O retrato do velho quando jovem

Você está velho. Cada dia mais velho.  Suas forças vitais diminuem a cada dia que passa. Você esquece os nomes das coisas e das pessoas. Sabe o que isso significa? Significa que você está se aproximando, cada vez mais rapidamente, da morte.
Você cuida da saúde, faz exercícios, vai a dezenas de médicos, mas não adianta muito. O máximo que você consegue é adiar a chegada da morte por algum tempo. Meses, anos talvez.
Enquanto isso, as pessoas em volta estão cada vez mais jovens. Pelo menos, é assim que você vê. E cada vez, dão menos importância para a sua experiência de vida. Se pensa que eles estão interessados nas coisas que você sabe, esqueça.
Quem quer saber que os Estados Unidos já tiveram campos de concentração dentro do seu território durante a guerra; quais as divergências entre Stalin e Trotsky e por que o golpe de 64 no Brasil foi apoiado pelos americanos?
Ninguém.
É bullshit.
Isso você sabe o que é, de tanto ouvir nos filmes americanos.  Mas não vai adiantar para facilitar uma conversa com os jovens. Ao contrário de você, que decorou algumas palavras ouvidas nos matinés do Imperial, os jovens falam inglês fluentemente. Pelo menos aqueles que você pensa que teriam interesse em suas histórias.
Você, que ainda usa o celular para falar, como fazia com o velho telefone, está séculos atrasado. Até no nome do aparelho, que agora é chamado de smart phone e serve para que os jovens façam milhões de coisas, inclusive telefonar.
Quando você, não aguentar mais a solidão e quiser lembrar o bonde Floresta, o cinema Vogue, a Legalidade e os gols do Bodinho, vá procurar a sua turma.
Só não olhe para aquele seu retrato de quando tinha 20 anos.
Mas, você não resiste e vai olhar.
O sujeito que você vê com aquela cara de idiota, é realmente um idiota.
Foi um idiota, mas tinha uma vantagem enorme sobre o que você é hoje.
Ele tinha esperanças.
Esperança de ser um intelectual conhecido, um jogador de futebol famoso ou um político respeitado.
Essa é a diferença: ele tinha esperanças e você, no máximo, conformismo.
Mesmo que todas suas esperanças fossem vagas promessas, quase impossíveis, de ser feliz no futuro, ele tinha o que você agora, por mais que se esforce, não pode ter mais, esperança.
O retrato do velho quando jovem é a prova que tudo que tinha para dar certo, não deu.
O que fazer, então?
Quem sabe você se console, lembrando alguns versos do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.
E agora, José? 
A festa acabou, 
a luz apagou, 
o povo sumiu, 
a noite esfriou, 
e agora, José? 
e agora, Você? 
Você que é sem nome, 
que zomba dos outros, 
Você que faz versos, 
que ama, protesta? 
e agora, José?
Está sem mulher, 
está sem discurso, 
está sem carinho, 
já não pode beber, 
já não pode fumar, 
cuspir já não pode, 
a noite esfriou, 
o dia não veio, 
o bonde não veio, 
o riso não veio, 
não veio a utopia 
e tudo acabou 
e tudo fugiu 
e tudo mofou, 
e agora, José?
Ponha seu nome no lugar do José e vá vivendo em quanto der.

A nova propaganda gaudéria


Hoje é 31 de maio do ano 172 DRF (de acordo com o nosso novo calendário: Depois da Revolução Farroupilha), começo a escrever “estas mal traçadas linhas” para tentar te explicar como tudo aconteceu. 
Primeiro, foi um projeto instituindo aquele hino que fala das nossas façanhas, nas cerimônias oficiais. Depois, veio a pilcha como traje oficial do Estado e as normas de como fazer um churrasco politicamente correto.
As coisas começaram a tomar um rumo radical quando alguém propôs na Assembleia que se adotasse um novo o nome do Estado, que passaria a se chamar oficialmente de Rio Grande do Sul – Estado Associado ao Brasil. O projeto não passou, até porque uma parte dos proponentes queria agregar mais um aposto explicativo ao nome – associado, por enquanto – o que dividiu o grupo e provocou a derrota. 
A propaganda não podia ficar atrás e logo surgiram propostas por “uma comunicação mais gaudéria”. O ponto de partida foi a Carta de Canguçu, de 20 de setembro do ano 168 DRF, que pedia o banimento da influência americana da nossa comunicação publicitária. 
Um glossário foi publicado no Jornal da Terra, com a tradução para o gauchês de uma série de nomes até então comum nas agências. Assim, saiu Boy e entrou Pia de Recados, em lugar de Mídia, ficou Distribuidor de Anúncios; Raugh deu lugar a Borrão e Layout foi substituído por Esboço. 
Aí, ninguém conseguiu mais segurar. Em Coronel Bicaco, um grupo intitulado Escrevinhadores de Reclames, lançou um manifesto “ contra a influência baiana que infesta os comerciais de televisão”. Em Santa Vitória do Palmar, uma produtora de vídeo, chamada Avião, informou que rodaria um comercial de cerveja nativa na praia do Hermenegildo durante o período da maré vermelha.
A Revista Reclame (sucessora da Revista Propaganda) deu em manchete na capa CHEGA DE FRESCURA e propôs uma revisão histórica da propaganda ARFP (Antes da Revolução Farroupilha na Propaganda). Assim, aquele anúncio tão premiado no passado, passou a ter um novo título: O PRIMEIRO CORPINHO (soutien para os estrangeiros) A GENTE NUNCA ESQUECE.
É claro que o processo ainda não está totalmente consolidado. Nas nossas principais agências – agora elas se chamam Seival, Piratini e Fronteira – dificilmente alguém deixará de cumprir o MPG (Manual do Publicitário Gaúcho), mas nas agências menores sempre escapam alguns erros. Outro dia, um varejo de Caxias lançou uma campanha, feita por um guri chamado Edgar Ferreti, com o título TUDO QUE VOCÊ QUERIA, desconhecendo o fato de que nós usamos o pronome TU, com muito mais apelo telúrico. 
Buenas, tchê. Essa charla está muito boa, mas está na hora do mate e o piá de recados já veio me avisar que o Patrão da Invernada Externa (é o antigo Diretor de Atendimento) o Sepeh de los Santos, quer reunir a Tertúlia Criativa (é o grupo de Criação, formado pelo Beto Cabelo, o Roberto Guasca Velho e o Ricardão ) para um Entrevero Mental (é brainstorming). 
Que o Patrão Velho me perdoe por usar uma palavra tão maldita como essa, brainstorming.
É isso aí, vivente. Quem não se adaptar vai ficar sem mel, nem porongo.
Saudações Farroupilhas.
(Texto em homenagem ao nosso grande chargista (ou melhor seria dizer desenhista?) Santiago Neltair Abreu)

