Quem foi Tancredo Neves

Os brasileiros têm o péssimo costume de transformar em heróis pessoas que em vida pouco fizeram para merecer essa distinção.

Essa característica é ainda mais visível na classe política. Os ditadores de ontem se transformam nos democratas de hoje.

Ninguém mais que Tancredo Neves representa esse tipo de comportamento dos brasileiros que se recusam a analisar o que fez esse político em especial, preferindo prantear sua morte como  a de um amigo pessoal e não de um agente público.

Tancredo Neves (1910/1985) foi um político sempre foi fiel à tradição de moderação da oligarquia mineira, uma das forças responsáveis pela continuidade no Brasil de uma longa política de segregação social.

A exceção de um curto período, durante o segundo Governo Vargas, quando como Ministro da Justiça de Getúlio, pareceu ter incorporado a postura nacionalista do Presidente (seu discurso junto ao túmulo de Vargas em São Borja é uma prova disso), Tancredo logo retomou a sua linha de moderação, influindo negativamente no processo das lutas democráticas no Brasil.

Em 1961, quando os militares golpistas quiseram impedir a posse de Jango, provocando a reação da Legalidade, aceitou o papel de agente dos militares para negociar com João Goulart o arremedo de um regime parlamentarista, no momento em que o movimento popular comandado por Brizola ameaçava revolucionar o País.

Aliás, Brizola percebeu claramente isso e pretendeu prender Tancredo, quando seu avião que vinha de Montevidéu, onde conversara com Jango, pousasse em Porto Alegre. Avisado desse intento, Tancredo voou direto para Brasília.

Quando do fim da longa ditadura militar, embora formalmente tenha apoiado o movimento das Diretas Já, negociou com alguns segmentos militares (principalmente com o grupo de Geisel) a alternativa da eleição indireta e o compromisso de impedir que fossem esclarecidos os crimes da ditadura.

Derrotada as Diretas Já, surgiu como candidato da oposição, mas também de segmentos civis que apoiaram a ditadura (Sarney e ACM) e dos militares mais moderados, para derrotar o candidato oficial da Ditadura, Paulo Maluf.

Eleito indiretamente pelo Congresso, não pode assumir por causa de uma grave doença que levou à morte no dia 21 de abril.

Sua longa agonia e a coincidência da morte no dia de Tiradentes, criaram todos os elementos emocionais para o transformar num herói nacional, quase um santo, com todo mundo querendo esquecer seu passado pouco recomendável como político.

O que você pensa do comunismo?

Quando  tentava convencer as pessoas que só poderíamos nos realizar como seres humanos completos numa sociedade comunista, havia sempre dois tipos dois tipos de reação;
a) Das pessoas que foram ensinadas que o comunismo era a encarnação do mal e o recusavam por princípio
b) Das pessoas que admitiam que na teoria o comunismo poderia ser algo bom, mas que o egoísmo nato do homem sempre impediria seu sucesso.
Obviamente a atitude do primeiro grupo não é racional e não pode ser modificada usando argumentos racionais.
O segundo grupo poderia ser convencido desde que admita que, ainda que com alguns retrocessos (guerras, por exemplo) a história do ser humano é a história de renúncias de alguns direitos pessoais ( o gozo pleno) para poder participar de comunidades, fora das quais a vida é impossível.
Então, me parece que na medida em que nos afastamos da condição de bebês, quando nosso egoísmo é total e vital para a nossa sobrevivência, estamos dando passos em direção a uma sociedade comunista.
A dúvida, é como disse, Mèszaros, se ainda dará tempo de chegar lá, antes que a barbárie do capitalismo tome conta de tudo

