Os nossos próximos 20 anos.

 

Sem querer ser pessimista (não muito),acho que devemos nos preparar para mais uns 20 anos de um novo modelo autoritário, diferente de 64 porque será formalmente constitucional

Quem votou no Bolsonaro não foi apenas a classe média alienada e que odeia o PT. Ele teve apoio de milhões de pobres cooptados pelo discursos desses pastores dinheiristas das igrejas pentecostais.

Essa gente não quer saber de direitos humanos,liberdades públicas e outras bandeiras democráticas. Ela quer apenas um trabalho que lhe permita chegar ao fim-do-mês.

Então o programa de governo do Bolsonaro será de grandes obras públicas (os empresários ganham e os trabalhadores tem salários). para gerar algum desenvolvimento e muitos empregos.

A diferença do projeto do PT, é que essa ação virá acompanhada de forte repressão aos inconformados, sob a desculpa de mais segurança pública.

É o que o Trump faz nos Estados Unidos, sob a aparência democrática e que vai garantir sua reeleição e que Hitler e o Mussolini fizeram, debaixo de ditaduras fascistas, até porque na Alemanha e na Itália havia uma forte resistência comunista.

Se quisermos outro exemplo para esse possível projeto bolsonariano, podemos pensar no período da ditadura militar autoproclamado de “milagre brasileiro”. Era a época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Talvez a sua nova versão, possa incluir uma conclusão “e vá para a Venezuela”.

A derrota do PT e o futuro do Brasil

A derrota eleitoral do domingo pode ser o estímulo que estava faltando para que as forças de esquerda repensem a realidade brasileira e ofereçam novas alternativas para enfrentar os dias difíceis que se aproximam.

Esse texto  pretende ser, modestamente, minha contribuição a essa processo.

Esperamos que essa derrota seja a última em que nos unimos em torno de  um projeto reformista , que buscava um retorno  a um passado mais idealizado que real, apenas para evitar um mal maior.

O melhor ensinamento que podemos tirar dessa derrota, é de que precisamos arquivar as figuras carismáticas da política, os salvadores da pátria, e aprofundar a nossa visão para além de projetos eleitorais, como tem sido as propostas do PT, o partido que nasceu para liderar os movimentos de trabalhadores do Brasil, mas que se transformou numa organização voltada apenas para ganhar eleições e que, ultimamente, nem isso consegue fazer.

E pior ainda, quando ganhou as eleições foi incapaz de representar os interesses básicos dos trabalhadores,preferindo alianças espúrias, que foram aos poucos minando a confiança que desfrutou  e que nenhuma outra organização partidária tivera antes no Brasil.

O PT, infelizmente, foi incapaz de dar o salto qualitativo, que fizesse dele o guia para a revolução social que o Brasil precisa e por isso sua estrela foi apagando aos poucos.

Todos os grandes movimentos políticos da história tiveram um arcabouço filosófico para sustentá-lo, ou no mínimo uma justificativa histórica que lhe assegurasse um conjunto de valores morais e éticos para congregar em torno de si, pelo menos uma parte da sociedade

O maior exemplo disso é a opção pelo comunismo.

Sem falar em filósofos como Marx e Engels que lhe forneceram o embasamento histórico, econômico e filosófico, os principais lutadores pela causa comunista, não foram apenas ativistas políticos. Seus maiores nomes  mesclavam a luta política e partidária com a busca permanente de uma justificativa histórica para seus atos.

Lênin, Trostki, Gramsci e até mesmo Stalin, não ficaram apenas nas discussões táticas e estratégicas sobre questões políticas, mas buscaram colocá-las sob uma ótica muito mais ampla, procurando apoiar seus posicionamentos num tipo de pensamento universalista, discutindo questões teóricas e principalmente, escrevendo muito sobre elas.

Nessa tradição, os que discutem hoje a opção pelo comunismo, o fazem fugindo das questões típicas das políticas partidárias, buscando uma justificativa para ele a partir de uma ótica muito mais intelectualizada. É o que ocorre com o húngaro Istvan Meszaros, recentemente falecido, os franceses Alain Badiou, Jacques  Rancieri, Pierre Broué, Jean-Jacques Marie e o esloveno Slavoj Zizek.l

Mesmo o nazismo, procurou se justificar não apenas como um partido político, mas como uma corrente de pensamento que privilegiava a idéia da pátria, do povo. Não foi a toa que o grande filósofo Martin Heideger (1889/1976) viu no nazismo de Hitler a retomada do espírito helênico.

Mesmo o capitalismo, em suas diversas etapas de desenvolvimento, se socorreu de pensadores como Keynes inicialmente e depois em Hayek e Mises, quando enveredou pelo neo liberalismo.

Os defensores desse sistema nunca disseram que ele deveria persistir apenas para os ricos ficarem mais ricos, mas que ele  tinha uma justificativa ética.  Max Weber (1864/1920) viu a sua ligação estreita com a religião mais puritana em a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e Francis Fukuyama, em sua obra O Fim da História, viu a democracia liberal ocidental, só possível dentro do capitalismo, como o ponto mais alto que a humanidade poderia chegar em seu desenvolvimento social.

E o trabalhismo e sua versão mais sofisticada no Brasil, o petismo, em algum momento buscou essa sustentação, digamos, filosófica para se justificar?

Ou foi apenas um movimento oportunista, apoiado em figuras carismáticas,  como o trabalhismo tradicional com Getúlio Vargas e agora a sua nova versão,  em Lula?

