Abigail

 

Seu nome de batismo era Abigail e ele nunca gostou. O pai, colorado doente, escolhera o nome por causa daquela famosa defesa do Inter dos anos 40: Ivo, Alfeu e Nena; Viana, Ávila e Abigail.
Era um nome unissex, servia tanto para homem como para mulher. Chamavam Nadir, Jaci, Darci (a mulher do Getúlio Vargas se chamava Darci, com Y no final, mas o som era o mesmo do “i”), Duda, Abigail e quem respondia podia ser tanto um homem, como uma mulher.
Desde a época da escola, Abigail da Silva tinha vergonha em dizer seu nome. Nos consultórios médicos, quando alguém chamava em voz alta – Abigail, pode passar – ele tinha vontade de fingir que não era com ele.
Aos 50 anos, tomou a decisão, iria mudar de nome e apagar o Abigail da sua vida.
O Brizola não nascera Itagiba e depois trocara para Leonel? E isso deve ter mudado sua vida para melhor. Imagina na Legalidade se falar no governador Itagiba?
Estava decidido: iria deletar o Abigail da sua vida.
Foi um longo processo e ele gastou um bom dinheiro com advogados e cartórios, mas finalmente marcaram o dia para que diante de um juiz ele declarasse qual seria seu novo nome.
Aí, começou outro problema: que nome escolheria?
Parentes e amigos não paravam de dar sugestões. Parece que a cidade inteira transformou o tema em algo mais importante que as eleições. Pessoalmente, por telefone, por email, pelo facebook, choveram sugestões.
O tio Heráclito não abria mão de homenagear o velho PTB: Getúlio, Leonel ou Jango. Considerou Leonel uma boa possibilidade, com Getúlio tinha algumas divergências e Jango , explicou para o tio, era uma mistura de João com Goulart.
Tia Marieta sugeriu um nome americano da moda, alguém famoso , como Elvis, Jimmy ou Bob. O marido dela, o tio Fragoso, disse que um nome americano é sinônimo de poder, mas tem que ser alguém com mais força, como Lincoln, Kennedy ou Franklin. O primo Flaviano, filho do Fragoso e da Marieta, brincou: por que não Bush ou Trump? Trump da Silva. Esqueçam.
Tia Carina, que botava as cartas em Teresópolis, disse que o importante era a numerologia e melhor nome deveria ser Íccaro, assim mesmo com dois “cês” para atender o que dizem os astros.
Caso a mãe estivesse viva ia querer que fosse Alcides para homenagear o pai. Ele bem que merecia,mas Abigail não se sentia à altura do Velho. O pai sempre fora corajoso e revoltado, ele era medroso e conformado.
Rejana Becker sugeriu que se chamasse Werner em homenagem ao amigo. Não era uma má ideia, tinha dois amigos chamados Werner, o Becker e o Altmann. Mas e outros amigos, o Eloy, o João Batista, tão antigos como os Werners, como iam ficar?
Clau Rota sugeriu um nome francês para indicar uma boa formação cultural. Não era uma má ideia – Jean Paul, Blaise, Gustave, Honoré, Roger Martin . O problema era que poucos saberiam escrever corretamente seu nome.
Lá do Mato Grosso, o Dimiti mandou um telegrama: tem que ser um russo e comunista. Vladimir , disse ele. Vladimir, o nome de Lenin – quase bateu o martelo -mas aí surgiu outro problema: os caras vão sempre perguntar se é com “vê”, “dobre vê” ou “double u”?
Ingrid Schneider, sempre defensora das causas indígenas, sugeriu Kayke, Raoni ou Ubirajara. Gostou do último e foi ver o significado – “senhor da lança” ou “senhor da vara” – e achou que podia ter um segundo sentido meio inconveniente.
Vera Spolidoro lembrou que como tinha sido criado em lugares de colonização italiana, que tal Pietro, Giovani ou Enzo? Gostou do último e foi olhar o significado – Senhor do Lar – e desistiu. O que iam pensar dele.
O Barbosa, lá do Alegrete, que nunca desistia de homenagear os farroupilhas – todos seus filhos se chamavam Bento (Antônio Bento, João Bento…) – foi sucinto: Bento Gonçalves da Silva. Imagina o que diria o Mário Maestri se em vez de Abigial, se chamasse Bento Gonçalves da Silva.?
Uma antiga namorada mandou uma mensagem dizendo – que o meu marido não saiba, mas quando a gente tava junto ,lembra que eu te chamava de Amoreco.
Mas aí seria a desmoralização total – Amoreco da Silva.
No dia marcado para sacramentar o novo nome, compareceu diante do juiz e declarou sua escolha: Abigail da Silva.

Hasta siempre Fidel

Ao chegar ao poder em 1959, Fidel Castro (13/08/1926 – 25/11/2016) parecia ser mais um desses caudilhos latinos americanos que se erguem em armas para derrotar as oligarquias que se apossaram dos destinos de suas pátrias e que mal chegam ao governo, reproduzem essas práticas.

