Direto do Paraiso

Minhas fontes no Paraíso disseram essa semana que o Big Boss não está nenhum um pouco satisfeito com as pessoas em geral e especificamente com os brasileiros.

O Leonel, um dos meus informantes mais confiáveis, usou até um termo chulo para caracterizar o ânimo dele: o Big Boss está de saco cheio.

Outro informante, talvez o mais antigo deles, o Getúlio, falou que o Big Boss parece ter retrocedido àquela época em que ameaçava todo mundo com raios e trovões.

Segundo ele me confidenciou, o  Chefão voltou a falar em dilúvio e em Sodoma e Gomorra, temas que pareciam esquecidos no Paraíso.

Uma das causas de irritação dele é o comportamento do seu Representante Maior, o Bergóglio.

O Chefão viu num telejornal, ele fazendo um jogo de cena com o pessoal que foi cumprimentá-lo, tirando a mão na hora em que queriam beijar seu anel.

Ele fica bancando o populista para angariar simpatias na esquerda e o Chefão não gostou

-Ele fica dizendo que é o anel do Pedro, mas sabe que é um anel de fantasia que o Pedro jura que nunca usou. Tá certo que não dá pra acreditar nas juras do Pedro, principalmente naquele episódio que jurou três vezes não conhecer meu filho. Bom, mas isso é outra história.

O Chefão já pensou mais de uma vez em chamar o argentino para consultas, como fez aquele vez com o Luciani.

Faz tempo,essa história.

Em 1976, o Condomínio se reuniu para escolher o novo Representante Maior e o Chefão mandou avisar que podiam escolher qualquer um, menos o Luciani, que era meio louco.

Mas foi logo esse que escolheram. A primeira coisa que ele quis fazer foi dividir o caixa da empresa com os pobres. O pessoal não sabia o que fazer e mais uma vez apelou para o Big Boss, que não teve outra coisa a fazer senão chamar o Luciani para consultas. Ficou chato para a empresa, ter o seu líder governando por apenas 33 dias.

O Big Boss gostava mesmo era do Pacelli, um cara da extrema direita e anti semita.  Karol,o Polaco, já não era tão apreciado, apesar do Chefão não esquecer que foi graças a ele, que os sócios americanos puderam afastar os russos de qualquer jogada importante nos seus negócios.

Agora, quanto os brasileiros, usando  outro termo chulo , segundo o Leonel ,ele está muito puto da cara.

O Chefão fez um grande esforço para afastar o Lula e a Dilma, de quem todo o mundo gostava, para tentar fazer com que o Brasil retornasse àquela época da escravidão, quando na falta de uma outra opção, o Big Boss,era visto como a única esperança, mas agora o tal Bolsonaro está estragando tudo.

Meus informantes são unânimes em comentar, que o Chefão,  ou Big Boss como ele prefere ser chamado, já deixou claro que mais uma cagada do Bolsonaro, ele vai chamar o Mourão.

Quando o José, sempre conciliador, lembrou que trazer de volta aquela turma de 64, era castigo demais para os brasileiros, ele levantou a voz e falou – em inglês que é mais adequado para a ocasião – fuck all brazilians.

O fim de um sonho

 

 

Não faz tanto tempo assim.

No ano de 2001, cerca de 20 mil pessoas se reuniram em Porto Alegre para participar do Primeiro Fórum Social Mundial sob o lema de que Outro Mundo é  Possível.

Realmente era possível ou isso foi mais uma prova da nossa ingenuidade política?

Naquele ano – 2001 – Tarso Genro  era o segundo prefeito petista de Porto Alegre e Lula, candidato a Presidente e o favorito para as eleições do ano seguinte..

Lula foi criticado por não ter vindo ao evento de Porto Alegre, mas ter ido depois a  Davos, na Suíça, onde os ricos se reuniam para discutir como continuar governando o mundo.

Seria já um sinal das muitas concessões que ele faria em seu governo?

Na terceira edição, em 2003, Lula viria a Porto Alegre, para explicar sua ausência do primeiro e prometer, numa grande concentração popular no  anfiteatro Por do Sol , que como presidente tudo faria para tornar esse novo mundo possível.

Verdade que fez muito, mas deixou também de fazer muitas outras coisas que prometeu.

Do mesmo jeito como murcharam aquelas flores plantadas em 2001, o Fórum foi perdendo força.

Com o passar dos anos, esse evento iria definhando, na esteira da retomada, no mundo inteiro, dos governos por forças neo-liberais, quando não ostensivamente de direita, como no caso dos Estados Unidos e mais recentemente do Brasil.

Prova disso é que o Fórum, depois de reunir na sua edição de 2009 – quando  o Brasil pretendia se incluir entre as seis maiores potências econômicas do mundo –  cerca de 120 mil pessoas em Belém do Pará,  passou a definhar e praticamente desapareceu.

No ano passado, em Salvador, mesmo com a presença de Lula, já próximo de ser preso, teve pouca repercussão e esse ano, em Poro Alegre, passou praticamente despercebido.

Na Assembléia Legislativa, poucas pessoas, no final do último mês de janeiro, foram ouvir alguns discursos de representantes dos poderes mais afrontosamente contrários aos ideais dos lançadores do fórum.