A morte de Dalva

O professor Armando, de História, estava empolgado, contando aos seus alunos como Leônidas e seus 300 soldados gregos, haviam resistido aos milhares de persas no desfiladeiro das Termópilas. Contar estes feitos heróicos era a sua especialidade. Ele vivia cada momento da batalha como se fosse uma testemunha presente nos fatos. Nessas horas se desligava de tudo que estivesse em sua volta. A turma já sabia: quando ele afrouxava o nó da gravata, impostava a voz e erguia os braços como se estivesse num comício, era o sinal de que estava possuído pelo helenismo e que os alunos ficavam liberados para tratar de suas próprias questões.
Quem falou primeiro foi o Eduardo. Ele estava no fundo da sala, cercado pelo seu grupo habitual de amigos. Marcos ficava na frente, lado direito, junto à janela, com a sua turma. No meio dois estavam as meninas, além do Tácito e do Euclides, os dois irmãos gays. Os integrantes de um grupo só falavam com os do outro em casos extremos. Na maior parte das vezes, eram Tácito e Euclides que transmitiam os recados entre as duas facções – um desafio para um jogo de futebol no recreio, o que fazer para trocar o professor de matemática, ou acertar uma falta coletiva no dia seguinte a um feriado. Marcos ouviu apenas uma parte da frase de Eduardo.
– Ela morreu.
– Ela quem? Quem morreu Tácito?
Quem trouxe a resposta não foi Tácito. Surpreendentemente, o próprio Eduardo se levantou do fundo da sala e para o espanto de toda a turma veio sentar ao lado de Marcos.
– A Dalva morreu.
– A Dalva?
No momento seguinte, a notícia tinha se espalhado por toda a sala.
Até as meninas, com risinhos contidos e um rubor nas faces, cochichavam
– A Dalva morreu.
A Dalva morreu…Dalva morreu….Dalva morreu… aquele coro de vozes chegou até o Olimpo onde o professor Armando estava no ponto culminante de sua narração, quando Leônidas desafiava os persas que ameaçavam cobrir a luz do sol com suas flechas.
– Melhor, combateremos à sobra…quem morreu?
Dezenas de vozes se elevaram ao mesmo tempo para responder
– A Dalva morreu.
– A Dalva?
O professor Armando baixou os braços, apertou o nó da gravata e começou a repetir com uma voz sumida
– A Dalva morreu…Dalva morreu….Dalva morreu.
Nesse momento a porta se abriu e Dona Maria, a secretária geral da escola, pôs a sua cara para dentro da sala.
– Quem morreu?
O coro respondeu
– A Dalva
– Quem é a Dalva?
Dona Maria vestia-se de preto desde a morte do marido há 10 anos. Usava uns óculos de vidro fundo de garrafa e ostentava um buço que fazia inveja aos meninos maiores da turma que ambicionavam ter um bigode. Além de trabalhar em dois turnos na escola, ela era coordenadora da catequese na Igreja Matriz.
– Dona Maria, a senhora Dalva de quem estamos pranteando a morte, se dedicava a mais antiga das profissões, explicou o professor Armando.
– O que o senhor quer dizer com isso, professor?
Antes que o professor Armando pudesse responder, Eduardo gritou do fundo da sala.
– Era a dona do Céu Azul, a puta mais antiga da cidade.
Dona Maria ficou vermelha como um pimentão. Por um instante pareceu que iria ter uma explosão de raiva como costumava acontecer quando algum aluno usava palavras que ela considerava inadequadas em uma escola católica, mas simplesmente começou a chorar convulsivamente para o espanto de todos. Só depois de alguns minutos conseguiu se controlar e dizer alguma coisa.
– Vamos então rezar pela alma desta nossa irmã.
Quando ela saiu, finalmente, ficou aberta uma grande discussão na sala.
Marcos assegurava que o “nossa irmã” era um eufemismo, fruto do catolicismo de Dona Maria, que costuma perdoar todos os erros dos que morreram. Eduardo, porém, não abria mão de que tinha sido uma confissão: a beata e a puta eram mesmo irmãs.

