A História que se repete

Quem se interessa pela História, pela Política e pela Cultura já ouviu centenas  de vezes essa pergunta  – como foi possível que a Alemanha e Itália, pátrias de alguns dos maiores filósofos, romancistas, poetas, escultores e músicos que a humanidade já viu, puderam ter sido também os berços dos mais odiosos sistemas políticos já vistos, o nazismo, de Hitler, na Alemanha e o fascismo de Mussolini, na Itália?

Talvez, não estejamos percebendo que um regime semelhante a aqueles esteja nascendo no Brasil com a presença de uma figura ainda mais tosca do que foram Hitler e Mussolini, Jair Bolsonaro, que como aqueles dois, também chegou ao poder pela via eleitoral.

Algumas pessoas já se deram conta desse processo e estão nos alertando do perigo

Talvez o mais confiável jornalista brasileiro a ter ainda espaço na grande mídia, Janio de Freitas, traçou essa semana na sua coluna da Folha, um roteiro extremamente pessimista para o futuro do Brasil.

Analisando o atual governo, ele aponta indícios de que caminhamos para o nazi-fascismo, como ocorreu no passado com a Alemanha e Itália.

Depois de dizer que “O governo Bolsonaro não tem a direcioná-lo uma doutrina, nem de arremedo, que lhe dê fisionomia como razão de ser e de propósito, Jânio lembra algumas “coincidências históricas”: “O governo providencia, por exemplo, a criação de 108 escolas militarizadas, para início de ambicioso programa. O plano não é original, nem o era nas primeiras referências ainda na campanha eleitoral. Foi uma criação decisiva para a infiltração, ao longo dos anos 1930, do nazismo e do culto ao ditador na vida da Alemanha. O voluntariado de multidões jovens para a guerra simultânea do nazismo a dez países europeus, em 1939-40, foi obra do ensino militarizado”.

Em seguida, Janio se refere à visão de Bolsonaro e seus apoiadores sobre o cinema nacional, começando pelo entendimento deles que o filme Bruna Surfistinha seria o melhor exemplo do que é feito aqui: “Esse combate à cultura artística é usual nos governos autoritários, e se volta em especial contra percepções sexuais quando o poder é militarizado ou de submissão religiosa.

O combate ao que foi chamado de “arte degenerada”, na Alemanha hitlerista, também não começou pela censura explícita. Usou por bom tempo o arrocho financeiro e outras dificuldades, até dominar toda a arte. É o que começa aqui.”
Mais adiante, Janio de Freitas se refere a discriminação na destinação de verbas públicas “os do Nordeste não vão ter nada”: “A condição punitiva e personalista, para o direito a verbas públicas, contraria a Constituição. E foi o primeiro recurso administrativo contra o oposicionismo regional na Alemanha e na Itália fascista, assim como é comum nos poderes que buscam o  autoritarismo”.

Os sinais das práticas nazi-fascistas são realçadas pelo jornalista; “Os ataques de retaliação à imprensa, a deportação sumária e sem tempo para defesa, a desmontagem da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos são, todos, repetição do primeiro estágio de ascensão ao poder ditatorial por nazistas e fascistas.

A investida contra os índios, para a tomada exploratória de suas terras, tem semelhança com o extermínio dos ciganos dados como inúteis e viciosos pelos nazistas. Ensaio de extermínio, já anunciada por Bolsonaro as mortes de gente “como baratas”, por balas de impunidade assegurada.’

Finalmente, Jânio de Freitas chama a atenção, mais uma vez, sobre o que deveria ser uma prova para todos nós de que temos como presidente eleito uma pessoa abominável e extremamente perigosa:

“A repetição por Bolsonaro, sob a dignidade da Presidência da República, da qualificação de “herói nacional” para um torturador e responsável por pelo menos 45 mortos e desaparecidos sob sua guarda, é um desacato à Constituição. No mínimo. O coronel Carlos Brilhante Ustra foi condenado pelo que o texto constitucional define como “crimes imprescritíveis”. A transgressão de Bolsonaro, dirigida também à Presidência, é, por si só, suficiente para tornar imoral a sua continuidade no cargo.

No mínimo.”

A conspiração do silêncio.

Séculos atrás trabalhei no Jornal do Comércio dirigido na época pela família Jarros, onde escrevia uma coluna sem assinatura, com uma síntese do noticiário internacional.

Como nunca ninguém comentava nada, nem para elogiar, nem para criticar, fui dando cores cada vez mais críticas à coluna, dentro daquela linha da esquerda festiva, comum na época. Basicamente falava mal dos norte-americanos.

Um dia o Mário Jarros, que dirigia o jornal, me chamou na sua sala e disse que seus amigos da Associação Comercial tinham comentado que a coluna estava um pouco em desacordo com a linha conservadora do jornal e me pediu moderação. Saí feliz: finalmente algo que eu fazia tinha repercussão.

Mais tarde, nos idos de 60, quando trabalhava na TV Piratini, redigindo o Repórter Esso, classifiquei a Polícia de Choque de “famigerada”, depois que ela desancou o pau nos estudantes que protestavam contra a ditadura na Rua da Praia.

Fui advertido pelo diretor da televisão, Renato Cardoso, já falecido, para o risco de usar aquele qualificativo em tempos tão bicudos. Com o Aurélio em punho expliquei, mas não o convenci, que “famigerada” não era um termo pejorativo e que só servia para classificar, pessoas ou coisas, como famosas, para o mal ou para o bem.