O discurso oficial no evento, totalmente ignorado pela mídia, foi proferido pela Secretária de Desenvolvimento Social e Esportes da Prefeitura de Porto Alegre, a auto denominada Comandante Nádia

Independentemente do que ela possa ter dito, o que ficou foi a imagem da derrota dos melhores sonhos humanitários  dos brasileiros e uma prova de que Geraldo Vandré tinha razão , em sua música Caminhando, quando duvidava de que as “flores podem vencer os canhões”.

E se quisermos lembrar outras letras de músicas populares brasileiras para retratar a nossa desdita atual, nada melhor do que ouvir Belchior prever, na voz  de Elis Regina , há alguns anos , em 1976, o que seria hoje o país dos bolsonaros, dos moros, da imprensa vendida, das milícias assassinas, do Lula preso e das esperanças perdidas : “Por isso cuidado meu bem/ Há perigo na esquina / Eles venceram e o sinal  Está fechado pra nós.”

Pelo jeito com que as coisas andam, esse sinal vai ficar fechado para nós e esse novo mundo que sonhamos um dia,terá sua chegada adiada por muito tempo.

Mas não percamos a esperança, um dia ele chegara, como nos assegurou Carlos Drummond de Andrade no seu poema A Cidade Prevista.

Irmãos,cantai esse mundo que não verei, mas virá um dia, dentro em mil anos, talvez mais… não tenho pressa. Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, sem leis e regulamentos, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quartéis, sem dor, sem febre, sem ouro, um jeito só de viver, mas nesse jeito a variedade, a multiplicidade toda que há dentro de cada um. Uma cidade sem portas, de casas sem armadilha, um país de riso e glória como nunca houve nenhum. Este país não é meu nem vosso ainda, poetas. Mas ele será um dia o país de todo homem.

Testemunha ocular da História

Durante alguns anos, na TV Piratini e na Rádio Farroupilha, fui o redator exclusivo do Repórter Esso. Nada de que possa me ufanar, mas enfim, era um trabalho como qualquer outro e embora houvesse um manual que deveria ser seguido na elaboração das notícias, eu tratava de infiltrar algumas notícias que, em alguns momentos, poderiam ser consideradas subversivas.

Mas não é sobre essa minha pequena contribuição para a causa socialista que quero me referir, mas sim a algo mais prosaico, o slogan do noticiário. O Repórter Esso era a “Testemunha Ocular da História”. Algo bastante pretensioso porque ele não estava presente em todos os lugares onde a História se desenvolvia e quando estava, tinha um olhar parcial, o olhar norte-americano sobre o mundo.

Relembrando o Repórter Esso, comecei a pensar que eu poderia ser hoje uma testemunha ocular da história política do Brasil a partir de 1950. O que ficou para trás, fiquei sabendo pelas minhas leituras, mas desde o último governo de Getúlio Vargas, posso dizer que acompanho o mais perto possível, o que acontece na vida política do Brasil

Em Vargas e Juscelino, não pude votar porque ainda não tinha a idade mínima, mas depois sempre fiz minhas escolhas.  Perdi com o Marechal Lott contra Jânio Quadros.  Perdi algumas vezes com o Brizola e o Lula, mas ganhei depois com o Lula e a Dilma.

Mesmo com as derrotas, sempre existia a expectativa que, logo ali adiante, haveria uma chance de vitória.

Esse ano, com a chegada do Bolsonaro e sua gang ao poder, ficou a sensação de que aquela tese furada, no mundo inteiro, do Fukuyama  do “fim da História”, poderia se tornar uma realidade no Brasil.

Já tivemos presidentes nacionalistas como Getúlio, desenvolvimentistas, como JK; ensandecidos como Jânio; confusos como Jango; aventureiros, como o Collor, provincianos como o Itamar, perigosamente neo-liberais como FHC, reformistas como Lula e Dilma, inodoros como o Temer e até aqueles patéticos generais que queriam comandar o Brasil como se estivessem na caserna, mas nunca tínhamos passado por um governo, tão  anti-republicano como esse atual.

Mais do que um governo de idiotas, estúpidos e mal informados, temos no comando de um País, que já pensou em ser a sexta economia do mundo, um anti governo, onde se faz uma anti-política comandada por anti-seres humanos.

É uma hora, em como disse um amigo, a esperança de mudança parece desaparecer e para não enlouquecer precisamos nos socorrer das artes ou da esbórnia.

Pensava nisso, quando imaginei  existir um outro caminho. E se a ciência nos ajudasse a criar brasileiros melhores para nos governar? Quem me deu alguma esperança nesse sentido, foi a leitura do livro do falecido Stephen Hawking – Breves Respostas Para Grandes Questões.

