Foi apenas uma amizade colorida

Eu tinha um encontrado marcado com um diretor da Editora no Hotel Plaza. Iriamos discutir o lançamento de um novo romance meu, ainda sem título. Aliás, esse era um dos temas da reunião.

Depois de dois livros que alcançaram algum sucesso– Raul: Crime na Madrugada e Tudo começou em 1964 – me sentia preparado para escrever o romance definitivo de minha vida.

Como fazem aqueles escritores americanos, eu ficara recluso durante um ano inteiro num apartamento em Gramado, gastando praticamente tudo que havia ganho com os primeiros livros, para escrever a obra que deveria me consagrar nas letras brasileiras.

A ideia do romance, era mais uma tentativa de tentar entender o comportamento das mulheres e para fazer isso, além das lembranças de um antigo e devastador amor, eu subira para Gramado levando alguns autores que também tentaram, com pouco êxito, diga-se de passagem, buscar essa resposta.

Além dos inevitáveis Freud e Lacan, eu levara vários romances, como o clássico Madame Bovary, de Flaubert e as histórias daquele velho devasso, o Charles Bukowski; a trilogia de Henry Miller, Sexus, Plexus e Nexus, alguma coisa do Sartre, um livro de poemas do Drummond e alguns discos do Chico.

Todos eles, deveriam servir para estimular a linha criativa que pretendia desenvolver naquele meu exílio.

Foi assim que escrevi umas 300 páginas que deveria mostrar agora ao editor, faltando apenas o título, numa dedicação só interrompida quando precisava ver algum jogo do Internacional no Sky ou um filme no Netflix.

O ponto de partida para a história foi um relacionamento mal resolvido que tive como uma das minhas alunas no final da década de 70.

Naquela época, eu era professor de Comunicação em duas universidades em Porto Alegre e meu interesse maior não era as matérias que lecionava, mas a oportunidade de algumas conquistas amorosas.

Minha meta a cada semestre, nas quatro ou cinco turmas em que lecionava, era de conquistar pelo menos uma aluna em cada turma.

Conquistar era um eufemismo para o esforço de levar para a cama a mais interessante de todas as alunas ou, pelo menos, aquela que mostrava corresponder mais minha atenção.

Como, na época, era ainda um homem casado, todas essas histórias deveriam durar no máximo algumas semanas e, se possível, começar e terminar sem deixar mágoas de parte a parte.

Naquele semestre, pela primeira vez, eu daria aula para alunos de Administração de Empresas, bem diferentes do pessoal com os quais já estava acostumado. Enquanto na Comunicação havia uma predominância de mulheres, a maioria da classe média alta, no novo curso, os homens formavam a maioria e o nível dos alunos ficavam num padrão social mais baixo.

Desde as primeiras aulas, me chamou a atenção uma das poucas alunas do curso. Mais do que bonita, ela era uma mulher desafiadora, sempre pronta a enfrentar qualquer tipo de questionamento, se destacando numa turma onde a indiferença era a norma.

Ela é inspiradora desse livro ainda sem nome.

Ao contrário dos dois primeiros livros, cheios de cenas de sexo, esse pretende ser um ensaio psicológico sobre o comportamento feminino. Tento com ele, penetrar no que Freud chamou de “buraco negro”, a psique feminina.

Enquanto ocupo centenas de páginas para longas digressões sobre o que torna o comportamento feminino tão pouco previsível, o enredo, como se falava antigamente dos filmes e das novelas, é bastante curto e não ocupa mais do que algumas dezenas de folhas.

É mais um “livro-cabeça”, outra expressão possivelmente fora de uso, do que um livro de sacanagens, como alguém disse do meu último trabalho publicado.

O personagem, inspirado na minha história, como tinha feito com sucesso em outras ocasiões, tenta conquistar a aluna com suas armas de sedução que sempre funcionaram: um cultivado ar de abandono, atenção especial durante as aulas, a oferta de uma carona na saída e até mesmo o empréstimo daquele livro sempre denominado como “o livro de cabeceira”.

As vezes parecia que ia dar certo novamente, que tudo se encaminhava para um desfecho feliz, mas ela recuava no minuto final. Era um jogo de gato e rato. Ela se oferecia e depois negava.

O personagem (eu também na história real), estava quase desistindo, quando no último dia de aula, pronto para sair, ela chega com o seu melhor sorriso e diz

– Hoje é seu dia de sorte professor, quer tentar?

Claro que queria.

Próximo da universidade havia um cine drive, aqueles cinemas ao ar livre que no passado os casais usavam para fazer sexo dentro dos carros, com a desculpa de assistir um filme ao ar livre.

Foi aí que aconteceu o desastre.

Mal tinha conseguido penetrá-la, quando sobreveio o orgasmo inesperado com a tão famosa e temida ejaculação precoce.

Ela não consegue disfarçar a decepção, muito menos ele, o orgulho ferido.

Mal se falam, depois, até que ele a deixa em casa.

Ele não se considerava um grande amante, daqueles que contam histórias de sessões intermináveis de sexo com muitas mulheres, mas até então desempenhava bem seu papel de macho.

