É a política, idiotas

Quem não é a favor da democracia?
Todos são.
Até mesmo os tiranos, que a negam na prática, dizem ser a favor.
Episódio famoso, que confirma essa tese, se deve ao espírito crítico de Millôr Fernandes, que, convidado para um evento de escritores em Passo Fundo, no período mais negro da ditadura, fez um discurso inflamado sobre liberdade, democracia e direitos humanos. Foi ovacionado de pé pela plateia. Quando os aplausos cessaram, informou que acabara de ler o discurso de posse do general Garrastazu Médici como presidente do Brasil.
Vejam só, o que o dizia o homem que negou com mais veemência os princípios democráticos durante seu governo: “Homem do povo, conheço a sua vocação de liberdade, creio no poder fecundo da liberdade”
Os gregos de Atenas, a quem a história reserva o direito de ser os inventores da palavra e da prática da democracia, só a permitiam a poucos na sua cidade-estado.
As decisões na grande reunião em praça pública – a Eclésia – eram tomadas apenas pelos homens livres, nascidos em Atenas. Delas, não participavam os estrangeiros (metecos), os escravos, os menores e as mulheres.
Foi somente após as grandes revoluções burguesas, a partir do século XVIII, principalmente na França e na Inglaterra, que este conceito foi parcialmente universalizado.
Surgia a república, com a ideia de representatividade, onde a comunidade através de um processo eleitoral escolhia seus líderes, embora ainda sujeita a restrições importantes, com a exclusão, em muitas sociedades, do voto das mulheres, dos analfabetos e dos despossuídos materialmente, sem contar com os escravos, que não dispunham de nenhum direito.
É sob esse sistema que, com mais eficiência em alguns lugares e menos em outros, vive hoje a maior parte da humanidade: a democracia representativa, onde cada pessoa é um voto e qualquer um – teoricamente – pode chegar ao poder, desde que seja escolhido pelos seus pares.
O poder de uma pessoa ou grupo é transitório e deve ser confirmado tempos em tempos por um processo eleitoral.
Diante desse sistema, se colocam hoje duas possibilidades. Negá-lo, com uma proposta de que alguns grupos – ou uma pessoa – se auto proclamem os representantes da vontade de todos e o exerçam o poder como se escolhidos fossem por outro processo que não o eleitoral.
Caso típico foi a ditadura militar brasileira iniciada em 1964.
A outra possibilidade, é o aprimoramento do atual sistema, retirando dele os entraves que hoje o maculam, como a influência exercida sobre os eleitores pelas mais variadas formas de alienação política.
Seria uma radicalização da democracia. Dentro dessa linha, Tarso Genro, é hoje o único político com representatividade no cenário nacional e intelectualmente preparado, que a defende com coerência e vigor essa linha.
 Em seus artigos, infelizmente restritos à veiculação na imprensa alternativa, ele tem defendido a radicalização da democracia brasileira, extremamente ameaçada nos últimos meses pelo golpe desfechado contra o governo da presidente Dilma, pelo poder exagerado assumido pelo poder judiciário e pela corrupção endêmica do Congresso Nacional.
Como Tarso não defende uma revolução social que altere a divisão de classes no Brasil, nem o fim do regime capitalista, podemos dizer, correndo o risco de ser infiel ao pensamento do autor, que o processo de radicalização democrática que ele prega, precisará ser realizado dentro dos quadros políticos atuais, com a efetivação de pelo menos duas medidas: a reforma política, principalmente com fim da intervenção do poder econômico no processo eleitoral através do financiamento estatal das campanhas políticas e a regulação da mídia, com o estabelecimento de um sistema de responsabilidades, que impeça o que ocorre hoje, quando os veículos de comunicação se transformaram em partidos políticos, quase sempre a serviço de causas impopulares.
A grande questão é saber se existe realmente a possibilidade, dentro de uma democracia representativa como a nossa,  de se alcançar estes objetivos (para não falar de outros mais ousados como as reformas agrária e urbana) através dos mecanismos democráticos do chamado estado de direito em que vivemos.
Marx, e quando se fala em política é inevitável não voltar a ele, diz que o sentido verdadeiro da democracia se revela apenas quando ela se liberta do Estado e de toda forma de mediação política.
Para ele, não poderia haver democracia em uma sociedade de classes e a superação dela, começaria com uma proposta aparentemente contraditória, o estabelecimento de uma ditadura provisória de uma maioria da população.
Na visão dele, essa ditadura seria exercida durante algum tempo pelo proletariado, nascido com o advento da dominação burguesa dos meios de produção.
Seria essa classe revolucionária, a única capaz de descontruir a sociedade capitalista, como a capitalista havia feito com a feudalista e essa, com a escravagista, num processo dialético de teses e antíteses, até se chegar a uma síntese, ainda que também precária, da sociedade comunista.
Todos nós sabemos que a tentativa de dar vida ás teses de Marx, acabaram por fracassar na União Soviética, depois de pouco mais de 70 anos de existência, mas suas teses – na falta de outra teoria – começam novamente a ser discutidas por filósofos e pensadores preocupados com o futuro da humanidade.
A ideia da ditadura do proletariado, proposta por Marx como ponto inicial de uma revolução democrática, parecer hoje superada até mesmo pelo esfacelamento do conceito de proletariado.
Mas, se o proletariado desapareceu como uma classe social homogênea, não desapareceram as incompatibilidades intrínsecas entre os grupos sociais e econômicos que hoje participam do jogo político.
Por isso, é fundamental que os principais jogadores se apresentem para a disputa e façam suas propostas, como está fazendo Tarso Genro.
Na disputa eleitoral entre Clinton e Bush, pai, James Carville, o principal assessor de comunicação de Clinton, explicando as razões para a derrota de Bush, lançou aquele famoso bordão: “ É a economia, idiota”.
Talvez hoje, o que precisa ser dito para todos que pretendem mudar o Brasil e sintam perdidos: o caminho é a política, idiotas

