Um assunto que não cheira bem

No seu livro “Vocês brancos não têm alma”,o antropólogo gaúcho Jorge Pozzobon, já falecido, registra a queixa do Alferes Manoel Maria Frazão Pinto ao Major Antônio Maria Brandão Penna, contra os hábitos dos índios do Fortim de Nossa Senhora do Nhê-Nhê. em 1798, de se divertirem “peidando” em lugar público, inclusive durante a missa oficiada pela missionário Padre Joaquim Maria Bulhão Pinto.

Diz a missiva, na linguagem da época: “O gentio dos Uacuenses usa da flatulência para dar noção de que lhe vai na alma e que além de mostrar menoscabo ou malquerença por meio de indiscretas ventosidades, também se alegra com elas em seus bárbaros torneios, em que cada um se esforça por vencer seus pares na pestilência dos execráveis gases, na eloquência do ruído, em sua duração, assim como em sua bizarria”.

Mais adiante, o alferes diz que alguns “postam o dedo índice nas beiradas do orifício traseiro, ocasião em que se põem a apertá-lo e soltá-lo repetidas vezes, a fim de emitir ventosidades com vibrato”.

O que os índios faziam na Floresta Amazônica para se divertirem, o francês Joseph Pujol (1857/1945) fazia para ganhar a vida no palco do Moulin Rouge, de Paris.

Chamado de Le Pétomane, ele tinha o controle completo dos músculos abdominais, que lhe permitiria flatular (peidar), imitando os mais diversos sons.

Em seus espetáculos ele reproduzia o “Sole Mio” e a “La Marsellaise”, com uma ocarina (instrumento de sopro da família das flautas), através de um tubo de borracha em seu ânus.

La Pétomane era capaz também de apagar uma vela a muitos metros de distância e segundo dizem, seus espetáculos no Moulin Rouge foram assistidos, entre outros famosos, por Edward, o Príncipe de Gales, Leopoldo II, da Bélgica e até mesmo Sigmund Freud.

Questões que envolvem como os homens lidam com suas fezes, foram convenientemente tratadas como algo pouco conveniente para merecer espaço em publicações consideradas sérias.

Foram quase sempre os artistas mais rebeldes que delas se valeram, muitas vezes como uma forma de mostrar os limites das convenções burguesas ou para espicaçá-las (pour epater la bourgeoisie).

François Rabelais (Gargantua e Pantagruel) o renascentista francês, sobre a arte de limpar o ânus (viram, nada de cu), encerro hoje o assunto com a lembrança do maravilhoso filme de Luis Buñuel ,O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourguesie) – de 1973. Os burgueses fazem suas refeições isolados e defecam (ufa) reunidos numa sala. Tudo uma questão de hábitos e culturas

A lição que devemos tirar das eleições francesas

O resultado das eleições nacionais na França no último fim de semana pode indicar um novo renascer para a esquerda radical na Europa e se transformar num modelo de luta política no Brasil.

O velho jogo dos conservadores, de assustar com o extremismo de direita para impor seu candidato, deve funcionar pela última vez este ano. O centro e os setores da chamada esquerda democrática, vão ajudar a eleger o banqueiro Emmanuel Macron, para impedir a vitória de Marine Le Pen, da extrema direita, seguindo aquela máxima de Tancredi, o Príncipe de Falconieri, do livro Il Gattopardo, de Tomasi di Lampeduza, de que tudo deve mudar para que permaneça igual.

O resultado das eleições mostrou o esgotamento definitivo da farsa socialista de François Hollande, que governa atualmente a França e dos republicanos de Sarkozy, que o antecedeu e a radicalização do processo político em três vertentes: a extrema direita fascista de Marine Le Pen, o centro conservador, apoiado por eleitorado que detesta a política e que foi representado por Emmanuel Macron e a nova força política da esquerda radical francesa, Le Parti de Gauche, que se apresenta com o nome de França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon e reúne, desde o tradicional e no passado poderoso Partido Comunista Francês, até os agrupamentos mais radicais de esquerda e os movimentos setorizados em defesa da natureza e das causas feministas.

Mélenchon foi candidato nas eleições anteriores e recebeu 11,10% dos votos. Nesse ano, ele conquistou 19,62% dos votos, enquanto o centrista François Fillon ficava com 19,94%, Le Pen com 21,43 e Macron 23,86%.

A menos que Le Pen surpreenda e ganhe o segundo turno, levando a França para posições cada vez mais xenófobas e isolacionistas, o provável vencedor, Macron, cumprirá com rigor um programa que interessa aos grandes grupos empresariais.

Esse programa de integração européia há muito fez água e os sinais de sua desagregação são cada vez mais evidentes, como sinalizou a próxima saída da Inglaterra da Comunidade Econômica Européia.

As alternativas que se apresentaram até agora, são ainda mais assustadoras, como o crescimento dos partidos de direita e a vitória no plebiscito turco do Presidente Erdogan, que pretende inclusive restaurar no País a pena de morte.

A pressão das correntes migratórias da África e da Ásia, a precarização do mercado de trabalho, e o rentismo, entre outras causas, liquidaram com o modelo do estado do bem estar social nos países europeus e estão levando suas populações para escolher entre aquelas únicas opções que istván Mészaros, diz ainda ser possível: socialismo ou barbárie.

A França de Macron, certamente, se aproximará cada vez mais da barbárie, aprofundando as dificuldades econômicas dos trabalhadores franceses e pavimentará o caminho para uma vitória da esquerda radical daqui a cinco anos.

Mélenchon, que poderá comandar esse processo de radicalização política da França, é oriundo da ala esquerda do Partido Socialista, do qual se separou em 2008, para organizar a Frente de Esquerda. Nascido no Marrocos, mudou-se para a França com 11 anos. Formado em Filosofia, foi uma das lideranças no movimento estudantil francês em 1968 e chegou a Ministro da Educação no governo socialista de Lionel Jospin.

Na campanha eleitoral desse ano, defendeu entre outras propostas: o aumento das despesas públicas em 275 milhões de euros, dos quais 102 milhões seriam aplicados em obras públicas e projetos ambientais; taxação elevada do imposto de renda sobre os maiores salários,  criação de 3 milhões e meio de novos empregos e aumento do salário mínimo em 16%, passando a 1.326 euros mensais e obediência rigorosa da lei da semana de trabalho de 35 horas.

No plano internacional, Mélenchon defendeu a retirada da França da OTAN “para não ser arrastada à guerras pelos Estados Unidos e união a países não alinhados, como os da Alternativa Bolivariana”.

Embora, teoricamente viáveis dentro do sistema capitalista, suas propostas implicam, na prática, numa verdadeira revolução social só possível com uma intensa mobilização popular que seja capaz de desestruturar o esquema de poder das classes dominantes.

As eleições brasileiras em 2018 poderão ser um bom teste sobre até que ponto o frágil modelo político em que vivemos seria capaz de aceitar um retorno das políticas sociais que os governos do PT implantaram no País e que em muito se assemelharam ao que Mélenchon propôs na sua campanha.

Caso possa ser candidato em 2018, Lula não poderá mais se apoiar nas lideranças centristas que formaram, então, ao seu lado em 2002 e terá que fazer uma opção pela esquerda radical.

Será então a oportunidade dos brasileiros escolherem entre caminhar em direção ao socialismo ou a barbárie.

Sobre jornalistas

Alguns dos meus melhores amigos são, ou foram jornalistas e sempre lembro deles, como sujeitos inteligentes e cultos, embora boa parte dessas pessoas, me dou conta agora, eram mais intelectuais que jornalistas de tempo integral e que usavam os meios de comunicação para defender suas posições políticas ou ideológicas.

Eu mesmo tenho em minha primeira carteira de trabalho o registro como jornalista profissional de Última Hora, embora minha formação acadêmica tenha sido feita no curso de História da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal.

Faço essa apresentação inicial para justificar minha implicância com a arrogância de um grande número de jornalistas que usam as páginas dos jornais e os espaços na televisão e rádio para pontificarem como donos do saber absoluto.

Nos velhos tempos em que fiz do jornalismo uma profissão, a maioria de nós, se dedicava a divulgar notícias colhidas nas chamadas fontes de informação. Claro que elas sempre apareciam, de alguma forma, tisnadas por nossas inclinações políticas e ideológicas, mas era algo sempre muito sutil e certamente na maioria das vezes não percebida pelos leitores, ouvintes ou telespectadores, para a nossa decepção.

As colunas de opinião eram poucas e reservadas apenas aqueles jornalistas de maior prestígio e vivência.

Assim, em Última Hora de Porto Alegre, quem pontificava com uma coluna cheia de ironias e escrita com grande qualidade literária, era Sérgio Jockimann.  Na Folha, você lia na secção de esportes, Cid Pinheiro Cabral, também um estilista, admirado até mesmo pelos gremistas.  Havia ainda o grande Jotabê  (João Bergmann), um precursor na arte de escrever com ironia do Luís Fernando Veríssimo  e no Correio,o P.F. Gastal, nos ensinando sobre cinema,sob o  pseudônimo de Calvero, para  reafirmar sua admiração artística e política por Chaplin.

Hoje, em Zero Hora, por exemplo, todo mundo tem colunas. Salvo dois ou três que merecem ser lidos, o jornal dá espaço para que gente de pouco talento e saber gaste tinta e papel para expressar opiniões que ficariam bem numa conversa de botequim, regada com muito chope e batatas fritas.

Como professor durante muitos anos na Famecos, conheci de perto a arrogância desses futuros jornalistas, que quase sempre refratários aos livros mais volumosos, se diziam “formadores de opinião”, um dos qualificativos mais idiotas atribuídos a um grupo de pessoas.

Na época, eu  lecionava Criação para os alunos de Publicidade e quando eles se sentiam menosprezados pelos seus colegas do Jornalismo, costumava dizer a eles, que os publicitários eram muito mais honestos, porque não escondiam que iriam vender seus talentos para quem pagassem um salário maior e que eles , os jornalistas, apesar do discurso libertário, iriam escrever apenas o que seus futuros patrões permitissem.