Porque devemos odiar o grêmio


Nós, colorados, odiamos o grêmio, tanto que escrevemos seu nome com letra minúscula no início (é um nome genérico), da mesma maneira que acreditamos que os verdadeiros gremistas odeiam o Internacional.
Os idiotas da objetividade, como dizia o Nelson Rodrigues, falam que o futebol é apenas um esporte, quando se trata da pura transferência para uma outra área do velho e bom ódio de classes.
Freud e Lacan identificaram como transferência o processo pelo qual o paciente retoma traumas do passado e as transfere para o terapeuta.
Essa mudança de lugar de um sentimento pode ser vista também na relação do torcedor com o seu clube de preferência, com um detalhe a mais: o ser (ou coisa) no qual depositamos nosso amor transferido, está sempre sendo ameaçado pelo outro, mau e despossuído de valores
Para nós, colorados, esse outro desprezível é o grêmio.
Na vida social, todos nós, em algum momento, nos sentimos preteridos injustamente pela ação do outro, que toma o lugar na escala social que imaginávamos nos pertencer por direito, conquistam aquela pessoa que gostaríamos que nos amasse; são ricos, enquanto somos pobres.
As pessoas mais esclarecidas percebem que boa parte dessas “injustiças” é fruto de uma divisão de classes. Por nascerem em famílias mais ricas, alguns levam um grande handicap na corrida pelo sucesso, enquanto outros precisam fazer um esforço muito maior para equilibrarem as chances.
Essas pessoas se engajam, então, em ações de contestação a esse sistema “injusto”, rotuladas de “movimentos de esquerda”, enquanto os mais esclarecidos desse grupo aderem ao marxismo, depois que descobrem que a essência desse processo está na maneira como se dá a divisão do resultado do trabalho de toda a sociedade.
Uma grande parte da população é mantida, porém, distante dessa racionalidade por toda uma estrutura social (são as instituições como judiciário, polícia, legislações e a mídia) e precisa transferir essa pulsão interna para outros campos.
O futebol se torna, então, o lugar ideal para isso, na medida em que repete todo o ritual das guerras que sempre dividiram os homens em campos opostos. Temos as cores diferenciadas, as bandeiras e até mesmo as organizações táticas dos exércitos ( 4x4x2 ; 3x4x2, etc). Até mesmo os termos são derivados da guerra (carga pesada, bombardeio, bomba,tiro direto, etc)
Então, em vez de odiarmos a burguesia que rouba nosso futuro, odiamos o grêmio que rouba nossas vitórias e vice-versa.
Na antiga União Soviética, o futebol era teoricamente amador, porque as autoridades russas simulavam que a luta de classes terminara.
Por isso, essa iniciativa tão saudava pela nossa imprensa alienada, de torcidas misturadas em grenais, além de hipócrita é uma forma reacionária de evitar que as pessoas, na falta de um objetivo maior ( a luta de classes) pratiquem ao menos um simulacro dessa luta.u

Os libertários

O jornalismo, há muito se tornou apenas um instrumento do modelo neoliberal vigente no mundo inteiro e as vezes, a sua própria imagem pública.

Diariamente através de jornais, revistas e principalmente na televisão, o que se faz é a defesa escancarada do atual modelo de capitalismo, ficando as vozes dissidentes restritas às mídias sociais, aos sites e blogs alternativos, embora mesmo nesses segmentos o que domina é a mera reprodução dos valores da classe dominante.

O pensamento único  imposto pela ditadura da mídia tem sido contestado, hoje, principalmente por ciberativistas e hackers, que rompem a hipócrita áurea de seriedade que os governos instituíram para defender seus interesses e fazem o que Slavoj Ztizek (Problema no Paraíso – Jorge Zahar Editor – 2014) diz ser o papel crucial em manter viva a razão pública: “Assange,Manning, Snowden são nossos novos heróis, casos exemplares da nova ética que se aplica a nossa era digital.Não são mais apenas denunciantes que expõem práticas ilegais de empresas privadas (bancos,companhias de tabaco e petróleo) ou autoridades públicas; eles denunciam as próprias autoridades públicas quando estas se envolvem no uso privado da razão. Precisamos de outros Assanges, Mannings e Snowdens também na China, na Rússia, em toda a parte”

Mas, quem são esses.novos libertários?

Julian Paul Assange  nasceu na Austrália em 1971. É o principal porta voz do website WikiLeaks, fundado em 2006.  Começou publicando documentos sobre execuções extrajudiciais no Quênia e o tratamento desumano dado aos prisioneiros na base militar dos Estados Unidos em Guantanamo, mas só se tornou o “grande inimigo” do governo americano, quando vazou para os jornais El Pais, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e Te New York Times documentos secretos em 2010, sobre o envolvimento dos Estados Unidos nas guerras do Iraque e Afeganistão.