Stalin vive

Até 1956, quando Nikita Kruchiov apresentou seu famoso relatório secreto no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Stalin ( Iossif Vissarionovitch Djugahiovili), morto três anos antes, era o “o genial guia dos povos”, o homem que consolidou o poder dos comunistas em boa parte do mundo e o grande vencedor da Segunda Guerra Mundial destruindo, os até então invencíveis, exércitos nazistas.
A partir daí passou a ser o líder inepto, que comandou uma ditadura sanguinolenta, que traiu seus companheiros de partido, que comandou complôs contra todos seus oponentes, que levou milhões de russos à morte pela coletivização forçada da agricultura e pelos seus planos de desenvolvimento acelerado da indústria.
Até mesmo sua liderança no combate ao nazismo foi posta em cheque. O pesado preço que os russos pagaram em vidas humanas e destruição de suas cidades, seria culpa de Stalin que demorou a reagir antes os sinais de que os alemães se preparavam para invadir seu país.
Infâmia máxima, foi colocado ao lado de Hitler como um dos maiores malfeitores da humanidade e mesmo depois da queda de Kruchiov e a ascensão de Brejnev, a recuperação da imagem de Stalin foi feita muito timidamente dentro da União Soviética.
O fim do regime comunista acelerou a devassa nos arquivos da União Soviética e os documentos dado à luz, pareciam a confirmar a imagem de Stalin como o traidor dos ideais dos antigos revolucionários, processo que Trotsky havia iniciado, quando comandou a oposição de esquerda a Stalin, ainda dentro da Rússia e depois nos seus vários exílios.
O inglês Simon Sebag Montefiore, no seu livro a Corte do Tzar vermelho, deu o aval acadêmico a todas essas críticas, numa obra que mostra Stalin como uma figura diabólica, preocupado em se manter no poder a qualquer custo, urdindo intrigas que fariam invejas aos cortesãos das casas dos Medicis e dos Bórgias, no Renascimento italiano.
Agora, surge alguém disposto a discutir todos esses fatos, que pareciam indiscutíveis para comunistas e anti-comunistas, Domenico Losurdo, professor de história e filosofia na Universidade de Urbino, na Itália, a partir de uma constatação verdadeira, de que os historiadores não devem absolutizar nenhuma verdade, mas problematizar todas.
É o que ele tenta fazer num livro de quase 400 páginas, ‘Stalin, a história crítica de uma lenda negra”(Storia e critica di uma legenda nera), da Editora Revan.
Losurdo examina detidamente todas as ações de Stalin, desde sua ascensão à direção do Partido Comunista após a morte de Stalin, mas concentra sua análise no período mais crucial da vida na União Soviética, a partir dos planos quinzenais de desenvolvimento e da segunda guerra
O livro é as vezes um pouco maçante pela preocupação do autor de examinar os mínimos detalhas de qualquer fato, mas essa é também a sua qualidade. Tudo o que diz, Losurdo busca comprovar com documentos e frases dos autores mais diversos. A bibliografia no final do livro inclui 19 páginas com citações de políticos, historiadores e jornalistas europeus e americanos.
Delas, emergem algumas revelações interessantes, além daquelas usadas para posicionar de uma maneira bastante positiva a figura de Stalin, como as que envolvem dois importantes dirigentes do mundo ocidental, sempre vistos de maneira positiva.
Churchill é lembrado por várias de suas citações em defesa da supremacia da raça branca, principalmente nas questões envolvendo os conflitos coloniais da Inglaterra na Índia e na África e como um admirador de Mussolini e Hitler.
Sobre Mussolini: “ Seria uma loucura perigosa para o povo britânico subestimar a posição duradoura que Mussolini ocupará na história mundial e admiráveis qualidades de coragem, inteligência, autocontrole e perseverança que ele personifica”.
Sobre Hitler, em 1937: “Não aprecio nele apenas o político extremamente competente, mas também seus modos gentis, o sorriso desarma seu interlocutor e o sutil magnetismo pessoal, do qual é difícil fugir”.
Outro personagem, Franklin Delano Roosevelt é lembrado como o presidente que autorizou a abertura de vários campos de concentração dentro dos Estados Unidos onde foram internados milhares de descendentes de japoneses durante a guerra e sua autorização para os selvagens bombardeios aéreos de cidades indefesas alemãs nos últimos anos do conflito.
Mesmo que Stalin não seja um herói para o autor, o que fica da leitura do livro é que, sem ele, possivelmente o regime soviético não teria se consolidado a ponto de poder fazer frente à liderança exercida pelos Estados Unidos no mundo inteiro a partir do fim da segunda guerra.
Mas, se o livro de Losurdo é difícil de ler, o ensaio sobre Stalin (De Satalin a Gorbatchov: como acaba um império) de Luciano Canfora, colocado nas últimas 15 páginas, compensa todas as dificuldades do leitor
Canfora, professor de Clássicos na Universidade de Bari, Itália, mostra num estilo literário de primeira qualidade, que Stalin esteve do lado certo da história em três dos momentos mais dramáticos na vida da União Soviética: na paz de Brest-Litovsk, em 1918, quando se colocou ao lado de Lenin e contra Trotsky, em defesa de um acordo de paz de qualquer maneira; no pacto russo-alemão, em agosto de 1939 e no acordo de Ialta, em 1945.
O primeiro, garantiu a continuidade da experiência comunista na Rússia, em meio a uma guerra civil que não dava tréguas ao novo regime; o segundo, quando fracassaram todas as tentativas soviéticas de uma frente comum dos países europeus contra o nazismo, permitiu que o conflito envolvesse inicialmente as potências colonialista (França e Inglaterra) contra a Alemanha, dando fôlego a União Soviética para se preparar para uma guerra inevitável; o terceiro, finalmente, definindo o respeito às fronteiras resultantes da guerra, assegurou um longo período de paz na Europa, que só hoje começa a ser ameaçado com a volta das reivindicações territoriais de muitos países.
Para Canfora, tudo isso seria obra de Stalin.
No encerramento do seu ensaio, Canfora levanta uma questão interessante: qual o papel de Gorbatchov no esfacelamento da União Soviética?
O autor – a partir de depoimentos do próprio Gorbatchov, feitos ao jornal italiano La Stampa, mostra que sob inspiração do presidente americano Ronald Reagan, ele teria armado como o polonês Wojtyla (o Papa João XXIII) a saída da Polônia da órbita soviética, primeiro passo para o fim da União Soviética.

