Não devemos ter medo das palavras

Algumas palavras têm uma força própria.

Deus, Mestre, Magistrado, Sábio, são palavras que carregam um forte significado nelas mesmo.

Por isso mesmo, às vezes, é preciso desmistificá-las.

São apenas palavras.

Alguém já disse que a palavra Cão não morde.

Agora é preciso dizer que a palavra Comunismo não devia assustar ninguém

Mas, ainda assusta.

Anos e anos de uma campanha feroz, no sentido de transformá-la quase num palavrão, fez que ainda hoje ela assuste muita gente.

Faz mais, apavora.

Já disseram que, os identificados com ela “comiam criancinhas”, que seus defensores não respeitavam as famílias e os lares e que eles pretendiam expulsar Deus do coração dos fiéis.

Os mais educados falavam que o comunismo era um ideologia exótica que não tinha nada a ver com o Ocidente.

E, talvez o argumento mais usado, o comunismo é antidemocrático e prega uma ditadura.

Vamos então, examinar essa palavra tão amaldiçoada com um grau de distanciamento crítico possível.

Seu campo de ação se localiza basicamente na forma como os seres humanos organizam historicamente sua forma de produção de bens.

Comunismo, como o próprio nome está a indicar, é a forma comunitária de explorar esses bens, tanto na produção, como na sua repartição.

No seu livro clássico As Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels, mostra que a exploração comunitária da terra, através da grande família matriarcal, foi a primeira etapa do processo de desenvolvimento  econômico e social da humanidade.

Esse modelo foi sendo sucessivamente substituído por outros mais avançados e eficientes de exploração das riquezas, passando pelos sistemas, escravagista e feudal, até chegar ao sistema capitalista, que começa a se desenhar para o mundo ocidental a partir do ciclo das grandes navegações e que permanece dominante até hoje, passando pelas fases comercial, industrial e financeira até chegar ao atual modelo globalizado.

E o que tem a ver o comunismo com isso?

Seria uma tentativa de voltar ao sistema original?

Longe disso, ele pretende que o sistema continue evoluindo, ao contrário do que pensam alguns historiadores, como Francis Fukuyama, que vê no capitalismo o fim da história.

E são duas, fundamentalmente, as razões para defender a continuidade do processo histórico: uma econômica – o formato atual da economia, com a enorme concentração de renda em alguns poucos e a disseminação da pobreza junto à maioria, gera crise econômicas cíclicas, que só são superadas com enormes perdas materiais; e outra de natureza ética, o capitalismo para se manter vivo precisa de guerras constantes, de restrição de direitos das pessoas e a destruição da natureza, o que levou István Meszaros  a repetir, o que já previa Rosa Luxemburgo há 100 anos, de que a opção hoje é entre o socialismo a barbárie.

O sistema capitalista cria uma nova classe social dominante, a burguesia, que ao contrário da anterior, a nobreza, rompe seus vínculos sociais com a classe dos trabalhadores, para se relacionar com ela apenas de forma econômica, comprando sua força de trabalho ao menor custo possível.

O novo modelo que começa de forma simbólica com a Revolução Francesa, em1789, vai marcar uma longa luta da classe trabalhadora por melhorias em suas condições de trabalho e vida.

Durante toda essa fase, através da luta dos sindicatos que os representam, os trabalhadores vão conquistando mais direitos, como oito horas diárias de trabalho, as férias, as aposentadorias, mas não alteram a relação principal que separa os que trabalham dos que vivem do trabalho dos outros.

A primeira proposta que se fundamenta em bases concretas para romper esse modelo, está contida no Manifesto Comunista de 1848, formulado por Karl Marx e Friedrich Engel, que começa com uma frase que ficou célebre – “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo, o Papa, o Czar, Meternich, Guizot  e o policial da Alemanha”

Os dois, mas principalmente Marx , vão dar a base teórica para os movimentos de trabalhadores da Europa, que não buscam mais apenas conquistas sindicais, mas um  mudança radical no sistema, com a substituição do  capitalismo pelo socialismo num primeiro estágio e mais adiante pelo comunismo, onde existiria uma sociedade finalmente livre da tutela do Estado.

Seria um mundo, como sonhou Rosa Luxemburgo. onde as pessoas são socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

O Marxismo, a doutrina oriunda das idéias de Marx, que deveria sustentar essa luta, se apóia num tripé formado pela filosofia de Hegel, as idéias econômicas da escola inglesa e o socialismo utópico dos franceses, uma criação portanto essencialmente ocidental.