Hoje, ainda penso do mesmo jeito. Sem que isso seja implicância de minha parte, tomo Zero Hora como exemplo. Na política, na economia, nos esportes, nos comentários internacionais, lá está sempre o mesmo discurso rasteiro e pouco criativo, nunca ultrapassando os limites ideológicos e políticos estabelecidos pelas normas da casa dos Sirotski.

Impressões da Rússia

As lembranças de Marx e Lenin estão por todos os lados em Moscou, como pode ser comprovado pela foto do autor dessas linhas, na Praça da Revolução, bancando o revolucionário com o casaco vermelho do Internacional para lembrar a cor preferencial desses velhos comunistas.

Mas não são apenas em monumentos, pinturas, ruas, estações de metrô e bibliotecas, que os nomes de Marx e Lenin desafiam o tempo e às campanhas de difamação dos velhos inimigos da revolução proletária de 1917.

Os setenta anos de grandes conquistas, mas também de erros enormes, que transformaram um país agrícola e atrasado numa grande potência mundial, a única capaz de enfrentar o poderio militar e ideológico do imperialismo americano, foram trocados por um capitalismo selvagem e destruidor de quase todas as conquistas sociais do comunismo soviético.

Obviamente, uma semana dividida entre as duas grandes metrópoles russas – Moscou e São Petersburgo – não autoriza ninguém a uma análise mais profunda da sociedade russa, nem  é minha intenção fazer isso.

O que quero deixar registrado são observações de um turista interessado em política e que antes de se dispor a atravessar um oceano para conhecer um pouco da vida russa atual, se muniu de leituras sobre importantes figuras do seu passado, da dinastia dos Romanov, passando pelos revolucionários como Lenin, Trotski, Plekanov e Stalin, aos burocratas, como Kruchiov e Brejnev e chegando aqueles que, como Ieltsin e Gorbachov, foram os grandes agentes da destruição da revolução soviética.

Primeira observação: poucos ganharam muito e muitos perderam quase tudo com o fim do regime soviético. Quase tudo não é exagero de linguagem.  Casa, eletricidade, aquecimento (vital na Rússia) e água, totalmente de graça ou subsidiada em quase sua totalidade pelo Estado, passaram a ser cobrados como manda o catecismo do capitalismo. A educação e a saúde, antes totalmente bancadas pelo Estado, hoje são extremamente caras.

O pleno emprego do passado, mesmo que os salários fossem baixos, desapareceu e em seu lugar surgiu um modelo trabalhista que não dá um mínimo de garantias ao trabalhador, nem aquelas mais corriqueiras no mundo capitalista mais avançado, como o registro em carteira do salário integral e o direito à indenização em caso de demissão.

Em contrapartida, o capitalismo russo encheu às cidades de lojas, shoppings e bancos, que estão produzindo uma classe média extremamente consumista. Uma prova são as ruas de Moscou, permanentemente conflagrada por milhares de carros, que entopem suas amplas avenidas

Segunda observação: uma figura cultuada no exterior,  Gorbachov, é totalmente desprezada pelo povo russo. Ao propor democratizar o sistema, através da Perestroika e da Glasnot, ele, na visão dos russos, destruiu o que funcionava e não criou nada melhor e pior, aniquilou com o orgulho dos russos, que viviam numa nação poderosa e que, da noite para o dia, se transformou num país caudatário da economia americana. Esse sentimento, de certa forma, explica a enorme popularidade de Vladimir Putin, visto como um grande nacionalista, que está fazendo com que os russos voltem a sonhar com o seu passado, quando faziam parte de uma nacão poderosa.

A última observação é fruto de uma visita aos palácios construídos pela dinastia dos Romanov, a partir de Pedro, o Grande, em São Petersburgo. A imensa riqueza, que ainda hoje pode servista, principalmente nos Palácios de Inverno e de Verão dos czares, mas também nas catedrais e prédios oficiais espalhados pela cidade, construída onde antes havia apenas um grande pântano, contrastava  violentamente com a pobreza do povo, submetido à fome e ao frio enregelante e ajuda a explicar porque a Revolução Comunista começou nessa cidade, com a invasão pelos bolchevistas do Palácio de Inverno em outubro de 1917.

Consultório sentimental

Dia 7, embarco para uma viagem à Rússia e Turquia. Para não deixar órfãos meus poucos leitores convidei um amigo para ocupar o meu blog durante as duas semanas em que estarei ausente. Ele concordou e prometeu divulgar em primeira mão para os leitores do Sul21 a série de consultas com importantes personalidades, inclusive da política e que, em breve, deverão compor um livro, possivelmente editado pela Editora Libretos. Só exigiu ser identificado como Mestre e não revelar os nomes dos pacientes. Como o material que o Mestre me mandou é muito amplo, ele pode ser lido aos poucos.Quem sabe uma postagem por dia. Acho que meus leitores vão gostar, até porque o Mestre ouve problemas de todo o tipo e dá muitos conselhos práticos.

 

DICAS DE COMO AGRADAR SUA MULHER (1)

– Mestre, meu nome é Tertuliano e sou casado com a Gladis Dolores. Estamos juntos há 15 anos e nunca olhei para outra.

– Mesmo assim, meu casamento vai cada vez pior. A última vez que fizemos sexo foi depois daquele jogo em que a Alemanha goleou o Brasil na Copa do Mundo.
– Tertuliano, teu problema é o excesso de fidelidade.

– A Gladis Dolores deve pensar que “ninguém quer esse traste e sobrou pra mim”.

– Tens que fazer com que ela pense que o mulherio anda enlouquecidamente atrás de ti. Não precisas arrumar nenhuma amante que isso só dá trabalho. Já te incomodas com apenas uma mulher, imagina duas.
Vou ensinar pequenos truques que vão fazer com que a tua mulher se apaixone novamente por ti.
– Quando a Vivo ligar oferecendo aquele maravilhoso plano do G7, não desligue na hora, vá respondendo com interjeições e murmúrios – sim…não.. hum…pode ser –
Quando tua mulher perguntar quem era, diz que era a Vivo
Ela não vai acreditar.
Quando tiver vendo o horóscopo no computador e perceber que ela vem chegando por trás, desligue rapidamente.
– O que estás vendo?
– Horóscopo
Ela não vai acreditar e isso é muito bom.
No sábado, antes de ir participar da pelada com os amigos, tome banho, escove os dentes, use desodorante e ponha perfume.
Explique que o pessoal estava reclamando do bodum no vestiário e não queres que pensem que a culpa é tua.
Ela não vai acreditar, mas não importa, porque sentindo que está ameaçada de perder o que imaginava ser sua propriedade exclusiva, ela vai tentar te reconquistar de qualquer jeito. Ela está a um passo de cair de paixão por ti.

– É a hora, então, de impores tuas condições.
NA HORA DO GOL (2)

–  Mestre, Meu nome é Claudia Helenice, tenho 45 anos e moro na Tristeza.

–  Me considero uma mulher moderna e sem preconceitos, principalmente na questão sexual. Sou adepta daquela teoria de que, entre dois adultos vale tudo. Posso dizer, Mestre, que nesse quesito de variedades de posições, conheço de A a Z. E não é para me gabar que digo isso, mas só para que o senhor possa me aconselhar com conhecimento de causa.

–  Depois de experimentar os mais variados tipos masculinos, inclusive o Edgar, um gay que consegui curar, estava vivendo um caso muito romântico com a Vanda Doroty, tão doce na sua feminilidade, quando, num jogo no Beira Rio, conheci o Flávio Antônio, membro daquela torcida organizada,  A Popular, e me apaixonei novamente.

– O cara é tudo de ruim que existe no mundo. É machista assumido, todo tatuado, diz que odeia gay, votou no Sartori e no Júnior e só vai casar com mulher que seja virgem. Estou louca pelo cara, mas estou adiando o momento de ir para cama com ele com medo de que ele descubra tudo que já vivi nas muitas camas pelas quais passei e não queira assumir o compromisso pelo qual sonho: casar de véu e grinalda na Igreja Santa Terezinha. Já botei a coitada da Vanda Terezinha a correr e agora só sonho com o Flávio Antônio. O que faço Mestre?

– Desculpe, Cláudia Helenice.  Por um problema ético, não posso assumir teu caso. O Flávio Antônio é meu paciente e chegou antes que tu no consultório. Só posso dizer que te livrastes de uma boa porque ele tem um problema de difícil solução. Ele sofre do que chamamos de “pênis minores”.

– Já que vocês gostam tanto de futebol, ele é como aquele jogador que nunca entra na área para fazer gol.

– É melhor chamar de volta da Vanda Doroty.

 

MÚLTIPLAS PERSONALIDADES (3)

– Sou o Eduardo Fernando, mas as vezes tenho sérias dúvidas sobre isso. Meu caso, Mestre, é de múltiplas personalidades.E não apenas uma questão psicológica. Ele modifica meu físico.

– Tem dias que eu acordo Brad Pitt. Não posso dar um passo na rua, que as mulheres me atacam. Outro dia, estava com um traje Armani e elas me atacaram ali na frente da Praça Júlio e rasgaram toda a minha roupa. Tive que entrar só de cuecas no Bradesco e o guarda ainda quis me prender.

– Outro dia, me acordei Michel Temer e bastou sair na rua para as pessoas começarem a me vaiar. Fui descer a Ramiro para fazer um exame de sangue no Hospital Moinhos e um cara que passava de carro me jogou um ovo. Tive que voltar para casa e perdi o horário do exame.

– Na sexta, me acordei Usain Bolt e para não perder a lotação para o centro, sai correndo com tanta velocidade que acabei passando do Colégio Rosário onde devia me encontrar com uma professora e só fui parar no Mercado Público. Quando voltei, ela não estava mais me esperando.

– Pior, quando me acordei gay recém saído do armário. Nada contra ser gay, mas estava tão excitado com a minha nova identidade, que fui puxar assunto com aquele rapaz do Posto Shell e ele se incomodou e ameaçou me bater.