Em 2011, foi acusado de estupro e abuso sexual, na Suécia por uma mulher, que depois se soube trabalhava para a CIA e colocado numa lista de procurados pela Interpol. Assange se apresentou à Polícia Metropolitana em Londres, dizendo que tinha ocorrido na Suécia fora a prática de sexo consentido, mas a Corte Suprema do Reino Unido determinou que fosse expatriado para a Suécia. Como a Suécia tem amplos tratados de extradição com os Estados Unidos e temendo ser levado para uma prisão americana, Assange se asilou na Embaixada do Equador, em Londres, onde vive até hoje.

Essa semana, a promotoria criminal da Suécia retirou as acusações contra a Assange, mas ele ainda corre o risco de ser preso pela polícia inglesa, acusado de ter faltado a uma das audiências enquanto esteve asilado.

 

 Edward Joseph Snowden, nascido em Elizabeth City, Carolina do Norte,em 1983, era um analista de sistemas da CIA e da NSA (agências de espionagem americana) e se tornou conhecido em 2013,quando vazou para os jornais The Guardian e The Washington Post, documentos  sobre o Programa de Vigilância Global dos Estados Unidos que envolvia a espionagem de governos ditos aliados dos Estados Unidos, inclusive o Brasil. Acusado de roubo  de propriedade do governo, comunicação não autorizada de informações de defesa nacional e comunicação intencional de informações classificadas como de inteligência para pessoa não autorizada, foi obrigado a fugir, vivendo até hoje na Rússia.

Snowden disse porque fez isso: “Eu sou apenas mais um tipo que passa o dia a dia num escritório, observa o que está acontecendo e diz: ‘Isso é algo que não é para ser decidido por nós; o público precisa decidir se esses programas e políticas estão certos ou errados”

Chelsea Elizabeth Manning nasceu em 1987, em Crescent, Oklahoma e serviu o exército americano como Bradley Edward Manning ,até se tornar uma transexual e assumir o nome de Chelsea. Foi presa, acusada de vazar para o WikeLeaks telegramas diplomáticos americanos enquanto servia no exército americano Iraque. Foi presa e 2010 e em janeiro, teve sua pena comutada pelo ex-presidente Obama em um dos seus últimos atos. Foi libertada esse mês.

Quando o sexo (no cinema) era proibido para os brasileiros

Em 1975, fui a Europa à primeira vez, pago por uma agência de propaganda para participar de um festival de cinema publicitário, mas meu grande objetivo – além de conhecer Paris, Londres e Roma, além de Veneza, onde se realizou o festival – era ver os filmes que a censura da ditadura brasileira nos impedia de conhecer

Além de prender, torturar e matar, os militares nos tratavam como pobres crianças ingênuas que deveriam ser poupadas das “sacanagens” que o cinema europeu oferecia em doses cada vez maiores.

Três filmes me interessavam acima dos demais: O Último Tango em Paris, Emmanuelle e Il Decameron.

O Último Tango em Paris, vi em Londres. Era o filme “sério” nessa lista, já que tratava da impossibilidade de relacionamento entre um homem e uma mulher, que buscavam num sexo totalmente descompromissado, uma alternativa para o amor romântico. O filme tinha Marlon Brando, já  mais resmungando para a câmera do que preocupado em criar um personagem e Maria Schneider e era dirigido pelo grande diretor italiano Bernardo Bertolucci.

Independentemente de todas as consideração filosóficas que o filme poderia oferecer, o que todos queriam ver era a cena em que Brando usava um pouco de manteiga para facilitar a a prática do sexo anal com a Maria Schneider.

Hoje, com a proliferação do sexo ginecológico do cinema pornô, disponível na internet a qualquer hora do dia, O Último Tango virou programa de matinês dominicais.

Emmanuelle, de Just Jaachin era o sexo “alegre e divertido”. Vi em Paris, onde o filme batia recordes de freqüência desde o ano anterior (1974) quando fora produzido. Sylvia Kristal era a esposa de um diplomata que vai para a Banckoc, onde realiza todos seus sonhos eróticos com homens e mulheres (era o fetiche oriental já presente) sem deixar de amar o marido. No filme, ficou famosa a cena de Emmannuel fazendo sexo no banheiro do avião, o que deve ter estimulado dezenas de viajantes a tentarem depois repetir a proeza, mesmo com o incômodo que o pouco espaço do banheiro oferecia.