Em linhas gerais, ela buscava nos socialistas franceses o sonho libertário que sempre estimulou a busca de uma vida mais digna para o ser humano; na filosofia de Hegel, a ideia dialética de um movimento sempre no sentido positivo e na economia inglesa, a mecânica de funcionamento do capitalismo, baseado na exploração sempre crescente dos trabalhadores.,

Primeiro na Rússia e depois na Alemanha, as idéias de Marx formaram a base ideológica para a ação revolucionária dos bolchevistas e dos espartaquistas, que, ao se separem do Partido da Social Democracia, deram origem aos primeiros Partidos Comunistas

Nos momentos finais da Primeira Grande Guerra, os comunistas iniciaram um ciclo de revoluções sociais para construir o socialismo, vitoriosa em outubro de 1917, na Rússia, sob a direção de Lenin e Trotski e fracassada em janeiro de 1919  na Alemanha, sob o comando de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

 

 

os aleijados

Independente do número de pessoas nas manifestações de domingo em favor do Bolsonaro e suas políticas, o que chamou a atenção foram suas bandeiras em favor da morte, da violência, do racismo e do fascismo.

Quem olhou para eles, mesmo nas fotos que a mídia se esmerou em mostrar hoje, deve ter percebido que são pessoas aleijadas.

Aleijadas moralmente.

É impossível, vendo esse episódio, não se lembrar de outro, registrado por diversos historiadores da guerra civil na Espanha.

Em 1936, numa cerimônia para comemorar o Dia da Raça, na Universidade de Salamanca, o general franquista Millan Astray, um aleijado, sem um braço e com um olho apenas, se levantou pra gritar “Viva la Muerte” e “Espanha Grande”.

Em resposta, o reitor da universidade, Miguel Unamuno proferiu seu famoso discurso em defesa da vida e da cultura:

“Agora mesmo ouvi um grito necrófilo e insensato, ‘Viva a morte’. Eu devo dizer-lhes que considero este esdrúxulo paradoxo repelente. O General Astray é um aleijado, que isso seja dito sem nenhum sentido pejorativo. Ele é um inválido de guerra. Cervantes também era. Infelizmente há demasiados aleijados na Espanha agora. Entristece-me pensar que o general MillánAstray venha ditar o padrão da psicologia de massas. Um aleijado que não possui a grandeza espiritual de um Cervantes acostuma-se a buscar alívio produzindo mutilados em volta dele.”

Mais adiante, disse ainda Unamuno


“Estamos no templo do intelecto. E nele eu sou o sumo sacerdote. São vocês que profanam esses espaços sagrados. Vocês vão vencer, por que têm mais que o necessário de força bruta. Mas vocês não convencerão. Pois para convencer é preciso persuadir. E para persuadir vocês necessitarão o que não têm: razão e justiça na luta. Eu considero fútil exortá-los para que pensem na Espanha. Eu o fiz.”

Os desinformados

Os jornalistas gostam de se auto-intitular de formadores de opinião. Arrogância típica deles.  Uma minoria talvez até mereça o título – me vem a mente o nome de um, Janio de Freitas  – mas a maioria repete, com mais ou menos ênfase – aquilo que pensam seus patrões.

Quem forma opinião não são os jornalistas, mas os jornais, como empresas, apesar deles se apresentarem, quase sempre, como veículos isentos, imparciais, mostrando para seus leitores, os fatos e deixando para eles, a interpretação.

Falo em jornais e não de um modo geral em veículos de comunicação, como a televisão e rádio, porque é a mídia impressa, os jornais e um pouco menos, as revistas, o espaço em que  a matéria prima é a informação, enquanto nos demais – principalmente a televisão, o que ocupa o maior espaço é o entretenimento.

Voltemos, pois, aos jornais e nele incluindo, para prestar tributo à modernidade,  os jornais eletrônicos.

Eles não surgiram com a imagem (ainda que falsa) com que se apresentam hoje, de imparcialidade e de defenderem apenas os grandes temas que seriam desejos comuns de todos que vivem numa sociedade civilizada, a democracia e a liberdade.

Nos seus primórdios, eles eram assumidamente, veículos de divulgação de ideais, principalmente de agrupamentos políticos. Nos primeiros anos do século passado, eles eram armas de combate dos revolucionários, embora também os defensores do status quo da época, tivessem os seus.  Lênin, Trotski e Rosa Luxemburgo foram, além de políticos, jornalistas.

Foram os últimos cinqüenta anos que consolidaram, principalmente a partir do modelo norte-americano, o formato atual de jornalismo, aparentemente acima dos partidos e ideologias, defendendo o bem comum, típico da civilização ocidental e sua ética capitalista.

Uma boa amostra de como funciona essa proposta é o livro de Gay Talese sobre o jornal New York Times, O Reino e o Poder.

O jornalismo brasileiro sempre procurou se guiar pelo modelo americano, mas ao contrário dele, talvez por influência da nossa herança católica, não foi capaz de assumir determinados lados políticos como faz a imprensa de um país de formação protestante (os Estados Unidos), preferindo a falsa posição de neutralidade

Neutralidade, quase sempre aparente e que nas ocasiões decisivas, foi rompida e quase sempre optando pelo lado que mais interessa à classe dominante.

Em 1964, os grandes jornais brasileiros, como o Correio da Manha, o Jornal do Brasil e o Estadão, se colocaram ao lado do golpe militar contra o governo legal de João Goulart.

Ficaram famosos os editoriais do Correio da Manhã “Basta” e “Fora”, cobrando a saída de Jango.  Pagaram caro, depois, com a censura que os militares impuseram aos jornais, principalmente ao Correio da Manhã.

