Capitalismo selvagem

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, a lista de países europeus sempre à beira de uma nova crise econômica é cada vez maior. Os tempos de abundância ficaram no passado. Isso, sem falar nos estados mais a leste da Europa, que nunca alcançaram esse estágio de desenvolvimento e que convivem agora com dificuldades econômicas crescentes. A explicação da grande mídia é sempre a mesma: bolhas de consumo, com a oferta de crédito sem maiores exigências e, logo a seguir, a inadimplência e a quebra de bancos e financeiras.
Os remédios sugeridos são também os mesmos: aumento das taxas de juro, restrição de crédito e cortes nos programas sociais do governo. Ou seja, quem vai pagar a conta mais uma vez são os assalariados, que foram estimulados a consumir e agora, ameaçados de perder seus empregos pela recessão inevitável, se tornam inadimplentes.
Apesar de ser um processo que se repete periodicamente, os economistas de plantão e seus porta-vozes na mídia, identificam nessa sucessão perversa de fatos apenas “solavancos” no caminho do capitalismo, ou uma simples “marolinha”, como dizia Lula, e não sintomas de uma crise cada vez maior do sistema.
Welfare State (o Estado do Bem-Estar Social) ficou no passado, mais como uma estratégia política para enfrentar a sedução do comunismo para as populações europeias depois da segunda guerra mundial, do que realmente uma filosofia humanística. O governo da França ampliou os prazos para a aposentadoria dos seus trabalhadores e agora quer aumentar as horas de trabalho semanal, indiferente às grandes manifestações populares de repúdio à medida. Na Inglaterra e na Alemanha, seus governos são cada vez mais conservadores e preocupados em gerir seus países como se fossem meros gerentes de fábrica. Pior de tudo é que a resistência popular é pouco eficiente e vive de surtos, como as manifestações durante a crise na Grécia, na Espanha e agora na França.
Depois de décadas de um grande esforço midiático destinado a conquistar corações e mentes para o modelo capitalista, as organizações políticas de esquerda europeias parecem não pensar em mais na existência de alguma alternativa possível ao capitalismo selvagem dos dias atuais. Nunca foi tão verdade a constatação de Marx de que as massas têm a ideologia das classes dominantes. A reorganização da sociedade sob uma infraestrutura socialista (não apenas de governos com partidos nominalmente chamados de socialistas ou até comunistas) não se coloca mais, nem como tema de discussão para os políticos atuais, ficando restrita apenas ao debate em alguns setores acadêmicos.
A inspiração que a União Soviética representou durante muitos anos para os trabalhadores do mundo inteiro, perdeu-se quando o primeiro governo autodenominado comunista da era moderna foi incapaz de resolver os problemas de desenvolvimento com liberdade e democracia interna, e acabou destroçado pela onda de chauvinismo que varreu as então repúblicas socialistas soviéticas.
Restaram exemplos muito pobres para se opor ao capitalismo decadente: o regime familiar e militarizado da Coréia do Norte, a pequena Cuba, bloqueada durante décadas pelos Estados Unidos e a China, com o seu capitalismo de Estado, que é mais exemplo de sucesso para os empresários capitalistas do mundo inteiro do que para os trabalhadores.
Dentro dessa situação econômica mundial adversa, os brasileiros que nas três últimas eleições escolheram o modelo de governo mais aproximado de algum tipo de reformismo social, viram este ano retirado esse pequeno avanço, com o golpe parlamentar que levou novamente ao poder um grupo extremamente retrógrado, sob pontos de vista político, social e econômico.
Quando o Brasil experimentou, sob o governo de Lula, uma dessas bolhas de desenvolvimento, o assessor presidencial, Marco Aurélio Garcia, afirmou que “ O Brasil não pode ser uma ilha de prosperidade num oceano desigualdade na América Latina”. Justiça se faça. No caso ele se referia à necessidade do Brasil cooperar com Paraguai e Bolívia em questões energéticas e não com aquele sentido do pensamento do general Médici, quando disse: “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao Jornal Nacional. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.
Será que o general não sabia que havia censura à imprensa ou não desconfiava do apoio interessado à ditadura do Jornal Nacional que ele costumava assistir?
Hoje, nem o Jornal Nacional é capaz de trazer boas notícias que possam tranquilizar a Temer e seu grupo, mais preocupados em se garantir em cargos para os quais não foram eleitos e dos quais a maioria da população deseja que se retirem imediatamente.