A simpatia que cercava os jovens barbudos de Sierra Maestra, logo começou a se desfazer entre os democratas liberais, que os apoiaram inicialmente, quando varreram de Havana a máfia corrupta que transformara o país num grande prostíbulo e se começaram a criar, a pouco mais de 100 quilômetros de Miami, um país que não aceitava mais a condição de colônia norte-americana.

Fidel Castro não pretendia reproduzir em Cuba o modelo de democracia representativa europeia, que muitos dos seus apoiadores iniciais, como Jean Paul Sartre, por exemplo, defendiam que deveria seu objetivo e deixou isso logo claro, quando levou para o ‘paredón’ os acusados de crimes contra a humanidade e prática de torturas durante o regime de Fulgência Batista.

Embora só em 1976 Cuba tenha inscrito em sua Constituição que era uma república socialista, desde o início, Fidel e seus companheiros imaginaram que poderiam desenvolver na ilha um sistema socioeconômico à margem do capitalismo, o que provocou desde logo a reação americana.

“É isso que eles não podem nos perdoar, que estejamos aqui, sob seus narizes, e que tenhamos feito uma revolução socialista debaixo dos narizes dos Estados Unidos”, disse Fidel.

O aprofundamento do caráter socialista da revolução cubana – o que de certa forma não estava incluído nos manuais marxistas – só foi possível porque a conjunção internacional no início da década 60, com o crescimento do poderio econômico e militar da União Soviética, assim o permitiu.

Apesar disso, o apoio soviético nunca foi pleno e, de certa forma, atendia mais aos interesses dos russos do que aos cubanos.

Em 1962, quando da crise dos mísseis, Nikita Kruchov negociou com Kennedy o desmantelamento da base soviética em Cuba em troca da retirada dos foguetes norte-americanos da Turquia.

Cuba, no caso, foi mais uma peça no xadrez da Guerra Fria, e Kruchov, como já tinha feito Stalin durante a guerra civil espanhola, enterrava mais uma vez a ideia da solidariedade internacional dos povos, em troca da preservação da experiência do chamado socialismo real na União Soviética.

Mesmo sem o apoio integral dos soviéticos, Cuba continuou tentando construir o seu modelo de socialismo, ainda que não sendo aquele sonhado por Marx, Lenin e Trotsky, se tornaria um modelo para às esquerdas latino-americanas.

Como disse uma vez Fidel, comparando Cuba com os demais da América Latina:

“Em vez de nos agredirem como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: como é possível que Cuba, em 30 anos, tenha feito o que a América Latina não fez em 200 anos?”

Em setembro de 2015, quando o Papa Francisco visitou Cuba, Fidel Castro deu a melhor justificativa para a Revolução Cubana:

“Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana.”

Essa é a grande diferença de Fidel dos demais líderes latino-americanos, que em algum momento da história dos seus países tentaram desenvolver um modelo político à margem do imperialismo.

Foi o caso de Allende, no Chile, derrubado por um golpe militar em 1973; de Lula, no Brasil; de Lugo, no Paraguai; de Correa, no Equador; de Morales, na Bolívia; e, até mesmo do casal Kirchner, na Argentina, que avançou em conquistas sociais para os mais pobres, mas que jamais contestaram o regime capitalista.

Quem mais avançou nesse caminho foi Chávez, na Venezuela, que, mesmo assim, precisou usar o adjetivo ‘bolivariano’ para o seu movimento e não socialista, talvez até mesmo para preservar seu regime.

Esse parece ser o grande problema dos líderes da esquerda latino-americana, que sonham com um socialismo democrático à lá europeia e não dão o passo seguinte rumo ao rompimento com o modelo capitalista.

Slavoj Zizek disse que os políticos que mais temem uma revolução socialista de verdade, são os socialistas democratas.

Istaván Meszaros foi mais preciso na análise dessa política de conciliação em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista:

“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda mudança legítima. A crítica só é admissível em relação a alguns detalhes menores, visando corretivos potenciais, que apenas remenda até certo ponto a estrutura da política parlamentar estabelecida, mesmo quando se torna impossível negar sua vacuidade, deixando inalterado o próprio processo, estruturalmente arraigado, de tomada de decisões.”

Com a morte de Fidel Castro, desapareceu o único personagem da história política da América Latina que teve a coragem de tentar fazer uma verdadeira revolução socialista.

Em homenagem a Fidel Castro, nada melhor do que reproduzir um texto do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano (As veias abertas da América Latina):

“Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.

E nisso seus inimigos têm razão

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História, que abriu o peito para as balas quando veio a invasão;  que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão; que sobreviveu a 637 atentados; que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em Pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus, que essa nova Pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida, mas obstinadamente alegre, gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.”