Mas, logo com aquela mulher com a qual passara quase um ano sonhando, acontecia aquilo

Por que?

Era a pergunta que fazia o tempo inteiro.

Na noite da formatura, quando era um dos professores homenageados, ela deve ter percebido essa pergunta, ainda que não verbalizada, pois, quando como uma das formandas apertou sua mão, sibilou entre os dentes

– Me esquece.

Eu – agora voltando ao autor do livro e deixando o personagem de lado – não a esqueci e por muitos anos acompanhei a sua vida e todas as vezes que a via nessas revistas de economia, sempre apontada como uma das mais importantes entre as mulheres de negócio do Brasil, perguntava:

– Por que?

Agora estava no Hotel Plaza para entregar ao meu editor aquele calhamaço com mais de 300 páginas e ainda sem nome, no qual eu achava estivesse a resposta.

Como sempre, havia chegado muito cedo e enquanto esperava pelo editor resolvi dar uma caminhada pelo hall do hotel. Numa das salas, havia uma conferência sobre economia e como nas histórias do cinema, aconteceu uma coincidência que parecia impossível, a conferencista era ela.

A conferência estava terminando e quando ela, ainda uma mulher carismática como tinha sido há 40 anos, me viu, apenas sorriu.

Eu me aproximei, com a pergunta pronta, mas ela se antecipou com a resposta.

– Foi apenas uma amizade colorida.

Bom, pelo menos eu já tinha um nome para o novo livro:

FOI APENAS UMA AMIZADE COLORIDA

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O novo livro de Marino Boeira, breve em todas as livrarias.

Janaína, Dallagnol e o cinema americano

Quando trabalhei no Departamento de Jornalismo da TV Piratini, o chefe Lauro Schirmer dizia sobre um apresentador de notícias, que ele tinha a burrice estampada na face.

Essa ideia de que você pode definir o caráter de uma pessoa pela sua cara, pode ser totalmente infundada sob o ponto de vista científico e profundamente reducionista, mas é tentadora como uma forma de simplificar nossas avaliações sobre os outros.

O cinema sempre se valeu desse artifício para ajudar os espectadores a entender de cara (literalmente) o comportamento dos personagens.

O cinema é a arte da imagem. Enquanto na literatura, o que conta é a palavra escrita e o teatro privilegia a fala, o cinema só existe por causa da imagem de atores e atrizes e nesse sentido é extremamente maniqueísta.

O ator e a atriz devem mostrar, principalmente nos closes o que lhes vai na alma. Por isso, o sucesso dos filmes realmente importantes se deve aos seus  grandes atores. Sem eles, mesmo o melhor diretor, seria incapaz de transmitir aos expectadores a emoção de um grande amor ou de um ódio profundo.

Imagine Casablanca sem o carisma de Humphrey Bogart ou O Pecado Mora ao Lado sem a sensualidade de Marylin Monroe, mesmo que os diretores – Michael Curtiz e Billy Wildner – fossem os mesmos.

No dia em que algum diretor brasileiro pretender fazer um filme sobre a história do impeachment de Dilma, dois personagens deverão ter um papel de destaque; Janaína Paschoal e Deltan Dallagnol

Quem curte o cinema norte-americano, vai lembrar uma atriz e um ator em que os dois personagens da trama golpista de Brasília poderiam ter se inspirado.

Em 1987, Adrian Lyne dirigiu Atração Fatal, com Glenn Close e Michael Douglas e ninguém que viu o filme pode esquecer até que ponto a frustração de um amor pode levar uma pessoa a atos desesperados.

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Glenn Close compõe uma mulher que alterna olhares de ternura, com outros de profunda ódio, na medida em que se sente abandonada pelo amante. Seu histerismo parece de certa forma um sentimento convincente e verdadeiro, de alguém que acredita no que está fazendo.

Na sua loucura, ela é autêntica e não se detém nos limites do razoável. Ela se expõe, se entrega totalmente aos sentimentos que lhe vão na alma. Chora, ri e grita quase ao mesmo.

Sua causa, sua vingança é tudo que pretende da vida.

Não sei se Janaína Paschoal viu este filme, mas no set do Senado, ela parecia ter incorporado o papel

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O outro personagem é Anthony Perkins, que fez o Norman Bates, no grande filme de Alfred Hitchcock, Psicose, rodado em 1960.

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Ele é simpático, agradável, asséptico, mas por trás dessa aparência angelical se esconde um “serial killer”, angustiado por sérios problemas psicológicos.

Deltan Dallagnol nem era nascido quando o filme foi feito, mas ele, como Norman Bates de Psicose, nos mostra que, por trás daquele seu ar de menino bem comportado, existe uma pessoa sedenta por algum tipo de vingança.

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O impeachment de Dilma pode ser visto como um drama ou uma comédia pastelão, mas enquanto ele não se transformar em filme, um bom exercício de memória, seria encontrar em antigos filmes modelos inspiradores para os políticos, ministros, deputados, senadores e advogados que se envolveram na história real.

