Nós, os analógicos

São pequenos gestos que demonstram a minha inferioridade para conviver com os novos símbolos da modernidade e reforçam a ideia de que sou inadaptado aos tempos modernos, como por exemplo, o manusear daquelas pequenas teclas do celular para escrever uma mensagem.

Um amigo, bem mais ligado à modernidade, me definiu como um ser analógico e acho que ele não estava me elogiando.

Hoje, ao terminar a leitura do livro do Jessé Souza, “A Tolice da Inteligência Brasileira” recuperei um pouco a minha auto-estima ao descobrir que as grandes descobertas intelectuais não estão (ainda) nas telas nos computadores, mas nas páginas dos livros e muitas vezes em algo ainda mais antigo do mundo analógico, num discurso de alguém que fala sobre o que sabe e sabe muito.

Lembro da descoberta da importância de se perseguir um ideal político nas páginas de Les Thibault, de Roger Martin de Gard.

Da permissividade do sexo em o Amante de Lady Chaterlley, de D.H. Lawrence, ou como ele pode ser encarado de uma forma irônica e divertida, em Il Decameron de Bocaccio.

Da criatividade sem limites na literatura de Phillip Roth, de Ian MC Evans, do Padura, do Raduan Nassar e do Alejo Carpentier.

Da clareza de como a história é escrita, no Manifesto Comunista de Marx e Engels

De como se faz a revolução, nos textos de Lenin e Trotski

Da nossa miséria política, em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos

Da poesia nos versos de  Drummond (De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco)

De querer saber em profundidade o que acontece no Oriente Médio, em A Grande Guerra pela Civilização de Robert Fisk.

De buscar argumentos para justificar o ateísmo, nos livros do biólogo Richard Dawkins.

Por que não mergulhar hoje no mar caótico do pensamento de Slavoj Zizek ou no racionalismo de Meszaros, em vez dos games do computador?

Quantos discursos nos ensinaram muito mais do que se pode encontrar na Wikipédia ou no Google

O professor Macarthy Moreira e suas aulas de História, primeiro no Julinho e depois no curso de História da Faculdade de Filosofia da UFRGS.

O professor Álvaro Bianchi, falando sobre Gramsci e sua obra.

E, mais do que todos, a lembrança inesquecível de uma série de conferências de Jacob Gorender, na década de 60, explicando para uma juventude totalmente analógica, o que era o Humanismo Marxista

Quando o nazismo imperava na Alemanha, livros eram queimados em praça pública, sinal de que eles eram importantes e para nós, seres analógicos, eles o serão por muito tempo.

Sobre o livro de Jessé de Souza, que motivou esse comentário, eu o recomendo pelo esforço que faz para desnudar toda a trama dos que tentam nos convencer a aceitar a atual realidade política do Brasil, pois como diz o autor “se o dominado socialmente não se convence de sua inferioridade, não existe dominação social possível”.

Precisamos dar às coisas seus nomes verdadeiros

No momento em que se reabre a questão sobre com que nome devemos chamar aquela grande avenida que vai da Rodoviária até a ponte do Guaíba, se de Legalidade ou de Castelo Branco, podemos perceber, mais uma vez que não são simples nomes que se debatem, mas conceitos políticos e até mesmo a história, que estão em jogos.

Além dessa escolha (obviamente, eu escolho Legalidade) precisamos definir também o significado de algumas palavras da nossa língua, antes que se estabeleça uma anarquia total, onde a cada dia, velhos termos, que ontem serviam como sinônimos de alguma coisa, hoje são seus antônimos.
Um exemplo: Michel Temer, já foi chamado de um grande constitucionalista e se auto considera um democrata e tem horror que o chamem de golpista e traidor. Mas, todo mundo sabe que ele participou do movimento para derrubar uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu nenhum ato atentatório à constituição e que isso foi um gesto de traição à democracia.

Outro dia, o seu amigo (parece que não é mais), o Joelson Batista, o chamou de “o ladrão geral da República”.

Constitucionalista, democrata, golpista ou ladrão?