Vargas, mais do que Lula, tinha um projeto nacionalista de desenvolvimento industrial e aproveitando as circunstâncias oriundas da Segunda Guerra Mundial avançou bastante nesse caminho, mas mesmo ele não encarou a questão da luta de classes, afirmando-a,  ou a negando.

Lula,menos ainda.

Seu projeto de governo, simplificadamente, era uma transposição para o plano político mais amplo da sua visão de sindicalista, com a permanente política de negociações em busca de melhores resultados para os mais pobres.

Isso gerou uma série de pactos sociais envolvendo os segmentos mais diversos da sociedade brasileira, com interesses inteiramente colidentes, como banqueiros, latifundiários , empresários, trabalhadores das cidades e do campo.

Tudo sem um objetivo ideológico final.

Era uma bicicleta que andava sem rumo e que precisava ser pedalada sempre.

Quando por circunstâncias externas, a bicicleta teve que parar, seu projeto de conciliações permanentes ruiu.

Nos seus poucos anos de existência, o PT conseguiu ganhar quatro eleições para a Presidência da República, elegeu vários governadores e formou importantes bancadas em assembléias estaduais, na Câmara Federal  e no Senado.

Mas, em que o PT foi  diferente dos demais partidos, a não ser a sua preocupação maior com o socorro às populações mais carentes?

Seus dirigentes já disseram mais de uma vez que ele não é um partido revolucionário, mas nunca desfizeram a ideia de que sua meta é o socialismo.

Mas para chegar ao socialismo pela via pacífica que pretende, não seria necessário ter uma teoria, digamos de novo, filosófica, para se justificar?

Confesso que há muito procuro essa resposta e imaginei que poderia encontrar indícios disso no livro autobiográfico de José Dirceu.

Afinal, sempre se disse que ele era o grande estrategista do partido, o teórico que conduziu o PT até a conquista da Presidência.

Mas, se alguém, além de mim, tiver essa expectativa ao ler o livro de memórias de Zé Dirceu, perde seu tempo.

O livro, descontando as auto louvações e a preocupação em relatar suas conquistas amorosas, é extremamente interessante como a descrição do jogo rasteiro em que se envolvem os políticos, de todas as matizes,  em busca do poder e a desconstrução de figuras que pousam com pompa e circunstância nos espaços da mídia.

Muito pouco  além disso.

Ficou faltando uma justificativa mais profunda de porque o PT.

Uma pena.

Em seu livro Socialismo ou Barbárie no Século XXI, IstvanMeszaros  completa a frase original de Rosa Luxemburgo, dizendo que barbárie,  nas melhor das hipóteses.

Para ele, a continuidade do sistema capitalista, cada vez mais predatório, põe em risco inclusive a continuidade da vida humana sobre a Terra.
Segundo Meszaros, a conquista de um sistema socialista é grande luta, posta diante dos homens no futuro. Mas esse novo sistema não nascera inevitavelmente pela exaustão do  modelo capitalista, como alguns pensavam a partir de uma leitura apressada de Marx, mas de uma combinação de fatores que vão desde a inevitável crise estrutural do capital, até a luta política das pessoas em busca da construção de uma sociedade melhor.

Dentro desse quadro, no caso brasileiro, todos os partidos políticos de esquerda terão uma contribuição a dar, principalmente algumas lideranças do PT que não tenham sido totalmente contaminadas pelas práticas eleitoreiras que parecem ter sido o único objetivo do PT nos últimos anos.

Existe jornalismo imparcial?

 

Uma das grandes falácias que os meios de comunicação gostam de divulgar, que a academia ratifica dando a ela um lustro ‘científico’ e que as pessoas acreditam, é que o ideal do jornalismo, principalmente aquele que trata dos fatos políticos, é ou deveria ser, imparcial.
Ocorre exatamente o contrário. O jornalismo político nasceu para expressar a posição de pessoas ou grupos sociais sobre a administração da vida pública, ou seja, quais as posições políticas que devem ser apoiadas ou condenadas.
Quanto mais clara e aberta fosse essa posição, mais ético e mais digno de crédito se tornaria o veículo de comunicação portador da mensagem.
No passado, essas posições de apoio ou de crítica a um determinado grupo de poder – um governo na sua versão mais completa – eram diluídas pelas visões opostas dentro dos meios de comunicação disponíveis; pela limitação do acesso desses meios aos públicos alvos e pela possibilidade de os criticados ou apoiados – no caso o governo – usarem outros meios de impor sua vontade, in extremis, pela coerção policial.
A partir da Revolução Russa de 1917, uma grande questão, que já estava subjacente nas disputas políticas – a opção por um novo sistema econômico e social – se tornou fundamental e obscureceu todos os outros debates.
Capitalismo ou socialismo, essa foi a questão que se tornou fundamental.
O acirramento dessa disputa coincide com o desenvolvimento acentuado dos meios de comunicação, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial (1939/1945).
O surgimento da televisão como o grande veículo de comunicação de massa e a integração mundial das redes de comunicação (a aldeia global, antecipada por Marshall Mc Luhan) vão transformar esse conjunto de comunicação, que hoje chamamos de ‘A Grande Mídia’, como a principal arma de guerra ideológica entre os defensores dos modelos capitalista e socialista.
A derrocada da URSS no final do século passado e a consolidação da opção pelo capitalismo, estruturado segundo os interesses dos Estados Unidos, fizeram com que a comunicação de massa e sua versão de jornalismo político se tornassem a grande arma para a preservação do sistema e a eliminação das possíveis resistências, tenham elas maior ou menor representatividade.
A cooptação dos sistemas de comunicação pelo capitalismo triunfante se tornou irreversível na medida em que eles se sofisticaram e passaram exigir altos investimentos financeiros para se tornarem eficientes.
Dentro dessa nova realidade, os enfrentamentos ao sistema, através das chamadas mídias alternativas, se tornaram a única opção, quase sempre frustradas, na luta contra o pensamento único, que na sua essência busca a preservação de uma sociedade de classes.
Então, a figura do jornalista imparcial, que “luta pela verdade acima de tudo”, virou peça de museu.
Ou ele está a favor de um lado ou de outro.
Mais do que a polícia, o judiciário e o parlamento, é a mídia, controlada na sua quase totalidade pelo capitalismo devastador, que tenta eliminar qualquer resquício de inconformismo.
Os últimos dias no Brasil mostraram a sobejo como funciona o sistema.
Diante de uma disputa eleitoral, em que um candidato que não tem pejo de se apresentar com propostas fascistas, a ‘Grande Mídia’ se esconde atrás de uma pretensa imparcialidade, tratando desiguais como iguais e não denunciando com o vigor que deveria ter os métodos criminosos de aliciamento de eleitores que esse candidato usa.
Nesse domingo, estaremos voltando às urnas e uma possível vitória do Bolsonaro, o candidato da direita, dos empresários, com suas ideias tão próximas do fascismo, deverá, em grande parte, ser atribuído ao apoio ideológico que recebeu de jornalistas que sempre se apresentarem como defensores da democracia e como isentos, mas que, no final, tal como o candidato, defendem uma sociedade dividida em classes com interesses antagônicos.

