importa, Anastácio. O senhor conhece, ou não ?
– Tinha o seu Chiquinho, mas nem sei se ela está vivo.
– Quantos anos ele tem ?
– Seu Chiquinho é uns 10 anos mais velho do que eu. Como eu tenho 59, seu Chiquinho deve ter quase 70.
– Seu Anastácio, a sua ficha aqui no Fórum diz que o senhor nasceu em 1930 e como estamos em 1999, o senhor deve ter 69 anos. Neste caso o tal de Seu Chiquinho deve ter 80.
– Eu acho que esta ficha não está certa, mas o Chiquinho é muito velho mesmo.
– De qualquer maneira, não é o Seu Chiquinho a pessoa que eu procuro. Se o senhor não conhece mais ninguém nesta condição, está bem. O senhor pode voltar ao seu trabalho.
– Pensando bem, Doutor, tem o filho do Manoel, da Funilaria. Parece que ele é meio abobado e não fala nada.
– Quantos anos, o senhor acha que ele tem ?
– Não tem 20. No ano passado, ele foi dispensado de fazer o serviço militar e o Manoel não sabe o que fazer com ele. O cara é forte como um touro, mas não quer saber de trabalhar na tornearia. O Manoel diz que o filho quer ser jardineiro.
– Jardineiro ?
– Veja só, Doutor, um cara forte como um touro querendo cultivar florzinhas.
– Seu Anastácio, o senhor pode me trazer este rapaz aqui no Fórum para um encontro comigo.
– Boa idéia, Doutor. Talvez o senhor possa dar uns bons conselhos para ele.
– Mas, atenção, Seu Anastácio, faça tudo discretamente, sem alardes. Me traga o rapaz hoje no fim da tarde, quando terminar o expediente.
– Pode deixar, Doutor. Posso requisitar um brigadiano para me acompanhar na diligência?
– Não, Seu Anastácio. Faça tudo sozinho, discretamente. Eu sei que o senhor é capaz disso.
– Deixa comigo, Doutor. Às 5 da tarde, o moço vai estar aqui para falar com o senhor.
– Ele é mudo, Seu Anastácio.
– Ah, é mesmo, Doutor. Falar é força de expressão.
O Doutor Pompílio estava terminando de analisar o último processo do dia, quando Anastácio entrou esbaforido sala a dentro, puxando pelo braço Manoel e o filho mudo que queria ser jardineiro.
– Doutor, eu não tenho culpa de nada. Eu mandei aquela mulher longe porque ela estava sempre reclamando do preço dos consertos.
– Que mulher, Seu Manuel ?
– O senhor não me chamou aqui por causa daquela briga da semana passada ?
– Nada disso. Eu quero falar sobre o seu filho.
– Ele andou aprontando alguma ?
– É isso que eu quero saber.
– O Anacleto é assim meio abobado, mas não faz mal a uma mosca.
– Ele é mudo mesmo ?
– Desde pequeninho. Depois que ele caiu de uma árvore, quando tinha 5 anos, ficou assim.
– Ele não fala nada ?
– Só quando está com muita fome.
– E o que ele diz ?
– Ele faz hããã…hããã…hããã…
– Mas isso, não é falar.
– É só o que ele faz.
– O senhor se importaria se eu mandasse examiná-lo por um médico ?
– Claro que não, Doutor. Mas por que o senhor quer saber se o Anacleto é mesmo mudo ?
– É uma história um pouco complicada. É algo que está em segredo de justiça, mas o senhor pode ficar tranqüilo que nada de mal vai acontecer com o rapaz.
Eu já avisei o Dr. Carneiro e ele daqui a pouco vai estar aqui para examinar o Anacleto.
Efetivamente, 10 minutos depois, o Dr. Flávio Carneiro, clínico geral do Hospital Geral, estava no gabinete do Dr. Pompílio para examinar Anacleto.
O exame durou uma meia hora e no final, o Dr. Carneiro foi taxativo:
– O rapaz é definitivamente mudo.
E acrescentou
– Além disso, ele tem um retardo mental. O Anacleto é uma criança de 5 anos.
Portanto, ele não tinha como repetir a história de Masetto Lamporechio, do Il Decameron e com isso a investigação voltava ao ponto de partida, pensava o Dr. Pompílio enquanto ia se despedindo das pessoas que estavam na sua sala, todas elas sem entender direito o porque do exame.