De volta às divergências

O artigo que publiquei nesse blog “Divergindo de mulheres inteligentes” provocou comentários de pessoas que discordaram do radicalismo da minha proposição e que, com algumas diferenças de estilo nas respostas, trataram de colocar as lutas segmentadas em defesa de grupos minoritários (negros, gays, mulheres) como plataformas politicas mais do que válidas.
Um dos testemunhos é de meu amigo Carlos Gerbase, um dos mais lúcidos pensadores da academia gaúcha, que diz inclusive que “o feminismo inteligente, a defesa das minorias de gênero e a denúncia do racismo, são, quem sabe, as únicas plataformas possíveis”
Já Nara Fogaça, artista plástica, professora e ativista política, lembra que a violência contra as mulheres não se dá na classe média. “Se dá entre os pobres do mundo, principalmente. As mulheres negras são as mais atingidas até pelos seus companheiros negros. É um problema além de classe social. É uma questão de poder”.
Na sua resposta, Nara termina por convidar a continuar o debate.
É o que faço, começando por duas ressalvas aos argumentos apostos no seu texto.
A primeira é sobre Hitler e o nazismo. Ela diz que os gays foram exterminados não por serem judeus, ciganos ou pentecostais, mas por serem gays, simplesmente. Não é bem o que nos revela uma leitura atenta da história daqueles dias terríveis. O nazismo flertou abertamente com o homossexualismo. As tropas de assalto do Partido Nazista, as SA (Sturmabteilung) e o próprio Ernst Rohm, seu criador, incluíam as práticas homossexuais como um hábito comum entre seus membros. Rohm só foi morto em 1934 porque os generais da Wehrmachat, o exigiram como condição para apoiar Hitler.
O extermínio de gays, de deficientes físicos e mentais, além de opositores políticos, pode ser visto como um efeito colateral do holocausto judeu, esse sim o centro da política nazista da chamada purificação da raça.
Hitler usou a perseguição aos judeus como uma arma política para unificação dos alemães. Era a figura clássica do OUTRO, do qual nos falam Lacan e Zizek, o inimigo imaginário que precisa ser criado para afastar qualquer questionamento ao poder.
A história está cheia de exemplos de como é importante se criar um inimigo externo ou interno para justificar certas políticas. O exemplo mais atual talvez seja o perigo atômico que o Iraque representava para os Estados Unidos, segundo Bush.
Aliás, os americanos sempre usaram o comunismo, verdadeiro ou fantasioso, como justificativa para suas muitas intervenções nos mais variados países do mundo.
Mas voltando a questão que motivou a resposta no blog, mais algumas observações sobre o que disse Nara Fogaça.

Primeiro sob Slavoj Zizek, que a Nara disse não ter lido, mas que considera um “obtuso” pela citação que fiz de um pensamento dele.
Zizek, o prolífico escritor e filósofo esloveno é um dos mais audaciosos pensadores da atualidade. Ao lado de Istvan Mezaros ( Socialismo ou Barbárie no século XXI) Alain Badiou ( A Hipótese Comunista) Pierre Broué, Jacques Ranciere, ele se propõe a uma leitura crítica do marxismo e a formulação de uma nova proposta de busca da utopia comunista.
Para isso, ele conjuga os ensinamentos de Marx e Lacan, basicamente, sem esquecer os grandes filósofos alemães, como Kant e Kierkegaard, numa grande profusão de livros e debates nas universidades europeias e americanas e também nas redes sociais.
crédito|Paulo Guimarães

 

Para que se tenha uma ideia da sua produção, basta dizer que só Estante Virtual (o grande sebo brasileiro) está oferecendo hoje 126 títulos de Zizek, entre os quais, eu recomendaria com ênfase “As Portas da Revolução”, sobre Lenin, “Em defesa das causas perdidas”, “O ano que sonhamos perigosamente”, e “Arriscar o impossível”.
Zizek não desconsidera a importância de nenhuma das lutas em defesa das mulheres oprimidas, dos negros e dos gays, só mostra que elas não causam nenhum dano às chamadas democracias ocidentais, nem abalam a estrutura da sociedade capitalista.
E é o modelo capitalista de produção que gera as enormes injustiças sociais e o preconceito com todas suas nuances, que hoje encontramos no mundo inteiro, e que, na sua complexidade atual é capaz, não só de absorver os movimentos contestatórios, mas até de usá-los ao seu favor.
A foto do guerrilheiro Che Guevara virou estampa em camisetas da moda vestidas por gente que até desconhece sua história
A rede MacDonald faz campanha no mundo inteiro por uma alimentação mais sadia, enquanto entope gerações inteiras com muita gordura e carboidratos.
Qualquer um desses movimentos citados nas respostas do Gerbase e da Nara são perfeitamente aceitos pelos governantes ditos democratas do mundo inteiro, até mesmo o do Michel Temer.
Ser radical, como se propõe a ser Zizek e como foram Marx e Lenin é simplesmente ir à raiz dos fatos.
Isso é pensar de uma forma revolucionária.
O resto serve mais para apaziguar boas consciências, do que realmente tentar mudar o mundo.

Está chegando a hora de chamar a cavalaria

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O golpe parlamentar-midiático contra os governos do PT está sendo desmoralizado cada dia e apesar dos esforços da mídia golpista em dar uma roupagem colorida aos seus heróis, as pessoas estão percebendo que o rei está cada vez mais nu.