É hora de poesia, quem diria?

Entre 1942 e 1945, Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), o nosso poeta maior, escreveu uma série de poemas reunidos sob o título de A Rosa do Povo. Nosso Tempo foi um deles.  Nele, Drummond fala sobre uma época de grandes decisões, quando o mundo se dividia entre o nazismo e a democracia e era preciso escolher um lado. Drummond escolheu o melhor lado e terminou esse poema dizendo que “o poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas prometa ajudar a destruí-lo como uma pedreira, uma floresta, um verme”.

Drummond  entendia, porém que esse percurso não era fácil e que seria preciso deixar muitas coisas pelo caminho.

“Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra”.

Hoje, órfãos do grande poema, vivemos novamente uma época de homens partidos.

No próximo dia 28, vamos ser chamados novamente a fazer uma opção, felizmente essa um pouco diferente daquela vivida pelo poeta, quando a vitória de um dos lados seria feita muito mais pela força das armas.

Essa nova decisão será tomada pela força dos votos, mas de certa forma vivemos o mesmo dilema.

Vamos decidir entre a continuidade da precária democracia em que vivemos ou um mergulho num projeto extremamente autoritário, que, em muitas de suas propostas, se aproxima de um fascismo explícito.

Mais do que uma disputa entre Fernando Haddad, que independentemente de suas qualidades pessoais, é um humanista, professor universitário e um homem de diálogo e Jair Bolsonaro, um capitão da reserva do Exército, autoritário, preconceituoso e acima de tudo uma pessoa dotada de escassos dons intelectuais, o que estará em jogo nas eleições é se nós brasileiros poderemos continuar sonhando com uma pátria mais solidária e justa ou mergulhamos de vez numa sociedade que cultua a violência e que discrimina os mais pobres.

Se no dia 28 não formos capazes de derrotar a besta e seu séquito de maldades, só nos restará tomar outro poema de Drummond – E agora, José – e usá-lo como epitáfio para a nossa falta de coragem.

E agora, José? / A festa acabou,/ a luz apagou / o povo sumiu,
a noite esfriou, e agora, José? /  e agora, você?  / você que é sem nome,
que zomba dos outros  você que faz versos / que ama, protesta?
e agora, José?  / Está sem mulher,/ está sem carinho / está sem discurso / já não pode beber / já não pode fumar / cuspir já não pode / a noite esfriou / o dia não veio / o bonde não veio,/ o riso não veio / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou / e agora, José? Sua doce palavra / seu instante de febre sua gula e jejum / sua biblioteca / sua lavra de ouro / seu terno de vidro / sua incoerência, seu ódio – e agora? Com a chave na mão / quer abrir a porta / não existe porta / quer morrer no mar / mas o mar secou / quer ir para Minas / Minas não há mais / José, e agora? / Se você gritasse /
se você gemesse / se você tocasse / a valsa vienense / se você dormisse / se você cansasse / se você morresse / Mas você não morre você é duro, José / Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato, /  sem teogonia / sem parede nua / para se encostar,/ sem cavalo preto / que fuja a galope / você marcha, José / José, para onde?

 

 

Sejamos radicais

Estou escrevendo essa coluna ás vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, torcendo para que o segundo turno possa ser decidido entre Haddad, em que vou votar, e Bolsonaro.

Isso, que uma parte da elite intelectual brasileira e mesmo aqueles que se intitulam da esquerda democrática, lamentam, é a única alternativa para que o Brasil se resolva como nação: o início da polarização entre dois grandes projetos, o que defende a submissão do país aos interesses econômicos internacionais  e o que luta por uma sociedade baseada na justiça social, integrada à comunidade latino-americana.

