Vidas inúteis

Descubro agora, com muito atraso, que a única coisa que poderia dar sentido as nossas vidas seria ter uma religião e acreditar num Deus. Qualquer religião e qualquer Deus. Se nenhuma das suas versões, hoje disponíveis (judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, espiritismo) agradar,sempre é possível  criar algo novo.

Quando aquele processo de evolução das espécies chegou a um protótipo que poderia se considerar como um ser humano, começou o nosso drama.

Em vez de continuar fazendo o que todos nossos ancestrais faziam e continuando fazendo hoje os outros animais que interromperam em algum momento seu ciclo evolutivo, ou seja, ver no sexo apenas uma forma de preservação  das espécies, o homem descobriu que o sexo poderia ser uma fonte de prazer.

Nesse momento, começou a corrupção da natureza.

Como não podia gozar o sexo o tempo inteiro, mas como não podia também deixar de pensar nisso, o homem tratou de encontrar justificativas para essa compulsão ou maneiras de sublimá-la.

Foi então que o homem criou a filosofia, a política, a democracia, o socialismo, a psicanálise, os direitos humanos, a literatura, o cinema,o facebook e não parou mais por séculos e séculos.

Mesmo tendo diversificado o sexo (a suruba, o troca-troca de casais, posições heterodoxas, o homossexualismo e suas variáveis),  o homem não encontrava os parceiros, ou não tinha fôlego para tê-lo o tempo inteiro.

Aí, ele foi inventando coisas para se ocupar, como o condicionador de ar, o avião a jato, o elevador, até chegar ao seu ápice, o celular.

Para não pensar o tempo inteiro no sexo, o homem resolve palavras cruzadas, viaja para Bariloche (onde quase vai morrer de frio), vai ao Natal Luz em Gramado, sonha com um sorvete de chocolate e dulce de leche do Fredo e se diz especialista em vinho malbec argentino.

Suprema ironia: dedica boa parte de sua vida para torcer pelo Internacional, o que talvez seja a coisa que mais se aproxima do prazer que ele busca no sexo, embora tenha tanto num, como no outro caso, frustrações pelas derrotas e pelas “broxadas”.

Vamos confessar, que nós socialistas, mais do que repartir de uma maneira mais justa as riquezas do mundo, queremos a universalização do prazer sexual.

Nosso lema deveria ser, em vez de “proletários uni-vos”, “ejaculação e orgasmos” para todos.

Na sociedade escravocrata, o sexo era prerrogativa dos senhores; no medievo, só os nobres e padres poderiam desfrutá-lo sem reservas.

O capitalismo prometeu universalizá-lo, mas só faz isso na aparência.

Hoje, uma nutrida conta bancária ou no mínimo, um carro importado, facilitam o acesso do interessado ao prazer sexual.

Os despossuídos só podem lutar, como fizeram os jovens franceses em 68, pelo sexo geral e irrestrito, ou esquecerem isso e se dedicaram ao consolo da religião, que nos promete um retorno à condição de, em algum momento, vivermos como puro espírito, livre das pulsões do sexo.

Aos velhos ateus como eu, alijados das grandes disputas sexuais e sem uma perspectiva religiosa, só resta ir vivendo do jeito que dá o tempo que nos sobra por aqui.

Conversas em torno de um Catena Zapata

Periodicamente me reúno com o Dr. Franklin Cunha em seu bunker debruçado sobre o Guaíba, para um balanço dos últimos acontecimentos, sempre inspirado por muitos goles de um malbec  Catena Zapata que um amigo correntino lhe fornece periodicamente.

Aliás, os vinhos Catena Zapata e Jose Luiz Borges, são para o Franklin, as duas mais importantes instituições argentinas e o pouco que sobrou da devastação provocada pela ditadura militar.

Falamos, basicamente, sempre sobre os mesmos assuntos – depois de alguma idade, a gente vai excluindo o supérfluo – política e literatura, já que outros temas que me interessam  – futebol e cinema  – não fazem parte do cardápio atual do Franklin, que tem dois graves defeitos: é gremista e não gosta de sair de casa para ir ao cinema.

Essa semana,  lamentamos o novo espetáculo de indignidade explicita dos deputados em Brasília. De alguns, dos quais não esperávamos nada  -como diria o Barão de itararé – não saiu realmente nada, mas do Fogaça, por uma razão qualquer, o Franklin tinha alguma esperança.