Depois disso, com a democratização, os jornais assumiram uma posição pública formal de isenção em relação a partidos e políticos, embora, por linhas transversas, tivessem apoiado os governos de FHC e criticado os do PT.

As exceções desse tipo decomportamento na imprensa brasileira estão cada vez mais distantes.

O jornal Última Hora, com várias edições regionais, nasceu para defender, primeiro o governo de Getúlio Vargas, depois o de JK e mais adiante o de Jango e morreu com o golpe de 64.

Com influência mais restrita, tivemos a Tribuna da Imprensa, no Rio de Janeiro, que Carlos Lacerda usou para atacar os governos de Vargas e Jango e depois promover o golpe militar.

O exemplo mais claro de um jornal com um viés assumidamente parcial no Brasil foi o Clarim, que Leonel Brizola criou em 1955 para preparar sua candidatura ao Governo do Estado, no Rio Grande do Sul. O jornal, um tablóide, durou um ano e nunca escondeu sua linha política.

Ainda em Porto Alegre, mesmo que não tivesse uma posição política tão clara, o Jornal do Dia, se apresentava como um jornal da Cúria Metropolitana para defender os valores da religião católica, mas sempre assumiu posições conservadoras na política, numa época em que, qualquer desvio dessas concepções, eram rotuladas como de influência comunista.

Hoje, praticamente todos os principais jornais brasileiros se apresentam com a imagem de imparcialidade, embora como grandes empresas comerciais, defendam sistematicamente as políticas públicas que privilegiam à continuidade da sociedade capitalista e o combate a tudo que possa representar opções ideologicamente de esquerda.

Isso é feito quase nunca ás claras, mas subjetivamente, através de uma escolha de pautas que interessam ao sistema e exclua ou jogue para um segundo plano, o que não interessa, por serem de crítica a esse sistema.

Além da valorização ou desvalorização de temas, de acordo com a ideologia ou dos interesses comerciais dos donos do jornal, outra maneira de formar uma opinião pública a favor ou contra determinados políticos que representam pensamentos diferentes, é como suas imagens são apresentados nas páginas dos jornais.

As fotos dos adversários são quase sempre depreciativas, com fotógrafos prontos para apanhá-los num momento não muito feliz, fuçando no nariz ou coçando uma orelha.

Outra forma, é como são identificados  os amigos e aos inimigos.

Fidel Castro tinha sempre seu nome antecedido pelo título de Ditador. O mesmo é reservado hoje para Nicolas Maduro, apesar de ter sido eleito e reeleito, democraticamente presidente da Venezuela.

Já, Geisel, Médici e Figueiredo, os ditadores militares eram chamados de Presidentes.

Nenhum jornal, hoje, deixa de chamar Bolsonaro de Presidente, apesar de sua eleição se dever mais a um estelionato digital do que ao voto de eleitores esclarecidos.

E os jornalistas, onde fica sua pretensão de ser formadores de opinião?

Eles só assumem esse papel, infelizmente, quando se transformam em porta vozes dos seus patrões.

A grande fantasia

Os velhos políticos brasileiros costumavam se referir a eles como A Grande Democracia do Norte. Para muitos, era a Terra da Liberdade.  Inclusive a entrada da sua principal cidade é dominada por uma grande estátua que homenageia a liberdade.

Será isso verdadeiro ?

Os Estados Unidos são mesmo uma grande democracia e a terra da liberdade?

Uma rápida olhada na História não nos leva a essas conclusões.

Pelo contrário, ela parece nos indicar que os Estados Unidos da América do Norte é um país que foi construído com muitas guerras, muito dinheiro, um enorme genocídio interno e muito sangue, quase sempre o sangue dos outros.

Das 13 colônias iniciais (Rhode Island, New Hampshire, Massachusetts, Nova York, Connecticut, Nova Jersey, Pensilvânia, Delaware, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia) formadas pelos puritanos ingleses  que começaram a migrar para o novo mundo a partir do século XVII, se formaram durante o século seguinte o que é hoje os Estados Unidos.

O primeiro passo foi a Guerra da Independência, que começa em 1775  e dura oito anos, terminando com a vitória dos Estados Unidos, com forte apoio da França, sobre a Inglaterra. Além da independência das 13 colônias, o acordo de paz assinado em Paris, em 1783, garante a integração ao novo pais da região centro-leste, onde hoje estão os estados de centro-leste, da Inglaterra. Esta área corresponde aos atuais estados do Alabama, Tennessee, Kentucky, Ohio, Indiana, Mississipi, Illinois, Wisconsin e Michigan.

Nos anos seguintes, os Estados Unidos começam sua expansão territorial, pressionando nações européias, sob a ameaça de novas guerras, a negociar a venda de suas possessões na América. Da França, vem a Louisiana , em 1803, onde hoje estão os estados da  Louisiana, Arkansas, Missouri, Oklahoma, Kansas, Iowa, Nebraska, Dakota do Sul, Minnesota e Dakota do Norte. Em 1817, a Flórida é comprada da Espanha. Em 1846: a Inglaterra cede a região do extremo noroeste, onde ficam os atuais estados de Washington, Idaho e Oregon. O Alasca é comprado da Rússia em 1867.

