Uma questão de semântica

O primeiro passo para a pacificação dos brasileiros deverá ser dado na área da semântica e vai precisar do auxílio de filólogos e professores da língua portuguesa. Precisamos definir com urgência o significado de algumas palavras da nossa língua, antes que se estabeleça uma anarquia total, onde a cada dia, velhos termos, que ontem serviam como sinônimos de alguma coisa, hoje são seus antônimos.
Um exemplo: Michel Temer, aquele aclamado pela senadora Kátia Abreu como o grande constitucionalista brasileiro, tem horror que o chamem de golpista e traidor. Ninguém o chama assim por mal. É que até ontem, as pessoas pensavam que organizar um movimento para derrubar uma presidenta legitimamente eleita e que não tivesse cometido nenhum ato atentatório à constituição, seria um golpe e que se aliar aos inimigos políticos do partido que o ajudou a eleger-se vice-presidente, seria traição.
O senador Aécio Neves, que não se conforma em ter sido derrotado nas eleições de 2014 e desde então se recusa a aceitar o resultado da vontade popular, se diz democrata.
Então, urgentemente precisamos definir o significado de algumas palavras fundamentais para a vida política brasileira.
Começamos pela mais usada e pervertida de todas as palavras, democracia e na sequência os que dizem a respeitar, os democratas.
A sua mais simples definição é aquela que diz que democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo.
Como vivemos numa época onde cada vez mais dependemos do que dizem as fontes eletrônicas, vamos copiar a Wikipédia:
“Democracia é um regime político em que todos os cidadãos participam igualmente, diretamente ou através de representantes eleitos, na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal. “
Parece um saco sem fundo, onde cabe a maioria dos políticos brasileiros, porque todos eles, inclusive os senhores Eduardo Campos e Michel Temer, repetem essas definições em seus discursos.
Golpe de estado ou revolução?
Na visão clássica dessas duas palavras, golpe significa derrubar, ilegalmente, um governo constitucionalmente legítimo e revolução, uma mudança drástica na organização social e econômica de um país.
O ilegalmente, presente na definição de golpe de estado, é que abre a perspectiva de grandes confusões, pois que entra no campo jurídico onde as interpretações, às vezes, valem mais do que as certezas.
No consenso da maioria das pessoas, qual seria o maior golpe, dado ilegalmente, contra a democracia na história da humanidade. Possivelmente, Adolf Hilter, com a instauração do regime nazista na Alemanha, seria o mais indicado. Só que, tecnicamente, Hitler chegou ao poder pela via parlamentar em 1933. Seu partido, o Nacional Socialista, foi escolhido pelo Presidente Hindenburg para formar o governo.
O golpe que Hitler, o famoso Putsch de Munique, 10 anos antes, só rendeu a Hitler algum tempo de prisão.
O conceito de revolução pode ser aplicado à francesa, à chinesa, à soviética, à Inglesa e à cubana, com mais ou menos precisão, porque elas tiveram um sentido de lutas de classe e mudaram, pelo menos durante algum tempo, a correlação entre as forças sociais e políticas de seus países.
Enquanto a palavra golpe é abominada pelos seus autores, a palavra revolução é sempre benvinda, mesmo quando não tem essas características.
No Rio Grande do Sul, chamam o movimento dos grandes fazendeiros contra o poder central por divergências menores em questões econômicas, de Revolução Farroupilha. Obviamente um exagero, tanto quanto chamar os movimentos de 1930 e 1932, de revoluções.
A de 30, que levou Getúlio Vargas ao governo, ainda poderia ter algumas características revolucionárias na medida que tentou substituir um grupo conservador por outro mais avançado politicamente, embora na essência o poder real continuasse longe do povo que o movimento dizia representar.
A de 32, dita constitucionalista, foi uma tentativa dos derrotados em 30, de recuperar o terreno perdido. Ela olhava para o passado e não para o futuro, como devem ser as revoluções.
Em 1964, os generais que tomaram o poder no Brasil, batizaram o movimento de Revolução de 31 de Março. Não foi nunca uma revolução, e nem foi no dia 31 de março. Foi um golpe de estado e se deu no dia primeiro de abril, o chamado dia dos bobos.
Supondo que os estudiosos da língua portuguesa chegassem a conclusão que a definição de democracia está correta – é a expressão da vontade do povo – seria preciso então se adotar com urgência, medidas que estimulasse essa vontade a se expressar livremente e depois, que ela não pudesse ser fraudada.
Em 1917, depois que os bolcheviques assumiram o poder na Rússia, Lenin disse aos seus seguidores que o processo revolucionário recém estava começando. A grande batalha não fora derrubar o regime do Tzar e depois o governo de Kerensky, mas conscientizar o povo dos seus direitos como classe social.
Então, as tarefas da esquerda hoje são, menos pensar sobre como vencer as eleições, embora não possa se omitir também das lutas políticas, municipais agora e estaduais e nacional, em 2018, e mais, a de começar a explicar para o povo o significado de algumas palavras, para que ele possa identificar com mais precisão quem são, por exemplo, os democratas e os golpistas.
Com Lula e Dilma, o PT chegou ao governo no Brasil, mas nunca teve o poder real em suas mãos. Por uma série de razões, ele deixou escapar essa oportunidade histórica e permitiu com suas alianças espúrias, inclusive um retrocesso político.
Os erros e vacilações do governo Jango ajudaram um golpe militar que durante 20 anos atrasou o desenvolvimento democrático do Brasil.
O novo golpe em 2016, em boa parte fruto das políticas de acomodação de Lula e Dilma, precisa ter uma vida menor. Para isso é preciso começar logo o processo de conscientização de todo o povo.
A discussão franca e aberta sobre os erros cometidos pelo PT e seus aliados é um primeiro passo nesse sentido.