– Afinal, ele já escreveu letras para algumas músicas interessantes ( Vento negro, campo afora vai correr. Quem vai embora tem que saber. É viração) e quando se candidatou a senador, o Luís Fernando disse que ia votar nele.

É, mas o Fogaça não aproveitou a oportunidade para se recuperar.

Lembramos outra vez a importância  de se continuar lendo Zizek,  da necessidade de lembrar ao Airton, ao Luiz Octávio, ao Lantieri e ao Mareu , de que aquela ideia de revivermos a Liga Espartaquista , da Rosa Luxemburgo, precisa ser retomada.

E finalmente, nos dedicamos a falar mal do governo de Israel, com o apoio dos nossos escritores judeus preferidos – Naum Chomsky, Judite Butler, Sholomo  Sand e Norman Finkelstein.

Nessa hora, o Franklin, fecha as janelas e desliga os telefones, porque, embora não se considere nenhum pouco paranóico,  acha que com o Mossad, todo o cuidado é pouco.

Dependendo do Franklin nossos encontros em torno de um Catena Zapata nunca vão ter fim, porque como membro da Academia Rio Grandense de Letras, ele tem a imortalidade garantida. Eu como simples morta, tenho prazo de validade se esgotando e por isso preciso aproveitar.

O gol que faltou para Valtão ser feliz mais uma vez na vida

Duas horas antes de começar o jogo o Maracanã já estava cheio. O Flamengo iria decidir o Campeonato Brasileiro com o Internacional e a torcida chegara cedo, certa de que o título seria conquistado naquela tarde. Na semana anterior, o Flamengo ganhara do Inter por 1 a zero em Porto Alegre e agora jogava pelo empate. Se perdesse,  pelo mesmo placar, ainda teria direito a uma prorrogação. Além disso, Antônio Carlos e Zezé, os dois melhores jogadores do Inter, expulsos em Porto Alegre, não jogariam.O Inter armara um time de emergência e os jogadores foram instruídos a jogar na defesa para evitar um vexame.

Até mesmo Valtão fora convocado para ir ao Rio. Ele não jogara nenhuma partida do Brasileirão. Há muito tempo ele era um “come-e-dorme” no clube. Nunca fôra um craque, mas todos os técnicos acabavam por aproveitá-lo no time, até a chegada de Nelson Dias que não lhe deu nenhuma chance no campeonato.

– O futebol é para jogadores polivalentes e o Valtão é um atacante que só joga na área e nesta função ele já não tem mais condições físicas ideais.

Valtão era chamado de O Velho pelos seus companheiros de time. Aos 35 anos, ele estava conformado com a sua breve aposentadoria como boleiro. Sua esperança era terminar o contrato com o Inter e conseguir um lugar como treinador nas divisões inferiores. O presidente lhe prometera um lugar há alguns meses atrás, mas ultimamente não queria falar mais no assunto.

Quando viu seu nome relacionado para viajar para o Rio, levou um susto.

– É só para compor o banco, Nelson Dias explicou aos jornalistas que também ficaram surpresos com a informação.

Agora, sentado no banco de reservas ele via um estádio vestido totalmente de vermelho e negro. O jogo começara há 15 minutos e só Flamengo atacava. O sufoco era total. Romualdo já havia chutado uma bola na trave, Preto defendera uns três chutes que os repórter atrás do gol classificaram como impossíveis e Lúcio salvara de cabeça na linha do gol. O silêncio no túnel do Inter era total. A qualquer momento o Flamengo marcaria o seu gol. O tempo, porém, ia passando e o gol não saia. A partir dos 30 minutos, o Inter conseguiu equilibrar a partida e o primeiro tempo terminou em zero.

No intervalo, o treinador fez um discurso emocionado no vestiário. Era preciso resistir de qualquer jeito. Quando tomasse a bola, o time deveria jogar na frente para o Ernani, que partiria em velocidade pela esquerda e cruzaria para chegada de Anderson pelo meio. Esta era a única jogada prevista pelo técnico. O Flamengo vai aumentar o sufoco. Todo mundo fica marcando. Só sobra o Ernani para iniciar o contra-ataque. Quando ele pegar na bola, o Anderson se manda pra frente.

Quando o Inter subiu para o gramado, o Flamengo já estava lá. O jogo recomeçou e o Flamengo se mandou todo pra frente. Ninguém queria saber de empate entre os cariocas. Até os 10 minutos, a bola não saíra ainda do campo do Inter. Aos 12, finalmente sobrou uma bola para o Ernani. Ele se lançou rápido a frente, como queria o treinador, mas foi parado no meio-do-campo por uma falta do Baiano.