O programa se chamava Repórter Esso, era patrocinado pela Esso Brasileira de Petróleo (o Brasileira do nome era de mentirinha), e a emissora pertencia aos Diários e Emissoras Associados, unha e carne com os militares que deram o golpe de 64. Mesmo assim, junto com o Luís Vicente Soares, o outro redator, nós contrabandeávamos algumas mensagens levemente subversivas no noticiário, principalmente quando se tratava da guerra do Vietnam, onde os americanos já estavam sendo surrados.

Ou eram mensagens tão leves que ninguém percebia, ou ninguém estava interessado no assunto. Nunca houve uma reclamação ou algum elogio dos telespectadores.

Depois disso, já trabalhando como professor na área de comunicação de uma universidade católica, falava sobre o desenvolvimento da mídia impressa no Brasil e relatava o fato de que na década de 50, a revista O Cruzeiro tinha alcançado uma tiragem de 500 mil exemplares, quando o país não tinha mais de 50 milhões de habitantes, na cobertura da morte do cantor Francisco Alves, o Rei da Voz, em 1952.

Em 1954, na morte de Getúlio Vargas, seriam 750 mil exemplares, mas isso nem cheguei a mencionar.

Salvo por alguns alunos que discutiam seus problemas pessoais no fundo da sala, a minha revelação foi recebida com um silêncio constrangedor. Como insistisse na importância do fato e na minha surpresa pelo desconhecimento e desinteresse deles, um dos alunos, com a arrogância típica dos ignorantes, tomou a palavra:

– Como é que o senhor quer que saibamos uma coisa que aconteceu há 50 anos?

Boa pergunta. O passado para aqueles alunos não existia.

Resolvi testar a memória deles. Como eles não lembravam um cantor da década de 50, cuja vida estava documentada em discos, revistas e jornais, certamente também não lembrariam de um personagem, cuja existência histórica é duvidosa, e que viveu há mais de 2 mil anos em terras muito distantes do Brasil.

– E Jesus Cristo, você lembram?

Todos lembravam.

Fiquei pensando que era preciso ensinar mais História do Brasil e menos religião nas escolas de segundo grau.

Muitos anos depois, na revista Press Advertising, onde escrevia artigos mensais sobre a Publicidade, comecei a implicar com os chamados “Jovens Criativos” – aqueles sujeitos que, mesmo nunca tendo lido mais do que manuais de criação, se acham os gênios da arte moderna e acreditavam que o mundo começou com eles.

O objetivo era provocar uma discussão sobre o preconceito da idade, tão comum nos departamentos de criação das agências de propaganda, onde a idéia dominante é de que aos 40 anos o sujeito é velho e aos 50, está morto e ainda não se deu conta.

Nenhuma contestação. Silêncio total.

Conto essas histórias, que possivelmente não vão interessar a ninguém, para comprovar a minha tese. Que tese? Simples: a de que no Rio Grande do Sul, em vez de criticar ou elogiar, as pessoas optam pelo silêncio. É um pacto não escrito, mas que impera no jornalismo, na publicidade e mesmo nas artes do Rio Grande: eu não falo mal de ti e tu não falas mal de mim. E assim ficamos todos felizes. Se alguém descumpre a regra, a gente faz que não vê, que não existe.

 

Os fantasmas da infância.

.Onde foram parar as histórias de assombração, tão comuns no passado?

O mundo dos vivos e dos mortos parece que não tinham barreiras os separando e personagens do passado dialogavam comumente com os do presente, quase sempre para relatarem problemas e pedirem ajuda para  suas “vidas” pós morte.Era muito comuns, os mais velhos reunirem a família para contar essas histórias.

O meu pai era um desses exímios contadores, em saraus que reunia a pequena família para momentos de grandes emoções e não pouco terror.  Seu prato forte era a casa mal assombrada em que a família viveu em Lajeado no início dos anos 40 anos.

Embora fosse um bebê na época, tinha mapeada totalmente na minha cabeça a geografia da casa, localizada convenientemente ao lado da estrada do cemitério, seus inúmeros quartos , os passos que ecoavam durante toda a madrugada pelos corredores e as súbitas correntes de ar que arrepiavam as pessoas, isso sem contar com constantes batidas na porta.

Lembro como se fosse um filme, meu pai decidido, durante uma dessas noites cheias de passos que sacudiam o assoalho, a caçar o intruso.  Com os pés e as mãos sobre o chão, de quatro, como se fosse um gato, com as luzes apagadas, percorria a casa inteira para surpreender o invasor e terminava sempre sem sucesso.

Como minha mãe dizia que a casa era tão grande e família tinha poucos móveis,  que algumas peças ficavam sempre vazias e fechadas,na ânsia de encontrar uma justificativa real para aqueles passos, sopros, batidas e vozes, imaginava que alguém instalara algum equipamento de som numa das peças vazias, para assustar a família por alguma razão qualquer. Obviamente nunca levantei essa hipótese junto do meu pai.

Muitos anos depois, já casado e com filhos, me valendo da amizade com o Werner Altman, que era de Lajeado, fui visitar a cidade a procura da tal casa mal assombrada.  Ela devia ficar na entrada do cemitério católico, mas para minha decepção não havia mais nenhuma casa por ali. Se houve alguma vez, desapareceu com todos os fantasmas que acompanharam a minha infância.

Quando resolvi escrever essas lembranças, procurei no Google algum registro dos programas de rádio que contavam histórias de assombração e eram muito comuns.  No youtube,  inclusive, tem um deles, o mais famoso da época: Incrível ! Fantástico ! Extraordinário ! que o Almirante produzia na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com o patrocínio de Guaraína, um remédio para dor de cabeça.