Capítulo especial merecem dois grandes eventos da  história americana. O primeiro é a independência do Texas do México e a posterior guerra entre Estados Unidos e México.

Apoiado pelos Estados Unidos, colonos de fala inglesa, do estado mexicano do Texas se rebelaram e depois de uma guerra que durou dois anos, formaram uma república em 1836. Dez anos depois o Texas se integraria aos Estados Unidos.

Em 1945, os Estados Unidos iniciaram uma guerra de conquista contra as regiões fronteiriças do México, inspirados na chamada doutrina do Destino Manifesto (be strong while having slaves) popular nessa época, que afirmava que os Estados Unidos por serem mais fortes, foram escolhidos por Deus para libertar regiões onde haviam escravos, começando pela América Latina.

Numa guerra que durou dois anos, os Estados Unidos conseguiram arrancar do México, uma região que correspondia a 50% do seu território e que acrescentou 25% de novas terras ao que era então os Estados Unidos.

Se tornaram parte dos Estados Unidos, os hoje estados da Califórnia, Utah, Novo México, Arizona e Nevada.

Restava agregar na prática ao novo país à região oeste, onde viviam as tribos indígenas, na realidade, os verdadeiros norte-americanos.

O que o cinema, através dos filmes de faroeste, sempre mostrou como uma conquista épica de terras pertencentes a povos bárbaros, nada mais foi que um genocídio programado contra os indígenas. De 1836 a 1890, a população de indígenas americanos  foi reduzida de 25 milhões de pessoas para 2 milhões.

O Haway,uma ilha do Pacífico, de grande importância estratégica, habitada por polinésios, era inicialmente uma monarquia. No início do século XIX começou a receber colonos brancos americanos disfarçados de pregadores religiosos. Logo esse grupo se apossou das melhores terras para a plantação da cana de açúcar e passar a formar uma minoria dominante no país . Em 1897, a ilha foi anexada aos Estados Unidos para ser a principal base da marinha no Pacífico. Em 1959 vai se tornar o 50* estado americano.

Se internamente os Estados Unidos foram construídos a ferro e fogo, não foi menor a sua atuação no mundo inteiro, com sangrentas intervenções militares nas Filipinas, Iraque e Cuba, além de atuações militares sob as bandeiras da ONU, OTAN e OEA, na Coréia, Líbia, Balcãs, Panamá e Nicarágua, o que justifica dizer que os Estados Unidos não fazem por merecer a imagem de defensores da democracia e da liberdade.

Se a tudo isso, somamos o fato de que há menos de 50 anos, muitos dos seus estados eram regidos oficialmente por leis racistas e ainda hoje, sua legislação criminal prevê à pena de morte para criminosos, prática praticamente extinta em países ditos democráticos do mundo inteiro, mais razão se tem em afirmar que nunca uma fantasia, como se imaginar os Estados Unidos como a terra da democracia e da liberdade, é apenas uma grande fantasia.

 

Desobediência Civil

Em artigo publicado no site Sul 21, analisando as medidas fascistas, cada vez mais evidentes no governo Bolsonaro,  ex-governador Tarso Genro termina por perguntar se não chegou a hora no Brasil da “Desobediência Civil”?

Quem talvez tenha sido o primeiro a tratar dessa questão de uma forma mais profunda foi o filósofo norte-americano Henry David Thoreau (1817/1862) Em 1849 ele escreveu um livro com esse título – A Desobediência Civil – após ter sido preso por se recusar a pagar seus impostos, alegando que esse dinheiro serviria para financiar uma guerra injusta dos Estados Unidos. Na época, os americanos estavam empenhados numa guerra de conquista de grande parte do território do México.

Para ele, a desobediência civil era uma forma de resistir a uma medida ilegal ou imoral do governo, não partindo para um confronto armado, mas se recusando a cumprir suas ordens.

Mais adiante na História, outro grande exemplo de desobediência civil se deu na Índia, na luta comandada por Gandhi contra a colonização inglesa.

Mahatma Gandhi (1869/1948) nasceu na Índia, formou em Direito na Inglaterra e iniciou sua vida política na África do Sul, onde havia por volta do início do século XX, uma grande população hindu, na região do Transwall.

Embora muitas das posições políticas de Gandhi tenham sido controversas em questões envolvendo as posições que assumiu diante dos alemães e japoneses na Segunda Guerra e a posterior divisão da antiga colônia britânica entre hindus e muçulmanos, (Índia e Paquistão), a sua política de resistência passiva é vista com uma das causas para a independência da Índia em 1947.

Outro que de certa forma propugnou por formas de resistência passiva contra um governo opressor, foi Nelson Mandela (1918/2013), embora em seus primeiros anos como ativista da luta contra o apartheid na África do Sul, tenha pertencido ao grupo Lança de uma Nação, o braço armado do Congresso Nacional Africano. Depois de 27 anos na prisão, Mandela saiu de lá para ser o primeiro presidente negro da África do Sul.