Ernani ficou rolando no campo, mas ninguém levou muito a sério. Os jogadores costumavam fazer esta encenação para jogar o juiz contra o adversário. Quando o massagista Bica, lá do meio do campo, fez o clássico sinal de troca em direção à casamata do Inter, uma sensação de desolação percorreu todo o banco. Lá se ia a única opção de ataque do Inter. Fernando entrou no lugar de Ernani com a instrução de reforçar a defesa.

– Quando der, chuta forte para o Anderson lá na frente.

Com todo o mundo na defesa, o Inter resistia. Aos 30 minutos, uma chuva fina começou a cair sobre o Maracanã. O Flamengo continuava atacando e o Inter defendendo. Aos 38, Fabiano apanhou a bola do meio do campo e arriscou um chute em direção ao gol. A bola saiu alta e com pouca força. Cleber, o goleiro do Flamengo, estava adiantado, quase no risco da grande área e para apressar a volta da bola ao seu ataque, tentou matá-la no peito. Molhada pela chuva, ela escorregou pelo seu corpo, bateu no ombro e ganhou força suficiente para ir morrendo no fundo das redes.

O estádio emudeceu. Bastava o Inter resistir mais 7 minutos para o jogo ir para a prorrogação. Mal o Flamengo deu reinício ao jogo e Anderson estava no chão contorcendo-se em dores. Quando o carro-maca o retirou do campo, o médico foi logo avisando – “não dá mais pra ele”.

– Valtão, vai lá e ajuda a segurar o jogo.

Quando ouviu o técnico falando, achou que havia um engano. Era mesmo para entrar?

– É tu mesmo. Vamos ver se toda a tua experiência serve pra alguma coisa. Vamos catimbar tudo que der.

Número 14 às costas, Valtão entrou para ser o único atacante do time. Cinco minutos depois, tocou na bola pela primeira vez. Recebeu de costas para o zagueiro, protegeu a bola com a perna esquerda e fez uma meia-volta para a direita. Quando tentou sair, a bola já tinha desaparecido do seu controle. O zagueiro a tinha tomado e partia com ela para o ataque.

Alguns minutos mais e o jogo terminava. Os times nem sairam de campo. Treinadores, massagistas e médicos entraram para atender os jogadores estendidos pelo chão próximos à borda do gramado. Alguns recebiam massagens, outros eram abanados com grandes toalhas. Valtão, apesar de ter jogado poucos minutos, estava ofegante. O treinador parecia arrependido da escalação. Durante os 10 minutos de descanso, antes de começar a prorrogação, não lhe dirigiu nem uma vez a palavra.

O juiz chamou os jogadores para o meio do campo. Seriam mais 30 minutos. Se o empate persistisse, a decisão iria para os pênaltis. Isso era tudo que o Inter queria: levar os jogos para os pênaltis.

– Eles não vão aguentar a pressão da torcida. O Preto é bom pegador de pênalti e com sorte a gente pode ganhar.

Foi a última frase do treinador antes da bola começar a rolar novamente. O Flamengo estava todo em cima, querendo decidir logo o jogo. Aos 5 minutos, a trave já tinha salvado duas vezes o Inter. Mesmo assim, o primeiro tempo da prorrogação terminou empatado. Depois de trocarem de lado, o jogo recomeçou e o Flamengo continuou atacando. Quando o jogo se aproximava do final, Lúcio deu um bico pra frente. No círculo central, Valtão teve dificuldades em controlar a bola no peito, mas mesmo assim conseguiu colocá-la no chão. Num primeiro momento, pensou em atrasar a bola para o Fernando, lembrando o que havia pedido o técnico

– Vamos reter o jogo tudo que der – mas em seguida se deu conta que esta era a chance de sua vida. Entre ele e o gol do Flamengo, havia apenas um zagueiro e lá no fundo, o goleiro Cleber. O zagueiro já começara a se movimentar em sua direção e ele precisa agir rapidamente. Pelo canto do olho, percebeu que todas as peças começavam a se movimentar no campo. Os jogadores do Flamengo tratavam de recuar e os do Inter a avançar. Se não fosse rápido, não teria mais espaço. Jogou a bola para esquerda, uns 3 metros em sua frente, e arrancou com todas as forças que ainda tinha, tentando se desviar do zagueiro, um negro forte de quase 2 metros de altura que chegava resfolegando pela direita.