Claro que ele não se refere em nenhum momento ao Brasil, mas a humanidade em geral. Diz ele: “Não há tempo para esperar que a evolução darwiniana nos deixe mais inteligentes e melhore nossa índole. Mas estamos entrando em uma nova fase que pode ser chamada de evolução auto projetada, em que seremos capazes de mudar e melhorar nosso DNA. Hoje já temos o genoma humano todo mapeado, ou seja, lemos “o livro da vida”, de modo que agora podemos começar a fazer correções. No início essas mudanças se restringirão a consertar defeitos genéticos, como fibrosa cística e distrofia muscular, que são controladas por genes isolados e portanto, razoavelmente fáceis de identificar e corrigir. Outras qualidades,como inteligência, são provavelmente controladas por um grande número de genes e será bem mais difícil encontrá-los e descobrir as relações entre eles. Não obstante, tenho certeza de que as pessoas descobrirão no próximo século como modificar tanto a inteligência quanto os instintos agressivos,por exemplo.”

Senão nossos filhos, provavelmente nossos netos viverão esses novos tempos. Nesse novo mundo, não haverá espaço para Trumps e Bolsonaros. A dúvida é o que acontecerá para a maioria das pessoas.

Será melhor ou pior que hoje?

Para Hawking “quando o super-humano surgir, haverá problemas políticos graves com os humanos não aprimorados, que serão incapazes de competir. Presumivelmente, acabarão morrendo ou se tornando irrelevantes. No lugar estará uma raça de seres auto  projetados se aperfeiçoando a uma taxa cada vez mais acelerada.”

Vamos aguardar, então, enquanto damos um jeito de viver num País governado por um dos representantes mais abjetos da escória humana.

Os livros do Lula

O que seria de nós sem uma boa briga por idéias, vez que outra? É ela que testa se nossos argumentos ainda são válidos, nos obriga a atualização permanente sobre o que se escreve,  sobre o que se lê.

Claro, que essa briga deve respeitar as normas de civilidade, não se podendo mandar o querelante  naquele lugar, salvo em casos muito específicos e bem documentados.

Dito isso, estou chamando para uma briga saudável, minha amiga Iara, do facebook, que não conheço pessoalmente, mas que, pelo escreve, parece ser uma pessoa séria e bem informada, além de ser de esquerda.

Outro dia, fiz uma comparação entre o Lula e o Bolusonaro,  dizendo que o primeiro, apesar de inculto, governou respeitando a dignidade do cargo, ao contrário do segundo.

Minha amiga não gostou que lembrasse a falta de leituras do Lula, o que, diga-se de passagem,não o impediu de fazer o governo que mais favoreceu os trabalhadores (infelizmente também os empresário e banqueiros como ele mesmo reconheceu) na história recente do País, e me enviou uma lista, com o timbre do PT, relacionando os livros que o Lula teria lido no cárcere. Seriam 21 livros em menos de dois meses.

Ótimo. Só pelos livros podemos nos apropriar do saber que a humanidade foi acumulando na sua história. A outra forma – ouvir pessoalmente os sábios – é muito complicada e difícil.

Palmas então para o Lula e seu novo hábito. Só que – e aí começa mais uma briga – as escolhas não me pareceram das mais felizes, não sei se de quem enviou os livros ou do próprio Presidente.

Jessé Souza e a sua Elite do Atraso, pode ser até interessante, mas é simplificador de mais na análise da classe dirigente brasileira.  Mas vá lá, vale para começar, embora o Lula deva saber bem como funciona a tal elite, que ajudou a mandá-lo para a prisão.

Chomnsky  está na lista porque a esquerda o adora, principalmente por ser um judeu americano que é contra os governos dos Estados Unidos e de  Israel.

Thomas Piketty não poderia faltar, ainda que, depois de incensado pela mídia, já tenha sido quase esquecido.

Garcia Marques e o Amor em Tempos de Cólera, nada contra, mas o Tolstoi, podia ser melhor escolhido. Guerra e Paz em vez de Ressurreição.

Contos de Wellington Dias – imagino que seja o governador petista do Piauí – nunca ouvi falar.

Os Beneditinos, do José Trajano, é sobre futebol, o que se explica.

Tem também um livro da sempre raivosa Márcia Tiburi sobre feminismo e um surpreendente Leminski, talvez pelo fato de ser paranaense.

O que me incomoda mais, são os livros que  faltaram

Para um homem que já representou a esperança de uma esquerda socialista, ele não podia ter deixado de ler os clássicos do marxismo, começando pelo próprio Marx (se o Capital é muito difícil, quem sabe alguns textos selecionados?)  Lenin (imperdível), Trotski e Plekanof.  Não poderia esquecer os novos marxistas como  Losurdo, Meszaros, , Badiou, Brouè , Zizek (por que, não?) e mais do que todos, o brasileiro Jacob Gorender.

Quer ler um romance moderno? Leia, sem preconceitos, um americano como Philip Roth, Gore Vidal ou Norman Mailler. Quem sabe o inglês Ian McEvan? Biografias? Bastaria o Lula pedir alguma das muitas do seu amigo Fernando Morais. É hora de poesia? Carlos Drummond de Andrade.

Finalmente, uma sugestão.  Não sei quem é o conselheiro literário do Lula, mas o PT tem entre seus quadros políticos mais importantes um leitor obsessivo e atualizado, o ex-governador Tarso Genro. Quem sabe se peça para ele organizar uma lista de leituras para o Lula?