Si non e vero e ben trovato

A direita que não quer ser chamada de direita

Nem todos os reacionários gostam de ser chamados assim. É o caso, por exemplo, do jornalista Léo Gerchmann, de Zero Hora, que se disse ofendido por que o qualifiquei dessa maneira numa postagem que fiz no facebook, a respeito da sua indicação para um prêmio da Associação Gaúcha de Editores, pelo seu livro Somos Azuis, Pretos e Brancos, da LPM.
A história começou quando Clô Barcelos, querida e respeitada, editora de livros, publicou na sua página no facebook uma mensagem de parabéns a Léo Gerchmann pela sua indicação. Como também sou amigo da Clô no facebook, publiquei no mesmo espaço, um comentário dizendo que me recusava a dar parabéns a um reacionário empedernido como ele.
A resposta dele foi extremamente agressiva e não poupou até o uso de um palavrão (Que horror! Ah, talvez seja porque alguns dos meus textos sejam críticos a países bolivarianos. Tá, sou um baita reacionário, infelizmente (porque acho horrível) e tu deve ser um sujeito brilhante. Bah, Clô, que merda ter que ler um troço desses de um sujeito assim).
Respondi no mesmo espaço que, se reacionário era uma palavra muito forte, poderia trocá-la por outra mais amena, como um jornalista que defende as posições de direita e que não via motivos para que ele não assumisse essa posição, afinal essa é a postura do jornal em que ele trabalha.
Sua resposta foi, então, num tom mais civilizado, mas reafirmando suas críticas aos tais países bolivarianos e dizendo ser uma pessoa quer respeita todas as posições, com exceção dos “fascistas, homofóbicos, nazistas e racistas de todo o tipo’.
Ótimo, uma pessoa pode ser contra fascistas, homofóbicos, nazistas e racistas de todo o tipo e continuar sendo uma pessoa de posições políticas de direita.
Como eu pretendo ser de esquerda, Léo Gerchmann não ficaria mal com seus leitores, se assumisse que suas críticas a Morales, Chavez, Maduro, Correa, partem de posições de direita. Poderia se dizer, talvez até com algum exagero, que há um certo viés racista nas suas críticas, na medida em que olha, principalmente para Morales e Chavez, como os representantes de segmentos mestiços da população e não de brancos, como por exemplo, o presidente Macri, da Argentina, sobre quem escreveu um artigo laudatório.
Ele que despreza tanto estes “bolivarianos” (referência ao grande libertador Simon Bolivar), deveria ler o que disse deles o filósofo esloveno Slavoj Zizek, numa conferência na Bolívia:
“A América Latina é a única esperança de que, invocar tradições ancestrais não seja parte de um projeto nacionalista de direita e reacionária. Eu amo isso”, depois de classificar a experiência de Evo Morales na Bolívia como a mais popular e efetiva da revolução bolivariana.
Sobre Hugo Chavez, a quem já criticara pelas suas aproximações com Ahmadenejad, do Irã e Lukashenko, da Belarus, disse; “As limitações de Chávez foram as limitações do momento presente, mas é preciso deixar bem claro que ele era um de nós”
Provocado pelas afirmações do Léo Gerchmann, de que o seu livro sobre o Grêmio prova que ele não é um reacionário, fui tentar analisar se, historicamente, o que afirma no livro é totalmente verdade
O fato de ser torcedor do Internacional não me impede de constatar algumas contradições no que se divulgou sobre as provas de que o Grêmio, como instituição, nunca teve práticas racistas.
Vamos deixar de lado, a torcida, onde sempre existem elementos que não se conformam com a ideia de que todas as pessoas devem ser iguais independentemente da cor, como provou aquele episódio da torcedora chamando o goleiro Aranha, do Santos, de macaco.
Primeiro, as fotos do time do Grêmio de 1926 com dois jogadores que não poderiam ser considerados brancos.
Meu pai, já me alertara há muitos anos atrás, que enquanto os negros jogavam apenas na chamada “Liga das Canelas Pretas”, havia outros, que por não terem a pele tão escura, podiam jogar na liga dos brancos, o que para ele caracterizava uma forma de racismo porque estes jogadores não se assumiam como negros.
Parece ser o caso dos jogadores que aparecem na fotografia. Os dois estão agachados, um deles, realmente com a pele mais escura, tem o cabelo escondido por uma boina e o outro é realmente um mulato e não um negro.
Mas, vamos supor que sim, que o Grêmio foi o primeiro time a admitir negros no seu time, mesmo antes que o Internacional.
Então, por que, em 1952, o Presidente Saturnino Vanzeloti, anunciou que a contratação do negro Tesourinha, multi campeão pelo Internacional, servia para quebrar um preconceito, que como diz a nota da diretoria do Grêmio, ainda existia.
Diz a nota publicada na imprensa no dia 5 de março de 1952:
A Diretoria do Grêmio resolve por unanimidade tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida de não incluir atletas de cor na sua representação de futebol”.
Mais revelador de que o preconceito ainda existia, é um pedido veiculado no Correio do Povo por um grupo de associados do Grêmio reclamando que essa decisão não poderia ser tomada isoladamente pela diretoria porque ela deveria passar pelo Conselho Deliberativo, “uma vez que não se tratava da simples contratação de um jogador”.