Deus não joga, mas fiscaliza

Os narradores de futebol, no rádio e na televisão, cansaram de dizer que Deus era brasileiro. Na última Copa do Mundo não foi assim. Nitidamente, Deus estava de birra contra a nossa seleção. É claro que o Felipão e os jogadores ajudaram bastante. Para a próxima parece que as coisas também não estão se encaminhando muito bem. Talvez, até por isso mesmo, a CBF trocou o Dunga, que nunca pareceu muito crente, pelo Tite, que não perde oportunidade de mostrar sua fé.
Nessas eliminatórias, teremos que enfrentar o Paraguai e Deus tem uma série dívida com o país, que Ele abandonou naquela guerra contra a Tríplice Aliança. E olha que o Paraguai foi uma criação dos jesuítas que sempre tiveram muito prestígio junto ao Grande Chefe Branco. Não será a hora do Todo Poderoso pagar a dívida?
E no Campeonato Brasileiro, será que Ele já escolheu suas cores favoritas?
Quem acompanha os jogos pela televisão já viu centenas de vezes jogadores e até juízes fazendo o clássico sinal da cruz, quando começa o jogo, quando os atacantes fazem gols ou quando o goleiro defende um pênalti. Deve ser um aviso para o público e os telespectadores: “olha aí, o Homem está comigo”.
No final dos jogos, os jogadores – os vencedores, claro – são mais explícitos: “Deus me iluminou e saímos vencedores”.
Os perdedores não cobram nada, tipo “que sacanagem, a gente contava Contigo, fez promessa e tal, e nada deu certo”. Certamente não querem incomodar o Homem e perder totalmente a confiança Dele. Afinal o campeonato é longo.
Uma coisa é obvia: Ele está de marcação contra o Internacional. Deve ser algum problema por causa do vermelho da camiseta.
E outra coisa: Ele sistematicamente tem ajudado o grêmio, obviamente pelo fato do time ter a cor azul, que lembra o seu paraíso.
Quem viu os jogos do grêmio, já percebeu a sua sutileza nesse apoio extra- campo ao time, quando ele está perdendo ou empatando. Ele não age diretamente. Em vez disso, usa um representante, o juiz, para dar uma mãozinha ao grêmio, ora marcando faltas inexistentes, ora espichando o tempo de jogo até que surja golzinho salvador.
Fora nessa obviedade de azul x vermelho, deve ser complicado para Deus escolher o lado vencedor, tantos são os pedidos dos concorrentes. É como nas guerras antigas, onde cada lado levava seus estandartes e seus capelães e dizia defender a causa divina. Quando, por exemplo, era uma guerra entre cristãos – tipo Alemanha contra França – devia ser muito difícil para Deus se posicionar. A menos, que ele fizesse opção pela maioria católica (França) contra maioria protestante (Alemanha). Nas cruzadas, era mais fácil. O inimigo era sempre Alá.
 Mas, voltando ao futebol: Como ficamos então? É só futebol, onde ganha o melhor ou que pelo menos tenha um Neymar no time, ou tem a ver com milagres e demonstrações explicitas da vontade divina?
Talvez a melhor resposta seja a de um antigo narrador de futebol no Rio Grande do Sul, que depois virou até deputado federal.  Dizia o Mendes Ribeiro: “Deus não joga, mas fiscaliza”.
No sábado, Ele ajudou o Corinthians (esse mora no seu coração há muitos campeonatos), talvez até porque a sua torcida se chama A Fiel, mas no jogo matinal do Inter, essa vez Ele implicou com a Ponte Preta, possivelmente porque o time é apelidado de A Macaca e isso pode lembrar a teoria da evolução das espécies. Deus é conservador e é um dos poucos que ainda acredita que foi Ele quem criou a tudo e a todos.
Vamos prestar atenção no que Ele vai fazer no próximo domingo quando jogam o Corinthians – o time da Fiel – e o Internacional – os diabos rubros e esperar que pelo menos essa vez ele seja imparcial e deixe o futebol para os jogadores.