Nossos heróis têm pés de barro

O que começou como um drama heroico, virou um melodrama piegas no seu final. 
As respostas da Presidenta Dilma aos seus interrogadores e a sua defesa feita por Eduardo Cardozo, encheram de orgulho as pessoas de bom caráter que sempre condenaram o golpe. 
Sua cassação foi a vitória dos canalhas como disse o senador Lindemberg Farias. 
Sessenta e um senadores, uns poucos por convicção ideológica e a maioria em busca de vantagens pessoais, que votaram pelo impedimento, mostraram com clareza que o Senado, como já demonstrara também a Câmara, são entidades corrompidas pelo poder econômico e a serviço de uma elite reacionária que manda no Brasil desde o seu descobrimento. 
São políticos para os quais as pessoas íntegras do Brasil devem virar as costas. Infelizmente, não foi o que fizeram alguns dos senadores que apoiaram Dilma. 
O discurso da senadora Kátia Abreu foi lamentável como peça política. Em momento algum ela poderia e ainda mais dizendo falar autorizada por Dilma, pedir clemência aos carrascos. O que nós defendíamos, acima de tudo, era o mandato de Dilma, porque ele representava a vontade da maioria dos brasileiros. 
A perda dos direitos políticos da Presidente era uma punição, ainda que injusta, que afetaria apenas a ela. A senadora argumentou que se tivesse seus direitos políticos suspensos, Dilma teria que viver com uma aposentadoria de no máximo 5 mil reais, esquecida talvez que a maioria dos brasileiros ganham muito menos que isso. Para a senadora Katia Abreu, como presidente da entidade de classe dos latifundiários, esse valor deve ser irrisório. 
Não contente com isso, a senadora citou na defesa da sua posição um pensamento de alguém que ela chamou de um grande constitucionalista brasileiro. Logo quem, o senhor Michel Temer, o grande beneficiado pelo golpe de estado. 
Não bastasse o discurso da senadora Katia Abreu, os senadores Jorge Viana, do PT, e João Capiberibe, do PSB, já então em nome da necessidade de convivência política com os golpistas, defenderam também que o impeachment se limitasse a cassação do mandato de Dilma e não a perda dos seus direitos políticos. 
Seus discursos deram margem aos gestos “altruístas e democráticos” de gente como Renan Calheiros e Fernando Collor, defendendo uma espécie de perdão para a pessoa física de Dilma Roussef. 
Pelo seu passado como resistente à ditadura e sua atuação honesta como Presidenta, ela não mereceria isso na sua biografia. 
É difícil ser herói o tempo todo, mas a cassação e o perdão concedido pelos que assaltaram um direito do povo brasileiro, enche de tristeza quem, como nós, acreditávamos que a luta ainda não tivesse terminado.