Il Decameron, de Pier Paolo Pasolini, era a o  “sexo transgressor”, em que o renascentista Giovani Bocaccio descreve as orgias de padres e freiras nos conventos do fim da idade média.

Vi em Roma, onde se diz que um programa obrigatório é ver o Papa. Como estava em Roma e o Papa da ocasião,  Paulo VI, prometeu que apareceria numa janela do Vaticano, lá estava eu para vê-lo, mas sempre atento ao compromisso que havia assumido comigo mesmo de ver Il Decameron, num cinema que ficava a algumas quadras adiante.

O Papa, porém, se atrasou e entre ele e o Pasolini, obviamente optei pelo último e não vi o Papa.

Certamente, ele não sentiu minha falta e acho que nem eu de tê-lo visto abanando para os seus fieis na Praça de São Pedro.

O cristão novo

Ele está por todos os lugares, fala sobre tudo, mas acima de tudo, forma com outros iguais um grupo muito atuante na política, é o Cristão Novo.

Devem existir também entre os defensores da direita, onde talvez sejam até a sua maioria, mas, como não frequento estes grupos, os encontro com mais assiduidade na esquerda.

Não perdem seu tempo lendo Marx, Lenin ou Trotsky.

Para que, se eles já sabem tudo.

No passado, eles eram mais encontrados no Partidão, onde ditavam a lei e “cagavam” regras. Caso você manifestasse um interesse menos ideológico e mais físico pela sua camarada de ativismo político, você estava tendo um desvio de comportamento que logo o enquadrava na condição de burguês.

Hoje, eles estão no PT e no PSOL, mais ainda no segundo, que pretende recuperar a pureza de comportamento que os petistas perderam ao longo de sua vida, felizmente.

Outro dia, escrevi um artigo sobre a necessidade de defender a candidatura de Lula em 2018, mas “mantendo um pé atrás”.

Como, com um pé atrás, reclamaram alguns, indignados?

Devemos ter os dois pés pra frente, disseram,aproveitando a minha metáfora para uma leitura diferente.

Não adiantou explicar que era uma forma de cobrar do Lula que ele faça alguns arranjos  necessários para governar, mas não tantos como ele e a Dilma fizeram no passado.

Talvez, eles tenham razão.

Que a hora seja de união total.

As diferenças, resolvemos depois.

Unidos, venceremos.

Difícil discutir com os cristãos novos.

Estava quase concordando com eles, quando leio o novo lema pregado por Slavoj Zizek, na introdução do seu livro Problema no Paraíso – Do Fim da História ao Fim do Capitalismo – Divididos Venceremos.

Que os cristãos novos não nos ouçam, mas eles, com a ânsia que têm em obter uma unidade de pensamento entre todos, certamente se dariam mal nos primórdios da Revolução Soviética, quando todos brigavam com todos e continuaram assim durante os primeiros anos da URSS.

Talvez, o problema tenha sido, não essas discordâncias ferozes entre os revolucionários (Trotsky, Kamenev, Zinoviev, Kirov, Stalin) mas a vitória da unanimidade conseguida a ferro e fogo por Stalin.

Uma velha piada diz que as esquerdas só se unem na cadeia. Talvez, em vez de um demérito, seja a sua grande força.

Exija o impossível

A nova amiga me estende a mão e diz

– Muito prazer, eu sou anarquista.

Eu respondo

– Muito prazer, eu sou comunista.

Ela então completa

– Ótimo. Estaremos juntos contra os fascistas. Depois nos matamos.

Ela obviamente, como era uma pessoa de boa cultura, estava lembrando a Revolução Espanhola, quando comunistas e anarquistas combatiam os fascistas, mas também entre eles.

É uma contingência histórica: os que combatem o status quo se unem em determinados momentos, para se separar em mais tarde, quando alguns acham que os objetivos buscados foram atingidos, enquanto outros querem seguir adiante.

Em 1917, na Rússia, mencheviques e socialistas revolucionários, achavam que derrubar o Czar e instalar uma democracia burguesa era suficiente por ora. Lenin e os bolcheviques queriam ir em frente e foram, instaurando o primeiro regime verdadeiramente socialista no mundo.

Setenta anos depois o sonho acabou, destruído por um complô que reuniu o presidente americano, Bush pai, o Papa polaco Karol Wojtyla e os traidores russos Yeltsin e Gorbachov. É claro, também com os erros da burocracia soviética.

