Oprimidos e opressores no cinema

Dois impérios, duas lutas de oprimidos contra os opressores, dois filmes para serem lembrados. Os impérios; o norte-americano atual e o otomano do início do século passado. As lutas: dos árabes contra os americanos e a dos gregos contra os turcos. Os filmes: “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker) de 2009 e Aquele que Deve Morrer (Celui Qui Doit Mourir) de 1956. Uma diferença: no primeiro filme, temos a visão dos opressores; no segundo, dos oprimidos.
Guerra ao Terror, dirigido por Kathryn Biglow, ganhou o Oscar de melhor filme em 2010 e Kathryn, o de melhor diretora. O filme acompanha um grupo de soldados norte-americanos, especializados em desmontar as bombas que os iraquianos, ainda inconformados com a dominação americana, espalham pelas ruas das suas cidades. A rigor são apenas três pessoas e um robô que atuam diretamente na operação.
No início do filme assistimos um a uma dessas operações, comandada pelo sargento Guy Pearce (Matt Thompson) extremamente cauteloso, que obedece a todas as regras do manual para o desarme das bombas, mas que mesmo assim acaba morrendo quando uma delas explode, acionada a distância por um insurgente.
Para o seu lugar é enviado outro militar, o oposto do primeiro em relação aos cuidados que devem ser tomados. Extremamente individualista, o sargento Willian James (Jeremy Renner) despreza o uso do robô, das roupas protetoras e do apoio dos seus companheiros.
Quase um suicida, ele parece brincar o tempo todo com a possibilidade de morrer na explosão. Apesar disso tem sempre sucesso e conquista a admiração dos seus superiores. A ação se desenvolve linearmente, entrecortada apenas por alguns momentos destinados a mostrar que este herói militar não se relaciona mais com a mulher e o filho nos Estados Unidos e suas companhias permanentes são o cigarro e o uísque.
As brincadeiras com os outros dois componentes do grupo se resumem a socos e tapas para mostrar quem tem mais resistência à dor.
O sucesso do filme nos Estados Unidos se deve talvez a isso: um herói solitário, que resolve as coisas sempre do seu jeito, como nos velhos filmes do faroeste.
No Iraque, o inimigo está sempre oculto e é incapaz de enfrentar de peito aberto o ranger americano, o que transforma o filme em mais uma história de mocinhos e bandidos.
 Os mocinhos são os americanos e os bandidos, os iraquianos que adoram espalhar os artefatos explosivos no caminho dos sobrinhos do Tio San.
Essa maneira simplista de ver a guerra, livre de qualquer conotação política, ajuda a classe média americana a suportar a dor de ver seus filhos morrerem distante da pátria numa guerra, que não tem qualquer sentido, a não ser a defesa dos interesses econômicos dos Estados Unidos. 
Aquele Que Deve Morrer” (Celui Qui Doit Mourir), foi dirigido por Jules Dassin, um norte-americano que teve que trabalhar fora do seu país, perseguido pelo macarthismo dos primeiros anos da década de 50.
O filme, baseado no livro de Nikos Kazantzákis O Cristo Recrucificado, conta como os gregos, oprimidos pelos turcos, se revoltam sob a liderança de um pastor, motivados pela representação da Paixão de Cristo durante a Semana Santa.
Trata-se de uma parábola sobre a história de Cristo, visto como um revolucionário.
– Eu não vos trago a paz, mas a espada da guerra, diz em certa altura o padre, vivido pelo grande ator francês, Jean Servais, que lidera um grupo de famílias expulsas de sua aldeia pelos turcos, citando a Bíblia.
Como fazem todos os anos, com o consentimento do governador turco, os gregos da aldeia recontam a história da Paixão de Cristo, numa montagem teatral, só que dessa fez o pastor gago Manolios, interpretado por Pierre Waneck, acaba acreditando ser o Cristo redivivo, que vê nos otomanos, os novos romanos e transforma sua pregação numa guerra contra os opressores.
Melina Mercouri, que foi casada 20 anos com Dassin e que além de atriz seria mais tarde deputada e Ministra da Cultura da Grécia. é a prostituta da aldeia, que incorpora o papel de Maria Madalena.
Jules Dassin, que morreu em 2008, em Atenas, com 96 anos, ficou famoso na década de 40, nos Estados Unidos, ao realizar Brutalidade (Brute Force), com Burt Lancaster e “Cidade Nua” (The Naked City), com Barry Fitzgerald.
Na década de 50, acusado de ser comunista, se obrigou a viver na Europa, onde realizou, pelo mais, dois ou três clássicos do cinema, além de Aquele Que Deve Morrer: Sombras do Mal (Night in the City) na Inglaterra, com Richard Widmark e Gene Tierney;  o policial Rififi ( Du riifi che les hommes) com Jean Servais na França e que conta um assalto a uma joalheria de uma maneira que faria escola no cinema e Nunca aos Domingos  (Never on Sunday) na Grécia, com Melina Mercouri.

