Um teste para a sua ética

Você se considera “uma pessoa do bem”, incapaz de fazer qualquer maldade para um semelhante seu?

Então responda a seguinte questão hipotética: você é um judeu e está preso no campo de extermínio de Auschwitz e para adiar a sua morte, aceita participar de um “Sonderkommand”, grupo de judeus utilizados pelos nazistas para os trabalhos mais sujos do campo.

Sua tarefa é acionar a chave que vai lançar o gás letal dentro de uma câmara para matar centenas de judeus, homens, mulheres e crianças.

O que você fará?

Aciona a chave, matando todas essas pessoas, pensando que não é culpa sua e que se não fizer isso, outro fará no seu lugar?

Recusa matar essas pessoas e corre o risco de se imediatamente morto pelos nazistas?

Essa parece ter sido a grande questão moral que o nazismo colocou para a nossa civilização, quando todos os seus crimes foram descobertos e as pessoas começaram a se perguntar como isso foi possível.

No julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, no ano 1961, Hannah Arendt, que acompanhou todo o processo, escreveu sua famosa frase: “é a banalização do mal”.

Ninguém era culpado. Todos obedeciam ordens.

Três meses após esse julgamento, o professor e psicólogo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos,  Stanley Milgram, iniciou suas pesquisas para tentar responder a seguinte questão: pode Eichmann e seus milhões de cúmplices estar apenas seguindo ordens, sem o livre arbítrio de escolha?

A experiência, feita com 40 voluntários simulava uma relação “professor” e “aluno”. O professor fazia perguntas e quando o aluno errava, este devia ser castigado. Só que o castigo era um choque elétrico, que ia aumentando de intensidade a medida que o aluno errava as respostas. O aluno era um assessor de Milgram, que fingia fortes dores após cada choque e seu queixava da sua condição de ser cardíaco.

O que Milgram queria saber era até onde as cobaias da experiência iriam, mesmo se defrontando com uma questão muito menos dramática do que aquelas vividas pelos prisioneiros de Auschwitz.

O equipamento gerava choques que iam de 15 volts ,choque leve, a 450 volts, choque muito forte.

Dos participantes, 65% foram até o limite de 450 volts e todos foram ao menos até 300 volts, quando se recusaram a continuar.

Disse mais tarde, Milgram:

‘Eu projetei um experimento simples em Yale para testar quanta dor um cidadão comum estaria disposto a infligir em outra pessoa porque um simples cientista deu a ordem. Autoridade total foi imposta à cobaia [ao participante] para testar suas crenças morais de que não deveriam prejudicar os outros, e, com os gritos de dor da vítima ainda zumbindo nas orelhas das cobaias [dos participantes], a autoridade falou mais alto na maior parte das vezes. A extrema disposição de pessoas adultas de seguir cegamente o comando de uma autoridade é o resultado principal do experimento, e que ainda necessita de explicação’’.

Mais informações:

  • Obviamente, embora as cobaias, como “professores”, acreditassem que estavam provocando choques em seus “alunos” (para dar credibilidade ao experimento, eram submetidos a um pequeno choque inicialmente) estes, na realidade, não recebiam nenhum choque
  • Stanley Milgram era um judeu, que nasceu, 1933 e morreu em 1984, em Nova York. Foi PHD em Psicologia Social pela Harvard University.

O filme O Experimento Milgram (Experimenter) dirigido por Michael Almereyde, com Peter Sarsgaard no papel de Stanley Milgram, quase documentário, está disponível no Neteflix

Quem nos representa?

“Talvez, no futuro, alguém observe também que os mitos não são tanto objetos de crença ou descrença; eles são, sobretudo e sempre, a expressão de uma necessidade. E, aparentemente, desde a Grécia antiga até hoje, a gente está sempre precisando de heróis”.

A frase é do psicanalista Contardo Calligaris, na sua coluna na Folha, e poderia ser levada também para a política, onde os heróis são muitos, embora depois a gente descubra que alguns têm os pés de barro.

