Precisamos ler o Zizek

Slavoj Zizek é hoje o mais original e provocador teórico da esquerda no mundo inteiro. Misturando principalmente os conceitos de Karl Marx com os do psicanalista francês Jacques Lacan, Zizek faz uma nova leitura dos limites do capitalismo e propõe uma retomada do comunismo sobre bases totalmente diferentes das existentes até então.

Nascido em Liubliana, Eslovênia, em 1949, Zizek é professor da European Graduate School e pesquisador do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, mas é acima de tudo um novo tipo de filósofo e político que se utiliza de todos os meios de comunicação possíveis para emitir opiniões sobre os mais variados temas, que vão da crise do capitalismo às artes, passando pelo cinema e pela música.

São, porém, em seus livros e nos debates acadêmicos, que faz pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil, que Zizek, solidamente apoiado pela leitura dos grandes filósofos alemães do passado, principalmente Hegel e Kant, e dos franceses atuais, como Lacan, Foucoult e Badiou, destila seus pensamentos sempre originais.

Ao negar a hegemonia da democracia como modelo político, principalmente a chamada democracia liberal, ele afirma que esse modelo é apenas a face visível do capitalismo como sistema econômico, que só funciona na medida em que se fundamenta na existência de dois grupos sociais, o dos “incluídos” e o dos “excluídos”.

No ensaio”“Alain Badiou ou a violência da subtração”, contido em seu livro ‘Em defesa das causas perdidas” (Boitempo Editorial, 2011), ele faz uma distinção entre povo e proletariado e defende a ideia de “ressuscitar a boa e velha ditadura do proletariado como a única maneira de romper com a bio política atual”.

Diz ele que a democracia também é uma forma de ditadura, ou seja, é uma determinação puramente formal e que o estado-burguês, mesmo com suas eleições periódicas, é uma fachada para a ditadura burguesa.

Ao retomar o conceito de Marx do sentido revolucionário do proletariado, Zizek diz que o proletariado é a única classe social capaz de representar o interesse universal da sociedade, porque ao contrário das outras classes sociais que podem potencialmente atingir a condição de “classe dominante”, o proletariado não pode atingir essa condição sem abolir a si mesmo como classe.

No seu livro “As portas da revolução: escritos de Lenin de 1917’, Zizez afirma que Lenin soube articular o realismo com a utopia, quando disse que “é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles”.

O legado de Lenin, a ser reinventado hoje, segundo Zizek, é a política da verdade. Tanto a democracia liberal, como o totalitarismo impedem uma política da verdade.

Espalhados pelos seus diversos livros, quase todos traduzidos para o português, ou nas suas múltiplas conferências, podemos colecionar alguns pensamentos de Zizek, quase sempre polêmicos.

Sobre fundamentalismos:

“Precisamos parar de estabelecer essa relação direta do fundamentalismo com o Islã. Há fundamentalistas nos Estados Unidos, na Noruega e na Europa Oriental.A Hungria vive um pesadelo fascista hoje, isso sem falar na Índia, onde o fundamentalismo é muito forte.”

Sobre ideologias:

“É fascinante dizer hoje que, com exceção de algum louco fundamentalista religioso, nós não temos mais ideologia, somos todos cínicos pragmáticos. Mas não, eu acho que mais do que nunca, a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana. Na verdade, é uma parte até invisível”.

Sobre Hillary Clinton:

“Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, e os liberais que o criticam por atacar a única figura que pode nos salvar de Trump estão errados. O alvo a ser atacado e solapado agora é precisamente esse consenso democrático contra o ‘vilão’.”

Sobre a Europa:

“A Europa está presa em um ciclo vicioso, oscilando entre dois falsos opostos: a rendição ao capitalismo global, ou a sujeição a um populismo anti-imigração”

Sobre a corrupção:

“A lição dos Panama Papers é justamente que a corrupção não é um desvio do sistema capitalista global, ela é parte de seu funcionamento básico”.