Será preciso começar tudo de novo, talvez desde o início do “comunismo utópico” de um possível Cristo, adaptando os ensinamentos de Marx e Lenin aos novos tempos de Zizek, Badiou  e Meszaros.

Impossível?

Os jovens revolucionários franceses de 1968 escreviam nos seus cartazes: Seja realista, exija o impossível.

O capitalismo levou 500 anos para chegar ao estágio em que se encontra hoje, passando do mercantilismo e do colonialismo, até  chegar a este modelo puramente financeiro.

Para chegar até aqui, promoveu guerras, genocídios, destruiu civilizações e escravizou milhões de homens.

Mas ele não e o fim da estrada, como pensou Fukuyama. Ainda há muito caminho a percorrer.

Para o Brasil, inclusive

Em 2002, 2006, 2010 e 2014, os brasileiros elegeram governos do PT e eles trouxeram imensos benefícios às populações mais pobres.

Mas não era a revolução. Lula e Dilma chegaram à Presidência, mas nunca tiveram o poder real nas mãos. Sempre tiveram que negociar com os verdadeiros donos do poder (os empresários, os banqueiros, a mídia) para oferecer algumas compensações aos mais necessitados.

O golpe refez a coerência política que sempre existiu no Brasil: poucos mandam e muitos obedecem.

Agora, se abre a oportunidade de recomeçar novamente. Vamos estar todos juntos para tentar eleger Lula em 2018., se deixarem ele concorrer

Depois, talvez tenhamos que nos separar novamente, alguns achando que isso será suficiente e outros, como nós, querendo ir adiante.

Tomara que a lição que tivemos com o golpe do ano passado, faça com que, os pretendam ir adiante, sejam a maioria.

Central – um documentário sobre o capitalismo selvagem.

 


Caso alguém esteja interessado em saber como funciona o capitalismo em seu estado puro, não deve deixar de ver o documentário Central, sobre o presídio de Porto Alegre, a partir de um roteiro do jornalista Renato Dornelles e com direção de Tatiana Sager

Os grupos que dominam as galerias, reproduzem o sistema capitalista sem qualquer mediação ou freios da sociedade, transformando cada preso num gerador de lucros, situação da qual ele não se livra nunca mais, mesmo quando saia da cadeia.

Usando imagens tomadas dentro do presídio por uma câmera profissional, mesclada com imagens feitas pelos próprios presos, entremeadas de entrevistas com o juiz da vara de execuções criminais (Sidney Brzuska) , um promotor ( Gilmar Bortoloto),um sociólogo ( Marcos Rolim), vários policiais militare, presos e ex-presos, o documentário,mais do que uma reconstituição da vida num presídio, onde vivem em condições subumanas quase 5 mil pessoas, é uma denúncia do descaso da nossa sociedade com a vida humana.

Ironicamente, quando o grande clamor dessa sociedade é mais segurança, exigindo que a polícia seja mais rigorosa nas prisões, o testemunho dos participantes do documentário é de que ao, entrar no Central, em vez de ser ressocializado, o preso, para poder sobreviver, precisa se associar a uma das facções criminosas que domina o presídio, vínculo que ele nunca mais poderá quebrar.

Como o sistema funciona como uma engrenagem que só visa o lucro dos que comandam a facção criminosa, o preso, querendo ou não, se transforma num soldado dela e precisa cumprir a missão que lhe for destinada dentro ou fora das grades.

O promotor sintetizou a situação desse modo: o sujeito entra como um guri chorão e sai como um bandido frio e capaz de todas as maldades.

Um dado estatístico confirma isso: apenas 10 por cento dos presos cumprem pena pela acusação de assassinato ou tentativa de assassinato. A grande maioria é pelo tráfico de drogas e muitas vezes, apenas pelo consumo de drogas já que a polícia e a justiça, nem sempre estão interessadas em fazer essa separação.

Como disse o juiz, o Estado controla o presídio apenas do lado de fora das grades. Lá dentro, o domínio é das facções, que funcionam como uma instituição que legisla, julga e executa e por incrível que pareça, esse acordo tácito entre as autoridades e os presos é que assegura a tranqüilidade na prisão, sem motins e praticamente sem mortes.