Ouvindo a radiofonização de uma história – o da Noiva Morta – me dei conta que a gente se assustava com muito pouco na época.

Os pecados da esquerda

Foram os sucessivos governos ditos socialistas da Europa, a partir do fim da segunda guerra mundial, que abriram caminho para a consolidação das ideias nacionalistas e xenófobas que hoje formam a nova imagem do capitalismo.

Alain Badiou, o filósofo francês que defende a ideia de um retorno a Marx para a construção da sua “Hipótese Comunista”, diz sarcasticamente que os maiores inimigos da revolução popular na Europa sempre foram os que se intitulam de “socialistas democráticos”.

Especificamente sobre a França, diz Badiou, analisando os sucessivos governos “socialistas” de François Mitterand, Lionel Jaspin, e François Hollande: “que vergonha para os sucessivos governos, que rivalizaram nos temas conjugados da segurança e do “problema dos imigrantes”, para que não fosse muito visível que serviam acima de tudo os interesses da oligarquia econômica! Que vergonha para os intelectuais do neorracialismo e do nacionalismo escondido, que pacientemente cobriram o vazio deixado no povo pelo eclipse provisório da hipótese comunista com um manto de inépcias sobre o perigo islâmico e a ruína dos nossos “valores” São estes que hoje devem prestar contas sobre a ascensão de um fascismo desenfreado, de que eles encorajaram implacavelmente o desenvolvimento mental”.

Na crítica ao capitalismo e ao comunismo soviético, Badiou afirma que a sua ideia comunista “é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras”

Utópica, ou não, foi contra essa ideia que importantes dirigentes socialistas e trabalhistas na Europa, na Alemanha, de Will Brandt, na Inglaterra de Tony Blair, na Espanha, de Felipe Gonzales, na França, de Mitterand e em Portugal, de Mario Soares, agiram, ajudando a consolidar o capitalismo em oposição à construção de um sistema socialista.

Mario Soares, presidente e primeiro ministro em sucessivos governos de Portugal a partir de 1975 e falecido em 2017, é agora lembrado, não por este papel tão pouco nobre, mas por sua atuação, ainda que pálida, na luta pelo fim da ditadura portuguesa de Salazar e Marcelo Caetano em 1974.

Ao contrário de outras lideranças na luta contra o fascismo em Portugal, como Álvaro Cunhal, que esteve preso, muitos anos em solitárias e que foi duramente torturado, Soares viveu boa parte da ditadura no exílio da França e fez muito pouco para a queda da ditadura, mas logo que ela caiu por força da Revolução dos Cravos, se apressou a organizar o seu Partido Socialista para assumir posições de liderança no novo governo.

Comparando com alguma figura de político brasileiro que se opôs a nossa ditadura, que foi exilado, mas não preso e que na volta da democracia se beneficiou diretamente da nova situação, poderíamos dizer que Mario Soares lembra Fernando Henrique Cardoso.

Quando da morte de Mario Soares,, em seu espaço em Zero Hora, Flávio Tavares teceu um panegírico ao político português, de quem não foi apenas um admirador, mas um grande amigo.

Para nós, seus amigos, Flávio merece respeito e consideração pela sua longa trajetória de luta pessoal contra a ditadura, luta que lhe custou sofrimentos que a muitos de nós foram poupados. Até mesmo por isso, e levando em consideração seu espírito sempre aberto ao debate, é que nos propormos a divergir de suas considerações sobre Mario Soares.

Em 25 de abril de 1974, um movimento militar anti-fascista e anti-colonialista, envolvido por uma ainda pouco clara ideia socialista, derrubou a ditadura portuguesa que começara com Salazar e continuara com Marcelo Caetano e instaurou governos provisórios que persistiram até novembro de 1975, quando um golpe de estado, arquitetado por Mário Soares, entre outros, encaminhou Portugal para um governo de centro-esquerda, dentro de um modelo tolerável pelos Estados Unidos,

Vasco Gonçalves, o verdadeiro líder dos capitães do exército português que deflagraram o movimento disse, em longa entrevista, pouco antes de morrer em 2005 que “quando nos restantes países europeus se abriam as flores murchas do eurocomunismo e da social democracia, correntes que renunciavam a toda a rebelião radical, não por uma momentânea debilidade de forças, mas por princípios políticos, Portugal pôs na ordem do dia a questão do poder. Isto teve lugar em plena crise capitalista – 1973/1974 – quando o dólar e o petróleo sofreram um abalo mundial, liquidando o keynesianismo do pós guerra, abrindo caminho ao neoliberalismo. A de Portugal foi uma revolução que questionava num mesmo movimento o vínculo imanente entre capitalismo, fascismo e colonialismo. Três formas de dominação que costumam ser apresentadas como se fossem fenômenos desligados entre si”.

Como toda a revolução, chega um momento em que as forças, unidas para derrotar um alvo específico – no caso a ditadura fascista portuguesa – entram em confronto entre si e será vencedora aquela mais capaz de mobilizar o apoio da população. Vasco Gonçalves admite que os radicais de esquerda cometeram muitos erros e que depois de um ano, o apoio popular decrescia, mas enfatiza que foi a ação externa do governo americano, através do seu embaixador em Lisboa, Frank Carlucci e da ação da CIA quem realmente levou ao golpe de 75.