Todos estão mortos

-Dorme bem, sonha com os anjos.
Eu nunca sonhei com os anjos.
O melhor seria sonhar com a vizinha do lado.
Isso, porém, eu não poderia dizer para a minha mãe. Ela achava a vizinha uma sirigaita. 
A vizinha era uma gringa forte, de pernas grossas, que tinha um filho da minha idade.
Que idade eu tinha? Acho que uns 4 ou 5 anos.
Será que com essa idade já se pensa em sacanagens?
A vizinha sentava num banquinho no meio do pátio, levantava a saia e metia cara do filho no meio das coxas, baixava suas calças e lhe dava um monte de palmadas. É com isso que eu queria sonhar: ficar com cara metida no meio daquelas coxas roliças.
Sonhar com anjos não tinha a menor graça.
Pelo que o padre Bombardeli contava nas aulas de catecismo, os anjos andavam sempre limpinhos, não diziam palavrões e viviam batendo suas asas em volta de um grande trono de ouro onde Deus sentava.
Pensar que esta cena pudesse durar mais do que horas, já deixava a gente assustado. Imagine então séculos e séculos. Os anjos sempre estiveram lá, limpinhos, sem dizer palavrões, batendo suas asas. E a gente não aguentava quieto mais do que 5 minutos na aula da professora Luiza.
Mas isso, foi mais tarde. Sete anos? Foi depois da varicela e antes de quebrar o dedão do pé. A vida parecia uma longa estrada que nunca terminaria.
Agora, pelo contrário, ficou curta, parece que vai terminar logo ali.
A mãe já morreu faz tempo, a vizinha sirigaita possivelmente também. Talvez até o filho que ficava com a cabeça no meio das coxas da sua mãe.
Engraçado isso. Virou uma obsessão pensar nesta gente que estava viva num momento e logo depois está morta.
Quando o jornal mostra aquelas fotos antigas, tipo Porto Alegre nos anos 20, e surgem aqueles homens de chapéu e bengala caminhando pelas ruas eu fico pensando que a maioria já morreu.
Maioria? Certamente todos.
Talvez aquele guri com roupa de marinheiro ainda viva.
Na foto, ele parece ter uns 10 anos. Se o ano é 1920, ele teria hoje quase 100 anos.
Quem vê a foto, nem imagina que isso pudesse acontecer. Muito menos, o garoto. Ele certamente estaria pensando em ficar assim a vida inteira, um garoto com roupa de marinheiro.

A vez de Haddad

 

O atentado contra o Bolsonaro por um insano que diz ter obedecido uma ordem de Deus, mudou totalmente o panorama eleitoral  na disputa para a Presidência.

Em primeiro lugar, garantiu a presença do candidato do fascismo brasileiro no segundo turno – a menos que ele não sobreviva aos ferimentos, o que hoje  parece uma hipótese já afastada – e esvaziou as demais candidaturas de centro direita – Alckmin, Meireles e Álvaro  Dias – e deixou sem discurso os candidatos alternativos, como Marina,Boulos e Cabo Daciano.

Sobraram para enfrentar o Bolsonaro, apenas Ciro Gomes e Fernando Haddad, esse ainda necessitando de uma confirmação imediata do Lula.

É fundamental, que as esquerdas percebam que o ocorreu em Juiz de Fora vai polarizar o pleito entre esquerda e direita, tudo que os golpistas que afastaram Dilma – setores do Parlamento, do Judiciário, de toda a grande mídia e o imperialismo americano – não queriam que acontecesse.

É preciso nessa hora tornar claro para a população quais são os projetos em disputa em outubro para que os eleitores possam decidir com algum grau discernimento.

Por representar o único grande partido da esquerda organizado em todo o País, caberá ao PT comandar essa luta, propor os grandes temas a serem debatidos, saindo fora da discussão rasteira de quem é mais honesto e quem é mais valente para enfrentar os graves problemas do País que o Bolsonaro conseguiu emplacar.

Quinta feira,  num debate na Globo News, Fernando Haddad deu uma bela demonstração de que tem todas as condições de exercer esse papel.

Num programa, em que teoricamente seria sabatinado por jornalistas, enfrentou  um verdadeiro tribunal de inquisição,  formado por inimigos do PT, alguns razoavelmente articulados,  como Gerson Camarote e Cristina Lobo, outros raivosos demais para formular um pensamento  racional, como Miriam Leitão e Andréia Sadi e finalmente dois aparentemente entrados na senilidade,  como Fernando Gabeira (onde ficou  a pessoa que escreveu  O Que É Isso Companheiro?) e Merval Pereira.

Mesmo sendo constantemente aparteado, Haddad permaneceu sereno e com alguma ironia, foi desmanchando uma a uma as provocações do grupo de ativistas de direita, transfigurados em jornalistas e se mostrou uma pessoa extremamente preparada para ser o novo Presidente do Brasil.

Resta agora usar imediatamente os espaços da mídia e passar essa imagem aos eleitores.

O papel de Roosevelt

Qual foi o papel do presidente americano Franklin Delano Roosevelt na Segunda Grande Guerra?

Para a maioria dos historiados ocidentais,ele foi um democrata, defensor da paz e que ajudou a destruir o perigo nazista.

No seu livro A Formação do Império  Americano, o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira traça um retrato bem diferente de Roosevelt, dizendo que, por interesses econômicos, ele fez tudo para levar os Estados Unidos a participar da Segunda Guerra, contrariando a opinião pública americana que queria o país distante do conflito.

Em 1941, uma pesquisa Gallup mostrou que 88% do povo americano era contra a participação dos Estados Unidos na guerra da Europa.