Essa transferência do poder do Estado para os presos fica claro nesse exemplo: dentro do presídio existe uma cantina, administrada por particulares, que pagam um aluguel para o Estado a fim de usar esse espaço (40 mil reais por mês, segundo o juiz), que vende desde refrigerantes até camisas de futebol. Só que não são todos os presos que podem freqüentar o local. O Plantão de Galeria, um homem de confiança da facção, designa quem pode ir e o que pode trazer. As compras são então revendidas pela facção aos demais presos com um valor altamente inflacionado.

O grande lucro dessas facções provém, porém, do tráfico de drogas, que apesar da vigilância policial, é trazida pelas chamadas mulas para dentro do presídio e então comercializadas a um custo exorbitante. Como existe um grande percentual de viciados, eles acabam se endividando e para pagar essa dívida, e com isso sobreviver, são obrigados a cumprir tarefas, dentro e fora do presídio, como assaltos e assassinatos de rivais.

O acordo não escrito entre a polícia e os presos, que dividiu as atribuições de poder dentro do presídio, se gerou uma certa tranqüilidade dentro do Central, transferiu para o semi-aberto e mesmo para as ruas da cidade, os ajustes das contas não pagas dentro do presídio.

Ou seja, o Central não é apenas um calabouço indigno de receber um ser humano, criminoso ou não, como é o grande gerador da violência nas ruas da cidade.

 

Churchill, Stalin e os vinhos do Cáucaso

A coletivização forçada da agricultura na União Soviética, na década de 30 do século passado tem sido apontada pelos críticos do comunismo, ao lado dos julgamentos políticos de 1937, como os grandes “crimes”de Stalin.

A versão, que mesmo fontes de esquerda costumam divulgar, é que a coletivização forçada provocou milhões de mortes pelo frio e pela fome e que Stalin por isso, poderia ser comparado a Hitler e suas políticas de extermínio.

Obviamente não é uma comparação séria. A política de Hitler, a par de sua pretensão em  extinguir ou escravizar as raças não arianas, tinha como objetivo reduzir em um terço as populações da Polônia e Ucrânia para que sobrassem mais alimentos para os alemães.

Stalin, ao contrário, independentemente de que sua política tenha sido certa ou errada, pretendia erradicar a fome na União Soviética que periodicamente matava milhões de pessoas.

No seu livro de memórias, Winston Churchill, que a par de suas qualidades como governante, nunca escondeu seu anti-comunismo militante, relata o seu primeiro encontro com Stalin, em Moscou, no Kremlin, em 1942, durante a guerra, quando, para provocar o líder soviético, ironizou as dificuldades que os russos enfrentavam na sua política agrária, perguntando quanto ela estava custando.

A resposta de Stalin está registrada por Churchill em suas memórias.

“Dez milhões de pessoas. Foi assustador. Durou quatro anos. Era absolutamente necessário para a Rússia, para evitarmos os ciclos periódicos de fome, que a terra fosse arada com tratores. Precisávamos mecanizar nossa agricultura. Quando demos tratores aos camponeses, todos se estragaram em poucos meses. Só as fazendas coletivas, que tinham oficinas, conseguiam lidar com os tratores. Tivemos o maior cuidado de explicar isso aos camponeses. Mas não adianta discutir com eles. Depois que você diz tudo que pode a um camponês, ele diz que tem que ir em casa conversar com a mulher e consultar seu cão pastor. Depois de conversar com eles, ele volta e responde que não quer participar da fazenda coletiva e prefere ficar sem o trator. Foi tudo muito ruim e difícil, mas nós, não só aumentamos largamente o abastecimento de alimentos, como melhoramos consideravelmente a qualidade dos grãos.”

Em suas memórias, Churchill diz que a reunião teve momentos tensos e outros mais descontraídos.

Os tensos ficaram por conta da reiterada exigência de Stalin que os aliados abrissem a segunda frente na Europa, enquanto que Churchill pretendia usar as forças inglesa e o apoio norte-americano para defender suas colônias na África e impedir o acesso dos alemães ao Canal de Suez.

Os aliados tinham prometido abrir a segunda frente, desembarcando tropas na Normandia, ainda em 1942, mas só foram honrar esse compromisso em junho de 1944, quando a Alemanha já estava praticamente derrotada pelo Exército Vermelho.