Na recente viagem que fiz a Rússia, me chamou a atenção o renascimento do culto à personalidade de um líder, no caso Vladimir Putin. Seu rosto está presente na capa de revistas e, o mais interessante, em calendários que são vendidos como registro das múltiplas facetas da sua personalidade

 

Assim, temos um Putin, sempre jovem e atlético, nas figuras de um piloto de avião a jato, de jogador de hóquei sobre patins, de campeão de judô e de um diplomata.

Ele é o herói que representa a retomada da Rússia como grande potência mundial, fazendo os russos esquecerem os tristes dias que se sucederam à queda do regime comunista.

Stalin foi o mito do grande pai provedor, inacessível em seu palácio, mas capaz de resolver qualquer problema dos russos.

 

 

Nikita Khrushchev, que o sucedeu, representava o russo (embora fosse ucraniano e não russo) camponês, rústico, mas também astuto e capaz de iludir os mais sábios. Era o regime se abrindo para o mundo, sem qualquer espécie de vergonha em ser representado por um líder capaz de tirar o sapato e bater com ele em cima da mesa, como fez Krushchev numa sessão da Assembléia da ONU.

O mundo mudou e os russos precisaram de um líder mais pragmático e preocupado em organizar burocraticamente a vida do paí. Então, Leonid Brezhnev  tomou o lugar de Krushchev.

Quando os novos tempos fizeram os russos – protegidos por um sistema que lhes garantia saúde, educação e pleno emprego – idealizar uma outra sociedade, onde o consumo seria igual aos modelos da Europa Ocidental e dos Estados, os russo imaginaram que poderiam ser representados por Mikhail Gorbachev e suas fantasias da Perestroika e da Glasnot.

O mito era falso e logo os russos perderam tudo, da segurança anterior, ao sonho do consumo ocidental, que agora com Putin, começam a retomar.

Não precisaríamos ir à Rússia para identificar a presença desses heróis mitológicos que surgem em determinados momentos para representar algum tipo de necessidade dos seus povos.

Na Bolívia, com a maior parte da população de origem indígena, foi preciso surgir um presidente originário da etnia uru-aimara, Evo Morales, para que se compatibilizasse o povo e sua real representação, no poder.

No Uruguai, branco, educado e com uma longa tradição de enfrentamentos da esquerda com as oligarquias rurais, quem encarnou melhor o espírito revolucionário e popular foi Pepe Mujica, saído do cárcere de Punta Carretas para a Presidência do País.

Conhecido e respeitado no mundo inteiro pela frugalidade dos seus hábitos e seu comportamento anti-convencional, me surpreendi no Uruguai com o depoimento de uma pessoa, aparentemente da classe média., sobre ele.

Ela dizia que como presidente de um país com altos níveis de educação, Mujica deveria assumir uma postura mais adequada ao seu cargo e que ela se sentia de alguma maneira envergonhada pelas suas atitudes públicas.

E, como ficamos nós, com os nossos heróis políticos.

Olívio Dutra, com seus trajes gauchescos, sua bicicleta e seu falar pitoresco, representa o pensamento de todos nós da esquerda?

E o mais carismático de todos, Lula

O líder sindical, que fundou um partido e chegou a Presidente, sem perder a linguagem que o povo fala é o melhor representante possível para o pensamento de esquerda do Brasil?

Por que, a maioria dos porto-alegrenses e dos gaúchos, teve a necessidade de um Olívio, primeiro prefeito da Cidade e depois governador do Estado?

Por que, a maioria dos brasileiros, elegeu Lula duas vezes Presidente e se deixaram, vai o eleger pela terceira vez?

Todos esses heróis são autênticos ou são personas criadas para atender nossas necessidades, como pergunta Calligaris?

Quê socialismo é esse?

Na visão clássica de Marx, o capitalismo só seria superado pelo socialismo quando, em vez de promover o desenvolvimento material, ele se tornasse um entrave para esse desenvolvimento. Para justificar a possibilidade de fazer a revolução socialista na Rússia, Lenin lançou a ideia do elo mais frágil do sistema.

Enquanto Marx pensava na Alemanha ou Inglaterra para ser a vanguarda da revolução, Lenin viu essa possibilidade na Rússia semi-feudal, acreditando que isso seria o ponto de partida para a revolução mundial.

