A família, a religião e a democracia

No seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels mostra que a organização familiar foi a primeira forma organizada do ser humano a estabelecer regras de procedimento nas relações entre as pessoas, pondo um limite na violência atávica que permitia aos mais fortes impor suas vontades.
Baseado nos estudos do antropólogo Lewis Henry Morgan sobre os índios norte-americanos da tribo iroquesa, Engels comprovou que o desenvolvimento da família, das antigas formas tribais até chegar ao modelo monogâmico de hoje, está ligado à forma como os grupos humanos se apropriam das riquezas naturais da terra.
Segundo ele, nesse desenvolvimento histórico, podemos definir a existência de três etapas, anteriores ao atual modelo familiar:
1)    A família consanguínea, com o casamento de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo.
2)    A família punaluana, com o casamento coletivo de grupos de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo
3)    A família sindiásmica, com as uniões por casais durante um determinado tempo, mas já com o aparecimento de uma esposar principal e de um esposo principal.
Quando, em virtude do desenvolvimento das formas de produção, o homem já havia conseguido dominar boa parte das forças da natureza e começado a acumular riquezas, desenvolveu-se nele um forte sentimento de egoísmo, fazendo com que ele sentisse a necessidade de identificar seus filhos, que seriam os herdeiros de suas riquezas.
Segundo Engels, esse modelo de monogamia teria surgido na antiguidade clássica, há três mil anos e que, de uma maneira ou outra se preserva até hoje nas suas linhas gerais.
Nesse formato de relação, Engels vê também a origem da opressão das mulheres e o estabelecimento da prostituição, desmentindo a ideia de que elas acompanhariam todas as formas de relacionamentos entre homens e mulheres.
Com a apropriação privada pelas famílias mais fortes, ou mais competentes, das riquezas que antes eram de todo o grupo, essas famílias, trataram de criar um tipo de superestrutura capaz de estabelecer regras de convívio entre todos, impedindo que, as que se atrasaram nessa corrida pelas riquezas, retomassem os procedimentos anteriores de selvageria e desrespeito à propriedade dos outros.
Surge assim o Estado, produto direto da primeira grande divisão de classes da sociedade, destinado a impedir que o status quod conquistado pelos mais ricos pudesse ser alterado.
Essa organização é ainda no seu início bastante frágil e é preciso ser defendida contra o ataque dos excluídos e para isso são estabelecidas determinadas regras, basicamente divididas em dois grupos: as regras de convivência entre pessoas e grupos e regras de compromissos éticos e morais entre os indivíduos.
Estabelecer regras de convivência entre pessoas e grupos com interesses muitas vezes opostos, demandou um esforço muito grande de convencimento, além da criação de uma força de coerção bastante eficiente.
 Na Grécia, onde ele foi formulado pela primeira vez, ele tomou o nome de democracia, significando um governo do povo, mas excluía boa parte da população.
Até hoje, a ideia de democracia, principalmente na sua vertente ocidental, pode ser enaltecida em discursos acadêmicos e políticos, mas ao excluir de suas benesses boa parte da população, está sempre sob o ataque dos inconformados.
Este inconformismo pode ser dividido em dois segmentos: o daqueles, que como no ludismo dos trabalhadores inglesas, no início da revolução industrial, queriam destruir as máquinas para preservar seus empregos e são representados hoje pelos seguimentos fascistas que pretendem destruir todo o sistema democrático atual e os que, percebendo seus estreitos limites, querem sua ampliação dos seus aspectos apenas formais para todo o campo social.
Dissemos antes que haviam dois modelos de superestrutura no qual se apoiam a existência do Estado. O primeiro seria a democracia e o segundo a religião.
As grandes religiões monoteístas sempre serviram para justificar a divisão da sociedade em classes (Marx disse com propriedade que a religião era o ópio do povo), na medida em que transferem para um futuro improvável, aquilo que deveria ser conquistado aqui e com isso ajudavam a preservar as diferenças de classe.
Hoje, esses dois elementos – democracia e religião – estão sob o ataque das mentes mais esclarecidas que pretendem aprimorar o primeiro, a democracia e transformar o segundo – a religião, num sentimento apenas pessoal, mas sem maiores significados para o relacionamento social.