No texto que publicou em Zero Hora, Flávio Tavares diz que Mario Soares se deu conta que a continuidade do governo da Junta de Salvação Nacional, fortemente influenciado pelo Partido Comunista e liderado pelos militares da MFA (Movimento das Forças Armadas), que fizeram a revolução, levaria a uma intervenção militar dos Estados Unidos em Portugal, ordenada por Henry Kissinger, o todo poderoso Secretário de Estado norte-americano

A assertiva contradiz as estratégias usadas pelos americanos para desestabilizar os governos que não serviam os interesses dos Estados Unidos, muito mais centradas em cooptar lideranças conservadoras dos países e provocar cisões em suas forças militares, do que um confronto armado.

A razão é óbvia: as intervenções armadas provocavam quase sempre a união interna no país atacado para enfrentar o inimigo externo. O exemplo da guerra do Vietnam, que terminara em abril de 75 com a derrota fragorosa dos Estados Unidos, devia estar bem vivo na cabeça de Kissinger, que preferiu usar seu embaixador Frank Carlucci, para cooptar as lideranças do Partidos Socialista, especialmente Mario Soares e alguns segmentos militares que fizeram a revolução, para a criação de um governo mais palatável aos interesses dos americanos.

Flávio Tavares diz no seu texto que Mario Soares salvou Portugal dos dois “K” mais importantes da época: Kissinger e o Kremlin.

Quanto a Kissinger, parece que, usando, não as armas de guerra, mas as diplomáticas, conseguiu seu intento, mantendo Portugal dentro da área de influência econômica americana.

Quanto ao outro “K” o Kremlin, o equívoco é ainda maior. O governo de Leonid Brejnev, preocupado com movimentos de contestação que começavam a surgir no Leste Europeu, em momento algum, teve algum interesse em qualquer tipo de confronto com os Estados Unidos. A política soviética no início dos anos 70 era claramente de coexistência pacífica e de respeito às áreas de influência delimitadas pelos acordos do final da segunda guerra.

Na entrevista com Vasco Gonçalves, já referida aqui, ele lembra que a 15 de setembro de 1975, apenas dois meses antes do golpe, Mario Soares denunciou publicamente os revolucionários, dizendo que Portugal corria o risco de converter-se numa espécie de Cuba na Europa, dando alento à conspiração de direita que tomaria o poder em novembro.

A identificação de propósitos entre o dirigente socialista português e o embaixador americano, que seria depois vice-diretor da CIA é confirmada pelos elogios mútuos entre os dois e uma declaração de Soares, dizendo que Carlucci foi fundamental para a instauração da democracia em Portugal.

Chico Buarque fez duas versões para a sua música de apoio à Revolução dos Cravos, a primeira em 75, saudando o movimento e a segunda em 78, registrando de forma poética o significado dos dois momentos, o da revolução e o da contra revolução.

Versão de 1975

“Sei que estás em festa, pá /  Fico contente/ E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim / Eu queria estar na festa, pá / Com a tua gente

E colher pessoalmente / Uma flor do teu jardim / Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar / Lá faz primavera, pá / Cá estou doente / Manda urgentemente / Algum cheirinho de alecrim”

Na versão de 1978, Chico trocou as duas primeiras estrofes

“Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E ainda guardo, renitente

Um velho cravo para mim / Já murcharam tua festa, pá / Mas certamente

Esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim”

Já que começamos com um pensador marxista não convencional, como o francês Alain Badiou, fica bem terminar com outro dessa mesma linha de pensamento, o esloveno Slavoj Zizek, cuja análise serve para os governos socialistas como pretendeu ser o de Mario Soares.

“Estou lentamente descobrindo uma lei quase geral. Se o objetivo é uma política neoliberal contra sindicatos e a legislação trabalhista, apenas um governo dito de esquerda pode impô-la’.

 

 

 

A banalização do mal

A Zona de Interesse (Zone of Interest) é um livro do americano Martin Amis, que a Companhia das Letras, lançou no Brasil.O nome era uma ironia macabra dos nazistas. Zona de Interesse, em Auschwitz, era o local onde os judeus que chegavam ao campo, passavam por uma triagem na estação ferroviária, processo que determinava se seriam mandados para trabalhos forçados durante algum tempo ou iriam diretamente para as câmaras de gás.

Para evitar alguma confusão, os alemães montavam um verdadeiro circo, até mesmo com banda de música e promessas de banho quente e alimentação farta para os que chegavam diariamente nos trens vindos dos diversos países ocupados pelos nazistas.

A ideia era fazer crer aos judeus que eles iriam trabalhar para os alemães durante algum tempo e depois voltar aos seus lares. A ilusão só terminava quando eram fechadas as grandes portas que deveriam levar os presos para os chuveiros, mas que eram realmente câmaras de gás.

O livro retoma na forma de ficção, o tema da banalidade do mal, que Hannah Arendt havia tornado universal com a cobertura que fez do julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1961, para a revista The New Yorker, posteriormente transformado em livro com o título de Eichmann em Jerusalém, disponível no Brasil na tradução para o português.

Antes de Amis, Jonathan Littel, dentro da mesma linha, misturou ficção e realidade para contar a história de Maximilien Aue, oficial da SS nazista que participa do extermínio de judeus na segunda guerra, no seu livro As Benevolentes)

Seguindo o procedimento burocrático, que Hannah Arendt identificou no comportamento de Eichmann, Littel mostra até que ponto a alienação da ideologia nazista transformou burocratas em verdadeiros monstros, imunes a qualquer sentimento de culpa e por isso mesmo capazes de manter uma vida “normal” fora de suas funções “profissionais”.

