Blecaute e o pedreiro Waldemar

Como a minha amiga Vera Spolidoro não conhecia o cantor Blecaute, resolvi relembrar minha época de professor de História e explicar o que Segunda Guerra teve a ver com ele. Acontece que preocupado com um possível ataque alemão à costa brasileira, o governo decidiu instruir a população no uso de máscaras contra gases e fazer exercícios de blackout em toda a orla marítima do país.
Em setembro de 1942, por segurança, o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, ficou três noites na mais completa escuridão. Obviamente, como havia escassez de energia o governo matava dois coelhos com uma só cajadada (novo esse ditado, hein?).
Na época, fazia sucesso um cantor negro como carvão ou como diria José de Alencar sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel, tinha os cabelos negros como a asa da graúna, que aproveitou sua cor para se apelidar de BLECAUTE (Otávio Henrique de Oliveira – 1919/1983), facilitando a pronúncia.
Ele teve grande destaque defendendo marchinhas de carnaval, duas das quais ficaram famosas, ambas de 1949, o Pedreiro Waldemar, de Wilson Batista e o General da Banda, de Tancredo Silva, Sátiro Melo e José Alcides.

O Pedreiro Waldemar, antecessor de Pedro Pedreiro, do Chico Buarque, tinha forte conteúdo de denúncia social:

“Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece?
Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar
Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Waldemar que é mestre no oficio
Constrói um edifício
E depois não pode entrar”

Já o General da Banda, era em tom de galhofa:
“Chegou o general da banda,he he
Chegou o general da banda,he a,he a
Chegou o general da banda,he he
Chegou o general da banda,he a,he a
Mourão mourão
Vara madura que não cai
Mourão,mourão,mourão
Catuca por baixo que ele vai
Mourão mourão
Vara madura que não cai
mourão,mourão,mourão”

Engraçado que, no golpe de 64, quem desfechou o primeiro movimento militar para derrubar o Presidente Goulart foi o General Mourão, Olímpio Mourão Filho, que se intitulava A Vaca Fardada.

Melhor que fosse o General da Banda e não o General do Golpe como uns que outros ainda vivos.

George Clooney, Tarso Genro e o “ajuste”

O único cinema de Gramado (contraditoriamente a cidade do Festival de Cinema) é parcimonioso na apresentação de algum filme interessante, mas nesse fim-de-semana (quando a sala é aberta) abriu uma exceção e exibiu um filme que me fez sair da minha zona de conforto e comprar um ingresso (meia entrada para sênior – eufemismo de velho) para assistir O Jogo do Dinheiro (Money Monster).
O filme, longe de ser lembrado pelas suas qualidades, nos faz pensar mais uma vez sobre como o capitalismo, na sua versão financeira, se tornou nocivo para a sociedade e totalmente inútil como gerador de riquezas, como já foi no passado.
Quem viu o trailer do filme, já conhece praticamente tudo, ficando apenas a dever a sua conclusão, aliás facilmente perceptível desde as primeiras cenas.
Quem dirige o Jogo do Dinheiro é a antiga e boa atriz Jodie Foster, tem a sempre bela Julia Roberts no elenco, mas quem manda no filme é George Clooney, cada vez mais histriônico e canastrão, fazendo caras e bocas no papel de Lee Gates, um enlouquecido apresentador de um programa de televisão sobre a bolsa de valores.
Um dia, alguém que perdeu todo seu dinheiro acreditando nos conselhos de Clooney, invade armado o estúdio, ameaçando tudo explodir. Como sua exigência é de que as imagens não sejam cortadas, o drama se desenrola ao vivo para milhões de expectadores.
Tudo isso em meio a um roteiro quase inverossímil, mas que de qualquer maneira nos ajuda a entender que o mundo das grandes finanças é intrinsicamente desonesto e os pequenos investidores ingênuos e egoístas, restando como salvação para a humanidade, a conversão de Clooney e de uma improvável relações públicas da bolsa de valores aos bons costumes americanos.
O Jogo do Dinheiro está longe em qualidade e força de denúncia de a A Grande Aposta (The Big Short) de Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carrel, Ryan Gosling e Brad Pitt, quase uma obra prima na denúncia das manipulações de bancos e financeiras responsáveis pela explosão da chamada “Bolha Imobiliária”, nos Estados Unidos, em 2008.
Agora, o que o George Clooney tem a ver com Tarso Genro e o “ajuste”, anunciado no título?
É que os dois filmes mostram algo que já aconteceu nos Estados Unidos e que Tarso está prevendo que possa acontecer no Brasil, segundo texto que publicou essa semana em seu blog no Sul21, ou seja, a liquidação da base econômica construída à duras penas no Brasil e a adoção em definitivo de um modelo de capitalismo cada vez mais antissocial.
Pode ser também que a minha leitura esteja equivocada e o ex-governador não se referia a isso quando diz: “ aqui, (no Brasil) o que bloqueia a democracia é a radicalização da “exceção”. Dentro da crise, a “exceção” se completa, para poder promover o “ajuste” por fora das instituições tradicionais do Estado de Direito”
Enquanto as democracias burguesas mais antigas definham, de acordo com Tarso, mas têm em suas organizações políticas ainda sólidas, uma garantia contra o “ajuste”, aqui no Brasil, a “exceção” se infiltra no tecido constitucional com um apoio social bastante amplo, pelos “resultados” que oferece, imediatamente, na luta contra a corrupção. O seu objeto, porém, não é a luta contra a corrupção, mas estabelecer um nexo, entre a corrupção e a necessidade do “ajuste”, ele mesmo a suprema corrupção das funções públicas do Estado. E o “ajuste” não pode ser feito sem esta decomposição, que passa pela manutenção do sistema político, ofertante gracioso de uma Confederação de Investigados e Denunciados, dispostos – pela sua situação penal precária- a cumprirem a trajetória do “ajuste”
O resultado desse “ajuste” de que fala Tarso, se faz fundamentalmente no plano econômico. São as primeiras imagens de uma nova sociedade que o Jogo do Dinheiro e A Grande Aposta nos antecipam em forma de espetáculos cinematográficos.