Nos tempos da Piratini

Em 1957, com 17 anos, eu fui ao Rio pela primeira, cumprindo aquela sina dos gaúchos de olhar para o Rio de Janeiro como a cidade dos sonhos, que depois, quando sobrou algum dinheiro no bolso, passou a ser Paris.
Um dos programas que não poderia deixar de ser cumprido, além da praia de Copacabana, o bondinho do Pão de Açúcar e o trenzinho para o Corcovado, era ir ao Maracanã.
Durante aquele mês de julho que passei no Rio, vi todos os jogos possíveis –  Benfica e Flamengo; Benfica e América: Vasco e Fluminense e o mais importante de todos, Brasil e Argentina, pela Copa Roca, no Maracanã.
A Argentina ganhou por 2 a 1 com gols de Labruña e Juárez. Pelé, que entrara no segundo tempo no lugar do Mazola, descontou para o Brasil. Com apenas 17 anos, este jogo marcou a estreia de Pelé na seleção e eu estava lá no Maracanã para assistir. Outra curiosidade: os dois laterais do Brasil eram jogadores formados no Inter: Paulinho, que então jogava no Vasco e Oreco, no Corinthians.
Três dias depois, Brasil e Argentina voltaram a se encontrar em São Paulo, no Pacaembu, e o Brasil ganhou por 2 a zero ficando com a Copa Roca. Marcaram Pelé e Mazola, mas quem acabou com o jogo foi o meia Luizinho, do Corinthians, que não participara do primeiro jogo.
Conto tudo isso para dizer que vi o jogo pela televisão, no Rio. O que hoje é algo extremamente comum, naquela noite foi saudado como uma conquista tecnológica importante.
Usando o seu caminhão de externas, estacionado no meio da rodovia Rio-São Paulo, como estação repetidora, a TV Tupi, pela primeira vez ligou os expectadores das duas cidades numa transmissão instantânea de futebol.
É sobre essa época heroica da televisão que vou falar, lembrando um pouco da minha experiência no jornalismo da TV Piratini de Porto Alegre na década de 60.
Minha tarefa principal era redigir, junto com Luís Vicente Soares, o Seu Repórter Esso, experiência que já contei em detalhes para ajudar o professor Luciano Klockner na sua tese de doutorado sobre esse primeiro grande noticiário da televisão brasileira na PUCRS.
Gostaria de falar agora sobre outro noticiário, bem menos conhecido e feito com muito menos recursos, o Atualidades Catarinenses.
Fugindo da repressão ao levante húngaro de 1956, vivia em Porto Alegre um ex-cameraman do cinema da Hungria e de agências internacionais de notícias, conhecido por Buza. Seu primeiro nome perdi na minha memória, mas certamente o Batista Filho deve lembrar.
Na época, o sinal de TV Piratini chegava a Florianópolis através de repetidoras, montadas nas partes mais altas das cidades de Osório, Torres, Tubarão, Laguna e Criciúma, por iniciativa das comunidades locais. O Buza logo se deu conta que poderia ganhar algum dinheiro misturando reportagens jornalísticas com matérias pagas sobre estas cidades, editadas depois num pequeno telejornal.
Então comprou espaço no horário mais barato da televisão – sábados à noite – escolheu seus representantes nas principais cidades catarinenses, entre jornalistas e publicitários, deixando com cada um deles uma câmera de 16 milímetros e com material arrecadado durante a semana, produzia o tal Atualidades Catarinenses, que de atualidades tinha muito pouco.
Por causa de uma dificuldade que ainda tinha com a língua portuguesa, éramos para o Buza, o MÁrino e o BÁtista, pronunciando nossos nomes como se fossem palavras proparoxítonas.
O MÁrino escrevia o noticiário e o BÁtista apresentava.
Quem sabe o Luciano se interesse em escrever sobre isso, aprofundando a sua tese sobre a comunicação jornalística dos primórdios da nossa televisão.