A verdade tem lugar na História?

Como a História é sempre escrita pelos homens, é normal que ela sempre tenha mais de uma versão. Como saber qual a verdadeira?
Alguém já disse que a História é sempre escrita pelos vencedores, mas isso não impede que ela seja mudada.
Solano Lopes era um ditador sanguinário que não respeitava os direitos dos seus vizinhos e por isso foi preciso que Brasil, Argentina e Uruguai, financiados pela Inglaterra, o derrubasse do poder no Paraguai numa guerra de uma selvageria incrível.
Quando Júlio José Chiavenato publicou em 1988, seu livro Genocídio Americano – a Guerra do Paraguai, o que já era uma possibilidade para alguns autores argentinos e paraguaios, de que Lopes foi acima de tudo um nacionalista que contrariou os interesses ingleses, passou a ser, no mínimo, discutida também no Brasil
Bento Gonçalves sempre foi cultuado como o grande herói da Revolução Farroupilha, até que o historiador Tau Golin o classificou de o Herói Ladrão. O grande chefe revolucionário, além de escravista, era também ladrão de cavalos.
Aliás, apesar de “cantarmos sempre nossas façanhas”, como diz o Hino Riograndense, paira também sobre os farrapos outra nódoa que a História oficial não gosta de lembrar. É o famoso episódio do Cerro dos Porongos, quando David Canabarro, teria desarmado os Lanceiros Negros, permitindo que fossem dizimados pelas tropas do Duque de Caxias, evitando com isso que precisasse cumprir a promessa de libertar da escravidão os soldados negros.
Nenhum personagem, porém, desceu tanto do Panteão dos Heróis para o lixo da História como Stalin.
Quando morreu em 1953, ao 75 anos, Iossif Vissarionovitch  Djugashuil, ou simplesmente Stalin, era o grande herói da União Soviética, o vencedor inconteste da Segunda Guerra Mundial e pela sua morte choraram milhões de pessoas no mundo inteiro.
Políticos, como Churchill, Harold Laski e De Gasperi e escritores como Isaac Deutscher, Norberto Bobbio e Thomas Mann, ressaltaram seu papel fundamental na luta contra o nazismo e na modernização da União Soviética.
De repente, tudo mudou. A partir do relato feito por Nikita Kruchiov, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, Stalin passou a ser o oportunista, que traiu o legado de Lênin, perseguiu seus camaradas, armou complôs para destruir toda a oposição, acabou com  a democracia interna no Partido Comunista, se transformou num ditador e quase provocou a derrota na guerra contra a Alemanha pela sua falta de conhecimento sobre estratégias militares.
Para conhecer essas versões, dois livros são fundamentais.
Primeiro, “Stalin e a Corte do Tzar Vermelho”, do jornalista e historiador inglês, Simon Sebag Montefiore, um livro que se alia à corrente de denúncias contra Stalin. Aproveitando, não apenas as revelações de Kruchiov, mas a abertura de arquivos russos com o fim da União Soviética, Montefiore mostra os bastidores do Kremlin, com todas as intrigas, perseguições e uso da força para calar os inimigos, processos patrocinados por um ditador, que gostava de livros, de música, de cinema, mas que era também um burocrata, paranoico e implacável com seus inimigos, verdadeiros ou criados pela sua imaginação.
Nas páginas do livro de Montefiore, desfilam personagens que a história registra como figuras importantes na vida soviética, como Molotov, Malenkov, Vorochilov, Kamenev, Zinoviev, Kirov, Yagoda, Béria e Kruchiov, mas, a acreditar no autor, não passavam de marionetes manobrados por Stalin.
Um livro muito interessante, mas que as vezes parece mais uma obra de ficção do que de um documento histórico.
O segundo livro recomendado para se tentar encontrar a verdade sobre o líder soviético é “Stalin – História Crítica de uma Lenda Negra”, de Domenico Losurdo, professor de história e filosofia na Universidade de Urbino, na Itália. O livro, extremamente documentado, vai numa linha totalmente oposta do que afirma Montefiore, fazendo um grande esforço para recuperar a imagem de Stalin como o vencedor da segunda guerra mundial e o líder da transformação da União Soviética na grande potência mundial, que foi durante alguns anos.
A partir de uma análise do famoso relatório de Kruchiov, apontado pelo autor como um grande oportunista que conseguiu sobreviver a todos os expurgos promovidos por Stalin, Losurdo busca relativizar as diversas versões sobre Stalin.
Diz ele: “O contraste radical entre as diversas imagens de Stalin deveria levar o historiador não mais a absolutizar uma, mas a problematizar todas elas.

Para quem gosta de cobrar dos historiadores uma posição mais próxima das ciências exatas, fica a lição de que, além dos documentos nos quais ela deve se basear, resta sempre um terreno pantanoso onde se movem as convicções ideológicas dos autores, que acabam sempre interferindo no resultado final de qualquer trabalho histórico.

O que é feito de L.?