Sobre a luta de classes e os atentados na França:

“É preciso trazer de volta a luta de classes e insistir na solidariedade global dos explorados e oprimidos. Sem essa visão global, a patética solidariedade para com as vítimas de Paris não passa de uma obscenidade pseudo-ética.”

Sobre o ateísmo:

“Enquanto um verdadeiro ateu não tem necessidade de apoiar sua própria posição provocando crentes com blasfêmia, ele também se recusa a reduzir o problema das caricaturas de Maomé ao respeito às crenças de outras pessoas.”

Sobre os refugiados:

“Não podemos abordar a crise dos refugiados sem enfrentar o capitalismo global. Os refugiados não chegarão à Noruega. Tampouco a Noruega que eles procuram existe.”

Sobre ser politicamente correto:

“A necessidade de regras politicamente corretas surge quando os valores não ditos de uma sociedade não são mais capazes de regular efetivamente as interações cotidianas – no lugar de costumes consolidados seguidos de forma espontânea, ficamos com regras explícitas  – negro se torna afro-americano, favela se torna comunidade, um ato de tortura passa a ser denominado oficialmente de técnica aprimorada de interrogação, de tal forma que estupro poderia muito bem passar a ser chamado de técnica aprimorada de sedução”.

Sobre as favelas brasileiras:

“O Brasil é um dos únicos países que conheço que não esconde as favelas. Em Buenos Aires, por exemplo, elas não são vistas. Não digo que elas formem um magnífico cenário hollywoodiano, mas pelo menos é melhor que sejam vistas! E me pergunto: como funciona a vida social nas favelas? Há milhares de pessoas amontoadas, então, além dos bandidos e comunidades religiosas, tem de haver um tipo de rede social que faça a favela funcionar.

Sobre os objetivos da esquerda:

“O sonho secreto da Esquerda radical nas últimas décadas consistiu no que ela mais temia, a perspectiva real de tomar o poder. Eles têm medo do poder. Acho que nesse sentido temos de ser brutais e não ter medo do poder”.

Sobre o papel das mulheres:

“Lacan fala de Santa Tereza, por exemplo – que a mulher goza, que ela não sabe o quê, mas simplesmente, sem palavras, goza. É interessante pensarmos em Santa Tereza nesse sentido. Se há uma pessoa que não existiu fora da ordem simbólica, ela é Santa Tereza. Ela escrevia o tempo inteiro, era uma pessoa de escrita histérica. Essa é a posição feminina, não esse tipo de mãe primordial

Sobre as recentes manifestações públicas na Europa

“Sou a favor de reuniões e protestos, porém não me convencem seus manifestos de desconfiança de toda a classe política. A quem se dirigem, então, quando pedem uma vida digna”?

Sobre ele mesmo:

“Sou um pessimista no sentido de que estamos nos aproximando de tempos perigosos. Mas sou um otimista exatamente pela mesma razão. O pessimismo significa que as coisas estão ficando bagunçadas. O otimismo significa que esta é precisamente a época em que a mudança é possível”.

No dia 6 de março de 2013, um dia após a morte de Hugo Chávez, Slavoj Zizek começava uma conferência na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, afirmando que “Chávez era um de nós independente do que se queira dizer sobre ele” e depois explicou porque pensava assim:

“Todo mundo gosta de simpatizar com favelas, de fazer caridade. Caridade é o que existe de mais fashion no novo capitalismo global. Faz as pessoas se sentirem bem e ao mesmo tempo despolitiza a situação. Todos querem fazer caridade, mas nem todos querem incluir a favela na política. Chávez viu que não incluir todos os excluídos significa viver em permanente guerra civil. Por isso ele viverá para sempre”

 

 

 

Da farsa à barbárie

O filme Tora, Tora, Tora, que a Sala Redenção da UFRGS exibiu recentemente, tem duas histórias interessantes, a do filme propriamente dita  e a das razões do ataque à base americana de Pearl Harbor,no Haway, no dia 7 de dezembro de  194, então uma base militar no Pacífico e não ainda um estado americano.