Na sua cabeça, Valtão viu antecipadamente, como se fosse um filme em slow-motion, tudo que tinha que fazer. Com o lado de fora do pé direito, ele deu um pequeno toque na bola, mudando a sua direção para dentro do campo. O zagueiro, que se jogara num carrinho, para pegar a bola, ou, no mínimo, as pernas de Valtão, passou deslizando a centímetros de sua frente, arrancando a grama do campo. Valtão tocou a bola para frente. Cleber havia saído do gol para diminuir o ângulo do chute e ele deveria tomar uma decisão rapidamente: ou chutava agora, buscando o canto direito, ou driblava o goleiro e ficava livre para entrar com bola e tudo. Valtão inclinou o corpo para a esquerda, quase rezando para que o Cleber acompanhasse seu movimento e jogou a bola para a direita. Num piscar de olhos, estava totalmente livre. A enorme goleira aberta a sua frente.

Bastava dar um toque na bola e o Inter seria campeão brasileiro com um gol seu na prorrogação. À noite, o seu gol estaria em todos os programas de televisão. Amanhã, seria capa dos jornais. Valtão, o herói do campeonato. A Diretoria iria querer renovar o seu contrato, certamente com um bom aumento de salário. Ergueu a perna direita para o chute final, mas ela não chegou na bola.

Alguém a agarrava com muita força. Valtão forçou para se livrar, mas sentiu que estava caindo. A bola quase parada a sua frente. Um zagueiro do Flamengo entrou correndo e a chutou para longe. O Cleber ainda estava enrolado em sua perna, quando o juiz chegou, marcando pênalti e mostrando o cartão vermelho para o goleiro. Deitado no chão, Valtão se deu conta que não seria mais o herói do campeonato.

Fabiano iria bater o pênalti e se fizesse o gol, receberia todos os abraços.

Quando?

Você começa a achar estranha a cidade onde sempre viveu.

As ruas mudaram de lugar e não deixaram endereço.

Tem gente demais na cidade e você não simpatiza com a maioria. E elas, certamente sentem o mesmo por você.

Então, então lentamente vai tomando conta de você a ideia de que está sobrando nesse mundo.

Você se dá conta que continuar vivendo já não é a coisa que mais importa.

Mas, quando isso começou?

Certamente, não foi de uma hora para outra.

Foi tomando em conta de você aos poucos.

Mas, provavelmente, existiram alguns indícios que você não percebeu na hora.

Faça um exame e veja quantos avisos dessa morte lenta você recebeu e não prestou atenção neles.

Com algum esforço você vai identificar alguns desses eventos.

Quando você, que era um protetor, passou a ser um protegido.

Quando você voltou a pagar meia entrada nos cinemas.

Quando nenhuma mulher olha para você com algum interesse físico.

Quando você deixou de jogar bola e passou só a ver os outros jogar.

Quando você lê no obituário do jornal que aquele sujeito dez anos mais moço morreu e teve direito a uma longa biografia.

Quando você começa a ler o jornal pela secção de óbitos.

Quando aquela linda morena olha para você no ônibus apenas para oferecer um lugar para sentar.

Quando os amigos que ainda restam só querem falar do passado.

Quando você diz numa roda de parentes dos seus filhos que o Francisco Alves foi o Rei da Voz e ninguém nunca ouviu falar nem do cantor, nem do título.

Quando você repete aquele velho e conhecido (para você) bordão, tipo “bateram o brim do vivente”, mas nenhuma pessoa sabe do que se trata.

Quando você usa o celular apenas para telefonar.

Quando para se exibir, você repete de cabo a rabo a escalação do Rolo Compressor do Internacional,  hexa-campeão gaúcho e nem mesmo aquele cara com a camisa do time sabe quem foi o Abigail.

Quando, finalmente, você começa a fazer um inventário sobre os indícios que o levaram a se sentir sobrando no mundo.

João e Maria, uma história de amor e ódio

Os dois se conheceram no movimento estudantil durante a ditadura. Ele era do Partidão e ela  Libelu. Implicaram de cara um com o outro e brigavam em todas as assembléias da universidade. João estudava História na Federal e Maria fazia Jornalismo na PUC.

Depois que se formou, João fez mestrado e doutorado na Inglaterra. Voltara ao Brasil logo depois da democratização; fizera concurso e passara em primeiro lugar e agora era professor , titular de História do Brasil na federal; casara com Marta, a Martinha, sua antiga colega de turma, mas se divorciara 5 anos depois; não tinha filhos e se dedicava atualmente a conquistar suas alunas mais bonitas.

