Um livro assustador

 

 

Na sua permanente tentativa de desconstruir os movimentos de resistência palestina na Cisjordânia, o primeiro ministro de Israel, Binyamim Netanyahu acusou o líder religioso árabe El Husseimi, de durante a Segunda Guerra Mundial ter ido a Berlim para pedir a Hitler que “queimasse os judeus”, dando início ao Holocausto.

Realmente em 1943, o Mufti de Jerusalém, Hadj Amin El Husseimi, um líder religioso e nacionalista árabe, que comandou as revoltas contra a Inglaterra, que ocupava a Palestina, foi a Berlim pedir o apoio de Hitler para a sua luta, já que os alemães tinham se tornado, também, inimigos dos ingleses.

O encontro foi documentado com muitas fotos, mas Hitler, preocupado com o começo da derrocada de seus exércitos a leste pelo Exército Vermelho e ameaçado pela abertura de uma segunda frente no Ocidente, deu pouco atenção ao Mufti e nunca enviou algum tipo de ajuda militar. El Husseimi, mesmo assim, organizou um destacamento militar na Bósnia (região islâmica nos Balcãs) para lutar ao lado dos nazistas.

É bem provável que Husseimi tenha falado com Hitler sobre a migração judaica para a Palestina, o que transformava estes judeus em novos inimigos para os árabes já envolvidos na luta contra os ingleses, mas sugerir a Hitler que criasse campos de extermínio como disse Netanyahu, não faz sentido, porque os alemães já tinham estes campos desde 1936, quase 10 anos antes da visita do Mufti a Berlim.

O campo pioneiro foi o de Sachsenhausen, nas proximidades de Berlim, inicialmente utilizado para encarcerar os inimigos políticos do Reich e que só mais tarde foi usado como parte do projeto de “solução final do problema judaico”, eufemismo criado para denominar o massacre de judeus de toda a Europa

Quando El Husseimi foi a Berlim, estavam em plena atividade 16 campos de trabalhos forçados e extermínio. Os mais importantes eram os de Auschwitz – Birkenau, Treblinka, Belzec e Majdanek  (na Polônia), Bergen-Belsen,Dachau e Buchenwald  (na Alemanha).

A questão do Holocausto, passados mais de 70 anos do fim da guerra, permanece um tema aberto a discussões, não no sentido de negar que ele tenha ocorrido, mas sim no de analisar as reações das vítimas – os judeus –  diante da monstruosidade criada pelos nazistas para tentar justificar o conceito de raça pura.

Quando das lutas pela criação do Estado de Israel, a imagem do Holocausto não tinha o mesmo significado que tem hoje, até porque o movimento pela independência teve o caráter de luta armada contra os dominadores ingleses. Os guerrilheiros judeus que lutaram pela criação do seu estado nacional não poderiam se espelhar na passividade dos prisioneiros nos campos de concentração.

Hannah Arendt levantou esta questão – a passividade dos prisioneiros – no seu livro “Eichmann em Jerusalém. Agora, ela é questão central do livro “Os belos dias de minha juventude”, de Ana Novac, prisioneira durante 6 meses em Auschwitz, em 1944.

Ana, nascida na Transilvânia, região hoje pertencente à Romênia, era uma adolescente de 15 anos quando chegou a Auschwitz e conseguiu se manter viva até o resgate pelo exército soviético, em 1945.

Seu livro, além da ironia do título, tem uma particularidade: escrito em forma de diário (Ana escrevia com um lápis em papeis e papelões tirados do lixo) é considerado o único documento autobiográfico, produzido em campos de concentração que foi preservado depois da guerra.

Chama a atenção na história dos campos de extermínio o fato de que, uma minoria de militares alemães tenha conseguido controlar milhares de prisioneiros, todos sabedores de que seu tempo de vida era, de um modo geral, curto e que pouco teriam a perder se optassem por uma revolta, mesmo que ela tivesse poucas chances de sucesso

Poucas revoltas ocorreram nos campos, a exceção de algumas ações individuais e a explicação parece estar no fato de que os líderes dos prisioneiros não estimulavam os atos de resistência com medo das represálias nazistas.

No seu depoimento em Nuremberg, Rudolf Hoss, que foi comandante em Auschwitz, disse que 3 milhões de pessoas morreram nas câmaras de gás ou por fome e doença no campo. Embora os historiadores prefiram acreditar que o número de mortos foi menor – aproximadamente 1 milhão e 300 – ainda assim é um dado estatístico assombroso.

No livro, Ana Novac tenta entender porque isso aconteceu sem maiores resistências dos presos. Uma das possiblidades é o extremo individualismo da maioria dos presos, explorado pelos nazistas como forma de dividir o grupo.

A distribuição de vantagens a alguns dos presos (normalmente uma pequena melhoria na ração alimentar), fazia reacender neles a esperança em sobreviver por mais algum tempo e qualquer ato de resistência dos demais poderia ser visto pelos nazistas como uma falha no comando dos prisioneiros aos quais haviam dado um pequeno poder.

Já nos guetos das cidades polonesas, de onde veio uma boa parte dos prisioneiros, uma polícia formada por judeus (a polícia judaica) ajudava a organizar as filas dos que iriam para Auschwitz ou para outros campos na Polônia.

Dentro do campo, havia uma disputa feroz entre os prisioneiros para os poucos cargos que os nazistas ofereciam aos presos, na esperança de uma melhoria na ração alimentar e na expectativa de ir adiando o encontro marcado com a morte nas câmaras de gás.