.

Um livro para se ler e pensar

A longa crise em que vive o sistema capitalista no mundo do inteiro desde a última década do século passado, tem levado inúmeros pensadores a voltar a cogitar de uma sociedade socialista como remédio para os males da humanidade.
Istvan Meszaros recuperou aquele famoso dito de Rosa Luxemburgo de há praticamente 100 anos, de que a opção ao socialismo é a barbárie, a qual Meszaros acrescentou ainda um adendo: na melhor das hipóteses.
Slavoj Zizek, Alain Bandiou e Jacques Rancieri, cada um a sua maneira, têm escrito e falado no mundo inteiro, alertando que o capitalismo, financeiro e globalizado, perdeu aquele vigor antigo de destruir o velho para construir o novo e hoje é apenas uma força que destrói a natureza e empregos no mundo inteiro, transformando milhões de pessoas em não-vivos ou semivivos.
Ao lado desses pensadores europeus, nessa análise, se destaca um brasileiro, Jacob Gorender, que infelizmente morreu em 2013, com o seu livro Marxismo sem Utopia, editado em 1999 pela Ática.
O livro pode ser dividido em três etapas. Na primeira, Gorender faz uma revisão de alguns conceitos de Marx, reforçando o papel do acaso nas transformações sociais e defendendo a impossibilidade de extinção do Estado, como propunha o autor do Manifesto Comunista.
Na segunda parte do seu livro, analisa o fracasso da experiência soviética a partir de duas variáveis: as dificuldades materiais da União Soviética, oriundas dos erros de sua política de planejamento econômico e a falta de democracia interna do país, onde o chamado “centralismo democrático” substituiu a participação popular em quase todos os seus níveis. Nem por isso, é um descrente na possibilidade de reconstruir o ideal socialista a partir dos ensinamentos de Marx e Engels e mesmo das experiências dos mais de 70 anos de vida na União Soviética.
Diz Gorender: “Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo”
Para a consecução desse objetivo revolucionário, Gorender se aproxima de uma das teses fundamentais de Lenin, quando em 1917 dizia que o proletariado não estava ainda preparado para fazer a revolução, que deveria então ser liderada por intelectuais comprometidos com as aspirações dos trabalhadores.
As modificações profundas que ocorreram nas relações de trabalho desde o Manifesto Comunista, levou Gorender a sintetizar como poderá ser este novo mundo socialista:
Permanência da divisão do trabalho entre físico e intelectual, sob a hegemonia de assalariados intelectuais.
Socialismo como objetivo abrangido em uma única fase, deixando de lado a visão utópica de Marx sobre o comunismo.
Permanência do Estado, sob o controle socialista ao invés de sua extinção.
Um sistema de democracia pluralista no socialismo.
A combinação de planejamento e mercado na economia socialista.