-Agora, pior mesmo, foi quando acordei cantor de música nativista. Nem eu mesmo consegui me suportar cantando as músicas do Teixerinha, no Parcão. O que dirá aquele pessoal que fica caminhando ali de manhã cedo. Fugiram todos.

– Meu caso tem cura, Mestre?

– Teu caso, Eduardo Fernando, é de simples solução. Vamos promover no sábado no meu consultório um brainstorming (tempestade cerebral) com todos teus alter egos.

– Deves chegar às 8 horas (pega o endereço com a minha secretária, a Mafalda Fernanda) junto com o Brad Pitt, o Usain Bolt,o gay e o cantor sertanejo. Vamos ouvir todos e depois decidir qual o personagem que deves assumir. Em princípio, te aconselharia o Brad.

– Dividiremos as 24 horas do dia entre vocês dois. De dia, seria o Eduardo Fernando, para garantir o emprego no banco e depois das 6, serias o Brad Pitt

UM BOM NEGÓCIO (4)

– Meu nome é Cornualdo Ambrósio, tenho 50 anos, trabalho como vendedor da Panvel e moro no Sarandi.

– Mestre, meu problema é que minha mulher, a Maria Adelaide, está me traindo e eu não sei o que fazer.

– Antes ela era até discreta. Eu comecei a desconfiar quando ela deu de me chamar por nomes diferentes do meu, quando a gente transava. Faz tempo isso, Mestre. Quando estranhei, ela disse que eram nomes de galãs das novelas da Globo e que isso servia para apimentar a relação.

– Eu não gostava muito, afinal tenho que ter orgulho do nome que meu pai me deu – Cornualdo, uma mistura de Cornélio, do pai dele e Romualdo, de um tio. – mas fui deixando para lá.

– Agora, ela me trai abertamente.  Ela acerta os programas com os amantes por telefone, na minha frente. Semana passada, dormiu fora duas noites e disse que tinha ficado na casa da mãe que estava doente. – Ela nem se preocupa mais em mentir com alguma credibilidade. A mãe dela morreu há dois meses e nós fomos juntos ao enterro.

– O que faço Mestre?

– Meu tio, o Gaudêncio Aparecido, que mora em Quarai, me mandou um telegrama dizendo que problema com mulher sem vergonha se resolve com uma boa surra de rabo de tatu. Minha cunhada, a Maria Conceição, irmã da minha mulher, me aconselhou a arrumar também uma amante e pelo jeito dela acho que estava se candidatando à função. Finalmente, o meu primo, o Quevedo, que é um cínico e que já foi preso por falsificação de cheque, disse que eu devia conversar com a Maria Adelaide e sugerir que fizesse os amantes contribuir para o sustento da família.

– O que senhor acha, Mestre?

– Cornualdo, esquece os conselhos do teu tio Gaudêncio. Embora no passado, o rabo de tatu tenha sido um santo remédio, hoje a prática está em desuso e até mesmo será difícil achar na cidade um bom rabo de tatu. Tua cunhada, obviamente, está querendo um lugar na tua cama. Eu não aconselharia. Vai que ela seja igual à irmã – as vezes isso é problema de família, é genético – e assim acabarás bi corno, o que não é bom para a tua imagem de vendedor da Panvel.

– Com o que chegamos ao primo Quevedo. Não descartaria essa alternativa. Tu podes chegar a um acordo com tua mulher e estabelecer uma taxa compulsória que cada amante pagaria. Seria o útil para ti, e agradável para ela.Vamos supor, 20% sobre as despesas gerais da casa. Se ela conseguir cinco amantes num mês, todas as despesas seriam quitadas e o dinheiro economizado poderia formar um pecúlio para o momento em que a Maria Adelaide tivesse que se aposentar.  Isso é ainda mais importante no momento em que o Temer está querendo acabar com as aposentadorias dos trabalhadores.

 FALTA QUE FAZ O AGÁ (5)

– Mestre, meu nome é Ercules da Silva .

– É, Mestre, sem agá, meu pai dizia que como o agá era uma letra muda, não devia ser usada. Aliás, todos meus irmãos não usam o agá no nome. Élio, Erodes e Ermes. Acho que o velho queria nos humilhar (eu não tenho nada contra o agá, Mestre, e procuro escrever certo usando todos os agás que a gramática manda usar) com esses nomes. Sei que o senhor já está encerrando suas atividades, mas queria uma consultinha bem rápida.

–  Agora em abril vai nascer meu primeiro filho, um guri, e meu pai, que já está mais prá lá do que prá cá, me pediu que atenda seu último desejo, que ponha no neto o nome de  Ermenegildo, obviamente sem agá. O que faço, Mestre?

Ércules, sei que teu nome omenageia um erói, mas esse é um serviço sério que presto à comunidade. Não é ora de brincadeiras. Por oje estou encerrando minhas consultas.

O FEIO (6)

– Alô, Mestre,estou ligando aqui de Brasília.

– Meu nome Maicon Néris, sou aposentado da Previdência Social, mas soube através de uns gaúchos que acamparam aqui na Esplanada dos Ministérios, que o senhor tem solução para todos os problemas sentimentais. Espero que o senhor aceite pacientes de outros Estados, inclusive do Piauí, onde nasci.

– Como dizem seus conterrâneos, vou ser curto e grosso

– Sou um homem muito feio. Meus amigos dizem que sou mais feio que o Temer e que nunca vou arranjar uma namorada. Não quero qualquer uma. Quero uma que seja bonita, prendada e do lar.

– O que devo fazer para conquistar a minha Dulcinéia do Toboso?

–  Desculpe Mestre. Disseram que o senhor gosta muito de citações literárias e eu li essa no Google. Esse Don Quixote, com essa história dos moinhos de vento, era meio maluquinho, não Mestre?

– Mas voltando ao meu problema, e agora sim vou ser mais curto que coice de porco (essa me foi ensinada por aquele deputado do partido que só existe aí no Sul, o tal de RBS): diga Mestre, como faço para arrumar uma namorada linda, uma baita chinoca?

– Maicon, examinei seu caso com atenção, como sempre faço, mas lamento dizer que seu perfil – nascido no Piauí, aposentado da Previdência Social e mais feio que o Temer – não é adequado ao tipo de assessoramento psicológico que costumo oferecer. Não se preocupe Maicon, você não vai ficar desassistido. A Previdência Social tem também um serviço de consultoria sentimental e já conversei com o seu diretor, o Padilha, e mediante uma módica propina, ele antecipou a sua consulta, que ficou marcada para o dia 23 de novembro de 2023.

Antes de desligar Maicon, você deve depositar 100 dólares na conta do Padilha (mando um email depois com o número da conta dele no Panamá). Minha comissão de 25% e você pode me pagar diretamente, obviamente cash.

AQUELA SENHORA (7)

– Bom dia, Mestre

– Para garantir minha segurança, Mestre, prefiro não revelar meu nome. Exerço a nobre profissão de puta aqui em Brasília. Atualmente mantenho uma relação de conjunção carnal com quatro deputados representantes da bancada BBBB.

– Não ao mesmo tempo, Mestre. Um de cada vez, que sou uma puta honesta.

– O deputado da Bíblia me obriga a me ajoelhar e rezar antes e depois. Só que o durante não acontece nada

– O deputado do Boi, vai para a cama com um berrante. Quando perguntei a razão disso, me disse que quando consumasse o ato ia lançar um grito que abalaria Brasília. Até agora a cidade dorme em paz.

– O da Bola, cisca, cisca, joga de um lado para o outro, mas nunca entra na área e até agora não fez nenhum gol.

– O da Bala, ameaça, ameaça, mas hora H só sai tiro de festim

– Eu sinto que com essas atitudes eles estão desmoralizando minha profissão. Todos me pagam com dinheiro desviado de obras públicas, mas não me sinto bem. Acho que estou recebendo, sem o fazer por merecer.

– O que faço, Mestre?

–  Minha cara e misteriosa puta. Compreendo seu grave problema existencial, mas ao mesmo tempo louvo a existência de uma pessoa tão honesta como você, em Brasília. Sugiro que viajes para Curitiba e te proponhas a ser uma delatora premiada. Não precisas citar o nome de nenhum desses teus incompetentes parceiros. Diga que não te interessas por política, mas que desconfias que os tais deputados são do PT.

– Eu sei que não são, mas esse pessoal de Curitiba só se interessa por deputados do PT. Vais ganhar destaque na Veja e dependendo das tuas condições físicas, quem sabe até um ensaio sensual na Play Boy.

DANIEL E DANIELE (8)

– É assim mesmo Mestre, Daniele, mas todo mundo me chama de Daniel.

– Não sei se foi erro do cartório ou sacanagem do meu pai, que me registrou. Eu acho que ele desconfiava que eu não fosse filho dele, daí começou a criar problemas desde que nasci.

– Bulling?

– Não tinha esse nome ainda, mas todo mundo implicava comigo na escola, lá em Iraí, onde eu nasci. Acho que por causa disso foi que fiquei diferente de todo mundo. É esse o problema que me trouxe aqui, Mestre.

– Gay?

– Não, Mestre. Diferente nas atitudes.

– Se todo mundo vai pra direita, eu vou pra esquerda. Se todo mundo gosta das novelas da Globo, eu só assisto o SBT. Minha mulher diz que eu gosto de aparecer. Minha tinha Almerinda diz que não tomei sal de fruta Eno quando criança.

– Ah…o senhor não conhece aquela propaganda, “meu vizinho é do contra, faz da vida um veneno, sal de fruta Eno”. É, Mestre, eu ouvia no rádio, lá em Iraí.

– O que eu quero que o senhor faça, Mestre?

– Que me ajude, que me dê um conselho, não é essa a sua profissão?

– Missão.

-Tá bem, sua missão.