Marino Boeira é professor universitário

Saudades dos velhos casamentos

Ligo para o amigo que não vejo há muito tempo e pergunto pela família.
– Estou separado há mais de um ano, me responde ele.
Mais um. Pensei que fosse só eu.
Parece que o casamento é uma instituição que não está dando mais certo, ou ao contrário, é algo tão bom que as pessoas estão querendo experimentá-lo mais de uma vez, com parceiros diferentes.
Diga-se de passagem, que são as mulheres que estão pondo fim àquelas velhas e longevas uniões.
Eu, por exemplo, já fui dispensado duas vezes.
O casamento parecia ser uma instituição tão sólida como a Igreja Católica e o Partido Comunista, mas fazendo justiça ao que disse Marx uma vez, tudo que é sólido está se desmanchando no ar.
Foram as mulheres se cansaram do casamento ou pelo menos do seu parceiro da vez, na maioria das vezes argumentando que ele, o casamento, se tornou uma rotina monótona e desinteressante.
Elas acham a rotina monótona, quando era a rotina que sustentava o casamento. Nada melhor que uma boa rotina doméstica. Almoço e janta na hora certa, o chinelo confortável, o futebol na televisão e até mesmo sessões de sexo vez que outra.
O macho, é claro, tinha seus passatempos fora de casa (nada muito profundo), enquanto a fêmea cuidava do lar. Pelo menos, era isso que os machos ingênuos pensavam que fosse verdade.
Enquanto os homens achavam que estava “tudo igual como dantes no quartel de Abrantes”, um movimento sedicioso para acabar com aquela paz estava em andamento.
Visão machista? Claro, o macho só pode pensar como macho, salvo aqueles sujeitos alternativos que dizem valorizar seu lado feminino.
Mas, isso são outros quinhentos e falar sobre esse tipo de comportamento pode ser considerado politicamente incorreto.
As fêmeas, enquanto os machos dormiam em berço esplêndido, já tinham iniciado a sua revolução de hábitos e costumes
Então, as mulheres foram para a rua e começaram a tirar seus homens da zona de conforto. Muito justo. Bom para elas, embora haja alguma divergência sobre isso.
O certo é que o casamento tradicional dançou. Sobraram as uniões por tempo limitado, aproximação de corpos, as vezes alguma interação cultural, mas dentro daquela nova ordem: eu na minha casa e tu, na tua.
Antigamente (hoje, tudo virou antigamente) se falavam em amizades coloridas, ou seja, amizades que envolviam mais do que olhares e sorrisos, mas não pressupunham compromissos para a vida inteira. Hoje o termo da moda é relacionamentos.
Os relacionamentos podem ser múltiplos ou aos pares, dependendo do gosto e das condições financeiras dos interessados, porque numa sociedade capitalista tudo tem custo.
Antes você comia feijão com arroz durante a semana inteira com a sua cara-metade (outra expressão que saiu de moda) e no domingo partia para um churrasco como muita cerveja.
Hoje, um relacionamento que se preze exige um bom investimento: restaurante com toalhas de linho, luz de velas e vinho importado, de preferência um espumante cheio de gás.
Qual o melhor para o futuro? Há 50 anos atrás Sartre e Simone Beauvoir já pregavam o casamento livre. Cada um na sua, as vezes juntos, outras separados. Parceiros múltiplos e todos amigos entre si.
Não sei não, se está alternativa é viável. Imagina a tua ex te apresentando para o novo parceiro (por favor, não chame o cara de Ricardão). O sujeito é vegetariano, não bebe, votou na Marina, acha o Moro a salvação da lavoura e além de tudo é gremista.
Falar o quê, com um cara destes?
Saudades dos velhos e bons casamentos.