Agora, que se comemoram os 100 anos do movimento iniciado por Lenin, essa questão volta a ser debatida.

Na segunda feira, no ciclo de debates que se realiza em Porto Alegre, os conferencistas examinaram as experiências socialistas em Cuba, China e Vietnam.  A questão chave para as discussões foi se a introdução de aspectos capitalistas na China e no Vietnam permitem considerar esses dois países como sendo socialistas ainda, ou já se tornaram países de capitalismo de Estado.

A questão é, se num país onde a massa de trabalhadores é fundamentalmente camponesa, é possível chegar-se ao socialismo sem passar pelo regime burguês.

Nunca é demais lembrar que na Rússia, depois de quatro anos de comunismo de guerra, a resistência dos camponeses à coletivização da agricultura, levou Lenin a lançar a chamada Nova Política Econômica (NEP), com o retorno de práticas do capitalismo, principalmente no campo, processo que só terminou em 1927, com Stalin.

Nos casos do Vietnam e China, o que se diz, é que depois de algum tempo em que se repetiu o modelo soviético, seus governos retrocederam e recriaram praticamente todas as formas do capitalismo.

Ficou até estranho ouvir o deputado Raul Carrion, falar com tanto entusiasmo sobre a introdução de práticas capitalistas no Vietnam, sendo ele uma liderança do PCdoB, um partido que sempre prezou uma certa visão ortodoxa da doutrina marxista.

Outra surpresa foi o repúdio que ele manifestou ao igualitarismo, quando isso é a essência do socialismo/comunismo. Marx e Lenin ensinaram que a divisa da revolução, num primeiro momento, é “de cada um, segundo suas possibilidades”, até chegar à fase final, quando será “a cada um, segundo suas necessidades”.

A desigualdade de salários e oportunidades é uma necessidade numa primeira fase de acumulação de recursos, mas nunca um fim, como pareceu fluir do discurso de Carrion.

Mas, o mais surpreendente estava reservado para a exposição do geógrafo Elias Jabour, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que defendeu a ideia de que o socialismo no futuro teria que conviver com o mercado e também com a propriedade privada. E quando ele falou em propriedade privada não estava pensando num carro ou numa “dacha”, mas nos meios de produção.

O Estado, representado pelo Partido Comunista, se encarregaria do macro planejamento e de impedir que o egoísmo capitalista extrapolasse a determinados limites.

A pergunta que se impõe é se isso, um controle do egoísmo capitalista, precisa de um Partido Comunista e de uma revolução?

Talvez bastasse um déspota esclarecido, ou um governo de sábios, que com uma força militar poderosa nas mãos, estabelecesse uma ordem interna, controlando os excessos do capitalismo.

Todos que hoje discutem quais seriam as condições para um novo sistema socialista, admitem que ele terá que ser bem diferente do modelo soviético, mas não a ponto de perder suas principais qualidades.

.Questões como a face humanista do socialismo, o fim da exploração do homem pelo homem. e a democratização da sociedade, foram temas arquivados pela visão economicista dos palestrantes.

Observações finais; 1)Raphael Hidalgo, o diplomata cubano, fez um longo discurso descrevendo fatos relacionados à Revolução em seu país e não entrou nos temas dos outros dois conferencistas; 2) Ninguém falou sobre a experiência do socialismo na Coréia do Norte

As práticas pouco convencionais de um presidente.

O fato do Presidente e sua esposa se dedicarem a um comportamento sexual considerado pouco ortodoxo nas relações familiares comuns – com seguidas praticas de “ménage a trois”e “swing”; homossexualismo por parte do presidente, também um “voyer” na medida que assiste sua mulher dormir com um amante na cama do casal – seria uma justificativa para a corrupção que praticam, que vai da extorsão à chantagem e chega até o assassinato de testemunhas?

Estamos falando do casal Francis Underwood (Kevin Space) e sua mulher Claire, da série House of Cards, que o Netflix exibe atualmente.

Haveria um moralismo implícito por trás dessa história, ao tentar mostrar que pessoas que não respeitam as convenções matrimoniais são mais abertas às praticas de corrupção?