L. foi a minha primeira namorada. Tínhamos 18 anos. Ela era do tipo mignon, rosto lindo, meiga, doce e uma voz de criança para combinar com a sua figura. Eu era feio, magrela, espigado, dentuço e aquela namoradinha (tudo nela convidava aos diminutivos) era muito mais do que eu mereceria. Ela morava com os pais numa casa de madeira, com um pequeno jardim na frente e um pátio cheio de árvores nos fundos,lá pros lados do Partenon. O pai era um sargento aposentado da Brigada, sempre de mau humor e a mãe, como quase todas as mães da época, era uma senhora recatada, do lar, mas muito menos para formosa, do que para uma gorda patusca, como dizia o Nelson Rodrigues. Eu trabalhava em dois turnos e estudava à noite e ela trabalhava num escritório do centro. Nos encontrávamos aos sábados e as vezes aos domingos (quando não tinha futebol) na casa dela. Ficávamos no sofá da sala, avançando cada vez mais na troca de carícias, ela sempre preocupada com os país que deitavam cedo, num quarto que ficava separado da sala apenas por uma parede de madeira.. O pai ficava ouvindo um programa de trovas gauchescas no rádio e quando esquecidos da sua presença, ficávamos mais excitados, ele pigarreava forte. Era o sinal para diminuir a tesão.L. tinha uma irmã, casada com um oficial da Brigada e ela mesma fora noiva de um tenente. O pai, certamente teria preferido o jovem oficial ao novo namorado, apresentado como jornalista e estudante. A mãe, achava que era melhor ter um, que nenhum, até porque naquela idade, as moças já estavam prontas para o casamento e eu ainda não falara nisso. Uma noite, quando indiferente aos pigarros do pai, eu avançava destemido sobre os seios de L. numa excitação que parecia enlouquecer os dois, ela ingenuamente (ou seria eu o ingênuo) confessou que já tinha permitido essa liberdade ao ex-noivo. Esfriei na hora (ah…o machismo!) e cobrei um prêmio maior. Queria transar com ela. Claro que não se usava o verbo transar, mas a finalidade era a mesma. Ela concordou, com uma condição: eu teria depois que falar com o pai dela e dizer que logo iriamos casar. Como era comum na época, ela estava disposta a trocar a virgindade por uma promessa de casamento. Prometi pensar no assunto e dar uma resposta. Em vez disso desapareci. Dois ou três fins de semana sem visitar a casinha lá pros lados do Partenon e começara a esquecer L. Como a casa dela, nem a minha, tinha telefone, então não houve mais contato, até que, 30 anos depois a encontro no centro da cidade. A exceção de alguns traços de beleza no rosto, que ainda se conservavam, L. tinha se transformado numa gorda patusca como o mãe. A voz de criança continuava, mas ficava agora muito estranha naquele corpo. Os pais tinha morrido e ela morava com a irmã que ficara viúva. Não, não tinha casado. Não perguntei se continuava virgem. Nos despedimos para sempre e eu fiquei com uma sensação de culpa. Devia ter transado com ela antes de desaparecer.
O que será feito de L.?
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As cidades têm alma

As cidades são como as pessoas. Algumas têm alma, são bonitas, hospitaleiras e acolhedoras. Outras não têm e por isso são feias, inóspitas e intolerantes.
Algumas se recusam a morrer, como Hiroshima, Berlim, Dresden e Moscou. Outras se entregam aos primeiros que chegam com um pouco de ouro nos bolsos, quais cortesãs, como Miami, Brasília e Gramado.
Umas ouviram o primeiro grito de milhares de pessoas em defesa de um novo mundo possível, como Porto Alegre, da Frente Popular.
Outras, jamais se ergueram contra algum tipo de injustiça, preferindo curtir seu mar azul e areais claras, como Florianópolis.
Algumas resistiram até a exaustão final, como Madri diante das tropas fascistas de Franco (“No passáran” – La Passionara), enquanto outras, como Roma, se declararam “cidade aberta”, para salvar seus tesouros.
Uma, se tornou um símbolo para a humanidade, porque foi a capital da grande revolução do século XVIII e da primeira experiência comunista, no século XIX, Paris.
Outra, guarda a mancha de ter sido acolhedora para as primeiras experiências nazistas da história, Munique.
Algumas cidades são cantadas em prosa e verso pelos poetas e outras são esquecidas.
Carlos Drummond de Andrade, o nosso maior poeta, falou de Stalingrado e Moscou e não de Estocolmo e Oslo.
“Aqui se chamava e se chamará sempre Stalingrado”
“A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos”.
André Filho, saudou o Rio de Janeiro e não Belo Horizonte
“Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil”
Caetano Veloso lembrou de São Paulo e não de Salvador
“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas”
Como em relação as pessoas, podemos discordar quantas as cidades. Alguém pode gostar mais de Florianópolis do que o Rio, de Salvador mais do que São Paulo, mas nenhuma pessoa de bom gosto vai discordar que a cidade mais sem alma do Brasil é Curitiba.
Capital de um estado que não existe – o Paraná é metade paulista, metade gaúcho –  somente em Curitiba poderia vicejar uma figura tão asséptica e sem alma como esse juiz Moro.

A cidade e ele se merecem.