Precisamos definir com urgência o significado de algumas palavras fundamentais para a vida política brasileira.
Começamos pela mais usada e pervertida de todas as palavras, democracia e na sequência, os que dizem a respeitar, os democratas.
A sua mais simples definição é aquela que diz que democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo.
Como vivemos numa época onde cada vez mais dependemos do que dizem as fontes eletrônicas, vamos copiar a Wikipédia:
“Democracia é um regime político em que todos os cidadãos participam igualmente, diretamente ou através de representantes eleitos, na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal. “
Parece um saco sem fundo, onde cabe a maioria dos políticos brasileiros, porque todos eles, inclusive Michel Temer, repetem essas definições em seus discursos.
Golpe de estado ou revolução?
Na visão clássica dessas duas palavras, golpe significa derrubar, ilegalmente, um governo constitucionalmente legítimo e revolução, uma mudança drástica na organização social e econômica de um país.
O ilegalmente, presente na definição de golpe de estado, é que abre a perspectiva de grandes confusões, pois que entra no campo jurídico onde as interpretações, às vezes, valem mais do que as certezas.
No consenso da maioria das pessoas, qual seria o maior golpe, dado ilegalmente, contra a democracia na história da humanidade. Possivelmente, Adolf Hitler, com a instauração do regime nazista na Alemanha, seria o mais indicado. Só que, tecnicamente, Hitler chegou ao poder pela via parlamentar em 1933. Seu partido, o Nacional Socialista, foi escolhido pelo Presidente Hindenburg para formar o governo.
O golpe que Hitler deu, o famoso Putsch de Munique, 10 anos antes, só rendeu a ele algum tempo de prisão.
O conceito de revolução pode ser aplicado à francesa, à chinesa, à soviética, à Inglesa e à cubana, com mais ou menos precisão, porque elas tiveram um sentido de lutas de classe e mudaram, pelo menos durante algum tempo, a correlação entre as forças sociais e políticas de seus países.
Enquanto a palavra golpe é abominada pelos seus autores, a palavra revolução é sempre benvinda, mesmo quando não tem essas características.
No Rio Grande do Sul, chamam o movimento dos grandes fazendeiros contra o poder central por divergências menores em questões econômicas, de Revolução Farroupilha. Obviamente um exagero, tanto quanto chamar os movimentos de 1930 e 1932, de revoluções.
A de 30, que levou Getúlio Vargas ao governo, ainda poderia ter algumas características revolucionárias, na medida que tentou substituir um grupo conservador por outro mais avançado politicamente, embora na essência o poder real continuasse longe do povo que o movimento dizia representar.
A de 32, dita constitucionalista, foi uma tentativa dos derrotados em 30, de recuperar o terreno perdido. Ela olhava para o passado e não para o futuro, como devem ser as revoluções.
Em 1964, os generais que tomaram o poder no Brasil, batizaram o movimento de Revolução de 31 de Março. Não foi nunca uma revolução, e nem foi no dia 31 de março. Foi um golpe de estado e se deu no dia primeiro de abril, o chamado dia dos bobos.
Supondo que os estudiosos da língua portuguesa chegassem a conclusão que a definição de democracia está correta – é a expressão da vontade do povo – seria preciso então se adotar com urgência, medidas que estimulasse essa vontade a se expressar livremente e depois, que ela não pudesse ser fraudada.
Em 1917, depois que os bolcheviques assumiram o poder na Rússia, Lenin disse aos seus seguidores que o processo revolucionário recém estava começando. A grande batalha não fora derrubar o regime do Tzar e depois o governo de Kerensky, mas conscientizar o povo dos seus direitos como classe social.
Então, as tarefas da esquerda hoje são, menos pensar sobre como vencer as eleições, embora não possa se omitir também de 2018, e mais, a de começar a explicar para o povo o significado de algumas palavras, para que ele possa identificar com mais precisão quem são, por exemplo, os democratas e os golpistas.
Com Lula e Dilma, o PT chegou ao governo no Brasil, mas nunca teve o poder real em suas mãos. Por uma série de razões, ele deixou escapar essa oportunidade histórica e permitiu com suas alianças espúrias, inclusive um retrocesso político.
Os erros e vacilações do governo Jango ajudaram um golpe militar que durante 20 anos atrasou o desenvolvimento democrático do Brasil.
O novo golpe em 2016, em boa parte fruto das políticas de acomodação de Lula e Dilma, precisa ter uma vida menor. Para isso é preciso começar logo o processo de conscientização de todo o povo.
A discussão franca e aberta sobre os erros cometidos pelo PT e seus aliados é um primeiro passo nesse sentido

Nós, os ateus.