A verdadeira história de Enzo Ferregoto

A família Ferregoto, de Forqueta, como todas as famílias de origem italiana que viviam na região, era numerosa. Na velha casa de madeira, construída sobre grossos pilares, que permitiam a existência de um espaçoso porão, moravam, naquele distante ano de mil novecentos e cinquenta e poucos, a nona Augusta, chamada de Vó Guta, a filha Alcenira, apelidada de Nira, o marido Ferrônio, conhecido como Ferro e um grande número de filhos, que crescia todos os anos, pois o casal era adepto do que se chamava “à moda de São Bento”, um fora e outro dentro.
A família criava porcos, galinhas e tinha uma vaca leiteira, além de uma horta cuidada pela Dona Nira. Como todas aquelas famílias de descendentes de italianos, os filhos eram vistos mais como mão de obra para manter a renda familiar, do que qualquer outra coisa. Mesmo assim, como dizia o Ferro, um macho e uma fêmea eram reservados para o serviço de Deus. Um seria padre e outra freira.
O Ferro já tinha escolhido quem seria padre. Era o Edmar, garoto franzino, que detestava o trabalho pesado e gostava de brincar apenas com as irmãs. Uma vez chegaram a comentar com o Ferro que seu filho poderia virar um fresco, ao que ele respondeu
–  Se virar fresco, curo ele na hora com uma tunda de vara de marmelo.
Quem deveria escolher os que seriam enviados para o seminário, o macho e para o monastério, a fêmea, era o Padre Bonareli, que vinha de Caxias especialmente para isso. O Ferro não gostava muito do Padre porque ele tinha fama de promíscuo e pedófilo. Claro que na época não usavam essas palavras. No armazém, onde o Ferro participava dos jogos de truco nos sábados, Bonareli era o “garanhão” e o “boca-de-fogo”.
Quando, o padre botou o olho na filharada dos Ferregoto, escolheu de cara o Enzo, logo o Enzo, que o pai tinha decidido que seria o seu substituto, quando se aposentasse. Ele era um gringo forte, teimoso como uma mula segundo o Ferro, mas que não escolhia trabalho.
Não teve conversa. Arrumaram umas roupas novas para o Enzo e lá se foi ele, com o Padre Bonareli, para o seminário em Antônio Prado.
Um mês depois estava de volta, expulso do seminário. Tinha se metido numa briga e vivia dizendo “porco dio”, o tempo todo, apesar de advertido mais de uma vez de que isso era uma blasfêmia.
A alegria do Ferro pela volta do Enzo também durou pouco. Ele não queria mais trabalhar na colônia e com ajuda do padre Bonareli, arrumou um emprego numa firma de material elétrico em Caxias.
Iniciou-se aí a carreira profissional do Enzo. Por que entendia tudo de eletricidade, ajudava o pessoal da TV Caxias a consertar seus equipamentos e começou a participar de algumas produções locais de comerciais.
Como era muito forte, ajudava a carregar os cabos dum lugar para o outro. Todo mundo dizia que ele era um rapaz muito esperto e parece que era mesmo.
Em pouco tempo passou, em vez de carregar, a operar os equipamentos e se intitular  “cameraman”, com muito orgulho.
A etapa seguinte foi produzir um comercial para um supermercado. Nada muito complicado: uma série de imagens estáticas de latas de conserva, pedaços de carne e garrafas de bebidas, e uma gravação de um locutor dando os preços do produto.
Não importa. A partir de então, ele deixava de ser “cameraman” e passava a categoria de diretor de comerciais.
Deixou Caxias e foi tentar a sorte na Capital. Simpático, trabalhador e cobrando menos que os seus colegas, virou o plano B das agências de propaganda. 
Quando o cliente não queria pagar o que aquele famoso diretor pedia como cachê, mesmo contra a vontade do pessoal da criação, chamavam o Enzo Ferregoto, o filho do Ferro.
Chegou até a ganhar prêmios e tudo parecia ir nos melhores dos mundos, quando subitamente desapareceu de cena.
Cinco anos depois, com uma barba e cabelos enormes, reapareceu em Florianópolis. Não era mais diretor de comerciais. Dizia que estava iniciando uma vida de produtor de conteúdos de comunicação, seja lá o que isso pudesse significar.
É isso: quando alguém precisar de um produtor de conteúdos de comunicação, procure o Enzo Ferregoto, filho da Nira, ainda viva e do Ferro, há muitos anos morto e irmão mais velho do Padre Edmar, conhecido na zona italiana como o Padre Cantor, porque além de cuidar das suas ovelhas na paróquia em Monte Bérico, as embala com lindas canções religiosas, como bom pastor que é.
Enquanto espera pelos primeiros clientes, vai exercitando suas duvidosas qualidades de escritor, escrevendo textos que posta no seu facebook.
Se assume como um homem de direita, é a favor do Bolsonaro, contra o PT e pela volta dos milicos.
Como se pode ver, um tipo coerente.
Caso a sua biografia recente lhe interesse, e queira saber o endereço do Enzo Ferregoto, o produtor de conteúdos de comunicação, não existe nenhuma dificuldade.
Fácil. Ele está sempre na mesa de canto daquele boteco próximo da Ressacada, na Baia Norte de Florianópolis.
É só chegar.
Em tempo: ele atende agora pelo nome de E. Ferro, talvez em homenagem ao pai. 
Freud, certamente, explicaria.

(Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, é mera coincidência)

O que nos mantém vivos

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Estou velho, irremediavelmente velho. Nada de eufemismo idiotas, tipo terceira idade ou melhor idade. Apenas velho e pronto.
Aquele cara que já está superando o limite da expectativa de vida dos brasileiros e começa a ser sentir um escandinavo.
Como a gente sabe que passou para a categoria de velho? Não é tanto o espelho que diz isso. É o corpo que fala e como fala.
Lembra aquela virilidade que tanto dava orgulho no passado? E apenas passado. Agora você precisa do apoio da química moderna para não fazer feio nos embates sexuais.
O outro sinal é o esquecimento. Claro que você não esquece o nome da mãe, nem dos filhos (aí seria caso de internação), mas não lembra coisas e nomes que foram importantes em certos momentos da vida.
– Qual é mesmo o nome daquele diretor francês… aquele que fez aquele filme com aquela atriz…aquela que depois se casou com…. aquele sujeito que se envolveu num escândalo…aquele?
Contraditoriamente, você sabe que é velho quando se lembra de coisas que ninguém mais lembra.
Você fala no Dr. Getúlio e o presidente mais velho que as pessoas ainda conhecem é o Collor.
Você lembra a escalação do Internacional, hexa-campeão em 1945 (Ivo, Alfeu e Nena; Viana, Ávila e Abigail; Tesourinhas, Vilalba, Adãozinho, Fandiño ou Eliseu e Carlitos) e se duvidar, você cita até o trio final reserva (De Lorenzi, Tábua e Maravilha).
Ninguém está interessado, salvo o Roberto Pintaúde, mas está quase tão velho como você.
Claro que tem os ainda mais velhos, os que se lembram da Revolução de 30 e da passagem do Zepelin (não o conjunto musical) sobre Porto Alegre.
A maioria dos integrantes dessa classe, anterior a sua e a minha já morreram e viraram também memória: na Revolução de 30, meu pai estava de guarda no Catete quando o Getúlio tomou posse.
O que nos sustenta vivos então, a mim e a você?
Falo por mim.
Quando minha segunda mulher me mandou embora e eu tive que vir aqui para o exílio de Gramado, em que podia me apoiar?
Os filhos, claro. Mas cada um deles tinha a sua vida e as suas preocupações para tocar.
Quem me deu forças para sobreviver aqui em Gramado foi a Carmen Cecília, com o seu amor. Um amor de verdade numa cidade onde quase tudo é falso.
Foi ela e os amigos que ficaram em Porto Alegre.
É sobre eles, que quero falar um pouco.
Normalmente, os amigos são produtos de longos anos de convivência, são os tais amigos de infância ou no máximo da juventude.
Pois estes são – se assim posso dizer – amigos da velhice.
Velhos aposentados, que se recusam a entregar os pontos, velhos envolvidos pelo mesmo sonho de justiça social e humanismo. Velhos, que não esqueceram a paixão política da juventude.
Deles, gostaria de citar alguns nomes: o Mareu, o Luís Octávio, o Airton o Lenine, o Lantieri e o Franklin. Sobre este último me permito falar um pouco mais, passando por cima da modéstia que o caracteriza.
Há uns dois anos, depois de ler um texto meu no Sul21, o Franklin me ligou convidando a fazer parte de um grupo de médicos que editava um blog em favor do projeto Mais Médicos, e que ainda hoje existe defendo uma visão de esquerda da política brasileira. É o site Imagem Política.
No passado, afora as carreiras liberais, as duas grandes chances para garantir o sucesso financeiro de uma pessoa era fazer concurso e entrar no Banco do Brasil ou estudar na escola da Varig e virar piloto de avião.
O Franklin seguiu esse segundo caminho, mas em determinado momento da vida, teve coragem de largar essa carreira e começar tudo de novo, passando no vestibular de medicina.
Virou um médico de sucesso como ginecologista, casou-se com uma mulher maravilhosa com a qual vive até hoje, a médica pediatra Iole e se não fez fortuna, estabeleceu para ele e a família um ótimo padrão de vida.
Outro dia, o Franklin me fez a pergunta, que de certa forma motivou este texto.
O que nos leva a defender os interesses de uma classe, que objetivamente não é a nossa, ser mal visto por conhecidos e até familiares e no caso dele, ter até que defender suas posições num tribunal?
A resposta me ocorre agora, Franklin
É a paixão de viver. É a nossa recusa de envelhecer e abandonar os sonhos da juventude.
Pensando bem, Franklin, Mareu, Luís Octávio, Airton, Lantieri e Lenine, não somos velhos. Pelo contrário, somos muito mais jovens que muita gente que anda por aí.