Carta a Sérgio Gonzales

Publicitários arrependidos
O Sérgio Gonzales é um dos mais lúcidos publicitários brasileiros. Durante anos ele dirigiu o Departamento de Criação da MPM, conquistando a todos com base numa liderança que misturava uma alta dose de criatividade pessoal com uma extrema tolerância em relação às fraquezas dos outros.
Por alguns anos, tive a sorte de trabalhar ao seu lado e muito aprendi.
Agora, ele traz, dos seus arquivos implacáveis, um velho anúncio dos tempos anteriores a MPM, de enaltecimento da função da Propaganda (vou discutir isso mais adiante) e por tabela do regime militar da época.
Publicitário, com boa formação política (entenda-se por boa formação, ser de esquerda), Sérgio não se furta de um mea-culpa e de uma justificativa: fazíamos isso para ganhar nosso pão e ironicamente, como uma pessoa inteligente que é, diz que também para o uísque de fim da tarde. Não lembro se ela fala uísque ou outra qualquer bebida, o que dá no mesmo.
Pois, é, Sérgio. Naquela época, havia outros jovens como nós, talvez até mais talentosos, que em vez de fazer anúncios pegaram em armas contra o regime. Certo ou errado, eles morreram e nós sobrevivemos pelas escolhemos que fizemos.
O Julio Ribeiro, ícone da propaganda brasileira, disse uma vez que o publicitário brasileiro era um jagunço das multinacionais, o que não o impediu de ganhar muito dinheiro com a conta da Fiat e claro com o seu talento.
Nós, que sobrevivemos airosamente aos anos de chumbo (não me lembro de nenhum publicitário que tenha sido preso e na época, eles prendiam por qualquer coisa) hoje somos todos de esquerda.
Todos não, alguns. No meu modo de ver, os mais inteligentes. Ou melhor, os mais sensíveis aos valores humanos (acho que faltou testosterona nessa última frase, mas vá lá).
Agora, me diz uma coisa, Sérgio, ou melhor duas:
1 – Por que não assumimos nossa velha canalhice e admitamos que ajudamos com atos, palavras e pensamentos (era assim que começavam nossas confissões antes de nos tornamos ateus praticantes) a manter esse velho status quod que ainda hoje nos incomoda? Éramos os divulgadores da face risonha e franca do capitalismo predador. Eu, confesso, fiz pior. Além de fingir acreditar nele, vendi este peixe (mal cheiroso) durante anos na universidade.
2 – O que é um publicitário de esquerda? Existe esta categoria?  Os dois Roberto, por exemplo, o Callage e o Philomena.  Gente, pessoalmente, do maior valor. Cheios de talento e criatividade. Pelo que escrevem, hoje, parecem ser de esquerda. Pode? Eles ficaram ricos fazendo anúncios coloridos, bonitos, emocionantes para empresários que ganharam ou ainda ganham dinheiro, ficando com a “mais valia” dos empregados. Quem é de esquerda sabe o que é isso.  O Marx inventou o termo e todos nós, os de esquerda, o tomamos como verdade. Quem sabe, o “ser de esquerda” é tão amplo que permite ser a favor do sistema capitalista e continuar sendo de esquerda, esquecendo os ensinamentos de Marx.
Então, onde nos classificamos?  Socialistas? O partido socialista, aqui no Brasil vota com a direita e até com a extrema direita. Depois, não podemos esquecer que a sigla  NAZI significava nacional-socialismo. Comunista, então? A Manoela é comunista e a gente nunca votou nela. Nos governos do Lula e da Dilma, o PCdoB, ficava quase no centro.
Quem sabe anarquistas?
E aí, Sérgio Gonzales, como dirimir tantas dúvidas?
Certo estavam aqueles publicitários que, aparentemente, sempre estiveram felizes com a condição de ser assim chamados. Lembro de alguns e espero não colocar mais alguns esquerdistas nesta lista. Acho que não. O João Satt (grande vencedor nessa área), o Luís Augusto Cama (capaz de teorizar horas inteiras sobre os grandes valores da publicidade), o Marcos Eizerick (um talento como criador), o Itamar Graven (um homem prático), o Laerte Martins (que emprestou o nome para uma agência de sucesso), o Antônio D´Álessandro (que rompeu a hegemonia da MPM no mercado local), o Faveco ( que me abriu as portas para esta festa), a Bárbara Openheimer ( bonita e inteligente) o Eduardo Willrich ( que me despediu duas vezes das suas agências), o Dick Schertel ( o destemido) e o Zeca Honorato ( uma pessoa de fino trato – nunca ninguém me chamou assim – e que preside com brilho a ARP) e tantos outros, cujos nomes me escapam agora. Todos assumidamente publicitários, com muito orgulho.
Então, Sérgio, ficamos assim:
Ou assumimos a inutilidade social do que fizemos como profissionais de publicidade e como nos velhos expurgos da União Soviética, confessamos nossas culpas ou cinicamente, admitamos que estamos usando esta capa de esquerdistas para aliviar nossas culpas.

Pelo que escrevi até agora, amigo Sérgio, parece que estou escolhendo o primeiro caminho, embora nada seja definitivo na vida.
OS FALCÕES DA PROPAGANDA GAÚCHA E SEUS MITOS FUNDADORES
Durante cerca de 30 anos, entre 1970 e 2.000, trabalhei nas principais agências de propaganda de Porto Alegre, desempenhando funções mais ou menos importantes e conhecendo alguns dos seus principais líderes.
Praticamente nenhum deles tinha, ou pretendia ter, alguma base teórica para o seu trabalho. Eram, acima de tudo, talentosos negociantes, capazes de ganhar dinheiro em qualquer atividade comercial, inclusive na propaganda.
É sobre eles que vou escrever a seguir, analisando seus perfis, o que certamente não coincidirá com o que pensam sobre eles, outras pessoas.
É apenas o que penso.
Nessa minha seleção, vou incluir Flávio Antônio Correa, Hugo Hoffmann, Ito Ferrari, Antônio Mafuz, Rolf Poganski, Salimen Júnior e Daltro Franchini.