– Segredo de justiça, segredo de justiça, repetia o Juiz fechando a porta do gabinete.
À noite, em companhia de Dolores, o Dr. Pompílio compareceu a um coquetel promovido pelo cronista social da Gazeta da Cidade, Elpídio Nogueira, para o lançamento da tradicional promoção o Casal Destaque, que escolhia o casal que mais tivesse contribuído para o progresso de Nova Roma.
Logo que chegou, foi puxado a um canto pelo Prefeito Outobrino Paixão, que queria ser o primeiro a lhe dar a boa notícia.
– Parabéns, Doutor.
– Pelo que, Prefeito?
– O senhor e Dona Dolores vão ser escolhidos o Casal Destaque.
– Como é que o senhor sabe?
– Em sociedade, tudo se sabe, Doutor.
Pelo jeito com que as pessoas o procuravam para cumprimentar, ao que parece todo mundo já sabia da novidade, até mesmo Dolores.
– Quando o Elpídio anunciar nossos nomes, finja surpresa, Pompílio.
– Até você já sabe. Como é que você descobriu?
– Em sociedade, tudo se sabe.
Meia hora depois, Elpídio, com sua voz esganiçada e seus trejeitos efeminados, tomou o microfone para anunciar o nome do Juiz e sua esposa como os formadores do Casal Destaque e justificou:
– Dona Dolores, pela contribuição à cultura da cidade com a formação do Movimento Literário Feminino e o Dr. Pompílio pela sua luta pela prevalência da causa da justiça em Nova Roma.
Em meio às palmas que se seguiram, Elpídio fez votos para que o Juiz conseguisse por fim ao que chamou de “insidiosa campanha de achincalhamento da moral das nossas famílias, feita através de cartas anônimas”
Em agradecimento, o Juiz afirmou que esperava chegar em breve ao desmascaramento do autor ou autores destas calúnias e pediu que todos que tivessem alguma informação séria sobre o assunto que o procurasse no fórum.
Dona Dolores também falou. Mais do que agradecer a distinção, ela anunciou que, “graças a visão moderna e esclarecida do Diretor-Editor da Gazeta da Cidade, senhor Propício Coelho, as mulheres teriam uma página diária no jornal – não sobre culinária ou etiqueta social – mas sobre assuntos da atualidade”.
O senhor Propício Coelho disse que a página era uma exigência da nova mentalidade vigorante em Nova Roma, “que estava deixando de lado os ranços provincianos para se transformar numa cidade moderna e despida de preconceitos”. Acrescentou que a modéstia de Dona Dolores a impediu de anunciar o nome da pessoa que seria responsável pela página, mas ele agora faria com muito gosto.
– Peço uma salva de palmas para a Editora de Assuntos Femininos da Gazeta da Cidade, a senhora Dolores de Toledo.
Quando retornavam de carro para casa, Pompílio e Dolores tiveram a sua primeira discussão séria desde o casamento.
– Você devia ter me comunicado que iria escrever no jornal.
– Por quê?
– Não fica bem para a mulher do juiz escrever no jornal de um sujeito suspeito de ter negócios ilícitos.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Vou escrever com toda a liberdade o que eu bem quiser. Este é o trato: o Propício não vai opinar sobre a linha editorial da página.
– O problema não é este. Ele convidou você porque pensa que pode assim me constranger a não adotar medidas judiciais contra ele.
– Você acha, então, que o meu talento não conta para nada?
– Não seja ingênua, Dolores, você nem jornalista é. A rigor ele está contrariando a Lei da Imprensa ao contratar uma pessoa que não é formada em jornalismo para escrever uma coluna.
– Os jornais estão cheios de pessoas que não são jornalistas.
– Um erro não justifica outro.
– Eu vou escrever como convidada especial. O Elpídio também não é jornalista e escreve como convidado especial.
– O Elpídio é um homossexual que serve ao Propício vendendo notícia e
fotos no jornal. Quando o Propício quer um favor de alguém, ele manda o Elpídio publicar a foto do sujeito ou da mulher dele no jornal.
– Ele deve estar querendo um favor de você.