Pelo menos, não tinham surpresas desagradáveis

A imagem do capitalismo numa campanha publicitária

Quando se tornou hegemônico na Europa, principalmente na Inglaterra e França, a partir da segunda metade do século 18, o capitalismo foi um extraordinário fator de progresso, rompendo as amarras do feudalismo, que prendia o desenvolvimento econômico do mundo civilizado
Ele rompeu barreiras nacionais, trouxe a secularização dos costumes, a igualdade política das pessoas dentro de uma democracia formal consubstanciada no formato republicano (ainda que a Inglaterra continuasse um reino) e criou um novo modelo de busca de felicidade para os homens, representado pela sua realização econômica como indivíduo.
Ao lado desse lado positivo, trouxe também grandes malefícios para a humanidade, como guerras, exploração de populações inteiras fora do seu centro de poder e a destruição sistemática da natureza.
Há muito tempo, o modelo capitalista esgotou sua capacidade de gerar progresso e seus aspectos negativos se tornam cada vez mais dominadores.
Para se manter vivo,ele dispõe de muitas armas, desde a coerção armada das populações descontentes, à manipulação permanente da opinião pública através dos meios de comunicação, divulgando a ideia de que o modelo capitalista é o único possível e que o máximo de aspiração possível para a humanidade é o seu aprimoramento dentro da lógica da democracia representativa em que vivemos.
Nessa última tarefa, cumpre papel fundamental a Publicidade, ao transformar produtos nocivos ao ser humano em em objetos de desejo. É ela quem promove a destruição sistemática de bens de consumo ainda válidos, para que novos produtos possam ser consumidos. É ela, a Publicidade, que, a serviço de negociantes inescrupulosos, cria ilhas de prosperidade em meio a um mar de necessidades. É finalmente ela, que financiando com seus anúncios os meios de comunicação, permite a existência de um sistema de voltado fundamentalmente para a manutenção intacta do status quod injusto atual.
Um bom exemplo de como isso é processado pode ser visto, analisando um dos comerciais de televisão de maior sucesso no País nas últimas décadas do século passado e que até hoje pode sintetizar o que pretende o capitalismo: levar vantagem em tudo.
Trata-se de uma campanha publicitária para o cigarro Vila Rica, da multinacional J. Reynolds, criado pelo publicitário José Monserrat Filho, da agência Caio Domingues Associados em 1976. O comercial usava o testemunho do jogador Gerson, que tinha sido campeão do mundo em 1970 e que na época era comentarista de futebol. Uma frase dita no comercial de TV, por Gerson, acabou como símbolo de quem age sem escrúpulos, sempre querendo ter lucro a qualquer custo (ideia básica do capitalismo): “Gosto de levar vantagem em tudo. Certo?” O interessante é que o criador do comercial, José Monserrat, era um homem de esquerda, vindo de uma longa temporada de estudos na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou.
Dizem que Gerson se arrependeu depois de ter feito esta campanha publicitária que reforçou no brasileiro o conceito de que é preciso levar vantagem em tudo, enquanto o seu criador, o então publicitário José Monserrat, explicou que a ideia não era de valorizar quem passa os outros para trás, mas quem sai na frente, embora admitindo que o espírito popular, na sua sabedoria, entendeu do primeiro jeito.