– Vou concluir, sim. Em outubro do ano passado, tudo piorou. Meus amigos estavam divididos nas eleições. Metade ia com o Raul, metade com a Luciana. Aí, pra ser diferente, eu fui com o Júnior. Agora não posso mais entrar no bar ou jogar pelada, que meus amigos logo me apontam, olha o culpado, viu no que deu votar no Júnior?

– O que faço, Mestre?

– Olha Daniele, Daniel, acho que você vai ter que carregar essa sina até a próxima eleição. Agora, cá entre nós, Daniele, tá bem, Daniel, mas vai ser diferente assim lá prá tonga da mironga do kabuletê.

– Antes de sair, paga a consulta pra secretária, que é pra aprender o que é bom pra tosse e nunca mais fazer uma bobagem dessas.

O HOMEM DUPLICADO (9)

– Bom dia, Mestre

– Bom dia, Mestre

– Por que você está repetindo o comprimento?

– Porque somos dois, Mestre

– Porque somos dois, Mestre

– Estou vendo apenas uma pessoa sentada na minha frente.

– Eu sou Carlos.

– Eu sou Carlão

– Então, vou ouvir um de cada vez. Primeiro você, Carlos. O que você precisa me contar?

– Mestre, eu gosto de cinema, de ler a Carta Capital, torço para o Inter e votei na Dilma, no Tarso e no Raul.

– Parabéns, Carlos. Boas escolhas E, você Carlão?

– Mestre, eu gosto das novelas da Globo, de ler a Veja, torço para o grêmio e votei no Aécio, no Sartori e no Júnior.

– Meus pêsames, péssimas escolhas, Carlão.

– O seu caso, perdão, o caso de vocês, é simples e muito comum, hoje em dia: suas múltiplas personalidades vivem em conflito porque são incompatíveis entre si.

– Infelizmente, eu não atendo esse tipo de problema psicológico.  Vou indicá-lo, perdão, indicá-los, para o Dr.Temer, que é o maior especialista brasileiro em dupla personalidade.

– A consulta está encerrada. Na saída paguem 600 reais, 300 para a consulta do Carlos e mais 300 pela do Carlão.

SEM SOLUÇÃO (10)

– Mestre, ninguém me ama

– Sei, ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor A vida passa, e eu sem ninguém  E quem me abraça não me quer bem. Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso. E hoje descrente de tudo me resta o cansaço. Cansaço da vida, cansaço de mim. Velhice chegando e eu chegando ao fim.

– Antônio Maria e quem canta é a Nora Ney?

– Acertei?

– Mestre, fantástico, já tinham me dito que não precisava falar muito, bastava uma palavra e o senhor entendia tudo.

– Isso se chama perspicácia. Não quero ficar me vangloriando, mas minha técnica de decifrar a mente humana faria inveja ao Freud.

– E meu problema, tem solução, Mestre?

– Não. No seu caso, como disse uma vez o poeta Manoel Bandeira, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

– Só?

– Você precisa, também, na saída pagar os 300 reais pela consulta.

 

O GÊNIO (11)

– Mestre, eu sou um gênio

– Parabéns, somos dois, então.

– O problema, Mestre, é que ninguém reconhece minha genialidade.

– O que você faz?

– Diariamente, escrevo dezenas de posts no facebook, falando de mim.

– Alguém lê?

– Sempre os mesmos, Mestre.

– E você escreve sobre o quê?

– Sobre mim mesmo. Sobre meu passado como publicitário. Os anúncios que escrevi. Os áudios visuais que produzi. As pessoas famosas que passaram perto de mim.

– Você já ouviu falar de Guy Debord?

– Era um publicitário?

– Muito mais. Ele escreveu a Sociedade do Espetáculo, onde ele mostra que no sistema capitalista, as pessoas se desumanizaram e passaram a viver num mundo de faz-de-conta, onde o que importa é a aparência e que, para vivermos nele, precisamos criar fantasias, que só nós acreditamos, a nosso respeito.

– Não entendi, Mestre.

– Não importa, é difícil mesmo para um publicitário entender essas coisas.

– O que faço, então?

– Vou lhe dar uma carta de recomendação para o Roberto Pintaúde. Ele tem uma clínica de recuperação que atende publicitários que não se conformam em serem esquecidos.

– E isso vai me ajudar?

– Não, mas você vai se divertir um bocado.

ELA (12)

– Mestre, eu sou bela, prendada e do lar

– Não acredito. A senhora é…?

– Sim, Mestre

– E ele sabe que a senhora está aqui no meu consultório sentimental?

– Não, Mestre, ele não sabe de nada. Aliás, ele não sabe de coisa alguma.

– A senhora tem certeza que não está sendo seguida?

– Quem poderia me seguir?

– Seu marido, a Polícia Federal, o Exército, sei eu lá.

– Não, Mestre, fique tranqüilo. Ninguém me seguiu e eu preciso muito de uma orientação sua.

– O que a senhora quer saber?

– Eu quero sair de casa, trabalhar, ser igual a essas mulheres modernas.

– Mas, a senhora tem uma importante função social, é um exemplo para todas as mulheres. O que a senhora faz é muito importante.

– Importante? O Mestre acha importante limpar a casa, lavar a roupa, cozinhar, para aquele vagabundo do meu marido encher a cara todo o dia e me tratar mal?

– Mas, ele faz isso?

– Faz pior, Mestre. Todo mundo conhece a fama dele lá na Vila Brasília.

– Vila Brasília? Como é o nome do seu marido?

– Eliseu.

– Eliseu? E o seu?

– Glória

–  Então a senhora não é quem eu estava pensando?

– Em que o Mestre estava pensando?

– Nada…deixa prá lá. A consulta está encerrada e como sei que a senhora não vai pagar mesmo, fica me devendo 300 reais.

A LISTA (13)

– Mestre, estou na lista.

– Não te preocupes, isso não vai dar em nada.

– Como não vai dar em nada, Mestre, já deu.

– É só notícia pra vender jornal.

– Mestre, eu estou na pior

– Fica tranqüilo, aquela turma do Temer vai dar um jeito.

– O senhor acha que o Temer vai se meter nessa briga, também?

–  Claro ele é o mais interessado em “amorcegar” tudo isso, como diria o sempre lembrado Lauro Quadros.

–  Mas, Mestre, o que o Temer tem a ver com isso?

–  O Janot, o dono da lista, deve ser amigo dele?

– Quê Janot, Mestre?

–  O cara que te incluiu na lista

– Não, Mestre, a minha lista é a do Sartori

– O Sartori também está na lista?

– Não, Mestre, eu estou na lista dos demitidos pelo Sartori nas fundações do Estado.

– Entendi. Então vou cobrar tua consulta em suaves prestações. Cada mês tu vais me pagar 10 pilas

 

PINTAÚDE (14)

– Pintaúde, Roberto Pintaúde, a que eu devo essa honra?

– Eu ouvi falar muito desse teu serviço de pronto atendimento e quis conhecer de perto.

– Fique à vontade, Pinta. Posso chamá-lo assim, de Pinta?

– Eu tenho múltiplas personalidades, perfis, endereços e identidades, uma delas pode ser Pinta.  Pode chamar sim, do nome que você quiser, porque, de qualquer maneira eu não atendo.

– Já que estás tão tolerante hoje, vou te chamar de Pinta do Marketing.

– ????

– Viu? Eu não atendi. Agora me explica: a última vez que te vi eras um publicitário metido a criativo naquela agência do morro que tinha um nome de santa. Fizestes algum curso, fostes ao Nepal, estás ganhando algum dinheiro às custas desses caras que te chamam de Mestre?

– Sei que uso indevidamente este titulo de Mestre, mas tu mesmo dissestes que tudo no mundo é uma grande sacanagem. Eu estou seguindo tua lição para faturar uns trocados. Pelo menos, eu procuro ajudar as pessoas, e não faço como o Alcebíades.

– O que é feito dele? Ele ainda sonha em ser um grande diretor de cinema?

– Nada disso. Ele vive numa praia deserta, perto do Hermenegildo e diz que agora dirige os movimentos de pássaros e peixes.

– Sempre achei, ele meio pirado. Mas eu ainda não lhe expliquei a razão principal da minha visita.

– E qual é, Pinta?

–  Cobrar pela minha idéia,

– Que idéia, Pinta?

– Essa idéia de um serviço de pronto atendimento psicológico foi minha e precisas agora me pagar meus direitos de autor

– Certo.

– Vais pagar, então?

– Não, Pinta, certo foi o que dissestes que tudo nesse mundo é uma grande sacanagem.

 

O INOMINADO (15)

-Você aqui M…

– Psiu, você não está autorizado a pronunciar esse nome.

– Mestre

– O quê?

– Mestre, aqui eu sou chamado de Mestre. É a liturgia do cargo. Eu vou lhe chamar de Doutor. É uma exceção. Normalmente trato meus pacientes por você.

– Eu não sou seu paciente. Data vênia, o Mestre pode me chamar de Excelentíssimo Doutor e o pleito que estou postulando diz respeito a minha preocupação com uma audiência programada para breve.

–  O Excelentíssimo Doutor, se me permite a linguagem pouco jurídica, está com medo de enfrentar a fera.

– Medo é um sentimento que não comungo. Minha preocupação é de ser envolvido pelas artimanhas do depoente.

–  O cara é um avião, Excelentíssimo Doutor. Mas por que é preciso ouvi-lo? Ele já disse tudo.

– É preciso, Mestre, deixar tudo muito bem lavado.

– Agora entendi aquele nome, Lava..

– Psiu, Mestre. Certos nomes são perigosos de serem ditos em público.

– O que o Excelentíssimo Doutor espera, então, dos meus não tão modestos conhecimentos?

–  Dizem que o Mestre conhece os meandros da alma humana, principalmente de gente humilde, como é essa pessoa que vou ouvir.

– Excelentíssimo Doutor, nós dois sabemos que ele é uma pessoa de bom coração – se é que estamos falando do mesmo sujeito – que nunca fez mal a ninguém e é inocente de qualquer acusação que seus inimigos possam fazer. Então, fale de coisas simples.