Eu não fiz voto de silêncio

No seu livro Em Nome da Rosa, Umberto Eco fala sobre os monges que faziam votos de silêncio permanente. Isso sempre me pareceu uma tarefa difícil de cumprir, bem mais do que aquele outro voto de nunca rir, até mesmo porque me parecia correta a ideia de que o riso avilta a condição racional do ser humano
Sei que há divergências sobre este último conceito e ninguém precisa me lembrar de Chaplin e Wood Allen para mostrar como pode estar errada essa suposição.
O que me interessa discutir é se podemos, nós que não somos monges trapistas, cumprir voto de silêncio ou pior, ser condenado ao silêncio.
Para mim, aqui nesse exílio de Gramado, tem sido muito difícil.
Ontem, fiz apenas uma frase durante todo o dia, ao dar bom dia para a zeladora do prédio. Hoje,13 horas de um dia de chuva, continuo invicto no quesito conversação.
Eu tinha arranjado uma amiga aqui nessa cidade de pessoas sempre de passagem, mas ela deve ter cansado dos meus assuntos e partiu.
Em vez de falar, eu agora apenas escrevo. Pelo menos isso.
Desde pequeno, sempre fui um falador e na casa dos meus pais foi estimulado a falar.
Só não podia falar de boca cheia, segundo dizia minha mãe, porque era falta de educação.
Aos 6 anos, quando morávamos em São Sebastião do Caí, era o primeiro a chegar na agência dos Correios, na segunda feira, para não perder a edição da Folha Esportiva.
– É para o seu pai? 
Perguntava a moça do Correio.
Meu pai não se interessava muito por esportes. Era eu que queria saber tudo sobre futebol para ter mais assuntos durante a semana. Recordo até hoje que as notícias naquele ano não foram nada boas. Depois de seis campeonatos seguidos, o Inter perdeu o título para o grêmio no ano de 1946, na partida final por 2 a 1, dizem que com a ajuda do juiz que anulou injustamente um gol do Inter.  No ano seguinte recomeçamos a ganhar, 1947 e 1948. Em 1949, demos outra chance para o grêmio e retomamos nossa “senda de vitórias”, até 1954, quando apareceu o Renner.
Mas, não era sobre isso que queria falar, mas sim sobre voto de silêncio.
Para um falador inveterado, nada como se tornar um professor, primeiro de História, no Colégio Marechal Rondon de Canoas e depois nos cursos de Comunicação da PUCRS e UNISINOS.
Hoje, os professores estão cheios de recursos audiovisuais para poupar o seu latim e os ouvidos dos alunos. Na época, como dizia o Luís Augusto Cama, as aulas eram de professor e giz. Como o giz arrancava a pele dos meus dedos, eu enfrentava aqueles 50 alunos apinhados na sala de aula, apenas no gogó.
Pobres dos alunos.
Aposentado, as possibilidades de falar foram ficando cada vez mais escassas, até chegar a situação de hoje.
Fico pensando em pessoas obrigadas a não falar, como o Pepe Mujica, que ficou anos num buraco de chão na prisão de Punta Carretas, no Uruguai  e de Mandela, na África do Sul.
Mas estes eram verdadeiros heróis e seus algozes temiam suas palavras.
Das minhas, ninguém precisa ter medo.
Penso também naqueles caras que o juiz Moro trancafiou no Paraná.
Será que eles podem falar uns com os outros, ou só com os advogados? Será que têm acesso à internet e podem escrever como eu faço agora? Certamente que não. Senão seriam capazes de avisar o Lula das sacanagens que estão sendo tramadas contra ele.
Mas a Lava Jato não tem nada contra mim. Pelo menos espero que não, embora nunca se saiba até onde podem ir essas buscas da Polícia Federal.
Na época do Sarney atendi contas publicitárias em Brasília e já ouvia falar que existiam alguns tipos de negócios pouco ortodoxos, mas infelizmente nunca ninguém me convidou para alguma maracutaia.
Talvez pensassem que eu falava de mais e seria um delator premiado se caísse nas garras da lei.
Mas, voltando mais uma vez ao voto de silêncio.
 Robinson Crusoé, o personagem do livro da Daniel Defoe, ficou sem encontrar qualquer ser humano por 20 anos, perdido numa ilha, mas aí apareceu o Sexta Feira e ele pode estabelecer longos diálogos com o índio. Em que língua, eu não sei.
Mas, nos dias de hoje, quem faz e cumpre votos de silêncio?
O Temer e o Eduardo Cunha podiam calar a boca durante algum tempo, mas certamente não farão isso e continuarão disparando suas mentiras.
E as carmelitas?
Tem um convento delas em Porto Alegre e periodicamente, na falta de assunto, os jornais falam sobre seus hábitos.
Elas fazem voto de silêncio ou é só de castidade?
Eu aqui não fiz voto de castidade e pelo contrário me esforço, sem muito sucesso, diga-se de passagem, para não ser casto.
Nem de silêncio. Mas parece que estou condenado a cumprir os dois.
Acho que vou arranjar uma viagem a Porto Alegre, logo, logo, para por em dia minhas conversas, quebrando esse silêncio no qual não votei.
O de castidade, vai ser mais difícil, mas não perco as esperanças.

Os tubarões estão de volta

No passado, as pessoas chamavam de tubarões, os comerciantes que roubavam no peso, colocavam água no leite e “esqueciam” de lançar alguns ganhos em seus livros-caixa. Eram tubarões pouco agressivos, se analisados pelos critérios atuais.
Hoje, eles não são chamados mais de tubarões. São grandes empresários, que dispõe de equipes de advogados e economistas para encontrar brechas nas leis que lhes permitam pagar menos impostos e investir mais nas bolsas do mundo inteiro.
Patrocinam programas de aperfeiçoamento nas empresas, criam fundações com seus nomes para descarregar impostos que não querem pagar, são considerados benfeitores nas suas cidades, mas – muito além dos antigos comerciantes – são grandes tubarões, predadores do dinheiro público.
Como têm grande influência nos meios de comunicação, no parlamento e até no judiciário, em vez de condenados, são muitas vezes condecorados e transformados em exemplos de bons cidadãos.
Embora se conheçam os nomes de muitos deles, apontá-los é sempre um risco porque em torno deles existe uma grande rede de proteção e para defendê-los está sempre a postos um exército bem pago de advogados, publicitários e jornalistas.
Quando morrem, depois de uma longa e bem gozada vida, diferente em benesses do que a da maioria das pessoas comuns, viram nomes de rua e até de escolas e se transformam em exemplos para as próximas gerações.
Mas, como grandes predadores, eles acabam sempre deixando rastros que se tornam visíveis para quem estiver interessado em descobrir.
Segundo o Sindicato dos Técnicos Tributários da Receita estadual, que investiga estes rastros, a sonegação do ICMS no Estado já chegou a 4 bilhões e meio de reais apenas nos oito primeiros meses do ano.
Para que a população possa acompanhar como está sendo lesada, um painel chamado “sonegômetro” foi instalado no Largo Glênio Peres, em Porto Alegre, com a computação do dinheiro que o Estado deixa de arrecadar e que poderia ser usado para aumentar a segurança nas ruas e pagar melhor os professores.
No Brasil, segundo o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda, a sonegação já chegou a este ano a 340 bilhões de reais e a tendência é que chega 500 bilhões até o fim do ano.
E quem sonega são sempre os grandes empresários e não mais aquele dono boteco do bairro.
Os alienados que saem as ruas, batendo panelas e protestando contra a corrupção de alguns poucos, esquecem de conferir os números que poderiam orientar melhor sua indignação.
Um deles, de uma fonte insuspeita, o Departamento de Competitividade e Tecnologia da FIESP, diz que o custo médio da corrupção no Brasil, em valores de 2013, foi de 67 bilhões de reais.
É só comparar e ver quem faz mais mal ao Brasil.
Corrupção: 67 bilhões de reais
Sonegação: 500 bilhões de reais
Enquanto isso, Temer e seu Ministro da Fazenda pretendem fechar as contas da União arrochando salários e aumentando a idade das aposentadorias.