Jantar em família

O pai cobrara tantas vezes que ele acabou concordando em participar. Seria um jantar de toda a família.
– Como nos velhos bons tempos, disse o pai.
Ele não se lembrava de que tivesse havido alguma vez bons tempos naquela família.
O irmão viria de São Paulo com a mulher e a filha.
A mãe insistira que eu  levasse a Norma, a nova companheira, que ela ainda não conhecia.
Mas, ela não queria ir de jeito nenhum
– O teu irmão milionário ainda passa, mas a mulher dele é insuportável.
Esse era o problema de Norma e também meu: como sentar na mesa com aquela mulher.  Judite era o nome dela. Estava casada com meu irmão há quase 10 anos. No início parecia uma mulher igual a tantas outras. Preocupada em cuidar da filha que nascera logo depois do casamento, não gostava de cinema, nem de leitura. Seu assunto preferido era a novela da 8 na Globo. Quando a menina cresceu, ela se revelou uma pessoa extremamente rígida, preocupada em transformar a filha num modelo de comportamento.
Até a minha mãe, que sempre fugia de qualquer crítica à nora, achava que as vezes ela exagerava,
– Parece que quer a minha neta seja uma freira.
Meu irmão, mais velho 5 anos, tinha uma carreira em ascensão numa multinacional e além da novela que assistia com a mulher, era também torcedor do Inter, o único ponto que nos identificava e que nos dava algum assunto para conversas.
Há pouco mais de um ano, um drama envolveu a família de meu irmão. Depois de muito tentarem, finalmente eles teriam um filho homem. Só que o menino nasceu com graves deficiências físicas e logo morreu.
Pouco depois desse triste episódio, fui com a Norma visitar Judite.
Ficamos surpresos com a sua aparente tranquilidade.
Ela se referia ao filho morto, como o Anjo Gabriel
– Deus o levou para o céu para fazer parte das legiões do outro Gabriel. Ele era bom demais para viver entre os pecadores aqui na terra.
Ela se incluía entre estes pecadores:
– A filha que Deus nos deu já era suficiente. Mas nós continuamos nos entregando aos prazeres da carne, com a desculpa de ter um filho homem. Foi muita soberba de nossa parte. Devia ser suficiente o que Ele já nos tinha dado, mas queríamos mais, por isso fomos punidos.
Disse que como penitência nunca mais faria sexo com o seu marido.
Em seguida, nos transformou em alvo de suas críticas.
– Sei que vocês vivem em pecado. Fazendo sexo só pelo prazer. Deus vai castigar vocês também.
Meu irmão interviu, tentando justificar o comportamento da mulher pelo trauma da perda, o que na hora me pareceu aceitável.
Nos encontramos, outra vez, rapidamente numa missa de sétimo dia de um parente. Pouco falamos, mas na saída, ela não perdeu a oportunidade de me advertir quando viu que a Norma estava ao meu lado na porta da igreja
– Então, ainda vivendo em pecado? Aqui é a casa de Deus e ele enxerga tudo e tem horror dos fornicadores.
Meses depois, quando já moravam em São Paulo, para onde meu irmão tinha sido transferido ao passar para a diretoria da empresa, vi uma foto dela numa reportagem da Veja sobre as novas igrejas pentecostais que se multiplicavam pelo País. Ela era criadora de uma igreja chamada Morada do Anjo Gabriel e pregava abstinência sexual total para os solteiros e dizia que aos casais, o sexo só era permitido para a procriação.
Será que meu irmão seguia essa orientação?
Meu pai achava que não e comentava com ironia:
– Ele não quer brigar com ela por causa da filha, mas certamente deve ter seus casos. Ele vive viajando para o Exterior e lá as leis da Judite não devem valer.
O tal jantar seria a oportunidade para reunir novamente a família, depois que meu irmão e a mulher se mudaram para São Paulo
A mãe havia dito que Judite estava mais tranquila. Que continuava extremamente religiosa, principalmente agora que se transformara na pastora de uma nova igreja, mas que na vida privada não tentava convencer os outros de suas ideias.
É o que iríamos ver no tal jantar da família.
De início, pareceu que a mãe tinha razão.
Judite parecia calma, perguntou a Norma se já tinha concluído a faculdade de artes e a mim, como estava a vida nos jornais.
Meu irmão, lembrou a vitória do Inter sobre o Palmeiras, em São Paulo e disse que tinha visto o jogo.
O clima parecia tranquilo, mas tenso. Ninguém arriscava entrar em algum assunto que pudesse provocar um tipo de polêmica.
De repente, a tempestade se abateu sobre a mesa vindo de um lugar onde ninguém esperava.
A filha do meu irmão, de 12 anos, perguntou à Norma onde ela me conhecera.
Norma, sem se dar conta da fúria que iria desencadear, respondeu.
– Eu era casada com um colega de jornal do teu tio.
Judite não disse absolutamente nada. Apenas pegou a filha pelos braços e saiu quase correndo da mesa. Meu irmão, depois de alguns segundos de hesitação. saiu atrás e me minha mãe, se voltando para Norma, cobrou rispidamente
– Precisa contar isso na frente da Judite?
Está claro porque não aceito mais convite para jantar de família?

De qualquer família.

Mensagens

São 11 horas da manhã.
Dormi mal e acordei no meio de um pesadelo.
Uma voz poderosa, cheia de pontos de exclamação me acordou gritando:
– Você foi o escolhido! Chegou a hora! Esteja preparado! Vou buscá-lo logo!
Devo ter dormido preocupado com aquelas mensagens, sempre iguais, que há uma semana não param de chegar.
Primeiro foi um telegrama, daqueles antigos que ninguém usa mais.
Quando abri, foi que li pela primeira vez aquela frase
– Você foi o escolhido.
Não tinha assinatura, nem endereço.
Quem seria?
Me lembrei que entrara num concurso de contos de terror de uma editora portuguesa e eles poderiam estar me informando que fora o ganhador.
Uma editora portuguesa, só poderia ser ela.
Não era. Vi no google que o concurso ainda não se encerrara.
Depois foi uma mensagem no celular com a mesma frase.
Certamente seria uma daquelas armadilhas que as empresas de telefonia gostam de fazer.
– Você foi o escolhido.
Vai passar do plano B para o A e só precisa pagar mais 200 reais por mês.
Felizmente não era. Me disseram que não estavam com promoção nenhuma, mas se eu quisesse poderia passar para o plano A. Eram só mais 500 reis…
Desliguei na hora.
Mais tarde, começaram a aparecer mensagens no facebook
– Você foi o escolhido.
Deve ser coisa do Ferreti ou do Pintaúde. São uns caras aposentados como eu, que não têm nada mais para fazer e ficam atormentando os outros.
Mandei umas mensagens agressivas para os dois e eles se fizeram de loucos, dizendo que não tinham nada a ver.
Quem seria então o engraçadinho. Ou quem sabe a engraçadinha.
Pensei na Carmen Cecília, na Yvana, na Narinha, na Graça, na Inara, na Neusa e na Bárbara, mas acabei desistindo de interpelá-las. Mulheres são mais responsáveis. Não fazem esse tipo de brincadeira;
Ontem chegou um email
– Você foi escolhido.
Quem sabe o Temer, na falta de alguém realmente honesto, inteligente e criativo, tinha pensado em mim para o ministério.
Liguei para o Itamar, que sabe tudo sobre o governo do interino, mas ele disse que não havia mais cargos vagos.
Silêncio!!!
Estão batendo forte na porta.
São batidas ritmadas como aquelas de filmes de terror.
Pela soleira da porta começa a subir um cheiro forte de enxofre.
Acho que é Ele que veio me buscar.
Preciso abrir.
Antes disso vou colocar este texto no facebook.
Caso eu não escreva mais nada nas próximas horas, era mesmo Ele.
Bom dia para todos
Acabei de enviar o texto.