E nunca esquecendo #Lulalivre

Os traidores

Desde os tempos bíblicos, o delator sempre foi visto como uma figura abominável, porque, tendo usufruído das benesses de uma determinada situação de poder, trai aqueles que foram seus companheiros.

Judas – segundo a mitologia cristã – traiu Cristo por 30 moedas; o sucessor de Calabar no Brasil – o Palocci – por uma parte do dinheiro que roubou e Elia Kazan, trocou sua alma por uma piscina, segundo Orson Welles.

De todos esses delatores, o único que merece um registro mais longo pelo seu talento como artista, é Kazan.

Filho de gregos, nasceu em Constantinopla em 7 de setembro de 1909 e morreu em Nova York em 28 de setembro de 2009.

Tendo sido , durante um tempo,membro do Partido Comunista Americano, dirigiu alguns dos mais importantes filmes de Hollywood, muitos deles, politicamente de esquerda, caso de Vidas Amargas (East of Eden) baseado no livro de John Steinbeck.

Seus filmes, foram todos de grande qualidade: O Último Magnata, Movidos pelo Ódio, Clamor do Sexo, Baby Doll, Vidas Amargas, Viva Zapata, A Luz é para Todos e Uma Rua Chamada Desejo, entre dezenas de outros..

Quando foi chamado perante a Comissão que investigava atividades ditas anti-americanas, do senador McCarthy, no início da década de 50, ajudou a elaborar a famosa “Lista Negra de Hollywood”, que demitiu dezenas de diretores,roteiristas e atores do cinema americano (Edward Dmytryk, Dalton Trumbo, Jules Dassin, Paul Roberson, Leonard Berstein, Dashell Hammett, Lee J. Cobb, John Garfield e Zero Mostel, entre dezenas de outros).

Em 1954, talvez em agradecimento pelos serviços que prestou à Comissão, Kazan dirigiu um dos seus melhores filmes, mas também o politicamente mais reacionário de todos, Sindicato de Ladrões (On the Waterfront) com Marlon Brando e Eva Marie Saint.

Hollywood retribuiu o serviço, dando ao filme a maioria dos Oscar dos ano.

Em 1999, quando a Academia de Cinema o premiou com um Oscar honorário, seu passado de traidor não foi esquecido e alguns artistas na platéia fizeram questão de não aplaudir, como Sean Penn, Richard Dreyfuss, Rod Steiger, Nick Nolt, Ed Harris e Holly Hunter.

O Velho

Duas horas antes de começar o jogo o Maracanã já estava cheio. O Flamengo iria decidir o Campeonato Brasileiro com o Internacional e a torcida chegara cedo, certa de que o título seria conquistado naquela tarde.

Na semana anterior, o Flamengo ganhara do Inter por 1 a zero em Porto Alegre e agora jogava pelo empate. Se perdesse, pelo mesmo placar, ainda teria direito a uma prorrogação. Além disso, Antônio Carlos e Zezé, os dois melhores jogadores do Inter, expulsos em Porto Alegre, não jogariam. O Inter armara um time de emergência e os jogadores foram instruídos a jogar na defesa para evitar um vexame.

Até mesmo Valtão fora convocado para ir ao Rio. Ele não jogara nenhuma partida do Brasileirão. Há muito tempo ele era um “come-e-dorme” no clube. Nunca tinha sido um craque, mas todos os técnicos acabavam por aproveitá-lo no time, até a chegada de Nelson Dias que não lhe deu nenhuma chance no campeonato.

– O futebol é para jogadores polivalentes e o Valtão é um atacante que só joga na área e nesta função ele já não tem mais condições físicas ideais.

Valtão era chamado de O Velho pelos seus companheiros de time. Aos 35 anos, ele estava conformado com a sua breve aposentadoria como boleiro. Sua esperança era terminar o contrato com o Inter e conseguir um lugar como treinador nas divisões inferiores. O presidente lhe prometera um lugar há alguns meses atrás, mas ultimamente não queria falar mais no assunto.

Quando viu seu nome relacionado para viajar para o Rio, levou um susto.

– É só para compor o banco, Nelson Dias explicou aos jornalistas que também ficaram surpresos com a informação.

Agora, sentado no banco de reservas ele via um estádio vestido totalmente de vermelho e negro. O jogo começara há 15 minutos e só Flamengo atacava. O sufoco era enorme. Romualdo já havia chutado uma bola na trave, Preto defendera uns três chutes que os reporters atrás do gol classificaram como impossíveis e Lúcio salvara de cabeça na linha do gol.

O silêncio no túnel do Inter era total. A qualquer momento o Flamengo marcaria o seu gol. O tempo, porém, ia passando e o gol não saia. A partir dos 30 minutos, o Inter conseguiu equilibrar a partida e o primeiro tempo terminou em zero.

No intervalo, o treinador fez um discurso emocionado no vestiário. Era preciso resistir de qualquer jeito. Quando tomasse a bola, o time deveria jogar na frente para o Ernane, que partiria em velocidade pela esquerda e cruzaria para chegada de Anderson pelo meio. Esta era a única jogada prevista pelo técnico. O Flamengo vai aumentar o sufoco. Todo mundo fica marcando. Só sobra o Ernane para iniciar o contra-ataque. Quando ele pegar na bola, o Anderson se manda pra frente.