Brecht sempre atual

Logo vai começar um novo período eleitoral e os candidatos a prefeitos no Brasil inteiro vão estar de volta à televisão fazendo promessas que não pretendem cumprir e pedindo votos aos seus eleitores.
Pior que muitos desses discursos vão ser os comentários que se repetirão na fila do ônibus, nos encontros familiares de pessoas, incomodadas com a importância dada aos fatos políticos: “tenho horror à política”, “todos os políticos são corruptos”, “só voto por obrigação”, e por aí vai.
Para estas pessoas, que pretendem estar acima de qualquer discussão política, vale lembrar o comentário de Bertold Brecht, o dramaturgo alemão nascido em Augsburg em 1898 e falecido em Berlim, em 1956, sobre participação política:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.
Entre as dezenas de peças que Bertold Brecht escreveu, se destacam: O casamento do pequeno burguês (1919), A ópera dos três vinténs (1928), Mãe Coragem e seus filhos (1938), A alma boa de Setsuan (1939), O senhor Puntila e seu criado Matti (1940), a Resistível ascensão de Arturo Ui (1941), O círculo de giz caucasiano (1943) e Trompetes e Tambores (1955).
Aliás, quem se der ao trabalho de reler alguns textos do dramaturgo alemão, vai encontrar muitas frases plenamente adaptáveis ao Brasil de hoje.
Vejam alguns exemplos.
“Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”.
“País miserável é aquele que não tem heróis. Mais miserável ainda, é aquele país que precisa de heróis”
“Que é roubar um banco em comparação com fundar um banco?”
Primeiro vem o estômago, depois a moral”.
“Para quem tem uma boa posição social, falar de comida é coisa baixa. É compreensível: eles já comeram”.
“O que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e não diz nada é um criminoso”.
“Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva”.
“De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”.
“Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”.
“Temam menos a morte e mais a vida insuficiente”

“A ambição da ciência não é abrir a porta do saber infinito, mas pôr um limite ao erro infinito”.

Esquerda, direita, o simples e o complexo

Toda a redução é burra. Quando uma pessoa infla o peito cheio de indignação e diz que todo o político é corrupto, esta pessoa está fazendo uma redução e mostrando a sua falta de inteligência para analisar um fenômeno social, no caso o comportamento de um segmento de agentes que atuam na política com as mais diversas motivações.
Nada é simples no mundo para quem quer realmente entendê-lo. As coisas, sejam elas a que áreas pertençam, são complexas, tem mil variáveis e sintetizá-las é sempre uma forma de empobrecê-las.
Ao tentar simplificar um fenômeno, por exemplo da área política, estamos fechando o caminho que pode nos levar, não à verdade absoluta, mas uma aproximação dela.
Ao defender a simplicidade na análise das situações que nos cercam, as pessoas estão fazendo o elogio da ignorância, porque têm medo de no final, em vez de chegarem às certezas que procuram, encontrarem apenas mais dúvidas.
As pessoas querem ter certezas, porque duvidar sempre é um processo de dor e não de prazer.
Por isso, o sucesso das religiões – sejam elas quais forem – porque elas oferecem certezas aos crentes e até prometem que o reino dos céus será dos simples.
Tenham fé, dizem todas as religiões. Não pensem, não peçam prova, não discutam, não duvidem, apenas acreditem.
Num mundo onde a comunicação, em muitos casos substituiu a escola e igreja como orientadora dos comportamentos sociais, é importante ver como ela se comporta. A comunicação publicitária, cada dia mais presente na vida das pessoas, é profundamente redutora e busca obnubilar o espírito crítico dos consumidores.
Sua cara é o slogan intrigante e a linguagem, o verbo sempre no imperativo: compre, faça, veja.
Já o jornalismo deveria ser o contrário. Por definição, ele deveria mostrar sempre os dois lados de qualquer fato que narra. Não se trata de ser isento, mas de ser honesto. Infelizmente não é o que acontece. O jornalismo se tornou mais maléfico para a inteligência das pessoas que a publicidade. A publicidade assume que quer apenas que você compre a sua proposta. O jornalismo diz que não está lhe vendendo nada, mas apenas mostrando o que tem para oferecer, mas não lhe mostra as alternativas ou se mostra, o faz desvalorizando as que não lhe interessam.
Na política, a direita é redutora.  Ela vive, como a publicidade, da qual copia o estilo, também de slogans que não buscam o diálogo com a inteligência das pessoas, mas sim fazer uma lavagem cerebral. Seu gênio inspirador é Joseph Goebbels, e sua máxima é: uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade.
A direita é profundamente desumana. Ela não vê pessoas. Ela vê só objetos.
Ela grita histericamente: todo PT é corrupto; bandido bom é bandido morto.
Ela se diz democrata, mas detesta o diálogo. Grita ordens e quer ser sempre obedecida.
As palavras que mais admira são ordem e segurança. Ordem, para a direita, significa que os pobres devem se conformar com sua pobreza e segurança é ter uma polícia forte que mantenha os pobres conformados.
A esquerda, ao contrário, defende o diálogo, busca entender a complexidade dos acontecimentos, está sempre se dividindo porque as coisas são sempre diferentes dependendo do ângulo sob o qual são vistas.
Ela tem várias fontes de inspiração, começando com Marx, que são sempre revisadas. O que parece ser certo hoje, pode se mostrar errado amanhã.
Porque é profundamente democrática, a esquerda vive do diálogo e detesta qualquer forma de autoritarismo.
Em vez de ordem e segurança (não que não queira isso também) prefere paz e amor.
Se você leu este texto até aqui e concordou com tudo, você está mais para a direita do que para a esquerda.