FLÁVIO ANTÔNIO CORREA – FAVECO
O conheci no departamento de jornalismo da TV Piratini. Era filho de um dos herdeiros dos negócios de Assis Chateaubriand e voltava a trabalhar depois de enfrentado e vencido uma grave doença. Ficou pouco na televisão. Logo se transformou num publicitário de sucesso. Me convidou em 1969 a trabalhar na sua agência, a Standard, com um argumento imbatível: vais ganhar muito mais. O Faveco, nascido em berço esplêndido, não tinha qualquer inibição no trato com as demais pessoas, fosse ela o Governador do Estado ou a faxineira da agência. Autocrítica, era algo que não fazia parte de sua personalidade. Uma vez o Ibsen Pinheiro disse que o sujeito era tão confiante em si, que seria capaz de andar de cuecas na frente da Rainha da Inglaterra, como se estivesse vestindo um fraque. Assim era o Faveco. Naqueles anos que trabalhei na Standard, um dos seus diretores era o Plínio Cabral. Ele tinha sido dirigente do Partido Comunista e depois Chefe da Casal Civil no segundo governo de Ildo Meneghtti. Autor de vários livros, um intelectual de respeito, mas que se submetia à autoridade do Faveco nas discussões internas da agência, o que sempre causava algum tipo de espanto para alguém que, como eu, acreditava na superioridade da inteligência sobre a impulsividade irracional.
HUGO HOFFMANN
Quase trabalhei com ele. Tinha fama no mercado de ser extremamente grosseiro com seus funcionários. Dizia que costumava rasgar na frente dos seus autores as peças publicitárias que não gostava. Uma vez, me convidou para trabalhar na sua agência a Mercur. Nos encontramos numa sexta-feira na sua sala. Depois de duas ou três frases, me perguntou qual era a minha linha ideológica. Quando disse que pretendia ser socialista, sacou a pergunta que já tinha preparado, porque obviamente conhecia previamente minhas tendências políticas.
– Como um socialista pode trabalhar numa empresa que defende o capitalismo?
– Estou sendo convidado para ser empregado ou patrão? Como empregado, não vejo problema. Como patrão, teria que pensar melhor.
Fiel ao seu estilo, ele encerrou a conversa na hora com uma frase definitiva.
– O emprego é teu. Começas na segunda-feira.
Trabalhar na agência significaria ter que abandonar as aulas de História na UFRGS, pela manhã. Fiquei na dúvida durante todo o fim de semana e na manhã de segunda, até chegar a agência e ficar sentado numa sala esperando a pessoa que iria me mostrar minha mesa de trabalho.
Nessa hora tomei a decisão: levantei da cadeira, abri a porta e fui embora para nunca mais voltar. Depois disso nunca mais falei com Hugo Hoffmann.
ITO FERRARI
O conheci quando escrevia o Repórter Esso na TV Piratini e ele era o diretor regional da MacErickson, a agência que tinha conta da Esso. Anos mais tarde,  deu o grande lance de sua vida, saindo da agência com as principais contas na mão e se associando a Eduardo Willrich Neto e Gilberto Lehnen, na Marca, até então uma pequena agência. Esse período coincidiu com a minha ida para a Marca, quando pude conhecê-lo melhor. Ameno no trato, passava sempre a ideia de que as pessoas serviam apenas para fazer com que seus negócios dessem certo. Era aquele sujeito que não prejudicava ninguém intencionalmente, mas que não ajudaria ninguém também, se isso trouxesse um prejuízo, por menor que fosse, a possibilidade de ganhar mais dinheiro. Na agência, era motivo de piadas a necessidade que tinha de arrumar patrocinadores para os programas que sua mulher apresentava na televisão. Diziam que era o pedágio que os patrocinadores pagavam para ter suas contas atendidas por ele. Embora poucos lembrem, foi ele o criador do curso de Propaganda na Famecos, desmembrando-o do Jornalismo.
ANTÔNIO MAFUZ
Nos três ou quatro anos que passei na MPM, devo ter falado com ele uma meia dúzia de vezes. Vivia encastelado em sua grande sala no último andar do prédio da rua Silveiro, onde só se sentia acesso mediante chamado dele. Sempre me pareceu uma pessoa afável, mas um pouco entediada com as tarefas do dia-a-dia da agência, as quais entregava inteiramente a uns poucos diretores, mais seus amigos de muitos anos que profissionais do ramo. A MPM parecia naqueles anos uma verdadeira cidade com vida própria, que atraia a atenção e a inveja de concorrentes, clientes e políticos. Era comum, nos fins de tarde, ver chegando no estacionamento da agência, o então governador Jair Soares, que segundo se dizia vinha pedir conselhos ao Mafuz. A agência tinha as maiores contas do Estado, algumas até conflitantes entre si, mas que não abriam a mão de ser “atendidas pelo seu Mafuz”. Isso começou a ruir, quando um então auxiliar de atendimento convenceu um desses grandes clientes, um fabricante de calçados, a deixar a MPM e criar uma nova agência para ele.
ROLF POGANSKI
Tinha sido diretor financeiro da MPM, de onde saiu para fundar a sua agência, a Módulo. Sua ideia era repetir nos menores detalhes a história da MPM. Um talento incomum na arte de ganhar dinheiro, vivia, como disse uma vez o Fernando Henrique, na fronteira do eticamente permissível. Aproveitando o fato de que, com o fim da ditadura militar, as contas publicitárias do Governo, até então cativas da MPM, caíram no mercado, escolheu o PMDB como ponto de apoio para suas reivindicações na disputa que se iniciava. Foi bem-sucedido e durante o governo Sarney não parou de ganhar dinheiro. Quando o Collor chegou com outros protegidos, vendeu a agência e foi ganhar mais dinheiro na construção civil. Era um homem rústico, quase sem nenhuma cultura, mas com uma capacidade imensa de usar o talento dos outros para obter o que queria. Religioso, de formação Batista, espalhava seus fiéis (mais fiéis a ele do que a sua igreja) nas funções financeiras da agência, certo de que isso garantiria sua retaguarda. Eu era o intelectual de esquerda que ele gostava de exibir em certas rodas. Foi o único momento em minha vida de publicitário que tive oportunidade de ganhar muito dinheiro, mas não aproveitei.
SALIMEN JÚNIOR
Trabalhei com o Salimen praticamente no fim da sua carreira de publicitário, na Símbolo Propaganda. Alguns anos antes tinha sido convidado por ele para trabalhar na sua agência, a Publivar, mas preferi ir para a MPM, o que ele depois sempre me cobrava como uma ingratidão. Nas décadas anteriores tinha sido um dos mais famosos apresentadores de programas de auditório nas emissoras de rádio e mais tarde na televisão. Orgulhava-se de ter dirigido a primeira transmissão externa a cores pela televisão, durante a Festa da Uva de 1972, em Caxias do Sul, pela TV Difusora. A lembrança que guardo dele era de uma pessoa extremamente humana, preocupada com o bem-estar dos seus amigos e devotando um grande amor aos filhos. Me chamava de poeta, o que sempre recebi como um elogio. Era uma pessoa com o nível intelectual bem acima da média dos publicitários a quem conheci. No final da vida, se tornou um dos diretores do Jornal do Comércio.
DALTRO FRANCHINI
Meu último emprego numa grande agência de Propaganda foi com ele, na Símbolo, Tinha estado algum tempo fora do mercado e voltei por indicação do Itamar Graven e com aprovação dele, num momento em que o mercado se fechava para os profissionais mais velhos. Embora tenha sido presidente da Federação Nacional das Agências de Propaganda e exercido uma grande liderança na área, era uma pessoa tímida, avessa às discussões. A partir de um certo momento, durante meus anos na Símbolo, a nossa relação, sem deixar de ser profissional, se tornou bem mais amigável, apesar da enorme diferença entre nossos pontos de vista sobre política, principalmente. Guardo uma boas lembranças das nossas conversas principalmente sobre a história de alguns políticos conhecidos.

