Ao vivo do Calvário

Um grande escritor pode escrever livros menos importantes, mas mesmo assim muito interessantes, caso do americano Gore Vidal (1925/2012).

Autor de obras clássicas, como Império, Washington DC e Burr, Gore escreveu um pequeno livro, cheio de ironias e que merece ser lido: ao Vivo do Calvário.Graças a um extraordinário avanço tecnológico, a rede de TV NBC conseguiu voltar ao passado e vai transmitir ao vivo a crucificação de Cristo.

Herdeiro de uma tradicional família americana, Gore Vidal começou cedo na literatura com o livro A Cidade e o Pilar (1948), que escandalizou a sociedade americana por falar abertamente sobre a questão do homossexualismo.

Gore, um gay assumido, foi o roteirista de Ben Hur (1959), dirigido por Willian Wyler e segundo contou depois, conseguiu colocar na relação de Ben Hur (Charlon Heston) com Messala (Stephen Boyd) um viés homossexual. Segundo ele, Heston, um machista assumido e presidente do Clube do Rifle, nos Estados Unidos, nunca se deu conta disso.

Oportunidade perdida.

As vezes dá vontade de dizer – viu, bem feito.

O PT esteve no poder durante 14 anos, mas teve medo de exercer o poder. Parecia pobre pedindo licença para se servir na mesa dos burgueses.

O Lula e a Dilma formaram o atual quadro do Supremo,onde o PT não tem voto. Deram poder aos Procuradores da República e à Polícia Federal, que em agradecimento denunciaram o Lula e vão prendê-lo.

Aí vêm com essa conversa mole de “postura republicana”.

Tiveram, como nenhum outro presidente, principalmente o Lula, um mandato popular para exercer o poder, mas se esconderam atrás de um discurso, dito republicano, coisa que o FHC, por exemplo, nunca fez.

Isso sem falar na Rede Globo, tratada a pão de ló pelo Lula e pela Dilma na hora de distribuir as verbas publicitárias que sustentam esse monstro.