O momento em que o Supremo Tribunal Federal discute a constitucionalidade do ensino da religião nas escolas públicas é bem adequado para se falar sobre o significado da religião nas nossas vidas.
O apresentador de televisão, José Luiz Datena, do alto de sua ignorância, descobriu a razão de tantos crimes que fazem o sucesso do seu programa: é tudo por causa dos ateus e explicou: “o sujeito ateu não tem limites. São os caras do mal. O sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não respeita limite nenhum”.
O que podemos dizer, nós, os ateus?
Que o ateísmo é a forma mais alta do humanismo, porque seus valores éticos dizem respeito apenas ao homem e não existem para garantir prêmios na eternidade.
Que o mesmo não pode se dizer dos religiosos, porque sua história está cheia de exemplos de pessoas que falando em nome de Deus ou da religião, cometeram os maiores crimes. A Inquisição, as cruzadas, a caça às bruxas feiticeiras, foram feitas em nome da fé cristã.
É difícil a vida para um ateu numa sociedade onde a religião está presente em tudo, a tal ponto que o homem comum, mesmo que não seja religioso, fica com vergonha de confessar que é, no mínimo, um descrente. E não estamos falando em países com governos teocráticos, onde estado e religião se confundem.
Pensamos no Brasil, um país teoricamente laico, mas onde são comemorados como feriados oficiais eventos de uma religião, a católica. É o Natal, é a Páscoa, são santos de mais ou menos prestígio, lembrados com festas, sem que se pergunte se estamos todos de acordo.
Desde que nascem, os brasileiros são treinados para serem cristãos. Primeiros as cerimônias cheias de mistério como o batismo, a crisma e a comunhão, com um ritual que envolve as mentes mais jovens. Depois é o discurso dos padres, dos professores, da mídia, como se tudo isso fosse muito natural. Como se não houvesse outra forma de pensar.
Felizmente, para os arautos dessas crenças, o slogan “crê ou morre” ficou para trás, ou pelo menos para a maioria, porque sempre sobrará um sujeito na televisão para nos condenar ao fogo do inferno.
Contra esta blitz mística, só nos resta levantar a bandeira da razão, embora digam que a fé não tem nada a ver com a razão. Mas, pelo menos, deixem a razão conosco e fiquem com a fé que escolheram.
Uma razão baseada em livros, como A Origem do Cristianismo, de Karl Kautsky, editado na Alemanha em 1908 e traduzido no Brasil, pelo professor Moniz Bandeira, para a Civilização Brasileira.
Durante muito tempo, Kautsky teve seu nome associado ao qualificativo de “renegado” que lhe foi aposto por Lênin, pelas suas críticas ao regime bolchevista da União Soviética, mas mesmo Lênin sempre reconheceu que Kautsky, soube usar, como ninguém, as armas do materialismo dialético para reconstruir a história do mito de Jesus Cristo e do cristianismo na Palestina ocupada pelos romanos.
Kautsky mostra como o cristianismo deixou de ser um partido político dentro do judaísmo e se tornou um partido dos gentios, externo e hostil ao judaísmo e se transformou, num dos fenômenos mais gigantescos da história da humanidade, que perdura há mais de dois milênios.
Quando morava no Bom Fim, vizinho à escola pública Anne Frank, costumava ouvir uma professora, coma voz amplificada por um sistema de som, nas vésperas do Natal, contar aos seus alunos, reunidos no pátio, a história do Menino Jesus e da manjedoura de Belém, onde Maria e José teriam ido por causa do censo do Imperador Augusto.
Ficava, então, tentado a oferecer a ela o livro do Kautsky, onde ele explica que o censo foi feito quando Jesus teria sete anos, que ninguém se deslocava de um lugar para o outro para responder ao censo e que os evangelistas que escreveram esta história, sabiam que um personagem que se pretendia Deus, não poderia nascer na Galiléia e sim em Belém, terra do rei David, do qual o novo messias seria herdeiro.
A nossa professora e seus alunos poderiam ficar sabendo também que as fontes pagãs da época não falam de Jesus, mesmo que ele tenha feito coisas assombrosas como ressuscitar os mortos e transformar água em vinho diante de centenas de pessoas.
Essas versões só vão aparecer nas fontes religiosas, muitos anos depois, apresentadas com riqueza de detalhes por Marcos, Lucas, Mateus e João, Mas são histórias escritas entre 50 e 200 anos depois do que os fatos pretensamente ocorreram, uma época em que os documentos escritos eram escassos e o que existiam eram apenas testemunhos orais.
Os textos dos evangelistas, mais do que documentos históricos, eram peças de um marketing político, destinado a convencer seus adeptos. Mesmo com o esforço da igreja, no correr dos séculos, de depurar as contradições existentes entre eles, a leitura de Kautsky flagrou dezenas delas.
O famoso milagre da ressurreição, por exemplo. Marcos, que escreveu pouco mais de 50 anos depois dos acontecimentos, diz que Jesus foi chamado ao leito da filha de Jairo, que estava prestes a morrer. Todos pensavam que ela estava morta, mas Jesus diz: “A moça não está morta, mas dormindo” . E põe a mão sobre ela e ela levanta (Marcos,V) .
Lucas, bem mais tarde, fala sobre o jovem de Naim. Quando Jesus o encontrou, havia transcorrido, desde a morte, tempo suficiente para que estivesse a caminho do cemitério. Jesus o levantou do seu caixão (Lucas, VII).
Dezenas de anos depois, João narra a ressurreição de Lázaro, “que estava morto há quatro dias”.(João, XI). Quanto mais distante dos fatos, mais as histórias ganham em detalhes milagrosos capazes de emocionar os novos adeptos.
Pensando melhor, acho que fiz bem em não oferecer o livro de Kautsky.para a professora do Anne Frank. Além de ter mais de 500 páginas, ela iria preferir continuar acreditando nas histórias que lhe contaram na infância que, diga-se de passagem, são bem mais interessantes.

Eu gosto de cidades.

A cidade, principalmente a grande cidade, é a forma mais civilizada que o homem já encontrou para estabelecer uma relação construtiva com outros homens.

É só nela que existe o espaço suficiente para que ele realize todas suas potencialidades como ser político, como construtor, como artista.

Desde a pólis grega, foi sempre nas cidades que o futuro da humanidade foi escrito. O renascimento não existiria sem Firenze e Roma. As caravelas que fizeram os grandes descobrimentos  partiram de Gênova e Lisboa. A Revolução Francesa aconteceu em Paris. Foi com a tomada do Palácio de Inverno em São Petersburgo que se deu início à Revolução Comunista. As Torres Gêmeas, cuja destruição provocou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, estavam em Nova York.

Juscelino dizia que o Brasil precisava de uma nova cidade como capital e Niemayer e Lúcio Costa construíram Brasília, essa bela e grande cidade onde antes não havia nada.

Os poetas populares cantam sempre as grandes cidades, como o Rio de Janeiro (Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil, de André Filho); São Paulo (Sampa – Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta de tuas esquinas, a deselegância discreta de tuas meninas, do Caetano Veloso); Porto Alegre (Porto Alegre me faz tão sentimental. Porto Alegre me dói. Não diga a ninguém, Porto Alegre me tem. Não leve a mal, a saudade é demais. É lá que eu vivo em paz, do Fogaça)

Os poetas maiores, como Carlos Drummond de Andrade, também cantaram as cidades

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

Onde antes havia um campo aberto, um lugar selvagem e sem ordem, o homem organizou os caminhos. Traçou ruas, criou praças, tornou possível a proximidade entre as pessoas. Criou espaços: aqui a escola, ali a igreja, mais adiante o teatro, o estádio para esportes, e pôs tudo isso em mapas, para as pessoas pudessem rapidamente chegar aos seus destinos.

Pena que a maioria delas seja ainda cidades divididas por muros e cercas que separam brancos, de negros, ricos, de pobres.

Mas isso não é culpa das cidades. É culpa do sistema capitalista, que as criou quando destruiu o feudalismo, mas que não percebe que seu tempo terminou e não dá lugar ao novo, ao socialismo.

Eu gosto muito das cidades, como também um dia cantou Renato Russo (Acho que gosto de São Paulo e gosto de São João. Gosto de São Francisco e São Sebastião).