A angustiante sensação de não existir


Por alguns longos minutos vivi a incrível sensação de não existir. Tudo começou quando, morando em Gramado, fui na agência da Caixa para receber aquela humilhante aposentadoria que meus mais de 30 anos de trabalho fizeram jus. O terminal eletrônico da Caixa tem aquela aba na parte superior, onde para não bater a cabeça você deve ficar sempre curvado. O decorador que bolou aquela engenhoca deve pensar que todos os brasileiros têm no máximo 1,60 de altura.O terminal, antes de liberar teu dinheiro, sempre tem muitas perguntas para fazer (código cheio de letras e números, nome, cpf, etc) o que te obriga, como no meu caso, a enfiar os óculos na ponta do nariz. É preciso, também inserir aquele cartão de plástico que a Caixa te deu, mas que pede que guardes como um tesouro. Então, saco o cartão de dentro da carteira, que hoje uso apenas para guardar todos aqueles documentos que são exigidos para permitir que se possa viver na sociedade de consumo. No visor do caixa eletrônico aparece o aviso para não pedir auxilio a ninguém. Cautela, mil ladrões estão observando meus gestos. Nesse momento fatídico, coloco a carteira sobre uma aba lateral do caixa eletrônico, introduzo o cartão magnético de plástico e depois de inserir aquele código idiota, espero que finalmente ele me libere o dinheiro que o governo me dá todos os meses pelos serviços que prestei a varias empresas capitalistas durante décadas. Mas, aí começa o drama. O visor me avisa que não pode autorizar o saque porque o valor excede meu limite diário. Esqueci que nesse mês estou recebendo, além daquele mísero provento (chamam assim, porque deve ser um dinheiro que o vento leva), um pequeno acréscimo com o tal empréstimo consignado. Então, preciso ir diretamente no caixa normal. Antes disso devo tirar uma senha de outro instrumento eletrônico, que me faz novas perguntas para só então permitir minha entrada naquele recinto protegido por um sistema de portas controladas magneticamente e guardas armados. Finalmente consigo entrar e durante meia hora espero numa fila, até chegar ao caixa e finalmente receber o que é meu por direito. Nesse momento, me dou conta que tenho na mão apenas o cartão magnético da Caixa. E a carteira com os outros documentos? Certamente ficou naquela aba do caixa eletrônico. Volto rápido. Nada. Pergunto à simpática e distraída recepcionista. Nada. Ela me dá um conselho, depois que respondendo a sua pergunta sobre onde tinha estado antes de chegar na Caixa, digo que passei no Correio. Deve ter ficado lá. Saio quase correndo rumo ao Correio, ainda com o cartão da Caixa na mão. No caminho, penso – que idiota que sou – só estou com o cartão na mão porque o tirei da carteira na malfadada operação do caixa eletrônico – mesmo assim prossigo.Obviamente, não ficara no Correio. Volto para a Caixa. Nesses minutos todos, sou alguém que não existe.
Vivo, sem poder provar que existo. O passe para andar de graça de ônibus deve ser a perda mais inútil. Ele só serve para Porto Alegre e agora vivo em Gramado. A carteira de motorista, que me custou um par de óculos novos para conquistá-la, também não importa muito porque não tenho carro aqui em Gramado.. Mas a ausência do RG me torna um vivo improvável. O cartão de crédito perdido vai impedir que continue consumindo como se dinheiro tivesse. E o bilhete da mega sena, que esta vez estaria premiado, vai tornar outra pessoa milionária e me condena à pobreza definitiva. Como um morto vivo chego novamente na Caixa. Antes que fale, uma outra recepcionista que não tinha percebido na primeira vez, me responde a pergunta com tudo aquilo que eu queria ouvir.
-E esta?
Era minha carteira. Estou vivo novamente.