As recentes trapalhadas do procurador Deltan Dallagnol nas denúncias contra Lula, quando ele disse que não tinha provas, mas convicções, foram apenas mais uma etapa no longo processo que começou com o mensalão e continuou com o impeachment da Dilma.

Com tantos atores assim incompetentes, logo, logo, a direita vai ter que abandonar a farsa de defesa da moralidade e da democracia e pedir socorro à Cavalaria, como já fez em 1964.

A primeira tentativa, o tal mensalão, não deu certo e Dilma se elegeu. Ninguém deu muita importância ao fato, porque qualquer pessoa bem informada sabe que as verbas publicitárias das grandes empresas acabam abastecendo o Caixa Dois dos partidos.

Tanto sabem que, ninguém no parlamento, na imprensa e nos meios empresariais, está interessado em fazer uma reforma política que acabe com o financiamento empresarial para partidos e políticos, sejam eles de qualquer ideologia.

Dilma reeleita, foi preciso criar um fato político para desestabilizar seu governo. Amparados por uma intensa campanha de mídia, surgiu a imagem do Moro Justiceiro e sua corte de defensores da moral nos negócios, do Japonês da Polícia Federal, hoje preso por corrupção e do procurador Dallagnol, até então acostumado a deitar sua falação moralista do púlpito dessas novas igrejas evangélicas.

Descobriram que a Petrobrás e as grandes empresas da construção civil financiavam partidos e políticos desde sempre. Foi preciso, então, filtrar as denúncias, buscando apenas aquelas que atingiam o PT e seus políticos a partir do momento que chegaram ao Governo.

Os jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, que sempre se beneficiaram, direta ou indiretamente desses procedimentos desonestos, se transformaram em novas vestais, cobrando a moralidade pública e a punição dos culpados.

Alguns desses veículos, apontados publicamente como culpados de sonegação e tentativa de compra de indultos fiscais, abriram manchetes exigindo justiça, tentando fazer com que ninguém lembre dos seus telhados de vidro.

Criou-se o instituto da delação premiada, com malfeitores enriquecidos às custas do dinheiro público, transformados em acusadores de seus antigos aliados e ganhando com isso o direito de desfrutar tranquilamente do que amealharam desonestamente.

Aproveitando-se de uma situação econômica internacional desfavorável para todos os países, inclusive o Brasil, montou-se a grande farsa nacional do impeachment. Uma presidenta, legitimamente eleita, deveria ser derrubada para que o Brasil recuperasse sua imagem de um País onde a lei seria sempre respeitada.

Primeiro foi o episódio de uma Câmara de Deputados transformada num circo mambembe, liderado pelo grande corrupto, Eduardo Cunha. Transmitido ao vivo e a cores, os brasileiros puderam ver a que ponto pode chegar a vilania de alguns homens e mulheres. Deputados, corruptos de carteirinha, votando em nome da moralidade. Malfeitores, com o título de deputado votando pela família, pela Pátria e por Deus. Outros, mais práticos, votando pela esposa e pela amante. Um, voltando ao microfone, para votar em nome de um dos filhos que tinha esquecido de nomear na primeira vez.

Depois, o Senado da República, com a sua corte de homens engravatados, ternos reluzentes, cabelos alisados com muito gel e mulheres emperiquitadas, com seus discursos vazios de conteúdo e cheios de preconceito contra um partido, apenas porque ele ainda representa uma boa parte dos trabalhadores, completando o trabalho sujo.

Tudo de novo, ao vivo e a cores, como se fosse a novela da televisão, na qual não faltaria a grande atriz dramática, a advogada Janaina Pascal, melhor no seu histerismo incontido de que muitas atrizes das novelas mexicanas do SBT.

Para que tudo isso?

Toda essa quebra da normalidade institucional, a quase bancarrota da maior empresa brasileira, o que obviamente serviu aos interesses internacionais, feitas para criar uma imagem de legalidade a um ato, intrinsicamente ilegal, de derrubar uma Presidenta legitimada pelo voto da população, além de prender uma meia dúzia de políticos e empresários desonestos, o que poderia ser feito sem todo esse teatro.

O golpe, porém, não ficará completo enquanto não destruírem toda as possibilidades do PT voltar ao governo através do voto em 2018. Para isso, é preciso afastar da disputa o Presidente Luta, que se concorrer, deve ganhar a eleição.

A primeira tentativa, o espetáculo midiático das denúncias do Procurador Dallagnol, parece não ter dado certo, o que pode levar os golpistas ao seu último recurso, o de chamar a Cavalaria.

Certamente, muitos deles, estão lembrando o que disse Carlos Lacerda em relação a Getúlio Vargas antes das eleições em 1950:

“Ele não pode ser candidato; se for, não pode ser eleito; se eleito, não pode assumir e se assumir, precisa ser derrubado”

É só trocar o nome de Getúlio por Lula e procurar um Carlos Lacerda para chamar a Cavalaria.