Gosto de Paris, de Porto Alegre, de Berlim, de Pelotas, de Amsterdam, de Viamão, da Colônia do Sacramento, de Atenas, de Torres, de Rothenburg ob der Tauber, de Uruguaiana, de Mendoza, de Moscou, de São Miguel das Missões, de Istambul, de Torres, de Karlov Vary, de Rio Grande, de Budapeste,de Cuzco, de Dresden,  de Cidreira, de Cesky Krumlov, de Lisboa,de San Pedro do Atacama, também de Sebastião do Cai e vou gostar de Cartagena de las Indias, quando a conhecer.

Um retrato dos brasileiros

Não existem mais marchinhas de carnaval, ou, se existem, ninguém as canta mais. No passado, um mês antes das chamadas “folias de Momo”, as rádios já começavam a tocar as que seriam sucessos e uma revista, O Rouxinol,  aparecia nas bancas para ajudar os “foliões”, outra categoria social em extinção, a decorar as letras.

Está caindo de maduro o tema para alguns dos nossos sociólogos de plantão fazer um inventário desse Brasil da década de 50 cantado no carnaval, a se  acreditar que as marchinhas representavam aqueles momentos onde se deixava de lado a hipocrisia, os bons costumes e se dizia o que realmente se pensava.

Vai aparecer então um País profundamente preconceituoso contra o homossexual em primeiro lugar:

“Se veste de baiana/ para fingir que é mulher/ vai ver que é, vai ver que é”

“Olha a cabeleira do Zezé / será que ele é? / será que ele é? / será que ele é bossa nova? / será que ele é Maomé? / parece que é transviado / mas isso eu não sei se ele é / corta o cabelo dele! / corta o cabelo dele! ”

“Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão / de dia é Maria, de noite é João”

Contra os mais velhos:

“A pipa do vovô não sobe mais / a pipa do vovô não sobe mais / apesar de fazer muita força / o vovô foi passado pra trás”

Contra as liberdades femininas

“Mulher casada que fica sozinha é andorinha, é andorinha”

“Papai Adão, papai Adão/ Papai Adão já foi o tal/Hoje é Eva quem manobra/E a culpada foi a cobra/Uma folha de parreira/Uma Eva sem juízo/Uma cobra traiçoeira/Lá se foi o paraíso/Hoje é Eva quem manobra/E a culpada foi a cobra”.

“Maria Escandalosa desde criança sempre deu alteração / na escola não dava bola, só aprendia o que não era da lição / depois, a Maria cresceu, juízo que é bom encolheu / e a Maria Escandalosa é muito prosa, é mentirosa, mas é muito gostosa / hoje ela não sabe nada de História e de Geografia / mas seu corpo de sereia dá aula de Anatomia”

Contra os negros:

“Tava jogando sinuca / uma nega maluca me apareceu / vinha com um filho no colo / e dizia pro povo que o filho era meu / não senhor, toma que o filho é seu / não senhor, pegue o que Deus lhe deu”

“O teu cabelo não nega mulata / porque és mulata na cor / mas, como a cor não pega, mulata / mulata, eu quero o teu amor”

A favor do consumo de drogas:

“Pode me faltar tudo na vida / arroz, feijão e pão / pode me faltar manteiga / e tudo mais não faz falta não / pode me faltar o amor, disso eu até acho graça / só não quero que me falte / a danada da cachaça”

“Seu delegado não quer que fume isso não, pode dar confusão no salão, mas bote mais um bocadinho que eu vou ao chão devagarinho”

“Você pensa que cachaça é água/ cachaça não é água não/ cachaça vem do alambique e a água vem do ribeirão”.

Mas é claro que havia também muita marchinha com conteúdo social.

Vamos lembrar algumas:

“Marcha do Caracol”, de Peter Pan/Afonso Teixeira: “Há quanto tempo não tenho onde morar/Se é chuva apanho chuva/Se é sol apanho sol/Francamente, pra viver nessa agonia/ Eu preferia ter nascido caracol/Levava a minha casa nas costas muito bem/Não pagava aluguel nem luvas a ninguém!/Morava um dia aqui, um outro acolá/Leblon, Copacabana, Madureira ou Irajá!”

 

“Pedreiro Waldemar”, de Roberto Martins/Wilson Batista, aborda o tema pelo lado do protesto social: “Você conhece o pedreiro Waldemar?/Não conhece, mas eu vou lhe apresentar/De madrugada toma o trem da circular/Faz tanta casa e não tem casa pra morar/Leva a marmita embrulhada no jornal/Se tem almoço, nem sempre tem jantar/O

“Yes! Nós Temos Bananas” (João de Barro/Alberto Ribeiro): “Yes! Nós temos bananas/Bananas pra dar e vender/Banana, menina, tem vitamina/Banana engorda e faz crescer/Vai para a França o café/Pois é!/Para o Japão o algodão/Pois não!/Pro mundo inteiro/”Home”ou mulher/Bananas para quem quiser”.Waldemar, que é mestre no ofício/Constrói o edifício e depois não pode entrar”.

“Cordão dos Puxa-Sacos”, de Frazão e Roberto Martins, que diz: “Lá vem o cordão dos puxa-sacos, dando vivas aos seus maiorais/Quem está na frente é passado pra trás/E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais/Vossa Excelência, Vossa Eminência/Quanta reverência nos cordões eleitorais/Mas se o doutor cai do galho e vai ao chão/A turma toda ‘evolui’ de opinião/E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”.