A Vizinha

A VIZINHA
Quem deu a notícia foi a minha mulher, a Natália
– Temos vizinhos novos.
No condomínio de prédios populares em que morávamos, o apartamento de frente para a janela da nossa sala estava vazio há muitos meses. Agora segundo a Natália, ele iria ser ocupado por um jovem casal e eu fiquei pensando que talvez pudesse recuperar aquelas sessões de sexo explícito que eu assistia todas as tardes, quando o apartamento era ocupado pela Dona Mercedes e o seu Francisco.
Dona Mercedes era uma mulata gorda, já adiantada nos anos, mas ainda muito interessada nas batalhas do sexo. À tarde, quando seu Francisco saia para o trabalho, ela levava sempre algum garoto para lhe fazer companhia. Acho que por uma questão de respeito com o leito conjugal, ela se divertia com os meninos sempre na sala.
Bastava eu chegar na janela e lá estava Dona Mercedes fazendo sexo de todas as maneiras imagináveis com seus pequenos convidados. As três da tarde, invariavelmente, começava meu programa vespertino. Naquela época, já desempregado, eu me aproveitava daquele espetáculo gratuito que terminava para mim sempre com o consolo da masturbação.
Um dia, a polícia bateu no apartamento e levou Dona Mercedes. Um vizinho a havia denunciada por aliciamento de menores. Dizem que o seu Francisco ficou tão abalado com o fato que morreu pouco depois.
Agora, com os novos inquilinos, talvez voltasse as minhas sessões de voyeurismo.
Por alguns dias, as janelas ficaram com as cortinas baixadas, até que numa segunda feira, elas se abriram novamente e pude conhecer a nova vizinha. O seu parceiro, eu imaginava ser o rapaz que me perguntou onde havia uma padaria no bairro quando eu saia para a minha caminhada matinal.
Agora conhecia a mulher. Era uma morena bem joveme pelo que pude observar também muito bonita. Fingindo que olhava alguma coisa no horizonte mais distante, levei alguns segundos para fixar os olhos nela. Surpreendentemente, ela sorriu e me cumprimentou.
Confesso que na hora fiquei tão perturbado que nem respondi e fui me abrigar num canto da sala onde ela não pudesse me ver. Ali permaneci, por alguns segundos, tomando coragem, até que voltei a olhar diretamente para a janela, esperando que ela já tivesse desaparecido.
Em vez disso, lá estava ela ainda sorrindo para mim. Ela havia se afastado alguns passos para trás e pude ver então que ela estava praticamente despida e parecia me fazer um gesto.
Estou sonhando, pensei, mas não. Com as mãos, ela me fazia aquele gesto inconfundível me chamando até ela.
 Não era sonho. Ela estava lá, sorria quase desnuda e me chamava.
Ela deve ter percebido que eu ainda estava indeciso. Então levantou um pequeno cartaz onde estava escrito
Apto. 204. Venha logo!
Era agora ou nunca. Sai quase correndo, desci as escadas aos pulos e corri para o prédio vizinho. O apartamento 204 ficava no segundo andar. Cheguei ofegante e antes de tocar a campainha esperei alguns segundos para me recuperar.
Depois toquei rapidamente a campainha para não chamar a atenção de ninguém no prédio.
Ao primeiro toque, ninguém atendeu. Desesperado, toquei várias vezes. Ouvia a campainha soar no interior do apartamento, mas a porta não se abria.
A porta que se abriu foi do apartamento ao lado, o 206. Uma senhora de avental e uma panela na mão, me perguntou se eu procurava alguém.
_ A senhora que mora no apartamento 204

– Não mora ninguém nesse apartamento. Desde que a Dona Mercedes foi presa o apartamento está vazio.