Quando o Inter subiu para o gramado, o Flamengo já estava lá. O jogo recomeçou e o Flamengo se mandou todo pra frente. Ninguém queria saber de empate entre os cariocas. Até os 10 minutos, a bola não saíra ainda do campo do Inter. Aos 12, finalmente sobrou uma bola para o Ernane. Ele se lançou rápido a frente, como queria o treinador, mas foi parado no meio-do-campo por uma falta do Baiano.

Ernane ficou rolando no campo, mas ninguém levou muito a sério. Os jogadores costumavam fazer esta encenação para jogar o juiz contra o adversário. Quando o massagista Bica, lá do meio do campo, fez o clássico sinal de troca em direção à casamata do Inter, uma sensação de desolação percorreu todo o banco. Lá se ia a única opção de ataque do Inter. Fernando entrou no lugar de Ernane com a instrução de reforçar a defesa.

– Quando der, chuta forte para o Anderson lá na frente.

Com todo o mundo na defesa, o Inter resistia. Aos 30 minutos, uma chuva fina começou a cair sobre o Maracanã. O Flamengo continuava atacando e o Inter defendendo.

Aos 38, Fabiano apanhou a bola do meio do campo e arriscou um chute em direção ao gol. A bola saiu alta e com pouca força. Cleber, o goleiro do Flamengo, estava adiantado, quase no risco da grande área e para apressar a volta da bola ao seu ataque, tentou matá-la no peito. Molhada pela chuva, ela escorregou pelo seu corpo, bateu no ombro e ganhou força suficiente para ir morrendo no fundo das redes.

O estádio emudeceu. Bastava o Inter resistir mais 7 minutos para o jogo ir para a prorrogação. Mal o Flamengo deu reinício ao jogo e Anderson estava no chão contorcendo-se em dores. Quando o carro-maca o retirou do campo, o médico foi logo avisando – “não dá mais pra ele”.

– Valtão, vai lá e ajuda a segurar o jogo.

Quando ouviu o técnico falando, achou que havia um engano. Era mesmo para entrar?

– É tu mesmo. Vamos ver se toda a tua experiência serve pra alguma coisa. Vamos catimbar tudo que der.

Número 14 às costas, Valtão entrou para ser o único atacante do time. Cinco minutos depois, tocou na bola pela primeira vez. Recebeu de costas para o zagueiro, protegeu a bola com a perna esquerda e fez uma meia-volta para a direita. Quando tentou sair, a bola já tinha desaparecido do seu controle. O zagueiro a tinha tomado e partia com ela para o ataque.

Alguns minutos mais e o jogo terminava. Os times nem saíram de campo. Treinadores, massagistas e médicos entraram para atender os jogadores estendidos pelo chão próximos à borda do gramado. Alguns recebiam massagens, outros eram abanados com grandes toalhas. Valtão, apesar de ter jogado poucos minutos, estava ofegante. O treinador parecia arrependido da escalação. Durante os 10 minutos de descanso, antes de começar a prorrogação, não lhe dirigiu nem uma vez a palavra.

O juiz chamou os jogadores para o meio-do-campo. Seriam mais 30 minutos. Se o empate persistisse, a decisão iria para os pênaltis. Isso era tudo que o Inter queria: levar os jogos para os pênaltis.

Eles não vão aguentar a pressão da torcida. O Preto é bom pegador de

pênaltis e com sorte a gente pode ganhar.

Foi a última frase do treinador antes da bola começar a rolar novamente.

O Flamengo estava todo em cima, querendo decidir logo o jogo. Aos 5 minutos, a trave já tinha salvado duas vezes o Inter. Mesmo assim, o primeiro tempo da prorrogação terminou empatado. Depois de trocarem de lado, o jogo recomeçou e o Flamengo continuou atacando.

Quando o jogo se aproximava do final, Lúcio deu um bico pra frente. No círculo central, Valtão teve dificuldades em controlar a bola no peito, mas mesmo assim conseguiu colocá-la no chão. Num primeiro momento, pensou em atrasar a bola para o Fernando, lembrando o que havia pedido o técnico

– Vamos reter o jogo tudo que der – mas em seguida se deu conta que esta era a chance de sua vida.

Entre ele e o gol do Flamengo, havia apenas um zagueiro e lá no fundo, o goleiro Cleber. O zagueiro já começara a se movimentar em sua direção e ele precisa agir rapidamente. Pelo canto do olho, percebeu que as peças começavam a se mover em campo. Os jogadores do Flamengo tratavam de recuar e os do Inter a avançar. Se não fosse rápido, não teria mais espaço. Jogou a bola para esquerda, uns 3 metros em sua frente e arrancou com todas as forças que ainda tinha, tentando se desviar do zagueiro, um negro forte de quase 2 metros de altura que chegava resfolegando pela direita.