– Pois é, minha vontade era recusar o tal Destaque. Só não fiz na hora para evitar um constrangimento maior, mas amanhã vou comunicar oficialmente ao jornal que não aceito o prêmio.
– Fale no seu nome, porque da minha parte vou aceitar de bom grado.
– Você não vê que ele quer nos manipular?
– Não importa. Eu não vou abrir mão da página no jornal. Eu não aguento mais o marasmo desta cidade. Eu não aguento mais esta vida.
Também, pela primeira vez desde que estavam juntos, Dolores abandonou a calma com que costumava encarar as pequenas discussões que tiveram antes e se entregou a um choro descontrolado que deixou Pompílio sem ação. Os dois não falaram mais nada até chegar em casa.
No dia seguinte, quando chegou ao seu gabinete no Fórum, lá estava outro envelope, sem endereço, carimbo ou selo, subscrito apenas, em letra de forma, Para o Juiz Pompílio. Numa folha simples, batido numa máquina com erre serifado, estava o seguinte texto: “ Prezado Dr. Pompílio: me desculpe o atrevimento, mas o senhor não entendeu bem o espírito da minha carta anterior. Não era para levar ao pé da letra o que escrevi. No melhor estilo de Bocaccio, as coisas não são necessariamente o que parecem ser. Se lermos tudo ao contrário talvez tenhamos no lugar do hortelão, um intelectual; em vez de um falso mudo, um verdadeiro falastrão e até, quem sabe, em vez de um homem, uma mulher. O cenário não precisa ser um monastério. Pode ser um clube social. Boa sorte em suas investigações, Doutor. De um admirador”.
Durante a manhã o Dr. Pompílio se envolveu numa série de audiências, mas em momento algum deixou de pensar na carta que recebera. Na pausa para o almoço, ele já tinha algumas certezas e uma dúvida crucial.A carta que recebera pela manhã era da mesma pessoa que escrevera toda as outras; esta pessoa, por alguma razão, tinha cansado da brincadeira e estava querendo encerrá-la e finalmente, as pistas que ela revelara levavam a uma única pessoa: sua mulher, Dolores. A dúvida era porque Dolores teria montado toda esta história. Isso ele só poderia saber falando diretamente com ela. Quando chegasse em casa, não perderia um minuto para esclarecer tudo.
-Eu não aguento mais esta cidade.
– Por isso você tinha necessidade de armar toda esta confusão?
– Foi a forma que encontrei de chamar atenção para hipocrisia geral.
 Bastou levantar uma suspeita e os mais respeitáveis cidadãos de Nova Roma começaram a se acusar mutuamente. Até o Padre José entrou nesta roda.
– Eu também fiz o papel de bobo.
– Não era a minha intenção.
– O que você esperava?
– Que começasse a investigar e fosse se dando conta de que como são mesquinhas e vingativas as pessoas desta cidade.
– Muito bem, e agora ?
– Agora eu vou embora desta cidade.
– E o nosso casamento?
– Acho melhor dar um tempo. Eu pretendo aproveitar um convite da Lancôme e passar um mês em Paris.
– Você viaja quando?
– Amanhã eu vou para a Capital e depois viajo para a Europa.
– E a página feminina no jornal?
– Talvez eu mande algumas colaborações de Paris.
– E eu?
– No mínimo você vai receber alguns cartões postais.
Isso foi tudo que Pompílio e Dolores falaram. No dia seguinte, ela embarcou cedo para a Capital. O acordo que eles fizeram, quando do casamento, era claro: cada um mantinha o direito de se afastar quando quisesse, sem a obrigação de maiores explicações ou aviso prévio. Isso não significava uma separação definitiva. Era como se fosse um período de férias, que poderia ser interrompido a qualquer momento. Dois dias depois, Dolores ligou do aeroporto, antes de tomar o avião para a Europa, para se despedir.
O Dr. Pompílio voltou à sua rotina de trabalho no fórum. Uma semana depois, enquanto examinava a correspondência durante o café da manhã, um pouco antes de sair para o trabalho, caiu em suas mãos um envelope bastante comum. O papel, quase transparente, permitia ver no seu interior uma folha de caderno escolar dobrada em três partes. Devia ser um pedido de contribuição para algum asilo ou uma das tais correntes de Santo Antônio.

O Dr. Pompílio hesitou um segundo, depois rasgou o envelope em vários pedaços e o jogou no lixo, sem abri-lo.