– Como o quê?

– Como o Corinthians, como pescarias com amigos, como ajudar os mais pobres.

– Mas e os autos, Mestre?

– Fod…desculpe, Excelentíssimo Doutor, esqueça os autos e fale sobre futebol.

– Boa idéia. Acho que vou seguir seus conselhos, Mestre. Quanto lhe devo?

– Nada. Quero apenas uma foto ao seu lado.  Igual aquela que o Excelentíssimo Doutor fez com o Aec…

– Psiu… nada de nomes e nada de fotos. Aquela, especialmente só me deu problemas. Depois para que o Mestre quer uma foto ao meu lado?

– Marketing, Excelentíssimo Doutor. Depois que publicar a foto, minha clientela de dondocas alienadas vai crescer como nunca.

– Mestre, e se a gente fizesse um “rachide” nesse negócio?

– Olha a lav…

– Psiu.

 O PADRE (16)

Eu sou o padre Busato

– Sei. Eu sou o Papa

– Sério, eu sou o Padre Busato, lá do Partenon.

– Mas padre veste bermudas e camisa pólo?

– É pra não chamar a atenção.

– O que manda, padre Busato?

– O senhor sabe…

– Mestre

– Como?

– Aqui, o senhor precisa me chamar de Mestre;

– Eu já tinha ouvido falar dessa sua exigência.

– É pra manter um distanciamento crítico.

– Certo, como eu ia dizendo, tenho uma proposta para lhe fazer.

– Diga

–  Que tal uma franquia do seu serviço no Partenon?

– Uma franquia, que nem o MacDonalds? Não é má idéia.

– Eu tenho 10 anos de experiência, ouvindo as pessoas no confessionário. Podia usar esse expertise para ganharmos um bom dinheiro.

– O padre parece bem moderno com esses termos em inglês e quando fala em ganhar dinheiro é música para meus ouvidos. Oitenta por cento pra mim e vinte pra você.

– E na bundinha não vai nada?

– Padre pode falar assim agora?

– Depois que tiraram o latim das missas, vale tudo. Meio a meio?

– Sessenta para mim e quarenta pra ti.

– Meio a meio. Tenho que dar algum para o sacristão.

– Tá bem, vou fazer uma experiência.

– Começo no domingo, depois da missa das 10.

– O que você vai dizer para os seus fieis?

– No sermão, eu explico que existem os pecados que devem ser contados no confessionário e dúvidas existenciais, que devem ser dirimidas no nosso serviço.

–  Acho que a nossa parceria pode ir longe.

– Durante a confissão, eu reforço a idéia de que é preciso completar o serviço no consultório.

– E onde você vai ouvir os pacientes?

– Na sacristia.

– Tá bem, só tem uma coisa. A sacristia não é o lugar onde tem aquela água que os padres jogam nas pessoas.

– É a água benta e não jogam, aspergem nos fieis. Mas qual é o problema?

– É que a água do DEMAE está toda poluída e aí nos salvamos a mente dos pacientes e condenamos seus corpos.

O HOMEM (17)

– O senhor não pode ir entrando desse jeito na minha sala. Não está vendo que tenho pacientes?

–  É a Federal

– O que fiz de errado?

– Nada

– Então por que o senhor está me puxando pelo braço? E quem são esses outros sujeitos mal encarados?

– É a guarda pessoal do homem

– Que homem?

– Você já vai saber. Leia esse papel.

–  Mandado de condução coercitiva. E daí?

– Vamos, o homem está esperando.

(troca o cenário)

– Desculpe ter trazido o senhor dessa forma a minha presença..

– Mestre.

– Como?

– Devo ser tratado como Mestre, é uma questão de protocolo.

– Sim, Mestre, preciso de sua ajuda. Estou sendo assediado por fantasmas.

– Desculpe, mas não sou exorcista.

– Acho que são fantasmas que só existem na minha cabeça. Mesmo assim, eles não me dão descanso. Estão sempre me cobrando, fazendo acusações.

– O senhor leu Hamlet, do Shakespeare?

– Não, Mestre, só leio livros de Direito, mas quem foi esse  Hamlet? É de algum partido da base? Tem alguma denúncia contra ele?

– Esquece. Ele também via fantasmas.

– Somos dois, então. Foi o Eliseu quem me aconselhou a procurar seus conselhos. O que o Mestre me recomenda?

– O senhor lembra do Sal de Fruta Eno?

– Claro. Tinha até aqueles versinhos no rádio que eu ouvia lá em Piracicaba: Meu vizinho é do contra, faz da vida um veneno, Sal de Fruta Eno. Mas o que vai adiantar eu tomar Sal de Fruta Eno, se o meu problema é um fantasma que não me deixa dormir?

– Por favor, preste atenção no meu raciocínio. O fantasma é um personagem que representa o Zé da Silva.

– Quem é o Zé da Silva? Com esse nome, deve ser do PT?

– Deve, sim. Ele representa o povo brasileiro, que está puto da cara com o que você vem fazendo. Ele fica atazanando seus ouvidos, gritando Muda…Muda.

– É parece que eu ouço mesmo esse Muda…Muda… Mas mudar o quê?

– Tudo.

– E aí o fantasma vai me deixar dormir?

– Segundo pesquisas que fiz nessa área da psicologia, o índice de aprovação dessa técnica é de…

– Não me fale em pesquisas que eu tenho um troço…

– Socorro…o homem não está passando bem.

 

O LADRÃO (18)

– Isso é um assalto, Mestre

– Como um assalto?

– Simplesmente um assalto, eu sou um ladrão e vim lhe roubar.

– Como é que você passou na portaria?

– Eu disse que era um paciente seu.

– Quer dizer que além de ladrão, você é mentiroso.

– Mentiroso, não. Olha o respeito. Posso ser ladrão, mas não sou mentiroso.

– Você disse que era meu paciente, mas não é. Isso é uma mentira.

– Em termos, Mestre. Depois de lhe roubar, posso me tornar seu paciente. Afinal, terei dinheiro para lhe pagar a consulta.

– Quem sabe, fizemos uma permuta. Eu lhe ouço e não cobro a consulta. Em troca, você não me assalta.

– O Mestre está me propondo um escambo?

– Mais ou menos. Onde é que você aprendeu o significado dessa palavra.

– Eu era professor do Estado.

– Não é mais?

– Com o salário que o Sartori está pagando, ainda mais parcelado, não dá para viver.

– E como ladrão, dá?

– Não sei, Mestre, é meu primeiro roubo. Dizem que hoje é uma profissão de futuro.

– Mas, você está equipado para roubar? Tem revólver?

– Ainda não, Mestre. Minha ideia era com o dinheiro desse primeiro roubo comprar um revólver.

– Mas, você sabe atirar?

– Claro que não, Mestre. Por isso resolvi lhe assaltar. Ouvi dizer que o senhor está ganhando uma nota. Com esse primeiro roubo, pretendo comprar o revólver e me matricular numa academia de tiro.

– Posso lhe dar um conselho?

– Se for de graça, pode.

– Esse é de graça, mas não se acostume. Esse mercado que você quer entrar está muito saturado. Todo dia têm centenas de caras querendo roubar alguma coisa. É gente especializada, com formação superior na área do crime. Não é coisa para um amador como você.

– Puxa, Mestre, assim o senhor me desanima. Vim aqui cheio de esperanças de começar uma carreira de sucesso no mundo do crime e vou sair frustrado, mas uma vez. O que vou dizer em casa?

– Você avisou em casa que iria virar assaltante?

– Claro. Minha mulher disse que era a última chance que estava me dando. Não posso voltar para casa de mãos abanando.

– Quanto você esperava ganhar nesse seu primeiro assalto?

– Pra falar a verdade, Mestre, eu esperava levantar uns 100 pilas para garantir o rango dessa semana.

-Mas hoje é só segunda e você quer garantir o rango da semana inteira?

– Puxa, Mestre, você parece que não lê jornal e não sabe como está a vida de um professor.

– Vamos fazer o seguinte: eu lhe dou 500 pilas e você diz em casa que seu primeiro e último assalto foi um sucesso.

– Por que, último, Mestre?

– Porque essa é uma profissão muito perigosa. Hoje, o único crime que compensa é o do colarinho branco.

– Bem que o Pintaúde me disse que o senhor se finge de durão, mas é um tremendo sentimental, um mão aberta.

– O que o Pintaúde tem a ver com isso?

– É uma pegadinha, Mestre. Ele apostou que se eu viesse aqui, fingindo que era um assaltante, o Mestre, além do dinheiro, iria me dar bons conselhos de vida.

O AMIGO (19)

– Mestre, estou aqui como amigo, mais do que como paciente.

– Tá bem, então vou cobrar só metade da consulta.

– Que é isso, Mestre, virou um capitalista selvagem? Esqueceu os tempos do Partidão?

– O que posso fazer? O Roberto Freyre não virou ministro do Temer e ele foi até o nosso presidente?

– Posso pendurar a consulta?

– Como você foi um antigo companheiro, vou parcelar em quatro vezes, mas com juros do mercado. Pode falar.

– Lembra a Martinha, foi nossa camarada naquele aparelho na Zona Sul?

– Aquele tetéia – ainda se usa, tetéia? – claro que lembro. O que tem ela?

– Estávamos juntos há mais de 5 anos.

– Sortudo, hein, mas qual é o problema, então?

– Ela me largou.

– Acontece. É da vida.

– Tudo bem, só que a Martinha me trocou por aquele fascistazinho do MBL. Aquele que aparece seguido no rádio defendendo os golpistas.

– Eu sei que como consultor sentimental o que vou dizer é profundamente incorreto politicamente, mas nunca confiei nessas bonitinhas que se dizem de esquerda.

– O pior mestre é que quando falei que o cara era tudo aquilo que a gente sempre detestou, ela concordou, mas disse que ele era muito melhor do que eu na cama.

– Ela falou isso? Que Messalina. Me desculpe, mas não havia ninguém no Partidão que fosse melhor de cama que tu?