O vidente


Havia apenas um letreiro meio desbotado na fachada, Bar do Manoel. Uma verdadeira espelunca, mas era exatamente o que eu estava esperando.
Prudentemente, havia deixado o carro estacionado a uma quadra adiante e acabara caminhando pela rua Piauí, no Passo da Areia, até chegar na frente do bar.
Como eu imaginava, naquela hora da manhã o bar estava ainda vazio. Atrás do balcão, com cara de poucos amigos, estava aquele que deveria ser o Manoel, que dava o nome ao bar. Um homem gordo, aparentando uns 50 anos, quase careca e com um enorme bigode, o típico português das piadas. Além dele, apenas um empregado, que com uma vassoura, tratava de empurrar pedaços de papel e tocos de cigarro para a soleira da porta.
Eu já tinha vivido situações parecidas e sabia quais os problemas que haveria de enfrentar, mas o que fazer, teria que ir em frente.
Dei um bom dia e recebi de volta um resmungo.
– Seu Manoel, preciso saber se o senhor recebeu uma encomenda, um engradado de bebidas finas, champanha, vinhos, uísques, conhaques.
Com uma visível irritação, o seu Manoel em vez de responder, me fez outra pergunta.
– O que o senhor quer saber? É vendedor de bebidas? Então não estou interessado. A bebida que mais vendo aqui é cachaça.
Usando a melhor diplomacia possível tentei informar ao seu Manoel que recebera um aviso que essa encomenda tinha sido entregue no seu bar e precisava apenas saber se ele a recebera.
O seu Manoel parecia agora a beira de um ataque de fúria. 
– Não tem nada de encomenda e o melhor é o senhor não brincar comigo
Pus uma nota de 50 reais sobre o balcão e pedi uma dose de cachaça, logo eu que nunca bebia cachaça, mas achei que isso acalmaria o homem.
Realmente parece ter funcionado um pouco. Seu Manoel serviu a cachaça num pequeno copo, jogou o dinheiro na gaveta e dela retirou umas moedas de troco.
– Não se preocupe, seu Manoel, pode ficar com o troco. É uma paga pelo incômodo.
O clima ficou então bem melhor e ele quis saber, porque eu estava interessado numa encomenda que disse que não tinha chegado
– É difícil de explicar, mas o senhor me faria um grande favor se verificasse se não tinha mesmo chegado a encomenda.
O empregado que varria o chão, parou um momento e entrou na conversa
– Seu Manoel, chegou um engradado de bebidas esta manhã e eu pensei que o senhor tinha encomendado. Está naquele canto, embaixo do balcão.
– Quem trouxe?
– Ninguém trouxe – quer dizer – quando cheguei para abrir o bar, estava do lado de fora, encostado na porta, o engradado.
Tinha alguma nota, um recibo de entrega ou pagamento?
– Nada, seu Manoel, só o engradado
Seu Manoel se voltou para mim, novamente ríspido.
– O senhor colocou na minha porta. Por quê? Eu já lhe disse que não vendo essas porcarias aqui. Agora pegue o seu engradado e dê o fora.
Não teve explicação. Tive que pegar o engradado e levá-lo nas costas até o meu carro, estacionado quase na Assis Brasil. Pelo menos essa vez, eu tinha tirado alguma vantagem do episódio: ficaria com um estoque de bebidas finas.
Nas outras vezes, não ganhara nada, só incômodos.
Repentinamente, eu ficava sabendo que havia uma encomenda nos Correios em nome de Fulano de Tal, morador em tal endereço e ele não sabia disso. Podia ser algo importante, eu procurava o sujeito e ele só faltava chamar a polícia. Tinha que insistir muito para que ele procurasse os correios. Talvez, até para se livrar de mim, o sujeito acabava ligando para a agência do correio e realmente tinha uma encomenda lá para ele. Alguns ficavam interessados na maneira como eu ficara sabendo do fato e eu explicava que não sabia, subitamente, aparecia na minha mente uma mensagem com nome e endereço. Na maioria das vezes, surgia sempre aquela brincadeira: quando lhe informarem os números da mega sena, me avisa. Isso nunca havia aparecido naquelas visões, nem os números da loteria, se o Inter iria ser campeão ou se a Dilma voltaria à Presidência.
Agora, eu estava sendo diante do Dr. Franklin, psicanalista, tentando lhe explicar o que ocorria comigo. Ele, felizmente, me ouvia com atenção, possivelmente porque já me enquadrara numa das categorias dos distúrbios da mente estudados por Freud e costumava não se espantar com nada que seus pacientes pudessem dizer.
Essa vez, porém, seria diferente.
– Depois desse episódio do bar do seu Manoel, o senhor teve outra visão?
– Pois é, doutor, uma das razões para eu estar aqui é que tive uma visão de um fato que vai acontecer com o senhor;
– O Dr. Franklin não conseguiu disfarçar um sorriso irônico, mas me mandou seguir em frente.
– O senhor vai fazer 52 anos amanhã, não é verdade?
Ele sorriu novamente e disse que sim, provavelmente imaginando que eu havia procurado antes me informar de seu aniversário em algum almanaque médico.
– O problema, Dr. Franklin é que o senhor não vai completar os 52 anos e eu vim aqui para lhe avisar que hoje é o seu último dia de vida.
Embora ainda conservasse o sorriso irônico no rosto, ele pareceu ficar um pouco preocupado com a minha informação.
– O que o senhor quer dizer com isso?
– Esses nomes – Dr. Infante e Dra. Lorena – lhe dizem alguma coisa?
Agora ele estava muito atento.
– O Dr. Infante foi meu companheiro de faculdade e a Dra. Lorena é sua esposa e divide esse consultório comigo. Ela é também psicanalista.
– E o senhor tem um caso com a Dra. Lorena?
Ele enrubesceu um pouco e negou o fato sem muita convicção
– Foi caso do passado. Um relacionamento rápido. Mas como o senhor sabe disso?
– Não sei como, mas sei. Esse é o problema. O outro problema é que o Dr. Infante também sabe disso e quer acabar com tudo.
– Como acabar com tudo? O que senhor viu na sua imaginação?
– Infelizmente acho, pelas minhas experiências passadas, que não é apenas imaginação. Eu vi que ele entra no seu consultório e lhe dá um tiro na cabeça. O senhor está sentado nessa cadeira, exatamente como está agora, atendendo um paciente, no caso eu, ele abre a porta, entra e não fala uma palavra, apenas lhe dá um tiro na cabeça.
O Dr. Franklin, nesta altura já bastante pálido, ia dizer alguma coisa, quando tocou o telefone e eu ouvi a secretária, com uma voz aflita, avisando.
– O Dr.Infante passou voando por aqui e está entrando diretamente no seu consultório

Entre Tarso e Zizek, você fica com quem?