No seu livro, Ana Novac dá o nome de algumas dessas “mordomias”:  kapos, presos que colaboravam com os nazistas; sonderkommando, grupo encarregado de levar os presos para as câmaras de gás, retirar os cadáveres e arrancar os seus dentes de ouro e o cabelo das mulheres; stubendienst, presa que cuidava da sopa e da faxina; lagerkapo, chefe de um grupo de kapos; blockalteste, chefe de um pavilhão; berkapos, presos que vigiavam no trabalho externo;

Todos eram judeus e alguns casos, eram mais cruéis que os SS nazistas na hora de usar o chicote nas costas de um prisioneiro que não estivesse trabalhando na velocidade desejada.

Ana Novac nasceu em Siebenburgen, hoje cidade da Romênia, em 1929 e morreu em Paris, em 2010, ano que seu livro foi editado no Brasil pela Cia de Letras

O que você vai fazer quando encontrar um famoso?


Políticos e gente famosa, normalmente, evitam contatos com pessoas como você e eu, para não se envolverem situações inconvenientes, como uma crítica mais agressiva ou até um prosaico pedido de autógrafo.

Claro que se você é metalúrgico em Canoas, um bancário do Banrisul, ou até mesmo uma professora de uma escola pública no Sarandi, gente que gasta quase todo seu tempo lutando pela sobrevivência, suas chances de encontrar um famoso são pequenas.

Mas, se você é um jornalista, um médico, um advogado de algum sucesso ou simplesmente tem uma conta bancaria que lhe permita frequentar restaurantes como o Barranco, ir ao teatro ou viajar de avião, corre o risco de eventualmente encontrar um desses personagens

Afinal, o Temer foi a uma churrascaria de Brasília, num final de semana, para mostrar a diplomatas estrangeiros que a nossa carne não era tão fraca assim; o Ministro da Cultura, Roberto Freire veio a Porto Alegre para visitar o Museu Iberê Camargo e parece que até o deputado Bolsonaro andou por aí em sua defesa permanente das piores causas.

E se você, por um acaso do destino, em algum momento, estivesse vis-a-vis com esses personagens, o que faria?

Vamos supor que você vai a São Paulo a negócios, senta na poltrona 13 ao lado da janela e é surpreendido pelo deputado Bolsonaro, que vai tomar o lugar exatamente ao lado do seu.

Como ele está sempre em campanha, vai querer puxar conversa, o que você vai responder?
a) Aproveita a oportunidade para criticar suas posições políticas, todas elas.
b) Chama a comissária e diz que quer trocar de assento.
c) Não diz nada e responde ao seu comprimento com uma cusparada como fez o Jean Wyllys.

Você está naquela Churrascaria de Brasília, onde o Temer está comendo a sua picanha.
a) Você finge que é um americano e grita para que ele ouça: thanks Mr. President.
b) Você levanta da mesa e grita bem alto para que todos possam ouvir: este lugar já foi melhor freqüentado.
c) Simplesmente, em silêncio, você levanta um grande cartaz onde escrito # Fora Temer.

Você é um intelectual e está visitando o Museu Iberê Camargo, num final de semana, porque ele fica fechado nos outros dias, quando chega o Ministro da Cultura cercado por aqueles empresários que fingem gostar da cultura porque podem abater do Imposto de Renda seus investimentos na Lei Rouanet.


a) Você se aproxima com o livro Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, nas mãos e ironicamente, oferece de presente para o Ministro.
b) Você se aproxima do Ministro com um livro de Stalin nas mãos e o saúda, dizendo “como vai camarada”.
c) Você grita para todo mundo ouvir: Roberto Freyre como Ministro da Cultura foi a melhor piada do Temer.

Mas não sejamos tão otimistas assim: você pode apenas estar na lotação Cristal e sentar ao lado do Píffero.

O que você, como colorado condenado à segunda divisão, faria?
a) Como uma pessoa educada, diria apenas: não há de ser nada, no ano que vem a gente volta.
b) Fingiria que não o conhece
c) Começaria a cantar baixinho, mas não tanto, para que ele possa ouvir, o hino do grêmio composto pelo Lupicínio Rodrigues.

Pense nisso, porque a qualquer momento em famoso pode cruzar pelo seu caminho e você deve estar preparado para compartilhar com ele seus 15 segundos de fama.

Os perversos

Grandes romances exigem grandes personagens. Gente comum como nós, pequenos burgueses, preocupados em viver honestamente seus dias sempre iguais, certamente não interessariam aos melhores contadores de histórias. O máximo de argumentos que poderíamos oferecer daria apenas para uma história típica do neo-realismo italiano ou do cinema novo brasileiro, exemplos de uma estética que ficou no passado.

Monstros, assassinos impiedosos, estes sim, têm material de sobra para escritores de talento que pretendam entender até que pouco a maldade pode fazer parte da vida humana.

Mas para chegar lá é preciso, além de talento, que o candidato a escritor esqueça seus valores morais e se disponha a mergulhar na psique complexa dessas pessoas que se recusam a seguir as normas da civilização, que segundo Freud envolve uma renúncia às pulsões mais sombrias que todos nós temos em algum momento da vida.

Vamos falar de dois escritores americanos, que em seus livros, chegaram ao fundo da perversidade de alguns homens, Norman Mailler e Truman Capote.

Poderíamos começar com Fiodor Dostoievski, com o celebre Crime e Castigo, mas seu personagem, Raskolnikov, nos leva mais para um ensaio sobre o poder, a culpa, e o  perdão,dentro de uma visão até certo ponto religiosa, ao contrário de Mailler e Capote, que não julgam, apenas relatam o que enxergam.

Quem no Brasil poderia seguir por este caminho?

Talvez, Rubem Fonseca, mas há tempos não se houve falar dele.

Ficamos então com os americanos, começando por Mailler.