– Foi o que pensei, Mestre, se o problema era esse, ela não precisava procurar um cara do MBL.  Eu até fiz uma lista de companheiros que poderiam ser possíveis candidatos e mostrei para ela.

– E o que ela disse?

– Disse que eram caras problemáticos e quase todos eles passaram pelo teu consultório. Por isso estou aqui para que me digas qual o problema deles.

– Nunca te falaram sobre o segredo que um profissional como eu deve guardar sobre o que falam seus pacientes? Mas, vamos lá, tu me diz os nomes e se puder e não ser contra minha ética profissional, falo alguma coisa.

– O Adroaldo?

– Esquece, ele está morando com o Eduardo lá no Passo da Areia.

– O outro era o Eduardo, que o Mestre já respondeu. Pensei no Ananias, ele sempre falou que costumava destruir as mulheres na cama.

– Como não foi ele quem me contou, posso falar. A Isaurinha foi pra cama com o Ananias e ela disse que ele passou a noite tentando explicar a teoria da Mais Valia.

– É que é uma teoria complicada, Mestre, mas vamos riscar o Ananias.

– Pensei no Abelardo, aquele do Movimento Negro. Sem querer ser preconceituoso, Mestre, mas sabe como é, as mulheres sempre fazem fantasias sobre a potência dos negros, ainda mais o Abelardo, com seus dois metros de altura e braços de estivador.

-Risca o Abelardo da lista, pobre do Abelardo, teve que retirar a próstata na semana passada.

– Não sobrou ninguém, então. Acho que vamos ter que procurar um garanhão fora do Partidão.

– Isso nunca. Como vai ficar nossa imagem? Ninguém do Partidão se dispõe a dar o prazer que a Martinha tem o direito de exigir? Aliás, direito que todas as mulheres têm. Fico pensando…quem sabe?

– Vocês ainda não rasgaram minha ficha? Claro que não. Uma vez do Partidão, sempre do Partidão. Eu vou assumir essa responsabilidade. Tudo pela causa.

Só me responde uma coisa: a Martinha continua sendo aquela tetéia?

 O COACH (20)

– Mestre, eu vim lhe oferecer meus serviços

– O senhor errou de porta, aqui quem oferece serviços sou eu. Aliás, o verbo oferecer é um pouco inadequado para o caso. Eu vendo meus serviços.

– Eu sei Mestre, por isso mesmo o senhor precisa de mim.

– Você está me deixando nervoso. Diga logo quem é você e que serviço quer oferecer.

– Eu sou um coach

– Continuamos na mesma. O que vem a ser um co…

– Coach

– Está bem, mas o que você faz

– Faço coaching

– Você está me provocando?

– Não, Mestre. O profissional de coaching atua como um estimulador externo que desperta o potencial interno de outras pessoas, usando uma combinação de flexibilidade, insight, perseverança, estratégias e ferramentas pautadas em uma metodologia de eficácia comprovada.

– Entendi

– Caso concorde, eu poderei ser o seu coach e o Mestre será meu coachee num processo destinado a melhorar seu desempenho.

– Entendi. É mais ou menos um treinador

– Quase Mestre, é que a língua portuguesa não tem o termo adequado.

– Coach é mais do que um simples treinador.

– Entendi. Precisamos nos socorrer com o inglês.

– OK. You´re righ

– Realmente, o português é uma língua muito pobre.

Vou lhe responder então em inglês: Fuck you

 CONVERSAS CRUZADAS  (21)

–  Saia da linha que estou falando com a minha mulher

–  Você é que entrou na linha. Eu estava falando com a minha paciente.

– Sua paciente é a minha mulher?

– Eu não sou paciente e muito menos mulher de alguém.

– É uma conversa cruzada, então?

– Vamos nos apresentar. Eu sou aquele que os gaúchos escolheram para representá-los.

– Eu sou o Mestre

– Eu sou a vítima.

– Eu sou adepto daquela teoria, escreveu não leu o pau comeu.

– Eu tento entender

– Eu só levo porrada

– Depois que levei um choque naquela festa, fiquei elétrico.

– Minha função é jogar água fria na fervura

– Mandaram me queixar pro bispo. Pode ser o Edir?

– Quero deixar claro que não leio mais jornal no almoço.

– Atualmente só estou lendo bula de remédio

– Onde encontro a Lei da Maria da Penha para saber dos meus direitos?

– Não tenho mais tempo. Onde assino?

– Vou lhe mandar um recibo pelo sedex

– Vou lhe mandar a conta do hospital pela internet

– Alô, chama o seu Maurício

-Alô, chama o doutor Lacan

Alô, chama um médico. Qualquer um.

Lembranças do Julinho

O Colégio Estadual Júlio de Castilhos, ou apenas o Julinho, foi além de uma escola padrão de ensino médio no Rio Grande do Sul, principalmente nas décadas de 50 e 60 do século passado, uma instituição voltada para o desenvolvimento da consciência política e o senso de liberdade entre os seus alunos.

Frequentei seus bancos escolares nas três bases físicas em que o colégio se desenvolveu durante a década de 50: o prédio histórico da Avenida João Pessoa, incendiado em dezembro de 51, no dia em que começariam as provas de final de ano; o prédio provisório (que durou quase 10 anos) do Arquivo Público, na Riachuelo e finalmente, o novo prédio da Azenha, junto à estátua de Bento Gonçalves.

Com algum atraso, li o livro que Otávio Rojas Lima e Paulo Flávio Ledur organizaram para comemorar os 100 anos de fundação da escola e contar um pouco da sua história desenvolvida nesses três locais.

O livro faz um registro dos nomes de todos os diretores do Julinho e dos presidentes do Grêmio Estudantil, além de coletar depoimentos de alguns dos mais ilustres dos seus alunos sobre a sua vivência na escola.

Não há muito a acrescentar ao que tantos ex-alunos já disseram, mas lembrar o sentimento de um menino que vivera seus primeiros anos de estudo no Interior e que chegado à primeira série do Julinho, se deparava com um mundo de liberdades e também de grandes cobranças para as quais não estava habituado

De início, era preciso passar com coragem pelas provas que os veteranos faziam nós, os calouros, cumprir. Vencida esta etapa, éramos integrados ao espírito de camaradagem geral e poderíamos então ser considerados novos “julianos”.

Um dos segredos (nem tanto assim) que nos era revelado, dizia respeito aos apelidos pelos quais os professores eram conhecidos e que os acompanhavam por todas as séries.

Alguns deles, o tempo apagou, mas outros ficaram, certamente os dos professores mais marcantes. Assim, Zepelim era professor de Geografia, possivelmente uma homenagem a sua careca reluzente; Motorzinho, da Matemática, pela rapidez com que escrevia no quadro números e fórmulas; Lapiseira, excessivamente magro e alto, que ensinava Latim (sim, estudávamos Latim nos quatro anos de ginásio, lendo os 4 volumes dos “Ludos”,do Padre Milton Luís Valente) e Mademoiselle Fifi, obviamente era a professora de Francês.

O mais original de todos, porém, era o professor “Pauuuááá!”. O esdrúxulo apelido era fruto do sotaque alemão carregado do professor de música, sempre pronto para apontar o caminho da rua para os alunos pouco atentos ao seu batucar nas teclas do harmônio caindo aos pedaços, que dois ou três alunos recebiam a missão de carregar para a sala de aula.

Independente dos apelidos, os professores do Julinho se destacavam pelo seu saber, pela liberdade que pareciam dispor nos caminhos que escolhiam para ensinar e pelas excentricidades de alguns.

Esse comportamento inspirava aos alunos a também cultivar o espírito de liberdade e dela se gerava atitudes políticas precoces. A eleição para o Grêmio Estudantil era uma batalha política importante, até porque a entidade estudantil era extremamente atuante e tinha poder de interferir até mesmo na administração da escola.

O primeiro voto – extremamente consciente – que dei na minha vida foi para a presidência do Grêmio Estudantil em 1952. Aos 12 anos de idade, votei em Flávio Freitas Tavares, encantado com o seu discurso em sala de aula, e nunca me arrependi desse voto.

Passeando pelas páginas do livro que Rojas e Ledur organizaram, pude me dar conta, mais uma vez e sem qualquer originalidade, de uma grande mudança ocorrida no espírito dos jovens daquela época e os de hoje.

É claro que pode haver uma generalização injusta do que vem a seguir, comparando o que disse Suzana Keniger Lisbôa, no seu depoimento e uma imagem dos jornais de hoje.

Suzana, viúva de uma das vítimas mais icônicas da repressão da ditadura –  Luiz Eurico Tejera Lisbôa, o Ico – depois, uma liderança da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos – diz no seu depoimento que em 1967 teve sua foto estampada na capa de Zero Hora, com uma lata de spray na mão, durante uma passeata, pintando frases contra a ditadura e contra o acordo MEC- USAID.

Hoje, você vê menos frases políticas de protesto pintadas nos muros. Os pichadores preferem produzir estranhos garranchos, quase uns hieróglifos, de preferência nas paredes recém pintadas de um prédio público, com frases sem sentido, do tipo “e daí, cara?”

Claro que, como os tempos são outros, as frases de protesto migraram para a internet e lá talvez sejam mais eficientes para os fins a que se destinam.

Mas, de qualquer maneira, é sempre gratificante ver um “# fora Temer”, pintado no muro da esquina e quem sabe, daqui a pouco, também um “Lula 2018”.

 

Prestes, quase um desconhecido

Luís Carlos Prestes é ao lado de Getúlio Vargas um dos dois ou três mais importantes personagens da história política do Brasil no século XX. Em nenhum dos episódios mais marcantes que o País viveu, entre 1920 e 1990, quando morreu aos 91 anos, Prestes deixou de ser um protagonista importante, ou pelo menos, quando ausente, exerceu forte influência sobre eles..