Nos Estados Unidos, dos anos 60, surge a figura do pastor Martin Luther King (1929/1968) mobilizando as pessoas para pacificamente combater o racismo, não aceitando as leis que ainda vigoravam em alguns Estados americanos, discriminando, por exemplo, a presença de negros no transporte público e nas escolas.

Na esteira desse movimento, vai surgir o grande movimento de desobediência civil dos jovens americanos, que rasgavam e queimavam em praça pública suas convocações para participar da guerra do Vietnam.

Se quisermos retroceder em muitos séculos na História e chegarmos até os gregos, vamos encontrar formas de desobediência civil na obra de Sófocles, que mostra Antígona se recusando a obedecer às ordens do rei Creonte e na comédia de Aristófanes, Lisístrata. Nessa peça, as mulheres dos soldados de Atenas, cansadas das guerras com Esparta, fizeram uma greve de sexo, que só terminaria com uma paz entre as duas cidades-estado que deixasse seus maridos em casa.

Não sei o que Tarso Genro estaria pensando quando falou em desobediência civil. Eu, modestamente, vou iniciar a minha, convidando às pessoas a não ler, ouvir ou ver (ou se ler, ouvir e ver, falar sempre mal) de tudo que for veiculado nos veículos da RBS.

Pode ser um início bem modesto, mas já dá para servir como treino para coisas maiores e mais importantes.

Um modelo perverso

No passado, os jornais eram porta-vozes de partidos políticos e existiam para expor e defender suas idéias. No início do século vinte, os movimentos revolucionários europeus se valiam deles para conquistar adeptos e propor formas de luta.

Foi com a consolidação da sociedade capitalista no Ocidente, que eles foram aos poucos adquirindo a sua conformação atual, onde sob a aparência de veículos de comunicação que serviriam principalmente de registro dos acontecimentos, se transformam em sustentáculos de um determinado sistema.

Embora o jornalismo venda a ideia de imparcialidade e compromisso com a verdade, ele é cada vez mais o sustentáculo da sociedade capitalista, a quem procura vestir com uma aparência ética, totalmente em desacordo com sua substância real.

Dois fatos, um da área técnica e outro da área política, transformaram os meios de comunicação no grande pilar que sustenta o atual sistema capitalista, muito mais do que a repressão através da lei e da coerção policial: o prodigioso avanço técnico dos meios de difusão – jornais, cinema, rádio e televisão e o surgimento da internet –  e a partir do fim da segunda guerra mundial, em 1945, o início da chamada Guerra Fria, com o aparecimento de uma batalha ideológica que continua ainda.

O fim de um dos pólos de combate, o desmoronamento da União Soviética, não encerrou a disputa pelo controle ideológico das populações, anunciado em 1945, quando o presidente americano Eisenhower afirmou que estava começando uma guerra pelo controle dos corações e mentes das pessoas.

Embora o sistema capitalista ainda se valha periodicamente do recurso da força – Coréia em 1953, Irã, em 1954 e mais recentemente na Iugoslávia, Iraque, Cuba e Líbia e agora com ameaças à Venezuela, é através da sistemática lavagem cerebral das pessoas que o imperialismo americano faz valer sua força.

Os interesses do Império e seus aliados no mundo inteiro, como no caso hoje do Brasil, são transformados em objetivos de todos pela ação sistemática dos meios de comunicação, que atuam num processo permanente de venda do conceito de que o que temos hoje – a democracia parlamentar ocidental – é o melhor que as pessoas podem ter e que a ideia de que “um outro mundo é possível” é uma falácia.

No Brasil, parte razoavelmente importante dessa estratégia para o Império, tivemos dois exemplos como os meios de comunicação agem para mistificar e vender como verdade o que não é verdade.

O primeiro foi a famosa entrevista com Lula na prisão de Curitiba. Projeto de caráter mercadológico da Folha, foi abortado pelo Supremo Tribunal Federal, quando teria alguma condição de influir no processo eleitoral de 2018, e liberado agora, quando se transformou apenas no lamento de um homem preso injustamente

Mesmo assim, a grande mídia – inclusive a Folha – tratou o caso com pouca importância, jogando o assunto para suas páginas internas e dando mais destaque às passagens pitorescas da entrevista (o fato de morar sozinho, que permitiria a Lula jogar suas cuecas em qualquer lugar) do que a denúncia explicita que ele fez a Globo de caracterizá-lo sistematicamente como “ladrão”, sem apresentar qualquer prova.

O segundo episódio foi a revolta de opereta na Venezuela, descaradamente patrocinada pelos Estados Unidos.  Deixando de lado que a mídia brasileira jamais se preocupou em mostrar porque a Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, é o alvo principal hoje dos interesses dos Estados Unidos, um só detalhe mostra a parcialidade da nossa mídia, sempre tão venal: o tratamento dado a Nicolas Maduro.