Norman Mailler (1923/2007) teve uma vida que certamente daria também um romance ou um filme, do qual as pessoas sairiam do cinema, dizendo que não era uma história verdadeira. Escreveu alguns dos mais importantes romances americanos e biografias que deram o que falar. Ganhou duas vezes o Prêmio Pulitzer, o mais valioso do jornalismo americano. Pela sua oposição à guerra do Vietnam ficou preso durante dois anos, foi candidato derrotado à Prefeitura de Nova York, foi casado seis vezes e teve oito filhos.  Em 1960, depois de uma bebedeira, esfaqueou a mulher, mas como ela não quis prestar queixa, ficou poucos dias na prisão.

Em 1979, regiamente pago por uma revista americana, foi a Salt Lake City para entrevistar a Gary Gilmore, que acusado de dois crimes de morte, se recusava a fazer qualquer petição de clemência e de participar do tradicional jogo jurídico norte-americano de condenações e suspensões da execução da pena.

O que escreveu se transformou num livro de mais de mil páginas, chamado A Canção do Carrasco (The Executoner´s Song) e conta a vida de Gilmore, desde os assassinatos que cometeu em Provo e dos quais nunca se arrependeu, até a sua execução final, quando desafiou os soldados que iam atirar contra o seu peito, com essa frase: “acabem logo com isso”.

Truman Capote (1924/1984), nasceu  Truman Streckfus  e mais tarde adotou o sobrenome Capote, do seu padrasto cubano.  Era um homossexual assumido, frequentador das rodas de ricos de Nova York, escritor do livro Bonequinha de Luxo (Breakfast  at Tiffany), que Audrey Hepburn tornou famoso no mundo inteiro,  em 1961, na sua versão para o cinema, com direção de Blake Edward, quando largou tudo em Nova York e foi para o Kansas atrás da história do assassinato dos quatro membros da família do fazendeiro  Herb Cluter,na pequena cidade de Holcomb, pelos jovens Richard Hickock e Perry Smith.

Capote entrevistou praticamente todas as pessoas da comunidade, leu todos os documentos referentes ao caso e se aproximou tanto dos acusados, que dizem ter dito um romance com um deles, Perry, e acompanhou o caso até o seu desfecho final, com o enforcamento dos acusados em abril de 1965.

Levou quatro  anos escrevendo seu romance, que ele denominava de romance não ficção, A Sangue Frio (In Cold Blood), publicado inicialmente em quatro partes pela revista New Yorker, em setembro de 1965, cinco meses após a morte dos principais personagens.

Capote foi escrevendo sua história durante quatro anos, praticamente enquanto ela se desenrolava ao vivo. Quem lhe ajudou nesse trabalho foi Harper Lee, que ficou famosa com seu único livro, enquanto viva,  Sol é Para Todos ( Vá, Coloque um Vigia, é uma obra póstuma).

No cinema, À Sangue Frio, deu a Philip Seymour Hoffmann, o Oscar de melhor ator em 2005, quando interpretou Capote, num filme dirigido por Bennet Miller, chamado simplesmente Capote.

Antes disso, em 1967, Richard Brooks já havia filmado a história com o nome original, de A Sangue Frio.

Em 2006, uma nova versão da história apareceu, Confidencial , com direção de Douglas Mc Grath,  centrada mais na relação de Capote (Toby Jones) com o criminoso Perry

Capote, mesmo depois de morto, continuou provocando polêmicas e não apenas pela sua obra, mas por uma disputa inusitada de suas cinzas entre sua amiga Joane Carson e Jack Duphy, seu companheiro de muitos anos.

 

Um novo Lula em 2018

Lula perdeu três eleições, a primeira para a Collor, e as duas seguintes para FHC, quando foi candidato com um projeto radical de esquerda e ganhou a quarta, quando fez uma composição com o centro e a direita.

Como Presidente, por dois mandatos, seu projeto reformista retirou da miséria milhões de brasileiros, mas foi incapaz de construir na população uma consciência de classe que ajudasse o seu governo e posteriormente o governo de sua sucessora, Dilma Rouseff, a enfrentar os anos de turbulência econômica que a crise geral do capitalismo provocou no mundo inteiro.

Dilma, por sua vez, sem o carisma de Lula, rompeu a já tênue aliança com a população mais pobre e montou seu segundo governo numa aliança espúria com a direita, enfraquecendo suas bases de apoio.

O governo Temer, que chegou ao poder através de um golpe parlamentar, com a anuência do judiciário e o apoio declarado da mídia, mal consegue sustentar o arremedo de democracia em que vivemos e todos os sinais indicam que talvez não consiga completar seu mandato e se conseguir será com concessões cada vez maiores aos interesses do capital internacional.

A cortina de fumaça, levantada pela onda de um moralismo típico da classe média, através das operações espetaculosas da Polícia Federal, dos Procuradores da República e do Juiz Moro, não consegue esconder que, deliberadamente ou não, essas operações estão destruindo a base industrial que os governos do PT conseguiram construir no Brasil, começando pela Petrobrás.

Dentro desse cenário, surge como uma luz no fim do túnel, a declaração de Lula, essa semana na Paraíba, onde ele foi para receber do povo nordestino seus agradecimentos pela importante obra de transposição das águas do Rio São Francisco, que Temer, de uma forma grotesca, tentou assumir a autoria.

Mesmo descontado o tom de bravata, que Lula gosta de assumir, o que ele disse em Monteiro, no meio de um grande manifestação popular, nos faz pensar : “eles,(os golpistas) peçam a Deus que eu não seja candidato, porque se eu for é para ganhar”.

A ala jurídica do golpismo perdeu o timing (como ela gosta de dizer) para prender Lula. Hoje, isso – se ainda for possível – vai virar um escândalo nacional e internacional. Sua estratégia, me parece, será usar toda a força da mídia para colar em Lula a imagem de corrupção, mesmo que não tenha nenhum fato concreto para apontar.