O agente provocador

Em determinado momento de suas vidas, as pessoas estabelecem determinadas certezas. São elas que vão lhes garantir uma certa tranquilidade para enfrentar as incertezas do futuro e permitir que usem suas energias para construir seus projetos de vida.
São certezas que precisam, de alguma maneira, ser fundadas ser em cima de algumas escolhas que tenham alguma justificativa racional, mesmo que as vezes venham envolvidas por outros elementos mais fantasiosos que reais.
Baseados nesses fundamentos mais ou menos racionais, as pessoas escolhem sua linha de pensamento político, suas preferências culturais, seu entendimento do sentido da vida e seus valores éticos e morais.
Ao lado delas, existem outras escolhas puramente emocionais, como o clube pelo qual vai torcer e às pessoas as quais vai dedicar seus interesses amorosos.
Como nesses casos, quase sempre inexiste uma base racional para a escolha, elas são mais sólidas, por incrível que pareça, que as escolhas que têm componentes racionais predominantes.
Então, um torcedor do Internacional, por exemplo, por mais poderosos que sejam os argumentos de um gremista sobre a inadequação de sua escolha, eles nunca vão abalar os sentimentos de lealdade ao clube que escolheu por razões puramente emocionais.
Já nas escolhas que exigem uma certa base de racionalidade, certos argumentos bem colocados podem abalar certezas e gerar indesejadas inseguranças.
Assim, alguém que acredita em alguma divindade ou tem fé que uma vida correta na terra vai lhe garantir, depois da morte, um prêmio no paraíso, não quer ouvir argumentos de um ateu sobre a inexistência de outras dimensões para a vida do ser humano.
Não se trata de uma opção meramente emocional, como no caso da escolha do time de futebol. O torcedor do Inter não explica porque escolheu esse time. Simplesmente, ele escolheu, ou as vezes, foi escolhido para ser um torcedor do Inter.
Já no caso de quem acredita na vida depois da morte, mesmo que haja componentes emocionais atávicos nessa escolha, existem também aspectos racionais que a sustentam, desde os primeiros ensinamentos dos país, as aulas de catecismo e o exemplo dos mais velhos que seguem esse caminho.
Alguém, por exemplo, que defende o golpe de estado contra o PT, não está disposto a considerar argumentos contrários por que eles podem abalar suas posições assumidas.
E as pessoas não fecham os ouvidos para argumentos contrários por nenhuma outra razão, senão que o medo da desestabilização emocional que as interrogações sobre algo que antes eram certezas, sempre trazem.
A maioria das pessoas foge dessas discussões porque isso as obriga em recolocar em discussão todos os temas que já deram como resolvidos.
Elas até inventaram aquele ditado que diz que política e religião não se discutem.
Obviamente, quem cunhou esse dito sabe muito bem que, estes são temas fundamentais de qualquer sociedade humana e que por isso mesmo , pô-los em discussão mais uma vez, exige uma grande disponibilidade em aceitar as inevitáveis mudanças que ela sempre traz.
Como, grande parte dos seres humanos já construiu seus projetos de vida, o pior que pode acontecer com eles, é encontrar alguém que queira discutir se os pilares que sustentam a construção ideológica que fizeram com muito sacrifício, são realmente sólidos e resistem a um debate.
Então, eles fogem como o diabo da cruz, das poucas pessoas que parecem se deleitar em levar dúvidas para onde antes havia certezas.
Eu já desconfiava há algum tempo que sou um desses agentes provocadores, mas tive essa certeza essa semana, quando produzi um pequeno texto, não apenas lamentando a minha demissão da PUCRS há 10 anos atrás, mas atribuindo a culpa disso para terceiros.
As mensagens de solidariedade que recebi de alguns amigos, professores e ex-alunos, muitas extremamente gentis, como as do Pintaúde, do Boanova, do Meira, da Rosa Maria e do Gonzales, enaltecendo meu desempenho como professor, apenas reforçaram o sentimento de que as razões foram outras.
Eu estava agindo como um agente provocador e por melhor que fossem minhas intenções, eu estava pondo em risco as certezas de outras pessoas, no caso, infelizmente para mim, pessoas com poder de decisão.
Lembrei então que as minhas experiências com as principais agências de propaganda de Porto Alegre – Standard, Marca, MPM, Módulo e Símbolo –  sempre terminaram em conflitos, um pouco por falta de talento da minha parte, mas muito mais pela minha obsessão em acreditar naquela surrada máxima de que da discussão nasce a luz.
O caso da MPM é exemplar.  O João Alberto Soares, que era meu amigo antes e continuou meu amigo depois, quando assumiu uma das direções de criação da agência, a primeira coisa que fez foi pedir minha demissão, com a justificativa, talvez um pouco exagerada de que “se eu pedir para as pessoas saltarem pela janela, tu vais ser o único a querer saber o porquê disso”
As pessoas, de um modo geral, têm horror às discussões, sofrem quase fisicamente com isso e procuram fugir daqueles que gostam de provocá-las.
Pena que eu tenha descoberto isso agora quase no fim da vida, quando não tenho mais tempo, nem vontade de mudar.

O Prestes que Neruda cantou

Luís Carlos Prestes foi o mais importante político brasileiro da primeira metade do século XX, superando até mesmo Vargas. Porém, quantos o conhecem hoje? Considerando sua importância histórica, pouco se escreveu sobre ele. O Cavaleiro da Esperança, de Jorge Amado, maIs um panegírico que uma biografia, o livro de Daniel Aarão Reis, bastante fraco e a biografia escrita por sua filha, Ana Leocádia, extremamente documentado, mas prejudicado pela preocupação da autora em justificar todos os atos do pai..
Então, a melhor maneira de lembrar Prestes; é dar a palavra ao poeta chileno Pablo Neruda e recordar seu discurso de saudação a Prestes, feito em versos,
“Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,
quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que levei anos e anos no coração para dizer-vos,
pensamentos
e saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano Pacífico, palavras que me
disseram
ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros,
todos
os povoadores de minha pátria longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina dando-me
espigas?

Uma mensagem tinham:
Era: Cumprimenta Prestes.

Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.
Aparta suas prisões, procura sua cela, chama.
E se não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te
e nos conta amanhã o que viste.
Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado
por um mar de corações vitoriosos.
Vou dizer ao Chile: Eu o saudei na viração
das bandeiras livres de seu povo.
Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite
falei à multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha Republicana, para o povo em sua
luta.
A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.
Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe
e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha
lutam, morrem,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América, são irmãos
de Bolívar, de O’Higgins, de San Martín, de Prestes.
E quando disse o nome de Prestes foi como um
rumor imenso
no ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de olhos úmidos
olhavam para o fundo do Brasil e para a Espanha.
Vou contar-vos outra pequena história.
Junto às grandes minas de carvão, que avançam
sob o mar,
no Chile, no frio porto de Talcahuano,
chegou uma vez, faz tempos, um cargueiro
soviético.
(O Chile não mantinha ainda relações
com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Por isso a polícia estúpida
proibiu que os marinheiros russos descessem,
e que os chilenos subissem).
Quando a noite chegou
vieram aos milhares os mineiros, das grandes
minas,
homens, mulheres, meninos, e das colinas,
com suas pequenas lâmpadas mineiras,
a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,
para o navio que vinha dos portos soviéticos.
Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas, as lâmpadas do povo.
Também hoje, de todos os rincões
da nossa América, do México livre, do Peru
sedento,
de Cuba, da Argentina populosa,
do Uruguai, refúgio de irmãos asilados,
o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas
lâmpadas
em que brilham as altas esperanças do homem.
Por isso me mandaram, pelo vento da América,
para que te olhasse e logo lhes contasse
como eras, que dizia o seu capitão calado
por tantos anos duros de solidão e sombra.
Vou dizer-lhe que não guardas ódio.
Que só desejas que a tua pátria viva.
E que a liberdade cresça no fundo
do Brasil como árvore eterna.
Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas.
carregadas por estes anos entre a pele e a alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.
Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e varões.
Peço silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: Que o Brasil falará por sua boca.”

A história como farsa

Naquela manhã do dia 24 de agosto de 1954, com 15 anos completados uma semana antes, eu tomara o bonde Floresta na parada da rua Marquês do Alegrete, onde morava e descia 10 minutos depois na frente da Igreja São Pedro. Caminhava, então, duas quadras pela Rua Conde de Porto Alegre, até chegar na esquina da Travessa Azevedo, onde ficava a tornearia do Elmo Mohor, um parente distante da família.
Ali, durante as manhãs, eu ajudava nos serviços de escritório da firma, para ganhar alguns trocados e auxiliar no orçamento da família.
Aquela, porém, seria uma manhã diferente. Por volta das 8,30, o Repórter Esso da Rádio Nacional, anunciava o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, no Palácio do Catete. Em poucas horas, Porto Alegre se transformou num inferno. A população, que parecia assistir com indiferença a longa agonia do Governo Vargas, acusado de corrupção pelos seus inimigos, saiu às ruas dispostas a fazer justiça.
Em poucas horas o consulado norte-americano na Marechal Floriano, esquina Andradas foi invadido e saqueado. Sedes dos veículos dos Diários Associados, que comandaram junto com a Tribuna de Imprensa de Carlos Lacerda, a campanha de ódio contra Vargas, foram incendiados. Qualquer estabelecimento comercial que fizesse alguma referência aos Estados Unidos, não era poupado. Assim aconteceu com a Importadora Americana, uma revenda de carros na Avenida Farrapos e dizem até com a American Boate, na Voluntários da Pátria.
Sessenta e dois depois, a data parece ter sido esquecida pelos jornais. Zero Hora, talvez não querendo que alguém se lembrasse de ligar a campanha contra Vargas, com a que se faz hoje contra Dilma, não citou o suicídio de Vargas nem no seu obituário.
A comparação, porém, é inevitável, ainda mais que o processo de impeachment, a versão light do golpe estado, começa no dia 25, um dia depois do aniversário da morte e Vargas em Brasília.
Desde que assumiu, eleito por uma maioria de votos, em 1950, Getúlio teve que enfrentar uma campanha feroz dos seus adversários, muitos dos quais tinham sido seus aliados durante o período ditatorial, que não se conformavam com a sua política nacionalista.
Quando ainda era apenas um senador, prestes a se transformar em candidato à presidência, Getúlio recebeu da Carlos Lacerda este comentário, que ficou registrado na história: “ O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência; se candidato, não deve ser eleito; se eleito, não deve tomar posse; se empossado, devemos recorrer a uma revolução para não eixá-lo governar.
O povo não concordou com Lacerda e preferiu seguir o conselho de uma marchinha de carnaval de 1950, cantada por Francisco Alves, que dizia:
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar,
O retrato do velhinho
Faz a gente trabalhar.
Hoje, os golpistas, com Temer a frente, devem repetir contra Dilma o mesmo discurso de Lacerda. Como os tempos são outros, a história agora terminará sem mortos, nem feridos e nem mesmo haverá uma carta-testamento como deixou Vargas, estimulando o povo a resistir:
“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém”.
Quando o golpe de 2016 se consumar, restará saber como o povo reagirá a mais este esbulho dos seus direitos, mesmo sem nenhuma carta testamento.
A comparação entre o golpe de 54 e o 2016 é inevitável, como também é inevitável não lembrar aquela famosa frase de Marx no seu livro sobre o 18 Brumário de Luís Bonaparte, dizendo que “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Marx dizia que não era possível comparar Caussidièri, por Danton, Luis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845- 1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio.
Hoje poderíamos dizer, ainda que um certo exagero, que não é possível comparar Padilha, por Tancredo Neves, Romero Jucá por João Goulart, o PMDB de 2016 pelo PTB de 1954 e Michel Temer por Getúlio Vargas.
Afinal, como disse Marx, os homens fazem sua própria história, mas não fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas que defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