Na sua cabeça, Valtão viu antecipadamente, como se fosse um filme em fast-motion, tudo que tinha que fazer. Com o lado de fora do pé direito, ele deu um pequeno toque na bola, mudando a sua direção para dentro do campo. O zagueiro, que se jogara num carrinho, para pegar a bola, ou, no mínimo, as pernas de Valtão, passou deslizando a centímetros de sua frente, arrancando a grama do campo. Valtão tocou a bola para frente. Cleber havia saído do gol para diminuir o ângulo do chute e ele deveria tomar uma decisão rapidamente: ou chutava agora, buscando o canto direito, ou driblava o goleiro e ficava livre para entrar com bola e tudo.

Valtão inclinou o corpo para a esquerda, quase rezando para que o Cleber acompanhasse seu movimento e jogou a bola para a direita. Num piscar de olhos, estava totalmente livre. A enorme goleira aberta a sua frente. Bastava dar um toque na bola e o Inter seria campeão brasileiro com um gol seu na prorrogação. À noite, o seu gol estaria em todos os programas de televisão. Amanhã, seria capa dos jornais. Valtão, o herói do campeonato. A Diretoria iria querer renovar o seu contrato, certamente com um bom aumento de salário.

Ergueu a perna direita para o chute final, mas ela não chegou na bola. Alguém a agarrava com muita força.

Valtão forçou para se livrar, mas sentiu que estava caindo. A bola quase parada a sua frente. Um zagueiro do Flamengo entrou correndo e a chutou para longe. O Cleber ainda estava enrolado em sua perna, quando o juiz chegou, marcando pênalti e mostrando o cartão vermelho para o goleiro. Deitado no chão, Valtão se deu conta que não seria mais o herói do campeonato.

Fabiano iria bater o pênalti e se fizesse o gol, receberia todos os abraços.

(Esse conto faz parte do livro Meu Tipo Inesquecível e Outras Histórias Pouco Edificantes de Marino Boeira)

 

Democracia e/ou Educação

Não existe palavra mais gasta e usada na política que Democracia. Nas sociedades ocidentais, governos, oposições, tribunais e meios de comunicação dizem defendê-la e que todos seus atos são para preservá-la.

Os gregos que a inventaram, foram também os que deram o seu nome, juntando duas palavras do seu vocabulário – demos (povo) e kratos (poder). O poder vem do povo, só que, no conceito que os gregos tinham de povo, estavam excluídos os escravos e as mulheres, ou seja, a maioria da população.

Durante séculos, a palavra esteve excluída dos objetivos das sociedades, mas ressurgiu no século XVIII, ligada a um outro conceito, que a tornava mais real,a igualdade de direitos.

A Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776 dizia que ”todos os homens são criados iguais e todos têm direitos inalienáveis à vida, a liberdade e à busca da felicidade”. Alguns anos depois, a Revolução Francesa de 1789 proclamou, na sua Declaração dos Direitos dos Homens e dos  Cidadãos, que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos”.

Os chamados “Pais da Pátria”, que assinaram a declaração de independência  americana, eram todos donos de escravos e os burgueses que fizeram a revolução francesa nunca estenderam às colônias africanas e asiáticas o conceito de igualdade.

Em pleno século XX, quando nas cultas Alemanha e Itália surgiram governos como os de Hitler e Mussolini, que negavam qualquer valor ao conceito de democracia, o restante do mundo civilizado se uniu em torno da defesa do resgate do seu valor como única forma aceitável de governo.

A vitória dos aliados na Segunda Guerra fazia supor que finalmente a Democracia, unida à ideia de igualdade entre as pessoas, poderia ser vencedora e se tornar uma forma universal de governo.

Mas, como todos nós sabemos, não é o que acontece, muito menos para nós brasileiros.

Desde que a república foi proclamada em 15 de novembro de 1889, vivemos no Brasil períodos de mais ou de menos valores democráticos, mas todos eles sempre pouco foram associados à busca de uma igualdade real entre as pessoas que possibilitasse a criação de uma democracia verdadeira

Algumas conquistas sociais durante os governos de Getúlio Vargas (ironicamente, uma ditadura formal), de João Goulart e nos de Lula e Dilma, foram os passos mais importantes dados até agora nessa busca.

Hoje, enfrentamos no Brasil uma clara situação de retrocesso na radicalização do processo democrático, iniciado nos governos petistas, com a disposição do novo governo de criar mecanismos voltados para a exclusão da maioria da população das decisões mais importantes para o País.

O governo Bolsonaro age no sentido de retirar direitos dos trabalhadores com a reforma da previdência, para atender o pleito dos empresários; no fortalecimento de uma legislação criminal que visa impedir manifestações de inconformismo de parte da população e na entrega ao capital internacional da grande riqueza do País, o petróleo do pré-sal.

E tudo isso está sendo feito com, senão o apoio, pelo menos a aceitação da maior parte da população que votou em Bolsonaro

Com o que chegamos à questão principal desse texto: como convencer a população que ela precisa se engajar na luta pela Democracia e que ela não deve ser apenas formal, mas real?

Espontaneamente, os seguimentos sociais que serão os mais prejudicados pelas novas políticas públicas, muitos dos quais foram eleitores do Bolsonaro, jamais se unirão para defender seus direitos.