Falta o Barão para falar do Temer

“Este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a.C., verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crônicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo”.
A frase é do inesquecível Barão de Itararé, foi dita muitos anos atrás, mas serviria muito bem para classificar os integrantes do governo golpista de Temer.
Pena que o Barão tenha morrido em 1971. Hoje, os malfeitos de Temer e companhia dariam muito assunto para ele.
Nascido na cidade de Rio Grande, em 1895, Aparício Torelly, adotou o nome de Duque de Itararé para ironizar a famosa batalha que não houve entre os partidários de Getúlio Vargas e os de Washington Luiz, em Itararé, São Paulo, na revolução de 30. Depois rebaixou seu título nobiliário para Barão, “por modéstia”.
Foi eleito vereador no Rio de Janeiro, então o Distrito Federal, em 1947 com o slogan de campanha – Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite – pelo Partido Comunista. Um ano depois, junto com mais 17 vereadores comunistas, teve seu mandato cassado. Não perdendo o bom humor, o Barão anunciou o fato com uma manchete no seu jornal, A Manha:
Um dia é da caça …os outros da cassação.
Em 1961, eu era repórter da sucursal de Porto Alegre do jornal Última Hora e meu primeiro trabalho foi entrevistar o Barão de Itararé, hospedado no Hotel Plaza, na Rua Senhor dos Passos.
Na portaria do hotel já foram me avisando
– O Barão está descansando e não quer receber visitas, mas você pode ligar para ele pelo telefone.
Ao atender, ele foi logo perguntando:
 – O que você quer saber?
Procurando colocar o pronome no lugar certo, disse o que queria saber:
– O que o trouxe a Porto Alegre?
– Isso eu posso responder pelo telefone: foi um avião da Varig.
Depois desse início um tanto quanto difícil, o Barão se compadeceu da minha condição de foca e convidou para conversarmos no seu apartamento.
Não só conversamos durante bastante tempo, como almoçamos juntos.
No final, ele insistiu em me dar por escrito as respostas às minhas questões. Voltei ao hotel no dia seguinte e ele me entregou 4 ou 5 folhas escritas num bloco de borrão sem pauta.
Infelizmente, acabei perdendo este precioso material. Algumas de suas citações podem, porém, ser encontradas no livro Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, da Editora Record, que a agência de propaganda MPM distribuiu como brinde de final de ano em 1985.
Hoje, basta colocar seu nome no Google e lá estão algumas das melhores frases do Barão. O que se segue são apenas umas poucas e boas.
 Casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e outro religioso.
De onde menos se espera, daí é que não sai nada
Quem empresta…adeus
Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos
Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.
Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.
Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.
O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.
Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.

O fígado faz muito mal à bebida.

Um presente da ditadura

Luís Augusto Cama foi um dos mais importantes publicitários brasileiros. Trabalhamos juntos alguns anos e mesmo não tendo posições políticas coincidentes, sempre fomos bons amigos.
Hoje, aposentados, ele vive entre São Paulo, Porto Alegre e Gramado e eu, entre essas duas últimas cidades. Isso tem nos permitido nos encontramos com uma certa assiduidade, ou na Palavraria, em Porto Alegre ou no Atelier do Café em Gramado, basicamente para rememorar velhos episódios das nossas vidas profissionais.
Nisso, devemos ser iguais a muitos outros aposentados. O que difere nessas reuniões, que o Cama chama de tertúlias, é que ele sempre faz questões de pagar a conta e me presentear com algum livro.
Como ele foi um publicitário, profissionalmente muito melhor sucedido do que eu, considero uma questão de justiça aceitar suas ofertas como uma forma de equilibrar nossos ganhos e perdas.
Toda essa introdução é para falar do último livro que ganhei do Cama: A Ditadura Acabada, quinto volume de uma história iniciada em 1964 e terminada em 1985, na visão do jornalista Elio Gaspari.
Um argumento a favor de quem estiver disposto a percorrer estas quase 500 páginas do livro é que, em virtude do estilo coloquial de escrever do autor, a leitura é agradável e flui com rapidez. É daqueles livros que sempre se diz que é quase impossível de parar de ler.
Contra, os argumentos são muitos. Gaspari é um jornalista que escreve sobre fatos históricos e não um historiador. Nada contra, não fosse a superficialidade do seu texto. Ele está muito distante, por exemplo, de um Robert Fisk, que mesmo quando escreve para jornais, não conta apenas os fatos, mas tira deles uma interpretação importante. Não é à toa, que suas histórias sobre o Oriente Médio podem ser lidas como uma forma de conhecer em profundidade os meandros políticos, sociais e econômicos daquela região.
Outra questão é a parcialidade do autor. A ditadura militar brasileira, com seus generais presidentes, deflagrada para atender os interesses da elite empresarial brasileira e da geopolítica norte americana, foi extremamente sanguinária e retrograda politicamente na sua essência. Na visão de Gaspari, os momentos de alta repressão se devem apenas a elementos radicais das forças armadas – o que ele chama de “a tigrada” – enquanto muitos dos seus líderes seriam até mesmo bons democratas.
Esse viés se deve, em boa parte, as principais fontes que Gaspari contou para o seu trabalho. Ele mesmo confessa nos agradecimentos finais que faz no seu último livro, que ele não existiria não fossem as colaborações de Heitor Ferreira, o assistente do general Golbery do Couto e Silva e secretário particular dos generais Geisel e Figueiredo; do próprio Golbery e do general Ernesto Geisel, que segundo o autor, lhe prestou dezenas depoimentos gravados.
Houvesse um “estilo Revista Caras” no jornalismo político, Elio Gaspari, com os seus cinco livros sobre ditadura brasileira, poderia ser o seu patrono.

De qualquer maneira, repito meus agradecimentos públicos ao Luís Augusto Cama pelo presente e sugiro aos meus poucos leitores que leiam o livro e depois digam se concordam ou não com o que acabo de escrever.