Logo após o rompimento do conflito na Europa, fruto principalmente do choque de interesses econômicos entre a Alemanha e a Inglaterra, principalmente no que diz respeito ao domínio das colônias na África e na Ásia, os Estados Unidos se mantiveram oficialmente neutros.

Apesar dessa neutralidade formal, por ordens de Roosevelt, os Estados Unidos passaram a abastecer com todo o tipo de armas os ingleses, que depois disso nunca mais se livraram da dependência econômica americana.

Nos primeiros dias de agosto de 1941, Roosevelt foi ao encontro de Churchill  a bordo do couraçado H.M.S Prince of Wales, em Placentia Bay, quando lhe prometeu dar todo o suporte militar na guerra com a Alemanha, embora se recusasse a ajudar a Inglaterra a superar seus problemas financeiros.

Para Moniz Bandeira, isso já fazia parte da nova estratégia americana de enfraquecer a Inglaterra economicamente para depois da guerra se tornar o país dominador na Ásia e África.

No final da reunião foi emitido um pronunciamento conjunto, denominado a Carta do Atlântico, na qual se prometia “a destruição final da tirania nazista e o aparecimento de nações soberanas dentro de suas fronteiras”

Em suas memórias, Churchill comentou que achou espantoso que o s Estados Unidos, um país tecnicamente neutro, e alinhasse a uma nação beligerante ( a Inglaterra) em uma declaração equivalente a um ato de guerra.

Segundo Moniz Bandeira, a estratégia de Roosevelt para chegar a pretendida liderança mundial passava pela derrota total dos países do Eixo – Alemanha, Japão e Itália – pelo enfraquecimento econômico da Inglaterra e França, que se apoiava na exploração das colônias na Ásia e na África e pela divisão política da Europa de pós guerra em pequenos países economicamente fracos.

O primeiro passo nesse sentido seria forçar o Japão a declarar guerra aos Estados Unidos, o que levaria a Alemanha também ao conflito.

Para isso, recusou todas as tentativas dos japoneses de negociar algum tipo de acordo sobre os conflitos de interesse comum  na Ásia, deixando para eles a única alternativa da guerra.

Ainda de acordo com Moniz Bandeira, os americanos haviam quebrado códigos secretos de guerra dos japoneses e sabiam que um provável ataque ocorreria em Pearl Harbor.

Só não sabiam que ele ocorreria com a força destruidora que teve. De qualquer maneira ele foi o motivo para o início da guerra contra o Japão e logo em seguida contra a Alemanha.

Até o final da guerra na Europa, Roosevelt jamais aceitou negociar algum tipo de acordo com os generais dissidentes alemães para eliminar Hitler e formalizar uma proposta de paz.

Em vez disso, ordenou bombardeios brutais contra cidades alemãs que não tinham qualquer objetivo militar. Colônia, Dresden e outras cidades foram severamente atingidas. O bombardeio de Pforzheim, em fevereiro de 45, matou um em cada três habitantes, proporcionalmente  mais do que a bomba atômica que seria jogada em Nagazaki, em agosto, onde a taxa foi de um morto a cada sete habitantes

Ao mesmo tempo em que fazia a guerra,Roosevelt tratou de assegurar as bases materiais para a administração do mundo quando o conflito terminasse. Em junho de 44, a Conferência Monetária e Financeira de Bretton Woods, transformou o dólar,no lugar do ouro, no instrumento universal de trocas.

Roosevelt não chegou a ver a vitória de sua obra. Ele morreu 12 de abril de 1945,  cabendo ao seu sucessor, Harry Trumann, completar seu trabalho de destruição do inimigos, autorizando a explosão das primeiras bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki, cidades sem qualquer importância militar para o Japão.

Só uma coisa não deu certo nos planos de dominação mundial dos Estados Unidos, idealizados por Roosevelt: a vitória da  União Soviética sobre os nazistas, fazendo surgir uma grande potência militar em oposição aos Estados Unidos.

Tributo a um intelectual brasileiro

Como estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul nos primeiros anos da década de 1960, era um crítico, na medida em que meus conhecimentos permitiam, da maneira como os professores, quase todos extremamente conservadores, desenvolviam as disciplinas do curso. Basicamente, era quase que um mero registro dos fatos históricos, como já acontecia no grau médio do de ensino, acrescentado aqui ou ali de algum comentário de Gilberto Freyre ou de Capistrano de Abreu.

Embora a minha turma não fosse muito exigente na cobrança de novas fontes de informação, o quadro político que cercava a universidade naqueles anos era de grande efervescência e uma visão mais analítica dos fatos e não sua simples descrição começava ser cobrada por alguns alunos. Quase que como provocação aos professores, começávamos a lembrar os nomes da Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes como fontes a serem consultadas, além daqueles que tradicionalmente faziam parte das listas de referência.

Casualmente ou não, todos eles fazendo uma leitura – no caso da história do Brasil, com uma visão – em uns, mais e em outros, menos – impregnada da leitura de Marx. Entre 1961 – a Legalidade – e o golpe militar de 1964, o Brasil vivia um período de um extraordinário otimismo sobre o futuro do País, que parecia estar prestes a se tornar socialista. Bem, o tempo mostrou que não era disso que se tratava, mas, na época, estávamos convencidos que sim.