Será preciso convencê-los disso.

Marx dizia que as massas têm a ideologia da classe dominante e Lenin lembrava que a maioria dos trabalhadores não era revolucionária, porque a condição de explorados não lhes permitia ver que podiam se libertar.

Lenin, que mais do que ninguém entendia de revoluções, mesmo depois de 1917, insistia que a tarefa mais importante do seu governo era educar as pessoas para que elas aprendessem a defender seus direitos.

Hoje, a resistência às políticas do novo governo se faz principalmente através das mídias sociais. Elas, porém, ficam limitadas às pessoas que já perceberam seus objetivos e não chegam aos que são as grandes vítimas das políticas do governo Bolsonaro.

Por que, não pensar então, num jornal popular que divulgasse a versão mais real do que está sendo feito pelo novo governo?

Getúlio Vargas ajudou a criar a Última Hora para defender seu governo. Depois, Juscelino e Jango a usaram como forma de se comunicar com a população.

Leonel  Brizola criou o Clarim para expor a sua linha política.

Aqui, em Porto Alegre, temos o Sul 21, um importante veículo de mídia digital, mas que certamente é desconhecido de boa parte do público, novamente o que mais precisaria ser informado.

Por que não pensar num jornal popular que ajude a educar as pessoas para a Democracia?

As respostas estão nos livros

Os judeus eram chamados de O Povo do Livro.

O livro era o Torá, parte da Bíblia cristã.

Isto talvez explique um pouco, o poder político e econômico que alcançaram no mundo civilizado.

Os muçulmanos têm o Corão.

Mais do que armas, são os livros que organizam os povos, formam as nações, projetam as grandes mudanças da história.

As ideias não estão no ar para que possam ser alcançadas por qualquer um. Elas precisam ser lentamente digeridas, transformadas em frase e palavras e depois difundidas com vagar, num lento processo que vai dos mais hábeis na sua leitura, até chegar aos mais toscos, muitas vezes transformadas em simples palavras de ordem.

Quando alguém ergue um cartaz dizendo # Fora Temer, ele estará provavelmente sintetizando um pensamento político que começou com uma longa análise dos interesses envolvidos num processo que terminou com um golpe de estado de 2.016.

Os juízes dizem que o que não está escrito nos códigos de leis, não existe.

É pouco. Os códigos representam a fossilização do pensamento.

Existem livros e livros.

Alguns servem apenas para deixar registrado o presente, como os códigos de leis.

Outros apontam o futuro.

É sobre esses últimos, que vamos falar.

Nem sempre assumem o formato tradicional de livros. São impressos, muitas vezes, numa folha de jornal ou num panfleto de rua.

Estes é que são perigosos.

O famoso “J´´Accuse” de Emile Zola ocupou apenas a primeira página do jornal parisiense L´Aurore, em defesa de Albert Dreyfus, em 1896, mas é hoje citado como uma das peças mais importantes contra o preconceito racial no mundo inteiro.

O documento social mais importante do mundo moderno, o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, escrito em 1848, que serve desde então como orientação para os movimentos socialistas do mundo inteiro, foi originalmente uma publicação com não mais do que 30 páginas.

Embora o pensamento mais retrogrado do século XX esteja contido também num livro – Minha Luta (Mein Kampf) de Adolf Hitler – de um modo geral, os ditadores e principalmente os que representam a direita política, temem os livros.

A queima de livros em praça pública, em maio de 1933, em Berlim, de autores como Freud, Einstein, Stefan Zweig, Thomas Mann e Erich Maria Remarque, é desde então, um símbolo do ódio dos nazistas ao novo.

Quantas pessoas no mundo inteiro, se confessaram socialistas e humanistas, depois de lerem Les Thibault, de Roger Martin de Gard?

Milhares de pessoas leram o romance, ambientado na França às vésperas da Primeira Grande Guerra e aprenderam com Jacques Thibault, que as disputas capitalistas levam sempre às guerras.

Roger Martin de Gard ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1937, quando o mundo estava às vésperas de um nova guerra mundial.

Quem transformou LuÍs Carlos Prestes no Cavaleiro da Esperança, foi um livro de Jorge Amado, que começa assim:

“Te contarei a história do Herói, amiga, e então não terás jamais em teu coração um único momento de desânimo. Como naquelas noites em que o seu nome, balbuciado por vezes a medo, afastava a amargura e o terror, agora eu falarei dele pra que tu e o povo do cais que me ouve, saibam que podem confiar que a noite não é eterna”

O livro foi publicado em espanhol, em Buenos Aires, em 1942, e trazido clandestinamente para o Brasil. A primeira edição brasileira apareceu em 1945, mas a partir de 1964, foi proibido novamente, só voltando a ser editado em 1979, porque os ditadores da ocasião sempre temeram a força de um livro.

Talvez, o que esteja faltando hoje no Brasil, sejam políticos que leiam mais livros. A pobreza dos argumentos apresentados, mesmo em defesa de posições mais progressistas, é constrangedora.