À procura de uma mulher, bela, prendada e do lar

Num sebo da Rua da Praia encontro um velho livro de poesias de Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Abro e começo a ler o primeiro deles, ainda de pé, diante da estante de livros:

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Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,

Te parecem ao mundo em tua atitude de entrega.

O meu corpo de campônio selvagem te escava

e faz saltar o filho do fundo desta terra.

Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros

E em mim a noite entrava com sua invasão poderosa

Para sobreviver, me forjei como uma arma,

Como uma flecha em meu arco, como uma pedra em minha funda

Porém chega a hora da vingança …e te amo.

Nisso, se despregam do meio do livro duas folhas de papel de carta, esmaecidas pelo tempo. As recolho do chão e antes de colocar novamente entre as páginas do Neruda, vejo que são cartas de amor.

Comprei o livro e ganhei como presente as cartas.Uma delas é um pedido de aconselhamento sentimental e a outra a sua resposta.

Na primeira, alguém escreve para o conselheiro Júlio Louzada, contando suas mágoas de amor e na segunda, está o conselho.

Descubro no Google (as pessoas viviam cheias de dúvidas antes do Google) que na década de 50, o sabonete Eucalol fez uma promoção entre os compradores do produto e a Rádio Tamoio, do Rio de Janeiro. Em cada embalagem, havia um papel de carta e em envelope para que os interessados escrevessem para o conselheiro Júlio Louzada. As melhores cartas seriam lidas ao vivo na rádio e o missivista recebia uma resposta assinada pelo próprio Júlio

O que estava escondido nas páginas do Neruda eram essas cartas.

Creio que não cometo uma inconfidência muito grande, revelando alguns trechos da carta do remetente, que assinava com o pseudônimo de Perdido de Amor (a promoção preservava os nomes dos participantes) e da resposta, porque afinal já fazem mais de 60 que as cartas foram escritas, e todos interessados devem estar mortos. Diz a primeira carta:

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“Isso é uma declaração de amor a uma mulher, que depois de anos de uma vida em comum, me mandou embora.

Devia odiá-la pela traição, mas não consigo.

Em vez de saudar a libertação, choro a perda.

Imaginá-la com outro, causa uma dor na alma.

Veja o ridículo a que me exponho. Um ateu falando em alma.

É claro que é num sentido figurado.

A alma está dentro da cabeça que não para de pensar nela”.

Na sua resposta Júlio Louzada lamenta que ele se declare ateu e diz que a perda da fé em Deus pode ter sido a responsável pela separação e dá um conselho prático.

“Arrume urgentemente uma nova mulher, porque, como diz a Bíblia, homem nenhum pode viver sem uma mulher que cuide dele.

Só procure uma mulher que seja bela (aos seus olhos, pelo menos), prendada (que saiba lavar, passar e cozinhar) e do lar (não uma dessas que trocam o dia pela noite) e seja feliz”.

Fiquei curioso em saber se o Perdido de Amor conseguiu essa mulher ideal e se viveu feliz mais alguns anos.

Isso, nem o Google respondeu.

Divergindo de algumas mulheres inteligentes

Conheci Nara Fogaça como uma talentosa diretora de arte, numa agência de propaganda de Porto Alegre. De aparência frágil, era uma pessoa sempre disposta a defender seus pontos de vista com muita coragem e coerência.

Depois de muitos anos, a reencontro nesse novo mundo virtual, como artista plástica e professora de arte, ainda fiel as velhas posições políticas e transformada numa ativista social sempre ao lado das melhores causas.

É uma batalhadora, ao lado de outras tantas mulheres, algumas que conheço pessoalmente e outras, apenas através dessas novas redes sociais, que estão sempre na luta contra preconceitos de todos os tipos, contra o racismo, contra o machismo e a favor das minorias.

A Nara, a Christa Berger, a Inara Claro, a Rosane Santos, a Rosane Bidese, a Vera Spolidoro, a nossa candidata à Câmara, Margarete Moraes, a Souvenir, a Professora Celi, são algumas delas, que admiro, mas das quais quero divergir publicamente.

(Interessante que lembrei apenas de mulheres)

O que tenho contra as posições que elas assumem?

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Nada

Por que a divergência, então?

Por que acredito que elas gastam suas energias em batalhas menores.

Numa era de extremos (usando a expressão do falecido historiador Eric Hobsbawm), é muito pouco fazer a opção por um comportado socialismo democrático, cheio de bons intenções, mas irmão gêmeo do liberalismo político em que vivemos e não o seu oposto como pensam alguns.

As causas que elas defendem, se inserem dentro dessa visão política de alguns segmentos da esquerda.

Nos diálogos que trava com a professor inglês Glyn Daly, reunidos no livro “Arriscar o Impossível”, o filósofo esloveno Slavoj Zizek, diz a certa altura, ““Acho simplesmente humilhante dizer que a vitimologia do assédio sexual da alta classe média, e da enunciação de comentários racistas, podem ser colocados no mesmo nível do sofrimento pavoroso das vítimas do Terceiro Mundo”.