A espetacularização da mídia

Em 1910, milhões de pessoas no mundo inteiro se comoveram com o espetacular resgate dos mineiros chilenos da mina San José, em Copiapó, depois de permanecerem 70 dias presos a 700 metros de profundidade. O resgaste foi transmitido ao vivo pela televisão e ajudou a promover a imagem do presidente chileno Sebastian Piñera.
Cinco anos depois virou um filme com astros internacionais como Antônio Banderas, Rodrigo Santoro e Juliette Binoche, todo ele falado em inglês, sem atrair grande interesse do público.
Dos mineiros reais, pouco se falou, passado o impacto do resgaste. Em busca de novos espetáculos para alimentar o interesse do público, a mídia tinha esquecido deles.
A espetacularização das grandes e pequenas tragédias pela mídia em busca de público, motivou um dos clássicos do cinema norte-americano, a Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole), dirigido por Billy Wildner em 1951.
O filme conta a história de um repórter decadente, Charles Tatun, vivido por Kirk Douglas (hoje mais lembrado como o pai de Michael Douglas), que depois de ser despedido de vários jornais, acaba na cidade de Albuquerque, no Novo México, trabalhando num pequeno jornal a espera de que uma grande reportagem promova sua volta para um grande jornal.  
A chance que esperava, parece surgir quando, a caminho de cobrir mais uma matéria sem importância, descobre que numa mina abandonada, denominada A Montanha dos Sete Abutres, um mineiro – Leo Minosa – ficou preso no seu interior quando procurava por relíquias indígenas.
Tatun transforma o resgate do mineiro num assunto nacional, atraindo para o local milhares de curiosos e jornalistas de todo o país. Tatun faz mais do que isso. Ele manipula o encarregado do salvamento, conseguindo que o resgate que poderia ser feito num dia, demore mais de uma semana e transforma a mulher do mineiro preso, Lorraine, personagem vivida por Jan Sterling, numa esposa apaixonada, quando na verdade ela já estava decidida a abandonar o marido.
Tatun acaba perdendo o controle da situação, quando Minosa morre, vítima de pneumonia, antes de ser salvo. Apesar de no final moralista, como era exigência dos produtores americanos da época, o repórter se arrepender, fica claro que imparcialidade da imprensa diante dos fatos é um mito fabricado por ela mesmo.
O filme de certa forma antecipa o que é bastante comum nos dias de hoje, a espetacularização da notícia para chamar a atenção do público.
Alguns anos depois, em 1997, Costa Gravas voltaria ao tema com o filme O Quarto Poder (Mad City), em que o repórter de televisão, Max Brackett, vivido por Dustin Hoffman, ao visitar um museu, presencia o momento em que o desempregado, San  Baily, papel de John Travolta, depois de ferir acidentalmente um colega, sequestra um grupo de visitantes.
Prometendo criar uma imagem simpática para San, Max vai manipulando os acontecimentos, que passam a ser transmitidos em rede nacional, enquanto prolonga o sequestro. No final, quando o personagem de Travolta se suicida, em vez de se entregar para a polícia no horário nobre da televisão, como pretendia a rede para a qual Max trabalha, o repórter acaba perdendo o controle de tudo, inclusive da audiência.
No ano passado, Jodie Foster voltou ao tema da manipulação que a mídia faz dos acontecimentos, com o filme O Jogo do Dinheiro. No filme, um jovem lesado na bolsa de valores pelos conselhos do amalucado Lee Gates (George Clooney) invade o estúdio da televisão, onde ele apresenta o seu programa e ameaça tudo explodir.
Vendo como a mídia se alimenta das tragédias que a todo momento sacodem o mundo, é de se supor que não faltarão temas para novos filmes de denúncia sobre o papel dos meios de comunicação.