O futebol no cinema

No Brasil, durante muito tempo chamado o País do Futebol, o nosso esporte preferido foi, entretanto, pouco utilizado no cinema para produzir dramas e comédias, ao contrário dos americanos, por exemplo, que já usaram dezenas de vezes o basquete e o basebol como temas para seus filmes.
Muitos documentários foram realizados no Brasil sobre Garrincha e Pelé, principalmente, mas poucos filmes de ficção.
Aliás, Pelé foi fazer nos Estados Unidos, junto com outros famosos jogadores, como Bobby Moore e Ardiles, em 1982, um drama de guerra, dirigido por John Huston, que conta a história de uma partida de futebol entre prisioneiros de campo de concentração e soldados nazistas, denominado A Fuga para a Vitória (Escape to Victory).
Fora isso, sobra pouca coisa, como Boleiros, de Ugo Georgetti de 1998 e Heleno, de José Henrique Fonseca, com Rodrigo Santoro, de 2011.
Enquanto isso, na Inglaterra, o futebol é tema de bons filmes, como esse Cantona, de Ken Loach.
O francês Eric Cantona, nascido em Marselha em 1966, é lembrado como o jogador do século do Manchester United da Inglaterra, onde atuou de 1992 a 1997.
Considerado um atleta temperamental, Cantona não chegou a jogar na seleção francesa, nas copas do mundo, porque em 1995 pulou o pequeno alambrado que cercava os campos de futebol na Inglaterra para bater num torcedor adversário.
Depois que o futebol acabou, ele se transformou em garoto propaganda de uma empresa de artigos esportivos e continuou a ganhar muito dinheiro.
Em 2009, resolveu aplicar parte desse dinheiro na produção de um filme, onde, obviamente o herói seria ele mesmo. O filme “Procurando por Eric” ( Looking fo Eric) conta a história de um carteiro inglês vivendo numa enorme crise financeira e emocional, que acaba encontrando a felicidade depois de ouvir os conselhos de Cantona, inicialmente apenas um grande pôster em seu quarto, mas que depois se transforma num personagem vivo que dialoga com o carteiro.
Para dirigir a história, o produtor Cantona buscou o talento do famoso diretor inglês Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes no ano de 2006 com o seu filme ”Ventos da Liberdade”, sobre a luta para a criação da República da Irlanda.

Considerado um artista totalmente engajado em temáticas sociais e mostrando sempre uma posição de esquerda, Loach faz em “Procurando por Eric” um filme que beira a pieguice e que não escapa de um happy end digno de Hollywood, talvez até por influência do produtor Cantona.