Agora, não adianta reclamar

O homem que amava as mulheres


Ele morava sozinho num apartamento de um velho edifício perto da Usina do Gasômetro, na Rua Washington Luís, que ele insistia em chamar de Pantaleão Teles.
Quando perguntei porque esse saudosismo, ele disse que nem sabia quem era o tal Pantaleão, mas não gostava do Washington Luís, “aquele representante da elite paulista varrida pela Revolução de 30”.- Depois a Pantaleão era a rua de muitas mulheres, uma rua de meretrício, por isso mudaram o nome.
-Esses caras têm horror das mulheres.
Mulheres, era por isso que eu estava agora naquele apartamento. Ele soubera que eu havia escrito alguns livros – livros que a bem da verdade, poucos leram – e agora queria que eu escrevesse sua biografia.
E tinha até pronto o título do livro
O Homem que amava as mulheres.
Falei para ele que já havia o livro do Padura fazendo sucesso – O Homem que amava os cachorros – mas ele disse que não tinha lido e era de mulheres e não de cachorros que ele queria falar.
Disse também que havia um filme do François Truffaut de 1977, com este título.
-Eu vi esse filme. Acho que ele não vai se incomodar que eu aproveite seu título.
Como não tinha dinheiro para pagar meu trabalho, ofereceu em troca do meu trabalho sua biblioteca com centenas de livros e uma coleção de garrafas de uísque intocadas.
– Os livros, não posso mais ler porque estou quase cego e em relação a bebidas, só tomo vinho.
Essa explicação ele me deu, enchendo meu copo com um malbec argentino.
Passamos a tarde juntos.
Eu tinha levado o gravador e registrara suas histórias, prometendo que depois que escrevesse alguma coisa, voltaria para conversar com ele.
Nunca mais o vi.
Ou vi apenas nas páginas policiais quando encontrei a notícia de que um ancião que vivia sozinho num apartamento da Washington Luís, havia sido encontrado morto e seus vizinhos disseram que era um sujeito muito estranho.
O jornal o classificou de misógino. O jornalista imbecil que escreveu isso, deve ter pensado que o termo de origem grega significava um sujeito solitário, quando o significado verdadeiro era de um homem que odeia as mulheres.
Logo ele, que, acima de tudo, amava as mulheres.
Fui então procurar o velho gravador de pilha e comecei a relembrar as frases entrecortadas do seu depoimento.
O livro, não vou mais escrever, mas algumas das frases que ele disse, gostaria de dividir com vocês:
– O homem só existe por causa de uma mulher
– Mesmo quando não valem nada, elas são maravilhosas
– As mulheres me deram tudo, inclusive a vida.
– Amei centenas de mulheres. Muitas delas nunca ficaram sabendo. A maioria me traiu, mas nunca tive ódio delas.
– Amei desde as estrelas do cinema, até àquela menina de óculos que frequentava a missa das 10 na Igreja São João e nunca soube da minha existência.
– Sempre fui eclético nos meus amores cinematográficos. Sonhei com os seios da Jane Russel, no Proscrito, com aquelas italianas exuberantes como o Gina Lolobrigida e a Silvana Pampanini e as metidas intelectuais, todas francesas, como a Jeanne Moreau, a Michele Morgan e a Simone Signoret.
– Tem os que não gostam das mulheres. Tenho pena deles. Li uma vez que, quando o pai não consegue impor limites ao filho, que está literalmente grudado na mão, ele interioriza as características femininas da mãe, inclusive seu objeto de desejo, o homem. Seria um novo triângulo, pai passivo/mãe dominadora/ filho efeminado. Meio complicado isso. Prefiro o Analista de Bagé, daquele menino, o Luís Fernando, filho do Érico
– Amei mais de uma mulher ao mesmo tempo e fui fiel a todas elas nessas ocasiões. Elas, não.
– Vou confessar. Sou polígamo por natureza, mas gostaria que as minhas mulheres fossem monógamas. Bobagem. Elas são o que elas são.
– Traição? Nunca trai nenhuma. Claro que eu não falava da existência das outras. Mas quando estava com elas, não pensava nas outras. Elas, sim, pensavam em outros. Uma delas, uma vez, trocou meu nome numa hora bem imprópria.
– Chamou de quê?
-Acho que de Maicon, ou coisa que valha. Um nome americano, desses de cantor de rock. Logo eu que tenho um nome bem brasileiro.
– Vou te dar o nome de uma mulher famosa que conheci biblicamente. Na Bíblia é assim: David conheceu Sara e ela deu a luz a Jacó. Ou seja, na Bíblia, conhecer é sinônimo de transar.
_ Nome dela é ….
Vocês não vão acreditar, mas a fita se rompeu exatamente nesse momento e não vamos ficar sabendo que mulher era essa.
Acho que vou organizar todo esse material e ver se existe algum editor disposto a publicar. A meu pedido a Carmen Cecília já fez uma ilustração para o livro, porque ela, além de ser uma grande artista, acredita no amor.
Eu, depois de ouvir o que ficou no meu gravador, também começo a acreditar.

Tatuado

O dia 31 de dezembro de 2030 era a data limite.
Há muito, ele fora advertido que não poderia passar nem um minuto mais da meia noite do ultimo dia do ano sem cumprir as obrigações a que todas as pessoas que pertenciam à Nação estavam sujeitas.
Ele era então o único adulto, com mais de 18 anos, que ainda não tinha nenhuma tatuagem na pele.
Nas ruas, o chamavam de provocador.
Isso ele ainda era capaz de suportar, mas o que não podia aceitar é que sua recusa em fazer qualquer tatuagem em seu corpo era razão suficiente, pelas leis que vigoravam desde 2025, de que ele fosse expulso do cargo de professor da universidade e tivesse todos seus ganhos congelados.
Vivemos numa sociedade que cultua as tatuagens e sua recusa em aceitar uma tatuagem, por menor que seja no seu braço, é uma afronta à nossa cultura nacional, lhe dissera o reitor, tentando convencê-lo a aceitar o que era visto pelas autoridades como uma prova de adesão ao novo modelo comportamental do país.
Os poucos amigos que até há um ano atrás ainda resistiam ao seu lado, logo capitularam, deixando-o só.
Ou aceitas uma tatuagem ou serás enviado para um campo de reeducação, lhe dissera o Delegado Regional do governo em sua última carta-advertência.
Ao meio dia do último dia do ano, seu prazo fatal, ele tomou seu carro e dirigiu durante 10 horas, sem parar, em direção ao Chuí para entrar no Uruguai, onde segundo se dizia, a sociedade até aceitava os não-tatuados.
Foi detido no contorno de Pelotas por uma Patrulha de Costumes e enviado de volta a Porto Alegre, onde foi encaminhado para o Centro de Recuperação Social de Viamão.
Depois de resistir durante algum tempo a aceitar a prática, um boletim divulgado há uma semana pelo serviço de imprensa do Centro, informou que ele estaria disposto a experimentar uma tatuagem provisória feita de hena para ver como se sentiria.
Hoje, uma nova informação diz que houve uma regressão no estado do paciente, que depois de aceitar fazer uma tatuagem em hena, escreveu no braço esquerdo a frase EU RESISTO, considerada pelas autoridades como totalmente inadequada.
A nota diz que o paciente continua sob observação e as autoridades não perdem a esperança de que ela seja ainda recuperável e antes do fim do ano possa ser um novo tatuado, ainda que num primeiro momento, com apenas alguns rabiscos no braço direito.