Aconteceu em 20 de julho

Há exatamente 72 anos atrás, o coronel Claus von Stauffenberg tentou matar Adolf Hitler, colocando uma bomba de tempo sob a mesa de reuniões do líder nazista, dentro de uma cabana, na Wolfsschanze, a Toca do Lobo, o quartel general secreto da Prússia Oriental.
Por inabilidade do coronel e por uma série de atos fortuitos, a bomba apenas feriu Hitler, toda a trama contra ele foi descoberta e Stauffenberg e mais 200 conspiradores foram fuzilados nos dias seguintes.
A história do atentado já foi contada várias vezes pelo cinema, variando a avaliação de Stauffenberg, de um herói anti-nazista a um oportunista, que vislumbrando a derrota próxima dos alemães na guerra tratou de salvar a sua pele e de seu grupo dentro da Wehrmacht.
O certo é que os conspiradores liderados por Stauffenberg, incluía importantes líderes do exército alemão e pretendia, com a morte de Hitler, negociar um acordo condicional com a Inglaterra e os Estados Unidos e concentrar suas forças no combate à União Soviética.
Naquele momento, porém, tanto Churchill quanto Roosevelt, não poderiam prescindir da aliança com Stalin e acharam prudente não estimular os conspiradores alemães.
A história do atentado contra Hitler teve sua versão mais importante no cinema em1955, quando G. W Pabst  (1885/1967)  dirigiu ‘Aconteceu a 20 de julho” ( Es geschah am 20 juli) com Bernhard Wicki no papel de Stauffenberg.  Pabst, nascido na Áustria, ficou conhecido dirigindo uma série de filmes na época no cinema mudo antes da segunda guerra e num primeiro momento chegou a flertar com o nazismo, do qual depois se afastou, se tornando após a guerra um crítico desse período. Antes da guerra, seu filme mais famoso foi Caixa de Pandora (Die Buchse der Pandora) de 1929, mas ainda são bastante lembrados Don Quixote, Rua Sem Sol e a Ópera dos Pobres, quando se envolveu numa disputada judicial com Bertolt Brecht que tentou proibir a exibição do filme, inspirado na sua obra a Ópera dos Três Vintes.
O último filme sobre o episódio do atentado contra o Hitler foi Operação Valkiria, de 2008, com Tom Cruise no papel de Stauffenberg e direção de Bryab Singer.
Antes do filme de Pabst, Henry Hathaway havia rodado a Raposa do Deserto, com James Mason no papel de Rommel, no qual o episódio envolvendo Stauffemberg faz parte da trama.
Entre o filme de Pabst e de Singer, foram feitos oito filmes, muitos dos quais nunca exibidos no Brasil, seguindo a sequência abaixo com muitos títulos apenas em alemão.
1955: Der 20. Juli – Wolfgang Preiss como Stauffenberg[2]
1968: Claus Graf Stauffenberg biography [3]
1988: War and Remembrance
1990: Stauffenberg—Verschwörung gegen Hitler
1990: The Plot to Kill Hitler – Brad Davis como Stauffenberg [4]
2004: Die Stunde der Offiziere – filme semi-documentário[5] [6]

2004: Stauffenberg´- Sebastian Koch como Stauffenberg [7] [8]

Gorender, o grande historiador marxista do Brasil

Naqueles anos que antecederam o golpe de 64, vivíamos a euforia de uma democracia que o Brasil ainda não tinha conhecido. 
Na política e nas artes, tudo era permitido discutir. 
O ideal socialista parecia estar a um passo. 
Cuba havia se libertado da ditadura de Fulgência Batista e da exploração norte-americana. 
Jean Paul Sartre e sua mulher Simone de Beauvoir faziam um périplo pelo Brasil defendendo o direito à liberdade de todos os povos. 
O governo de Jango ora pendia para esquerda, ora para a direita, mas confiávamos nas forças nacionalistas comandadas por Leonel Brizola e na visão esclarecida do Partido Comunista de um Luís Carlos Prestes, garantindo que a nossa ideologia seria no final vitoriosa.
A realidade mostraria logo em seguida como estávamos enganados.
Antes disso, porém, um personagem se tornou emblemático como a figura do intelectual marxista, humanista e esclarecido: Jacob Gorender. 
Nos primeiros anos da década de 60, possivelmente em 61 ou 62, ele veio a Porto Alegre para dar um curso sobre o Humanismo Marxista. Foram três inesquecíveis conferências no prédio do Restaurante Universitário, na Avenida da Azenha, que ironicamente depois do golpe de 64, virou a sede da Escola de Polícia do Governo do Estado.
Filho de um judeu ucraniano, Gorender abandonou a Faculdade de Direito de Salvador para se alistar como voluntário da FEB na campanha da Itália.
Depois de voltar da guerra, fez carreira dentro do Partido Comunista Brasileiro, e em pouco tempo se tornou importante dirigente. Após o golpe de 64, foi preso e barbaramente torturado. Em 1967, divergiu de Prestes e fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, partindo para a luta armada.
Mais do que como dirigente político, Gorender se destacou como grande divulgador do marxismo e estudioso da história brasileira. Escreveu O Escravismo Colonial, em 1978, sua principal obra, em que supera o debate sobre feudalismo x capitalismo no passado do Brasil. Mais adiante escreveria em 1981, A Burguesia Brasileira; Combate nas Trevas em 1987 e Marxismo sem Utopia, em 1989. 
Morreu aos 100 anos, em 2013.
Seu livro Combate nas Trevas é retrato preciso das ilusões da esquerda brasileira e dos erros que a levaram à luta armada e ao abandono das práticas políticas. Mesmo criticando a militarização da luta dos partidos de esquerda após 64, Gorender percebe bem diferença entre os lados que se enfrentaram nesse período, ao dizer no seu livro “Se quiser compreendê-la na perspectiva da sua história, a esquerda deve assumir a violência que praticou. O que em absoluto fundamenta a conclusão enganosa e vulgar de que houve violência de parte a parte e, uns pelos outros, as culpas se compensam. Nenhum dos lados julga pelo mesmo critério as duas violências – a do opressor e a do oprimido. É perda de tempo discutir sobre a responsabilidade de quem atirou primeiro. A violência original é a do opressor, porque inexiste opressão sem violência cotidiana incessante. A ditadura militar deu forma extremada à violência do opressor. A violência do oprimido veio como resposta”.