Faz sentido, já que um dos objetivos do golpe que levou Temer ao Palácio do Planalto é impedir de vez qualquer ideia que ponha em risco os ganhos dos nossos grandes tubarões.

Brecht e a violência em Porto Alegre

A violência nas ruas de Porto Alegre assusta as pessoas e as vezes até perturba seus julgamentos sobre suas causas e consequências.
Uma amiga, que sempre foi inteligente e educada, preocupada com esta violência, compartilhou em sua página no facebook, um pôster em que se diz que Porto Alegre está de luto pela violência e fez um comentário que me pareceu inadequado. Pediu que o Governador e o Prefeito peçam a intervenção do exército na cidade.
Lembrei a ela que a última vez que o exército interviu na vida do País ficou vinte anos comandando uma ditadura impiedosa que torturou e matou por razões políticas e que nem de longe evitou que os crimes comuns diminuíssem.
É lógico que ela não estava pregando a volta da ditadura, apenas defendendo a presença de militares ajudando a polícia no combate ao crime.
Todos sabem que os militares são preparados para a guerra e não para o combate a delinquentes. O uso de táticas militares nas grandes cidades iria acabar as transformando em novas Bagdá ou Damasco, com confrontos de proporções cada vez maiores.
Como ela me cobrou então uma solução, disse que ela se engajasse na campanha que pede Fora Temer.
-Que absurdo, respondeu, o Temer está na Presidência (aliás, usurpada, digo eu) há apenas três meses e a violência é bem mais antiga.
Vou tentar explicar então o que diz dizer ao repetir o bordão de Fora Temer.
O golpe parlamentar e jurídico que levou Temer à Presidência faz parte da longa tradição da elite brasileira de sufocar qualquer movimento destinado a recuperar a dignidade de vida de milhões de brasileiros, há séculos marginalizados da vida pública por um sistema concentrador de renda nas mãos de poucos.
A tentativa de uma reforma, ainda que tímida, dos governos de Lula e Dilma, seria o início de um longo caminho para melhorar as condições de vida do povo e evitar a violência que, na sua essência é fruto da pobreza.
Quando uma pessoa diz que não se interessa pela política (ou seja, não se assume nem a favor, nem contra do bordão Fora Temer) está ajudando a manter a atual situação social do Brasil que gera toda essa violência que ela depois condena.
Nessas horas é sempre bom lembrar o que disse Bertold Brecht sobre essas pessoas.
Foi o que fiz, correndo o risco de que minha amiga ficasse ofendida por ser chamada de ignorante política, mas foi o grande dramaturgo alemão que disse.
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.
Foi Bertold Brecht que disse isso. Eu apenas repeti.

Gorbatchov, o que sabemos dele?

Entro na livraria e pergunto ao atendente se ele tem alguma coisa sobre Gorbatchov.
-É um escritor russo?
Menos mal, o cara pensou num russo, embora tenha errado a atividade do personagem.
Uma vez, perguntei, em outra livraria, sobre Graciliano Ramos.
Como atendente fez uma cara de que eu poderia estar falando grego, resolvi ajudar
– É o autor de Vidas Secas.
Seu rosto se iluminou, então
– A estante de livros de autoajuda fica lá no fundo.
Na faculdade de comunicação da PUCRS, onde fui professor muitos anos, falava que na década de 50, quando a população do Brasil não era nem a metade do que é hoje, a revista O Cruzeiro tirou uma edição de 500 mil exemplares na cobertura da morte de Francisco Alves.
– Quem?
Perguntou um aluno lá do fundo da sala
– Francisco Alves, o Rei da Voz, o grande cantor brasileiro da época.
Ele disse que nunca tinha ouvido falar.
Expliquei que era a década de 1950 no Brasil, antes do advento da televisão, e que sua voz chegava ao País inteiro pelas ondas da Rádio Nacional.
O aluno sorriu e me respondeu com desdém:
– Como é que o senhor quer que eu saiba sobre um personagem que viveu em 1950?
Para não perder a viagem, retruquei
– E Jesus Cristo, você já ouviu falar?
– Claro, respondeu ele meio espantado com a comparação.
– Pois é, Jesus Cristo é um personagem que nem existe certeza que tenha existido mesmo e se se fosse verdadeira sua existência, viveu bem longe do Brasil há quase 2 mil anos.
Certamente não era a melhor comparação que um professor de escola marista poderia fazer, mas como os tempos eram outros, passei incólume por isso.
Agora, voltando ao presente.
Estava, quando entrei na livraria, atrás de uma biografia que explicasse como foi possível que esse personagem – Mikhail Gorbatchov – pudesse em tão pouco tempo liquidar com a primeira tentativa de construção de uma sociedade socialista no mundo, a União Soviética.
Certamente um assunto que interessa a poucos hoje.
Um deles, o escritor italiano Luciano Canfora não faz por menos ao dizer que Gorbatchov tramou diretamente com o Cardeal Vojtyla, o Papa João Paulo II, a saída da Polónia da área de influência soviética, primeiro passo para o esboroamento do mundo socialista do Leste europeu.
Acabei levando da livraria o livro O Último Império, do professor de História da Ucrânia, da Universidade de Harvard, Serhii Plokhy.
O início do livro não é muito animador por causa do anticomunismo explicito do escritor. Em todo o caso, alguns indícios nas primeiras páginas, mostram até que ponto, o espírito dos fundadores da União Soviética de dedicação à criação de uma sociedade socialista foi se pervertendo, na medida em que uma pequena parcela de líderes começou a usufruir de vantagens inatingíveis para a maioria da população.
Só um exemplo: a casa de verão de Gorbatchov no mar Negro era uma mansão imensa, construída sobre uma grande rocha, com uma esteira rolante destinada a levar os hóspedes até a beira do mar.
Plokhy concentra os primeiros capítulos da sua narração nos esforços do Presidente Bush, pai, em tentar salvar o mandato de Gorbatchov na União Soviética, visto como um reformador moderado, em oposição aos aventureiros como Bóris iéltzin, a direita e a linha dura do Partido Comunista, à esquerda.
Mais tarde voltarei ao livro.