Nunca mais ouvira falar de Maria, até que um dia, o Aristides, professor de História Contemporânea, seu companheiro no Partidão e nas assembléias de estudantes,  he mostrou o caderno de variedades de Zero Hora.

– Conhece essa perua?

Era uma foto de uma mulher madura, uns 40 anos, extremamente elegante , bem cuidada e ainda muito bonita, sobre uma legenda que dizia: Maria Luiza de Assunção  Chaves lança a campanha em favor da mãe solteira

– Quem é?

– Maria

– Que Maria?

– Maria, a Libelu, que a infernizava nossa vida nas assembléias.

João se deu conta então que era mesmo a Maria, vinte anos depois. Não imaginava aquela maluca de cabelos desalinhados, rosto lavado e vestida com aquelas saias coloridas que se arrastavam pelo chão e sempre de sandália que deixava os pés sujos, poderia ter se transformado numa mulher que devia ter saído diretamente de um salão de beleza para fazer aquela foto

João, naquele momento, se deu conta que Maria voltara a sua vida. Embora não tivesse nenhum valor científico, ele acreditava na tese de que algumas pessoas entram na sua vida,  depois saem e quando menos se espera,estão de volta.

Maria voltou, ao vivo e a cores, um mês depois no lançamento de um livro que a Universidade estava patrocinando sobre uma pesquisa feita com os pobres da Vila Mapa. João era candidato a reitor e estava em plena campanha.

Falaram rapidamente e na saída, Maria lhe entregou um cartão de visitas da ONG que dirigia.

Ele enfiou o cartão no bolso do casaco e só reencontrou um mês depois quando resolveu levar a roupa para a lavandeira.

Ligou para o telefone que estava no cartão e atendeu uma secretaria da tal ONG.

Dona Maria Luiza não estava, mas prometeu dar o recado sobre a ligação.

No dia seguinte, ela ligou e o convidou para conhecer a ONG.

Ela disse que dava expediente uma vez por semana, nas quintas pela manhã. O escritório ficava num edifício da Rua 24 de outubro e depois de uma conversa sobre amenidades, ela o convidou para o almoço, onde falaram do passado

– Libelu foi uma loucura que durou pouco tempo. Confesso que me dizia trotskista, mas nunca li Trotski de verdade.

– Eu continuo marxista, mas larguei o Partidão. Estou agora no PMDB. Sou um socialista democrata.

Desde aquele primeiro dia, João se deu conta que tudo que queria na vida era levar a Maria para a cama.

Ficaram amigos, almoçavam juntos uma vez por semana, iam ao cinema, onde ela permitia que ele segurasse a sua mão, mas tudo terminava por aí.

Quando ele insistia, ela tinha sempre uma resposta pronta

– Não me pressione. Se tiver que acontecer, vai acontecer ao natural.

Só que não acontecia.

Durou três meses a história.

João já sabia tudo sobre a vida de Maria. Três casamentos – todos com homens muito ricos – as viagens pelo mundo, o carro com motorista, o apartamento de cobertura de frente para o rio e mais do que isso, todas suas aventuras. Ela parecia ter prazer em contar essas histórias: aquele amante nativo que invadiu sua cabana em Bali, enquanto o marido dormia bêbado numa outra peça; o troca-troca, ela e o marido,o segundo, com aquele casal de atores da Rede Globo e o pior, a revelação de que durante o movimento estudantil, ela transava com o Aristides, o seu amigo, que anos depois a identificara na foto do jornal.

Um dia, depois de tanta insistência, Maria cedeu. Ela tinha que resolver um problema com seu apartamento em Torres e o convidou para ir junto.

– Vamos sábado e voltamos no domingo. Você dirige.

Ela dava as ordens e ele só queria obedecer.

Era inverno. Pouca gente na praia. O apartamento em Torres era luxuoso. Mal chegando, João foi puxando Maria para o quarto

– Pra que essa pressa?

E aí aconteceu o imprevisto. A ereção não veio. A vontade de João era de se jogar da janela do oitavo andar do prédio. O pior de tudo pra ele foi a reação de Maria

– Deixa prá lá, João Isso acontece. Vamos aproveitar o domingo.

Maria aproveitou, mas João só queria morrer.