Jorge Semprun, em a Longa Viagem. ao descrever sua internação em Buchenwald, de certa maneira já havia antecipado essa visão de um campo de concentração nazista.

Nenhum deles conseguiu, porém, o mesmo impacto da obra de Amis que, a parte este caráter sociológico, tem uma qualidade literária admirável.

Um livro que prende a atenção do leitor da primeira à última de suas quase 400 páginas.

A história é contada, de forma intercalada, por três personagens: Angelus Thonsen, oficial do exército, sobrinho de Martin Bormann, o secretário pessoal de Hitler, um cético quanto os objetivos nazistas; Paul Doll, comandante do campo, um bufão, sempre bêbado e desprezado pela mulher, Klara, objeto de desejo de Angelus e Szmul, integrante de um “sonderkommando”, grupo formado por judeus, que em troca de algumas vantagens materiais, fazia o trabalho sujo para os alemães.

São estes “sonders” que encaminhavam os presos para as câmaras de gás e depois carregavam os cadáveres para o crematório ou para as valas comuns, não sem antes se responsabilizarem pela retirada do ouro dos dentes e os cabelos das mulheres mortas.

Na narração dos fatos, feita pelos três personagens, há uma superposição entre os acontecimentos trágicos que se desenrolam no campo – a execução diária de centenas de homens, mulheres e crianças, as monstruosas experiências médicas com os presos e a fome permanente dos judeus preservados para o trabalho escravo – com um simulacro de vida normal dos alemães que vivem no campo.

O comandante vive com a mulher e as filhas numa casa dentro do perímetro do campo; os oficiais alemães se reúnem periodicamente para jantares e para assistir peças teatrais e apresentações de balé, como se a vida continuasse igual aos tempos anteriores à guerra.

Chama a atenção a maneira como os oficiais nazistas tratam suas ações no campo de concentração, discutindo questões que representam a vida ou a morte de milhares de pessoas como negócios comuns do dia a dia.

É como se o campo de Auschwitz fosse apenas uma grande empresa capitalista cujos sócios se dividissem entre bons e maus administradores. Em muitas discussões ficam em polos opostos os que defendem um aumento na ração de alimentos para que os presos que realizam os trabalhos escravos tenham uma vida útil maior (seriam hoje os defensores de um capitalismo com preocupações sociais) e de outro lado, os fanáticos que enxergam na destruição física dos judeus um objetivo de vida (seriam hoje os defensores do capitalismo selvagem).

Como tudo aconteceu, é uma discussão que não tem fim. Como foi possível que a Alemanha, terra de grandes filósofos, poetas e cientistas, tenha se transformada no algoz de populações inteiras durante mais de dez terríveis anos?

Tudo teria obra apenas de um maluco, Hitler?

Ou a responsabilidade deve ser dividida com o seu círculo de poder, como decidiu o tribunal de Nuremberg que incriminou: Goering, Hess, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbrunner, Rosenberg, Frank, Frick, Streicher, Funk, Sauckel, Jodl, Seyss-Inquart, Speer, Neurath, Bormann, Schirach, Raeder, Doenitz, Schacht, Papen e Fritzsche?

Foram 19 condenações, 12 à forca, 3 à prisão perpétua e 4 à pena de prisão de 10 a 20 anos.

Isso significa a absolvição de todos os demais, que tornaram possível a existência de um sistema nazista de governo?

E os alemães que acreditavam que o nacional socialismo era a salvação do País e, em grande maioria, apoiaram os nazistas, pelo menos enquanto eles estavam ganhando a guerra?

Hoje se discute muito a responsabilidade das populações civis da Alemanha e de Israel em relação às atrocidades praticas nos países ocupados e mesmo dentro da Alemanha, pelos nazistas durante a guerra e hoje, na Faixa de Gaza e no sul do Líbano, pelos israelenses.

O que se diz mais comumente é que não se pode condenar toda uma população pelos crimes cometidos a mando dos seus dirigentes, embora tanto no caso da Alemanha, no passado e Israel, hoje, eles tenham chegado ao poder por processos eleitorais formalmente democráticos

Embora os maiores campos de extermínio – Auschwitz, Treblinka, Belzec e Majdanek – estivessem na Polônia, de 1933 (ano da ascensão dos nazistas) até 1945 (fim da guerra) existiram 16 campos de concentração dentro da Alemanha e alguns bem próximos de grandes cidades, como Sachsenhausen,  de Berlim; Bergen-Belsen, de Hannover; Dachau, de Munique e Buchenwald, de Weimar.

Esses campos, onde milhões de judeus, ciganos, doentes mentais e opositores políticos, principalmente comunistas, foram mortos, dispunham de um número enorme de funcionários, não apenas militares, mas também médicos, enfermeiros, dentistas e técnicos de vários níveis que, forçosamente, mantiveram relações comerciais e sociais com as populações em torno.

Isso sem falar nas grandes indústrias químicas, de remédios e também de armamentos que se estabeleceram nas proximidades para usar a mão de obra escrava proporcionada pelos campos de concentração, transformados em empresas financiadas pelos grandes empresários alemães.

No caso da Alemanha nazista, tema dos livros citados, é difícil admitir que a maioria da população não soubesse da existência dos campos de concentração. O mais certo é pensar que a maioria das pessoas não queria saber de suas existências.