E radicaliza mais adiante, propondo algo que certamente todas essas pessoas que citei, não vão concordar: “Devemos correr o risco de romper com o que constitui um tabu contemporâneo e dizer claramente que nenhuma dessas lutas – contra o assédio, a favor do multiculturalismo, da liberação dos gays, da tolerância cultura – é problema nosso. Não devemos ser chantageados a aceitar estas lutas da vitimização da alta classe média como o horizonte do nosso compromisso político. Devemos simplesmente correr o risco de quebrar o tabu, mesmo que sejamos criticados como racistas, chauvinistas ou seja lá o que for”.

A luta contra o golpe no Brasil não deve ser colocada na perspectiva de um simples retorno ao modelo reformista do PT, mas sim num passo adiante, rumo à utópica sociedade onde as lutas de classe sejam abolidas.

Não devemos ter medo de expressar nossa solidariedade às lutas anti-imperialistas da América Latina, apesar de todas suas deformações, principalmente nos casos da Venezuela, Bolívia e Equador.

O adversário nos dois casos é o mesmo, o sistema capitalista e a sua derrota deve ser o grande objetivo e nessa luta, causas menores, ainda que importantes para determinados grupos, são sempre causas menores.

Dirão que isso é uma visão stalinista da História. Eu trocaria apenas o nome do revolucionário que denomina a linha política e diria que é uma visão leninista da história.

Seria importante que, nessa hora, fizéssemos nossos, os versos do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, quando diz no seu poema Nosso Tempo:

“O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira, uma floresta um verme

Uma pequena história sobre o desprezo pelo OUTRO

Nos nossos discursos públicos sobre preconceitos raciais, feminismo, direitos das minorias, etc. pretendemos ser sempre politicamente corretos, assumindo posições aprovadas pelo consenso social, quando na verdade, intimamente somos, na maioria das vezes, indiferentes a eles, na medida em que poucos seres humanos nos importam realmente.

Slavoj Zizek – sempre ele – conta no seu livro “Arriscar o Impossível”, uma passagem esclarecedora sobre isso. Numa roda de amigos, ao ouvir uma cantora de blues, ele comentou que pelo timbre da voz, deveria ser uma afro-americana, embora seu nome fosse muito europeu.  Imediatamente, foi taxado de politicamente incorreto ao identificar uma pessoa por suas características naturais, seja ela qual for.download-3

Por isso, o manual de boas maneiras que todos devemos seguir à risca, impede que um negro seja chamado de negro, um judeu, de judeu, um careca, de careca ou um gordo, de gordo.

Para Zizek, existe por parte dos politicamente corretos, uma proibição completa de qualquer tipo particular de identificação, o que significa que o OUTRO deve ser entendido como uma abstração, como se já estivesse morto.

Zizek é um filósofo esloveno e sua linguagem, às vezes, é um pouco hermética, mas é fácil constatar como ele tem razão, quando pensamos na hipocrisia de alguns discursos em relação a causas nobres como solidariedade social, filantropia, etc.

Quanto mais distante socialmente a pessoa é de quem se comporta como sujeito, mais o discurso politicamente correto se mostra falso.

Nos parlamentos, nos tribunais, nas igrejas, nas reuniões sociais, as pessoas tratam de se identificar através de seus trajes e linguagem como pertencentes a um grupo social que merece ser respeitado.

Aqueles que não seguem essas regras são marginalizados e, como aponta Zizek, só recebem solidariedade formal, quando se tornam vítimas de uma situação que escancara para toda a sociedade, a verdadeira discriminação social escondida atrás de algumas regras de conduta.

Há pouco, a sociedade gaúcha foi sacudida pelo caso do promotor de justiça que, em pleno tribunal usou palavras extremamente agressivas contra uma menina vítima de estupro do próprio pai.

Todas as pessoas de bem e algumas até que não são, trataram de condenar o gesto, mas pouco se ouviu dizer se condenam também as causas sociais que levaram a se tornar comum este tipo de situação – estupro de menores – na classe mais miserável da sociedade.

Os tribunais, aliás parecem formar o cenário ideal para essa representação do drama social em que vive o nosso País.

O réu de um crime de morte, principalmente esses que envolvem a chamada guerra do tráfico, é visto não como um ser humano a ser julgado pelos seus erros, mas quase como um monstro.

Está certo que o crime e o criminoso muitas vezes se confundem na mesma ação e fica difícil para os acusadores distinguir o ser humano do ato criminoso e a partir daí, ao exorcizar o crime, desrespeitem o pouco que resta – quando ainda resta – de dignidade do acusado.

Condenados a dezenas de anos de prisão, em masmorras medievais, jamais se recuperarão e para a maioria das pessoas – principalmente aquelas que professam a importância de ser politicamente corretas – isso pouco importa.

Trata-se apenas do OUTRO, algo que não nos diz respeito, como fala Zizek em seu livro.

Minha filha, a Dra. Tatiana Kosby Boeira, que sem ilusões de reformar o mundo, trata realisticamente suas funções de Defensora Pública como uma oportunidade de tentar diminuir o sofrimento físico e mental de alguns rejeitados pela sociedade e ao mesmo tempo mostrar as injustiças do sistema, me relatou um caso típico da indiferença da sociedade pelos os transgressores de suas normas, principalmente aqueles pertencentes aos seus segmentos mais excluídos.