O que fazer?

Ao fazer uma dura crítica aos seus companheiros de partido, que apoiaram a eleição de Rodrigo Maia para a Presidência da Câmara de Deputados, o ex-governador Tarso Genro reabre a discussão sobre qual a linha política mais adequada para as esquerdas brasileiras.
Disse ele “É diferente sermos derrotados colaborando com os inimigos da democracia, que defendem tanto o ajuste como o autoritarismo golpista, de sermos derrotados resistindo e lançando sementes para o futuro. Porque a derrota era certa, em qualquer das hipóteses, e a melhor das escolhas seria fazer, do momento, uma ponte para o futuro: a hora – depois de duras provações durante os Governos Dilma – de abandonar a nossa dependência peemedebista e promover – no sítio mais agudo da crise – um momento de dignidade da política”
Esse é um dilema permanente das esquerdas brasileiras, desde que, após o fim da ditadura militar, se abrigaram nos partidos reformistas existentes, principalmente no PT e no PCdoB e mais recentemente no PSOL: conquistar avanços sociais dentro do atual quadro institucional ou retomar as velhas bandeiras de antes do golpe de 64 de fazer uma revolução social.
A primeira opção, que teve na ação presidencial de Lula seu momento mais brilhante, sempre levou o PT a acordos com partidos de centro (PMDB) e mesmo da direita (PP), que com o passar do tempo foram se transformando em verdadeiros controladores do processo político.
A outra via, a revolucionária (não necessariamente fruto de lutas armadas) se perdeu pela incompetência do Partido Comunista no final do Governo Goulart de propor estratégias adequadas para enfrentar o golpe que se avizinhava.
Num artigo que escreveu sobre aqueles dias, Jacob Gorender, talvez o mais preparado culturalmente entre os comunistas brasileiros, apontou o “reboquismo” de Prestes ao projeto reformista de Jango como uma das causas da derrota das esquerdas em 64.
No jargão dos comunistas, “reboquismo” significava, não uma coligação com outros partidos para uma luta com fins específicos, mas sim a adesão condicional às posições políticas muitas vezes até opostas.
Ao se associarem a um partido reformista e de origem sindicalista como o PT, as principais figuras da esquerda brasileira pós 64, foram eclipsadas pela presença carismática de Lula, um político voltado para negociações e não rupturas e que orientou sempre seu partido, como acaba de ocorrer agora no episódio da eleição na Câmara, para posições pragmáticas e não ideológicas.
A luta e a empolgação de uma militância jovem que saia as ruas com as bandeiras do PT, foram perdidas pelos conchavos de gabinete a que se entregaram Lula e seus aliados, imaginando que poderiam iludir os verdadeiros donos do poder no Brasil com o discurso de que com suas políticas assistencialistas todos poderiam ganhar.
Enquanto o governo conseguiu subsidiar o consumo da população, as elites empresariais aceitaram e até festejaram Lula e seus assessores, mas quando a conta chegou para pagar, rapidamente trataram de afastar a herdeira de Lula, para colocar no poder alguém mais indicado para fazer o tal “ajuste” de que tanto fala Tarso Genro.
Com a desculpa de reorganizar a economia, Temer e seus cúmplices, vão transferir a conta para os mais pobres.
O que fazer, então?
Em 1902, Lenin escreveu um livro com este título, O Que Fazer? . Mesmo que a lição tenha quase 100 anos, talvez seja possível colher alguns ensinamentos nela. Lenin teve a coragem de romper com o Partido Operário Social-Democrata Russo, onde se abrigavam todas as facções socialistas e partir para a fundação de um novo partido, integrado por pessoas com dedicação exclusiva à luta política, o Partido Bolchevique, mais tarde o Partido Comunista, porque basicamente, não acreditava que os operários fossem capazes de promover a revolução.
Os operários – escreveu Lenin -, não podem ter ainda a consciência social-democrata. Esta só pode chegar até eles a partir de fora. Pelas próprias forças, a classe operária não pode chegar senão à consciência sindical. A luta econômica leva os operários a pensar unicamente nos problemas relacionados com a atitude do governo em relação à classe operária e não a desenvolver uma a consciência política que ultrapasse estes estreitos limites”.

Não seria o caso, das mentes mais lúcidas da esquerda brasileira, como Tarso Genro, a começar a pensar em formar uma grande frente super partidária se livrando da camisa de força dos atuais partidos?