O homem que amava as mulheres

Ele morava sozinho num apartamento de um velho edifício perto da Usina do Gasômetro, na rua Washington Luís, que ele insistia em chamar de Pantaleão Teles.
Quando perguntei porque esse saudosismo, ele disse que nem sabia quem era o tal Pantaleão, mas não gostava do Washington Luís, “aquele representante da elite paulista varrida pela Revolução de 30”.
– Depois a Pantaleão era a rua de muitas mulheres, uma rua de meretrício, por isso mudaram o nome.
-Esses caras têm horror das mulheres.
Mulheres, era por isso que eu estava agora naquele apartamento. Ele soubera que eu havia escrito alguns livros – livros que a bem da verdade, poucos leram – e agora queria que eu escrevesse sua biografia.
E tinha até pronto o título do livro
O Homem que amava as mulheres.
Falei para ele que já havia o livro do Padura fazendo sucesso – O Homem que amava os cachorros – mas ele disse que não tinha lido e era de mulheres e não de cachorros que ele queria falar.
Como não tinha dinheiro para pagar meu trabalho, me ofereceu sua biblioteca com centenas de livros e uma coleção de garrafas de uísque intocadas.
– Os livros não posso ler mais porque estou quase cego e em relação a bebidas, só tomo vinho.
Essa explicação ele me deu, enchendo meu copo com um malbec argentino.
Passamos a tarde juntos. Eu tinha levado o gravador e registrara suas histórias, prometendo que depois que escrevesse alguma coisa, voltaria para conversar com ele.
Nunca mais o vi. Ou vi, apenas nas páginas policiais quando encontrei a notícia de que um ancião que vivia sozinho num apartamento da Washington Luís havia sido encontrado morto e seus vizinhos disseram que era um sujeito muito estranho. O jornal o classificou de misógino. O jornalista imbecil que escreveu isso, deve ter pensado que o termo de origem grega significava um sujeito solitário, quando o significado verdadeiro era de um homem que odeia as mulheres.
Logo ele, que, acima de tudo, amava as mulheres.
Fui então procurar o velho gravador de pilha e comecei a relembrar as frases entrecortadas do seu depoimento.
O livro, não vou escrever mais, mas algumas das frases que ele disse, gostaria de dividir com vocês:
– O homem só existe por causa de uma mulher
– Mesmo quando não valem nada, elas são maravilhosas
– As mulheres me deram tudo, inclusive a vida
– Amei centenas de mulheres. Muitas delas nunca ficaram sabendo. A maioria me traiu, mas nunca tive ódio delas.
– Amei desde as estrelas do cinema, até àquela menina de óculos que frequentava a missa das 10 na Igreja São João e nunca soube da minha existência.
– Sempre fui eclético nos meus amores cinematográficos. Sonhei com os seios da Jane Russel no Proscrito, com aquelas italianas exuberantes como o Gina Lolobrigida e a Silvana Pampanini e as metidas intelectuais, todas francesas, como a Jeanne Moreau, a Michele Morgan e a Simone Signoret.
– Tem os que não gostam das mulheres. Tenho pena deles. Li uma vez que o Freud explicou: Quando o pai da criança não consegue impor limites ao filho, que está literalmente grudado na mão, o filho interioriza as características femininas da mãe, inclusive seu objeto de desejo, o homem. Seria um novo triângulo, pai passivo/mãe dominadora. Meio complicado isso. Prefiro o Analista de Bagé, daquele menino, o Luís Fernando, filho do Érico
– Amei mais de uma mulher ao mesmo tempo e fui fiel a todas elas nessas ocasiões. Elas, não.
– Vou confessar. Sou polígamo por natureza, mas gostaria que as minhas mulheres fossem monógamas. Bobagem. Elas são o que elas são.
– Traição? Nunca trai nenhuma. Claro que eu não falava da existência das outras. Mas quando estava com elas, não pensava nas outras. Elas, sim, pensavam em outros. Uma delas, uma vez, trocou meu nome numa hora bem imprópria.
– Chamou de quê? Acho que de Maicon, ou coisa que valha. Um nome americano, desses de cantor de rock. Logo eu que tenho um nome bem brasileiro.
– Vou te dar o nome de uma mulher famosa que conheci biblicamente. Na Bíblia é assim: David conheceu Sara e ela deu a luz a Jacó. Ou seja, na Bíblia, conhecer é sinônimo de transar.
_ Nome dela é ….
Vocês não vão acreditar, mas a fita se rompeu exatamente nesse momento e não vamos ficar sabendo que mulher era essa.
Acho que vou organizar todo esse material e ver se existe algum editor disposto a publicar. Minha ideia é pedir para a Carmen Cecília fazer uma de suas lindas ilustrações para este livro sobre o Homem que Amava as Mulheres, porque ela, além de ser uma grande artista, acredita no amor.

Eu, depois de ouvir o que ficou no meu gravador, também começo a acreditar.