Em 1950, na voz de Francisco Alves, a marchinha que embalou a volta de Getúlio Vargas ao poder foi “Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo/Marino Pinto:

“Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar/O sorriso do velhinho/Faz a gente trabalhar, oi!/Eu já botei o meu/E tu não vais botar?/Já enfeitei o meu/E tu vais enfeitar?/O sorriso do velhinho/Faz a gente se animar, oi!”

Quem sabe, em vez de Getúlio, em 2018, possamos pensar no Lula e cantar

“Bota o retrato do Lula outra vez Bota no mesmo lugar

Os bons tempos em que se tinha pecados para contar

 

Minha amiga, Ingrid Schneider, com a sua severa educação luterana, certamente não conhece as delícias da permissividade católica.
Como li em algum lugar que devemos compartilhar experiências, conto a minha, antes de virar ateu, como antigo pecador católico.
Mesmo que cometesse o mais grave dos pecados, qualquer um podia se salvar do fogo do inferno, desde que manifestasse um arrependimento sincero. Nesse caso, teria que passar algum tempo no purgatório, uma espécie de estágio comprobatório, que nos casos mais graves poderia se arrastar até o Juízo Final. Ficava, porém, o consolo que um dia ele iria para o céu.
Mas, o melhor mesmo era a forma mais ortodoxa, uma confissão de todos os pecados diante de um padre no confessionário de uma igreja,quando você saia totalmente limpo e no caso de uma morte inesperada, subiria diretamente para o céu sem qualquer escala.
Garoto de uns 10 anos, em Farroupilha, na preparação para a primeira comunhão, me juntei a outros meninos e meninas da minha idade, para receber um treinamento para a confissão, uma espécie de cursinho de noivos, que parece ainda existir. Era como esses astronautas que simulam situações de voo, sem sair da terra.
Num móvel que parecia um grande armário, com uma cadeira almofadada no meio, o padre Bombardeli, apoplético e suarento naquele mês de dezembro, se fechava nesse cubículo e abria pequenas janelas, tapadas com uma treliça, para ouvir os candidatos a pecadores, um de cada lado.
Havia uma fórmula pronta com diálogos que devíamos seguir
– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
– Para sempre seja louvado
– Perdão, padre, porque eu pequei
– Quantas vezes?
Aí cabia a cada um fazer a sua matemática.
A etapa seguinte era lembrar que atos tinham violado basicamente os Dez Mandamentos, embora houvesse outros desvios de conduta que poderiam ser catalogados como pecados venais.
Tinha sido ensinado que podíamos pecar por atos, palavras e pensamentos. Aí é que residia o problema. Desejar a mulher do próximo era um pouco vago. Como passávamos a maior parte do tempo sonhando em finalmente, um dia, encontrar uma mulher de verdade nua, mesmo que fosse uma prima ou até mesmo uma tia, isso seria um pecado? Venal ou mortal? E, cobiçar coisas alheias incluiria o desejo de ter uma coleção de gibis igual a do colega de aula? Isso mereceria ser contado para o Padre Bombardeli?
– Na dúvida era melhor contar, principalmente depois que o padre lembrou aquela história do sujeito que cometeu um pecado grave, não contou no confessionário, foi comungar e na hora em que recebia a hóstia, ela começou a sangrar,obviamente o sangue de Cristo, que sofria novamente porque não queria entrar naquele corpo impuro.
Então se confessava tudo e mais um pouco.
Cada um saía do confessionário com a sua penitência – rezar tantas Aves Marias, Padres Nossos e Creio em Deus Padre – proporcional à gravidade dos seus pecados, numa espécie de dosimetria sagrada.
O Maninho, que minha mãe não considerava uma boa companhia para mim, disse que tinha rezas para o dia inteiro.
Anos mais tarde, quando já não frequentava mais igrejas e confessionários, um amigo que ainda conservava esses hábitos, disse que os padres tinham evoluído em seus questionamentos. Segundo ele, um dos novos padres lhe perguntou de cara – quantas vezes praticastes o abominável coito, meu filho?
Minha amiga, Ingrid Schneider, com a sua severa educação luterana, certamente não conhece as delícias da permissividade católica.
Como li em algum lugar que devemos compartilhar experiências, conto a minha, antes de virar ateu, como antigo pecador católico.
Mesmo que cometesse o mais grave dos pecados, qualquer um podia se salvar do fogo do inferno, desde que manifestasse um arrependimento sincero. Nesse caso, teria que passar algum tempo no purgatório, uma espécie de estágio comprobatório, que nos casos mais graves poderia se arrastar até o Juízo Final. Ficava, porém, o consolo que um dia ele iria para o céu.
Mas, o melhor mesmo era a forma mais ortodoxa, uma confissão de todos os pecados diante de um padre no confessionário de uma igreja,quando você saia totalmente limpo e no caso de uma morte inesperada, subiria diretamente para o céu sem qualquer escala.
Garoto de uns 10 anos, em Farroupilha, na preparação para a primeira comunhão, me juntei a outros meninos e meninas da minha idade, para receber um treinamento para a confissão, uma espécie de cursinho de noivos, que parece ainda existir. Era como esses astronautas que simulam situações de voo, sem sair da terra.
Num móvel que parecia um grande armário, com uma cadeira almofadada no meio, o padre Bombardeli, apoplético e suarento naquele mês de dezembro, se fechava nesse cubículo e abria pequenas janelas, tapadas com uma treliça, para ouvir os candidatos a pecadores, um de cada lado.
Havia uma fórmula pronta com diálogos que devíamos seguir
– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
– Para sempre seja louvado
– Perdão, padre, porque eu pequei
– Quantas vezes?
Aí cabia a cada um fazer a sua matemática.
A etapa seguinte era lembrar que atos tinham violado basicamente os Dez Mandamentos, embora houvesse outros desvios de conduta que poderiam ser catalogados como pecados venais.
Tinha sido ensinado que podíamos pecar por atos, palavras e pensamentos. Aí é que residia o problema. Desejar a mulher do próximo era um pouco vago. Como passávamos a maior parte do tempo sonhando em finalmente, um dia, encontrar uma mulher de verdade nua, mesmo que fosse uma prima ou até mesmo uma tia, isso seria um pecado? Venal ou mortal? E, cobiçar coisas alheias incluiria o desejo de ter uma coleção de gibis igual a do colega de aula? Isso mereceria ser contado para o Padre Bombardeli?
– Na dúvida era melhor contar, principalmente depois que o padre lembrou aquela história do sujeito que cometeu um pecado grave, não contou no confessionário, foi comungar e na hora em que recebia a hóstia, ela começou a sangrar,obviamente o sangue de Cristo, que sofria novamente porque não queria entrar naquele corpo impuro.
Então se confessava tudo e mais um pouco.
Cada um saía do confessionário com a sua penitência – rezar tantas Aves Marias, Padres Nossos e Creio em Deus Padre – proporcional à gravidade dos seus pecados, numa espécie de dosimetria sagrada.
O Maninho, que minha mãe não considerava uma boa companhia para mim, disse que tinha rezas para o dia inteiro.
Anos mais tarde, quando já não frequentava mais igrejas e confessionários, um amigo que ainda conservava esses hábitos, disse que os padres tinham evoluído em seus questionamentos. Segundo ele, um dos novos padres lhe perguntou de cara – quantas vezes praticastes o abominável coito, meu filho?