Ou, a leitura correta é a contrária, a de que os corruptos o são em todos os seus atos, inclusive na vida familiar?

O que também contraria aquela velha história de que grandes bandidos poderiam ser dóceis pais de família.

O certo é que depois de abandonar o Código Hays (Motion Picture Production Code) o cinema americano nunca mais foi o mesmo e o tradicional  “american way of life” deixou de ser visto até mesmo nos filmes feitos para os matines em frente à televisão.

(Qualquer semelhança entre o casal Underwood e outros casais é mera coincidência).

Preparando a Terceira Guerra Mundial

O presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o controle da emissão de gás carbônico da atmosfera, dizendo que foi eleito pelo povo de Pittsburgh (centro industrial americano) e não de Paris.

Os Estados Unidos são o segundo maior poluidor da atmosfera, vindo apenas atrás da China, que continua fazendo parte de um acordo que pretende impedir o aumento da temperatura do planeta em mais de 2 graus Celsius.

Em palestra recente em Porto Alegre, durante o seminário pelos 100 anos da revolução russa, o economista Luiz Belluzzo, depois de fazer referências aos bolsões cada vez maiores de pobreza nos Estados Unidos (segundo ele 40 por cento dos americanos vivem situações de trabalho precário, sem nenhuma garantia trabalhista) disse que foi esse segmento de público que elegeu Trump no ano passado.

Um populista de direita, Trump está se aproveitando dos longos anos de conivência das administrações democratas nos Estados Unidos com os interesses das oligarquias financeiras, para propor medidas que, num primeiro momento vão atender os interesses dos mais pobres nos Estados Unidos.

A comparação com o que fez Adolf Hitler na Alemanha é inevitável. Lá também foi possível recuperar a economia do país, com a geração de empregos e o incentivo às indústrias de armamento, coisa que Trump prometeu fazer também nos Estados Unidos com um acentuado investimento no seu complexo militar.

No discurso em que anunciou a saída dos Estados Unidos do acordo de Paris, Trump disse que se continuasse observando a limitação na emissão de gases, o país teria uma perda de 12% na produção de papel, 38% em ferro e aço e 86% em carvão até o ano de 2.040.

Trump minimizou os ganhos com o acordo (manter o aquecimento global abaixo de 2% até 2.100) e maximizou os ganhos para os Estados Unidos: a geração de milhares de novos empregos e o aumento de 3 trilhões de dólares nos valores das empresas americanas nas bolsas de valores.

Na visão de Trump, o Acordo de Paris tem menos a ver com o clima e mais com uma guerra econômica contra os Estados Unidos, no que de certa maneira tem razão ao identificar uma condição permanente do capitalismo que é o da cisão entre os interesses dos diversos grupos representados por nações ou bloco de nações.

Mais de 70 anos depois do fim da segunda guerra mundial, parece terem sido criadas novamente as condições para outro conflito, geradas pelo choque de interesses de facções do capitalismo que desprezam os valores maiores da civilização (no caso a preservação das condições de vida no planeta) em troca da sua manutenção.

Nessa hora, é bom lembrar a previsão pessimista de Meszaros que acrescentou à clássica colocação de Rosa Luxemburgo – Socialismo ou barbárie – um adendo – …”na melhor das hipóteses”, porque a continuidade das atuais políticas capitalistas podem levar o mundo à destruição total.

Será a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o primeiro passo para a Terceira Grande Guerra?

Quando os jornalistas só olham para seus umbigos

Numa parceria do Sul21 com o Instituto Goethe, começou terça-feira um ciclo de debates sob o título de Conversas Cidadãs, reunindo o cineasta Jorge Furtado e os jornalistas Cristina Charão da TVE e Thomas Fischermann, correspondente da imprensa internacional no BrasiL para discutir o tema Mídia e Poder.

Segundo publicou o Sul 21 (o restante da nossa imprensa fez de conta que o evento não existiu) os debates poderiam ser sintetizado a partir de uma frase de Hannah Arendt, segundo a qual a sobrevivência da raça humana só é possível se dissermos a verdade.