A história psicografada

Morri!
Um segundo, estava vivo e no seguinte, estava morto. Quase não senti. Era para ser uma cirurgia simples, mas algo deve ter dado errado. Acontece, só que essa vez foi comigo. Reclamar de quem? O negócio é encarar essa nova situação com o espírito alerta porque parece que o corpo se perdeu. Estou no que o pessoal aqui – diga-se de passagem, gente muita simpática – chama de zona do conforto. Se é assim, bom, vou aproveitar. Como me disseram que tinha direito a algumas regalias (estou em algo parecido com um estágio probatório) pedi logo para continuar escrevendo no meu facebook. Então chamaram um especialista que ficou encarregado de psicografar meus textos. Esse é o primeiro e espero que ele não cometa muitos erros de digitação porque parece que, quando vivo, era um alemão. Então, vamos lá com as minhas primeiras impressões desse novo espaço. Como já expliquei, eles chamam de zona do conforto, mas eu diria que é um lugar de transição. Daqui parece que só tem dois caminhos: pra cima ou pra baixo. Eu espero subir, embora não eles não divulguem nada sobre as vantagens e desvantagens dessas novas moradas. A demora parece que vai ser longa antes de uma decisão final. Como aí onde vocês estão me lendo, aqui também recursos para tudo. Meu caso está ainda em primeira entrância. A espera promete ser longa e como aqui tudo é medido em milênios e séculos, não tenho esperança de mudar de endereço tão cedo. O cara que me dá estas informações, disse que está aqui há séculos e que acompanhou a chegada de Don João VI no Brasil. Quando ele falou num tal relógio do tempo, achei que era figura de linguagem, mas não, tem mesmo o tal relógio. Parece um grande computador e você pode mexer no dial pra frente ou pra traz. O negócio, porém, é muito sensível. Você diz o lugar e marca o ano e ele te mostra o que está acontecendo. Eu marquei Brasil, mas o ponteiro avançou muito rapidamente e apareceu o ano de 2.099. Era o discurso de posse do novo Presidente, uma mulher negra, pela televisão. O canal que transmitia o evento tinha no canto do vídeo o logo RGP, que depois me disseram significava Rede Globo Popular. Tudo era estranho naquela transmissão. A bancada dos apresentadores da tal RGP era formada por cinco pessoas. O meu cicerone disse que cada opção sexual deveria estar representada pela Constituição da URSA. – URSA? – União das Repúblicas Socialistas Americanas. O meu cicerone, que tinha uma paciência de um dependente do INSS, me explicou que depois do grande golpe de 2016, o povo do Brasil tinha se revoltado e promovido a instalação de uma república socialista e motivado pelo exemplo, as demais populações da América do Sul tinham aderido ao novo regime e que em 2050, os antigos Estados Unidos da América, havia também pedido sua integração à URSA. Agora o mundo se divide em quatro grandes blocos, todos solidários entre si: a URSA, que eu já sabia o significado; a UPE, União dos Povos Europeus; a UMA, União das Nações Árabes e a UPLAA – União dos Povos Libertos da Ásia e África Discretamente, voltei para o segundo semestre a procura de uma informação sobre os resultados do Campeonato Brasileiro e da Libertadores de 2016. Tranquilizem-se os colorados. Mesmo com o Argel seremos hexa campeões gaúchos e campeões do Brasileirão. O time deles não passará da atual fase da Libertadores. Tranquilizado quanto a estas importantes questões, fiz aquela pergunta que não quer calar: – E o Lula? – O grande Presidente Lula? – É, ele mesmo, conseguiu se safar da perseguição do Moro e do Gilmar? – Não fale esses nomes aqui. O grande chefe tem horror deles e quando eles chegarem aqui nem quero ver o que vai acontecer com eles. – Mas, e o Lula? – O Presidente Lula foi enviado pelo Grande Chefe ao Brasil com a missão de melhorar a vida do seu povo. Os brasileiros custaram um pouco para entender isso, mas acabaram compreendendo. – Mas, como ele se safou do Moro do Gilmar? – O Grande Chefe nunca o abandonou, apesar de achá-lo um boca-suja, sempre dizendo palavrões, principalmente quando fala ao telefone. De repente se fez um grande silêncio. – É o filho do Grande Chefe que está chegando. Esconde esse crucifixo porque a cruz provoca más recordações para ele. Voltarei em breve em nova versão psicografada. Os erros de digitação desse texto devem ser creditados ao alemão que o psicografou

O Brasil precisa de um exorcista