Matar ou morrer em Brasília

Embora a vida seja complexa, há certos momentos nela, em que o homem tem apenas duas alternativas na sua frente e sua escolha vai definir sua coragem, seu caráter e seu valor como ser humano.
Essa semana, em Brasília, 81 senadores vão decidir, não apenas o destino da Presidente Dilma Rousseff, mas se apoiarão um golpe ou se terão a coragem de assumir a postura que se espera de parlamentares eleitos para cumprir o juramento que fizeram de defender a Constituição.
Diz a imprensa comprometida com o golpe, usando uma linguagem esportiva, que é um jogo jogado: o impeachment será aprovado,
É bem possível que seja assim, até porque nenhum deles se sentirá chamado para assumir suas responsabilidades. A maioria, esconderá a covardia de cada um.
Quantos repetirão a frase desafiadora dos espartanos no Desfiladeiro das Termópilas, quando os persas avisaram que tinham tantas flechas que, se disparadas simultaneamente, cobririam a luz do sol?
– Melhor, combateremos à sombra, responderam os corajosos e arrogantes gregos.
Poucos.
Quantos lembrarão a frase de Leonel Brizola, quando os militares quiseram impedir a posse de Joao Goulart em 1961?
– Não vou aceitar um golpe pelo telefone.
Certamente muito poucos.
Nos grandes momentos, a complexidade dos acontecimentos se afunila numa só postura, simples e definitiva: é matar ou morrer.
Como sempre é nas artes que podemos buscar com mais impacto a representação precisa desses grandes momentos.
Em 1952, no auge do macarthismo, quando uma grande caça às bruxas, produzia nos Estados Unidos uma perseguição ideológica como nunca tinha sido vista, o diretor Fred Zinnemann produziu em Hollywood um dos filmes mais marcantes da história do cinema em defesa da dignidade do ser humano.
E só poderia ser um faroeste.
Zinnemann, nascido em Viena em 1907 e morto em Londres, em 1997, já havia feito grandes filmes antes, como o drama de pós guerra, Perdidos na Tormenta, com Montgomery Clit  e faria depois outros clássicos do cinema americano, como A Um Passo da Eternidade, com Burt Lancaster, Montgomery Clift, Debora Kerr e um surpreendente Frank Sinatra como ator e Espíritos Indômitos, com Marlon Brando, mas será lembrado sempre por Matar ou Morrer(High Noon), filme baseado num roteiro de Carl Foremann, um dos grandes nomes do cinema norte-americano, perseguido pelo macarthismo.
Matar ou Morrer seria depois apontado equivocadamente por John Wayne, que nunca escondeu seu anticomunismo militante, como “the most un-American thing I’ve ever seen in my whole life” (A coisa mais antiamericana que eu alguma vez vi em toda a minha vida)
Um verdadeiro ícone dos faroestes do cinema norte-americano, John Wayne nunca se destacou pela qualidade de suas avaliações políticas, mas parece, no caso, ter percebido a alegoria contra o macarthismo desenvolvida por Zinnemann e Foremann.
Na pequena cidade de Hadleyville, o xerife Wiill Kane (Gary Cooper) está prestes a abandonar a cidade, recém-casado com a quaker Amy (Grace Kelly), quando recebe a notícia que o bandido Frank Miller (Ian MacDonald), que ele havia prendido tempos atrás, estava chegando pelo trem do meio dia para se vingar, com o apoio da sua gang que o espera na estação. O xerife pede apoio da população, mas todos, com uma desculpa ou outra, se omitem, deixando-o sozinho.
O xerife não é mais corajoso do que ninguém, tem medo de morrer, pensa em fugir, mas sabe que em certos momentos na vida, não existe outro caminho e é preciso escolher um lado.
É Matar ou Morrer.

Tomara que alguns dos atuais senadores da República tenham visto o filme e na última hora tenham a coragem de assumir um lado, de preferência o do mocinho, rejeitando o impeachment,

Como fundir a desordem com a ordem?