A democracia possível

No início dos anos 90 do século passado, o historiador nipo-americano Yoshihiro Francis Fukuyama decretou que a história havia chegado ao fim com a queda do Muro de Berlim e transformação dos Estados Unidos na única grande potência da terra. Isso significava que o capitalismo e a democracia burguesa seriam o ponto culminante da história da humanidade.
Esta visão do principal ideólogo do governo Reagan foi comprada sem maiores discussões pela mídia ocidental e repetida por intelectuais do mundo inteiro. O mundo passaria a viver uma era de estabilidade garantida pelo poder norte-americano.
Poucos anos depois, esta teoria começou a ser desmontada pelas repetidas crises do sistema capitalista que levaram à bancarrota importantes países ocidentais e que desestabilizaram a própria economia norte-americana, enquanto a China, com a sua economia controlada com mão de ferro pelo governo, só fazia crescer.
Na esteira dessas crises cíclicas, o que restava dos estados de bem-estar social, foi se dissolvendo com o desemprego crescendo e as liberdades públicas sendo abafadas.
A estabilidade política mundial, que Fukuyama via garantida pelo poder americano, se transformou em guerras sem fim no Iraque, na Síria e no Afeganistão e o que ele não previu, a emergência de movimentos nacionalistas e democráticos no Oriente Médio ganhava força como nos casos do Egito e da Tunísia.
As idéias de Fukuyama de que o capitalismo neoliberal seria o ponto final da história do homem na terra já foram jogadas no lixo, mas o seu complemento político, a democracia parlamentarista permanece para os grandes formadores de opinião – mídia, partidos políticos, entidades empresariais, sindicatos e universidades – como a melhor forma de administração dos estados.
Na América do Sul, na África, no Oriente Médio e em muitos países asiáticos, onde este tipo de democracia nasceu sobre o desmonte de ditaduras militares, realmente foi um avanço extraordinário, mas está longe de indicar o fim do caminho.
Veja-se o caso brasileiro, onde o sistema democrático nos moldes atuais tem pouco mais de 20 anos e acaba de sofrer um violento retrocesso, com uma Presidente legitimamente eleita afastada por um golpe parlamentar, com o apoio da mídia e o silêncio da justiça. Mesmo assim, ainda é muito melhor do que foi no passado. A tortura, pelo menos para fins políticos, desapareceu. As liberdades públicas ganharam impulso. Tudo é verdade.
Mas, até que ponto vivemos uma verdadeira democracia, onde a vontade da maioria prevalece?
Os deputados e senadores que, teoricamente, fazem as leis em nome do povo, chegaram ao Parlamento alavancados por verbas imensas empresariais ou o apoio de grupos religiosos obscurantistas. Os partidos que elegeram a Presidente e os governadores vivem dos mesmos financiamentos. É difícil se imaginar que eles possam em suas decisões contrariar os interesses desses grandes financiadores.
Além desse caráter de classe, existe na Câmara, no Senado e nas Assembléias, uma falta total de constrangimento por parte de um bom número de parlamentares em condicionar seus votos em projetos de interesse da população ao recebimento de vantagens pessoais. O que antes era feito veladamente, hoje se torna público. Partidos só votam certas leis se ganharem posições que lhes permitam oferecer empregos e salários para seus dirigentes.
É difícil acreditar que partidos com esta disposição de barganhar cargos ajudem a formar um sistema democrático razoável. 

Embora a possibilidade de se viver uma democracia plena só seja possível dentro de um modelo socialista de governo, o atual formato de democracia parlamentar capitalista poderia ser aprimorado com algumas medidas que já são discutidas, mas que, pela resistência dos interessados na manutenção da situação atual, dificilmente serão implementadas, como o financiamento público das campanhas eleitorais e o estabelecimento do controle social dos meios de comunicação para impedir que eles sejam usados na perpetuação do atual modelo.

Ainda é hora de ter esperanças?