Em qualquer publicação brasileira, ele é apresentado como o “Ditador Maduro”, induzindo os leitores, ouvintes e telespectadores a ver nele um usurpador do poder, quando se sabe que ele foi eleito e reeleito pelo povo venezuelano.

Caso o argumento seja de que teria sido uma eleição manipulada, o que já foi desmentido por observadores internacionais que acompanharam o pleito, seria o caso de chamar Bolsonaro de ditador e não de presidente, porque a eleição de 2018 no Brasil foi um caso claro de manipulação eleitoral amplamente conhecido.

Quem se opõe ao atual sistema econômico, político e social que domina o mundo hoje, precisa entender que sua sustentação principal, vem do modelo perverso dos meios de comunicação e que é esse modelo que deve ser combatido

A entrevista

Se você ler ou ouviu a entrevista que Lula deu para a Folha, vai entender porque os golpistas que ambicionavam o poder precisaram prendê-lo e porque, se pretenderem continuar mandando no Brasil não podem permitir que ele seja libertado.

Deixando que ele fale livremente, Bolsonaro, Moro, Mourão e companhia não duram um mês.

Depois de um ano preso, tendo sofrido os abalos pessoais que sofreu, com a perda do irmão e do neto, na longa entrevista de hoje ele mostrou sua imensa facilidade em convencer as pessoas dos seus pontos de vista, uma qualidade que nem um outro politico brasileiro tem.

A gente pode e acho que deve apontar, a superficialidade de muitas das suas propostas, mas não se pode negar o seu imenso carisma e capacidade de verbalizar, com extrema fluência, o que ele imagina sejam as soluções para os problemas brasileiros, ainda que delas possamos discordar.

Uma proposta para as esquerdas

Você já deve ter ouvido mais de uma vez a frase de que as esquerdas não têm um projeto de luta para enfrentar a situação gerada pelo golpe de 2016 e pela chegada ao poder do Bolsonaro e companhia.

O professor Mário Maestri é reconhecidamente, um homem de esquerda e um estudioso da realidade latino americana. Esse ano ele lançou um novo livro   – Revolução e Contra-Revolução no Brasil, onde faz uma análise profunda dos movimentos políticos e sociais do País, de 1.530 a 2018 e aponta para o futuro

Você pode concordar ou não concordar como o que ele escreveu,  mas devia ler.

No final das suas quatrocentas e poucas  páginas,  ele sintetizes a assim a situação internacional e as possibilidades dos brasileiros reagirem contra a atual situação.

…“A compreensão dos sucessos em curso no Brasil, dá-se no contexto da ofensiva geral do grande capital, sob a hegemonia estadonidense  para relançar sua taxa média de lucro,  há décadas em forte  queda  tendencial.  O que exige a destruição e reorganização sobretudo dos espaços capitalistas concorrentes russo e sobretudo chinês. Trata-se de uma luta à morte. Nesse projeto,desempenha papel primordial o domínio completo das reservas petrolíferas sul-americanas, com destaque para as da Venezuela e do Brasil” …

…”Devido a renúncia já histórica das classes dominantes de defenderem minimamente a independência nacional do país, mesmo nos marcos de seus interesses, o movimento de resistência deverá necessariamente ser dirigido pelas classes   trabalhadoras que, para tal, necessitam construir novas direções. Toda e qualquer procura de aliança com os segmentos “democráticos” das classes dominantes nacionais, que limite a ação e o programa do mundo do trabalho, contribuirá para a consolidação do projeto de dominação em curso.  Uma luta que, por sua natureza profunda, deverá  apontar para a superação,  desde seus primeiros momentos, das fronteiras nacionais.”

O futebol, os palestinos e o sionismo

Essa semana, uma partida de futebol pela Copa Libertadores, entre o Internacional e o Palestino, do Chile, trouxe à baila mais uma manifestação de intolerância racial de um grupo que se apresentou como uma sociedade sionista de Porto Alegre. O grupo com a cobertura dos veículos da RBS, sempre simpáticos ao sionismo, pretendeu impedir que o clube chileno jogasse com suas camisas tradicionais, onde existe uma pequena ilustração da Palestina anterior a divisão da região pela ONU em 1948.

Desde a criação em 14 de maio de 1948 do Estado de Israel, até os dias de hoje, ainda se discute até que ponto a criação de um estado judaico em meio a populações majoritariamente árabes não caracteriza um grande equívoco geopolítico.

Nesse episódio de Porto Alegre, a proposta sionista não teve adesão nem mesmo dos setores mais esclarecidas da comunidade judaica, mas em outros episódios mais decisivos, o lobby judaico, o mais poderoso do mundo inteiro, tem impedido que os meios de comunicação relembrem como foi possível criar-se um estado baseado em razões da raça e religião judaicas dentro de uma comunidade predominantemente árabe e islâmica.

Essa história precisa ser contada a partir da Primeira Grande Guerra, quando em 1917, Lorde Balfour, Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros e interessado no apoio dos banqueiros judeus para financiar a luta da Inglaterra contra o Império Turco pelo controle do Oriente Médio, garantiu ao Presidente da Federação Sionista Britânica, Lorde Rothschild , o apoio inglês à criação de um “lar para os judeus”, na Cisjordânia, ainda que registrasse em sua declaração,  que isso deveria ser feito sem prejudicar os interesses dos árabes, que formavam a maioria populacional na região.