Rodrigo Lopes Fernandes, com antecedentes criminais, agravados por atos agressivos contra a promotoria em julgamentos passados, foi novamente condenado, essa semana, a uma nova e dura pena e recebeu, ainda no próprio tribunal a informação de que sua companheira, Fernanda Rodrigues dos Santos, alguém que vivia do trabalho honesto de professora – havia sido morta por uma gang rival da qual Rodrigo fazia arte.

Seu único pedido, então, normal para qualquer ser humano, era uma autorização para poder assistir o enterro da mulher. Embora isso seja um direito de qualquer preso, muitas pessoas preferem enxergar nele, não um direito, mas uma concessão da sociedade, um ato humanitário que serve para justificar os bons sentimentos dos bem-nascidos.

Felizmente, sensível pedido da Defensora Pública, o Juiz autorizou a saída do preso e determinou que a SUSEPE providenciasse a escolta necessária para acompanhar o preso.

O que aconteceu?

Nada

Provavelmente por razões burocráticas, a ordem não foi cumprida a tempo e como o enterro não podia esperar, Rodrigo Lopes Fernandes não se despediu da sua companheira.

Num mundo de injustiças permanentes contra os mais fracos, certamente os politicamente corretos não vão dar a mínima importância ao fato.

Afinal, ele era um bandido assassino, bem diferente de nós que não matamos ninguém, pelo menos por enquanto.

Então, para terminar com Zizek, como começamos, o OUTRO, quanto menos nos incomodar, melhor.

 

 

QUEM TEM MEDO DO POVO NAS RUAS?

O que os déspotas e os tiranos mais temem é o povo conscientizado dos seus direitos e lutando por eles nas ruas.

Mas, paradoxalmente, eles dependem dessa reação popular para se perpetuarem no poder e quanto mais agressiva ela for, mais rapidamente eles vão consolidar suas posições.

É que parece estar acontecendo, hoje, no Brasil.

O Dr. Werner Becker que já vivenciou quase todas as grandes crises brasileiras dos últimos anos, me dizia que as coisas estão se encaminhando para ficarem piores do que em 64.

Depois de comandar um golpe parlamentar que cassou o mandato de uma Presidenta, sem apresentar qualquer argumento legal que o justificasse, Temer e seus aliados anunciam uma série de medidas destinadas a provocar a revolta dos segmentos mais pobres da população. Num dia é a semana de 60 horas de trabalho, no outro é o aumento da jornada de 8 para 12 horas; são cortes nas áreas da saúde, previdência e da educação; é enfim o arroxo salarial e os cortes em direitos trabalhistas.

Mesmo que as medidas anunciadas num dia, sejam negadas no outro, a provocação está feita, dirigida principalmente às lideranças sindicais e estudantis, as únicas capazes de mobilizar a população para sair as ruas.

Quando, nessas manifestações, ocorrem alguns incidentes, a mídia a serviço do golpe trata de maximizar o que aconteceu, os descrevendo como ações de hordas de bárbaros, de vândalos e desordeiros.

É tudo que o governo precisa para mobilizar seus policiais com as balas de borracha e o gás lacrimogênio que atinge culpados e inocentes. Num segundo momento, em nome da busca da tranquilidade pública, chama-se o exército.

Quem se preocupou alguma vez de examinar os grandes momentos da história, vai encontrar em quase todos eles a presença de grupos populares agindo nas ruas, nem sempre exibindo um comportamento de escolares de um colégio de freiras.

Na Revolução Francesa, o povo enfurecido destruiu uma prisão, a Bastilharevolucao-francesa-e-o-brasil-atual e na Revolução Russa, ocupou o Palácio do Tzar e nem por isso, esses movimentos deixaram de ser os mais importantes dos seus séculos.

Em 1954, o suicídio de Getúlio Vargas levou milhares de pessoas às ruas de Porto Alegre para punir com violência às instituições que elas julgavam responsáveis pelo ocorrido, no caso o Consulado dos Estados Unidos e os veículos dos Diários e Emissoras Associados.

Há poucos dias, em Porto Alegre, uma manifestação de muito menor consistência, se limitou a depredar a sede de um partido político e ameaçar uma rede de comunicação.

Não se trata de aplaudir ou criticar estes gestos, mas de tentar entender suas causas e politicamente agir sobre elas.

É uma minoria, que habitualmente destoa do comportamento normal da massa, para praticar suas transgressões, mas é preciso entender que embora seja minoria, existe uma espécie de licença dos demais para que isso aconteça ou pelo menos, não há uma condenação explicita.

Quem se preocupa em conhecer o comportamento humano com alguma profundidade, sabe que em todos habitam dois modelos de comportamento, como se fôssemos a reedição permanente do conflito entre o Dr.Jekyll e Mr. Hyde.

Os tais vândalos são o Mr.Hyde de uma maioria feita de doutores Jekyll.

A solução apregoada de opor mais violência contra os que protestam, passando dos limites que a civilização fixou, só vai gerar mais violência, o que talvez seja o que atual governo pretende criar.