Nossa lógica é cartesiana. Aprendemos a pensar assim e parece que tudo que acontece no mundo só serve para confirmar essa visão. Depois do um, vem o dois, depois o três, numa sequência lógica. Terça-feira, depois da segunda e antes da quarta , há séculos que nada muda nessa ordem.
Por que na política não seria assim também?
Ao trazer para a história a visão dialética de Hegel, Marx mostrou que nem sempre é assim. Que a história da humanidade se faz através de rupturas. Que a soma de quantidades, pode em determinado momento, gerar uma mudança qualitativa.
Marx não falou que as coisas acontecem obrigatoriamente desse jeito, mas que dependendo da ação dos homens, um determinado movimento que parece se encaminhar numa direção, pode subitamente mudar.
Ele pensava especificamente num sistema político, no caso o capitalismo, que quanto mais parece crescer, mais se aproxima de sua derrocada final.
A síntese desse pensamento está expressa naquela celebre afirmação de que “tudo que parece sólido, se desmancha no ar”.
E não é apenas nessa área política que as coisas podem mudar do dia para a noite. Há uma simples experiência física que mostra que as sequências podem ser rompidas numa fração de segundo. Quando você vai esquentando a água numa vasilha, ela continua líquida até os 99 graus, seguindo sempre uma sequência lógica. Basta somar apenas mais um grau e ela sofre uma revolução, deixando de ser líquida e se transformando em gás.
Aliás, numa licença poética, até aquela música do Fábio Júnior já disse uma vez que nem sempre a aritmética é definitiva.
‘O futuro já se fez
Por nos dois agora eu sei
Que um mais somam três”
Toda essa simplificação das regras da física feita por um leigo e a lembrança de uma música brega, vem a propósito de uma conversa com o ex-governador Tarso Genro.
Preocupado com a formação de uma frente de esquerda que se oponha ao que ele denomina como um grande movimento mundial em busca de um novo ajuste da sociedade capitalista, Tarso acredita que a hora é de agrupar forças e não de pensar em conquistar o poder político.
No caso brasileiro, ele imagina que a tendência é a consolidação das forças do centro/direita e que dificilmente uma nova experiência como foram os governos do PT, será possível nos próximos 10 anos.
Sua luta, no momento, é mais de resistência, procurando defender as conquistas sociais e democráticas postas em perigo pelo crescimento do pensamento autoritário no País, do que a montagem de uma estratégia eleitoral visando as próximas eleições.
E o que acontece no Brasil e no mundo inteiro, onde o pensamento autoritário e conservador prevalece, parece dar razão a estratégia de Tarso.
Segurança a qualquer custo é hoje a bandeira dos governos e o anseio das populações assustadas com o surgimento de movimentos terroristas que a mídia se encarrega de ampliar histericamente.
Em troca da lei e da ordem a qualquer custo, as pessoas estão dispostas a esquecer seus anseios de liberdade e democracia.
Esse sistema policial é, porém, a negação da democracia burguesa ocidental e traz com ele o germe de sua destruição.
Seu fortalecimento talvez seja o momento em que, esgotadas suas possibilidades de assegurar uma vida normal, para as pessoas, a velha ideia, cantada em prova e verso, de que “outro mundo seja possível” possa ser retomada.
Quem sabe isso possa ser conquistado ainda pelas nossas gerações – a minha e a de Tarso – contrariando o pensamento dele de que ela seria tarefa de nossos filhos e netos?

Afinal, sonhar e ter esperanças sempre foram os grandes estimuladores do pensamento de esquerda.

A obra prima que vem da Argentina

Incrível com o cinema argentino é capaz de nos surpreender com belos filmes.
O último é Paulina (La Patota) de Santiago Mitre.
Depois de estudar e se formar em Direito na cidade de Buenos Aires, Paulina retorna a sua cidade, Posadas, na divisa entre Argentina e Paraguai, talvez a região do país onde a desigualdade social é a mais visível.
Apesar de ter uma carreira promissora pela frente, escolhe dedicar-se à atividade social: voltar a sua terra e se tornar professora numa pobre escola rural.
O filme tem pouca ação e toda a sua trama de violência é percebida pelas expressões da excelente atriz que vive o papel de Paulina, Dolores Fronzi.
Sem qualquer tipo de apelo a um discurso panfletário, o diretor nos mostra até que ponto a exploração predatória da terra, pelos madeireiros da região, gera a miséria que vai embrutecendo as pessoas do lugar e transformando homens em quase animais.
A região onde se passa a ação do filme pertence à província de Missiones e originalmente, junto com outras terras, hoje território paraguaio, fazia parte das missões jesuíticas da América Espanhola.
Depois da chamada guerra da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) contra o Paraguai, iniciada em 1865, toda a região do Chaco, antes pertencente ao Paraguai, foi anexada a Argentina e hoje forma a províncias de Missiones e Formosa.
Ao contrário de outras províncias da Argentina, que se tornaram muito ricas, graças principalmente à criação de gado e das culturas agrícolas, principalmente o trigo, Missiones permaneceu pobre, com a sua economia baseada na erva mate e mais tarde no corte de madeiras.

À semelhança de algumas regiões do nordeste brasileira, Missiones é um território dominado por uma espécie de capitalismo atrasado, que gera poucos empregos e que explora ao máximo à força de trabalho de uma população majoritariamente de origem indígena.

O comunismo morreu?