E Lula, só será candidato para ganhar, se radicalizar seu discurso, até mesmo porque os partidos de centro abandonaram de vez o seu barco, começando pelo PMDB.

Em 2018, teremos, então, finalmente, uma eleição entre dois projetos: o de Lula, apoiado pela população pobre do país e alguns segmentos mais informados da intelectualidade e do outro, seja qual for o candidato escolhido, o projeto da direita,apoiado pelo empresariado associado ao capital estrangeiro e segmentos da nossa classe média, medíocre e alienada, com o apoio fundamental da mídia.

Será a grande revanche daquela disputa de 20 anos atrás entre Lula e Collor, na ocasião, decidida pela ação deletéria da Rede Globo a favor de Collor, com grandes chances de uma vitória da esquerda.

O único receio é de que os golpistas de hoje, sabendo que podem perder em 2018, não permitam que o povo seja chamado a decidir.

Corruptos e sonegadores

 

A revista Super Interessante nunca foi minha preferência como leitura, mas na ante-sala de um consultório odontológico, aguardando a malfadada hora de sentar na cadeira de dentista, ela ajuda a suportar a tensão da espera.

Como é de hábito começar a leitura pelo fim da revista, uma matéria cheia de gráficos coloridos logo chama a atenção nas últimas páginas.

Fala sobre impostos e começa dando a impressão de que vai repetir aquela velha história tão de agrado dos moralistas mal informados. Pagamos muitos impostos e os serviços que o governo nos dá em troca são muito ruins. Além de tudo a corrupção dos políticos é um poço sem fundo a drenar os recursos que poderiam ir para a educação e a saúde.

Antes de largar a revista, porque a espera pelo dentista se prolonga, vou em frente pelas páginas seguintes e os dados que vou lendo são surpreendentes.

Passo alguns para os leitores desse site.

– Somados todos os impostos (municipais, estaduais e federais) sobram apenas 4.085 dólares para o Estado gastar com cada um dos brasileiros, no período de um ano. Isso inclui escolas, polícia, hospitais, universidades, tribunais, ruas, estradas e portos, ou seja, todos os serviços prestados pelo Estado. Nos Estados Unidos, são 13.429 dólares para cada habitante por ano.

– Embora a economia brasileira tenha criado mais de 14 milhões de empregos com carteira assinada nos últimos 10 anos dos governos petistas, o salário médio de contratação é de mil reais. Ainda que sejamos a sétima economia do mundo, nossa população é de quase 200 milhões de pessoas, o que dá um PIB per capita de US$ 11,8 mil por habitante, nos colocando com isso no lugar 74 do ranking global. Ou seja: para cada indivíduo que acha que paga muito imposto sobre o salário e sobre os produtos que consome, há um número muito maior de pessoas que pagam pouco ou não pagam nada, porque ganham pouco e consomem pouco.

– No Brasil, 45% da arrecadação tributária vêm de impostos sobre o consumo, enquanto nos países ricos, a média é de 29%. Isso é, o pobre e o rico pagam o mesmo valor de imposto sobre o que consomem.

Enquanto isso, o Imposto de Renda, que poderia ser um fator de redistribuição de renda tem uma alíquota máxima de 27,5%, contra, por exemplo, 56,6%, na Suécia para quem ganha mais de 5.400 dólares mensais. Acrescente-se a isso, que quem paga religiosamente os 27,5% no Brasil são as pessoas que vivem dos seus ganhos como trabalhadores e tem este imposto descontado em folha.

– Segundo dados da FIESP, o Brasil perde pelo menos 41,5 bilhões de reais todos os anos por causa da corrupção.

Em qualquer movimento de empresários e mesmo de segmentos da classe media reclamando dos impostos altos, o ralo da corrupção é sempre o mais citado, mas o outro dado muito mais impactante raramente é lembrado: a sonegação.

Surpreendentemente, a revista escreve lá no encerramento da matéria: “Um estudo do Banco Mundial aponta que o Brasil é o vice-campeão dessa prática. Segundo o estudo, perdemos nada menos do que US$ 280 bilhões anuais por conta da sonegação. É uma quantidade astronômica de dinheiro – quase o dobra de tudo que entra via imposto de renda”

Em março de 2015, a Polícia Federal, a partir de uma denúncia anônima, montou a chamada Operação Zelotes,(lembrança daquele grupo de judeus que ousou desafiar o poder romano) para apurar a ação de quadrilhas que atuavam junto ao CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, revertendo ou anulando multas.

Começaram a aparecer então lobbies envolvendo grandes empresas do país, como a Gerdau, a RBS e grandes bancos como o Bradesco, Itaú e Safra e se imaginou que desta vez a sonegação fiscal em grande escala seria atingida. Logo, porém, as notícias sobre esse evento se tornaram escassas e como sempre convém aos donos do poder do País, os alvos passaram a ser pessoas físicas, em mais uma tentativa de envolver o PT e Lula nas denúncias.

Sobre as grandes empresas, não se falou mais.

Enquanto me encaminho, finalmente, para a cadeira do dentista, fico pensando em que são os grandes sonegadores. Certamente não são pessoas como nós que vivem de salários, vencimentos, pensões e aposentadorias.

Os outros Cristos

A vida de um provável agitador social, que teria vivido na Palestina dominada pelos romanos, Jesus Cristo, tem a sua versão oficial contada em quatro evangelhos, e é considerada a única verdadeira pela Igreja Católica.

Outras, narradas por alguns dos mais importantes escritores do mundo moderno, que talvez sejam apenas fantasias, são muito mais interessantes e criativas.