Foi nesse clima que conheci alguém que iria reconhecer sempre como o mais importante intelectual brasileiro, Jacob Gorender, numa série de conferências sobre o Humanismo Marxista, no antigo restaurante universitário da Rua da Azenha, ironicamente transformado em Escola da Polícia, depois do golpe de 64. Gorender não era ainda o consagrado escritor de ‘Escravismo Colonial’, de 1978, nem ‘Combates nas Trevas’, de 1987, mas já era visto como um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros.

Gorender nasceu em Salvador, em 1923, filho de judeu ucraniano pobre. Estudou no Ginásio da Bahia e, a partir de 1941, na Faculdade de Direito, curso que abandonou para lutar como voluntário da FEB na Segunda Guerra, na Itália. Ao voltar ao Brasil, se ligou ao Partido Comunista, ocupando importantes postos no seu comitê central, até abandonar o partido em 1967, por divergir da sua linha reformista, para fundar o Partido Comunista Revolucionário.

Como marxista, Gorender se alinhou com as teses de Lenin num grande debate que sempre dividiu os comunistas, ao dizer que a classe operária é possuidora de uma ‘ontologia reformista’ e não ‘revolucionária’, ao criticar o determinismo histórico, ao afirmar a importância dos intelectuais para a formação da consciência revolucionária e ao defender a necessidade do Estado na sociedade socialista

Como historiador, Gorender não se limitou a analisar o Brasil apenas sob a ótica do marxismo, como fizeram outros historiadores importantes, mas de certa forma inovou nessa matéria ao criar, além das categorias tradicionais do escravismo, do feudalismo, do capitalismo e do socialismo, uma nova forma de sociedade, que chamou de ‘escravismo colonial’ e que ele definiu assim: “A mistura de trabalho escravo e capitalismo mercantil (dominante na metrópole) criou uma sociedade peculiar. Os mercadores coloniais constituíam uma burguesia mercantil integrada na ordem escravista e tão interessada na sua conservação quanto os plantadores. Boa parte desses mercadores, aliás, se dedicava ao tráfico de escravos da África para o Brasil colonial e Imperial”.

Ao prefaciar a última edição do livro ‘Escravismo Colonial’, o historiador gaúcho Mário Maestri diz que “ao criar – conceitual e analiticamente – um novo modo de produção, o escravista colonial, Gorender não infringiu heresia ao materialismo histórico, mas, ao contrário, o reforçou enquanto metodologia aplicável para a análise de um sistema econômico que destoa dos que se desenharam na Europa analisada por Marx. O modo de produção escravista colonial era calcado em duas instituições que o determinavam enquanto modo de produção propriamente dito (os modos de produção são formados pelo conjunto das forças produtivas e pelo conjunto das relações de produção, na sua interação, num certo estágio de desenvolvimento. Simultaneamente designam as condições técnicas e sociais que constituem a estrutura de um processo historicamente determinado): a plantagem e a escravidão”.

Como diz com precisão, o meu amigo, o professor Maestri, Gorender não se limitou a usar os conceitos do Marx, mas usou a metodologia marxista para analisar um sistema econômico diferente daquele na Europa que Marx analisou. Assim como ele, existe, hoje, no mundo, um grupo pensadores que se preocupa em recuperar a ideia do comunismo como solução para um sistema capitalista em crise estrutural, a partir dos ensinamentos de Marx adaptados à realidade atual. Entre eles, estão nomes com Istvan Meszaros, Pierre Broué, Jean Jacques Marie, Slavoj Zizek, Jacques Rancierin e Alain Badiou.

Jacob Gorender não foi apenas um teórico. Quando a ditadura fechou todos os caminhos para um confronto democrático de ideias, ele se aliou à luta armada. No seu livro ‘Combate nas Trevas’, ele faz uma análise extremamente lúcida desse período. “Se quiser compreendê-la na perspectiva da sua história, a esquerda deve assumir a violência que praticou. O que em absoluto fundamenta a conclusão enganosa e vulgar de que houve violência de parte a parte e, uns pelos outros, as culpas se compensam. Nenhum dos lados julga pelo mesmo critério as duas violências – a do opressor e a do oprimido. É perda de tempo discutir sobre a responsabilidade de quem atirou primeiro. A violência original é a do opressor, porque inexiste opressão sem violência cotidiana incessante. A ditadura militar deu forma extremada à violência do opressor. A violência do oprimido veio como resposta.”

Jacob Gorender morreu em 2013, em São Paulo, com 90 anos de idade. Em 1999, sua importância como um grande intelectual foi reconhecida com a entrega a ele do prêmio Juca Pato por ter sido considerado o Intelectual do Ano.

Dublê de corpo

 

Fui ver na Sala Redenção da UFRGS, Dublê de Corpo, que Brian de Palma fez em 1984.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o cinema norte-americano se tornou dominador no mundo inteiro pela qualidade das produções geradas nos grandes estúdios de Hollywood.