O BRASIL PRECISA DE UM EXORCISTA No Brasil, ter um atestado de honestidade, fornecido por uma casta de auto eleitos guardiões da lei, passou a ser uma exigência capital feita aos representantes da classe política e para ganhar este “nil obstat” político, precisa ser amigo do rei ou dos seus representantes. Não se exige mais deles o sentimento institucional de servir uma causa, de viver para a realização de uma utopia política e de lutar para se aproximar dela, mesmo que dando pequenos passos. Não se valoriza mais os avanços sociais e a dedicação a uma causa popular é posta de lado. O que se pede aos políticos é uma folha corrida. O imobilismo ascético dos que não querem sujar as mãos para permanecerem puros é a virtude máxima que um homem pode atingir. E paradoxalmente, quem exalta essa virtude, está muitas vezes enlameado pela colaboração mais abjeta com práticas desumanas e a excludentes de qualquer valor social. A nossa grande mídia diariamente dá espaços imensos para estes novos justiceiros, inquisidores em defesa de uma ordem social injusta. Nas histórias bíblicas sempre há referências aos cuidados que os cristãos devem ter para os demônios disfarçados de anjos. Na mitologia hebraica-cristão sempre existem advertências para ver nos pregadores das verdades absolutas, a mentira escondida. Não é à toa que os verdadeiros cristãos se dedicavam a identificar nas artimanhas do satanás disfarçado de arcanjo, o cheiro de enxofre vindo das profundezas do inferno. Para quem tiver um bom olfato, não será difícil sentir esse cheiro nauseabundo agora vindo das proclamações moralistas que cada vez mais tomam conta das páginas dos nossos grandes jornais e dos espaços ditos nobres da televisão. São os velhos sonegadores contumazes da verdade, acusando sem provas ou com provas muito discutíveis, aqueles que por alguma razão não seguem a sua cartilha política. Dizem que o diabo não faz suas maldades apenas porque é diabo, mas porque é velho. Nos principais acontecimentos do passado brasileiro ele esteve muitas vezes presente. O rabo e os chifres do demônio aparecem em momentos cruciais da nossa história com a sua vocação inata para fazer mal aos brasileiros mais crédulos e carentes. Como os diabos de verdade abominavam os santos, suas encarnações tem sempre horror a qualquer sentimento de solidariedade social. Identificado o político que tenha se desgarrado, um pouco que seja, da defesa da Casa Grande ou teve um olhar de carinho para a Senzala, imediatamente ele se torna o alvo a ser destruído. Num país onde a honestidade, em vez de ser uma obrigação, passa a ser uma qualidade, esses novos belzebus se arrogam o direito de defensores absolutos da moralidade e passar a escolher quem é o inimigo a ser atacado. Em 1954, era o mar de lama que havia nos porões do Catete, a justificativa para derrubar um presidente nacionalista, Getúlio Vargas, que ousara pensar nas necessidades do povo brasileiro no lugar dos interesses das multinacionais. Dez anos depois, foi a corrupção e a subversão que iam levar o Brasil para uma hipotética república sindicalista, que serviu de motivo para a derrubada de João Goulart e a instauração de uma longa ditadura fratricida como o País ainda não conhecia. Mais tarde foi a batalha mediática contra os “marajás” que viviam do dinheiro público, que permitiu a um farsante – Fernando Collor – se tornar Presidente. Hoje, é novamente a luta em que redivivos fariseus do passado se empenham em defesa de uma moral que não praticam, como desculpa para derrubar os governos de um partido, que mesmo abrindo mão de muitas de suas bandeiras, não atende a todos seus objetivos antipatrióticos. Nessa tarefa tão pouco nobre, os acusadores de hoje repetem os romanos invasores da Judéia e os portugueses colonizadores, ao se valer das delações dos novos Judas e Calabares, comprovando mais uma vez aquela frase de Marx de que, quando a história se repete, o faz como farsa. Os historiadores mais tradicionais do Brasil, na sua ojeriza ao povo, sempre descreveram os grandes acontecimentos da Pátria, como tendo ocorrido à margem da vontade popular, começando pela proclamação da República. Hoje, percebendo que essa indiferença aos acontecimentos políticos não mais existe no meio do povo, que deu a vitória aos candidatos populares nas quatro últimas campanhas, esses novos “sebastianistas” desfecharam a maior campanha mediática que o Brasil já viu, na busca de um retorno a um passado “onde tudo era melhor e onde todos sabiam qual era o seu lugar na mesa e na vida social. Fundamentalmente, apesar do verniz de modernidade, o que se pretende é um retorno a um Brasil-colônia habitado por senhores respeitáveis com seus fraques e polainas, sinhazinhas casadouras e escravos dóceis e prestativos. O Brasil está precisando de um bom exorcista para tirar o diabo do corpo de muita gente ilustre.