Quem sabe exista mais alguém interessado no homem que lançou duas palavras que foram moda em certa época: perestroika e glasnot.

Caí por causa do Camus

Existem quedas simbólicas e quedas físicas. As primeiras podem dar origem tratados de filosofia. As segundas, apenas provocam dores. Albert Camus, o escritor nascido na Argélia, mas francês pela apropriação que fez da cultura e dos valores europeus, escreveu em 1956 um livro de aproximadamente 80 páginas, chamado A Queda (La Chute), até hoje citado, ao lado de Sartre, como um dos grandes nomes do existencialismo moderno.
Para Camus, de certa forma a queda de todos os valores e expectativas do ser humano no futuro era a única forma de liberdade. 
O homem para ele seria um estrangeiro (por sinal nome de outro livro seu) no mundo, solitário, destituído de qualquer moral, sem qualquer verdade.
Talvez eu estivesse pensando em Camus, quando me pus a realizar meu obrigatório exercício matinal, que terminaria também numa queda.Simbolicamente, no seu livro, a queda do personagem, o juiz Jean-Baptiste Clamence, significa a busca da liberdade.
Se foi isso, talvez ele possa ser o culpado do que me aconteceu.
A quinta-feira, dia 18 de agosto, amanheceu ensolarada em Gramado e sem nenhuma nuvem no céu. Uns 15 graus ao sol. É o que as pessoas de pouca imaginação chamariam de um dia glorioso.
 Eu, pessoalmente, prefiro aqueles dias de céu púmbleo e uma chuvinha fina. Deve ser porque eu sou do contra. Talvez seja mesmo.
Com o tal dia glorioso não havia justificativa para não cumprir meu castigo diário: caminhar a passos rápidos durante 30 minutos, receita para impedir um presumível enfarte e oxigenar o cérebro. Dizem que caminhar ou correr têm essas virtudes. Sei que há divergências, mas tenho seguido a receita religiosamente e o termo cai bem para um ateu.
O local do sacrifício é o Lago Joaquina Rita Bier, em frente ao meu apartamento, escolhido porque a monotonia da passagem impede que o caminhante seja distraído por algo mais interessante.
Mal dei meus primeiros passos rápidos, quando prendo o pé numa saliência da pista e lá vou eu direto para o chão. Não uma daquelas quedas em que você ainda tenta se equilibrar. Não.
Caí duro no chão. Só houve tempo para com as palmas das mãos abertas, impedir dar de cara na laje.
Tento me levantar rápido para passar despercebido dos demais habitués do parque, mas não consigo evitar que duas pessoas me ofereçam ajuda.
 Pior do que o tombo é a vergonha dos outros. Faço um sinal com as mãos de que está tudo bem e tento sair na direção oposta em que vinha. As duas pessoas continuam me chamando.
Volto, já meio irritado com tanta solidariedade, e então percebo que elas agitam uma chave. Na queda havia deixado cair no chão as chaves do apartamento.
Agradeço constrangido e decido então que mesmo com as mãos e os joelhos ralados devo cumprir minha missão: 30 minutos caminhando a passos largos no lago para não morrer de enfarte e continuar com a mente mais ou menos lúcida.
Não morrerei de enfarte, mas talvez de uma queda no lago Joaquina Rita Bier.
Na próxima vez não vou pensar no Albert Camus.

Como encontrar um democrata no Brasil, em vez de um pokemon no parque

Na religião existe um mandamento de que não se deve tomar o nome de Deus em vão.

Na política devia existir também um preceito de que não devia se usar de forma abusiva a palavra democracia.