Uma semana depois, já em Porto Alegre, Maria convidou João para jantar em seu apartamento.  João tomou uma dose tripla de Viagra e foi disposto a recuperar seu prestígio de macho. Dessa vez ele se excedeu. Como costumavam dizer naquelas conversas no bar da faculdade, quando ainda não existia o fantasma do machismo: deu uma “surra de piça” nela.

A partir daí, João e Maria se tornaram, quase publicamente, amantes. Transavam duas ou três vezes por semana, mas tinha algo que incomodava João e ele falou sobre isso para o Pintaúde, seu amigo e professor de Letras, durante um encontro em que buscava apoios para sua eleição para reitor.

– Estamos apaixonados uns pelo outro, mas eu preciso fazer algo para equilibrar nossa relação. Eu preciso me vingar do seu passado.

O Pintaúde não entendeu nada, nem ele quis explicar. Ele precisava se vingar de todos aqueles amantes do passado, do nativo que entrara em sua cabana em Bali, do casal da Globo, da sua recusa inicial, daqueles cinemas de mão dada e acima de tudo daquela broxada histórica em Torres.

Depois, talvez pudessem ter uma relação normal.

A decisão estava tomada. A noite da vingança foi uma segunda-feira. Tinham combinado que ela faria um jantar especial para comemorar os três meses em que se tornaram oficiosamente amantes.

Ela o esperou na porta vestindo uma camisola transparente de seda negra e depois do primeiro beijo, perguntou

– Tem uma Veuve Clicquot gelando. Como você prefere: antes, durante ou depois?

Foi então que João disse que essa noite seria especial. Uma noite diferente. Ele queria fazer coisas inusitadas. Ela ficou um pouco surpresa, mas acabou concordando.

– Você vai ser minha escrava sexual. Você vai satisfazer todas as minhas fantasias.

E foi assim. João submeteu Maria a todas as posições que vira nos sites pornográficos, a tratou quase como um animal.  Se esforçou ao máximo para ir até o fim em cada um dos ensaios que programou. Varias vezes pensou em desistir, em parar, em pedir desculpas, mas não fez. Precisava humilhar Maria. Fazê-la pagar pela sua riqueza, pelos seus amantes e principalmente por ter dito uma vez – vamos ser apenas bons amigos.

Saiu uma hora depois, recusando o jantar e a Veuve Clicquot.  Viu que ela chorava, mas não quis ter pena. Bateu a porta e foi embora.

– E daí, perguntou o Pintaúde?

– Daí, que nunca mais tive coragem de procurar a Maria. A vingança deve ter feito mais mal a mim do que a ela. Daí começou a dar tudo errado para mim. Perdi a Maria, perdi a eleição para reitor e perdi o interesse em continuar vivendo.

-Tudo isso?

– Vamos tomar mais um chope. Mas, me diga antes, Pintaúde, toda essa história que acabei de inventar, daria uma boa peça de teatro?

–  Acho que não. Você sabe João, como eu sou conservador e detesto dramalhões. Seria melhor pensar em algo mais construtivo, com um final feliz.

– Certo, Pintaúde, vamos pensar então.

Camões tatuado

Às vezes até parece que existe vida inteligente na publicidade.

Lembro os comerciais do “gordinho” anunciando o Posto Ipiranga e os da Tigre, apelando para situações de total nonsense, quando os maiores problemas que uma pessoa pode ter, perdem importância no momento em que são confrontados com alguém que está com obras em casa.

Num desses comerciais, o tatuador, com obra em casa, é perdoado pelo imenso lutador de artes marciais, mesmo tendo desenhado em suas costas um pavão e não um dragão como havia sido pedido.

Falando em pessoas tatuados, um costume que os jogadores de futebol aderiram com força total, lembrei de algumas histórias a respeito.

Um conhecido meu, o Diniz, tatuou no braço “fora Dilma” e agora morre de arrependimento.  O Juvenal, ainda não se arrependeu do seu “fora Temer”, mas daqui a pouco ninguém saberá mais quem era esse tal de Temer.

A Idalina disse que estava apaixonado pelo Aglaé, mas tão apaixonada, que tatuou na coxa o seu nome. O problema é que a Idalina brigou com o Aglaé e agora está apaixonada pelo Everaldo, mas está adiando o momento de ir para a cama com ele, com medo de ter que explicar quem é esse Aglaé no meio da sua coxa.

O Pintaúde disse que viu numa amiga tatuada essa frase na nuca “me agarra com força por trás”. Gostou tanto que resolveu botar no seu livro de memórias esse nome. Foi a pior coisa que poderia fazer. Seu livro não vendeu nada e com isso ele nunca vai ser tão famoso como seu amigo David.