Noticias do Brasil

1)E o Moro tinha razão. O Lula não é só dono do triplex, mas também do Taj Mahal, na Índia (os BRICs era só uma fachada para seus negócios), Versailles, na França (apenas uma parte, é lógico),o Quirinal, em Roma (uma triangulação com a OAS e o Papa), o Queluz, em Portugal (ele tem uso fruto com a Dilma e um português que para se disfarçar usa o cognome de Manuel Joaquim) e dizem que tem um apartamento em nome de um laranja no Kremlin, com vaga na garagem, que ganhou do Putin, embora nesse caso sejam apenas indícios. A informação de que teria comprado o Palácio do Catete, no Rio, com dinheiro desviado de um posto de combustível, não foi confirmada, embora a Globo insista que seja verdade.

2)Eleições sem Lula é fraude! Voto nele e se ele não puder ser candidato, voto em quem ele indicar. Só não sou PT. Nunca fui, porque o PT, como foi também o PDT do Brizola e até mesmo o PMDB em alguns momentos, são partidos que querem aprimorar o capitalismo, tornando-o menos selvagem, enquanto eu quero destruí-lo.

3)Como ateu, penso que as pessoas podem escolher a religião que quiserem para se consolarem das dificuldades que a vida apresenta para todos e apostarem numa solução mágica para continuarem depois da morte. O que me parece constrangedor é ver uma das mais altas funções do Estado, a de Presidente da Assembléia, ser confiada a uma pessoa que diz incorporar um médico alemão, que ninguém conhece e fazer operações com uma faca de cozinha, prometendo cura até o câncer, explorando a crendice popular para se eleger deputado. Marlon Santos, que já foi do PFL e hoje é do PDT, foi o terceiro mais votado na Assembléia e tem sua base eleitoral em Cachoeira do Sul, onde pratica a sua medicina”, pelo qual já foi preso e condenado em 1998. Em outubro, pretende concorrer a deputado federal, certamente para piorar ainda mais o nível cultural da nossa representação em Brasília.

4) Cem mil pessoas na Procissão dos Navegantes,em Porto Alegre, inclusive o Júnior. Isso me deixa com poucas esperanças de que um dia o Brasil possa ser um grande país.

 

Impressões de Cuba

Uma semana em Havana, não me dá nenhum direito de tentar responder a questão que sempre se coloca ao viajante de uma forma inquisitiva:

– Então, como é a vida em Cuba?

Implícita na pergunta, está a questão:

– Valeu a pena ter feito uma revolução, ou seria melhor para os cubanos se o país fosse como Porto Rico, por exemplo?

Eu, pessoalmente, nunca tive essa dúvida e sempre fui um defensor, ainda que distante, da Revolução e dos seus líderes, Fidel, Che, Cienfuegos e Raul.

A visita a Havana apenas reforçou esse sentimento e com ela pude perceber muitas das conquistas da Revolução e ao mesmo tempo, sentir que os problemas a serem resolvidos são ainda muito grandes.

O que vou relatar a seguir são as impressões de um viajante simpático ao que pude ver, em companhia do meu filho Conrado, de 18 anos.

Havana é uma cidade profundamente musical. Pelas ruas da Cidade Velha, há sempre a música cubana saindo das dezenas de bares, executada por pequenos grupos de músicos e cantores. Numa sexta-feira, à tarde, numa das inúmeras praças da cidade, sem qualquer anúncio prévio, encontro uma grande orquestra brindando o público com um concerto ao ar livre.