Não estou pregando nenhuma luta revolucionária – pelo menos não agora – mas sim uma divisão mais clara dos campos políticos do País.

O professor e filósofo Vladimir Saflate tem chamado a atenção para o fato de que a derrocada do projeto reformista do PT em 2013 aconteceu porque a direita foi a única força política que deve capacidade de mobilizar importantes segmentos da classe média para vir as ruas, enquanto a esquerda, principalmente aquela que se abriga sob o PT, se omitiu.

Saflate dá um exemplo histórico de que a radicalização em pólos opostos é a única maneira de equilibrar forças e estabelecer um espaço para que a vida política prospere: a chamada guerra fria, permitiu que os dois modelos em oposição tentassem conquistar seus adeptos pelo proselitismo político, tolerando apenas guerras localizadas e não um grande conflito um mundial que ameaçasse a própria existência da humanidade.

Se, após a Segunda Guerra, a União Soviética não tivesse surgido como uma formidável máquina militar, os Estados Unidos teriam estabelecido seu poder sobre o mundo inteiro, como fez sobre as áreas sobre a sua influência, como foi o caso da América Latina.

Hoje, essa política de contra pesos, que se fez no passado, principalmente pela força militar, hoje se traduz mais claramente na guerra comercial entre Estados Unidos e China, o que, apesar de tudo assegura a relativa paz em que vive o mundo.

O Brasil precisa se equilibrar também entre duas forças políticas opostas, até que uma delas tenha condições de se impor, rompendo a política de pactos que permeia nossa história.

Não tenho nenhuma certeza de que Haddad, se vencedor, terá condições políticas e mesmo vontade para avançar no projeto inacabado de Lula e Dilma  de conquistas sociais ou, como fez seu mestre, se curvará à necessidade de pactos de não agressão com o centro e a direita.

De qualquer maneira é uma nova oportunidade de oferecer ao povo brasileiro uma possibilidade de escolha, fugindo dos pactos que sempre deixaram por fazer a verdadeira revolução brasileira, seja a burguesa e nacionalista, seja a utópica revolução socialista.

Nossos grandes momentos históricos sempre foram obscurecidos por pactos impostos pelos mais fortes, para impedir que os processos de ruptura se consumassem.

A independência nasceu de um acordo entre Portugal e Inglaterra, pelo qual pagamos 2 milhões de libras esterlinas para que a corte de Lisboa aceitasse a independência,  dinheiro  que a Inglaterra emprestou.  Ou seja, um arremedo de independência, que transformou o Príncipe português em nosso Rei e fez com que o Brasil já nascesse endividado.

A libertação dos escravos, mesmo com todas as lutas dos negros, veio como uma graça da princesa branca.

Os 15 anos de governo de Vargas, de 30 a 45, que deveria significar uma ruptura com a República Velha, embora tenha avançado na formação de uma burguesia industrial, precisou de muitos acordos com as oligarquias, principalmente paulista para se manter e, mesmo assim foi derrubado a pretexto de uma democratização do País.

A única grande oportunidade de uma ruptura com o modelo entreguista vigente desde 1945, o movimento cívico-militar da Legalidade foi perdida novamente por um acordo envolvendo Tancredo, Jango e os militares fascistas.

O golpe de 64 e seus governos ditatoriais nunca tiveram a unidade ideológica que pretendiam. Segmentos nacionalistas e pró-americanos travaram uma luta surda durante quase 20 anos, sufocada por acordos e mais acordos.

O fim da ditadura escancarou outro pacto – a anistia – que colocou no mesmo saco torturados e torturadores.

Fomos incapazes de nos aproximarmos, ao menos do que fizeram com seu passado, a Argentina, o Chile e o Uruguai.

Depois disso, o grande e definitivo pacto sobre o qual ainda estamos, a Constituição de 88.

Dentro dela vivemos os últimos 30 anos com um razoável espaço democrático, que agora começa a mostrar sinais de cansaço.

É preciso reformá-la, todos os concordam.

O que nos divide hoje é o que reformar.

Os que, como nós, à esquerda, defendem o aprofundamento das conquistas sociais, precisam estar fortes para se impor, na luta contra a direita, cada vez mais organizada.

Por isso, vejo um futuro de lutas políticas e não mais de acordos.

 

 

O que disseram Getúlio e Lula.

Quando o gaúcho Getúlio Vargas, nascido em São Borja,em 1882, se matou com um tiro no peito em 1954, no Rio de Janeiro, o pernambucano Lula, nascido em Caetés, em 1945, ainda não era conhecido por este apelido, tinha nove anos e se chamava apenas Luís Inácio da Silva.

Além de terem sido os presidentes do Brasil mais populares da história, os dois têm em comum uma habilidade política que nenhum outro político brasileiro mostrou até hoje e um repertório de frases incomuns.

Getúlio, segundo ele mesmo dizia, era capaz de transformar um inimigo político de hoje num futuro correligionário amanhã e disso deu provas várias vezes em seu mandato.

“Não tenho inimigo de quem não possa me aproximar nem amigo de quem não possa me distanciar.“

Lula não deixa por menos

“A paz está comigo desde que eu estava no útero da minha mãe. Eu não me lembro de ter entrado em uma briga”,

Homem da fronteira, criado nas lides do campo, Getúlio foi buscar no seu passado a melhor imagem para definir a paciência qual se deve tratar as questões políticas:

“Política é esperar o cavalo passar

Lula, ao contrário, chegou à política através do movimento sindical e quando na  Presidência, tinha pressa em resolver os problemas do País.