Tora, Tora, Tora, o nome em código da operação (Tigre, Tigre, Tigre), é de 1970, foi produzido por duas unidades, uma americana e outra japonesa. A americana tinha a direção de Richard Fleischer e a japonesa deveria ser dirigida pelo grande Akira Kurosava,que acabou se afastando da produção, sendo substituído por Kinji Fukaaku e Toshio Masuda. O elenco não tinha grandes nomes, mas seus atores eram bem conhecidos das produções de Hollywood, como Martin Balsan e Jason Roberts. O mais famoso era Joseph Cotten. Obviamente o filme dá a versão oficial das razões do ataque japonês e o heroísmo dos defensores americanos e se destacou na época pela alta qualidade das cenas de combate, se aproximando bastante de uma linha documental.

A segunda história, mas interessante, é a de que os americanos sabiam da possibilidade do ataque e que o alvo seria Pearl Harbor e, de certa forma estimularam os japoneses a esse ataque desesperado.

Em 1941, a guerra se arrastava há dois anos e os Estados Unidos, quase abertamente, ofereciam equipamentos militares à Inglaterra, embora oficialmente estivessem fora de guerra. A população americana,  segundo pesquisas da época, desaprovavam a participação de soldados dos Estados Unidos nos campos de batalha, mas o governo Roosevelt já percebera que o mundo seria dividido depois entre as potências vencedoras.e não queriam fica de fora.  O interesse econômico dos Estados Unidos estava no Pacífico, onde já tinham montado uma grande base militar no Haway. No verão de 1941, os EUA entraram, junto com a Inglaterra, com um embargo de petróleo contra o Japão. O Japão precisava de óleo para a sua guerra com a China e não tinha outra opção, a não ser a invasão das Índias Orientais e o Sudeste da Ásia para obter novos recursos que necessitava.  Roosevelt queria manobrar o inimigo para que este atacasse primeiro. O presidente precisava de um ataque capaz de levar a opinião pública a uma comoção extrema e com disposição para apoiar uma guerra longa contra um inimigo “desleal e bárbaro”.

Pouco antes do ataque, providencialmente, todos os porta-aviões americanos da frota do Pacífico deixaram Pearl Harbor e partiram para os EUA. Só os navios velhos e ultrapassados foram deixados em Pearl Harbor.

Segundo a maioria dos historiadores mais sérios houve ainda outros indícios de que Roosevelt estava bem a par das intenções japonesas:

No dia 27 de janeiro de 1941, Joseph C. Grew, o embaixador dos EUA para o Japão, enviou uma mensagem para Washington afirmando que ele tinha descoberto que o Japão estava se preparando para ataca Pearl Harbor.

Em 24 de setembro, um despacho da inteligência naval japonesa, para o cônsul geral do Japão em Honolulu foi decifrado.

A transmissão revelava um pedido de uma grade com as localizações exatas de todos os navios em Pearl Harborr.

Surpreendentemente, Washington optou por não compartilhar essas informações com os oficiais em Pearl Harbor.

Inclusive, na mesma noite antes do ataque, a inteligência dos EUA decodificou uma mensagem apontando para domingo de manhã, como o prazo estabelecido para algum tipo de ação japonesa.

A mensagem foi entregue ao alto comando em Washington mais de quatro horas antes do ataque a Pearl Harbor.

Mas, como muitas mensagens antes, a informação não foi transmitida ao alto comando em Pearl Harbor.

O ataque japonês ocorreu no dia 7 de dezembro de 1941. Os Estados Unidos declararam guerra ao Japão no dia seguinte, 8 de dezembro. A guerra iria durar até agosto de 1945 com a explosão das bombas atômicas sobre Hiroshima e depois Nagasaki.

O que começara como uma farsa terminou com a barbárie atômica.

Destruindo o Brasil

 

A Caixa pediu a falência da Odebrecht por acreditar que ela seja incapaz de pagar sua dívida de 51 bilhões de reais.

Há 5 anos, a empresa tinha 270 mil empregados e operava em 21 países. Hoje, ela emprega menos de 50 mil pessoas

Junto com a Petrobrás, ela foi a principal vítima da Lava Jato, que a pretexto de acabar com o sistema de pagamento de propinas a políticos, liquidou a empresa, deixando livres seus principais dirigentes e suas contas em dólares na Suíça.