– Outra constatação: homens e mulheres são extremamente comunicativos e abertos ao diálogo com os visitantes. Contam das suas dificuldades (principalmente os salários baixos), mas se orgulham das conquistas que não temos aqui no Brasil: saúde e educação de primeiro mundo, de graça, da maternal à universidade; direito de moradia e alimentação básica subsidiada.

– Havana é uma cidade que preserva como nenhuma outra toda a sua maravilhosa arquitetura colonial.  Os grandes prédios e arranha-céus ficam fora da chamada Havana Velha. Há um grande esforço de preservação dos prédios, principalmente nas áreas mais nobres do centro e na orla do Malecon. Nas ruas internas, porém, falta dinheiro para conservar os prédios, que em alguns casos viram quase cortiços.

São velhos prédios de dois ou três andares, habitados por famílias mais pobres, que evidentemente, não têm condições de investir na sua recuperação. Um detalhe: ao contrário do Brasil, por exemplo, os pobres não são expulsos para a periferia da cidade. Moram no centro da cidade, próximos do seu trabalho.

Uma cidade sem mendigos e sem riscos de assaltos, mesmo na madrugada, é algo que o brasileiro, acostumado com o que vive em suas cidades, custa a acreditar, mas, segundo todos dizem, é uma realidade em Havana.

Uma cidade de brancos, negros e mulatos, que parecem em momento algum perceber qualquer tipo de preconceito. No luxuoso Teatro Nacional, onde assisto Don Quixote pelo Ballet Nacional de Cuba, dirigido por Alicia Alonso, na fila à minha frente, um grupo de jovens negras cubanas sentam ao lado de turistas alemães. O ingresso, que a mim, como turista, custou menos de 100 reais (compare com os preços do Teatro São Pedro), para elas custou a metade.

Havana é uma cidade livre dos outdoors comerciais que enfeiam nossas cidades. Um dos poucos que vi e fotografei, chama as pessoas para algo que alguns dizem não existir em Cuba: eleições.

Seu processo eleitoral é extremamente democrático, começando em pequenos núcleos populacionais, até chegar à Assembléia Nacional. Mesmo assim, o dirigente escolhido por esse processo, é chamado de ditador pela imprensa brasileira, enquanto o que chegou ao poder no Brasil por um golpe parlamentar, é chamado de Presidente.

Uma cidade que transforma dificuldades em diferenciais atraentes. Até 1959, o ano da Revolução, Cuba vivia da importação de produtos americanos. Os automóveis vinham todos dos Estados Unidos. Hoje, mantidos ainda reluzentes,  seus modelos luxuosos,se transformaram em centenas de taxis, que principalmente os conversíveis, são um dos cartões postais mais conhecidos de Havana.

O bloqueio criminoso imposto à Cuba e a sua população pelos Estados Unidos, logo depois da Revolução, foi mitigado inicialmente pelo apoio da União  Soviética, que comprava açúcar cubano por preços do mercado e vendia petróleo subsidiado, mas com o fim do regime comunista russo quase levou ao colapso o socialismo cubano.

A solução, proposta por Fidel Castro e hoje a principal fonte econômica que sustenta o regime, foi o turismo. Hoje, a Ilha é visitada por milhares de turistas europeus e asiáticos e cada vez mais cresce a rede hoteleira para atender essa demanda.

Fico orgulhoso de que meus poucos reais tenham, de alguma forma, ajudado a manter  Cuba, socialista.

É preciso salvar a História dos historiadores

 

É preciso salvar urgentemente a História dos historiadores, assim como a Política dos políticos; a Medicina dos médicos, a Economia dos economistas, a Justiça dos juristas e assim por diante.

Quem já fez um curso universitário de História sabe que os mesmos fatos e seus personagens (da História do Brasil, por exemplo), começam a ser contados nos primeiros anos do colégio e só terminam na universidade, como se fosse uma novela de televisão que se desdobra em vários capítulos.

A cada ano que se avança, novos dados são acrescentados à biografia dos heróis e os fatos ganham um desenho mais completo.

Começa assim: Dom Pedro proclamou a independência do Brasil a 7 de setembro de 1822 às margens do arroio Ipiranga, em São Paulo, e termina com uma análise do comportamento pessoal do Imperador, a influência de José Bonifácio e as intrigas das cortes no Rio e em Lisboa.

Com certo exagero, algumas vezes, chega-se ao detalhamento das condições do ambiente que cercava o imperador naquele momento crucial de sua vida, quem eram os acompanhantes, como estavam vestidos e a que hora realmente Dom Pedro bradou: “Laços fora, soldados! Independência ou Morte, seja a nossa divisa”.