Talvez a única grande exceção a essa regra seja o ex-governador Tarso Genro, que semanalmente, em seu espaço no Sul21, analisa a situação política do Brasil a partir de uma posição intelectual solidamente embasada nos ensinamentos de grandes autores, não só da política, como também em outras áreas do conhecimento humano mais avançado.

Como ele parece, ainda assim, acreditar que a retomada do caminho, que um dia levará o Brasil a se libertar do capitalismo financeiro predatório internacional, esteja dentro das regras da sociedade democrática ocidental e não numa opção mais radical, não custa lembrar a ele, o que diz István Mészáros em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista:

“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda a mudança legítima. Sem o estabelecimento de uma alternativa radical ao sistema parlamentar não pode haver esperança de desembaraçar o movimento socialista da sua atual situação, à mercê das personificações do capital que existe em suas próprias fileiras“

Mészáros é radical na crítica às opções reformistas feitas no passado por partidos comunistas e trabalhistas, principalmente o Partido Comunista Italiano, com o seu fracassado projeto de “compromisso histórico” e o Partido Trabalhista Inglês com a sua ilusória “terceira via”. Sobra também para Gorbachov, que segundo ele fechou o Partido Comunista da União Soviética com um decreto.

Segundo ele, “o movimento socialista não terá sucesso, a menos que se rearticule como um movimento revolucionário de massas, ativo de maneira consciente em todas as formas de luta política e social: local, nacional, global/internacional. Um movimento revolucionário de massas capaz de utilizar plenamente as oportunidades parlamentares, quando disponíveis, ainda que limitadas nas atuais circunstâncias, e, acima de tudo, sem medo de afirmar as demandas necessárias da ação extraparlamentar desafiadora”

 

A Quadrilha

 

Todo mundo lembra, ou devia lembrar. aquele poema do Carlos Drummond de Andrade, chamado A Quadrilha.

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.”

O que vou contar, não tem nada ver com o Drummond, pois se se trata de uma história verdadeira ( true story) que abalou a tradicional família garibaldense (ou seria garibaldina?) nos idos de 1950 (que para os católicos, foi um ano santo).

Juliana era casada com Afonso, mas tinha um caso com Roberto, que era amante de Marcela, mulher do Flávio. Este conhecera biblicamente a Juliana, mas hoje vivia em concubinato com a Ester, ex-mulher do Fernando, que era delegado de polícia e que segundo se comentava na cidade, participava de um triângulo amoroso com a Vera e a Elenita. Versões correntes na cidade,diziam que Violeta, amante do Padre Heitor, era dada a perversões, e tinha um a caso com Tereza, a madre superiora.

Tudo bem. Esses arranjos, nenhum público, mas todos de conhecimento público, eram aceitos por todos, inclusive pelo juiz da cidade, o Dr. Barcelos, que segundo se dizia a boca pequena (boca chiusa) fazia um triângulo amoroso com Fátima, sua mulher e Diógenes, o jardineiro, onde os vértices se encontravam aleatoriamente.

O que provocou o grande escândalo na cidade, gerando inclusive a intervenção do Bispo Sardinha, que nomeou seu amante, o Pardal, como seu agente especial para resolver o imbróglio, foi a decisão de todos os envolvidos de assumir as relações,mesmo as heterodoxas e passarem a viver juntos ( e em pecado, segundo Sardinha e Pardal) publicamente, num grande casarão que passou a ser conhecida como A Maravilhosa Casa dos Pecados

 

O Rolha

Durante os trinta anos que trabalhou na empresa, sempre foi o Rolha. Se era sobrenome ou apelido, ninguém perguntava.Era apenas Rolha. Os mais novos, diziam respeitosamente “seu” Rolha.

Os mais antigos, seus amigos dos churrascos de fim-de-semana, na intimidade, o tratavam por Rolhinha.

O Rola fez carreira na empresa. Começou como boy e chegou a gerente da expedição.

Semana passada, quando finalmente se aposentou, a empresa, como fazia com todos que chegavam a esse tempo de serviço, lhe ofereceu uma festa de despedida. 

Muitos discursos fizeram com o que o Rolha se emocionasse e quando o chefe geral, o Dr. Aristides, antes de lhe entregar uma caneta Parker 51 de lembrança, lhe chamou de “o inestimável Rolha”, lágrima correram pelo canto dos seus olhos.

Foi exatamente nessa hora que o Robertinho,,o funcionário mais novo do escritório e que já tinha bebido bastante, se fez ouvir lá do fundo da sala.
– Por que esse Rolha ? É sobrenome ou apelido?

Um silêncio enorme se fez e todos olharam para o Rolha, esperando sua resposta.

Esse ficou sério alguns segundos. Levantou-se da cadeira. Olhou para o fundo da sala, de onde viera a pergunta. Abriu lentamente a boca, come se fosse dizer algo, e foi fechando os olhos.

Os que estavam mais perto, conseguiram segurar o Rolha antes que ele desabasse no chão.

O enfarte foi fulminante e os amigos se consolavam dizendo que ele não tinha sofrido muito.

O enterro foi no dia seguinte. 

A firma publicou uma nota nos jornais com o título “Agradecimento ao Rolha”

O sujeito que fez a pergunta, foi demitido sumariamente.