Ruim para o Brasil e para os brasileiros.

Bom para os Estados Unidos e para os americanos.

Bom para o Moro, o Dallagnol e seu grupo, que ganharam dinheiro e fama

.E o que dizer dos ingênuos que saem pelas ruas louvando a Lava Jato?

São apenas ingênuos ou imbecis?

As mazelas do capitalismo

 

Você que vive defendendo a primazia do mercado sobre os interesses da população, não deve assistir o filme Código de Honra (Puncture) de 2012, exibido com pouco destaque nos cinemas, apesar da presença do astro Chris Evans (O Capitão América) e agora disponível no Netflix.

Não deve assistir, porque o filme certamente vai abalar suas convicções sobre a excelência do sistema capitalista baseado na livre ação do mercado

O filme dirigido pelos irmãos Adam e Mark Kassen (este atuando também como ator), conta a história real de uma pequena firma de advogados do Texas, que resolve defender uma empresa que pretende entrar no mercado hospitalar dos Estados Unidos oferecendo um novo tipo de seringa de plástico totalmente segura, porque só pode ser utilizada uma única vez.

Até 1966 só se utilizavam nos Estados Unidos seringas de vidro, que após serem usadas poderiam ser esterilizadas no calor. A partir da morte do presidente da empresa Thompson, uma das gigantes da indústria médica, seus herdeiros optaram por um sistema de produção mais barato e de grande rotatividade: a seringa de plástico. Como essa não pode ser esterilizada, sua utilização é apontada em estudos como uma das principais causas pela disseminação descontrolada dos mais diversos tipos de doenças – inclusive a AIDS – em todo o mundo, devido a sua reutilização.

Ao defenderem uma enfermeira contaminada com AIDS por causa da picada de uma agulha, os advogados descobrem que essa era causa de milhares de mortes de trabalhadores da saúde porque os hospitais se negavam a comprar um novo modelo de seringa totalmente descartável, que já estava disponível no mercado, mas que era um pouco mais caro.

E, mais do que isso, os empresários do setor que dominava a produção das seringas, exerciam uma forte pressão sobre os hospitais impedindo que comprassem o novo produto, usando para isso meios lícitos e ilícitos.

No final, como é comum em filmes americanos de denúncias, um letreiro explica que a causa foi ganha pela firma dos advogados (nessa altura, Mike Weiss – papel vivido por Chris Evans – já tinha morrido de forma misteriosa) e a indústria médica é obrigada a pagar uma indenização de 150 milhões de dólares.

O que o filme não diz é que o uso da seringa totalmente descartável não é ainda uma prática obrigatória em todos os lugares, mesmo nos Estados Unidos, e com isso milhões de pessoas continuam sendo infectadas pelas seringas contaminadas e morrendo das mais diversas doenças,

Voltando ao aviso inicial aos defensores da primazia do mercado: esse é apenas um resumo frio da história do filme, sem um pingo da sua dramaticidade. Então se você é daqueles que acham que o Estado se intromete demais na vida das pessoas não veja o filme para não perder seus argumentos. Afinal, mesmo sendo um defensor ferrenho do mercado, certamente você não é tão desumano em acreditar que o lucro é mais importante que a vida das pessoas.

Então, não veja o filme.