Vamos falar sobre quatro delas e seus autores (Norman Mailler, Nikos Kazantzakis, José Saramago e Gore Vidal), aproveitando a chegada de mais uma Semana da Páscoa, quando novamente vai se falar muito sobre Jesus Cristo

Norman Mailler (1923/ 2007)

É talvez o mais polêmico dos modernos escritores americanos. Crítico do socialismo, do capitalismo americano e do feminismo especialmente, é autor de alguns dos principais romances americanos do século, em obras que misturou fatos reais com sua fértil imaginação, principalmente nas pretensas biografias de Marylin Monroe (73), Lee Oswald (96) e Hitler ( Uma Casa na Floresta/ 2007). Mailler será sempre lembrado pelos seus livros Os Nus e os Mortos, Um Sonho Americano, Os Degraus do Pentágono e a sua visão profana de Cristo em O Evangelho Segundo o Filho, além das suas frases provocativas, como estas de um machismo assumido:

“Porque há muito pouco de honra  na vida americana, há uma certa tendência construída para destruir a masculinidade nos homens americanos’.

‘A revolução feminista transformou a mulher num tipo de homem que me aborrecia muito quando eu era jovem: alguém que tinha que trabalhar das nove até as cinco, de uma maneira monótona e sem ser dono do seu destino. Foi assim que terminou essa revolução e esse assalto ao poder”.

O Evangelho Segundo o Filho é considerada uma obra menor na carreira de Norman Mailler, mas nem por isso destituída de interesse. A ironia do autor está sempre presente ao descrever um Jesus Cristo humano e atrapalhado, como no famoso episódio da transformação de água em vinho, quando é repreendido pelo anjo por gastar milagres à toa: “Assim como um barril transbordante de mel pode ser esvaziado, o Filho tolo desperdiça seu estoque de milagres”.

Nikos Kazantzakis (1883/1957) – É considerado o mais importante escritor grego moderno e se tornou famoso no mundo inteiro quando seu livro Zorba, o Grego, foi levado para o cinema, em 1964, por Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn, no papel de Zorba e com uma trilha musical de Mikis Theodorakis, quase tão lembrada quanto o filme. A versão de Kazantzakis para a história bíblica se chama O Cristo Recrucificado e tem um sentido intencionalmente político.

Na pequena aldeia grega de Licovrissi,dominada pelos turcos, a reconstituição do julgamento e condenação de Cristo durante a Semana Santa, realizada a cada sete anos, é uma oportunidade para denunciar os turcos usurpadores como os novos romanos e os sacerdotes ortodoxos gregos como traidores da causa nacionalista. Quem faz essa denúncia é Manolios, um agricultor inculto, que incorpora a figura do Cristo. O livro também foi levado ao cinema num filme memorável de Jules Dassin, chamado Aquele que Deve Morrer, com Pierre Vanneck (Manolios/Cristo), Melina Mercouri (Katerine/Maria Madalena) e Jean Servais (Pope/ o Padre).

Kazantzakis tem ainda outro livro onde aborda de uma maneira totalmente contrária aos evangelhos, a história de Cristo. O livro se chama A Última Tentação de Cristo e também virou filme em 1988, direção de Martin Scorsese, com Willen Dafoe (Cristo), Harwey Keitel (Judas) e David Bowe (Pôncio Pilatos).

Na história de Kazantzakis, aconselhado por um anjo, Jesus desce da cruz e reencontra Maria Madalena. Um tempo depois, após a morte de Maria Madalena, se casa com Marta, passando a viver como um homem comum, até o dia que encontra Paulo que pregava sobre o Messias e seu sacrifício. Jesus desmente essas afirmações, mas Paulo diz que seguirá pregando de qualquer maneira. No final, Jesus vive suas últimas horas, momento em que os antigos apóstolos voltam e o recriminam por não ter consumado sua paixão. Quando Jesus tenta explicar que foi um anjo que lhe deu esse conselho, os apóstolos reconhecem o diabo no suposto anjo. Jesus se levanta do leito e volta ao Calvário para consumar seu sacrifício.

.Para Kazantzakis, “um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer não, nem mesmo que seja para Deus, quando isso é necessário”.

 

José Saramago (1922/2010)

O grande escritor português, José Saramago ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e será sempre lembrado por ter escrito, em seu estilo inconfundível, obras primas da literatura portuguesa como Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Lucidez, Todos os Nomes, o Homem Duplicado e a Caverna, mas foi com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que ele recebeu os maiores elogios dos seus admiradores e as críticas mais pesadas da tradicional igreja católica portuguesa,ao recriar um Cristo humano e preocupado com as questões sociais dos trabalhadores historicamente injustiçados.

Fiel às suas posições políticas de esquerda, Saramago viveu longe de Portugal, nas Ilhas Canárias, seus últimos anos de vida.

No seu Evangelho, Saramago não poupa críticas à religião estabelecida: ”No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade”, ao mesmo tempo em que faz uma releitura dos valores do mau ladrão da versão bíblica: “um homem muito reto, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza”.

Gore Vidal (1925/2012)

Gore Vidal foi um dos maiores escritores americanos. Filho da nobreza política da Costa Leste dos Estados Unidos, escandalizou o mundo literário americano com seu livro A Cidade e o Pilar, de 1948, quando abordou abertamente a questão da homossexualidade.

Sua obra, no final da vida, se concentrou na história da antiguidade greco-romana (Criação e Juliano) e na história americana (Burn. Washington DC, O Império e Lincoln) contadas em forma de grandes romances.

Gore Vidal era um apaixonado pelo cinema, o que levou a ser o roteirista de alguns filmes, inclusive do célebre Ben Hur, de Willian Wyller, no qual ele disse ter inserido um subtexto gay nas relações de Ben Hur com o legionário Massala. O engraçado é que Charlton Heston (Bem Hur) que sempre defendeu posições conservadoras, sendo inclusive presidente da National Rifle Association, disse que nunca percebeu a intenção de Gore Vidal.