Muitas vezes se faz apenas a tradução em palavras do que Pedro Américo já mostrou em seu quadro famoso. O máximo que se diz, fora da descrição linear do fato histórico, é um exercício barato de psicologia sobre os sentimentos de prepotência de quem preferia ser rei no Brasil do que príncipe em Portugal, com pitadas de conhecimentos sobre a conjunção de interesses existentes na época entre o imperialismo inglês e os defensores da independência na colônia.

Outro exemplo (verídico) dessa superficialidade: numa aula de História da América, o professor – falando sobre a chegada de Colombo na nova terra – faz uma pergunta que ele imagina importante para o conhecimento do aluno: o que Rodrigo de Triana, na madrugada de 12 de outubro de 1492, viu do alto gávea da caravela Pinta?

Para esta pergunta, só havia uma resposta certa: uma luz bruxuleante no horizonte.

Esquecendo o ensinamento de Plekhanov (1856/1918) de que “a história decorre de leis objetivas, mas os homens fazem história, na medida em que atuam, avançando ou retrocedendo em função dessas leis”, o foco principal se localiza, quase sempre no relato dos feitos dos grandes homens que lideraram guerras ou revoluções.

Nada contra essa postura. Ela, porém, é incompleta, mas, certamente, é ainda melhor do que a atual moda de minimização dos grandes feitos históricos, substituídos pelos acontecimentos do cotidiano, como é comum dos novos filósofos e comunicadores franceses.

O correto seria inserir cada um dos grandes personagens da História na vida real de suas épocas, seus condicionamentos sociais, políticos e econômicos e analisar as razões e contrarazões de suas atitudes, avaliar suas consequências e inferir até que ponto elas tiveram maior ou menor relevância para o avanço ou retrocesso do processo histórico.

Tomemos, apenas como motivação para um debate o que está sendo dito por historiadores sobre e os personagens da “Santíssima Trindade Soviética”: Lenin, Stalin e Trotsky.

O último, até porque muito cedo foi afastado do poder na União Soviética e pode assim se transformar numa fonte viva de informações sobre a revolução de 1917, ganhou uma biografia exemplar de Isaac Deutscher com a sua trilogia: “O Profeta Armado, Desarmado e Banido”.

Lenin e Stalin, entretanto, enquanto perdurou a URSS, mereceram apenas biografias laudatórias, despidas de qualquer espírito crítico. Com o fim da União Soviética e a abertura dos arquivos mantidos em segredo até então, imaginava-se que com todo esse material, os historiadores poderiam, enfim, traçar uma história dos 60 anos de vida da experiência soviética e o que fizeram ou deixaram de fazer seus líderes.

Duas das obras mais badaladas sobre estes líderes soviéticos são “Stalin – a Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore, e “Lenin – a biografia definitiva”, de Robert Service.

O primeiro – vencedor do prêmio de melhor livro de história do British Book Awards de 2004 – se perde nas minúcias da vida privada de Stalin e transforma sua atuação nos grandes expurgos de 1937, na Segunda Guerra e no fortalecimento do seu poder pessoal, num enredo digno de uma revista Caras.

Stalin manda matar seus antigos companheiros de revolução, mas, ao mesmo tempo, é um pai de família carinhoso. Isso pode ajudar a conhecer a dubiedade de um ser humano, mas é pouco importante para entender o grande (para o bem e para o mal) personagem histórico.

O livro sobre Lenin, do também professor inglês Robert Service, apesar do otimismo do subtítulo – a biografia definitiva – é ainda mais detalhista em determinados períodos da vida do grande líder revolucionário russo – como no caso da execução do seu irmão mais velho, acusado de ações terroristas contra o czar – mas perde de vista os grandes feitos de Lenin como condutor da Revolução de Outubro, suas motivações e consequências. Além de tudo, o autor faz questão de manifestar suas posições anticomunistas, típicas do período da Guerra Fria, que não condizem com a sua pretensa objetividade.

Para quem estiver interessado nesses três personagens, aqui vão algumas sugestões: sobre Trotsky, além de Deutscher, é preferível que leia até uma obra de ficção como “O Homem que Amava os Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, muito mais interessante do que os livros de alguns historiadores oficiais.