Os  momentos descontraídos ficaram por conta das inúmeras garrafas de vinho do Cáucaso, que Stalin, Churchill,  Molotov, o chanceler russo e Alexander Cadogan, vice-ministro do exterior, inglês, consumiram.

Segundo disse Cadogan, o encontro só terminou por volta das 3 horas da madruga, com seus participantes muito alegres e cordiais.

 

A Revolução Russa, 100 anos depois

O chamado Estado do Bem Estar Social, que garantiu alguns direitos aos trabalhadores, principalmente em países europeus, foi uma concessão do empresariado, temeroso da influência da Revolução Russa de 1917 sobre as massas trabalhadoras.

Essa constatação, foi um dos pontos centrais expostos pelos debatedores do seminário sobre os 100 anos da Revolução Russa, que começou segunda-feira no teatro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e que deverá se estender por mais cinco encontros.

Apesar da escassa divulgação feita pelos meios de comunicação, o seminário foi um sucesso de público, mostrando que o tema é ainda bastante atual. Desde o final da semana, as inscrições para os 150 lugares do teatro estavam fechadas e mesmo assim, um grande número de pessoas se aglomerou diante da sede do Instituto, na Rua Riachuelo, à espera de alguma desistência de última hora.

A primeira noite reuniu os historiadores Augusto Buonicore, da FMG; Ana Lúcia Danilevicz e Luís Dário, os dois da UFRGS.

Os três debatedores concordaram que além da influência direta que provocou nas questões sociais, a Revolução Russa, pelo seu exemplo prático, é responsável pela divulgação na Europa e nos Estados Unidos dos direitos de igualdade das mulheres, do fim do preconceito racial e da luta contra o anti semitismo.

A professora Ana Lúcia chamou a atenção para o exercício da plena liberdade que a Revolução trouxe para o povo russo, ao por fim a séculos de um sistema autoritário e mostrou que, até o fim da União Soviética, existia um sistema democrático extremamente capilarizado,  com eleições para todos os tipos de direção.

O professor Buonicore deu outro exemplo de influência da Revolução Russa, até mesmo nos Estados Unidos: a Suprema Corte dos Estados Unidos só considerou inconstitucional a existência de escolas separadas para brancos e negros, quando foi alertada pelo governo que essa divisão favorecia à pregação dos comunistas americanos.

O professor Luis Dario, lembrou como na União Soviética as mulheres eram tratadas com igualdade total em relação aos homens, dizendo que enquanto nos Estados Unidos e Inglaterra, elas apenas substituíam os homens que foram para a guerra, na URSS, elas, além disso, participavam diretamente dos combates, lembrando o exemplo da famosa atiradora de elite, que quando perguntada quantos soldados inimigos havia matado, respondeu: Nenhum. Matei 300 fascistas.

Na sua fala, o professor Luis Dario ressaltou que no mundo capitalista, temos cada vez mais uma democracia representativa,ao contrário da URSS, onde ela era basicamente participativa .

Mais adiante, ele fez algumas provocações à platéia, chamando a atenção de que foram os ensinamentos da Revolução Russa que permitiram que se criassem modelos diferentes de  socialismo, como nos casos do Vietnam e da China e dizendo que o modelo de comunismo chinês seria uma versão bem sucedida do NEP*, de Lenin.

Para o professor Luís Dario , o Partido Comunista Chinês detém um controle muito rígido da economia e que isso permitiu transformar o país da grande potência econômica do mundo.

Finalmente, lembrou que apesar de ser motivo de brincadeiras no Ocidente, a força militar da Coréia do Norte é que garantiu, até agora, que o país não se transformasse numa nova Líbia ou Iraque, dominado pelos americanos.

Na última fala da noite, a professora Ana Lúcia colocou nos movimentos sociais de 1960, na França, o início de um processo de enfraquecimento da causa do socialismo, com a convergência das energias para reivindicações importantes, mas que enfraquecem a visão maior pelo qual deve se lutar, chamando a atenção para a valorização da identidade individual em detrimento da identidade coletiva, da realização pessoal em vez da solidariedade de classe.

*NEP – Nova Política Econômica, criada por Lenin em 1921 para fazer frente à resistência dos agricultores em aceitar uma forma coletiva de produção. A idéia era se ter dois sistemas econômicos – o socialista e o capitalista – durante algum tempo. O NEP foi cancelado por Stalin em 1927, quando iniciou a coletivização de toda a agricultura.