Numa obra menor, Ao Vivo, do Calvário, ele usou toda sua ironia para modernizar a história da crucificação do Cristo.

Num determinado momento, a tecnologia para viajar ao passado está sob o domínio das grandes corporações como a General Eletric e das redes de TV dos Estados Unidos.
Uma delas consegue os direitos de transmitir ao vivo a crucificação de Cristo.
A novela relata o desenrolar desse programa levado ao ar diretamente para milhões de lares americanos.

Sobre religião, disse uma vez Gore Vidal: “A idéia de uma boa sociedade é algo que não precisa ser sustentado com religião e punição eterna. Você só precisa de religião se tiver medo de morrer.”

Mailler, Kazantzakis, Saramago e Gore Vidal, com suas visões sobre o Cristo podem ser assuntos interessantes para se discutir agora que se aproxima outra Semana Santa.

Schindler x Janot

Depois da famosa Lista de Schindler, a lista mais falada hoje é a do Janot,que inclui centenas de políticos de todos os partidos brasileiros, acusados de favorecer a corrupção.

 

Como a lista original, a de Schindler, ela é cercada de muita hipocrisia.

 

Era para ser secreta, mas todos os jornais e a televisão  divulgaram os nomes do que nela estão incluídos, juntando prováveis  corrompidos , com possíveis inocentes.

Tudo para atender o roteiro de mais um espetáculo mediático, que Guy Debord já tinha antecipado há alguns anos atrás, destinado a atender os anseios moralistas de uma classe média raivosa, que despreza o jogo político.

Como no caso da lista de Schindler, a do Janot parte de uma base falsa.

Schindler, que virou herói depois do filme que Steven Spielberg fez sobre ele em 1993, era um nazista da pior espécie,  que usava uma aparente motivação política para ganhar dinheiro.

Ele chegou a Cracóvia, na Polônia, em 1939, logo depois da ocupação da cidade pelo exército alemão e com apoio dos oficiais da Wehmarcht  e das SS, adquiriu uma fábrica para produzir panelas para o exército.  Para aumentar seus lucros, ele vai usar judeus do gueto, como operários,  que trocam seu trabalho pela oportunidade de ficar mais tempo vivos. Para isso, ele ganhará a colaboração de Itzhak Stern, um membro da Judenrat – o Conselho Judeu que colaborava com os nazistas – para selecionar seus trabalhadores escravos.

Quando a Polônia é libertada pelo Exército Vermelho, Schindler, pagando grandes subornos a oficiais nazistas, como Amon Goth e Rudolf Hoss, consegue a autorização para levar uma centena de operários judeus especializados junto com a fábrica que transfere para sua cidade natal, na Alemanha, Switt Au-Brinnlitz.

Ou seja, como na atual lista de Janot, os critérios de Schindler eram eticamente duvidosos.

As imensas campanhas eleitorais dos grandes partidos, que assistimos periodicamente no Brasil, com produções caríssimas de televisão e uma logística de viagens dos candidatos, que implicam em grandes investimentos, só podem ser feitas com o apoio dos grandes empresários.

É óbvio, que esses empresários não fazem isso porque estão ideologicamente comprometidos com um partido político e muito menos porque acreditam na democracia. Fazem porque vão cobrar um forte retorno depois, seja qual for o partido escolhido.

Não é sem propósito que todos os partidos com alguma chance de ganhar uma eleição – PMDB, PSDB, PP ou PT – se valem desses investimentos empresariais.

É um dinheiro que, nem os empresários, nem os partidos, têm interesse que sejam contabilizados no seu total.

É ilegal? É

É imoral? Talvez

Mas, se não quisermos ser hipócritas, é do jogo. E desse jogo, participam políticos e empresários desde que os militares voltaram aos quartéis.

Antes que alguém pense que na época dos militares era diferente, é bom lembrar que foram os empresários que financiariam o golpe de 64 e continuaram apoiando o regime militar e lucrando com ele, enquanto isso foi possível.  Tudo isso com uma vantagem a mais: o silêncio imposto pela censura.

A lista de Janot, que prudentemente só começa quando o PT chegou ao governo, inclui  quase todos os políticos importantes que disputaram e ganharam eleições.

É bem provável, que alguns deles, além de se beneficiarem do caixa 2 dos seus partidos, fizeram também alguns negócios particulares com os empresários.

Será que em nome disso, vale à pena causar tantos danos à Petrobrás e punir grandes empresas e não apenas grandes empresários, provocando como conseqüência perversa essa profunda aversão à política que existe hoje no Brasil?

Nunca é demais lembrar que, quando a política é transformada em algo descartável, abre-se a possibilidade para que a democracia, onde ela é praticada, se transforme numa ditadura.

 

A praga do desemprego

O desemprego é a maior praga do sistema capitalista. O desempregado se torna um pária numa sociedade onde o consumo é endeusado e com ele desmorona, quase sempre, toda sua estrutura familiar.

A capacidade de trabalhar é a razão que permitiu separar o homem do restante do reino animal. Foi acompanhando com rigor científico o desenvolvimento das técnicas para controlar as forças da natureza, desde o primitivo homem das cavernas até os dias de hoje, que se tornou possível contar a história da humanidade.

Quem estiver disposto a vivenciar o significado que o desemprego traz para a vida familiar, não precisa se ater aos frios relatórios sobre o mercado de trabalho. Em qualquer sebo da cidade certamente será possível encontrar o livro de John Steinbeck, As Vinhas da Ira, que conta a saga de trabalhadores americanos nos anos de depressão que abalaram a maior economia do mundo, no princípio dos anos 30, do século passado.