Os gregos, que inventaram o termo, explicaram que significava o governo do povo, mas só que o conceito de povo para eles era muito restrito. Mulheres, menores e escravos ficavam de fora.

Era, portanto, uma democracia para poucos.

Hoje, todos parecem ser a favor dela, embora cada um a enxergue de um modo particular.

O único político de renome nos últimos 100 anos que a detestava e dizia que ela era uma criação do ocidente decadente, foi Adolfo Hitler e todos sabem como ele acabou.

Stalin também não tinha muitas simpatias por ela, embora dissesse respeitar a democracia interna do Partido Comunista. A história mostrou que não era bem assim, o que não significa que ele também nas se considerasse, como os gregos, que estava praticando a democracia.

Truman mandou jogar duas bombas atômicas no Japão quando a guerra estava praticamente terminada, dizendo que o fazia em nome da democracia.

Os japoneses, possivelmente, divergiam desse pensamento.

Bush, pai e filho massacraram o povo do Iraque dizendo defender a democracia.

 Winston Churchill era um defensor fervoroso da democracia e até escreveu livros falando bem dela mas em seu nome justificou a política colonialista inglesa na África e na Ásia e nunca perguntou para asiáticos e africanos se era isso que eles queriam.

Churchill fez sobre a democracia uma frase que políticos do mundo inteiro a repetem até hoje como papagaios: “ A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”

Claro que Churchill pensava na sua Inglaterra, onde depois de Cromwell, os ingleses podem democraticamente decidir se querem ser governados por trabalhistas ou conservadores, assim como os americanos podem escolher entre republicanos e democratas, o que na prática deixa tudo sempre igual.

Getúlio Vargas, quando assumiu o poder como líder da Revolução de 30, chamava os representantes da “democracia do café com leite”, de carcomidos.

Quando brasileiros, argentinos e uruguaios se uniram para formar a Tríplice Aliança e praticamente destruir o Paraguai, disseram que era para acabar com a ditadura de Solano Lopes.

Perguntem ao professor Mário Maestri se há um pingo de verdade nessa história.

Os estados do leste europeu, que se libertaram da dominação nazistas se intitulavam democracias populares”.

Os generais que deram o golpe em 64 diziam estar agindo contra os comunistas que queriam acabar com a democracia. Deu no que deu: um fechamento nos direitos políticos como o Brasil ainda não tinha vivido.

Nas masmorras em que torturavam e matavam, diziam estar eliminando os adversários da democracia.

Hoje se fala em democracia social em oposição a democracia representativa, que seria dominada pelo poder econômico e por isso excluiria os mais pobres.

As esquerdas falam em radicalização da democracia.

Os golpistas de hoje, que tiraram do poder uma Presidente legitimamente eleita, juram que são democratas.

Cá entre nós, olhando para as caras do Temer, do Padilha, do Eduardo Cunha, do Renan Calheiros e outros que hoje se dizem donos do poder, o que podemos pensar deles como novos guardiões da democracia brasileira?

Cesare Lombroso, com a sua antropologia criminal e Franz Joseph Gall , com a  frenologia, diziam ser capazes de identificar o caráter das pessoas pelo estudo do seu cérebro.

Nos meus tempos de redator de notícias da TV Piratini, havia uma versão mais popular das teses de Lombroso e Gall por parte do Lauro Schirmer, chefe do departamento.

Se referindo a um apresentador de notícias, ele dizia que o sujeito tinha a burrice estampada na face.

O que então Temer e seus companheiros têm estampadas em suas faces?

Boa coisa, certamente não é.

E a Dilma?

Eu acho que ela tem estampada a imagem de uma mulher honesta e séria. Talvez não muito inteligente, mas honesta e séria, sim.

E o Lula?

O Ciro Gomes disse que ele era honesto, mas sua moral um pouco frouxa.

A Graça Craidy, que conheci como excelente redatora de publicidade e que agora se diz pintora, atividade sobre a qual não tenho como avaliar sua qualidade, fez uma exposição com quadros onde afirma retratar a corrupção em Brasília.

Um dos quadros (o que vi) mostra uma figura que só pode ser o Lula, misturada com aves de rapina. Será que a Graça escolheu, o Lula como representante de todo um processo de rapina (vou aproveitar sua imagem) que o Brasil vive há 500 anos?

Seria isso então a essência da democracia? Poder dizer o que se quer, sem qualquer compromisso com a história?  Sermos seletivos em nossa indignação, como a Graça parece ter sido?

Precisamos urgentemente chegar a um acordo para estabelecer as regras de como definir um democrata no Brasil, tarefa talvez mais importante que procurar Pokemons nos parques da cidade.

Como sugestão, proponho o primeiro artigo:

Só pode ser dizer democrata, a pessoa que comprove ter lido mais de um livro de História (com agá maiúsculo) do Brasil e que se disponha a debater o que aprendeu com outros leitores.