O retrato do velho quando jovem

Você está velho. Cada dia mais velho.  Suas forças vitais diminuem a cada dia que passa. Você esquece os nomes das coisas e das pessoas. Sabe o que isso significa? Significa que você está se aproximando, cada vez mais rapidamente, da morte.
Você cuida da saúde, faz exercícios, vai a dezenas de médicos, mas não adianta muito. O máximo que você consegue é adiar a chegada da morte por algum tempo. Meses, anos talvez.
Enquanto isso, as pessoas em volta estão cada vez mais jovens. Pelo menos, é assim que você vê. E cada vez, dão menos importância para a sua experiência de vida. Se pensa que eles estão interessados nas coisas que você sabe, esqueça.
Quem quer saber que os Estados Unidos já tiveram campos de concentração dentro do seu território durante a guerra; quais as divergências entre Stalin e Trotsky e por que o golpe de 64 no Brasil foi apoiado pelos americanos?
Ninguém.
É bullshit.
Isso você sabe o que é, de tanto ouvir nos filmes americanos.  Mas não vai adiantar para facilitar uma conversa com os jovens. Ao contrário de você, que decorou algumas palavras ouvidas nos matinés do Imperial, os jovens falam inglês fluentemente. Pelo menos aqueles que você pensa que teriam interesse em suas histórias.
Você, que ainda usa o celular para falar, como fazia com o velho telefone, está séculos atrasado. Até no nome do aparelho, que agora é chamado de smart phone e serve para que os jovens façam milhões de coisas, inclusive telefonar.
Quando você, não aguentar mais a solidão e quiser lembrar o bonde Floresta, o cinema Vogue, a Legalidade e os gols do Bodinho, vá procurar a sua turma.
Só não olhe para aquele seu retrato de quando tinha 20 anos.
Mas, você não resiste e vai olhar.
O sujeito que você vê com aquela cara de idiota, é realmente um idiota.
Foi um idiota, mas tinha uma vantagem enorme sobre o que você é hoje.
Ele tinha esperanças.
Esperança de ser um intelectual conhecido, um jogador de futebol famoso ou um político respeitado.
Essa é a diferença: ele tinha esperanças e você, no máximo, conformismo.
Mesmo que todas suas esperanças fossem vagas promessas, quase impossíveis, de ser feliz no futuro, ele tinha o que você agora, por mais que se esforce, não pode ter mais, esperança.
O retrato do velho quando jovem é a prova que tudo que tinha para dar certo, não deu.
O que fazer, então?
Quem sabe você se console, lembrando alguns versos do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.
E agora, José? 
A festa acabou, 
a luz apagou, 
o povo sumiu, 
a noite esfriou, 
e agora, José? 
e agora, Você? 
Você que é sem nome, 
que zomba dos outros, 
Você que faz versos, 
que ama, protesta? 
e agora, José?
Está sem mulher, 
está sem discurso, 
está sem carinho, 
já não pode beber, 
já não pode fumar, 
cuspir já não pode, 
a noite esfriou, 
o dia não veio, 
o bonde não veio, 
o riso não veio, 
não veio a utopia 
e tudo acabou 
e tudo fugiu 
e tudo mofou, 
e agora, José?
Ponha seu nome no lugar do José e vá vivendo em quanto der.

A nova propaganda gaudéria


Hoje é 31 de maio do ano 172 DRF (de acordo com o nosso novo calendário: Depois da Revolução Farroupilha), começo a escrever “estas mal traçadas linhas” para tentar te explicar como tudo aconteceu. 
Primeiro, foi um projeto instituindo aquele hino que fala das nossas façanhas, nas cerimônias oficiais. Depois, veio a pilcha como traje oficial do Estado e as normas de como fazer um churrasco politicamente correto.
As coisas começaram a tomar um rumo radical quando alguém propôs na Assembleia que se adotasse um novo o nome do Estado, que passaria a se chamar oficialmente de Rio Grande do Sul – Estado Associado ao Brasil. O projeto não passou, até porque uma parte dos proponentes queria agregar mais um aposto explicativo ao nome – associado, por enquanto – o que dividiu o grupo e provocou a derrota. 
A propaganda não podia ficar atrás e logo surgiram propostas por “uma comunicação mais gaudéria”. O ponto de partida foi a Carta de Canguçu, de 20 de setembro do ano 168 DRF, que pedia o banimento da influência americana da nossa comunicação publicitária. 
Um glossário foi publicado no Jornal da Terra, com a tradução para o gauchês de uma série de nomes até então comum nas agências. Assim, saiu Boy e entrou Pia de Recados, em lugar de Mídia, ficou Distribuidor de Anúncios; Raugh deu lugar a Borrão e Layout foi substituído por Esboço. 
Aí, ninguém conseguiu mais segurar. Em Coronel Bicaco, um grupo intitulado Escrevinhadores de Reclames, lançou um manifesto “ contra a influência baiana que infesta os comerciais de televisão”. Em Santa Vitória do Palmar, uma produtora de vídeo, chamada Avião, informou que rodaria um comercial de cerveja nativa na praia do Hermenegildo durante o período da maré vermelha.
A Revista Reclame (sucessora da Revista Propaganda) deu em manchete na capa CHEGA DE FRESCURA e propôs uma revisão histórica da propaganda ARFP (Antes da Revolução Farroupilha na Propaganda). Assim, aquele anúncio tão premiado no passado, passou a ter um novo título: O PRIMEIRO CORPINHO (soutien para os estrangeiros) A GENTE NUNCA ESQUECE.
É claro que o processo ainda não está totalmente consolidado. Nas nossas principais agências – agora elas se chamam Seival, Piratini e Fronteira – dificilmente alguém deixará de cumprir o MPG (Manual do Publicitário Gaúcho), mas nas agências menores sempre escapam alguns erros. Outro dia, um varejo de Caxias lançou uma campanha, feita por um guri chamado Edgar Ferreti, com o título TUDO QUE VOCÊ QUERIA, desconhecendo o fato de que nós usamos o pronome TU, com muito mais apelo telúrico. 
Buenas, tchê. Essa charla está muito boa, mas está na hora do mate e o piá de recados já veio me avisar que o Patrão da Invernada Externa (é o antigo Diretor de Atendimento) o Sepeh de los Santos, quer reunir a Tertúlia Criativa (é o grupo de Criação, formado pelo Beto Cabelo, o Roberto Guasca Velho e o Ricardão ) para um Entrevero Mental (é brainstorming). 
Que o Patrão Velho me perdoe por usar uma palavra tão maldita como essa, brainstorming.
É isso aí, vivente. Quem não se adaptar vai ficar sem mel, nem porongo.
Saudações Farroupilhas.
(Texto em homenagem ao nosso grande chargista (ou melhor seria dizer desenhista?) Santiago Neltair Abreu)