A Metro, a Paramount, a Fox, a United e a Universal davam as condições técnicas e materiais para que grandes diretores tornassem realidade suas ideias. Kubrick Billy Wildner, Willian Wyler, John Ford e Hitchcock, entre outros, puderam produzir filmes memoráveis para a história do cinema apoiados e financiados por estes estúdios.

Brian de Palma, nascido em 1940, nunca foi uma unanimidade, mas tem em seu cartel filmes inesquecíveis, como Scarface, Carrie a Estranha, Os Intocáveis, Vestida para Matar e talvez o melhor deles, A Fogueira das Vaidades. No ano 2000, Missão em Marte foi um fracasso de público e crítica  e o afastou das grandes produções de Hollywood.

Esse ano produziu um filme de suspense na Dinamarca (Domino) e já está anunciando outro para 2019, no Uruguai, onde pretende usar o ator brasileiro Wagner Moura.

O filme que vi hoje – Dublê de Corpo – que ele roteirizou, produziu e dirigiu, é um dos menores em sua carreira, mas mesmo assim vale a pena assisti-lo até mesmo para comprovar a sua nunca negada intenção de recriar o estilo de Hitchcock.

Nesse filme até mesmo duas situações clássicas de Janela Indiscreta e um Corpo que Cai estão presentes. Do primeiro, De Palma, tomou a ideia do crime que ocorre sobre os olhos do voyer – James Stewart em Janela Indiscreta e Craig Wassan , em Dublê de Corpo. Do segundo, o problema físico que atrapalha nos momentos mais dramáticos dos filmes – a vertigem de Stewart em Um Corpo que Cai e a claustrofobia de Wassan, em Dublê de Corpo.

Filme cômico, de suspense,  pornográfico, de terror, Dublê de Corpo tem tudo isso em suas quase duas horas de projeção.

Para mim, não foi um tempo perdido.

Futebol no cinema

No Brasil, durante muito tempo chamado o País do Futebol, o nosso esporte preferido foi, entretanto, pouco utilizado no cinema para produzir dramas e comédias, ao contrário dos americanos, por exemplo, que já usaram dezenas de vezes o basquete e o basebol como temas para seus filmes.

Muitos documentários foram realizados no Brasil sobre Garrincha e Pelé, principalmente, mas poucos filmes de ficção.

Aliás, Pelé foi fazer nos Estados Unidos, junto com outros famosos jogadores, como Bobby Moore e Ardiles, em 1982, um drama de guerra, dirigido por John Huston, que conta a história de uma partida de futebol entre prisioneiros de campo de concentração e soldados nazistas, denominado A Fuga para a Vitória (Escape to Victory).

Fora isso, sobra pouca coisa, como Boleiros, de Ugo Georgetti de 1998 e Heleno, de José Henrique Fonseca, com Rodrigo Santoro, de 2011.

Enquanto isso, na Inglaterra, o futebol é tema de bons filmes, como esse Procurando por Eric, de Ken Loach.

O francês Eric Cantona, nascido em Marselha em 1966, é lembrado como o jogador do século do Manchester United da Inglaterra, onde atuou de 1992 a 1997.

Considerado um atleta temperamental, Cantona não chegou a jogar na seleção francesa, nas copas do mundo, porque em 1995 pulou o pequeno alambrado que cercava os campos de futebol na Inglaterra para bater num torcedor adversário.

Depois que o futebol acabou, ele se transformou em garoto propaganda de uma empresa de artigos esportivos e continuou a ganhar muito dinheiro.

Em 2009, resolveu aplicar parte desse dinheiro na produção de um filme, onde, obviamente o herói seria ele mesmo. O filme “Procurando por Eric” ( Looking fo Eric) conta a história de um carteiro inglês vivendo numa enorme crise financeira e emocional, que acaba encontrando a felicidade depois de ouvir os conselhos de Cantona, inicialmente apenas um grande pôster em seu quarto, mas que depois se transforma num personagem vivo que dialoga com o carteiro.

Para dirigir a história, o produtor Cantona buscou o talento do famoso diretor inglês Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes no ano de 2006 com o seu filme ”Ventos da Liberdade”, sobre a luta para a criação da República da Irlanda.

Considerado um artista totalmente engajado em temáticas sociais e mostrando sempre uma posição de esquerda, Loach faz em “Procurando por Eric” um filme que beira a pieguice e que não escapa de um happy end digno de Hollywood, talvez até por influência do produtor Cantona.

Mesmo assim é um filme que vale a pena ser visto, principalmente quando o diretor consegue trazer para a tela o clima de companheirismo entre o carteiro e seus amigos e pela sempre presente ironia inglesa nos diálogos entre os personagens principais.

Uma das cenas mais engraçadas do filme é quando um dos companheiros do carteiro, estimula o grupo a realizar um exercício ensinado num dos muitos livros de auto-ajuda que costuma roubar das livrarias. Cada um dos integrantes do grupo deve se inspirar num personagem famoso. São citados: Mandela, Fidel Castro, Gandhi, e, é claro, Eric Cantona.