O Brasil, de Havelange a Elke Maravilha

Coincidentemente morreram no mesmo dia, na mesma cidade, duas pessoas que representaram, enquanto vivas; duas maneiras diametralmente opostas de ser brasileiras.
João Havelange, que morreu aos 100 anos, vítima de uma infecção generalizada, representava a elite branca que há 500 anos comanda a vida do Brasil.
Elke Maravilha, que morreu aos 71 anos, após uma cirurgia para tratar de uma úlcera, era diabética e representava o lado debochado e irreverente do sofrido povo brasileiro.
A rigor, nem um dos dois era realmente brasileiro de pai e mãe.
Jean-Marie Goedefroid de Havelange, João Havelange, nasceu por acaso no Brasil. Seu pai era um belga, comerciante de armas, que estabeleceu no Rio de Janeiro uma base para venda de armamentos para as ditaduras sul-americanas.
Elke Georgievna Grunnupp, mais conhecida como Elke Maravilha, de origem alemã, nasceu na antiga Leningrado, hoje São Petersburgo, na Rússia e veio ainda criança para o Brasil.
Havelange se destacou como atleta, tendo participado dos Jogos Olímpicos de 1926, na Antuérpia, como nadador e de 1952, em Helsinki, como jogador de polo aquático.
Elke Maravilha foi modelo e se tornou conhecida no Brasil inteiro como jurada nos programas de calouros do Chacrinha e Sílvio Santos.
Havelange era um homem flegmático, quase um racista, na medida em que sempre mostrou desprezo pelo futebol, o esporte dos pretos e mulatos, quando era nadador do Fluminense. Ele gostava de água limpa para nadar, mineral para beber, queijo fresco, nada de álcool.
Elke Maravilhaconfessou que já havia usado drogas, mas o que realmente gostava era de cachaça.  
“Experimentei crack três vezes, mas na minha geração usávamos drogas para autoconhecimento e hoje é para fuga. Minha única droga é a cachaça”,
Num programa de televisão relembrou seus antigos relacionamentos. “Tive oito casamentos e o mais curto durou dois meses, porque ele era psicopata. Eu acordava de madrugada e ele estava no sofá, vestido de Elke, com uma faca na mão”, contou ela, que falou ainda que morou dentro de um carro por um ano na Alemanha com o primeiro marido.
No seu currículo está escrito que morou em Porto Alegre entre 1966 e 1969, quando cursou algumas cadeiras da Faculdade de Filosofia da UFRGS.
Havelange, nunca foi preso, mas toda a sua carreira como empresário da área de transportes e presidente de entidades esportivas, foi manchada por uma série de denúncias sobre suas práticas de corrupção.
Elke Maravilha foi presa uma vez, por um motivo que só honra sua biografia. Ela, que se considerava anarquista, enfrentou a tortura da ditadura e chegou a ficar presa por seis dias após se indignar, em 1972, contra um cartaz de procurados políticos que viu no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Nele, estava a foto de Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, para quem já desfilara como modelo.  Elke, que tirou o cartaz da parede e o rasgou, foi acusada de prejudicar as investigações e teve sua cidadania brasileira cassada pelo governo militar.
Havelange, de escândalo em escândalo, se transformou de dono da Empresa de Ônibus Cometa, no mais poderoso dirigente do futebol, primeiro do Brasil, como presidente da CBF e depois da FIFA, durante 24 anos, de 1974 a 1998, tudo isso sem abandonar o negócio de venda de armas, agora para o continente africano.
Com o apoio dos militares durante a ditadura, que viam no futebol uma forma de promover o país, se locupletou com algumas das maiores negociatas, principalmente depois que se tornou um dos sócios da ISL – International Sports Leisure, entidade que, segundo se diz, distribuiu mais de 150 milhões de dólares em propinas, subornando dirigentes esportivos do mundo inteiro.
Elke Maravilha ganhou a vida como bancária, modelo de moda, artista da televisão e cinema e também como tradutora, já que falava várias línguas.
Havelange, que ao morrer, ainda era membro vitalício do Comitê Olímpico Internacional, certamente será homenageado com honras de grande estadista, como sempre se dizia sentir, enquanto Elke Maravilha deverá ter um enterro discreto e pouco espaço na mídia.