Uma figura tão extraordinária, por força dos preconceitos que ainda hoje persistem contra os defensores da criação de uma sociedade socialista no Brasil, é muito pouco estudada, permitindo com isso que vicejem versões discutíveis sobre a sua participação em momentos cruciais da história do Brasil, como a Coluna Prestes/ Miguel Costa, a Revolução de 30, as ações militares de 35 (pejorativamente chamada de Intentona Comunista), as relações com Getúlio Vargas no final do Estado Novo, o golpe de 64 e finalmente seu conflito com os dirigentes comunistas nos anos 80.

Outro dia, o vereador Wambert Di Lorenzo, um político da extrema direita, ligado ao Movimento Opus Dei, apresentou projeto na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, tentando impedir que o Memorial Luís Carlos Prestes, criado por uma lei municipal em 2010, ocupe o prédio que lhe foi destinado na Praia de Belas.

O prédio, uma obra de Oscar Niemayer tem previsão de inauguração para outubro próximo, mas o vereador pretende, numa manobra pouco ética, que ele seja usado como museu para um movimento em defesa da cultura negra na capital.

Por tudo isso, é preciso falar novamente em Luís Carlos Prestes. As gerações mais novas, hoje extremamente alienadas da história do Brasil, precisam conhecer sua história, até para entender muitas das coisas que ocorrem hoje no País.

Além de uma biografia laudatória escrita em 1942 por Jorge Amado, “O Cavaleiro da Esperança”, o que tínhamos até há pouco  sobre Prestes eram os textos isolados  de sua filha Anita Prestes  o livro “Prestes, Lutas e Autocríticas”, de Dênis de Moraes e Francisco Viana, feito a partir de entrevistas com  Prestes e trabalhos mais extensos sobre a História do Brasil, principalmente de Hélio Silva e Nelson Werneck Sodré, onde sua figura aparece destacadamente em vários momentos, além dos jornais e revistas para os quais Prestes nunca negou uma entrevista.

Muito pouco, para quem exerceu tanta influência na vida política brasileira do século passado.

Para preencher esta lacuna, nos últimos anos foram lançados dois livros “Luís Carlos Prestes, um revolucionário entre dois mundos”, do professor da Universidade Federal Fluminense, Daniel Aarão Reis e a tão esperada biografia de Prestes, escrita por sua  filha, Anita Leocádia, denominada  “Luiz Carlos Prestes, Um Comunista Brasileiro” ( Anita faz questão de grafar o nome com Z e sem acento, como está no registro de nascimento de Prestes)

Dispondo de uma grande quantidade de fontes de pesquisa, algumas das quais inéditas, o livro de Daniel Aarão Reis reconstrói a vida de Prestes, desde o seu nascimento em Porto Alegre, em 1898, até a sua morte no Rio de Janeiro em 1990. Não faltam no trabalho detalhes inéditos na vida pessoal de Prestes, principalmente os vividos com sua segunda mulher, Maria, os filhos e netos no exílio em Moscou, mas o importante é a reconstrução de momentos decisivos da sua vida como revolucionário, na Coluna que levou seu nome, a partir de 1924; nos preparativos da Revolução de 30; na sua adesão ao Partido Comunista; na preparação das ações revolucionárias em 35; nos anos de prisão; na eleição para o Senado; nos exílios e nas lutas internas do Partido.

Das páginas dessas narrativas emerge uma figura moralmente inatacável, sempre fiel à defesa de uma sociedade igualitária e que prefere a solidão, a aceitar negociar seus princípios políticos, como aconteceu no final de sua vida.

Pena que o livro não escape de alguns senões, inadimissíveis numa biografia de uma figura tão importante. Em muitos momentos, talvez buscando uma linguagem mais coloquial, o autor se permita usar determinadas gírias contra- indicadas nesse tipo de trabalho (um exemplo; “a chapa está esquentando” para indicar um crescimento das dificuldades). Em outras vezes, emite opiniões sobre os acontecimentos, o que prejudica o distanciamento que o pesquisador deve ter dos fatos.

Mais importantes são alguns erros factuais, que podem levar o leitor a duvidar de outros dados que apresenta. Um exemplo: na página 282, comenta que nas eleições de 1958, alguns candidatos apoiados pelos comunistas venceram e cita Leonel Brizola. Só que diz que Brizola derrotou João Neves.  Brizola derrotou Perachi Barcelos.  João Neves (certamente pensava em João Neves da Fontoura) já estava longe da política partidária nessa época.

Mais adiante, comentando as eleições de 1962 afirma que as forças conservadoras ganharam as eleições em importantes estados, citando Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ocorre que, como o tempo de duração dos mandatos não eram os mesmos, Magalhães Pinto havia sido eleito governador de Minas um ano antes, iniciando em seu mandato em 31 de janeiros de 1961, enquanto Ildo Meneghetti, eleito em 62, assumiu no Rio Grande do Sul em 25 de março de 1963. Por sua vez, Adhemar de Barros, também eleito em 62, tomou posse em São Paulo, em 31 de janeiro de 1963.

Já o livro de Anita Leocádia, obviamente não sofre desses pequenos equívocos, mas padece de uma isenção que todos os historiadores deveriam manter em relação às figuras que analisam, tarefa obviamente difícil para alguém que alia essa posição com a condição de filha e confidente do biografado.

Nascida em 1935 no campo de concentração de Barrminstrasse, Alemanha, para onde sua mãe, Olga Benário, foi enviada pelo Estado Novo, Ana Leocádia se formou em Química pela Universidade Fluminense, em Economia pela Universidade de Moscou e em História, especialidade em que se tornou doutora pela Universidade Fluminense.

Crítica da obra de Aarão, o Prestes que emerge do livro de Anita é um político quase perfeito, Os acertos do Partido são sempre atribuídos a ele e os erros, aos demais dirigentes que o isolavam das decisões mais importantes.

Um exemplo claro desse tipo de problema é a descrição do controvertido processo de justiçamento de Elvira Cupelo, Elza ou a Garota, em 1936, no qual a responsabilidade de Prestes no episódio não é esclarecida.

Outro problema do livro é que, na ânsia de comprovar suas afirmações, a autora se socorre de longas citações das atas de reuniões partidárias, o que torna sua leitura, às vezes, um pouco maçante.

Mesmo com esses problemas, tanto o livro de Aarão, como o de Anita Leocádia, são fundamentais para qualquer estudioso ou interessado na história mais recente do Brasil.

Uma boa sugestão para se conhecer a vida de Prestes, seria a leitura comparativa dos dois livros.

Matou a mulher por causa da novela da Globo

Tem certos sentimentos que parecem não mudar na vida dos homens com o passar dos tempos,mesmo que  as aparências digam o contrário.

Amor,  ódio, desprezo, ciúmes, como partes de um casamento, por exemplo.

Há uns 20 anos, publiquei uma crônica sobre um crime passional na Vila Floresta.

Hoje, li nos jornais algo que lembrava aquela história.

Vou recontá-la preservando os nomes dos personagens

Antônio A., bancário, 52 anos, chegou a sua casa na Vila Floresta, às 21 horas, do dia 4 de abril do ano de 1985 e tentou contar um fato qualquer para sua mulher Eronildes , 49 anos, prendas domésticas.

Ela, que assistia uma novela na Globo, mal olhou para o Antônio, dizendo apenas “Não me amola”.

Antônio, contou depois que isto vinha acontecendo há muito tempo.

Eronildes via todas as novelas, os casos especiais, as reprises de sucesso e o Madrugadão, não sobrando um minuto para ele.

Amor, nem pensar.

Foi nesse momento, às 21 horas de uma sexta-feira, dia 4 abril de 1985, que Antônio decidiu matar Eronildes.

Tiros, facas e enforcamento eram coisas que não combinavam com o Antônio. Ele disse no seu depoimento à policia, que queria matar Eronildes seguindo um plano inteligente, que não deixasse pistas nem sangue.

No dia seguinte, sábado, Antônio fez algo que nunca tinha feito em 25 anos de casado, dormiu fora. Na casa de um primo, em Sapucaia.

Era a primeira etapa do seu plano. Na segunda, publicou no Correio um convite para o seu próprio enterro, às 10 horas, no São Miguel e Almas, calculando que Eronildes só ia ler a notícia depois do meio dia, quando costumava se levantar.

Na terça, pediu a Janice, sua colega do banco, que ligasse para a sua casa, dando pêsames a Eronildes, explicando a ela que se tratava de uma brincadeira. Janice contou que do outro lado da linha apenas deram uma risada e desligaram.

Na quarta, Antônio ligou para sua casa de um orelhão e quando Eronildes atendeu, impostou a voz e disse que tinha morrido por causa dela. Nem esperou a resposta, desligando antes.

Na quinta, ligou novamente e quando ela atendeu, falou com a voz mais cavernosa que conseguiu: “Morri porque você não me dava mais atenção”.

– Ah, Antônio que legal, tudo igualzinho a uma novela com o Tarcísio e a Glória. Ele finge que morreu e depois começa a assustar a pobrezinha para que ela morra do coração e ele fique com toda a herança.

Antônio disse, mais tarde, para o Delegado, que tinha bolado seu plano depois que vira o filme do Clouzot, As Diabólicas, com o Yves Montand, a Simone Signoret e a Vera Clouzot. Coisa fina e inteligente, mas a Eronildes só lembrou  daquele pastiche da Globo.

– No Brasil não tem espaço para criminosos inteligentes.

Na sexta-feira, Antônio chegou em casa e matou Eronildes com cinco tiros de um revolver 38, cano longo, enquanto ela assistia uma novela com a Maitê Proença e o Tony  Ramos.

O golpe na Venezuela

O novo golpe parlamentar da direita, hoje na Venezuela, tem uma história.

Não é por acaso que tenha começado no Paraguai essa fórmula moderna de golpe de estado contra governos progressistas, usando uma maioria ocasional no Parlamento.

De 1954 a 1989, o Paraguai foi governado por uma ditadura chefiada pelo General Alfredo Stroessner.