Sobre Lenin e Stalin, ninguém é melhor do que Slavoj Zizek, ainda que sua obra “As Portas da Revolução” cubra apenas um período da vida de Lenin, os preparativos e o desfecho da revolução e “Em defesa das causas perdidas”, Stalin é mais um dos inúmeros personagens que povoam o livro.

Algumas frases soltas sobre Lenin, Stalin e Trotsky, extraídas de livros e entrevistas de Zizek, mostram, mesmo em poucas linhas, a originalidade do filósofo esloveno:

“Precisamos retornar a Lenin de um modo crítico. Pensar e analisar os seus erros, para não repeti-los. Lênin foi um filósofo – primitivo e vulgar, mas um filósofo. Por esta via, retornamos a Marx, porém criticamente, com o intuito de repeti-lo de maneira diferente”.

“Stalin e Hitler não foram iguais. A prova é a existência de dissidentes. Stalin teve a todo tempo de lutar contra quem o questionava. Muita gente dizia que ele tinha traído o comunismo autêntico. Trotsky é um exemplo. Não havia ninguém assim no nazismo, nenhum grupo questionando Hitler, dizendo que ele era traidor do nazismo autêntico.”

“Na União Soviética, algo que originalmente era para dar na libertação do povo – a Revolução de Outubro – terminou em um pesadelo. Mas o objetivo inicial era outro. O nazismo era diferente. Os nazistas conseguiram exatamente o que eles queriam.”

“A figura de Trotsky continua sendo crucial na medida em que ela representa o elemento que perturba a alternativa entre o socialismo (social) democrático ou o totalitarismo estalinista. O que encontramos em Trotsky, em seus textos e em sua prática revolucionária nos primeiros anos da União Soviética, é o terror revolucionário, o domínio do partido e assim por diante, mas de modo diferente do estalinismo. Foram as atitudes do Trotsky que impossibilitaram que sua orientação vencesse a luta pelo poder estatal.”

Zizek não é especificamente um historiador, mas um intelectual, um filósofo com muitas preocupações e interesses, inclusive sobre a história.

Para completar: o melhor livro sobre a história do Oriente Médio não é de um historiador tradicional, mas de um jornalista atuante: Robert Fisk com sua monumental obra “A Grande Guerra pela Civili

A esquerda sem rumo

No momento em que nós, da esquerda parecemos ter uma só perspectiva – salvar Lula e garantir sua eleição – seria importante lembrar no que somos diferentes dos outros partidos.

Lenin dizia em 1917 que ”comunismo é todo poder aos sovietes, mais a eletrificação”. A eletrificação de que nos falava Lenin, pode ser traduzida hoje no reconhecimento e no atendimento das necessidades dos indivíduos, porque na miséria não existe nenhuma forma de socialismo.

Em vez disso, o que se ouve dos representantes da esquerda é a necessidade de mostrar eficiência na administração da coisa pública, o que a direita também sabe fazer.

Em seu pequeno livro A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, Vladimir Safatle nos dá o exemplo do Partido Comunista Italiano, que já foi o maior do Ocidente e hoje praticamente não existe mais.

Durante anos, ele esteve a margem do governo, conquistando prefeituras importantes, como Bolonha, a fim de se credenciar para comandar o País.

Quando isso ocorreu, e seu secretário-geral, Massimo D´Alema, assumiu o cargo de primeiro ministro, tudo que fez foi tentar provar que poderia governar e realizar os ajustes fiscais exigidos para que a Itália participasse da Zona do Euro

Os ajustes que os governos de direita não tinham conseguido fazer por causa da resistência dos sindicatos, o PCI, no poder, conseguiu.

O resultado foi passar ao povo a mensagem que esquerda e direita são iguais.

Qualquer semelhança com o que fez a Presidente Dilma no início do segundo mandato,não é mera coincidência.

Fazer o mesmo que a direita pretende fazer, não é uma boa política para as esquerdas, nem a italiana, nem a brasileira.

Para as duas falta um projeto que deixe claro para seus eleitores em potencial no que elas são diferentes das demais forças políticas.

Hoje, o que parece ser o único projeto da esquerda brasileira é acreditar que Lula possa ser candidato em outubro, ganhar a eleição e refazer o projeto de governo do PT, que o golpe parlamentar de 2016 liquidou.

Em longa entrevista que deu no fim de ano para a imprensa brasileira, mas que só o jornal Valor Econômico divulgou com maior destaque, Lula voltou a se defender das acusações que lhe faz a Lava Jato e prometeu o retorno do Brasil aos bons tempos do seu governo.