Não importa onde você está, e sim aonde quer chegar”.

Getúlio sempre se sentiu como merecedor do cargo que ocupava

Acabaram os intermediários entre o governo e o povo”

Lula, que também adorava as honrarias, as vezes fazia o papel de modesto.

Eu estou presidente. Mas sou mesmo é dirigente sindical.”

Getúlio se tornou Presidente em 1930 à frente de um movimento militar que representava as aspirações nacionalistas da oficialidade jovem do exército, contra o domínio dos conservadores paulistas e mineiros, mas logo conseguiu convencer seus antigos adversários, chamados pejorativamente de “os carcomidos”, que era a pessoa mais indicada para dar ao País uma estabilidade política que iria garantir a continuidade de seus grandes negócios.

Lula chegou à Presidência em 2002 pela via eleitoral, depois de três derrotas sucessivas, para Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso (duas vezes), vencendo no segundo turno a José Serra.

Para isso precisou se unir ao empresário José Alencar e seus evangélicos e justificou assim essa aliança:

Nós somos como Romeu e Julieta”

Getúlio agradou e desagradou sucessivamente aliados e adversários, jogando com as vaidades e o apetite de poder de cada um deles, para se manter no comando do País durante 15 anos. Flertou com o fascismo italiano e até mesmo com o nazismo alemão, mas acabou levando o Brasil a uma aliança com os Estados Unidos para combater as potências do Eixo.

Mas nada era feito sem uma contrapartida. Para o apoio aos americanos, cobrou investimentos que permitiram a construção de Volta Redonda.

Usava o poder da Presidência para conquistar as metas que se propunha, mas nunca se soube de que tirasse proveito pessoal do seu cargo, embora o mesmo não se possa dizer de outros componentes do seu governo e os amigos a quem protegia.

“Aos amigos tudo. Aos indiferentes, a lei. Aos inimigos, os rigores da lei”

Lula, apesar da ameaça dos empresários de haver uma debandada em massa dos capitais do País se ele ganhasse as eleições, fez um governo que promoveu um grande desenvolvimento econômico do País e no final se reelegeu facilmente, agora com o apoio de empresários e trabalhadores.

Para apaziguar as elites econômicas que ameaçavam deixar o País, Lula divulgou em 2002 a famosa Carta aos Brasileiros, onde procurava afastar sua candidatura da imagem de radicalismo.

“O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade.”

Quando tomou posse, disse qual era a sua principal meta de governo:

“Se no final de meu mandato cada brasileiro puder comer três vezes ao dia, terei cumprido a missão de minha vida.”

No seu segundo mandato continuou na sua política desenvolvimentista, gerando empregos para os trabalhadores e grandes negócios para os empresários.

Quando foi acusado de fazer alianças espúrias com políticos pouco sérios se socorreu da religião para explicar suas posições.

“Nunca fiz concessão política. Faço acordos. Se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria que chamar Judas para fazer coalizão.” 

Quando mais uma crise cíclica do capitalismo ameaçou as economias do mundo inteiro, fez uma frase pela qual é cobrado até hoje.

“Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar”.

Embora fosse uma unanimidade junto ao povo brasileiro, as elites nunca confiaram muito em Getúlio, nem ele, nelas.

Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.

 Eleito em 2002, Lula foi reeleito em 2006 e elegeu Dilma Roussef em 2010..

Sua liderança política era tão inconteste, que como Vargas havia feito em 1945 promovendo a eleição de um quase desconhecido general – Eurico Gaspar Dutra – bancou a candidatura de uma figura também quase desconhecida da política – Dilma Rousseff – para a sua sucessão.

“Em 2010, o governo federal estava com uma aprovação tão extraordinária, que eu elegeria qualquer pessoa que eu indicasse nesse país”.

Getúlio, como Lula, seria mais tarde, era um político que adorava o poder e a para justificar seu apego ao poder usava uma metáfora rural

“Quem não aguenta o trote, não monta o burro”.

Lula dizia ter outras razões para se sentir um homem realizado como Presidente.

Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do país. Como eu poderia não ser otimista?

Getúlio Foi derrubado em 1945 pelos mesmos generais que promovera durante seus quinze anos de governo, mas voltou cinco anos depois, quando numa manobra política de mestre, conseguiu o apoio dos dois partidos que criara, o PTB, representando os trabalhadores, e o PSD, dos conservadores mineiros e os coronéis nordestinos, isolando seus adversários abrigados na UDN.

“As vezes vencer é saber esperar”

Getúlio, no seu primeiro governo (1930/1945) foi um cético, capaz de fazer ironias com tudo.

“A constituição é como as virgens. Foi feita para ser violada”

Lula não votou a Constituição de 1988 e só foi explicar o porquê vinte e cinco anos depois

Votamos contra porque queríamos algo mais radical, que não foi possível. Assumimos o texto final porque o PT sempre teve responsabilidade com o País”.

Numa coisa parece que foram muito diferentes. Getúlio sempre foi um homem desconfiado.

No Ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.

Lula, pelo contrário, confiava nas pessoas e não esperava pelas traições que viriam depois

Eu e Palocci somos unha e carne. Tenho total confiança nele. Mexer no Palocci é a mesma coisa que pedir para o Barcelona tirar o Ronaldinho

Em 1954, Getúlio se suicidou no Palácio do Catete, deixando uma mensagem de luta para o povo brasileiro.