O último grande gesto de solidariedade humana

A Guerra Civil Espanhola, de 1936 e 1939, onde os dois lados representavam claramente a divisão ideológica em que vivia o mundo, socialistas republicanos de um lado e fascistas da extrema direita do outro, continua dando argumentos para novas e importantes obras de ficção.

Há dois anos, Lydie Salvayre venceu o prêmio Goncourt, o mais importante prêmio literário da França com o romance “Pas Pleurer. Filha de republicanos espanhóis que emigraram para o sul da França para escapar do franquismo, Lydie. com o seu livro, mostra que o assunto está longe de se esgotar num momento em que as divisões ideológicas voltam a se acentuar em todo mundo.

Antes dela, vários outros escritores, usaram essa guerra como tema, com destaque para Ernest Hemingway, que foi motorista de ambulâncias no lado republicano, com o seu clássico Por Quem os Sinos Dobram e Gerorge Orwell, que lutou ao lado do POUM contra os fascistas, e que descreveu esse período em Homenagem à Catalunha.

Até mesmo Érico Veríssimo, usou a guerra para um livro menor em sua obra literária, Saga, um romance dentro do ciclo urbano de Érico, narra a trajetória de Vasco Bruno, desde sua vivência na guerra, na Espanha,até o seu retorno a Porto Alegre.

Eu volto ao tema motivado pela leitura do magnífico livro de Alejo Carpentier, Sagração da Primavera, em que ele retoma o tema da Guerra Civil e mais especificamente a ação das Brigadas Internacionais que lutaram ao lado da República.

Talvez a Brigadas Internacionais tenham sido o último grande gesto a marcar uma solidariedade entre os homens, acima dos países, das bandeiras, dos mesquinhos interesses nacionais, todos unidos na defesa de algo muito tênue, mas fundamental para a preservação da condição humana, uma ideia.

Carpentier descreve assim a ida do seu alter ego, o cubano Henrique, para se juntar às brigadas na Espanha: “E às 10 da noite, sob os amplos vidros da Gare d´Austerlitz, o trem começa a andar. Então, enorme, multitudinária, tremembunda, em plataformas repletas de gente, e nos vagões que já começam a rodar, soa, solene, acolhedora, a Internacional, tal qual um Magnificat cantado em nave de abóbadas, sobre o organum da locomotiva, que, com um longo assobio, toma o rumo dos Pirineus”.

Foram quase três mil combatentes, vindos de cerca de 70 países diferentes, inclusive o Brasil, mas majoritariamente da França, Alemanha, Polônia e Itália.

Enquanto se travavam furiosas batalhas em Bilbao, Santander, Gijon, Almeria, Turuel, Ebro e a decisiva por Madri, o que une os brigadistas é a Internacional, com suas primeiras estrofes cantadas em uma babel de línguas:

De pé, ó vítimas da fome.

Arise! Ye starvellings from your slumbers.

Wacht auf. Verdammte diese erde.

Compagni avanti il gran partito.

Debout, les dannés de la terre.

Arriba, parias de la tierra.

No outono de 38, a República apresentou uma proposta ao Comitê de Não Intervenção, coordenado pela Inglaterra e França, incluindo a saída da Espanha dos combatentes estrangeiros. As Brigadas Internacionais foram dissolvidas, mas a Alemanha nazista e a Itália fascista continuaram, porém, apoiando Franco com armas e homens até a sua vitória final, em abril de 1939.

Nunca mais depois disso, surgiu um outro grande movimento capaz de unir todos os homens em torno de um objetivo comum, quando, como diz um personagem do autor, “tudo se resume em saber se você está com o cão ou quer acabar com o cão. O resto é perfumaria.”

A leitura de Carpentier nos leva a sonhar que um novo homem talvez seja possível com os mesmos propósitos que uniram os que lutaram nas Brigadas Internacionais.