Talvez a melhor explicação esteja num poema que tem duas versões A primeira, do pastor Martin Niemoller (1892/1986), ampliada depois por Bertold Brecht (10/02/1898 – 14/08/1956):

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar

(Pastor Niemoller)

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo”

(Brecht)

Vítimas e algozes

Falar sozinho não é só coisa de louco. Você pode aprender muita coisa dialogando, honestamente e sem preconceitos, com seu alter ego.

Outro dia, por exemplo, falando comigo mesmo, perguntei:

– O que pode ser considerado hoje como a coisa mais politicamente incorreta?

Eu mesmo respondi:

– Obviamente a homofobia.

– Mais do que isso.

– Mais do que homofobia, é muito difícil que haja alguma coisa.

– Mais!

– Quem sabe achar ridículo aquele sujeito que sobe numa árvore para protestar contra o corte que vai permitir construir uma avenida, mas não move uma palha quando o especulador imobiliário derruba uma centena de casebres para construir um espigão?

– Mais do que isso.

– Mais?

– Mais!

– Não sei.

– Falar mal dos ciclistas.

– Mas, por que alguém falaria mal dos ciclistas?

– Viu só!  Você (eu) ficou espantado com essa possibilidade. Os ciclistas são hoje os queridinhos da mídia e como você (eu) sabe, a mídia faz a cabeça de todo o mundo.

– Continuo não entendo qual o problema com os ciclistas.

-Em vez de fazer as tais ciclovias, que vão a lugar algum, a prefeitura poderia usar o dinheiro para melhorar a vida desse pessoal que vive na periferia da cidade.

– Então, é uma questão de classe social?

– É isso também. Quem anda de bicicleta é a classe média. Pobre anda de ônibus, que por sinal continua caro.

– Mas, esse pessoal que protestou contra o aumento dos ônibus não é classe média?

– É meio confuso mesmo.  Pobre que anda de ônibus, não protesta contra o aumento das tarifas e a classe média que anda de bicicleta, protesta.

– Está bem, você (eu) é contra os ciclistas por causa das ciclovias?

– Não. Sou até a favor.

– Explica que não estou entendendo.

– Os ciclistas eram vítimas desses motoristas enlouquecidos que não respeitam nada, que se acham donos das ruas, que vão atropelando todo o mundo, inclusive quem anda de bicicleta.

– Então?

– Então, começaram a dizer que os ciclistas eram as grandes vítimas e que precisavam ser protegidos.

– Errado?

– Não, certo.

– Então?

– Então, eles agora não andam mais nas ruas para não serem atropelados pelos motoristas enlouquecidos. Andam nas calçadas, atropelando os pedestres desavisados.

– Passaram, então, de vítimas a algozes.

– Não são apenas crianças que os pais recomendam, com razão, que não andem pelas ruas com suas bicicletas. São homens e mulheres que pedalam disputando o espaço na calçada, que por lei deveria ser só dos pedestres. Não sei se ainda se usa a expressão -mangolão – mas você encontra exemplares desse tipo vindo na sua direção, que se você não cair fora vai ser abalroado.

– No dicionário informal do Google, “mangolão” é sujeito muito chato, embora também registre que “mangolão” é um cara com o pênis avantajado.

– Pra mim, “mangolãoi” é o sujeito grande, desajeitado, que ocupa um lugar maior que seu corpo, principalmente quando anda de bicicleta na calçada.

– E o tal “mangolão”não pede desculpa quando invade o espaço do pedestre com sua bicicleta?

– Que nada. Ele acha que você é que está errado, que deveria ficar em casa em vez de andar na calçada.

– O que você pretende fazer?

– Vamos publicar nosso protesto no blog do Sul 21  e esperar que as autoridades não façam nada, mais uma vez

– E como vamos assinar?

Marino Boeira  e seu  alter ego, pedestres.

 

É possível ser comunista hoje?