Deixo à sanha dos meus inimigos, o legado da minha morte. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Este ano, quando já estava condenado à prisão, Lula afirmou:

Eles não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus sonhos. Se não me deixarem andar, vou andar pelas pernas de vocês. Se não me deixarem falar, falarei pela boca de vocês. Se meu coração deixar de bater, ele baterá no coração de vocês. Não adianta achar que eu vou parar quando eu for preso, porque eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia.

 Como Getúlio Vargas, que voltou do ostracismo da Fazenda de Itu para o Palácio do Catete, nada impede que Lula possa, mais adiante, sair da prisão em Curitiba, para o Palácio do Planalto.

 

 

A hipocrisia da grande mídia

O jornalismo norte-americano sempre foi visto no Brasil como um modelo a ser seguido. Nas escolas de comunicação e nas redações dos nossos jornais, o New York Times e o Washington Post sempre foram apresentados como parâmetros de comportamento.

O livro de Gay Talese O Reino e o Poder, que conta a história do New York Times em centenas de páginas, se transformou numa bíblia para muitos jornalistas.

Apesar disso, uma coisa que sempre foi marca desses jornais americanos, não é seguida no Brasil, a opção clara e aberta por um dos candidatos nas eleições nacionais.

Em vez disso, nossos grandes jornais quase sempre optaram por uma pretensa imparcialidade.  Possivelmente porque seja mais fácil por lá escolher um lado, Democratas e Republicanos sempre foram lados de uma mesma moeda, o certo é que aqui, a mídia impressa se declara isenta em época de eleição.

Talvez, o último grande jornal brasileiro que não seguia esse modelo, tenha sido a Última Hora, criada por  Samuel Wainer para defender basicamente os interesses do PTB de Getúlio Vargas e João Goulart. Depois que o jornal acabou, na esteira do golpe de 64, todos os jornais brasileiros passaram a se declarar isentos em relação à disputa eleitoral.

Veja-se o que ocorre nessas semanas que antecedem à eleição presidencial de outubro.

Obviamente, ninguém é ingênuo para acreditar que essa imparcialidade seja real.

O fato de não assumirem publicamente uma candidatura, facilita a estes veículos um posicionamento ambíguo.

Enquanto a linha editorial oficial pode se dizer isenta, o noticiário é dirigido no sentido de favorecer o candidato (os) que esteja mais de acordo com o posicionamento do veículo.

Isso é feito, destacando ou minimizando, em textos e fotos, as atividades de cada um dos candidatos.  Tudo isso ainda poderia ser visto como uma tendência discutível que pode favorecer aleatoriamente “A” ou “B”, não fosse a presença  em cada um desses veículos  dos jornalistas de opinião que ocupam cada vez mais as páginas dos jornais.

São eles, no passado chamado de formadores de opinião, e que hoje se apresentam como “influenciadores”, que realizam esse trabalho de sapa contra os candidatos que o jornal não pretende ver como vencedores.

Aqui no Rio Grande do Sul, basta acompanhar as edições de Zero Hora no período eleitoral para ver como funciona esse sistema de apoio a um ou outro candidato, ao lado de um processo de destruição da imagem dos que devem ser vencidos, tudo isso sem abandonar a aparência de isenção.

Por tudo isso, surpreende, quando uma grande publicação nacional como a Revista Carta Capital, assume publicamente o apoio a uma candidatura à Presidência da República, no caso a de Fernando Haddad, do PT e PCdoB.

No editorial em que anuncia esse posicionamento, o Diretor de Redação da publicação, Mino Carta, diz que, “Carta Capital, conforme a tradição de publicações da Europa e Estados Unidos e da própria a esta altura, apoiou as duas candidaturas  de Lula e Dilma. Não há como imaginar, por enquanto, Lula saia da cela de 25 metros quadrados, banheiro incluso e volte à luz do sol, ou a ver as estrelas, como escreveu o já citado Dante. A partir desta edição, apoiamos  Fernando Haddad, candidato de Lula e nosso”

Abigail

 