À procura de Eric

Aos 81 amos, Ken Loach é seguramente, o mais importante diretor de cinema inglês da atualidade No ano passado, ele ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, como filme Eu, Daniel Black, um emocionante relato de como a sociedade capitalista trata as pessoas mais velhas.

Dez anos antes ele já tinha sido laureado em Cannes com Ventos da Liberdade (Wind That Shakes the Barley),  certamente o mais importante relato no cinema da luta dos republicanos do IRA pela libertação da Irlanda, apresentados com seus belos ideais e suas profundas contradições.

Loach começou na televisão inglesa, a BBC, e se destacou como roteirista e diretor durante a década de 60. Mais tarde, já nos anos 80, se integrou a um grupo de diretores como Mike Leigh e Stephen Frears, ajudando a renovar o cinema inglês e dando aos seus filmes sempre um olhar crítico sobre o capitalismo.

É dessa época alguns dos seus melhores filmes, além Ventos da Liberdade, como Terra e Liberdade e Pão e Rosas.

Portanto, sua união com o ex-jogador de futebol Eric Cantona para realizar um filme produzido e interpretado pelo ex-atleta, causou algum tipo de espanto, mas o resultado final foi muito melhor do que poderia esperar.

Eric Cantona nasceu em Marseille em 1966 e começou bastante jovem no Auxerre, passando depois por vários clubes franceses – Marseille,Bordeaux, Montempellier e Nimes – onde sempre se destacou com um dos melhores atacantes do futebol europeu, mas também pelas suas brigas com dirigentes, técnicos, colegas e torcedores.

Na busca de novos ares, chegou à Inglaterra em 1992, começando a jogar pelo Leeds United, passando depois para Manchester United, onde atuou até 1997, sendo eleito como o jogador do século do famoso clube inglês.

Em 1997, num jogo contra o Cristal Palace, protagonizou um feito que acabou por abreviar sua carreira. Expulso do jogo mais uma vez, quando se retirava para o vestiário, se irritou com a vaia dos torcedores adversários, pulou a cerca que separava as arquibancadas do gramado e deu uma “voadora” e uma saraivada de socos sobre um dos espectadores, mais tarde identificado como um hooligan, membro do grupo de extrema direita National Front.

Foi suspenso do futebol por nove meses, o que impossibilitou sua convocação, até então tida como certa, para a seleção Francesa que ganharia a Copa do Mundo do ano seguinte.

Decepcionado, Cantona abandonou o futebol e iniciou uma carreira de ator, se transformando em garoto propaganda de uma empresa de artigos esportivos. Em 2009, resolveu aplicar parte do dinheiro que tinha ganho na produção de um filme, onde, obviamente o herói seria ele mesmo.

O filme À Procura de Eric (Lookink for Eric) conta a história de um carteiro inglês, torcedor apaixonado do Manchestes United, vivendo numa enorme crise financeira e emocional, que acaba encontrando a felicidade depois de ouvir os conselhos de Cantona, inicialmente apenas um grande pôster em seu quarto, mas que depois se transforma num personagem vivo que dialoga com o carteiro.

Considerado um artista totalmente engajado em temáticas sociais e mostrando sempre uma posição de esquerda, Loach faz em “À Procura de Eric” um filme que beira a pieguice e que não escapa de um happy end digno de Hollywood, talvez até por influência do produtor Cantona. Mesmo assim é um filme que vale a pena ser visto, principalmente quando o diretor consegue trazer para a tela o clima de companheirismo entre o carteiro e seus amigos e pela sempre presente ironia inglesa nos diálogos entre os personagens principais. Uma das cenas mais engraçadas do filme é quando um dos companheiros do carteiro estimula o grupo a realizar um exercício ensinado num dos muitos livros de auto-ajuda que costuma roubar das livrarias. Cada um dos integrantes do grupo deve se inspirar num personagem famoso, como Mandela, Fidel Castro, Gandhi, e, é claro, Eric Cantona.

Quando esteve no Brasil para promover o filme, Cantona teve que responder àquela inevitável pergunta – quem foi melhor, Pelé ou Maradona?  Como craque que foi, ele foi tirou de letra : “Pelé foi um atleta extraordinário, mas como pessoa capaz de assumir riscos para fazer valer suas posições, Maradona foi muito maior”

Mesmo não figurando entre os melhores filmes de Ken Loach vale a pena ver À Procura de Eric.

A família, a religião e a democracia

 

No seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels mostra que a organização familiar foi a primeira forma organizada do ser humano a estabelecer regras de procedimento nas relações entre as pessoas, pondo um limite na violência atávica que permitia aos mais fortes impor suas vontades.
Baseado nos estudos do antropólogo Lewis Henry Morgan sobre os índios norte-americanos da tribo iroquesa, Engels comprovou que o desenvolvimento da família, das antigas formas tribais até chegar ao modelo monogâmico de hoje, está ligado à forma como os grupos humanos se apropriam das riquezas naturais da terra.
Segundo ele, nesse desenvolvimento histórico, podemos definir a existência de três etapas, anteriores ao atual modelo familiar:
1) A família consanguínea, com o casamento de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo.
2) A família punaluana, com o casamento coletivo de grupos de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo
3) A família sindiásmica, com as uniões por casais durante um determinado tempo, mas já com o aparecimento de uma esposar principal e de um esposo principal.
Quando, em virtude do desenvolvimento das formas de produção, o homem já havia conseguido dominar boa parte das forças da natureza e começado a acumular riquezas, desenvolveu-se nele um forte sentimento de egoísmo, fazendo com que ele sentisse a necessidade de identificar seus filhos, que seriam os herdeiros de suas riquezas.
Segundo Engels, esse modelo de monogamia teria surgido na antiguidade clássica, há três mil anos e que, de uma maneira ou outra se preserva até hoje nas suas linhas gerais.
Nesse formato de relação, Engels vê também a origem da opressão das mulheres e o estabelecimento da prostituição, desmentindo a ideia de que elas acompanhariam todas as formas de relacionamentos entre homens e mulheres.
Com a apropriação privada pelas famílias mais fortes, ou mais competentes, das riquezas que antes eram de todo o grupo, essas famílias, trataram de criar um tipo de superestrutura capaz de estabelecer regras de convívio entre todos, impedindo que, as que se atrasaram nessa corrida pelas riquezas, retomassem os procedimentos anteriores de selvageria e desrespeito à propriedade dos outros.
Surge assim o Estado, produto direto da primeira grande divisão de classes da sociedade, destinado a impedir que o status quod conquistado pelos mais ricos pudesse ser alterado.
Essa organização é ainda no seu início bastante frágil e é preciso ser defendida contra o ataque dos excluídos e para isso são estabelecidas determinadas regras, basicamente divididas em dois grupos: as regras de convivência entre pessoas e grupos e regras de compromissos éticos e morais entre os indivíduos.
Estabelecer regras de convivência entre pessoas e grupos com interesses muitas vezes opostos, demandou um esforço muito grande de convencimento, além da criação de uma força de coerção bastante eficiente.
Na Grécia, onde ele foi formulado pela primeira vez, ele tomou o nome de democracia, significando um governo do povo, mas excluía boa parte da população.
Até hoje, a ideia de democracia, principalmente na sua vertente ocidental, pode ser enaltecida em discursos acadêmicos e políticos, mas ao excluir de suas benesses boa parte da população, está sempre sob o ataque dos inconformados.
Este inconformismo pode ser dividido em dois segmentos: o daqueles, que como no ludismo dos trabalhadores inglesas, no início da revolução industrial, queriam destruir as máquinas para preservar seus empregos e são representados hoje pelos seguimentos fascistas que pretendem destruir todo o sistema democrático atual e os que, percebendo seus estreitos limites, querem sua ampliação dos seus aspectos apenas formais para todo o campo social.
Dissemos antes que haviam dois modelos de superestrutura no qual se apoiam a existência do Estado. O primeiro seria a democracia e o segundo a religião.
As grandes religiões monoteístas sempre serviram para justificar a divisão da sociedade em classes (Marx disse com propriedade que a religião era o ópio do povo), na medida em que transferem para um futuro improvável, aquilo que deveria ser conquistado aqui e com isso ajudavam a preservar as diferenças de classe.
Hoje, esses dois elementos – democracia e religião – estão sob o ataque das mentes mais esclarecidas que pretendem aprimorar o primeiro, a democracia e transformar o segundo – a religião, num sentimento apenas pessoal, mas sem maiores significados para o relacionamento social

As cores da política.

Tem gente no Brasil que, analisando a sua realidade, imagina se posicionar politicamente como se tivesse diante de um catálogo colorido, que vai do vermelho da esquerda radical ao azul da extrema direita

A rigor ninguém se assume como de direita no Brasil. De extrema direita, nem pensar. Os extremos assustam.

As pessoas se dizem de centro ou de esquerda com as devidas nuances. Podem de ser apenas de centro, ou, o que é mais comum, o centro adjetivado, centro democrático, centro conservador, centro responsável ou então de esquerda com uma variedade que só encontra similar em produtos de consumo. Tem a esquerda tradicional, a esquerda democrática, a nova esquerda e até a velha esquerda festiva.

Mas basta um determinado evento para que as nuances desapareçam e se volte ao velho e injustamente condenado, maniqueísmo,do certo ou do errado, do branco ou do preto, da esquerda ou da direita.

Na Revolução Russa, cujo centenário já estamos comemorando, todos os tons cinzas desapareceram e ficaram apenas o vermelho da revolução bolchevista e o azul dos monarquistas, cadetes, sociais revolucionários, mencheviques e seus afins.

Veja-se o episódio histórico do impeachment da Presidente Dilma.

Peça para alguém sintetizar numa frase, que tenha apenas sujeito, verbo e complementos, o que aconteceu.

Alguns dirão;

“O Congresso roubou um direito do povo”

Representam a esquerda, no caso.

Outros:

“O Congresso representou a vontade do povo”

Representam a direita, no caso

Haverá, porém, um outro grupo, muito grande, que vai querer usar uma preposição (mas, porém) dando um tom condicional a uma frase que deveria ser afirmativa

“O Congresso se apossou de um direito do povo, MAS, a Dilma deixou o PT roubar”

“O Congresso de apossou de um direito do povo, PORÉM, isso foi necessário para evitar um mal maior”

O uso da preposição encaminha os integrantes desse grupo, irremediavelmente, em termos práticos, para a direita.

Nas eleições de 2018, se não roubarem o direito Lula concorrer (novamente existe aí uma divisão maniqueísta de ser a favor ou contra), o primeiro turno será um deleite para os que olham a política como um caleidoscópio colorido, do vermelho do Ruy Costa Pimenta passando pelas cores que representam o Eymaael, o Zé Maria, a Luciana, o Lula, o Ciro, o Alckmim, o Dória, o Pastor  Everaldo, o Levy Fidelis, até chegar ao azul (talvez o melhor fosse o roxo) do Bolsonaro.

No segundo turno, todo esse colorido vai desaparecer e as pessoas terão que decidir entre o Lula, a esquerda e o Bolsonaro, a direita, sem qualquer nuance.

Será branco ou preto, direita ou esquerda, mais uma vez.

Tomara que seja a esquerda, embora hoje isso pareça mais um sonho.