Por que ser comunista nos dias de hoje? Não está mais do que provado que, quando aplicado, este sistema não deu certo? Não é verdade que o ser humano é individualista por natureza e jamais se adaptaria a um sistema que privilegia o coletivo? Os exemplos da antiga União Soviética e de Cuba, hoje, não são suficientes para demonstrar que na prática o comunismo não funciona?
Você já tentou responder mil vezes a estas questões, ora usando argumentos históricos, ora se socorrendo do que disseram grandes pensadores, mostrando aos seus inquisidores que simplificar as idéias faz mal para a inteligência, mas sempre recebeu em troca olhares de desaprovação, na maioria das vezes, ou ainda pior, de comiseração por insistir em defender uma filosofia morta e enterrada.
Mas, você insiste.
A crise atual do capitalismo é um bom argumento, mas fica longe de convencer os detratores do comunismo. Desde que a burguesia organizou de forma definitiva o sistema capitalista no final do século XVII, ele sempre enfrentou crises, mas sobreviveu, ao contrário do comunismo na União Soviética, que viveu pouco mais de 70 anos, dizem eles.
É verdade.
O capitalismo constrói e destrói tudo que cria num ritmo cada vez mais frenético, a um custo trágico para a humanidade, gerando miséria e destruição do meio ambiente.
Os mais tolerantes concordam com isso, mas perguntam: por que não teve êxito a experiência comunista na União Soviética?
Você começa a sua resposta mostrando a diferença entre o sistema imaginado por Marx e Engels, de uma sociedade sem classes e o que ocorreu na Rússia depois de 1917: o socialismo, com sua proposta de economia planejada, como primeira etapa do processo para ser chegar ao estágio do comunismo, foi interrompido sem chegar ao seu final.
Depois, você tenta explicar porque isso ocorreu: houve um desvirtuamento da idéia inicial da ditadura de uma classe social, que se transformou na ditadura de um partido e depois de um homem, Stalin; a necessidade de investir em armamentos para enfrentar a ameaça americana, impediu a melhoria na qualidade de vida de todo o povo; a falta de uma democracia interna gerou grandes focos de oposição, contidas apenas pela coerção policial; o apoio internacional para a União Soviética, granjeado pela sua liderança na luta contra o nazismo e fascismo durante a segunda guerra mundial se esvaiu pela ação permanente de desconstrução dessa imagem pelos Estados Unidos, pela mídia do mundo inteiro e pela Igreja.
É claro que seus adversários não vão concordar com isso. Então, você pode acrescentar que a curta existência do chamado “socialismo real” na União Soviética deixou pelo menos duas heranças importantes para quem vive nos países do “ocidente democrático”: a derrota do nazismo, que sem a resistência do Exército Vermelho, possivelmente teria se consolidado na Europa e o advento dos chamados “estados do bem estar social”, uma concessão dos governos capitalistas para afastar os trabalhadores dos “maus exemplos” do comunismo igualitário.
Aí, você chega ao ponto principal: o fato de não ter dado certo lá, não nos impede de pensar que se pode tentar de novo. O capitalismo levou quantos séculos para sobrepujar os antigos sistemas, escravagista e depois feudal? Quantas idas e vindas? E mesmo hoje, quando parece solidificado na América do Norte e na Europa Central, que tipo de benefícios ele traz para a maioria da população?
Esta é grande pergunta que deve ser feita: o capitalismo é capaz de levar a felicidade para a maioria das pessoas?
Nossa resposta será também de milhões de outras pessoas: não!
E o comunismo?
Talvez possa, corrigindo os erros do passado.
Rosa Luxemburgo disse uma vez que o dilema a ser enfrentado é: “socialismo ou barbárie”, complementado por István Mészáros de que “barbárie, se tivermos sorte, porque o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”.
Então, respondendo as primeiras perguntas desse texto: você é comunista porque você não quer viver na barbárie e pela mesma questão ética proposta, quando a Revolução Francesa já se encaminhava para consolidação da ordem burguesa, por Babeuf e os “Sans-Culottes”, de que “o fim da sociedade é a felicidade comum e a Revolução deve assegurar a igualdade dos usufrutos”.
Líder da Conspiração dos Iguais, Babeuf foi executado na guilhotina em 1797, mas muitos de suas idéias serviram de inspiração para Marx e Engels formularem as bases de uma sociedade comunista que Lênin e Trotsky tentaram colocá-la em prática na Rússia.

O socialismo possível

A longa crise em que vive o sistema capitalista no mundo do inteiro desde a última década do século passado, tem levado inúmeros pensadores a voltar a cogitar de uma sociedade socialista como remédio para os males da humanidade.
Istvan Meszaros recuperou aquele famoso dito de Rosa Luxemburgo de que a opção ao socialismo é a barbárie, ao qual ele acrescentou um adendo: na melhor das hipóteses.
Slavoj Zizek, Alain Bandiou e Jacques Rancieri, cada um a sua maneira, têm escrito e falado alertando que o capitalismo, financeiro e globalizado, perdeu aquele vigor antigo de destruir o velho para construir o novo e hoje é apenas uma força que destrói a natureza e empregos no mundo inteiro, transformando milhões de pessoas em não-vivos ou semi vivos.
Ao lado desses pensadores europeus com essa visão do socialismo, se destaca um brasileiro, Jacob Gorender, que infelizmente morreu em 2013, com o livro Marxismo sem Utopia.
O livro pode ser dividido em três etapas. Na primeira, Gorender faz uma revisão de alguns conceitos de Marx, reforçando o papel do acaso nas transformações sociais e defendendo a impossibilidade de extinção do Estado, como propunha o autor do Manifesto Comunista.
Na segunda parte, analisa o fracasso da experiência soviética a partir de duas variáveis: as dificuldades materiais da União Soviética, oriundas dos erros de sua política de planejamento econômico e a falta de democracia interna do país, onde o chamado “centralismo democrático” substituiu a participação popular em quase todos os seus níveis. Nem por isso, é um descrente na possibilidade de reconstruir o ideal socialista a partir dos ensinamentos de Marx e Engels e mesmo das experiências dos mais de 70 anos de vida na União Soviética.
Diz Gorender: “Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo”
Para a consecução desse objetivo revolucionário, Gorender se aproxima de uma das teses fundamentais de Lenin, que em 1917 dizia que o proletariado não estava ainda preparado para comandar revolução, que deveria então ser liderada por intelectuais comprometidos com as aspirações dos trabalhadores.
As modificações profundas que ocorreram nas relações de trabalho desde o Manifesto Comunista, levou Gorender a sintetizar como poderia ser este novo mundo socialista.
1) Permanência da divisão do trabalho entre físico e intelectual, sob a hegemonia de assalariados intelectuais. 2) Socialismo como objetivo abrangente em uma única fase, deixando de lado a visão utópica de Marx sobre o comunismo. 3) Permanência do Estado, sob o controle socialista ao invés de sua extinção. 4) Um sistema de democracia pluralista no socialismo.  5) A combinação de planejamento e mercado na economia socialista.