Jesus Cristo, um personagem cuja existência histórica é ainda hoje discutível, nasceu, segundo os apóstolos que contaram sua fantástica história mais de 100 anos depois da sua presumível morte, em Belém e falava o aramaico nas suas pregações pela Palestina ocupada pelos romanos.
Lendo o que escreveram seus biógrafos, Mateus, Marcos, Lucas e João, vemos que Jesus gostava de se expressar por parábolas.
Uma delas, poderia ser retomada nos dias de hoje.
Segundo Mateus, um grupo de fariseus tentando obter de Jesus uma crítica aos romanos lhe perguntaram:
– É licito pagar o tributo a Cesar, ou não?
Jesus, porém, reconhecendo a malícia da pergunta, pediu que lhe mostrasse a moeda do tributo e então perguntou
– De quem é esta efigie e esta inscrição?
– É de Cesar
– Então, dai a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus
Dizem que Deus é brasileiro. Então Jesus, pela maneira como recusou a se comprometer no desafio dos fariseus, deveria ser mineiro.
Segundo o folclore político, os políticos mineiros, de Benedito Valadares a Tancredo Neves, se especializaram em nunca se comprometer escolhendo definitivamente um lado em qualquer disputa política.
Possivelmente ficaram traumatizados com o que aconteceu com Tiradentes e juraram nunca mais fechar qualquer porta ou romper em definitivo com seus adversários.
É o que o vulgo chama de ficar em cima do muro.
Hoje, no Brasil, o muro está cheio de políticos prontos para saltar para o lado que lhe dê mais vantagens.
Aliados incondicionais de Lula e Dilma de ontem, subiram no muro num primeiro momento e agora estão saltando alegremente para o lado dos inimigos do PT.
Entre os que nunca subiram nesse hipotético muro está o ex-governador Tarso Genro, que com extrema lucidez vem apontando nos artigos que publica no seu blog no Sul 21 alguns dos mais ilustres traidores.
No último texto que escreveu, Tarso, que parece sempre querer se afastar da mediocridade cultural dos políticos brasileiros, cita professores, filósofos e até poetas, brasileiros e europeus, vivos e mortos ( o professor da UPS Gilberto Bercovi, o professor alemão Carl Schmidt, e o filósofo e também poeta simbolista francês Paul Valery) para descrever a situação atual do Brasil.
Diz ele: “A mídia oligopólica se apropriou da agenda política do país e fez um novo governo O capital financeiro global se apropriou do Estado e vai, gradativamente, eliminando as suas funções públicas. Se a ordem e a desordem são ambas problemáticas, temos que fundi-las num novo processo constituinte, para que elas possam reinaugurar o seu convívio dentro da república.
Como leitor da obra de Karl Marx, Tarso certamente não esqueceu aquele apelo do Manifesto Comunista no sentido de que os filósofos, que sempre explicaram o mundo, deveriam começar a dizer agora como muda-lo.
Como um político que nunca se omitiu de escolher um lado, Tarso deve começar a mostrar agora quais os passos que precisam ser dados para fundir a ordem e a desordem. Lembrando a citação que faz de Paul Valery de que na desordem, perdemos a coerência e caímos na confusão e na ordem nos petrificamos, Tarso precisa nos dizer quem ou o quê, representa a ordem e quem ou o quê, representa a desordem e como fazer para se chegar a esta síntese política.

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A família, a religião e a democracia

No seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels mostra que a organização familiar foi a primeira forma organizada do ser humano a estabelecer regras de procedimento nas relações entre as pessoas, pondo um limite na violência atávica que permitia aos mais fortes impor suas vontades.
Baseado nos estudos do antropólogo Lewis Henry Morgan sobre os índios norte-americanos da tribo iroquesa, Engels comprovou que o desenvolvimento da família, das antigas formas tribais até chegar ao modelo monogâmico de hoje, está ligado à forma como os grupos humanos se apropriam das riquezas naturais da terra.
Segundo ele, nesse desenvolvimento histórico, podemos definir a existência de três etapas, anteriores ao atual modelo familiar:
1)    A família consanguínea, com o casamento de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo.
2)    A família punaluana, com o casamento coletivo de grupos de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo
3)    A família sindiásmica, com as uniões por casais durante um determinado tempo, mas já com o aparecimento de uma esposar principal e de um esposo principal.
Quando, em virtude do desenvolvimento das formas de produção, o homem já havia conseguido dominar boa parte das forças da natureza e começado a acumular riquezas, desenvolveu-se nele um forte sentimento de egoísmo, fazendo com que ele sentisse a necessidade de identificar seus filhos, que seriam os herdeiros de suas riquezas.
Segundo Engels, esse modelo de monogamia teria surgido na antiguidade clássica, há três mil anos e que, de uma maneira ou outra se preserva até hoje nas suas linhas gerais.
Nesse formato de relação, Engels vê também a origem da opressão das mulheres e o estabelecimento da prostituição, desmentindo a ideia de que elas acompanhariam todas as formas de relacionamentos entre homens e mulheres.
Com a apropriação privada pelas famílias mais fortes, ou mais competentes, das riquezas que antes eram de todo o grupo, essas famílias, trataram de criar um tipo de superestrutura capaz de estabelecer regras de convívio entre todos, impedindo que, as que se atrasaram nessa corrida pelas riquezas, retomassem os procedimentos anteriores de selvageria e desrespeito à propriedade dos outros.
Surge assim o Estado, produto direto da primeira grande divisão de classes da sociedade, destinado a impedir que o status quod conquistado pelos mais ricos pudesse ser alterado.
Essa organização é ainda no seu início bastante frágil e é preciso ser defendida contra o ataque dos excluídos e para isso são estabelecidas determinadas regras, basicamente divididas em dois grupos: as regras de convivência entre pessoas e grupos e regras de compromissos éticos e morais entre os indivíduos.
Estabelecer regras de convivência entre pessoas e grupos com interesses muitas vezes opostos, demandou um esforço muito grande de convencimento, além da criação de uma força de coerção bastante eficiente.
 Na Grécia, onde ele foi formulado pela primeira vez, ele tomou o nome de democracia, significando um governo do povo, mas excluía boa parte da população.
Até hoje, a ideia de democracia, principalmente na sua vertente ocidental, pode ser enaltecida em discursos acadêmicos e políticos, mas ao excluir de suas benesses boa parte da população, está sempre sob o ataque dos inconformados.
Este inconformismo pode ser dividido em dois segmentos: o daqueles, que como no ludismo dos trabalhadores inglesas, no início da revolução industrial, queriam destruir as máquinas para preservar seus empregos e são representados hoje pelos seguimentos fascistas que pretendem destruir todo o sistema democrático atual e os que, percebendo seus estreitos limites, querem sua ampliação dos seus aspectos apenas formais para todo o campo social.
Dissemos antes que haviam dois modelos de superestrutura no qual se apoiam a existência do Estado. O primeiro seria a democracia e o segundo a religião.
As grandes religiões monoteístas sempre serviram para justificar a divisão da sociedade em classes (Marx disse com propriedade que a religião era o ópio do povo), na medida em que transferem para um futuro improvável, aquilo que deveria ser conquistado aqui e com isso ajudavam a preservar as diferenças de classe.
Hoje, esses dois elementos – democracia e religião – estão sob o ataque das mentes mais esclarecidas que pretendem aprimorar o primeiro, a democracia e transformar o segundo – a religião, num sentimento apenas pessoal, mas sem maiores significados para o relacionamento social.