O último grande gesto de solidariedade humana

A Guerra Civil Espanhola, de 1936 e 1939, onde os dois lados representavam claramente a divisão ideológica em que vivia o mundo, socialistas republicanos de um lado e fascistas da extrema direita do outro, continua dando argumentos para novas e importantes obras de ficção.
Lydie Salvayre venceu o prêmio Goncourt, o mais importante prêmio literário da França com o romance “Pas Pleurer”. Filha de republicanos espanhóis que emigraram para o sul da França para escapar do franquismo, Lydie. com o seu livro, mostra que o assunto está longe de se esgot ar num momento em que as divisões ideológicas voltam a se acentuar em todo mundo.
Antes dela, vários outros escritores, usaram essa guerra como tema, com destaque para Ernest Hemingway, que foi motorista de ambulâncias no lado republicano, com o seu clássico Por Quem os Sinos Dobram e Gerorge Orwell, que lutou ao lado do POUM contra os fascistas, e que descreveu esse período em Homenagem à Catalunha.
Até mesmo Érico Veríssimo, usou a guerra para um livro menor em sua obra literária, Saga, um romance dentro do ciclo urbano de Érico, narra a trajetória de Vasco Bruno, desde sua vivência na guerra, na Espanha,até o seu retorno a Porto Alegre.
Eu volto ao tema motivado pela leitura do magnífico livro de Alejo Carpentier, Sagração da Primavera, em que ele retoma o tema da Guerra Civil e mais especificamente a ação das Brigadas Internacionais que lutaram ao lado da República.
Talvez a Brigadas Internacionais tenham sido o último grande gesto a marcar uma solidariedade entre os homens, acima dos países, das bandeiras, dos mesquinhos interesses nacionais, todos unidos na defesa de algo muito tênue, mas fundamental para a preservação da condição humana, uma ideia.
Carpentier descreve assim a ida do seu alter ego, o cubano Henrique, para se juntar às brigadas na Espanha: “E às 10 da noite, sob os amplos vidros da Gare d´Austerlitz, o trem começa a andar. Então, enorme, multitudinária,, em plataformas repletas de gente, e nos vagões que já começam a rodar, soa, solene, acolhedora, a Internacional, tal qual um Magnificat cantado em nave de abóbadas, sobre a locomotiva, que, com um longo assobio, toma o rumo dos Pirineus”.
Foram quase três mil combatentes, vindos de cerca de 70 países diferentes, inclusive o Brasil, mas majoritariamente da França, Alemanha, Polônia e Itália.
Enquanto se travavam furiosas batalhas em Bilbao, Santander, Gijon, Almeria, Turuel, Ebro e a decisiva por Madri, o que une os brigadistas é a Internacional, com suas primeiras estrofes cantadas em uma babel de línguas:
De pé, ó vítimas da fome. / Arise! Ye starvellings from your slumbers. / Wacht auf. Verdammte diese erde. / Compagni avanti il gran partito. /
Debout, les dannés de la terre. / Arriba, parias de la tierra.
No outono de 38, a República apresentou uma proposta ao Comitê de Não Intervenção, coordenado pela Inglaterra e França, incluindo a saída da Espanha dos combatentes estrangeiros. As Brigadas Internacionais foram dissolvidas, mas a Alemanha nazista e a Itália fascista continuaram, porém, apoiando Franco com armas e homens até a sua vitória final, em abril de 1939.
Nunca mais depois disso, surgiu um outro grande movimento capaz de unir todos os homens em torno de um objetivo comum, quando, como diz um personagem do livro, “tudo se resume em saber se você está com o cão ou quer acabar com o cão. O resto é perfumaria.”
A leitura de Carpentier nos leva a sonhar que um novo homem talvez seja possível com os mesmos propósitos que uniram os que lutaram nas Brigadas Internacionais.