A possível saída do Reino Unido da União Europeia continua provocando críticas dos setores políticos mais progressistas do mundo inteiro e o silêncio constrangido dos partidos de direita na Europa, que teoricamente seriam os grandes apoiadores da medida.
A maioria das críticas são feitas a partir de um viés que corresponde ao pensamento político de um setor da intelectualidade que, mesmo se dizendo representante dos interesses da esquerda, defende, em última análise, uma espécie de depuração da democracia liberal em que vive o mundo ocidental, por acreditar que a alternativa a ele seria um sistema político mais autoritário, beirando ao fascismo ou uma ditadura do tipo stalinista.
Uma das exposições mais coerentes e inteligentes dessa visão, é o texto publicado pelo ex-governador Tarso Genro, no Sul 21. Embora admita que a formação da União Europeia foi um movimento de integração de cima para baixo, comandado pelas grandes empresas e bancos continentais, ressalva que ela “traz consigo a possibilidade de unificação “por baixo”, entre aqueles setores, estamentos e classes, cujas relações de solidariedade “autorregulada” pode se tornar “grande política” -com a Europa Social- a única que pode dar estabilidade e convivência democrática ao Continente”.
Ao examinarmos quais foram as áreas onde se concentraram os votos a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, vamos ver que elas correspondem aos setores mais pobres da população, onde se localizam as massas de empregados que se sentem ameaçados pela chegada de estrangeiros que põem em risco seus já poucos empregos.
Obviamente, ainda que sejam eleitores intoxicados pela propaganda xenófoba dos partidos de direita, eles percebem que existe uma clara ameaça ao seu padrão de vida, representado pela massa de pessoas que oriundas do leste europeu e das regiões conflagradas do Oriente Médio, oferece sua mão de obra a preços aviltados.
Se estão corretos na avaliação de uma das causas das suas dificuldades econômicas, se equivocam na escolha das soluções. Não será fechando fronteiras que a crise econômica vai desaparecer. Ela é cíclica e faz parte da essência do sistema capitalista,
Numa aparente contradição, enquanto os governos europeus ameaçam fechar suas fronteiras, é do interesse dos grandes capitalistas permitir a entrada de trabalhadores imigrantes, porque assim pressionam à classe trabalhadora com mais competição e provocam a baixa dos salários.
Aparente contradição, porque os governos das grandes potências europeias, sejam oriundos de quaisquer partidos (até mesmo os que levam os nomes de socialista ou trabalhista) representam no final os interesses dos grandes capitais.
Não é à toa que as lideranças conservadoras importantes da Europa – principalmente Cameron e Merkel – defendem a continuidade da unidade europeia nos moldes atuais, porque ela dá uma certa estabilidade econômica aos países mais ricos Alemanha, Inglaterra, e talvez a França, ainda que traga dificuldades cada vez maiores para os países da periferia como Grécia, Espanha e Portugal.
Qual seria a alternativa, então?
No seu artigo, Tarso chama a atenção para o perigo da defesa da ideia do “quanto pior melhor”, ao dizer que “algumas pessoas me responderam que à longo prazo isso é ” bom”, pois a crise social que advirá, vai causar a longo prazo uma nova revolução na Europa. Respondo que as pessoas vivem, as crianças morrem, os aposentados se suicidam, o terrorismo aumenta, no curto, não no longo prazo. E que da miséria e da pobreza -numa época que carece de paradigmas para montar ordens mais justas- têm nascido rebeliões sem rumo, não revoluções libertárias”
Embora pareça representar um pensamento equilibrado e correto, ele denota também uma certa crença naquela visão histórica, que ficou famosa ao ser proclamada por Francis  Fukuyama, de que a sociedade democrática ocidental seria o último grande degrau na evolução política e que ela só é passível de aprimoramento e não de superação por outro modelo.
Ainda que possa parecer uma resposta um pouco acima do tom civilizado de um debate, podemos opor a esta visão, o desabafo do filósofo esloveno, hoje bastante na moda, Slavoj Zizek, quando ele diz: “Estou farto dessa esquerda que, não só sabe que nunca chegará ao poder, mas que secretamente não deseja isso”.
Para ele, a exemplo da China e também da Rússia, o mundo se encaminha para uma nova forma autoritária de fascismo, onde as liberdades privadas (direito de viajar, da circulação da pornografia, etc) serão mantidas, mas a estrutura de poder será essencialmente autoritária.
“Só a esquerda radical pode nos salvar desse fundamentalismo”, diz Zizek
Ao contrário do que diz Tarso de que “a Europa Social- é única que pode dar estabilidade e convivência democrática ao Continente”, Zizek pensa que todos os valores conquistados nas lutas contra a teocracia, pelas liberdades pessoais, o feminismo e a ecologia, foram incorporados ao capitalismo que se tornou hedonista e permissivo.
Ao criticar a esperança na democratização do capitalismo (pressão sob os meios de comunicação, investigações parlamentares, leis mais severas) como metas impossíveis (citando em suas críticas inclusive o Fórum Social Mundial de Porto Alegre), Zizek diz que a intuição fundamental de Marx continua pertinente hoje: “ a questão da liberdade não deve ser colocada na esfera política (ao dizer coisas como eleições livres, poder judicial independente, imprensa livre, respeito aos direitos humanos) porque a verdadeira liberdade está na rede apolítica das relações sociais, desde o mercado até a família, porque realizar melhorias não é uma reforma política e sim uma mudança nas relações sociais de produção”.
Qual a alternativa melhor, a de Tarso ou a de Zikek?

A radicalização da democracia dentro das estruturas capitalistas ou uma revolução social, ainda que de consequências imprevisíveis? 

Quando prender pessoas vira um bom negócio

Os defensores da privatização das penitenciárias do Estado (balão de ensaio lançado por ZH na semana passada) devem ler o que escreveu Luís Antônio Araújo (é, as vezes tem o que ler em ZH) sobre a experiência nos Estados Unidos, o país do mundo onde mais se prende pessoas.

Dos 2,2 milhões de encarcerados no mundo inteiro, 25% são de americanos. O jornalista cita matéria de outro jornalista americano, que disfarçado de guarda carcerário, permaneceu durante algum tempo na penitenciário de Winnfield, na Louisina, estado onde de 86 pessoas, uma está presa.
O que ele relata é sem tirar nem por o que ocorre nas nossas prisões: tráfico de drogas, violências, inclusive sexuais, contrabando de celulares e muita corrupção.

Como se trata de um negócio, a empresa que administra a prisão, a Corretions Corporation of American a CCA, tem interesse em ter cada vez mais presos.

Desde 1983, a CCA faz parte do seleto grupo de empresas que administram as prisões americanas, recebendo 200 dólares, diariamente do Tesouro Americano para cada preso que tem em suas inúmeras penitenciárias.

O maior complexo penitenciário da CCA, em Lumpkin, Geórgia, rendeu à empresa um lucro de 50 milhões de dólares por ano.

Um dos diretores da CCA explica a sua filosofia: “ A nossa companhia foi fundada no princípio, sim, que poderíamos vender prisões. Da mesma formo como se vendem carros, imóveis ou hamburgues”.