Ao ser entrevistado por um jornalista, quando promovia o filme no Brasil, Cantona teve que responder a clássica pergunta: quem foi melhor – Pelé ou Maradona? Cantona não vacilou: Pelé foi um atleta extraordinário, mas como pessoa capaz de assumir riscos para fazer valer suas posições, Maradona foi muito maior.

Os negros e os árabes

A democracia para todos é ainda uma utopia perseguida pela humanidade. Na Grécia, onde a palavra foi inventada para caracterizar um governo onde a soberania seria exercida pelo povo, o conceito de povo não abrangia os escravos, nem as mulheres

Os ingleses têm uma tradição democrática de séculos, mas implantaram um sistema cruel de colonialismo na África e na Ásia, onde o exercício democrático era restrito aos brancos colonizadores.

Na África do Sul, por exemplo, seus descendentes perpetuaram um dos regimes mais excludentes do mundo, o apartheid, que negava aos negros os direitos democráticos mais elementares. Foi preciso uma longa luta, que conjugou ações políticas e também armadas, para que os negros pudessem construir um país, onde a mais importante conquista democrática, a igualdade racial, fosse respeitada.

Nelson Mandela, que hoje é reconhecido, até mesmo pelos antigos colonizadores, como um defensor da Paz, foi também o comandante militar do movimento Lança de uma Nação, o braço armado do seu partido o CNA.

A conclusão que se pode tirar é que mesmo um país que adote um sistema democrático interno para o seu povo, pode se transformar num algoz para outros povos e que, os que comandam a resistência desses povos contra os invasores vindos de um país democrático, mesmo sendo chamados de terroristas (Mandela foi condenado por ações consideradas terroristas) podem ser considerados heróis para seus povos.

Você lê sempre nos jornais que Israel é uma democracia que respeita seus cidadãos. Realmente é verdade. Israel tem uma das democracias mais estáveis do Oriente Médio. Pena, que seja apenas para os seus cidadãos. Os árabes, que viram suas terras tomadas pelos judeus, quando da constituição do Estado de Israel, não têm acesso aos mesmos direitos democráticos.

Pior do que isso: hoje sofrem a ação militar de Israel, que a pretexto de combater guerrilheiros, avança sobre um dos poucos pedaços de terra que ainda sobrou para os árabes da Palestina, a estreita Faixa de Gaza.

Os jornais ocidentais costumam chamar a  atenção para o fato de que em Israel as crianças têm educação e as mulheres não são obrigadas a sair à rua debaixo de panos pretos, certamente lembrando a burka que veste as mulheres árabes onde o fundamentalismo muçulmano é mais atuante.

Os brancos que comandavam a África do Sul também davam as suas crianças a melhor educação possível e desprezavam as mulheres negras que viviam nos guetos raciais das maiores cidades. Quando Mandela iniciou sua luta, a população da África do Sul era composta por dois milhões de brancos e oito milhões de negros;

Quando a ONU partilhou a Palestina, lá viviam 1milhão e meio de árabes e 600 mil judeus. Embora Israel defenda seus direitos históricos sobre a região, o certo é que os judeus só começaram a chegar a Palestina em grande número depois da Primeira Guerra Mundial.

Em 1917, o governo inglês, através de Lord Balfour, prometeu ao Presidente da Federação Sionista Britânica, o banqueiro Lord  Rothschild, que a Inglaterra apoiaria a criação na Palestina de Um Lar Nacional para o Povo Judeu, em troca do apoio financeiro da poderosa e rica comunidade judaica à guerra que os ingleses travavam contra o Império Otomano pelo domínio da região.

Foi este apoio e mais tarde as revelações sobre o holocausto do povo judeu na Alemanha nazista, que criaram as condições para o surgimento do Estado de Israel, ocupando uma grande parte das terras até então pertencentes aos árabes

Desde então, o Estado de Israel, cada vez mais comandando por agrupamentos políticos de direita, em lugar dos antigos fundadores do País, quase todos de origem socialista e trabalhista, tem se dedicado a negar aos seus vizinhos árabes os mesmos direitos que desfrutam o povo judeu, assim como faziam os brancos em relação aos negros da África do Sul;

Não é por acaso, que Israel foi um dos últimos países do mundo a condenar o apartheid, mantendo relações econômicas e políticas com a África do Sul até o final do seu governo racista.

Quem condenou o racismo dos nazistas contra os judeus, dos colonizadores brancos contra a população negra africana, tem que condenar também, o mesmo sentimento dos israelenses em relação aos árabes da Palestina.