Verdade, para a filósofa alemã tem um conteúdo ontológico muito mais complexo do que os jornalistas e debatedores do encontro parecem supor. Hanna Arendt, que deu um salto para a fama, quando se dispôs a fazer a cobertura jornalística do julgamento de Adolf Eichamann em Jerusalém, estava preocupada, não em repetir os fatos conhecidos sobre as atrocidades nazistas, mas em entender a transformação de um ser humano, com sentimentos e valores morais, numa fria máquina de matar.

Ao cunhar a sua famosa frase sobre a banalidade do mal, ela não estava dizendo uma simples verdade, mas propondo uma discussão filosófica sobre o comportamento humano. Em suma, ela não estava fazendo jornalismo, mas filosofia.

Embora o empenho dos participantes em dar à atividade jornalística um caráter fundamental em nossa sociedade, ela é apenas um instrumento usado pela classe dominante para manter sob controle a grande maioria das pessoas.

Nesse aspecto, Cristina Charão foi mais precisa na sua avaliação da realidade do que os outros dois debatedores, quando disse: “Toda vez que a gente pergunta o que vai acontecer com o jornalismo, a gente nunca pergunta se aquele discurso produzido por ele continua valendo. A gente esquece que ele só existe, porque existe como indústria”

Jorge Furtado, a julgar pela síntese publicada no Sul21, foi quem mais falou e por isso mesmo mais se expõe a contestações.

No que parece ser uma defesa corporativa dos meios de comunicação oficiais, ((jornais, revistas, rádio e televisão) ele faz uma óbvia crítica às redes sociais, ao dizer que,  “se por um lado a internet ajudou a acelerar a circulação e a produção de informações, em escalas nunca imaginadas antes, por outro, o mar de notícias também ajuda a confundir e esconder aquilo que realmente importa”

Aí se coloca uma nova questão: o que realmente importa?

Jorge Furtado lembrou, por exemplo, de como na semana em que o Brasil ouviu em áudio o Presidente da República corroborando relatos de corrupção de um empresário, a notícia mais lida do portal UOL era o fato de que a atriz Taís Araújo havia se negado a comer abóbora em um programa matinal.

Ficamos tentados, então a lembrar aquela máxima de Bertold Brecht de que “o pior ignorante é o ignorante político”, mas não podemos esquecer que essa ignorância é planejada e executada pela mídia.

Ela faz isso porque é parte da superestrutura de um sistema que defende a dominação de uma classe sobre as outras e os jornalistas que a contestam (Furtado citou Janio de Freitas, o mais importante de todos no Brasil) são usados para comprovar uma falsa imparcialidade que ilude o público.

Furtado compara os jornais brasileiros com os americanos – “Talvez só no Brasil a gente tenha uma grande imprensa tão unificada. A impressão que dá, muitas vezes, é que a mesma pessoa escreve as manchetes de todos os jornais. Então, temos todos os jornais dizendo a mesma coisa. Isso não acontece nos Estados Unidos, não acontece na Inglaterra, não acontece na França. Tu chegas em uma banca e tem jornais de várias tendências diferentes. Há uma diversidade, que aqui não há” – esquecendo de lembrar que esses países vivem estágios diferentes do capitalismo.

Em alguns, o capitalismo é ainda quase patriarcal como no caso do Brasil e a imprensa reflete esse momento, enquanto que em outros, ele vive com graus de contradição mais avançados. como ocorre nos Estados Unidos.

O que ele diria dos jornais chineses onde o capitalismo (muitos duvidam que seja esse o sistema chinês) adquiriu uma característica totalmente diferenciada?

Diz Furtado:

“O futuro do jornalismo depende dos jornalistas. Porque tem jornalistas bons em qualquer lugar, eles podem escrever até sozinhos.”

Onde?

Na internet, onde as pessoas querem mais saber da abóbora que Taís Araújo come no café da manhã?

Parece ingenuidade pensar que, saindo fora do sistema, você pode atacá-lo com algum grau de eficiência.

Essa é a grande contradição que os jornalistas de esquerda não querem entender: dentro do sistema você é usado; fora, você desaparece.