O publicitário é, antes de tudo, um mentiroso

Outro dia, falava com o professor Lucas sobre cinema, quando ele lembrou um filme, citando o título em inglês – Splendor in the Grass. Aí começou minha confusão. Falei que era um filme do Elia Kazan, em que o Kirk Douglas fazia o papel de um diretor de uma agência de publicidade que tinha uma visão crítica sobre o seu trabalho.
Não era nada disso. Com a ajuda do Google, esclareci depois a questão. Splendor in the Grass, que no Brasil se chamou Clamor do Sexo (Natalie Wood e Warren Beaty), era um filme sobre a repressão sexual nos Estados Unidos na década de 20, dirigido pelo Elia Kazan.
O filme com Kirk Douglas, ambientado numa agência de publicidade, se chamava The Arrangement, traduzido no Brasil para Movidos pelo Ódio, tinha ainda nos papéis principais Faye Dunaway e Debora Kerr e também foi dirigido pelo Elia Kazan.
Essa confusão me levou a fazer duas coisas: primeiro, deixar registrado que Elia Kazan (Sindicato de Ladrões, Baby Doll, Vidas Amargas) foi um dos maiores diretores do cinema, mas um canalha, um delator como agora está na moda, passando de membro do Partido Comunista Americano para a pessoa que entregou dezenas de atores e diretores de cinema na Comissão de Atividades Anti Americanas, do senador Mc Carthy e segundo, falar um pouco sobre publicidade e minha experiência nessa área de comunicação.
Trabalhei durante mais de 20 anos no mercado publicitário. Fui redator, diretor de criação e diretor de planejamento de algumas das maiores agências de propaganda do Estado (MPM, Standard, Símbolo, Marca e Módulo), ganhei muitos prêmios e participei de festivais internacionais de publicidade (Cannes e Veneza) e além disso, lecionei técnicas publicitárias na PUC e na Unisinos.
São essas experiências que me permitem afirmar de cadeira, que não existe profissão onde se valorize mais a aparência das coisas, que seu real valor, do que a publicidade.
Parodiando Euclides Cunha, que disse que o sertanejo é antes de tudo um forte, me atrevo a dizer que o publicitário é antes de tudo um mentiroso.
Durante todos os meus anos como publicitário, conheci pessoas extremamente talentosas, inteligentes, cultas e criativas, que tiveram sucesso merecido em suas carreiras, mas que diariamente se dedicavam a produzir um tipo de comunicação que na sua essência era mentirosa.
Eu, como eles, mesmo tendo em dose menor essas qualidades, participei desse jogo enquanto pude.
Não se trata de produzir uma mentira grosseira, de dizer que estamos oferecendo uma lebre, quando temos na mão apenas um gato, mas de ficar sempre na superfície das coisas, de criar jogos de palavras que escondem o principal, de usar imagens que funcionam como uma ilusão de ótica.
Quando Marx disse que a religião é o ópio do povo, ele desconhecia as modernas técnicas de comunicação que os americanos criaram e venderam para o mundo inteiro. Se conhecesse, trocaria a religião pela publicidade.
O professor Luiz Gonzaga Belluzo já afirmou que o capitalismo se sustenta por causa do crédito, não ao produtor, mas ao consumidor. Esse tipo de crediário é que permite que as pessoas possam continuar comprando, mesmo sem ter recursos para isso e acabem contando sua vida, não pelos anos reais, mas pelo tempo que resta para pagar o que compraram. Trinta anos pela casa, 60 meses pelo carro, 12 meses pela geladeira e assim o consumidor fica aprisionado numa roda viva de onde ele não pode mais escapar.
E quem convence que aquele carro modelo 2019 é muito melhor que o modelo 2018 e que não possui-lo, como já fez seu vizinho, deve ser motivo de grande sofrimento para você, é o publicitário.
É claro que ele não faz isso porque é um maldoso. Ele faz porque é pago para fazer. O seu patrão, o dono da agência, que trabalha para uma empresa que precisa vender o que fabrica, mesmo que seja até algo nocivo à saúde, comprou o seu talento.
Mas, para que ele venda esse talento sem grandes culpas, é preciso que receba um salário bem maior do que o mercado paga para profissões similares (quando fui convencido a trocar o jornalismo pela publicidade, o argumento definitivo que me deram foi: você vai ganhar muito mais), que ele seja olhado como um artista e não como um artesão e que fique convencido que seu trabalho traz benefícios para a humanidade, na medida em que ajuda a melhorar os produtos e cria hábitos saudáveis (tipo escovar os dentes três vezes ao dia para vender mais creme dental) para todo o mundo.
Muitos dos profissionais com quem convivi, tinham consciência de qual era o seu papel nesse jogo e cinicamente participavam dele, como eu fiz com muito menos brilho, justificando-se com o sonho de um dia deixar de ser redator, para escrever um romance (quem sabe sobre a publicidade?) ou deixar de ser diretor de arte, para se transformar num pintor.
Antes de deixar definitivamente a propaganda, convivi também com novos profissionais que, aparentemente, não tinham mais dúvidas. Faziam parte de uma geração formada após o golpe de 64, que entre outros males que trouxe para o Brasil, tratou de fazer uma verdadeira lavagem cerebral nos jovens para que eles trocassem os velhos sentimentos de solidariedade social por um individualismo extremamente competitivo.
É bem possível que essa nova geração seja bem pior do que a minha porque não precisa mais mentir. Ela realmente acredita no que faz
Obviamente, todas essas considerações dizem respeito aos publicitários profissionais, os velhos e os novos, e não aos donos das agências de publicidade, que apesar de quase sempre se apresentaram também como tais, são apenas negociantes que seriam bem ou malsucedidos em qualquer outro tipo de atividade, desde fabricante de embutidos até o de dono de motéis.
Mino Carta disse uma vez que o jornalista era o único profissional que chamava o patrão de colega.
Carta esqueceu o publicitário.