Em 1964, a ditadura calou pela força todas as formas de resistência pacífica e levou os grupos mais exaltados ao confronto armado e com ele mais repressão.

Em 2016, não cabe à oposição calar os movimentos de rua, mas ao Governo de respeitá-los. E se, isso não acontecer, cobrar da Justiça que exercite a imparcialidade que sempre deveria ter.

Em artigo que publicou no seu blog, o ex-governador Tarso Genro cita o caso de uma decisão da Auditoria Nacional Espanhola sobre incidentes ocorridos por uma invasão popular no Parlamento da Catalunha.

Na sua conclusão, a sentença do tribunal diz:

“Quando os leitos de expressão e de acesso ao espaço público -diz a sentença- se encontram controlados por meios de comunicação privados, quando setores da sociedade tem uma grande dificuldade para fazer-se ouvir ou para interferir no debate político, somos obrigados a admitir um certo excesso no exercício das liberdades de expressão ou manifestação, se queremos dotar de um mínimo de eficácia o protesto e a crítica, como mecanismos de imprescindível contrapeso numa democracia que se sustenta sobre o pluralismo, valor essencial que promove a livre igualdade das pessoas, para que os direitos sejam reais e efetivos, como anuncia a Constituição no seu preâmbulo”.

Embora dissesse respeito a situação espanhola, o enunciado final da sentença serve muito bem para a situação brasileira.

Meu ódio será sua herança

Uma das vantagens – se é que existe alguma vantagem nisso – de ter vivido muito tempo é que você leu muitos livros e viu muitos filmes. Alguns que pareciam esquecidos no baú da memória, de repente ressurgem com a mesma força que tiveram no passado. Às vezes, basta uma palavra para trazê-los de volta.
Há pouco, estava pensando em amor e ódio, dois lados da mesma moeda e me sentia culpado por não saber exercitá-los com a intensidade merecida e descobria com grande desdouro para a minha biografia, que no amor, sou cético sobre toda sua profundidade e no ódio, sou incapaz de saboreá-lo com o gosto devido.
Não quero falar de amor, mas de ódio.
O Pintaúde, que como eu, é um provocador social, tem entre seus amigos virtuais um cara que mais adiante vou dizer o nome e que entrou numa polêmica nossa com frases inteligentes e irônicas, de certa forma, descontruindo uma boutade que eu havia feito.
Não pelo que disse, mas pelo que fez no passado, eu devia odiar esse cara.
Não só ele, mas muitos outros.
Então, voltamos ás primeiras linhas de texto: as lembranças do passado.
Lembrei daquele clássico do faroeste Meu Ódio Será Sua Herança (Wild Bunch – O bando selvagem), que Sam Peckinpah fez em 1969, com Willian Holden, Ernest Borglne e Robert Ryan.
Em qualquer enciclopédia sobre o cinema, você vai ler que o filme, ao colocar sua ação em 1913, durante a revolução mexicana, é uma alegoria sobre o fim de uma era, onde o cowboy era o grande herói e o início de outra, onde as máquinas de guerra substituíram o cavalo e a winchester.
No youtube você poder ver o filme inteiro (só por favor não veja na versão dublada), mas eu não vou fazer isso. Prefiro ficar com minhas lembranças.
E o que elas dizem?
Dizem que temos que exaurir nossos sentimentos até a última gota.
No caso do filme, os sentimentos são de amizade e de ódio.
E isso, me trouxe ao presente.
Preciso urgentemente voltar a odiar algumas pessoas pelo que me fizeram no passado ou deixaram de fazer.
Nesse patamar de ódio a ser elaborado, estão aquelas pessoas que, em algum momento da vida, me impediram de continuar fazendo alguma coisa que gostava muito.
Por exemplo, professor da Famecos.
Não que fosse um grande professor, mas gostava muito de algumas polêmicas que eram possíveis ter com uns poucos alunos.
O Fernando Azevedo, a mando da Sílvia Kock, sem nenhum grande motivo, me mandou embora depois de 32 anos como professor.
Ódio eterno ao Fernando Azevedo e a Sílvia Koch.
Na Marca Propaganda, que ajudei a se tornar uma grande agência, o Eduardo Wilrrich Neto me mandou embora para agradar um cliente que não simpatizava comigo.
Ódio eterno ao Eduardo Willrich Neto
Na MPM, o Beto Soares me mandou embora porque temia a minha concorrência ao seu recém-criado cargo de diretor de criação.
Ódio eterno ao Beto Soares.
Agora entre o amigo virtual do Pintaúde.
Numa revista sobre propaganda eu escrevia umas histórias fantasiosas sobre personagens imaginários e alguns reais e eu não ganhava um tostão por isso
Sei que algumas pessoas gostavam, mas aí o Júio Ribeiro (o atual amigo do Pintaúde) me mandou embora por alguma razão que nunca disse qual era.
Ódio eterno ao Júlio Ribeiro.
Prometo me esforçar profundamente para deixar este meu ódio como herança para quem quiser desfrutá-lo.
Só, por favor, não repetiam na minha despedida, aquela baboseira cristã de que o ódio faz mal a quem odeia e que o importante é o amar.

Amor e ódio, é tudo a mesma coisa.