A ideia de criar uma nação para abrigar os judeus espalhados pela Europa após a diáspora foi lançada pelo jornalista judeu austro-húngaro Theodor Herzl, em 1895, mas inicialmente obteve poucas adesões e mesmo depois do apoio formal dos ingleses, não motivou uma forte migração para a Palestina.

Num primeiro momento, Herzl chegou a negociar, sem êxito, com o Sultão da Turquia, cujo império dominava o mundo árabe, uma concessão para criar um estado judeu na Palestina.

Mais adiante, em 1903, no congresso sionista da Basiléia, conseguiu aprovar por 295, a favor, 178, contra e 98 abstenções a ideia de fundar um estado judeu em Uganda, na África.

Essa possibilidade foi depois posta de lado e voltou-se novamente ao objetivo inicial, o retorno à Palestina, onde ainda existia uma pequena comunidade judaica.

No final da Segunda Grande Guerra, viviam na Palestina sob o controle da Inglaterra, l milhão e o meio de árabes e 600 mil judeus.

No livro Breve História do Sionismo (edição em espanhol da Alianza Editorial), o professor de História Contemporânea da Universidade Autônoma de Barcelona, Joan Culla, conta com riquezas de detalhes como as grandes potências européias agiram no Oriente Médio, interferindo em seus processos políticos e determinando seu futuro.

Em primeiro lugar, a Inglaterra, que aproveitando a falência do Império Otomano, que dominava a região até a Primeira Guerra, representou o principal papel no drama palestino, ora estimulando a criação do Estado de Israel, ora bloqueando o acesso de colonos judeus à região, fazendo com isso o jogo dos árabes e afinal se indispondo com todas as partes.

Os Estados Unidos, na época dos presidentes Roosevelt a Truman, foram sempre indecisos em relação à constituição de um estado judaico. Embora sofrendo a pressão do lobby judaico americano, a Casa Branca temia a influência soviética na futura nação. O que levava a essa suspeita, segundo Culla, era o grande número de colonos judeus vindos da Rússia e a existência entre as lideranças judias na Palestina de um forte sentimento em favor de uma organização socialista na economia.

Em terceiro lugar, mas talvez o mais decisivo de todos na visão do autor do livro, foi a ação da União Soviética, que temendo uma expansão do poder inglês na região, apoiou fortemente a criação do Estado de Israel, primeiro através do Chanceler Gromiko, na ONU e depois, quando Israel já tinha sido criada, sustentando a guerra contra os árabes.

Como Estados Unidos e Inglaterra haviam bloqueado o acesso de armas para região, conflagrada numa guerra entre árabes e judeus, foi através da Checoslováquia, já socialista, que Israel pode se armar e vencer a guerra pela sua independência.

O holocausto provocado pelos nazistas, durante a guerra, criou as condições emocionais para garantir o apoio de uma maioria de nações européias e americanas para criação de Israel, que segundo decisão da ONU deveria ficar com uma parte da Palestina, reservando-se o restante para a criação de um futuro estado palestino árabe.

Norman Gary Finkelstein, doutor pela Universidade de Princeton e professor da Universidade de Nova York, filho de pais sobreviventes de Auschvitz, escreve em seu livro A Indústria do Holocausto – Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus, que “o organizado judaísmo americano explorou o Holocausto nazista para desviar as críticas a Israel e suas políticas moralmente indefensáveis”. Segundo Finkelstein, até 1967, o Holocausto era visto como uma causa comunista e foi somente a partir da guerra contra os árabes que a importância estratégica de Israel no Oriente Médio cresceu para os Estados Unidos.

“A indústria do Holocausto só se difundiu no mundo depois da dominação militar esmagadora de Israel no Oriente Médio e de um florescente  triunfalismo entre os israelenses”

A premissa a justificar a criação do Estado de Israel se baseava num pretenso direito histórico sobre a região pelo povo judeu, expulso pelos romanos e que havia, no exílio,  mantido a sua integridade étnica e religiosa.

A tese nunca foi comprovada e mesmo um historiador judeu, como Shlomo Sand, professor de história da Universidade de Tel Aviv, em seu livro A Invenção do Povo Judeu, admite que, unidos por uma religião dominante, os judeus da diáspora foram se mesclando com diversos povos da Europa Central e mesmo do norte da África, o que é comum em todas as etnias.

Sand argumenta que, assim como os cristãos mais contemporâneos e os muçulmanos, são descendentes de pessoas convertidas e não dos primeiros cristãos e muçulmanos, o judaísmo era originalmente, assim como seus dois primos, um proselitismo religioso.