Além das verbas federais que recebe, a empresa potencializa seus lucros cobrando 5 dólares por minuto, pelas ligações telefônicas dos presos, enquanto paga aos presos que trabalham no local – não importa quantas horas – 1 dólar por dia.

Não é estranho, por isso, que a população carcerária dos Estados Unidos teve em crescimento de mais de 500% desde que a privatização de algumas prisões foi implantada.
Dessa imensa população carcerária, 50% dela é composta por negros, enquanto que apenas 12% de toda a população dos Estados Unidos é composta pelos chamados afrodescendentes.

Ou seja, além de ser uma discutível fonte de lucros para determinadas empresas, o sistema reforça o preconceito racial, ainda muito significativo nos Estados Unidos.

Por que a Bélgica?

O Edgar Ferreti publicou um texto em sua página no facebook falando sobre os atentados terroristas de Bruxelas, condenando estas ações, com o que certamente concordam todas as pessoas civilizadas.
O terrorismo, apesar de largamente praticado em muitos momentos da história, nunca foi uma forma de luta política que possa ser aceita, mesmo quando se dirige contra governos autoritários, porque pune pessoas inocentes e raramente afeta aqueles que seriam os alvos principais.
E mais: quando atingem esses alvos, aumentam a brutalidade da reação daqueles que se pretendia atingir.
O professor Voltaire Schilling fez um apanhado dos principais grupos terroristas no mundo inteiro e mostra que eles são tão antigos como a história da humanidade.
Os zelotes, por exemplo, lutaram contra os romanos que ocuparam a Palestina do século 1 antes de Cristo, até o século 2, depois de Cristo, matando os invasores e os seus colaboradores entre os próprios hebreus.
Os norodniks infernizaram a vida da nobreza russa e acabaram por assassinar o Tzar Alexandre II em São Petersburgo em 1881.
O assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austríaco em Sarajevo, precipitou a primeira guerra mundial
O espetacular atentado a bomba em 1973, contra o general Carrero Blanco, em Madri, feito pelo ETA, não impediu a continuidade do governo franquista, nem ajudou na independência do País Basco.
O que chama a atenção agora nos atentados terroristas na Europa é que eles se dirigem principalmente a três países – França, Inglaterra e Bélgica – deixando de lado outros grandes países do centro da Europa, como Alemanha, Itália, Espanha e Portugal.
O que teriam em comum estes três países e no que são diferentes dos demais países europeus?
 Alemanha e Itália, por se unificarem tardiamente em relação aos demais países, chegaram atrasados no processo de colonização na Ásia e principalmente na África; Portugal e Espanha, que também tiveram suas colônias na África, há muito haviam perdido força como países poderosos economicamente.
Para se ter uma ideia do tamanho dessa colonização na África, basta relacionar os países que nasceram dos antigos impérios coloniais francês e inglês.
O antigo domínio francês deu origem aos seguintes países: Marrocos, Tunísia, Guiné, Camarões, Togo, Senegal, Madagascar, Benin, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, República Centro Africana, República do Congo, Gabão, Mali, Mauritânia, Argélia, Camarões e Djibuti.
Do império inglês, nasceram os seguintes países: Egito, Sudão, Gana, Nigéria, Somália, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda, Quênia, Malavi, Zâmbia, Gâmbia, Lesoto, Maurícia, Suazilândia, Seicheles e Zimbawe. 
A independência desses países se fez em muitos casos após um longo período de lutas, algumas vezes extremamente sangrentas, como foram os casos da Argélia e do Quênia, o que certamente criou uma grande animosidade entre os antigos dominadores e dominados
A Bélgica, teve possessões menores na África – o Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi – mas se destacou pela violência dos colonizadores contra os nativos.
O Congo Belga era uma possessão pessoal do Rei Leopoldo, da Bélgica, que em 1909 a transferiu para à Coroa Belga.
Em Ruanda, a pior herança dos colonizadores, foi a divisão do país em duas etnias – os tutsis, protegidos dos colonizados e os hutus – o que gerou um verdadeiro genocídio em 1994, depois da independência do País com mais de 800 mil mortos, no que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda.
Estima-se que mais de 25 milhões de africanos tenham sido assassinados durante todo o período em que o Congo foi ocupado pelos belgas, principalmente no período em que o país era uma propriedade pessoal do rei, num procedimento que chocou até mesmo os ingleses, que também sabiam ser impiedosos com os seus nativos.
Isso, se está longe de justificar, de certa maneira ajuda a entender porque a Bélgica se tornou um alvo preferencial dos terroristas.