Seu nome de batismo era Abigail e ele nunca gostou. O pai, colorado doente, escolhera o nome por causa daquela famosa defesa do Inter dos anos 40: Ivo, Alfeu e Nena; Viana, Ávila e Abigail.
Era um nome unissex, servia tanto para homem como para mulher. Chamavam Nadir, Jaci, Darci (a mulher do Getúlio Vargas se chamava Darci, com Y no final, mas o som era o mesmo do “i”), Duda, Abigail e quem respondia podia ser tanto um homem, como uma mulher.
Desde a época da escola, Abigail da Silva tinha vergonha em dizer seu nome. Nos consultórios médicos, quando alguém chamava em voz alta – Abigail, pode passar – ele tinha vontade de fingir que não era com ele.
Aos 50 anos, tomou a decisão, iria mudar de nome e apagar o Abigail da sua vida.
O Brizola não nascera Itagiba e depois trocara para Leonel? E isso deve ter mudado sua vida para melhor. Imagina na Legalidade se falar no governador Itagiba?
Estava decidido: iria deletar o Abigail da sua vida.
Foi um longo processo e ele gastou um bom dinheiro com advogados e cartórios, mas finalmente marcaram o dia para que diante de um juiz ele declarasse qual seria seu novo nome.
Aí, começou outro problema: que nome escolheria?
Parentes e amigos não paravam de dar sugestões. Parece que a cidade inteira transformou o tema em algo mais importante que as eleições. Pessoalmente, por telefone, por email, pelo facebook, choveram sugestões.
O tio Heráclito não abria mão de homenagear o velho PTB: Getúlio, Leonel ou Jango. Considerou Leonel uma boa possibilidade, com Getúlio tinha algumas divergências e Jango , explicou para o tio, era uma mistura de João com Goulart.
Tia Marieta sugeriu um nome americano da moda, alguém famoso , como Elvis, Jimmy ou Bob. O marido dela, o tio Fragoso, disse que um nome americano é sinônimo de poder, mas tem que ser alguém com mais força, como Lincoln, Kennedy ou Franklin. O primo Flaviano, filho do Fragoso e da Marieta, brincou: por que não Bush ou Trump? Trump da Silva. Esqueçam.
Tia Carina, que botava as cartas em Teresópolis, disse que o importante era a numerologia e melhor nome deveria ser Íccaro, assim mesmo com dois “cês” para atender o que dizem os astros.
Caso a mãe estivesse viva ia querer que fosse Alcides para homenagear o pai. Ele bem que merecia,mas Abigail não se sentia à altura do Velho. O pai sempre fora corajoso e revoltado, ele era medroso e conformado.
Rejana Becker sugeriu que se chamasse Werner em homenagem ao amigo. Não era uma má ideia, tinha dois amigos chamados Werner, o Becker e o Altmann. Mas e outros amigos, o Eloy, o João Batista, tão antigos como os Werners, como iam ficar?
Clau Rota sugeriu um nome francês para indicar uma boa formação cultural. Não era uma má ideia – Jean Paul, Blaise, Gustave, Honoré, Roger Martin . O problema era que poucos saberiam escrever corretamente seu nome.
Lá do Mato Grosso, o Dimiti mandou um telegrama: tem que ser um russo e comunista. Vladimir , disse ele. Vladimir, o nome de Lenin – quase bateu o martelo -mas aí surgiu outro problema: os caras vão sempre perguntar se é com “vê”, “dobre vê” ou “double u”?
Ingrid Schneider, sempre defensora das causas indígenas, sugeriu Kayke, Raoni ou Ubirajara. Gostou do último e foi ver o significado – “senhor da lança” ou “senhor da vara” – e achou que podia ter um segundo sentido meio inconveniente.
Vera Spolidoro lembrou que como tinha sido criado em lugares de colonização italiana, que tal Pietro, Giovani ou Enzo? Gostou do último e foi olhar o significado – Senhor do Lar – e desistiu. O que iam pensar dele.
O Barbosa, lá do Alegrete, que nunca desistia de homenagear os farroupilhas – todos seus filhos se chamavam Bento (Antônio Bento, João Bento…) – foi sucinto: Bento Gonçalves da Silva. Imagina o que diria o Mário Maestri se em vez de Abigial, se chamasse Bento Gonçalves da Silva.?
Uma antiga namorada mandou uma mensagem dizendo – que o meu marido não saiba, mas quando a gente tava junto ,lembra que eu te chamava de Amoreco.
Mas aí seria a desmoralização total – Amoreco da Silva.
No dia marcado para sacramentar o novo nome, compareceu diante do juiz e declarou sua escolha: Abigail da Silva.

Hasta siempre Fidel

Ao chegar ao poder em 1959, Fidel Castro (13/08/1926 – 25/11/2016) parecia ser mais um desses caudilhos latinos americanos que se erguem em armas para derrotar as oligarquias que se apossaram dos destinos de suas pátrias e que mal chegam ao governo, reproduzem essas práticas.

A simpatia que cercava os jovens barbudos de Sierra Maestra, logo começou a se desfazer entre os democratas liberais, que os apoiaram inicialmente, quando varreram de Havana a máfia corrupta que transformara o país num grande prostíbulo e se começaram a criar, a pouco mais de 100 quilômetros de Miami, um país que não aceitava mais a condição de colônia norte-americana.

Fidel Castro não pretendia reproduzir em Cuba o modelo de democracia representativa europeia, que muitos dos seus apoiadores iniciais, como Jean Paul Sartre, por exemplo, defendiam que deveria seu objetivo e deixou isso logo claro, quando levou para o ‘paredón’ os acusados de crimes contra a humanidade e prática de torturas durante o regime de Fulgência Batista.

Embora só em 1976 Cuba tenha inscrito em sua Constituição que era uma república socialista, desde o início, Fidel e seus companheiros imaginaram que poderiam desenvolver na ilha um sistema socioeconômico à margem do capitalismo, o que provocou desde logo a reação americana.

“É isso que eles não podem nos perdoar, que estejamos aqui, sob seus narizes, e que tenhamos feito uma revolução socialista debaixo dos narizes dos Estados Unidos”, disse Fidel.

O aprofundamento do caráter socialista da revolução cubana – o que de certa forma não estava incluído nos manuais marxistas – só foi possível porque a conjunção internacional no início da década 60, com o crescimento do poderio econômico e militar da União Soviética, assim o permitiu.

Apesar disso, o apoio soviético nunca foi pleno e, de certa forma, atendia mais aos interesses dos russos do que aos cubanos.

Em 1962, quando da crise dos mísseis, Nikita Kruchov negociou com Kennedy o desmantelamento da base soviética em Cuba em troca da retirada dos foguetes norte-americanos da Turquia.