Mas a melhor história de tatuagem ocorreu com a minha amiga Helenice, professora de literatura portuguesa, com mestrado em Coimbra.

Ela é tão apaixonada por Camões que mandou tatuar nas proximidades de suas zonas erógenas, os versos dos Lusíadas.

Ela me contou que, depois de uma longa batalha, conseguiu conquistar o Juvêncio, que é professor de Matemática e casado com a Claudete

Quando estudaram nas Ciências Humanas da Federal, Helenice era muito amiga da Claudete, mas as duas brigaram justamente por causa do Juvêncio.

A Claudete ganhou a disputa, mas agora chegara a hora da vingança.

Aproveitando que a Claudete esteve em Arroio do Meio, visitando uma tia doente, a Helenice convidou o Juvêncio para tomar um Malbec Catena em seu apartamento, na  Cidade Baixa.

A garrafa de vinho não chegou nem a metade e os dois já estavam na cama. Foi então que o Juvêncio deu de cara com os Lusíadas e mesmo sendo um professor de Matemática, ele surpreendeu a Helenice se interessando pelo poema.

As armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana.

O Juvêncio não parou por aí. Ele quis ir além de Taprobana.

Por brincadeira, a Helenice havia tatuado no final dessa última palavra um aviso.

– Continua no verso.

Não teve jeito, ela teve que virar de bunda pra cima, que o Juvêncio queria continuar lendo.

Ela pensou-

Ainda bem que não tatuei o poema completo, são apenas mais alguns versos, e logo podemos voltar ao que interessa.

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram.

Aí, aconteceu o inesperado. O Juvêncio havia perdido a tesão e parecia realmente empolgado com o canto épico português.

Então, não teve jeito, Helenice e Juvêncio terminaram o que tinha sobrado do vinho, sentados na sala, decentemente vestidos, com ela lendo os versos de Camões:

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

 A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

 

O reino da mediocridade

“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” – Nelson Rodrigues

Lembra aquela música do Vinicius e do Tom Jobim?

“Tristeza, não tem fim. Felicidade sim. A felicidade do pobre parece grande ilusão do carnaval. A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia, de rei ou de pirata ou jardineira pra tudo se acabar na quarta-feira”.

Essa quarta-feira de cinzas parece não ter fim para nós brasileiros.

Nunca vivemos num país onde a mediocridade tomasse conta de tudo como agora, nem na época dos generais.

Naqueles tristes anos de chumbo, havia opressão, havia censura, pior, havia a tortura, mas havia resistência, havia luta, havia confronto.

Hoje, não.  O que existe é a calmaria, o desinteresse, o “deixa prá lá”.

Como disse uma vez o Leonel Brizola, “vivemos a paz dos cemitérios”.

Está tudo bem, está tudo tranqüilo.

Mesmo aqueles, um pouco “loucos”, que pedem sangue e exigem vingança, como os  Moros, os Dalagnols e os Bolsonaros, vão acabar pregando no deserto com seus discursos fascistas, porque o cenário acabará dominado pelos Temers, pelos Padilhas, pelos Gilmars, que exigem que a mediocridade seja instaurada como virtude nacional.

O novo lema da República, em vez do positivista Ordem e Progresso, será Moderação e Subserviência.

Vamos ser suavemente moderados, aceitando passivamente o assalto que se faz aos poucos direitos que os trabalhadores ainda detinham.

Vamos ser subservientes aos mais ricos, aos mais ousados, aos mais práticos, e de preferência aos que falam inglês.

Nada de revoltas.

Revolução?

Isso é coisa antiga, fora de época, démodé.

A inconfidência Mineira, a Legalidade, as Diretas Já, ficam bem nos livros de história (ainda que com algumas novas correções), mas na vida real só vão atrapalhar os fins de semana, quando o melhor programa será sempre assistir o Domingão do Faustão.

Quando quisermos saber o que está acontecendo, basta ligar na Rede Globo e aqueles seus comentaristas explicam tudo.

E o Lula?

Que Lula?

A palavra Comunismo não ofende


Você diz, comunista, e as pessoas te olham, ora com desdem – não percebe que o comunismo já era, que fracassou? – ora com espanto – ainda existe um que acredita nisso?

Outros te atacam com argumentos pretensamente históricos – fracassou na Rússia e não deu certo em lugar algum.