Os moralistas de cuecas e a banda podre do PT

A reunião de um grupo de fanáticos e puritanos, os Procuradores da República no Paraná, com um Juiz sedento de fama, criou a ‘República de Curitiba’ e dela nasceu esse monstrengo jurídico chamado Operação Lava Jato, alimentado pelas delações premiadas de corruptos assumidos e promovido por uma imprensa pouco ética.
O problema é que depois que soltaram os demônios, eles não querem mais voltar para o seu antigo inferno. Os golpistas, que estimularam suas primeiras denúncias, estão vendo agora elas se voltarem contra o seu centro de decisão, hoje encastelado no governo de Temer.
Mas quem são esses grandes atores que mantém aceso o fogo destruidor da Lava Jato, os Procuradores da República?
Nascidos de uma decisão política, tomada na Constituição de 1998 de garantir a independência dos Procuradoria da República na fiscalização dos atos do Executivo, eles abominam a política e se regem por seus próprios códigos, onde a lei é vista como algo imutável e eterno.
Seu Alcorão é composto pelos códigos civil e criminal. Sonham com uma versão ocidental da “sharia”, esquecidos que vivem numa sociedade capitalista movida pela busca do lucro a qualquer custo e onde a política se mistura perigosamente com os negócios.
Em vez de usar seus poderes para buscar uma depuração desse processo, usando os mecanismos da lei para punir os infratores, sem por em risco as instituições, eles preferem histericamente destruir o nosso tênue sistema democrático, ao disseminar a ideia de que todos os políticos são corruptos e que o Brasil pode viver sem eles.
O lema que eles defendem e que segmentos alienados da população repetem nas ruas, de que é preciso passar o País a limpo, tem uma inequívoca conotação fascista, na medida que pretende por na lata do lixo todos os avanços democráticos penosamente conquistados nos últimos anos.
Ao mirar no PT como seu alvo principal, eles não estão fazendo apenas uma opção ideológica, eles estão dando um recado preconceituoso de que, um partido que pretende representar os trabalhadores, não pode ser valer, dentro de uma sociedade burguesa, dos mesmos instrumentos que durante décadas permitiram aos outros partidos chegarem ao poder.
O jogo de influências numa sociedade capitalista não prescinde do dinheiro. Na forma direta do papel moeda passado de mão em mão, das transferências eletrônicas para bancos suíços ou de oferta de posições de poder que vão gerar vantagens logo adiante, é o dinheiro que rege todas as relações que movem um país para frente.
E não é apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, que alguns ainda apelidam de “A Grande Democracia do Norte” estamos vendo agora mesmo, na disputa Hillary Clinton X Donald Trump, uma pública e contabilizada conta de chegar, entre as duas candidaturas, para ver quem arrecada mais dinheiro dos grandes empresários. Obviamente, lá como aqui, não será um dinheiro dado, mas um dinheiro emprestado que deve voltar com juros e correção aos seus donos.
Todo mundo está cansado de saber que nem os empresários, nem a maioria dos políticos, nem os partidos, querem acabar com esse sistema, aprovando, por exemplo, o financiamento estatal das campanhas políticas.
Assim como está, todos têm chances de ganhar.
Diante desse quadro, quem são os moralistas de cuecas?  São os procuradores, com o seu jacobinismo fora de época, que agem como analfabetos políticos, no dizer de Bertold Brecht; são os empresários sonegadores que financiam as campanhas dos alienados que repetem nas ruas os slogans fascistas de passar o País à limpo e são, ainda, os veículos da imprensa venal que transforma tudo isso em grandes manchetes.
Falta falar agora sobre banda podre do PT.
Quando concorreu pela quarta vez à Presidência, Lula deixou bem claro que, dessa vez, iria à disputa para ganhar. Isso significou um grande acordo com partidos de centro e com empresários e obviamente, significou também a necessidade de abrir mão, pelo menos durante algum tempo, das bandeiras mais radicais do PT.
Lula cumpriu o trato, ao mesmo tempo, que conseguiu realizar algumas das promessas que fez aos seus eleitores. Foi reeleito e elegeu Dilma duas vezes. Foram campanhas milionárias (como também foram as dos demais partidos) e ninguém é ingênuo para supor que elas pudessem ser possíveis sem grandes verbas, sem o investimento de muito dinheiro.
Como ocorreu com todos os principais candidatos (aqueles com chances de ganhar), foi um dinheiro que entrou por vias legais e também por outras nem tanto. Agora mesmo, está se comprovando que a campanha do falecido Eduardo Campos e da vestal Marina Silva, foi turbinada com dinheiro desviado de órgãos públicos.
Errado?
Claro.
Mas como mudar esse quadro?
Talvez começando por fechar a torneira maior que irriga a famosa Caixa 2: o financiamento empresarial.
Ocorre que nos 14 anos de governo do PT, como na Rússia stalinista, criou-se também uma “nomenklatura”, que não resistiu à tentação de por no bolso uma parte de tanto dinheiro que circulava nos negócios, teoricamente destinados a apoiar o partido.
E não foi apenas o PT e seus políticos que se beneficiaram. Todos os demais partidos que se integraram às campanhas de Lula e Dilma, disputaram com unhas e dentes uma parte nesse butim. Como disse recentemente o Ministro Barroso do Supremo, ninguém é ingênuo para supor que os cargos de mando nos órgãos públicos eram disputados por pessoas que queriam apenas servir o País.
Muitos dos nomes, que participaram dos governos do PT, como Padilha, Geddel, Jucá e Moreira Franco, sempre vistos como suspeitos de negócios pouco éticos, estão agora no governo de Temer, comprovando que, nesse jogo, existe pouca fidelidade ideológica.
Agora surge com destaque o nome de Paulo Bernardo, ex-ministro do Planejamento e das Comunicações, acusado de receber propinas através de um contrato fictício de prestação de serviços
Independentemente de que muitas das acusações que estão sendo feitas a políticos do PT, possam não ser verdadeiras, parece pouco provável que todas sejam falsas.

O mais provável é que esses longos anos junto às fontes do poder na República criaram uma banda podre no PT, que agora permite que uma boa parte da opinião pública, insuflada por uma mídia interessada em destruir o partido, enxergue nesse fato o fim de qualquer possibilidade de, através de um partido de inspiração popular, mudar o centenário quadro de dominação das elites brasileiras sobre todo o País.