Em 2008, Fernando Lugo, um bispo católico e ativista de esquerda, chegou a Presidente da República, mas como aconteceria com outros representantes dos movimentos populares da América Latina, foi apenas tolerado pelas elites empresariais do Paraguai, que sonhavam com a volta de um regime que defendesse seus interesses acima de tudo.

Em 2012 foi destituído do seu cargo pelo parlamento, inaugurando uma nova forma de golpe de estado que logo faria escola na América com a derrubada do governo legítimo de Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil.

A crise econômica mundial e a incapacidade dos governos reformistas, que surgiram em vários países sul americanos, de radicalizar o processo de transferência de renda para as populações mais pobres, retirou uma parte do apoio que tinham da maioria da população e facilitou esse novo tipo de golpe.

No caso da Argentina, a direita não precisou apelar para esta medida e chegou ao poder através das eleições, com Macri.

Quem ainda resiste a este processo é a Venezuela, onde um exército fortemente politizado garante ao Presidente Maduro o direito de continuar exercendo o poder que lhe foi conferido pelo povo.

Por quanto tempo, é difícil afirmar.

Aproveitando que os preços do petróleo, base da economia venezuelana, foram artificialmente rebaixados pelos interesses americanos de agir contra grandes produtores como o Irã e a Rússia, mas cujas conseqüências chegaram também à Venezuela, uma maioria parlamentar, apoiada pela grande mídia e diretamente, durante o governo Obama, pelos Estados Unidos, tenta derrubar o governo de Maduro.

Reagindo a este golpe, o Supremo Tribunal de Justiça, assumiu as funções do Congresso, depois que esse desacatou uma determinação judicial e deu posse a três deputados condenados por corrupção.

A frente golpista de direita na Venezuela já conta com o apoio explicito do presidente da Organização dos Estados Americanos, um braço político dos interesses americanos, Luis Almagro e do Itamarati. Apenas a presidente do Chile, Michelle Bachelet, falou de forma institucional condenando qualquer situação que “altere a ordem democrática” na Venezuela, o que fundamentalmente significa o afastamento de Maduro.

Como não poderia deixar de ser, toda a mídia brasileira assume as versões dos golpistas venezuelanos, falando em defesa da democracia, exatamente como fizeram no golpe arquitetado contra Dilma no Brasil, cujo principal artífice foi o deputado Eduardo Cunha, aquele que, de herói, foi transformado em bandido para salvar os pruridos moralistas da classe média brasileira

 

Assim caminha a humanidade

 

 

A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classes  (Manifesto Comunista)

Logo após um período em que os homens exploraram comunitariamente as poucas riquezas que lhes eram oferecidas para a sua sobrevivência, começou um longo processo de separação das pessoas em classes sociais, que se distinguiam basicamente pela sua relação com o trabalho.

Pouco a pouco, foi se formando uma minoria, que pela força física e habilidade no uso dos precários mecanismos de sobrevivência então existentes, foram exercendo uma liderança sobre os demais, que com o passar dos tempos se transformou na mais pura exploração do trabalho alheio.

Durante séculos, a sociedade humana foi se modificando tendo sempre como referência a forma de relacionamento dos grupos sociais com sua grande fonte de riqueza, o trabalho. Embora não tenha sido concomitante em todas as partes do mundo onde grupos sociais se formaram, houve uma evolução nesse relacionamento, passando por períodos que, a grosso modo, foram denominados de escravismo, feudalismo e capitalismo.

Cada um desses períodos representou um avanço em termos de progresso material sobre o anterior e só foi superado pelo seguinte quando a sua ordenação social se tornou um entrave para o desenvolvimento como um todo. Em comum, embora sempre com formatos diferenciados, todos eles  apresentaram uma divisão de classes, com um grupo minoritário vivendo da força de trabalho do grupo majoritário.

Embora essa divisão social tenha sido o motor a estimular o crescimento material da sociedade humana, setores mais sensíveis à clara injustiça que ela trazia como consequência, nunca deixaram de sonhar com uma volta à sociedade primitiva e ao igualitarismo. Em muitos casos, essa nostalgia pelo passado se transformava numa forma utópica de socialismo, a ser conquistado pela boa vontade das pessoas. Em outros casos, se manifestava como uma revolta contra o progresso, como no caso dos seguidores de Ned Ludd, na Inglaterra de 1811, que destruíam as máquinas que lhe roubavam os empregos.  Era o chamado “ludismo”, um movimento operário inspirado em idéias anarquistas.

Foi somente depois que a industrialização e o colonialismo enriqueceram as nações européias, na segunda metade do século XIX e nos primeiros anos do século XX, que o sistema capitalista de exploração das riquezas se firmou e passou a exercer um domínio mundial, transformando o que era antes fenômenos restritos a determinadas nações, num acontecimento que superou todas as fronteiras. Em conseqüência, os setores dominantes do capitalismo passaram a se concentrar na Inglaterra, nos países do centro da Europa, principalmente França e Alemanha e mais tarde nos Estados Unidos.

Com isso começa surgir com destaque o fenômeno do imperialismo, que seria a fase mais avançada do capitalismo, quando não apenas as pessoas se transformavam em objetos, mas também as nações mais fracas, ainda que formalmente capitalistas, se transformavam em caudatárias das mais fortes.

Inevitavelmente, também como conseqüência da criação de novas formas de capitalismo, a oposição ao sistema por parte dos mais sacrificados pelo processo, os trabalhadores, se tornou mais radical e organizada. Dentro desse quadro é que surge a figura genial de Karl Marx, que apoiado pelo tripé formado pelas antigas idéias socialistas, principalmente dos franceses; pela filosofia dialética alemã de Hegel e pela economia política inglesa,  formula a sua tese sobre a possibilidade de superação do capitalismo burguês por uma nova forma mais avançada de vida social.

No seu famoso Manifesto Comunista de 1848, junto com Engel, faz uma retrospectiva histórica do desenvolvimento das forças produtivas e propõe uma estratégia para a criação de uma sociedade onde as pessoas seriam avaliadas apenas pelas suas qualidades pessoais e não pelo pertencimento a um determinado grupo econômico. O apelo final do manifesto –  Proletários do mundo, uni-vos – é sinal de que o caminho para a superação do sistema capitalista, assim como ele, também teria que ter um caráter internacional.

O marxismo, nome pelo qual foram sintetizadas as idéias de Marx e Engel, se transformou desde então na principal bandeira de luta dos movimentos operários na Europa. Para os dois teóricos, as condições ideais que propiciariam uma revolução com o caráter comunista se localizavam principalmente na Alemanha e na Inglaterra, mas foi na economia capitalista dependente da Rússia, que subitamente elas se tornaram mais vivas por algumas razões históricas objetivas.

O capitalismo russo mesclava uma forte concentração operária nas suas grandes cidades, principalmente em São Petersburgo, com uma economia camponesa, vivendo com resquícios do feudalismo e altamente explorada por uma corte dissoluta e decadente dos czares.  Rapidamente, estes grupos operários se tornaram adeptos das idéias socialistas de inspiração marxista,  em suas três vertentes principais – a dos mencheviques,a dos bolcheviques e a dos socialistas revolucionários – e se organizaram em sovietes, uma espécie de parlamento operário.

Durante os primeiros anos do século, a Rússia se transformou num cenário de lutas políticas cada vez mais agudas de contestação ao regime tzarista, cujos principais episódios foram a revolta no Encourado Potenkin em 1904 (a história seria contada em 1925 por Sergei Eisensten, no que é considerado um dos mais importantes filmes da história do cinema) e a tentativa de revolução de 1905, sufocada pelas tropas do Czar.

Em 1917 a revolva da população contra o Czar chegaria ao seu ápice em duas etapas: em fevereiro, quando uma coligação entre os sovietes, nesta altura já de operários e soldados, e a burguesia liberal, derrubou a monarquia e em outubro, quando os sovietes, já totalmente dominados pelo Partido Bolchevique chegaram ao poder em São Petersburgo e proclamaram o início da era socialista.

O que levou a Rússia, mais atrasada que Inglaterra, França e Alemanha, onde havia classes trabalhadoras maiores e mais conscientes politicamente, a antecipar a derrota do capitalismo, foi a exasperação das condições de vida no País, depois que a guerra imperialista de 1914 sugou as riquezas russas e matou milhões de pessoas.

Com a bandeira de paz a qualquer custo e reforma agrária, os bolcheviques,  sob a liderança de Lenin e Trotski, mobilizaram operários e soldados e quase pacificamente derrubaram o Governo Provisório e iniciaram a primeira tentativa de construir um regime socialista na Europa.

Depois dos primeiros anos extremamente difíceis, tendo que suportar uma intervenção de tropas estrangeiras e, em seguida, uma longa guerra civil contra os exércitos brancos que pretendiam restaurar a monarquia, o governo se estabilizou, ainda que a necessidade de fortificar o poder central tenha eliminado algumas das mais importantes idéias de Lenin e Trotski, como a democracia interna dentro Partido Comunista, o respeito às diversas nacionalidades que compunham a nova União Soviética e o crescimento conjunto dos bens de consumo ao lado dos bens de produção.

Durante mais de 60 anos, a União Soviética conseguiu conservar algumas das características de uma sociedade socialista, mas seus problemas internos e a pressão econômica gerada pela concorrência com os Estados Unidos, principalmente no campo militar, levaram a uma crise interna que gerou, primeiramente o esfacelamento da unidade dos países integrantes do bloco socialista e mais adiante a própria queda do que restava da União Soviética, com a restauração do capitalismo.

Essa experiência frustrada faz supor que o sonho socialista pudesse estar morto e enterrado. Entretanto,a crise geral em que se envolveu o mundo capitalista nos últimos anos, com guerras localizadas, desemprego crescente e retorno de ideologias de caráter fascista predominando em varias regiões do mundo, colocou a humanidade novamente numa encruzilhada: ou avança em direção à barbárie ou retoma o sonho do socialismo humanitário, escrito nas páginas do Manifesto Comunista de Marx e Engel.

Os próximos anos dirão para qual caminho andará a humanidade