 

A COISA

 

O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.
Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.
Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.
Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.
Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.
A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.
O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.
Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.
O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.
Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.
É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.
Mas isso é assunto para outra história.
O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.
Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.
No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.
Interessante como esse processo é quase que universal. As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.
O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.
Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.
Em 1961, Jânio Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.
Varre, varre, varre vassourinha! / Varre, varre a bandalheira!
Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasil, moralizado
Governou por sete meses e depois renunciou.
Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.
Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente.
Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.
Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.
Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.
A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.
Independente do Bolaisonaro ser um produto que vai cumprir as promessas que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.
.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.
Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.
Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida,uma coisa.
Contra pulgas e baratas,use Detefon, dizia aquele velho anúncio.
Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.
Pior, é que mais da metade dos brasileiros que votaram no ano passado, acreditaram nisso.

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A dura vida de um intelectual

Eu me considero um intelectual. Embora não tenha nenhum documento que comprove isso, acho que posso me considerar um intelectual por exclusão das outras duas possibilidades. Não sou um operário, pelo menos no seu sentido clássico, porque não sei ao menos pregar um prego e a rigor nunca precisei da força física para ganhar a vida e também não sou patrão, porque nunca vivi do trabalho de outros.Durante toda a minha vida, que já está até longa demais, vivi sempre de atividades ditas intelectuais como o jornalismo, a publicidade e o magistério, pelos quais, as vezes fui relativamente bem pago dentro dos padrões brasileiros, durante alguns períodos e mal pago na maioria deles.

Feita essa apresentação, preciso fazer uma distinção entre o intelectual que é assim considerado porque não faz trabalhos físicos – os jornalistas, os publicitários e professores – e o intelectual orgânico (vide Antonio Gramsci), aquele que atua como porta-voz de uma classe social.

Pretendo, deixando a modéstia de lado, me incluir nessa categoria de intelectual orgânico, a serviço da ideia do socialismo revolucionário, ideia que, diga-se de passagem, vem ganhando um novo destaque depois de décadas de ostracismo.

A rigor, foi com Lenin, que essa figura do intelectual engajado (outro termo que logo vai voltar à evidência) ganhou destaque. Lenin dizia “às portas da revolução” (título de um livro de Zizek) que o proletariado, por si só, seria incapaz de fazer a revolução e por isso o papel dos intelectuais (os orgânicos, certamente) seria o de dirigir a revolução.

Lenin lembrava que as lideranças operárias se limitavam a lutar por conquistas sindicais e não revolucionárias, em princípio.

Trazendo esse ensinamento para os nossos dias, se por exemplo, o PT fosse comandar uma revolução, seu líder não deveria ser Lula, porque, como líder sindical, sua visão seria apenas reformista, mas sim, talvez, Tarso Genro, por ser um intelectual orgânico.

Mas, o assunto ainda não é esse.

O que estou fazendo é uma pequena análise do papel do intelectual e as dificuldades de cumprir o que se espera de um intelectual.

Sempre soube que uma das obrigações do intelectual é ler muitos livros. Põe muitos nisso. Ler continuamente, desde a alfabetização até à cegueira final.

Cinema, teatro, música, são também importantes, mas são atividades passivas, ao contrário da leitura, que deve ser sempre ativa. Você não pode fechar os olhos nunca, como na música, ou ficar divagando, enquanto as imagens passam, num filme ou os atores dialogam, no teatro.

Os livros cobram muito e algumas vezes não te entregam o que prometem, mas se você abandoná-los no meio da leitura, corre o risco de sentir culpado depois.

Não o meu amigo Werner Becker, que arrumou uma desculpa para se absolver previamente

– Já li tanto, que se o livro não estiver me agradando, a culpa não é minha, mas do livro.

Infelizmente, ainda não cheguei nesse estado

Habitualmente, escolho bem o que pretendo ler e dificilmente erro. Recomendo estes novos filósofos marxistas, como Zizek, Badiou e Meszaros; análises históricas sobre a Segunda Guerra, a Revolução Soviética ou sobre o Oriente Médio, sempre trazem alguma coisa de útil; qualquer ensaio de Robert Fisk pode ser lido sem medo; biografias (Hitler, Trotsky,  Churchill, Stalin) são sempre interessantes; caso a pedida seja um romance e se não quisermos voltar aos clássicos com Martin du Gard, Steinbeck, Faulkner, Gore Vidal, Tolstoi, Sarte ou Saramago, podemos ler sem receio qualquer livro do Phillip Roth, do Padura ou do Ian McEwan.

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, me joguei na leitura da tradução que Antonio Houaiss fez de Ullysses, de James Joyce. Virou uma guerra. Tudo me mandava colocar o livro na prateleira, mas fui heroicamente até o fim para poder dizer que tinha lido Joyce.

Há pouco, descobri lendo um artigo do Milton Ribeiro no Sul21, que o trabalho do Houaiss, apesar de meritório é confuso, que pouca gente acompanhou até o fim as desventuras de Leopold Bloom e que uma nova versão da obra, traduzida por Caetano Gallindo, poderia devolver o prazer da leitura desse livro, considerado por muitos como o mais importante da literatura inglesa.

Ainda não arrisquei, mas com o crédito que o Milton Ribeiro ficou merecedor, aceitei uma indicação dele e comprei na Estante Virtual (recomendo), Extinção, do Thomas Bernhard. Confesso que estou penando na sua leitura, como há muito não ocorria, mas prometo que vou até o fim. Agora só faltam umas cinquenta, das suas 470 páginas.

Depois, vou recomendar o livro no meu blog, esperando que outros repitam essa minha via crucis.

Parodiando Euclides da Cunha, dos Sertões, o intelectual é antes de tudo um forte