Fundamentalistas x radicais

Uma amiga criticou meus textos no facebook dizendo que eu era um fundamentalista político. Expliquei a ela que o fundamentalismo é, em princípio, empregado apenas para a religião, mas que hoje, por extensão ,se aplica também em outras áreas para aquelas pessoas que não admitem discutir seus pontos de vista. Disse mais que, como admirador dos conceitos de Marx, seria uma contradição, negar que tudo está em evolução e que não existe nada definitivo, principalmente na política, que se ocupa das relações entre os homens. O que pretendo é ser radical, o que é bem diferente de fundamentalista.
Como não sei se ela entendeu bem, volto ao tema para repetir: fundamentalista é um qualificativo reservado para quem pratica uma religião seguindo suas normas de uma forma rígida e que enxerga suas leis como dogmas de fé. Então, um católico que acredita que a humanidade nasceu de Adão e Eva poderia ser chamado de fundamentalista e isso depois que até o Papa ficou em dúvidas sobre essa história.
Hoje, o termo, por extensão, é usado para pessoas que não aceitam discutir um determinado fato político ou que se aferram a uma verdade sem exibir qualquer prova de sua validade, embora nesse caso seja preciso ter cuidado em distinguir fundamentalismo de convicção.
Até que me provem o contrário, estou convicto, por exemplo, que as denúncias de corrupção por parte de membros do Governo do PT, têm por trás delas o objetivo de substituir esse governo por outro mais de acordo com o neoliberalismo que interessa aos representantes do pensamento neoliberal.
Na medida que eu aprofundo os argumentos em favor dessa tese, estou radicalizando meus argumentos porque examinei detidamente todas as variáveis da questão. Estou, portanto, indo às raízes do processo.
Marx era um radical e não um fundamentalista.
Ele estudou profundamente as origens e os fundamentos do capitalismo antes de divulgar suas teses. O fundamentalista busca o imobilismo e Marx pregava a mobilidade. Na linha do pensamento dos grandes filósofos gregos, ele via o mundo, a economia e as pessoas em movimento contínuo.
Heráclito de Éfeso disse que o homem não toma banho duas vezes no mesmo rio. Lavosier dizia que nada se cria, nada se perde e tudo se transforma. Marx afirmou que tudo que é sólido, desmancha no ar. Marshall Berman, por exemplo, usou a frase de Marx para título de um livro que fez muito sucesso há uns 20 anos, “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
O fundamentalista pretende que as coisas fiquem estáticas, que as verdades sejam eternas, contrariando a própria física que prova que o mundo e tudo dentro dele, estão em movimento perpétuo.
 Usando de certa forma uma licença poética, poderíamos dizer que aquelas pessoas que agem politicamente negando a existência desse movimento permanente, desse constante devir, seriam fundamentalistas, embora em todos casos que possamos pensar, existe sempre uma certa dose de exagero.
Por exemplo, o historiador americano Francis Fukuiama, ao ver no capitalismo ocidental, o último degrau no avanço social da humanidade, poderia ser classificado de fundamentalista, não fosse a suspeita que ele sempre estará tendo alguma vantagem material ao se colocar como defensor do sistema.
Bin Laden seria um fundamentalista – e até pode ser um bom exemplo pelo seu lado religioso – mas seus objetivos políticos nunca foram definitivos. Ele e seus seguidores foram armados pelos Estados Unidos para combaterem os russos no Afeganistão, mas depois se voltaram contra seus apoiadores.
Seria o Bolsonaro um fundamentalista?
Alguém que trocou sete vezes de partido e que está sempre em busca da promoção de suas ultrapassadas ideias é mais um venal e oportunista, do que fundamentalista.

Assim é melhor deixar estes exemplos pouco práticos de lado e ficar com o conceito de que radicalismo é diferente de fundamentalismo e se alguém não concordar com isso, ótimo, abrimos mais uma discussão