De acordo ainda com o escritor, os judeus que viviam em Israel, ao contrário da crença popular, não foram exilados pelos romanos e puderam permanecer na Palestina. Muitos judeus convertidos ao Islã após a conquista da região pelos árabes se tornaram os ancestrais dos árabes palestinos atuais

A consolidação de Israel, com o apoio dos Estados Unidos e principalmente da União Soviética, o tornou uma cunha dentro do mundo árabe, gerando uma sucessão de graves conflitos no Oriente Médio, em praticamente durante toda a segunda metade do século XX.

A pergunta que se faz é se os judeus não têm direito de viver em paz na terra que escolheram?

A resposta é obviamente que sim

Só que isso não elimina a segunda pergunta: os palestinos têm direito de viver em paz na terra em que nasceram?

Obviamente que sim.

A criação de um estado Judeu, que rapidamente expandiu suas fronteiras por terras que mesmo de acordo com a partilha da ONU, pertenceriam aos palestinos, inviabilizou aquela que seria a melhor solução para os dois povos: a criação de um estado único, laico e democrático que respeitasse os direitos de árabes e judeus.

Isso agora não é mais possível e ações armadas de Israel contra seus vizinhos e as represálias dos árabes não vão solucionar a questão.

Avram Noah Chomssky, judeu americano nascido na Filadélfia, em 1928, lingüista, filósofo e professor emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts, diz o que aconteceu na Palestina.

“Nos territórios ocupados, o que Israel está fazendo é muito pior do que o apartheid. Os brancos sul-africanos precisavam da população negra. Era sua força de trabalho. Eles tinham se sustentá-los. Os “bantustões” eram horríveis, mas a África do Sul precisava deles. A relação de Israel com os palestinos é diferente. Israel simplesmente não quer os palestinos. Israel os que fora de sua terra ou pelo menos na prisão”.

Ilan Papé, nascido em Haifa em 1954  era professor de História na universidade local,até se exilar na Inglaterra depois da publicação do seu livro , Limpeza Étnica na Palestina, onde afirma que houve uma expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina – operada pela Haganah, pelo Irgun e outras milícias sionistas.

Hoje, Papé  é professor na Universidade de Exeter  e Diretor do Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina

A alternativa que resta é Israel aceitar a criação de um estado Palestino, com a transformação de Jerusalém numa cidade neutra e aberta para que os dois povos possam construir uma sociedade pacífica e democrática.

Os recentes episódios ligados à visita de Bolsonaro a Jerusalém, mostram que o governo de extrema direita de Netanyahu não pretende seguir esse caminho.

O julgamento do nazismo

Em artigo que publicou no Sul 21, Tarso Genro diz que, na reunião de Teerã, em1943, entre Stalin, Churchill e Roosevelt, Stalin defendeu a justiça sumária para os líderes nazistas e não seu julgamento por um tribunal. Stalin teria erguido um brinde, dizendo: “Bebo a nossa resolução de os liquidar logo após a sua captura. Todos sem exceção”.

O ex-governador deve ter suas fontes para fazer essa afirmação, porque ela vem contra o que se sabe da política soviética em relação aos nazistas. Mais do que nenhuma outra das grandes potências, o governo soviético, queria expor os nazistas a um julgamento público, não só para mostrar seus crimes, mas para lembrar que isso foi feito, senão com o apoio, ao menos com a tolerância das potências ocidentais (Pacto de Munique) e a colaboração direta de empresários ocidentais, que enriqueceram com o trabalho escravo dos campos de concentração

Em outubro de 1942, o Ministério dos Negócios Estrangeiros soviético divulgou um comunicado oficial declarando que Moscou era a favor de “entregar os líderes da Alemanha fascista ao julgamento de um tribunal internacional especial para puni-los em consonância com toda a severidade do código criminal”.

No mês seguinte, o chanceler  britânico, Anthony Eden, escreveu a seu embaixador em Moscou, criticando a ideia de julgar formalmente os principais criminosos, como Hitler e Mussolini,  “porque seus crimes e responsabilidade eram grandes demais para serem examinados juridicamente”.

Como parte da 3ª Conferência de Moscou, no outono de 1943, os ministros das Relações Exteriores dos EUA, do Reino Unido e da União Soviética assinaram, enfim, um acordo comprometendo-se a levar à justiça “homens e oficiais alemães e membros do Partido Nazista que foram responsáveis ​​por atrocidades, massacres e execuções”

Como fizeram, postergando ao limite a abertura da Segunda Frente na Europa, tentando fazer com o prolongamento da guerra exaurisse tanto os comunistas quanto os nazista, os líderes temiam que o julgamento público dos nazistas se transformasse num palco para lembrar atrocidades que os nazistas cometeram nos países do Leste, fundamentalmente a União Soviética e os esquemas de cooperação no Ocidente, caso do Governo de Vichy, na França.

A Guerra Fria já tinha começado e a política da revisão histórica de quem tinha ganho a Segunda Guerra já começara nos meios de comunicação e naquele  momento o comunismo voltara a ser o grande inimigo a ser combatido.

Foi somente durante a Conferência de Potsdam, no verão de 1945, que, Churchill (substituído depois por Clement Atlee) e Truman  concordaram com Stalin na criação de um tribunal militar internacional para julgar os líderes nazistas por crimes de guerra.