Cuba, no caso, foi mais uma peça no xadrez da Guerra Fria, e Kruchov, como já tinha feito Stalin durante a guerra civil espanhola, enterrava mais uma vez a ideia da solidariedade internacional dos povos, em troca da preservação da experiência do chamado socialismo real na União Soviética.

Mesmo sem o apoio integral dos soviéticos, Cuba continuou tentando construir o seu modelo de socialismo, ainda que não sendo aquele sonhado por Marx, Lenin e Trotsky, se tornaria um modelo para às esquerdas latino-americanas.

Como disse uma vez Fidel, comparando Cuba com os demais da América Latina:

“Em vez de nos agredirem como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: como é possível que Cuba, em 30 anos, tenha feito o que a América Latina não fez em 200 anos?”

Em setembro de 2015, quando o Papa Francisco visitou Cuba, Fidel Castro deu a melhor justificativa para a Revolução Cubana:

“Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana.”

Essa é a grande diferença de Fidel dos demais líderes latino-americanos, que em algum momento da história dos seus países tentaram desenvolver um modelo político à margem do imperialismo.

Foi o caso de Allende, no Chile, derrubado por um golpe militar em 1973; de Lula, no Brasil; de Lugo, no Paraguai; de Correa, no Equador; de Morales, na Bolívia; e, até mesmo do casal Kirchner, na Argentina, que avançou em conquistas sociais para os mais pobres, mas que jamais contestaram o regime capitalista.

Quem mais avançou nesse caminho foi Chávez, na Venezuela, que, mesmo assim, precisou usar o adjetivo ‘bolivariano’ para o seu movimento e não socialista, talvez até mesmo para preservar seu regime.

Esse parece ser o grande problema dos líderes da esquerda latino-americana, que sonham com um socialismo democrático à lá europeia e não dão o passo seguinte rumo ao rompimento com o modelo capitalista.

Slavoj Zizek disse que os políticos que mais temem uma revolução socialista de verdade, são os socialistas democratas.

Istaván Meszaros foi mais preciso na análise dessa política de conciliação em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista:

“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda mudança legítima. A crítica só é admissível em relação a alguns detalhes menores, visando corretivos potenciais, que apenas remenda até certo ponto a estrutura da política parlamentar estabelecida, mesmo quando se torna impossível negar sua vacuidade, deixando inalterado o próprio processo, estruturalmente arraigado, de tomada de decisões.”

Com a morte de Fidel Castro, desapareceu o único personagem da história política da América Latina que teve a coragem de tentar fazer uma verdadeira revolução socialista.

Em homenagem a Fidel Castro, nada melhor do que reproduzir um texto do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano (As veias abertas da América Latina):

“Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.

E nisso seus inimigos têm razão

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História, que abriu o peito para as balas quando veio a invasão;  que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão; que sobreviveu a 637 atentados; que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em Pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus, que essa nova Pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida, mas obstinadamente alegre, gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.”

Todos estão mortos

-Dorme bem, sonha com os anjos.
Eu nunca sonhei com os anjos.
O melhor seria sonhar com a vizinha do lado.
Isso, porém, eu não poderia dizer para a minha mãe. Ela achava a vizinha uma sirigaita. 
A vizinha era uma gringa forte, de pernas grossas, que tinha um filho da minha idade.
Que idade eu tinha? Acho que uns 4 ou 5 anos.
Será que com essa idade já se pensa em sacanagens?
A vizinha sentava num banquinho no meio do pátio, levantava a saia e metia cara do filho no meio das coxas, baixava suas calças e lhe dava um monte de palmadas. É com isso que eu queria sonhar: ficar com cara metida no meio daquelas coxas roliças.
Sonhar com anjos não tinha a menor graça.
Pelo que o padre Bombardeli contava nas aulas de catecismo, os anjos andavam sempre limpinhos, não diziam palavrões e viviam batendo suas asas em volta de um grande trono de ouro onde Deus sentava.
Pensar que esta cena pudesse durar mais do que horas, já deixava a gente assustado. Imagine então séculos e séculos. Os anjos sempre estiveram lá, limpinhos, sem dizer palavrões, batendo suas asas. E a gente não aguentava quieto mais do que 5 minutos na aula da professora Luiza.
Mas isso, foi mais tarde. Sete anos? Foi depois da varicela e antes de quebrar o dedão do pé. A vida parecia uma longa estrada que nunca terminaria.
Agora, pelo contrário, ficou curta, parece que vai terminar logo ali.
A mãe já morreu faz tempo, a vizinha sirigaita possivelmente também. Talvez até o filho que ficava com a cabeça no meio das coxas da sua mãe.
Engraçado isso. Virou uma obsessão pensar nesta gente que estava viva num momento e logo depois está morta.
Quando o jornal mostra aquelas fotos antigas, tipo Porto Alegre nos anos 20, e surgem aqueles homens de chapéu e bengala caminhando pelas ruas eu fico pensando que a maioria já morreu.
Maioria? Certamente todos.
Talvez aquele guri com roupa de marinheiro ainda viva.
Na foto, ele parece ter uns 10 anos. Se o ano é 1920, ele teria hoje quase 100 anos.
Quem vê a foto, nem imagina que isso pudesse acontecer. Muito menos, o garoto. Ele certamente estaria pensando em ficar assim a vida inteira, um garoto com roupa de marinheiro.