Estranho que os debatedores, já que estavam tão preocupados com a verdade, não tenham (pelo menos na síntese publicada no Sul21) saudado três grandes figuras que se destacaram na sua busca e que pagam com a prisão e o exílio essas suas buscas: Julian Assange, Edward Snowden e Bradley Manning (hoje se transformou numa mulher e se chama Chelsea).

Assange era apenas um hacker; Snowden, um funcionário de uma agência de informações americana e Bradley(Chelsea) um militar servindo no Iraque.

Nenhum era jornalista.

O Mestre

“A hegemonia neoliberal está claramente desmoronando. O que precisamos é de uma Tatcher de esquerda, um líder que repita o gesto de Tatcher na direção oposta.” – (Slavoj Zizek – Problema no Paraíso – Do Fim da História ao Fim do Capitalismo – Jorge Zahar Editor -2014)

Qual teria sido para Zizek, esse gesto de Margaret Tatcher?

Foi: “Se aferrar ao seu projeto de liberalismo econômico, de início percebido como louco e gradualmente elevando sua loucura singular ao nível de uma norma aceitável, até o ponto em que se pode dizer que havia criado um novo trabalhismo, uma vez que até os seus adversários políticos adotaram suas práticas econômicas básicas”

Margaret Tatcher seria então um Mestre.

Zizek vai buscar na psicanálise a figura do Mestre, basicamente em Lacan e em Roudinesco (“A posição do mestre permite a transferência: o psicanalista supostamente sabe o que o analisando vai descobrir. Sem esse conhecimento atribuído ao psicanalista, a busca da origem do sofrimento é quase impossível”) para tentar provar que só ele pode representar os anseios do povo e transformá-los em realidade.

Para Zizek, nem sempre, o povo é capaz de perceber em qual direção o futuro aponta e nessa hora, só o Mestre pode fazer essa leitura.

No início da segunda guerra, depois da vergonhosa derrota de suas tropas diante dos nazistas, os franceses ansiavam pela paz, mesmo que ela significasse apoiar o Marechal Petain e seu governo colaboracionista de Vichy.

Foi preciso que o General De Gaulle, mesmo minoritário e ridicularizado pelos ingleses, assumisse o papel de Mestre e resistisse, no seu exílio na Inglaterra, ao poderio nazista porque, entre os militares franceses, ele foi um dos poucos a perceber que o nazismo representava um retrocesso histórico e por isso, no final, seria derrotado.

De Gaulle foi um Mestre.

O Mestre é um solitário, que precisa assumir riscos, contrariar vontades e arcar com suas conseqüências.

Nas suas Memórias sobre a Segunda Guerra Mundial (Editora Nova Fronteira -1959) Winston Churchill diz que diariamente precisava ouvir o que pensavam o seu Gabinete de Guerra, seus ministros, generais, almirantes e o parlamento, para depois tomar uma decisão, sozinho. Era sim ou não, mas essa escolha poderia significar vitória ou derrota. Poderia significar que milhares de pessoas iriam morrer ou viver.

Churchill foi um Mestre como também foram Robespierre, Lenin, Fidel Castro e para incluir um brasileiro, Leonel Brizola.

Na Revolução Francesa, Robespierre implantou o “terror” contra a nobreza e o clero para que a revolução burguesa fosse vitoriosa. Quando votou pela decapitação do Rei Luis XVI, ele disse que era o Rei ou a Pátria.

Robespierre foi um mestre.

Quando os mencheviques e socialistas revolucionários, na Rússia, disseram que a revolução contra o Czar deveria se consolidar numa democracia burguesa, Lenin foi um dos poucos que foi capaz de perceber que era preciso dar novos passos para frente.

Lenin foi um mestre.

Quando seu movimento guerrilheiro parecia ter perdido o rumo, Fidel Castro no seu julgamento de Moncada, afirmou “a História me Absolverá”. Seis anos depois entrou vitorioso em Havana.

Fidel foi um Mestre.

Em 1961, quando políticos de todas as matizes buscavam conciliação com o golpe militar que queria afastar Jango da Presidência, Leonel Brizola não concordou e assumiu o comando de um movimento rebelde, contraditoriamente chamado de Legalidade e mesmo que depois tenha sido traído por seus aliados, foi também um Mestre.