Monsenhor Bombardeli, o mistério da Santíssima Trindade, os comunistas e a escola marista de Farroupilha

Quem não foi educado na tradição católica de um mundo de faz de conta, talvez não saiba que 1950 foi um Ano Santo. No dia 24 de dezembro de 1949 foram abertas pelo Papa Pio XII, a chamada Porta Santa da Basílica de São Pedro em Roma, anunciando o início das celebrações do Jubileu (continuação da tradição judaica de a cada 25 não trabalhar a terra) que ocupariam todo o ano seguinte.
Precisamente em 1950, eu estudava no Colégio Marista São Tiago, de Farroupilha, fazendo o preparatório para admissão ao ginásio, com uma bolsa de estudos paga pela prefeitura.
Essa introdução serve para montar o pano de fundo para a tese que pretendo desenvolver sobre as dificuldades da religião em explicar determinados fatos, quando eles se confrontam com a razão.
Naquele ano, os “irmãos” fizeram correr entre os alunos, todos crédulos como eu, então nos meus 10 anos, que os comunistas estavam se aprontando para tomar o poder no mundo inteiro e que um dos seus objetivos, logo que começassem a mandar, era condenar à morte todos os padres e religiosos.
Eu, pessoalmente, não achava má ideia acabar com alguns daqueles religiosos, exceção é claro do Irmão Ignácio, um velho a quem destinavam apenas as aulas de religião, mas que sempre pareceu a todos os alunos, o único entre todos que acreditava no que pregava. Talvez porque já estivesse senil.
Obviamente, aos 10 anos, cheio de energia infantil, eu não devia ser um aluno aplicado e disciplinado. Claro que não era, tanto que não consegui a medalha de bom comportamento no final do ano.
Apesar disso, fui o primeiro colocado no exame de admissão, superando os alunos internos que eram sempre os que mais estudavam, dando ao meu pai – um estranho naquela Farroupilha da época –  uma alegria a qual ele referiu, depois, até a sua morte prematura (para mim, pelo menos, foi prematura, aos 60 anos) como um dos melhores momentos da sua vida.
Uma vez por mês, o pároco da cidade, o Monsenhor Tiago Bombardeli, comparecia à escola para uma aula especial de religião, que terminava sempre com a distribuição de santinhos, um presente renhidamente disputado por todos os alunos.
Lembro especialmente de uma aula dele.
Contava o Monsenhor Bombardeli, que Santo Agostinho, o doutor da igreja, caminhava um dia pela praia, absorto nos seus pensamentos sobre os mistérios da sua religião, quando encontrou um menino que colocava a água do mar num pequeno balde.
Quando Agostinho perguntou a ele porque fazia isso, ele respondeu.
– Quero colocar toda a água do mar dentro desse balde
– Isso é impossível
Ao que o menino (certamente um pequeno anjo) respondeu
– É mais fácil eu colocar toda a água do mar dentro desse baldinho, do que você entender
o mistério da Santíssima Trindade.
Era a primeira defesa que eu ouvia de como é importante sermos ignorantes.
Possivelmente naquele momento, concordei com o Monsenhor Bombardeli, mas não levou muito tempo para que eu passasse a questionar essa postura e buscasse explicações para todos esses mistérios, inclusive o da Santíssima Trindade. Senão explicações, pelo menos o porquê de tantas pessoas abrirem mão de sua racionalidade e aceitarem essas versões mágicas da vida.
Começamos por onde terminou Santo Agostinho, a Santíssima Trindade.
O triângulo equilátero (aquele tem todos os ângulos congruentes, isso é, iguais) é uma figura geométrica simples, mas perfeita e está presente na simbologia de várias religiões, desde os antigos judeus com a sua estrela de Davi (dois triângulos, um deles invertido), até o pentagrama, símbolo da alquimia, passando inclusive pela maçonaria.
As pirâmides do Egito antigo têm a forma triangular.
O sumidouro de barcos e aviões no Caribe é chamado de Triângulo das Bermudas e segundo alguns mais crentes, seria o portal para outros mundos.
As religiões e os mitos apostam na simbologia de uma figura da matemática, aparentemente uma ciência sem conotações materiais, imediatas, para tentar racionalizar aquilo que é fruto da ignorância que a humanidade sempre teve e da qual, penosamente, alguns buscam fugir.
A Santíssima Trindade é mais um triângulo em cujos vértices se assentam os símbolos da religião cristã: o Pai, gerador de tudo e imortal em sua essência, o Filho que o nega, ao optar por ser um mortal e o chamado de o Espírito Santo, em que alguns enxergam a superação dessa contradição, ou seja a igreja institucionalizada
É uma primorosa construção dialética de tese, antítese e síntese, mas apenas uma obra nascida de uma elocubração humana, comprovando que o homem cria os deuses à sua imagem e semelhança e que a Santíssima Trindade é mais uma obra do engenho humano.
Monsenhor Bombardeli nunca deve ter pensado nisso e morreu na sua santa ignorância convencido de que ela lhe abriria ás portas do céu.
Ou ele seria apenas um aprendiz de marqueteiro antecipando, já na década de 50 as técnicas de cooptação de corações e mentes para o mundo da fantasia?

Você, para encerrar esse texto, pode escolher a sua versão para o que foi na verdade o Monsenhor Bombardeli, um crente e ignorante ou um ladino aprendiz de marqueteiro.