Nos tempos da Piratini

Em 1957, com 17 anos, eu fui ao Rio pela primeira, cumprindo aquela sina dos gaúchos de olhar para o Rio de Janeiro como a cidade dos sonhos, que depois, quando sobrou algum dinheiro no bolso, passou a ser Paris.
Um dos programas que não poderia deixar de ser cumprido, além da praia de Copacabana, o bondinho do Pão de Açúcar e o trenzinho para o Corcovado, era ir ao Maracanã.
Durante aquele mês de julho que passei no Rio, vi todos os jogos possíveis –  Benfica e Flamengo; Benfica e América: Vasco e Fluminense e o mais importante de todos, Brasil e Argentina, pela Copa Roca, no Maracanã.
A Argentina ganhou por 2 a 1 com gols de Labruña e Juárez. Pelé, que entrara no segundo tempo no lugar do Mazola, descontou para o Brasil. Com apenas 17 anos, este jogo marcou a estreia de Pelé na seleção e eu estava lá no Maracanã para assistir. Outra curiosidade: os dois laterais do Brasil eram jogadores formados no Inter: Paulinho, que então jogava no Vasco e Oreco, no Corinthians.
Três dias depois, Brasil e Argentina voltaram a se encontrar em São Paulo, no Pacaembu, e o Brasil ganhou por 2 a zero ficando com a Copa Roca. Marcaram Pelé e Mazola, mas quem acabou com o jogo foi o meia Luizinho, do Corinthians, que não participara do primeiro jogo.
Conto tudo isso para dizer que vi o jogo pela televisão, no Rio. O que hoje é algo extremamente comum, naquela noite foi saudado como uma conquista tecnológica importante.
Usando o seu caminhão de externas, estacionado no meio da rodovia Rio-São Paulo, como estação repetidora, a TV Tupi, pela primeira vez ligou os expectadores das duas cidades numa transmissão instantânea de futebol.
É sobre essa época heroica da televisão que vou falar, lembrando um pouco da minha experiência no jornalismo da TV Piratini de Porto Alegre na década de 60.
Minha tarefa principal era redigir, junto com Luís Vicente Soares, o Seu Repórter Esso, experiência que já contei em detalhes para ajudar o professor Luciano Klockner na sua tese de doutorado sobre esse primeiro grande noticiário da televisão brasileira na PUCRS.
Gostaria de falar agora sobre outro noticiário, bem menos conhecido e feito com muito menos recursos, o Atualidades Catarinenses.
Fugindo da repressão ao levante húngaro de 1956, vivia em Porto Alegre um ex-cameraman do cinema da Hungria e de agências internacionais de notícias, conhecido por Buza. Seu primeiro nome perdi na minha memória, mas certamente o Batista Filho deve lembrar.
Na época, o sinal de TV Piratini chegava a Florianópolis através de repetidoras, montadas nas partes mais altas das cidades de Osório, Torres, Tubarão, Laguna e Criciúma, por iniciativa das comunidades locais. O Buza logo se deu conta que poderia ganhar algum dinheiro misturando reportagens jornalísticas com matérias pagas sobre estas cidades, editadas depois num pequeno telejornal.
Então comprou espaço no horário mais barato da televisão – sábados à noite – escolheu seus representantes nas principais cidades catarinenses, entre jornalistas e publicitários, deixando com cada um deles uma câmera de 16 milímetros e com material arrecadado durante a semana, produzia o tal Atualidades Catarinenses, que de atualidades tinha muito pouco.
Por causa de uma dificuldade que ainda tinha com a língua portuguesa, éramos para o Buza, o MÁrino e o BÁtista, pronunciando nossos nomes como se fossem palavras proparoxítonas.
O MÁrino escrevia o noticiário e o BÁtista apresentava.
Quem sabe o Luciano se interesse em escrever sobre isso, aprofundando a sua tese sobre a comunicação jornalística dos primórdios da nossa televisão.