E agora, José?

Vi o aviso no jornal.

Setenta e oito anos, tempo suficiente para fazer muitas coisas.

A notícia diz que ele teve quatro filhos. Cumpriu com méritos sua função primordial de preservar a espécie. Talvez até em excesso. Na China não seria bem visto.

Lendo o que saiu no jornal, me dou conta de quantas coisas o José fez na vida. Não imaginava que ele seria capaz de tanto.

Tantas promessas de saudade eterna. Tantos elogios.

O Franklin sempre lembra a frase do Borges, que um dos discursos sempre mentiroso é aquele proferido na beira do túmulo.

Por que será que ninguém fala mal dos mortos?

Bem, agora acabou.

Será que vão meter o José dentro de um caixão de madeira e depois enfiá-lo naquele nicho de cimento para que não empeste o ar que os vivos respiram, quando seu corpo começar a apodrecer?

Ou será que vão cremar o José e espalhar suas cinzas no Guaíba?

Nesse último caso, aquela previsão bíblica de que no Juízo Final todas as almas se juntarão aos seus corpos originais, não será prejudicada?

Talvez o José fosse ateu e não tivesse essa preocupação.

Era apenas mais alguém passando pela vida.

Será que o Drummond pensava em você, José, quando escreveu:

“Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Certamente que não, porque você é o José que morreu e daqui alguns dias ninguém falará mais de você.

Não adiantou nada os sacrifícios que você fez ou disse que fez, para educar os filhos, para ser honesto, para não desejar a mulher do próximo (esse capítulo você sempre pulou, não é José?), para ser alguém na vida.

Melhor ter sido mais egoísta que você conseguiu ser, de ter aceitado aquela oferta obscura, de ter traído, de ter feito aquilo que a sua natureza animal indicava ser o melhor caminho.

Mas você se dizia civilizado, quando tinha na verdade, apenas medo do seu pai e mais tarde da polícia.

Que pena, José, agora não dá mais tempo para nada.

Você virou apenas uma notícia no jornal, como naquele outro poema do Drummond, a Morte no Avião:

“Caio verticalmente e me transformo em notícia”.

Nem isso, José, você morreu deitado numa cama de hospital, provavelmente de um câncer, totalmente indigno, na próstata.

Ora bolas, José, você foi apenas mais um grande chato.

 

 

Comunismo nos Estados Unidos?

Você já imaginou um país chamado Estados Socialistas da América do Norte?

Em vez de USA (United States of America), SSNA (Socialist States of North America)

Utopia?

Provavelmente.

Mas, mesmo que seja um sonho quase impossível, existem alguns dados para justificar esse quase da frase.

Entre as décadas de 1920 e 1940, o Partido Comunista dos Estados Unidos, o Communist Party USA (CPUSA) foi um partido marxista bastante atuante, fruto principalmente da ação dos emigrantes italianos que chegaram ao País após a Primeira Grande Guerra.

Seus membros tiveram atuação importante nos movimentos sindicais e na defesa dos direitos civis dos negros.