 O marxismo, apontado muitas vezes como uma doutrina exótica, é um produto genuíno da cultura ocidental. Suas três vertentes formadoras são as idéias humanistas dos socialistas utópicos franceses, as teses sobre a economia do escocês Adam Smith e a visão dialética do alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. A partir de 1948, com a edição do Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels lançaram as bases teóricas e práticas para a construção de uma sociedade socialista, sonho até então utópico da humanidade.
Em 1917, contrariando as idéias de Marx e Engels, que imaginavam esse evento acontecendo na Inglaterra, na Alemanha ou na França, foi realizada na Rússia a primeira tentativa de edificação de um estado baseado nos princípios marxistas, graças à liderança de dois dos maiores revolucionários do século XX, Lenin e Trotsky.
Com o passar dos anos, a premissa marxista de que seria preciso um período de ditadura da classe trabalhadora para o enfrentamento dos contra-revolucionários – e no caso da nova União Soviética, eles foram tantos internos, como externos – convergiu para uma ditadura de um único partido, depois para um pequeno grupo dentro do partido e finalmente para a de um só homem, Josef Stalin.
Mesmo assim, com muitas adulterações nos pressupostos lançados por Marx e Engels, a União Soviética conseguiu se tornar uma grande potência e num curto período, após a segunda guerra mundial, parecia se aproximar do sonho de uma sociedade socialista mais humana e justa.
A chamada Guerra Fria e o bloqueio econômico norte-americano, porém, debilitaram a economia da União Soviética e nem o último esforço de Mikhail Gorbatchov de instituir a Perestroika – reconstrução econômica – e a Glasnost- transparência política – não foram capazes de salvar o regime que desapareceu em 1991. Com o fim da União Soviética, políticos e intelectuais burgueses do mundo inteiro decretaram o fim do comunismo e o domínio perene do capitalismo na sua versão neoliberal.
 Toda essa recuperação histórica se faz necessária no momento em que despontam no mundo inteiro movimentos no sentido de recuperar as propostas de Marx e Engels para a edificação de uma sociedade socialista, obviamente aperfeiçoadas pelos novos conhecimentos adquiridos nas últimas décadas nas áreas de sociologia, da economia e da política.
Os contínuos fracassos econômicos do capitalismo, com suas devastadoras crises cíclicas, colocaram na ordem do dia novamente a possibilidade de edificação de uma sociedade baseada em valores mais humanos.
Dentro dessa nova perspectiva, é que renovadas correntes marxistas estão surgindo para propor uma pergunta que certamente vai assombrar muita gente: o comunismo está realmente morto? 
Um dos filósofos franceses mais importantes da atualidade, Alain Badiou (79 anos) professor na École Normale Supérieure, de Paris, lançou o livro “L’Idée du Communisme” (A Hipótese Comunismo , disponível em língua portuguesa), que reúne textos de  conferências feitas em Londres por ele e mais 14 pensadores europeus sobre o tema.
Na apresentação do livro, Badiou justifica o seu lançamento como “uma maneira de repor em circulação esse velho vocábulo magnífico (comunismo) e não deixar os partidários do capitalismo liberal globalizado imporem um balanço pessoal de sua utilização.
Relançar a discussão sobre as etapas e os desvios inevitáveis da emancipação histórica da humanidade é uma tarefa necessária para o que hoje se mostra dramaticamente ausente: uma independência total de pensamento diante do consenso ocidental “democrático” que apenas organiza universalmente sua própria e deletéria continuação desprovida de sentido”.
Outro participante do livro, o filósofo Jacques Rancière, diz: “A crise atual é de fato o freio da utopia capitalista que reinou sozinha durante os 20 anos que se seguiram à queda do império soviético: a utopia da autorregulação do mercado e da possibilidade de reorganizar o conjunto das instituições e das relações sociais, de reorganizar todas as formas de vida humana segundo a lógica do livre mercado”.

Tomara que essa saudável discussão ocupe também os interesses dos intelectuais brasileiros, que hoje parecem apenas interessados em questões também importantes, mas menores em sua significação humana, como direitos de minorias e hábitos de consumo. Seria importante que nos voltássemos também para questões macros porque são elas que vão decidir os caminhos que a humanidade vai seguir nesse novo século. 