Eu não fiz voto de silêncio

No seu livro Em Nome da Rosa, Umberto Eco fala sobre os monges que faziam votos de silêncio permanente. Isso sempre me pareceu uma tarefa difícil de cumprir, bem mais do que aquele outro voto de nunca rir, até mesmo porque me parecia correta a ideia de que o riso avilta a condição racional do ser humano
Sei que há divergências sobre este último conceito e ninguém precisa me lembrar de Chaplin e Wood Allen para mostrar como pode estar errada essa suposição.
O que me interessa discutir é se podemos, nós que não somos monges trapistas, cumprir voto de silêncio ou pior, ser condenado ao silêncio.
Para mim, aqui nesse exílio de Gramado, tem sido muito difícil.
Ontem, fiz apenas uma frase durante todo o dia, ao dar bom dia para a zeladora do prédio. Hoje,13 horas de um dia de chuva, continuo invicto no quesito conversação.
Eu tinha arranjado uma amiga aqui nessa cidade de pessoas sempre de passagem, mas ela deve ter cansado dos meus assuntos e partiu.
Em vez de falar, eu agora apenas escrevo. Pelo menos isso.
Desde pequeno, sempre fui um falador e na casa dos meus pais foi estimulado a falar.
Só não podia falar de boca cheia, segundo dizia minha mãe, porque era falta de educação.
Aos 6 anos, quando morávamos em São Sebastião do Caí, era o primeiro a chegar na agência dos Correios, na segunda feira, para não perder a edição da Folha Esportiva.
– É para o seu pai? 
Perguntava a moça do Correio.
Meu pai não se interessava muito por esportes. Era eu que queria saber tudo sobre futebol para ter mais assuntos durante a semana. Recordo até hoje que as notícias naquele ano não foram nada boas. Depois de seis campeonatos seguidos, o Inter perdeu o título para o grêmio no ano de 1946, na partida final por 2 a 1, dizem que com a ajuda do juiz que anulou injustamente um gol do Inter.  No ano seguinte recomeçamos a ganhar, 1947 e 1948. Em 1949, demos outra chance para o grêmio e retomamos nossa “senda de vitórias”, até 1954, quando apareceu o Renner.
Mas, não era sobre isso que queria falar, mas sim sobre voto de silêncio.
Para um falador inveterado, nada como se tornar um professor, primeiro de História, no Colégio Marechal Rondon de Canoas e depois nos cursos de Comunicação da PUCRS e UNISINOS.
Hoje, os professores estão cheios de recursos audiovisuais para poupar o seu latim e os ouvidos dos alunos. Na época, como dizia o Luís Augusto Cama, as aulas eram de professor e giz. Como o giz arrancava a pele dos meus dedos, eu enfrentava aqueles 50 alunos apinhados na sala de aula, apenas no gogó.
Pobres dos alunos.
Aposentado, as possibilidades de falar foram ficando cada vez mais escassas, até chegar a situação de hoje.
Fico pensando em pessoas obrigadas a não falar, como o Pepe Mujica, que ficou anos num buraco de chão na prisão de Punta Carretas, no Uruguai  e de Mandela, na África do Sul.
Mas estes eram verdadeiros heróis e seus algozes temiam suas palavras.
Das minhas, ninguém precisa ter medo.
Penso também naqueles caras que o juiz Moro trancafiou no Paraná.
Será que eles podem falar uns com os outros, ou só com os advogados? Será que têm acesso à internet e podem escrever como eu faço agora? Certamente que não. Senão seriam capazes de avisar o Lula das sacanagens que estão sendo tramadas contra ele.
Mas a Lava Jato não tem nada contra mim. Pelo menos espero que não, embora nunca se saiba até onde podem ir essas buscas da Polícia Federal.
Na época do Sarney atendi contas publicitárias em Brasília e já ouvia falar que existiam alguns tipos de negócios pouco ortodoxos, mas infelizmente nunca ninguém me convidou para alguma maracutaia.
Talvez pensassem que eu falava de mais e seria um delator premiado se caísse nas garras da lei.
Mas, voltando mais uma vez ao voto de silêncio.
 Robinson Crusoé, o personagem do livro da Daniel Defoe, ficou sem encontrar qualquer ser humano por 20 anos, perdido numa ilha, mas aí apareceu o Sexta Feira e ele pode estabelecer longos diálogos com o índio. Em que língua, eu não sei.
Mas, nos dias de hoje, quem faz e cumpre votos de silêncio?
O Temer e o Eduardo Cunha podiam calar a boca durante algum tempo, mas certamente não farão isso e continuarão disparando suas mentiras.
E as carmelitas?
Tem um convento delas em Porto Alegre e periodicamente, na falta de assunto, os jornais falam sobre seus hábitos.
Elas fazem voto de silêncio ou é só de castidade?
Eu aqui não fiz voto de castidade e pelo contrário me esforço, sem muito sucesso, diga-se de passagem, para não ser casto.
Nem de silêncio. Mas parece que estou condenado a cumprir os dois.
Acho que vou arranjar uma viagem a Porto Alegre, logo, logo, para por em dia minhas conversas, quebrando esse silêncio no qual não votei.
O de castidade, vai ser mais difícil, mas não perco as esperanças.