Após a segunda guerra mundial, 1945, com o início da guerra fria e de uma ampla campanha de mídia, principalmente, o cinema, contra o comunismo, o partido foi diminuindo de importância, mas ainda permanece vivo.

.O CPUSA, dirigido em escala nacional por Sam Webb, tem sua sede no Bairro Chelsea, em Nova York e conta hoje com entre 3 e 3,5 mil membros, mas seus dirigentes esperam que a atua crise econômica nos Estados Unidos, com o aumento cada vez maior da pobreza tragam novos adeptos para o partido.

Aparentemente essa não é uma expectativa de todo irreal.

Uma pesquisa patrocinada por uma instituição anti-comunista, a Foundation Victims of Commnism Memorial revelou que o número de pessoas nascidas entre 1980 e 2000,ou seja jovens entre 20 e 30 anos, que prefeririam viver num regime socialista, é de 44% do total dos entrevistados, contra 42% que escolheriam o capitalismo. Outros 14% se disseram divididos entre comunismo e fascismo.

É importante levar em conta o alto grau de desconhecimento dessa faixa de público sobre a política, refletindo uma alienação que é bastante grande em todos os segmentos de público nos Estados Unidos.

Um exemplo disso é que 66% dos entrevistados foram incapazes de dar uma definição correta de socialismo e 30% confundem comunismo com fascismo.

Mesmo assim, preocupou os pesquisadores que Karl Marx (32%), Che Guevara (31%), Lenin (23%) Mao (19%) e até Stalin (6%) recebessem opiniões favoráveis dos jovens.

Se na área política, o comunismo e mesmo as idéias socialistas, têm pouca força na vida política, o Marxismo, que dá sustentação ideológica ao comunismo, cresce em influência na área cultural, principalmente nas universidades

Os filósofos alemães, como Adorno e Marcuse, da Escola de Frankfurt, entre outros, ao fugirem do nazismo e se radicarem nos Estados Unidos, deixaram muitas idéias de cunho marxista nos meios acadêmicos americanos..

Hoje, nomes importantes como David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson, Erik Olin Wright e Michael Burawoy seguem essa tradição acadêmica em estudos que refletem uma influência marxista.

Perry Anderson, historiador e professor da UCLA e editor da revista  New Left Review, acredita numa possível reunificação do marxismo com as lutas populares concretas, principalmente por causa da globalização da economia, abrindo um novo caminho para as revoluções sociais, que não deixariam de fora os Estados Unidos.

Portanto, camaradas, não percamos as esperanças.

O grande momento do Jornal Nacional

A Globo, a RBS e o resto da mídia estão comemorando os 50 anos do Jornal Nacional. Seria legal que esse pessoal relembrasse um dos grandes momentos do JN, quando no dia 16 de março de 94, obrigado pela Justiça, foi lida por Cid Moreira a carta de Leonel Brizola em resposta a Roberto Marinho. Como eles não vão lembrar, lembro: “Em cumprimento à sentença do juiz de Direito da 18ª Vara Criminal da Cidade do Rio de Janeiro, em ação de direito de resposta, movida contra a TV Globo, passamos a transmitir a nota de resposta do sr. Leonel de Moura Brizola.
‘Todos sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui cita o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro. Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil. Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si. Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país.
Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário, que para ela representa a transmissão do Carnaval. Dinheiro, acima de tudo.
Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval carioca. Também aí não tem autoridade moral para questionar. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior.
E isso é que não perdoarão nunca. Até mesmo a pesquisa mostrada na quinta-feira revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria antes um dever para qualquer órgão de imprensa, dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.
Quando ela diz que denuncia os maus administradores deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante do seu poder.
Se eu tivesse as pretensões eleitoreiras, de que tentam me acusar, não estaria aqui lutando contra um gigante como a Rede Globo.
Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado. Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o governo federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível, quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesma.
Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência límpida e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros.’
assina Leonel Brizola.”

A magia da realidade

O intelectual é por princípio um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase – “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (Deus não é grande), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

Em seu livro mais conhecido no Brasil (Deus – um delírio) Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais,

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

Dawkins propõe então chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.