Ele reafirma sua inocência, acredita que vai ser absolvido das acusações do juiz Moro, dia 24 no TF4, em Porto Alegre, porque não existe nem uma prova contra ele e sua condenação “seria a negação da Justiça”.

Espicaça o Procurador Federal Dalton Dallagnol, dizendo que “ele deveria ser exonerado a bem do serviço público. Não é possível alguém ganhar tanto do Estado para contar a mentira que ele contou”.

O mais importante do que disse Lula, são suas promessas em um hipotético novo governo: valorização do salário mínimo; federalização do ensino médio;  volta dos investimentos do Estado na economia gerando empregos e renda ; reforma tributária para que o rico pague mais imposto que o pobre; taxação das grandes fortunas  e referendo revogatório sobre as leis criadas com Temer.

Com sua linguagem bem típica, prometeu que, se eleito, “pobre vai voltar a comer peito e coxa de frango outra vez, comprar picanhazinha no domingo e fazer viagens de avião”.

O que assustou na entrevista, é a sua visão sobre a política de alianças: “não adianta ser tão puro na avaliação política e na hora de perguntar- quantos deputados você tem, aí diz que não tem nenhum. Aí a pessoa fala: tem que negociar com o povo, mas o povo não está lá dentro do Congresso para negociar”. ´

Será que o Lula vai continuar a ser o velho pragmático do passado? Parece que sim, quando nega ser um radical: “Não tenho cara de radical nem o radicalismo fica bem em mim.” Depois de lembrar que em 2002 escreveu uma carta ao mercado, diz que agora vai falar só com o povo porque “este mercado injusto nunca me agradeceu por tanto que ganhou”.

Hoje, depois do golpe parlamentar que afastou Dilma do governo, da ação permanente de uma justiça partidarizada, que busca afastar da disputa política o único grande nome do PT e dos interesses do empresariado nacional e das multinacionais, mais do que nunca contemplados pela ação do governo Temer, será possível pensar que todas essas forças conjugadas, diretamente apoiadas pelos maiores veículos da mídia, permitirão a volta do Lula?

Mais do que nunca, volta à nossa memória, a famosa declaração de Carlos Lacerda, quando em 1950, Getúlio Vargas se preparava para disputar as eleições presidenciais: “Getúlio não pode ser candidato, se for, não pode ganhar, se ganhar, não pode ser empossado, se for empossado, precisa ser derrubado”.

Como todos nós lembramos, Getúlio superou todas as fases, foi candidato, ganhou as eleições, foi empossado e foi derrubado em 1954.

 

Os pedalinhos da Redenção

Porto Alegre, 2 de janeiro, meio-dia, 36 graus à sombra, nem uma brisa soprando. Estou de terno e gravata esperando o T5 na Osvaldo Aranha e maldizendo a minha sina de viver numa cidade sem praia e, pelo jeito, sem ônibus também.

Enquanto isso, alguns uns caras estão fazendo feriadão em Garopaba, Bombinhas e até mesmo em Cidreira.

Será que alguém que esteja lendo essa história, com a camisa amarfanhada e o suor correndo pelo rosto, cobrindo como uma névoa a lente dos óculos, pode entender porque insisto em ficar por aqui, quando podia estar a beira-mar, com um chope bem gelado e uma casquinha de siri pela frente, enquanto lindas mulheres circulam, seminuas, pela areia da praia?

Certamente, ninguém, até porque para entender esta louca preferência, teria que conhecer uma história acontecida há 33 anos e isso é muito improvável porque nunca a contei para alguém.

Faço isso hoje, porque terminou no último dia 31 de dezembro a promessa que fiz de guardar segredo sobre aquele estranho acontecimento do verão de 1984

Naquela ocasião, eu e mais um milhão de gaúchos tínhamos programado sair em procissão pela freeway, no final do ano, em direção ao litoral, na busca daquelas delícias que as nossas praias oferecem: o mar sempre marrom, com águas frias a desafiar a nossa valentia de gaúchos machos, restaurantes de comida cara e ruim e, à noite, a tão esperada sinfonia de mosquitos zumbindo em nossos ouvidos.

Tudo pronto para a partida dos intrépidos adoradores do mar, um telefone misterioso mudou minha vida e desfalcou o grupo deste que agora escreve este texto..