Quem leva esse conceito mais a fundo é o filósofo francês Alain Badiou, quando diz: “Estou convencido de que é preciso restabelecer a função capital dos lideres no processo comunista, qualquer que seja o estágio”.

Badiou diz que é preciso fazer isso seguindo a lição de Lenin, que via na educação das pessoas a única forma de conquistar o socialismo, mas usando um discurso diferente para cada público: “Quando lido com pessoas cujo jargão é lacaniano, digo: uma figura do Mestre. Quando são militantes, digo ditadura, no sentido de Carl Schmitt (anti liberal e anti parlamentar). Quando são trabalhadores, digo líder de massa e assim por diante. E logo me entendem”.

Quem poderá ser o novo Mestre capaz de capitalizar a revolta latente de todos os brasileiros e apontar a direção a ser seguida?

Livre pensar é só pensar (Millor)


Não seria melhor para a esquerda que o Temer completasse seu mandato, com suas trapalhadas diárias, dando tempo à ela de se organizar e buscar apoios para 2018?

Os golpistas, com o apoio que têm da mídia, permitiriam hoje uma candidatura do Lula?

Numa improvável eleição direta agora, a esquerda teria chances de ganhar ou se limitaria, num hipotético segundo turno, a apoiar um Jobim qualquer para impedir a vitoria de um Bolsonaro da extrema direita?

Na França, foi o que ocorreu, com a esquerda dita democrática, ajudando a eleger o neo liberal Macron.

Leia-se o livro Submissão de Michel Huellebecq.

Não é por acaso que a Rede Globo quer derrubar o Temer porque ele está comprometido demais e sem forças para fazer o que a claque empresarial quer, as reformas previdenciária e trabalhista para aumentar a opressão dos trabalhadores.

Feminismo ou socialismo?


Nada como uma boa disputa sobre posições políticas ou comportamentais, onde você assume posições radicais para estimular o seu oponente a sair da defesa e também atacar.
Ainda que pequena, minha militância política, mais teórica do que seria desejável, tem me colocado em confronto com posições de grupos segmentados (mulheres, negros e gays) que transformaram suas lutas contra o preconceito e o racismo em objetivos de vida.
Minha posição, ainda que discutível, no caso é simples: essas lutas, ainda que justas, quando não entendidas claramente como partes de uma luta maior contra a sociedade capitalista e em favor de uma revolução social, canalizam grandes energias para objetivos menores e suprema ironia, podem ser usados para amortecer a luta maior.
Basta um simples olhar sobre como os grandes meios de comunicação, hoje sustentáculos de uma sociedade de classes, tratam questões como o racismo e a homofobia.
Tomamos, como exemplo, a Rede Globo e suas novelas e noticiários. Quem foi mais eficiente do que ela ao desmistificar o preconceito contra a comunidade gay, quando inseriu em suas novelas o famoso “primeiro beijo gay na televisão”? Ela deve ter feito mais pela aceitação da diferença sexual que todos os tratados sociológicos já publicados.
Quando a “mulher do tempo” no Jornal Nacional foi vítima da imbecilidade ululante de alguns telespectadores, a Globo aproveitou para uma cruzada nacional, extremamente eficiente, contra o preconceito de cor.
Agora, jamais vamos ver a Globo usar seus poderosos meios de comunicação para uma campanha pelo fim da pobreza. Pelo contrário ela se promove defendendo a permanência do status quod em que vivemos através de campanhas filantrópicas como Criança Esperança, por exemplo.
A tarefa de lutar por uma sociedade socialista é de todas as pessoas que já se deram conta, como diz Meszáros que a outra opção é a barbárie.
Somente uma sociedade de pessoas socialmente iguais é que será capaz de eliminar os preconceitos de raça, cor e sexo.
A Revolução Soviética, com todos seus erros, foi a única capaz de criar uma sociedade onde as mulheres, realmente foram igualadas em direitos e deveres aos homens, inclusive em algo que ainda hoje não é aceito no Brasil, como, por exemplo, o direito ao aborto.
Como o acesso das mulheres à plena igualdade de direitos e deveres em relação aos homens passa pela construção de uma nova sociedade, também o fim do racismo só é possível integralmente no socialismo.
Frantz Omar Fanon (1925/1961), o grande intelectual, filósofo e ensaísta francês, negro, nascido na Martinica, disse “eu me encontro no mundo e reconheço ter um único direito: o de exigir dos outros um comportamento humano”.
Fanon criticou mais de uma vez um pensamento comum entre os negros, de reivindicar uma cultura original negra para se opor aos brancos, dizendo: “ Não sou um escravo da escravidão que desumanizou meus ancestrais. Seria de enorme interesse descobrir uma literatura ou arquitetura negra do século III a.C. Ficaríamos muito felizes em saber da correspondência entre algum filósofo negro e Platão. Mas não conseguimos ver, de modo algum, como esse fato iria mudar a vida de garotos de oito anos de idade trabalhando em plantações de cana-de-açúcar na Martinica ou em Guadalupe.
Minha síntese, ainda que imperfeita, é de que a única luta que vale a pena é pelo socialismo.