Enquanto no escravismo e no feudalismo existia uma relação interpessoal entre as partes envolvidas no trabalho – o dono com o escravo e o suserano com o vassalo – no sistema capitalista, esta relação é inteiramente impessoal. Para os empresários, os trabalhadores são apenas números dentro de uma planilha de investimentos destinados a gerar lucros. Por isso mesmo podem ser removidos de seus empregos para atender o objetivo fundamental da empresa, que é sempre o lucro.

Somente numa sociedade comunista – hoje apenas um sonho utópico – este quadro alienante poderia ser modificado, com o fim da divisão de classes e o estabelecimento da política de pleno emprego.

A vitória da burguesia, com o fortalecimento do sistema capitalista, se foi revolucionária e progressista na medida em que destruiu instituições retrogradas como o escravismo e o feudalismo, criou também uma nova e perversa forma de explorar a força de trabalho dos homens.

Além de se apropriar, como lucro, de uma parte do trabalho não pago, a mais valia, os capitalistas logo se deram conta que manter um exército de reserva no mercado de trabalho, permite chantagear os trabalhadores ativos com ameaças permanentes de demissão.

Com isso, é possível arrochar os salários e negar ganhos trabalhistas. Um simples olhar nos processos de disputa entre patrões e empregados que ocorrem a nossa volta, permite constatar como essa técnica de opressão continua sendo aplicada, nas grandes empresas, nos bancos e mesmo nas instituições de ensino.

Grécia, Espanha, Portugal, com seus índices estratosféricos de desemprego, estão sempre nas manchetes dos jornais, mostrando que o capitalismo esgotou suas possibilidades de gerar novos empregos. Mesmo nos países centrais da Europa e nos Estados Unidos, os índices de desemprego não baixam dos dois dígitos.

A globalização, que permite aos empreendedores das grandes nações interferirem nas relações econômicas de países menos desenvolvidos e o uso de técnicas de produção cada vez mais sofisticadas, que levam a prescindir do trabalho do homem, apontam para um futuro cada vez mais negro para as expectativas de trabalho da maioria das populações em todo o mundo.

Um olhar mais atento para o mercado de trabalho brasileiro ajuda a entender as razões da imensa campanha desencadeada contra os governos Lula e Dilma.

Em março de 2013, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 5%, o menor índice registrado pelo IBGE, desde que a instituição começou a pesquisar este segmento em 2002.

A crise cíclica do capitalismo que atingiu os países desenvolvidos e emergentes no mundo inteiro a partir de 2014, levou o empresariado a defender cada vez mais uma política de arrocho nos salários dos trabalhadores, de cortes nos direitos trabalhistas e de demissões em massa.

No caso brasileiro, por mais que os governos do PT tenham transigido em suas políticas em defesa dos trabalhadores, determinadas medidas que interessavam os empresários nunca foram aceitas, daí a necessidade de se colocar no poder um governo, que sem compromissos populares, se dispusesse a cumprir esse papel.

É isso que o governo Temer está fazendo e os seus perversos resultados já apareceram. O índice de desemprego no Brasil subiu no final do ano de 2016 para  1,8%.

Um estudo do Banco Credit Suisse mostra que o quadro é ainda pior. Usando o critério de desemprego ampliado, que soma o número de desempregados com várias formas de subemprego, o banco mostra que entre 31 países desenvolvidos ou em processo de desenvolvimento, o Brasil figura em sexto lugar, com um índice de 21,2%, o que corresponde a 23 milhões de trabalhadores.

A inveja que fingimos não ter

A inveja é o sentimento que move a humanidade para frente. Sem ela estaríamos ainda na idade da pedra.  O mais mal visto dos atributos do ser humano, tanto que figura como um dos sete pecados capitais, a inveja é quem dá a adrenalina que todos nós precisamos para enfrentar a concorrência dos outros, em casa, na escola, no trabalho, no amor, sempre, todos os dias.

Ninguém se orgulha dela. Pelo contrário, todos apontam o seu potencial de auto-destruição, esquecidos de que ela é como certas substâncias ,  que, em pequenas doses funcionam como remédio, mas que em doses maiores são venenos mortais.

Para dar um caráter mais técnico à afirmação acima, fui pesquisar no Google, como todo mundo faz quando quer se exibir, e descobri qual é a substância mais letal do mundo e que mesmo assim virou remédio para a vaidade de homens e mulheres.

Abrir parênteses:

“Ela é tão perigosa que só pode ser fabricada em instalações militares com custo elevadíssimo.

Apesar de ser tão tóxica, esta substância está em altíssima demanda. Muitas pessoas pagam grandes fortunas para injetá-la em suas testas.

Trata-se da toxina botulínica – popularmente conhecida como Botox – que é produzida pela bactéria que foi descoberta em uma fábrica de salsichas no século 18. O nome “botulus” vem da palavra em latim para “salsicha”.

Fechar parênteses.

No momento em que a inveja se instala na mente de uma pessoas, ela  cresce de forma incontrolável e nos acompanha desde que acordamos até a hora de dormir.

Como a nossa civilização se construiu através da repressão desse sentimento natural,  exibimos sua imagem de uma forma pasteurizada, quase sempre disfarçada sob outros nomes,  espírito crítico, na maioria das vezes.

Não admitimos, nem mesmo para nós mesmos, que o sucesso dos outros nos faz mal e que nos sentimos mais merecedores do que eles dos seus prêmios e honrarias.

O sentimento de inveja está potencialmente, em todos nós. Em alguns, ele fica adormecido a vida inteira e nesses casos, as pessoas são consideradas quase santas. Noutros, ele explode com uma violência arrasadora e pode destruir, não apenas contra quem ele se volta, como também contra o seu autor.