Capitalismo selvagem

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, a lista de países europeus sempre à beira de uma nova crise econômica é cada vez maior. Os tempos de abundância ficaram no passado. Isso, sem falar nos estados mais a leste da Europa, que nunca alcançaram esse estágio de desenvolvimento e que convivem agora com dificuldades econômicas crescentes. A explicação da grande mídia é sempre a mesma: bolhas de consumo, com a oferta de crédito sem maiores exigências e, logo a seguir, a inadimplência e a quebra de bancos e financeiras.
Os remédios sugeridos são também os mesmos: aumento das taxas de juro, restrição de crédito e cortes nos programas sociais do governo. Ou seja, quem vai pagar a conta mais uma vez são os assalariados, que foram estimulados a consumir e agora, ameaçados de perder seus empregos pela recessão inevitável, se tornam inadimplentes.
Apesar de ser um processo que se repete periodicamente, os economistas de plantão e seus porta-vozes na mídia, identificam nessa sucessão perversa de fatos apenas “solavancos” no caminho do capitalismo, ou uma simples “marolinha”, como dizia Lula, e não sintomas de uma crise cada vez maior do sistema.
Welfare State (o Estado do Bem-Estar Social) ficou no passado, mais como uma estratégia política para enfrentar a sedução do comunismo para as populações europeias depois da segunda guerra mundial, do que realmente uma filosofia humanística. O governo da França ampliou os prazos para a aposentadoria dos seus trabalhadores e agora quer aumentar as horas de trabalho semanal, indiferente às grandes manifestações populares de repúdio à medida. Na Inglaterra e na Alemanha, seus governos são cada vez mais conservadores e preocupados em gerir seus países como se fossem meros gerentes de fábrica. Pior de tudo é que a resistência popular é pouco eficiente e vive de surtos, como as manifestações durante a crise na Grécia, na Espanha e agora na França.
Depois de décadas de um grande esforço midiático destinado a conquistar corações e mentes para o modelo capitalista, as organizações políticas de esquerda europeias parecem não pensar em mais na existência de alguma alternativa possível ao capitalismo selvagem dos dias atuais. Nunca foi tão verdade a constatação de Marx de que as massas têm a ideologia das classes dominantes. A reorganização da sociedade sob uma infraestrutura socialista (não apenas de governos com partidos nominalmente chamados de socialistas ou até comunistas) não se coloca mais, nem como tema de discussão para os políticos atuais, ficando restrita apenas ao debate em alguns setores acadêmicos.
A inspiração que a União Soviética representou durante muitos anos para os trabalhadores do mundo inteiro, perdeu-se quando o primeiro governo autodenominado comunista da era moderna foi incapaz de resolver os problemas de desenvolvimento com liberdade e democracia interna, e acabou destroçado pela onda de chauvinismo que varreu as então repúblicas socialistas soviéticas.
Restaram exemplos muito pobres para se opor ao capitalismo decadente: o regime familiar e militarizado da Coréia do Norte, a pequena Cuba, bloqueada durante décadas pelos Estados Unidos e a China, com o seu capitalismo de Estado, que é mais exemplo de sucesso para os empresários capitalistas do mundo inteiro do que para os trabalhadores.
Dentro dessa situação econômica mundial adversa, os brasileiros que nas três últimas eleições escolheram o modelo de governo mais aproximado de algum tipo de reformismo social, viram este ano retirado esse pequeno avanço, com o golpe parlamentar que levou novamente ao poder um grupo extremamente retrógrado, sob pontos de vista político, social e econômico.
Quando o Brasil experimentou, sob o governo de Lula, uma dessas bolhas de desenvolvimento, o assessor presidencial, Marco Aurélio Garcia, afirmou que “ O Brasil não pode ser uma ilha de prosperidade num oceano desigualdade na América Latina”. Justiça se faça. No caso ele se referia à necessidade do Brasil cooperar com Paraguai e Bolívia em questões energéticas e não com aquele sentido do pensamento do general Médici, quando disse: “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao Jornal Nacional. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.
Será que o general não sabia que havia censura à imprensa ou não desconfiava do apoio interessado à ditadura do Jornal Nacional que ele costumava assistir?
Hoje, nem o Jornal Nacional é capaz de trazer boas notícias que possam tranquilizar a Temer e seu grupo, mais preocupados em se garantir em cargos para os quais não foram eleitos e dos quais a maioria da população deseja que se retirem imediatamente.