Uma voz misteriosa de mulher disse num sussurro:

– Deixa tudo para trás e venha me encontrar nos pedalinhos da Redenção.

– Agora, às 11 da noite, é pedir para ser assaltado.

– Não tenha medo, vale a pena.

E eu fui. Ela me esperava no lago, junto aos pedalinhos. Uma mulher maravilhosa, dessas que só existem nos filmes de Hollywood.

Como essa é uma publicação que as famílias costumam ler, não vou dar detalhes do que aconteceu. Fica por conta da imaginação de cada um. Só não seja tímido.

Pense nas imensas possibilidades que o lugar oferece, com posições nada ortodoxas, dentro do pedalinho, nos gramados próximos e até no lago. Nada disso, deixei de experimentar.

No final, ele me fez uma promessa, mas impôs uma condição.

Nos encontraríamos, sempre na última noite do ano, junto aos pedalinhos da Redenção, mas eu teria que abandonar em definitivo os fins de semana na praia.

E assim, foi durante os últimos 33 anos. O passar dos anos não mudou em nada a beleza dessa mulher sem nome, o que, diga-se de passagem, sempre acontece com estas personagens misteriosas.

Eu, porém, fui envelhecendo, o que me obrigou, a partir de determinado momento a buscar apoio nesses novos afrodisíacos químicos, mas nunca a decepcionei.

Até que no último dia 31, ela me avisou que a nossa aventura chegara ao fim. Por razões que escapavam ao meu entendimento e a sua vontade, ela não retornaria no próximo ano.

Mesmo assim, vou continuar esperando, bem longe do mar, apesar do calor.

Quem sabe ela muda de ideia.

De qualquer maneira, eu já não tenho mais bermudas e muito menos sunga, para pensar em fim de semana na praia.

Caso alguém queira conferir, acho que os pedalinhos ainda existem na Redenção. Só não tente encontrar a mulher misteriosa porque ela está aprisionada na minha imaginação.

O Homem

Na década de 60, eu era redator de notícias da TV Piratini e queria distância da publicidade e via com desconfiança a ação daqueles sujeitos de gravata, os contatos das agências, sempre querendo transformar em notícia, os releases dos seus clientes.

Foi quando surgiu o convite para trabalhar em uma delas, a Mercur, dirigida por um cara com fama de ser intratável, um carrasco para seus funcionários, o Hugo Hoffmann. Acho que foi o Ivanzinho Castro que me aproximou do “homem”, como todos se referiam a ele. Marcamos um encontro na sua agência. A proposta era tentadora, o dobro do salário que ganhava na televisão, mas com um inconveniente, era tempo integral e eu teria que deixar o curso de História da Faculdade de Filosofia, que frequentava pelo manhã, enquanto trabalhava à tarde na Piratini.

A reunião foi numa sexta-feira e me lembro de um questionamento dele, depois que soube que eu um adepto do socialismo.

– Como alguém que se diz socialista pode trabalhar numa empresa que defende o sistema capitalista?
Minha resposta, que foi desafiadora sem que essa fosse minha atenção, parece que agradou a ele.

– Estou sendo convidado para ser empregado da agência e não seu sócio.
Ficou combinado que começaria na segunda-feira.

Passei o fim-de-semana pensando na decisão e na segunda, resolvi avisar que não queria o emprego. Mais tarde, acabei me tornando publicitário, aceitando o convite do Faveco, quando já formado em História pela UFRGS, para trabalhar na Standard.

Numa época em que estávamos empenhados em criar o Clube de Criação, fizemos uma reunião na Mercur e pude ver na prática como o Hugo Hoffmann tratava seus empregados e não qualquer um deles, mas Barbosa Lessa, na época uma figura já legendária como pesquisador do folclore regional e que, certamente por razões financeiras, trabalhava como redator da agência. 

Ele simplesmente mandou que o Barbosa saísse da sala onde estávamos reunidos, para terminar um anúncio, que ele – Hoffmann, queria ver pronto imediatamente. Para a nossa surpresa, o Lessa obedeceu.
O Beto Soares, que na época também era da Mercur, acho que estava presente.

Um dos maiores clientes da Mercur era uma companhia de cigarros e o anúncio de uma de suas marcas, que se dizia ter sido feito pelo próprio Hoffmann, definia bem a sua personalidade autoritária:
O Homem Fuma Presidente, e Basta!