Tem os mais informados – traíram as ideias de Marx – com Lenin ou Trotski talvez tivesse dado certo, mas Stalin estragou tudo .

Tem os agressivos – vai para Cuba ou Coréia do Norte para ver o que é bom. 

Enfim, por que essa palavra – comunismo – provoca tantos sentimentos exaltados?

No dicionário está escrito que a palavra comunismo provém do latim “communis”, o que é comum a todos. A sociedade humana se socializou sobre a forma comunista no seu passado mais remoto. Não havia outra forma de enfrentar as dificuldades que a natureza impunha.

Com o passar dos séculos, os mais fortes, os mais inteligentes, os mais hábeis foram se destacando e a sociedade evoluiu, assumindo novas formas de apropriação das riquezas, chegando até ao capitalismo atual.

Ele gerou progresso, riqueza, mas tem um problema grave. Ele é excludente sob o ponto de vista social. Ele deixa de fora das suas benesses a maioria da população. Então, as vanguardas intelectuais foram formulando novas maneiras mais humanas de organizar a sociedade.

Marx foi o que mais avançou nesse sentindo, ao sintetizar as três mais importantes correntes do pensamento ocidental – o socialismo utópico francês, a filosofia alemã e o pensamento econômico inglês – formulando uma teoria, que hoje chamamos de marxismo, destinada a organizar o caminho para a criação de um sistema social mais justo e humano.

Várias tentativas foram feitas no sentido de se chegar ao que Marx chamava de comunismo. Umas, como a Comuna de Paris, duraram semanas e outras como a Revolução Russa duraram décadas. O capitalismo levou mais de 500 anos para chegar ao modelo atual. O comunismo certamente levará menos tempo.

Filósofos, com Meszaros, Bodieu, Zizek e Losurdo, entre outros pensadores, escrevem continuamente sobre esse processo. Como ele será, é um tema em aberto, mas não podemos abrir mão de chegar lá, acima de tudo porque ele tem um conteúdo ético que o capitalismo, apesar do seu sucesso, nunca teve.

Comunismo significa igualdade de oportunidades para todos, ou como dizia muito melhor, Rosa Luxemburgo:um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Bola de meia

O que acontece quando se morre?

Aqueles que tinham confessado seus pecados e depois comungado, iam direto para o céu, esclarecia o Padre Bombardeli, nas aulas de catecismo do Colégio  São Tiago, em Farroupilha.

Naquela época, morrer era uma coisa tão distante quanto aqueles afluentes do Amazonas que o professor de Geografia, nos obrigava a decorar.

Na margem direita, Purus, Madeira e Tocantins.

Eu sabia tudo de cor, margem direita, margem esquerda, mas no fundo era como a morte, não acreditava que fosse uma coisa de verdade.

De verdade era aquela bola feita com uma meia de cano longa cheia de panos, objeto de desejo nos períodos de recreio.

Ela não picava – depois no dicionário iria aprender que o verbo certo era quicar – mas isso não importava muito.

Não havia nenhuma organização prévia, nenhum time definido. Quem chegava ia chutando a bola do jeito que dava. Ela rodava de um canto para outro sempre ao alcance de um pé mais atrevido.

Dizer que era melhor que uma bola de couro, podia parecer uma heresia. Talvez fosse só despeito.

A bola de couro era da turma dos maiores. Raramente surgia uma chance de usá-la. Mas a verdade era que ela não era tão dócil como a bola de pano. Ela picava – quicava, aprenderíamos depois – nervosa de um lado para outro e muitas vezes, acabava escapando para dentro de uma sala de aula, quebrando um vidro ou, pior do que tudo, batendo com força num daqueles padres que caminhavam pelo pátio com o rosário entre os dedos.

Aí não tinha jeito. A bola era confiscada e a turma enfrentava um castigo. Todo mundo ia embora e os jogadores ficavam escrevendo 100 vezes nos seus cadernos “não devo jogar bola no recreio”.

Com as bolas de meia, os padres não se incomodavam.

O único problema é que quando terminava o recreio a gente voltava para a sala de aula pingando suor por todo o corpo.

O professor Inácio perguntava qual o sujeito daquele verso do hino nacional “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” e quando a gente se levantava para responder, sentia aquele fio de suor correndo pelas costas.

Hoje, nem lembro mais os nomes dos afluentes do Amazonas.

Sobre a morte, porém, tenho pensado bastante.

Quanto a confessar e depois comungar, acho que não vai resolver muito, mesmo porque, com o passar do tempo virei um ateu.