Como era difícil o sexo em Porto Alegre


Os homens, que hoje podem usufruir dos prazeres sexuais com suas amantes ou namoradas, despreocupados e seguros em motéis confortáveis ou em suas casas, deveriam interromper por alguns segundos suas atividades para prestar uma homenagem a nós, os precursores dessa batalha pelo direito do sexo livre.
Nas décadas 60 e 70, em Porto Alegre, ter uma boa e variada vida sexual não era nada fácil. Uma parte das moças que nos interessavam, ainda praticava aquela velha chantagem que suas mães lhe ensinaram: sexo só depois do casamento.
Mesmo com aquelas avançadas em seu tempo, havia um grave problema de logística: onde levá-las. Quem já tinha carro, poderia arriscar ser assaltado, preso pela polícia ou, na melhor das hipóteses sofrer um torcicolo, ao transformar os bancos do seu carro (quase sempre um Fusca) em cama.
Sobravam os lugares que alugavam quartos por hora. Como acontecia com alguns prostíbulos, essas casas não tinham nenhuma sinalização que nos orientasse em sua busca. Era um segredo, passado de boca em boca.
Tinha a “casa do meio” na Botafogo, quase de domínio público, mas as outras, na sua maioria, eram lembradas pelo nome de alguma benfeitora: a casa da Emília, a casa da Dorinha, da Lourdes e assim por diante.
Eram lugares de pouca higiene e quase nenhum conforto. Em vez de um banheiro, uma bacia com um jarro dágua ao lado e um rolo de papel higiênico.
Sim, pessoal, fomos os heróis desbravadores do sexo em Porto Alegre.
Então, aquela senhora, antiga prostituta que ascendeu na vida pelo seu esforço diário, a Dona Marli, revolucionou o mundo do sexo na cidade, criando o primeiro motel digno desse nome em Porto Alegre. Grande, com estacionamento, portaria, apartamentos confortáveis e banheiros com água quente.
Suas modernas instalações ficavam na Padre Cacique, quase esquina José de Alencar, onde o Prefeito Thompson construiu aquele viaduto, até hoje praticamente inútil, ao qual deu o nome de Pedro I.
Deveria merecer uma estátua dos que defendem o capitalismo e a livre iniciativa: uma grande empreendedora, Dona Marli, mas em vez disso foi vilipendiada e perseguida.
Naquele ano de 1972, vivia-se o auge da ditadura militar no Brasil e os milicos estavam comemorando o sesquicentenário da Independência.
Dentre as solenidades previstas estava a colocação de uma urna com os ossos do imperador, trazidos de Portugal, num espaço do viaduto que levava seu nome.
Ocorre que ninguém chamava aquele viaduto pelo seu nome oficial. Era o Viaduto da Marli.
O que acontece então?
O Motel da Marli é fechado, a Marli é presa e os que naquela noite se dedicavam aos prazeres do sexo foram levados para a Delegacia de Costumes (sim, existia) para prestarem esclarecimentos.
Algum tempo depois, o motel virou um estacionamento e o viaduto continua lá, inútil e enfeiando a paisagem.
Acho que ainda é conhecido como o Viaduto da Marli.