Como sempre acontece, é nas artes e não nas descrições científicas, que podemos ver como este sentimento funciona.

Talvez a mais rica e criativa descrição desse sentimento tão perverso, seja do filme Amadeus, que Milos Forman fez em 1984, a partir de um roteiro de Peter Schaff, colocando em dois extremos a genialidade instintiva de Wolfgang Amadeus Mozart e a mediocridade musical de Antonio Salieri.

A inveja extrema e teatralizada de Salieri pelo sucesso de Mozart vai levá-lo a uma guerra com o Deus, que ele jurou servir e no final à loucura e Mozart, à morte.

Veja o filme (no youtube você vai encontrá-lo) e não se envergonhe pela sua inveja, pequena ou quase tão grande como a de Salieri.

 

A ética, a política, o PT e o PSDB

A ética é uma questão pessoal definida por uma determinada época histórica. Certos comportamentos que no passado eram considerados éticos, hoje não são mais. No futuro, novos valores vão balizar o comportamento das pessoas. Quem sabe, daqui a poucos anos, não separar o lixo, seja considerado um comportamento tão antiético como é hoje aceitar uma propina para facilitar determinado negócio.

As instituições políticas não são regidas por estes valores pessoais. Um partido político tem por objetivo conquistar o poder e nele permanecer a maior parte do tempo possível. Como ele é composto por pessoas, muitas delas serão éticas, outras não, de acordo com os valores da época. E, elas estarão tanto no partido A, quando no partido B.

O que deve ser avaliado na questão dos partidos, diferentemente da avaliação das pessoas, é a quem estes partidos, o A e o B, estão representando.  Quais interesses eles servem.

Tomamos, por exemplo, o PT e PSDB, a quem eles servem? Alguém disse e talvez tenha razão, que eles são muito parecidos, na medida em que são ramos nascidos da democracia social européia.

Admitindo este tronco comum, seria preciso pensar no que é, ou melhor, do que foi a democracia social na Europa. Simplificando, diríamos que foi uma concessão da burguesia dominante, dentro do capitalismo ao crescente movimento operário na luta por conquistas sociais. Usando o surrado ditado, foi uma maneira de dar os anéis para salvar os dedos.

Marx disse no seu famoso manifesto que o comunismo era um fantasma que assombrava a Europa. Para exorcizar este fantasma, a burguesia aceitou uma série de reivindicações operárias, desde o limite nos horários de trabalho, às férias remuneradas, à erradicação do trabalho infantil, à igualdade de direitos entre homens e mulheres, até a introdução do sufrágio universal, onde cada pessoa seria um voto.

A partir de 1917, com a vitória da Revolução Soviética, as concessões se ampliaram com o temor da burguesia de que o exemplo russo pudesse contaminar as massas trabalhadoras do resto da Europa. De conquista em conquista, os trabalhadores chegaram até o chamado Estado do Bem Estar Social, que a nova crise geral do capitalismo está jogando hoje para a lata do lixo.

O que a ver tudo isso com os herdeiros tropicais da social democracia, o PT e PSDB?  Os dois representam mais um remendo na já desgastadas veste capitalista. Mas, para os milhões de brasileiros que vivem do seu trabalho, estes dois remendos têm significados muito diferentes.

Nenhum dos dois vai nos livrar do jugo capitalista, mas o projeto do PT, ao contrário do PSDB, vai permitir que milhões de pessoas vivam em condições mais humanas, sejam mais saudáveis, que tenham acesso aos bens de consumo, que se instruam e possam chegar através da educação à percepção de que hoje são instrumentos do jogo político, mas que amanhã poderão vir ser sujeitos desse jogo.

O projeto do PSDB, objetivamente visa retornar a um modelo de dependência política e econômica aos interesses norte-americanos. Embora talvez não possam dizer isso com todas as letras, os formuladores dessa política neoliberal acreditam que abandonando a solidariedade com os países africanos e latino-americanos e nos entregando de braços abertos ao ditado de Washington, seremos mais felizes. Aliás, esta não é uma idéia nova. Juraci Magalhães, um precursor desse tipo de pensamento, já disse há muitos anos atrás: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

Para o Brasil que ele representava e que hoje é encarnado por Aécio Neves, Alckmin e FHC e seus sócios, talvez seja bom mesmo. Para o restante da população não.

O que está por trás da adesão aos interesses norte-americanos não fica para o Brasil apenas na troca de afagos, antes reservados para Bolívia, Equador e Cuba, por um lugar na mesa dos ricos. Esta nova política adesista significa basicamente desistir dos sonhos de desenvolvimento autônomo, de privatizações em áreas fundamentais, como a do petróleo e de arrocho salarial.

É preciso que as forças de oposição ao governo Temer superem suas divergências quanto a melhor estratégia política a seguir e se unam nos pontos que possam ser comuns, antes que seja tarde demais.

.Em 1964, se falava na tibieza do governo Jango e de que seus avanços propostos eram pequenos e enganadores. Naquela ocasião, os que poderiam defender aquele governo, que com todas duas fraquezas, tinha uma proposta reformista, também foram incapazes de se organizar em torno de um programa comum

Aí veio o golpe dos militares. Todas as conquistas foram perdidas e vinte anos depois foi preciso começar tudo de novo. Nossas maiores lideranças desapareceram e só sobraram os Tancredos, os Sarneys, os Ulysses e os Simons para liderar o recomeço.

E por que não se falou até agora no PMDB, que afinal, nominalmente ao menos, é a cara do Governo Temer ?

Porque até aqui se discutiu ideologias e o PMDB, com todo o respeito por alguns de seus membros, no passado e até mesmo no presente, só pensa em fisiologia.