Uma história do Sionismo

Tenho com o médico e acadêmico Franklin Cunha, além de várias afinidades culturais e políticas, um interesse comum pela história de Israel, preocupados, os dois, em entender como um grande movimento, pacifista na sua origem e que deveria servir para por fim a séculos de perseguições aos judeus, deu origem a um Estado militarista, que pratica uma política de apartheid contra seus vizinhos palestinos.
Numa de suas frequentes idas às livrarias de Buenos Aires e Montevidéu, o Dr. Franklin me trouxe mais um livro, entre tantos outros que temos lido, analisando a questão judaica e a formação do Estado de Israel.
O livro – “Breve historia del sionismo” –  uma edição em língua espanhola da Alianza Editorial – é assinado pelo Professor de História Contemporânea da Universidade Autônoma de Barcelona, Joan B; Culla.
O livro, em formato de poket book, em suas pouco mais de 300 páginas, narra a história do movimento sionista, lançado por Theodor Herzl,  no final do século XIX, até a consolidação do Estado de Israel depois da Segunda Guerra.
Com um viés assumidamente simpático aos ideais sionistas, o livro, nem por isso, deixa de ser uma fonte indispensável para quem se interesse pelo assunto. É notável o esforço do autor em detalhar tudo que aconteceu nesse processo, único da história da humanidade, de idealização, construção e depois a solidificação de um estado moderno, numa região onde havia antes praticamente só adversários desse objetivo.
Algumas revelações do livro sobre o processo que, começando com as manobras diplomáticas de Herzl no sentido de obter apoios para a criação do Estado de Israel, chamam a atenção de que, como o objetivo final foi sendo modificado com o correr do tempo. Num primeiro momento, Herzl chegou a negociar, sem êxito, com o Sultão da Turquia, cujo império dominava o mundo árabe, uma concessão para criar um estado judeu na Palestina.
Mais adiante, em 1903, no congresso sionista da Basiléia, conseguiu aprovar por 295, a favor, 178, contra e 98 abstenções a ideia de fundar um estado judeu em Uganda, na África.
Essa possibilidade foi depois posta de lado e voltou-se novamente ao objetivo inicial, o retorno à Palestina, onde ainda existia uma pequena comunidade judaica.
Duas tendências, as vezes se opondo, outras vezes se complementando, passaram a coexistir então: uma buscava algum tipo de apoio das grandes potências da época para o reconhecimento dos judeus de criar seu próprio estado e outra, que defendia a aceleração de um processo migratório de judeus, principalmente da Rússia, para a Palestina e o uso dos donativos financeiros das comunidades judaicas, principalmente dos Estados Unidos para a compra de terras dos árabes a fim de assentar esses colonos judeus
A primeira guerra mundial mudou completamente o panorama na Palestina. Primeiro, porque precisando apoio financeiro dos grandes bancos controlados por judeus na Europa, o governo inglês deu sua garantia de apoio à criação de “um lar judeu” na Palestina. É a famosa Declaração de Balfour, uma carta do ministro inglês ao Barão de Rotschild . de apoio a causa judaica. Segundo, porque a derrota da Turquia, colocou toda a região sob a tutela da Inglaterra.
O período entre as duas grandes guerras só faz crescer os atritos entre os judeus, que cada vez chegavam em maior número à região e o começo de uma forte resistência dos árabes a este processo e a ação diplomática da Inglaterra, ora favorecendo a um grupo, ora a outra.
A partir da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha, um novo parceiro se intromete nesse jogo. Como tanto os judeus, quanto os árabes, enxergavam em determinados momentos, a Inglaterra como inimiga, contatos foram feitos em busca de um apoio alemão.
Enquanto o mufti (líder religioso) dos palestinos, Haj Amin al-Husseine, manteve contatos diretos com os líderes nazistas, inclusive Hitler, os judeus foram mais discretos. Como a Inglaterra criara uma série de impedimentos para a migração para Palestina, só aceitando aqueles que pudessem comprovar a posse de mil libras palestinas, dirigentes judeus negociaram com o governo alemão para que este permitisse que   judeus alemães saíssem, levando as mil libras. Em troca, a comunidade judaica da Palestina exportava para a Alemanha produtos que o bloqueio da Inglaterra impedia que ele recebesse de ouros países.
O livro de Culla mostra com riquezas de detalhes como as grandes potências europeias agiram no Oriente Médio, interferindo em seus processos políticos e determinando seu futuro.
Em primeiro lugar, a Inglaterra, que se aproveitando da falência do Império Otomano, que dominava a região até a Primeira Guerra, representou o principal papel   no drama palestino, ora estimulando a criação do Estado de Israel, ora bloqueando o acesso de colonos judeus à região,  ora fazendo o jogo dos árabes e afinal se indispondo com todas as partes.
Depois, os Estados Unidos, que de Roosevelt a Trumann, foram sempre indecisos em relação à constituição de um estado judaico. Embora sofrendo a pressão do lobby judaico americano, a Casa Branca temia a influência soviética na futura nação. O que levava a essa suspeita, segundo Culla, era o grande número de colonos judeus vindos da Rússia e a existência entre as lideranças judias na Palestina de um forte sentimento em favor de uma organização socialista na economia.
Em terceiro lugar, mas talvez o mais decisivo de todos na visão do autor do livro, foi a ação da União Soviética, que temendo uma expansão do poder inglês na região, apoiou fortemente a criação do Estado de Israel, primeiro através do Chanceler Gromiko, na ONU e depois, quando Israel já tinha sido criada, sustentando a guerra contra os árabes.
Como Estados Unidos e Inglaterra haviam bloqueado o acesso de armas par a região, conflagrada numa guerra entre árabes e judeus, foi através da Checoslováquia, já socialista, que Israel pode se armar e vencer a guerra pela sua independência.

Esse auxílio foi tão fundamental que o seu principal dirigente militar, Yithzah Rabin, depois primeiro ministro de Israel por mais de uma vez, disse na ocasião:  “Seja qual for o juízo que os judeus possam fazer dos comunistas, deve figurar em letras bem grandes que sem as armas checas, que importamos com o conhecimento da União Soviética, teríamos perdido a guerra para os árabes”