Nós e os chineses

Por que somos socialistas?
Primeiro, porque somos profundamente solidários com todas as pessoas, independentemente de sexo, raça e cor, que sejam discriminadas social e economicamente.
Segundo, porque abominamos qualquer tipo de opressão, seja ela política ou econômica.
Terceiro, porque acreditamos que é preciso gerar um desenvolvimento econômico que respeite a natureza e divida suas benesses entre todos e não apenas entre um grupo de privilegiados.
A síntese dessas posições nos leva a lutar por um sistema político que atribua a todas às pessoas oportunidades iguais de desenvolvimento pessoal e que as diferenças entre cada uma delas, que sempre existirão, sejam devidas apenas as suas capacidades físicas e intelectuais.
Atualmente, não existem outras formas de organização da sociedade a não ser o modelo capitalista, sob o qual vive a maior parte da humanidade e o socialismo, ainda hoje uma meta a ser alcançada.
Como disse Rosa Luxemburgo há 100 anos, ou caminhamos para o socialismo ou para a barbárie capitalista.
Ser um socialista é uma construção pessoal. Você pode ser contra as injustiças sociais e a favor da igualdade de oportunidades para todos, sem ser um socialista.
Para isso, você precisa se armar de uma estrutura ideológica que possa lhe dar uma explicação racional, que o ajude a entender porque vivemos sob um sistema capitalista e porque ele precisa ser substituído por outro, mais humano e solidário, mas fundamentalmente, mais eficiente economicamente.
Poderíamos até retomar o mito do bom selvagem de Rousseau e admitirmos que nascemos, intrinsicamente bons, mas que fomos pervertidos pela sociedade capitalista.
A volta ao bom caminho – a senda do socialismo – seria então fruto do esforço pessoal de cada um em identificar as fontes da perversão e substitui-las por modelos mais humanos.
No meu caso, e é apenas um exemplo, foi a leitura de um romance – Les Thibault, de Roger Martin du Gard – que, ao narrar a saga do pacifista Jacques Thibault, às vésperas da primeira guerra, mostrou a existência de um novo caminho.
Os textos de Marx, Lenin, Trotsky, Plenakanov, Caio Padro Júnior, Nelson Werneck Sodré e Jacob Gorender, entre outros, apenas organizaram esse processo, dando a ele os argumentos racionais necessários para se justificar.
Toda essa declaração de princípios está sendo feita em resposta a um excelente artigo de Tarso Genro no site Sul 21 a propósito de socialismo, diferenças entre esquerda e esquerdismo e ajuste econômico.
Diz Tarso, refutando o título de esquerdismo que o jornal Zero Hora atribuiu a uma tentativa de reagrupamento das forças de esquerda do País, face ao movimento golpista de direita que está se apropriando do mandato da Presidente Dilma, que a palavra foi exorcizada por Lenin quando lhe atribuiu a pecha de ser uma doença infantil do socialismo.
O que existe são várias tendências de esquerda no País que devem ser agrupar contra o inimigo comum, até porque a esquerda é sempre plural, ao contrário da direita que é singular, autoritária e dogmática.
Basicamente, o que pretenderia esse movimento?
Numa resposta simples, construir um modelo de desenvolvimento democrático que assegure iguais oportunidades para todos, liberdade para o crescimento pessoal de cada um e uma estrutura material do País que permita esses avanços.
Embora Tarso não tenha sido explicito no caso, certamente estaria pensando na construção de uma sociedade socialista. Não numa sociedade socialista já, mas na construção dela.
Em 1917, logo depois da Revolução Soviética, Lenin não falou também em socialismo já, mas na sua construção. Lenin, como um profundo conhecedor do seu povo, dizia sempre que isso seria um processo longo e que seria preciso investir muito na educação das pessoas. Ao contrário do que muitos podem pensar, Lenin não era um autoritário e sempre desconsiderou o caminho da imposição de qualquer tipo de ideia, defendendo a opção do convencimento pelo uso da razão e dos bons exemplos.
Mas, mesmo Lenin em 1921, quando as consequências da guerra civil e as invasões estrangeiras pareciam estar prestes a destruir a revolução, optou por um regime econômico – o NEP – Nova Política Econômica, substituindo o comunismo de guerra por um sistema que estimulava o desenvolvimento de iniciativas capitalistas em alguns segmentos da economia.
Seria um passo atrás para dar dois à frente, quando as pessoas estivessem convencidas que o sistema de planejamento econômico governamental era mais eficiente que o privado. Infelizmente Lenin não viveu para completar sua obra e seu sucessor Stalin, optou em 1928 pela imposição ditatorial do desenvolvimento a qualquer custo e no caso soviético foi ao custo de milhares de vidas humanas perdidas.
No seu artigo, Tarso lembra que Deng Xiaoping, quando disputou a liderança do Partido Comunista Chinês, convenceu seus pares que plano e mercado são apenas instrumentos e não distinções fundamentais entre socialismo e capitalismo, retomando algumas ideias dos mencheviques russos e hoje comanda um país com os mais altos índices de crescimento do mundo, fazendo sair da pobreza mais de 500 milhões de chineses.
Essa ideia de incorporar as noções de mercado ao planejamento socialista, há algum tempo vem sendo discutida pelos defensores de um novo modelo econômico, mas o modelo chinês parece não ser o melhor exemplo a ser seguido.
De uma forma bem evidente, ele preserva a velha divisão de classe, separando ricos e pobres. E não são apenas alguns mais ricos que outros, o que parece ser uma condição humana em todo o tipo de organização social, mas sim alguns extraordinariamente ricos e outros ainda muito pobres, como mostra, por exemplo, os investimentos de alguns de seus milionários, comprando times de futebol, como já fazem os xeiques árabes e os reis do petróleo da Rússia.
Além disso, uma sociedade desse tipo, ainda que seja capaz de assegurar o crescimento econômico que beneficia, mesmo que de forma desigual, a maioria da população, só pode ser mantida por um sistema político autoritário e pouco democrático.
Seria esse o modelo de ajuste econômico que as esquerdas, se um dia tiverem novamente o poder de decidir alguma coisa no Brasil, proporiam?
Será possível compatibilizar desenvolvimento acelerado com democracia, seguindo a receita chinesa?
Esta é realmente, no meu modo de ver, uma proposta que dificilmente poderia ser chamada de socialista, mas como disse Tarso no seu artigo, a riqueza da esquerda é representada pelas suas múltiplas visões da realidade e uma delas talvez pudesse se basear na experiência chinesa.