Sou politicamente incorreto

Depois de uma certa fase na vida, não devemos mais esconder nossas posições. Precisamos sair do armário. É o que estou fazendo, para declarar publicamente que sou politicamente incorreto. Enquanto fui professor no curso de comunicação da PUCRS, escondia esta característica com medo de ser demitido. Acho que disfarcei bem, porque até me deram uma medalha de bons serviços aos 25 anos de trabalho. Sete anos depois, um babaca que chefiava o departamento pediu minha demissão, dizendo que eu tinha o mau hábito de contestar suas orientações. Pensando bem, acho que não era tão babaca assim, já que conseguiu ler meus pensamentos. Agora, sem maiores compromissos, morando sozinho em Gramado, e vivendo de uma aposentadoria da Previdência Social (dois salários mínimos menos os empréstimos consignados) acho que não tenho mais muito a perder. Então, prometo afrontar com radicalismo as posições políticas e religiosas dos outros, mas fazendo isso sempre de forma verbal, jamais recorrendo a qualquer tipo de violência física, ainda mais porque na minha idade acabaria sempre levando desvantagem. Quando alguém me disser que Deus fez o mundo em sete dias e que os bons, quando morrem vão para o céu e os maus para o inferno (sobre o purgatório e o limbo, estranho, ninguém fala mais), depois de um sorriso irônico, pergunto: – Você acredita que nasceu quando uma cegonha o levou até a maternidade? É claro que, esta pergunta, feita com o sorriso irônico, deve levar em conta se você não está falando com um fanático religioso (hoje, eles são muitos, espalhados por várias religiões). Por isso é preciso manter sempre uma prudente distância do seu interlocutor e futuro desafeto. Caso a pessoa a que você se dirige, parecer no mínimo um analfabeto funcional (existem muitos em várias profissões liberais) é possível recomendar a leitura dos clássicos do ateísmo: o livro de Richard Dawkins, “Deus é um delírio” ou o do Christopher Hills, “Deus não é grande”. É claro que eles não vão ler, mas talvez o respeitem um pouco mais. Na área política, quando alguém disser que votou no Sartori, faça uma cara de pena e diga: – Você merece, mas eu e a maioria do Rio Grande, não. Quando alguém disser que votou no Aécio, não o chame de coxinha, apenas faça um ar de desconsolo e diga: – Cancele a sua assinatura da Veja e deixe de ver o Jornal Nacional. Depois a gente conversa. Agora – atenção – se alguém disser que torce pela volta dos milicos ou diz que o Bolsonaro é o presidente que o Brasil precisa– fuja o mais rapidamente possível, porque se trata de um tipo extremamente perigoso. O sonho de consumo desse sujeito é ver Auschwitz de volta e ele com o fardamento das SS. Quase tão perigoso quanto este sujeito, é o sionista fundamentalista que só vê belezas no Estado de Israel e que acha todos os palestinos terroristas radicais. Esqueça de recomendar que ele leia aqueles judeus divergentes, como Bettheim, Sholon ou Chomsky. Ele nem sabe quem são estas pessoas. E pior, não adianta nem fugir porque ele vai mandar o Mossad atrás. Depois dessa confissão, só me resta discutir futebol, pois, por incrível que pareça nessa área, somos todos irracionais e por isso todas nossas posições merecem ser levadas em consideração. Nessa briga, sou sempre Internacional e qualquer outro time que esteja jogando contra o Grêmio.