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O Diabo está de volta

Depois de um longo período em que a Igreja Católica tratava o Diabo mais como um símbolo do mal do que como Lúcifer, o anjo decaído da história bíblica, surge um movimento para recuperar sua imagem tradicional, há muito esquecida pelos padres mais esclarecidos.
É a volta Diabo, também conhecido no Brasil por muitos nomes, como Satanás, Demônio, Capeta, Satã, Cornudo, Chifrudo, Belzebu, Cão Tinhoso, Anjo Mau e Príncipe das Trevas, para disputar com Deus e sua corte celestial, a fidelidade dos homens.
Enquanto o Diabo faz o seu retorno à cena religiosa, zelosos padres paulistas se preparam para as duras batalhas que se avizinham. Matéria publicada pela Folha, conta a história do esforço que estão fazendo alguns bispos e padres do interior de São Paulo para recuperar a prática do melhor remédio que a igreja criou para expulsar o Diabo do corpo dos seus fieis, o exorcismo.
Essa prática ganhou um maior conhecimento público depois do sucesso do filme O Exorcista,dirigido por Willian Friedkin, em 1973, baseado no livro de Willian Peter Blatty foi lançado em 1971 .
Um dos padres citados na matéria jornalística chegou a afirmar que “não crer em Satanás é um fato gravíssimo que tem consequências terríveis. É um pecado pelo qual são responsáveis, desgraçadamente, muitos homens da igreja”.
Monsenhor Rubens Zani, que se diz exorcista, tem uma história para justificar a importância dessa prática de enfrentamento às artimanhas do Demônio. Diz ele que, vivendo na África conheceu um atleta que vencia todas as provas: “ninguém o vencia, quebrava recordes, era uma coisa fantástica”, conta o monsenhor. “Depois de um tempo, o feiticeiro pediu para que ele jurasse de morte um familiar como uma homenagem ao Demônio. O escolhido foi o irmão mais novo, que teria morrido repentinamente. E o esportista continuou subindo na profissão. Depois, outro pedido de morte: o beneficiário do acordo deveria ceder a alma da mãe. Ele se negou. O sucesso acabou, e o material esportivo que ele tinha em casa virou cinzas”.
São histórias fantásticas como esta que alimentam a crendice das pessoas e fazem o sucesso de quem aposta no sobrenatural. Muitas vezes, porém, elas se transformam em tragédia como o ocorrido com Anneliese Michel, em Leiblfing, Alemanha, que morreu, em 1975, desidratada e malnutrida. Apesar de ter passado por instituições psiquiátricas, onde era tratada pela epilepsia que lhe causava constantes ataques convulsivos, a garota vinha sendo exorcizada, com a anuência dos seus país, depois que um padre identificou nesses ataques uma prova de que ela estava possuída pelo demônio. A Justiça condenou os pais e o padre, mas eles cumpriram suas penas em liberdade condicional. Essa história foi contada no filme O Exorcismo de Emily Rose, dirigido por Scott Derrrickson em 2005.
Prova de que a Igreja Católica está tratando o assunto com seriedade foi a realização, em Roma de um curso de exorcismos com o objetivo de “defender os fieis do Demônio e do perigo das seitas e do esoterismo”. O curso foi organizado pelo Instituto Sacerdos, com o patrocínio da Congregação Vaticana para o Clero, com a presença de muitos padres brasileiros.
Além da luta contra o Diabo, ficou implícito no programa do curso, a preocupação com o crescimento das igrejas pentecostais, que há muito se dedicam às sessões de exorcismos como um ritual comum em suas reuniões. Tratar o Demônio como um ente quase físico como fazem os pastores das igrejas pentecostais em suas pregações para fieis pouco instruídos, faz muito mais sucesso do que a metafísica presente até agora na maioria dos discursos dos padres católicos.
A prova do sucesso das igrejas pentecostais, no Brasil por exemplo, está no número cada vez maior de fiéis calculado pelo IBGE em mais de 20 milhões de pessoas. Só a Assembleia de Deus tem cerca de 8 milhões e meio de crentes, num processo de cooptação de novos adeptos turbinado pelo uso massivo dos meios de comunicação, principalmente a televisão
As igrejas pentecostais brasileiras se transformaram em produtos de exportação. Muitas delas já atuam no Exterior, tanto nos países vizinhos do Brasil, como também nos Estados Unidos e Europa.
Quem foi mais longe é a Igreja Internacional da Graça de Deus, do Missionário R,R, Soares ( o nome completo é Romildo Ribeiro Soares), que ocupa diariamente o espaço nobre da televisao e que, fazendo jus ao seu nome, tem 2 mil templos espalhados por 11 países, inclusive o Japão e África do Sul.
Se você estiver na República Tcheca, zapeando na televisão à procura de um programa que não seja na língua local, incompreensível para nós, brasileiros, corre risco de dar de cara com o Missionário R,R. Soares, dublado para o tcheco e certamente falando dos milagres que sua igreja realiza todos os dias, mas não esquecendo de cobrar os indefectíveis dízimos, obrigatório para todos os fieis.
Nessa hora em que as igrejas falam em exorcismos e milagres, o melhor que se pode fazer é lembrar os argumentos sempre tão lúcidos de Richard Dawkins:
“Quanto mais refletimos, mais percebemos que a própria idéia de um milagre sobrenatural não tem sentido. Se acontecer algo que pareça inexplicável pela ciência, podemos, com segurança, concluir uma dentre duas coisas. Ou não aconteceu realmente (o observador se enganou, mentiu ou foi logrado por um truque) ou estamos diante de algo que a ciência ainda não sabe explicar. Se a ciência atual encontra uma observação ou um resultado experimental que não consegue entender, não devemos descansar até que ela evolua o suficiente para encontrar a explicação.”