O grande momento do Jornal Nacional

A Globo, a RBS e o resto da mídia estão comemorando os 50 anos do Jornal Nacional. Seria legal que esse pessoal relembrasse um dos grandes momentos do JN, quando no dia 16 de março de 94, obrigado pela Justiça, foi lida por Cid Moreira a carta de Leonel Brizola em resposta a Roberto Marinho. Como eles não vão lembrar, lembro: “Em cumprimento à sentença do juiz de Direito da 18ª Vara Criminal da Cidade do Rio de Janeiro, em ação de direito de resposta, movida contra a TV Globo, passamos a transmitir a nota de resposta do sr. Leonel de Moura Brizola.
‘Todos sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui cita o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro. Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil. Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si. Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país.
Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário, que para ela representa a transmissão do Carnaval. Dinheiro, acima de tudo.
Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval carioca. Também aí não tem autoridade moral para questionar. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior.
E isso é que não perdoarão nunca. Até mesmo a pesquisa mostrada na quinta-feira revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria antes um dever para qualquer órgão de imprensa, dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.
Quando ela diz que denuncia os maus administradores deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante do seu poder.
Se eu tivesse as pretensões eleitoreiras, de que tentam me acusar, não estaria aqui lutando contra um gigante como a Rede Globo.
Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado. Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o governo federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível, quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesma.
Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência límpida e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros.’
assina Leonel Brizola.”

A magia da realidade

O intelectual é por princípio um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase – “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (Deus não é grande), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

Em seu livro mais conhecido no Brasil (Deus – um delírio) Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais,

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

Dawkins propõe então chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.

O que se pode fazer pelo Brasil?

A pergunta que mais se ouve entre as pessoas razoavelmente escolarizadas é de como o Brasil chegou a situação atual, a ponto de ter como presidente um idiota e não idiota manso (dizem que o presidente americano Harry Truman era um idiota manso, o que não o impediu de mandar soltar duas bombas atômicas no Japão)  mas um idiota raivoso, tosco e que, a cada dia, a cada pronunciamento seu, se aproxima mais do modelo do fascista clássico.

E tudo isso acontece dentro das regras da democracia clássica e depois de 14 anos de governos teoricamente de esquerda, como foram os governos de Lula e Dilma, quando muitas das reivindicações históricas da população foram em parte atendidas.

Para se tentar entender o que ocorreu será preciso recorrer a duas citações clássicas de Karl Marx

– A história da sociedade humana é a história das lutas de classe

– As massas têm a ideologia da classe dominante.

Para se entender a existência do Bolsonaro será preciso recuar um pouco no tempo, dar alguns passos para trás e chegar a 1964.

Nesse ano, no fatídico dia 31 de março (segundo alguns, a data cerca seria o primeiro de abril), os militares de alta patente se rebelaram e iniciaram um golpe de estado, que eles chamaram de revolução ( diziam que era a Redentora) e que teria dois objetivos: acabar com a corrupção e a subversão

O que eles entendiam por essas duas palavras mágicas eram: a ação, ainda que extremamente tímida, do governo Goulart em favor da reforma agrária e do controle da remessa de lucros para o exterior e o apoio que era dado a essas medidas por sindicatos e entidades estudantis.

Os líderes sindicais, pejorativamente chamados de “pelegos”, porque suas entidades de classe eram mantidas por verbas oficiais e não apenas pela contribuição dos trabalhadores – era corrupção – e os estudantes, vistos como profissionais da subversão e não como alunos de escolas e faculdades,.

O golpe de 64 teve padrinhos importantes: o velho e sempre presente imperialismo americano; a religião, na ocasião representada pela Igreja Católica, o latifúndio e a mídia, já bastante atuante e liderada pelos Diários e Emissoras Associados.

E como se repetiria mais de uma vez depois, com o apoio silencioso da classe média e também dos segmentos despolitizados da classe trabalhadora.

Quando chegaram ao poder, os militares trataram de cumprir seu papel: a reforma previdenciária de hoje foi o fim da estabilidade trabalhista na época (até então o trabalhador com mais de 10 anos num emprego não podia ser despedido sem justa classe); o arquivamento dos projetos de reforma agrária e o atrelamento do país aos interesses econômicos americanos.

Aí está, na prática, as verdades de Marx: a luta de classes por atrás de palavras de ordem vazias e a alienação das classes trabalhadoras.

Quando o regime militar caducou e deixou de servir aos interesses para os quais foi criado, reconstruiu-se uma democracia de fachada, que começou com uma eleição indireta ao qual o povo não teve acesso e continuou com a primeira eleição direta, onde novamente as classes dominantes escolheram o presidente, um arrivista da pior espécie, Fernando Collor, um pré-Bolsonaro, que o povo alienado aclamou.

Quando os dois governos de FHC, que se seguiram à experiência frustrada com Collor e depois Itamar, se esgotaram, porque o milagre do Plano Real (definido por Leonel Brizola como uma tentativa de curar um câncer com analgésico) perdeu sua força, surgiu o que muita gente viu como uma revolução pacífica para levar a esquerda ao poder.

O que as pessoas quiseram esquecer é que Lula, o símbolo dessa revolução desarmada, só chegou ao poder, depois de duas derrotas consecutivas para FHC e quando se associou aos representantes do empresariado, representados na eleição de 2002 por José Alencar.

Seu governo e depois o de Dilma, foram tentativas de conciliar o inconciliável, os interesses de classes antagônicas.

Durante algum tempo isso pareceu possível. Uma série de medidas de caráter social trouxe melhorias às classes trabalhadoras como nunca tinha acontecido antes, mas bastou uma crise econômica, típica do capitalismo, atingir o Brasil, para que a classe dominante  retomasse o poder e começasse a impor sua vontade.

Os nostálgicos dos governos do PT querem reescrever o passado, colocando para discussão uma série de verbos no condicional:

– e se os governos do PT tivessem feito a reforma dos meios de comunicação para impedir a lavagem cerebral que a mídia faz diariamente na população?

– e se os governos tivessem colocados nos postos chaves da administração pessoas confiáveis?

– e se os governos do PT tivessem feito realmente a reforma agrária?

– e se os governos do PT tivessem enfrentado a ganância dos bancos e do empresariado?

– e se os governos do PT tivessem feito uma reforma política que acabasse com o domínio dos parlamentos pelas elites e seus representantes?

Para fazer tudo isso, os governos do PT teriam, primeiro que derrotar a classe dominante e segundo esclarecer a classe trabalhadora dos seus direitos.

Aí teria que ser um partido revolucionário, o que o PT nunca pretendeu ser.

Lula teria que ser Lênin, o que não foi e nunca quis ser

E se fosse tudo isso, mesmo assim, talvez não desse certo, como não deu certo no final para a Rússia de Lênin, que chegou ao poder, não por um processo eleitoral, mas por uma revolução.

Como nem Lula, nem Dilma fizeram, nada disso, enquanto o modelo russo durou 80 anos, mais ou menos, o do PT durou apenas 14.

Faltou entender que a história é a história das lutas de classes e que o capitalismo venceu novamente e que por isso mesmo, as massas têm e continuarão tendo durante muito tempo, a ideologia das classes dominantes.

Conclusão: nada indica que o governo Bolsonaro ou seus possíveis sucedâneos, se a classe dominante não precisar mais dele, sejam eventos passageiros.

A História que se repete

Quem se interessa pela História, pela Política e pela Cultura já ouviu centenas  de vezes essa pergunta  – como foi possível que a Alemanha e Itália, pátrias de alguns dos maiores filósofos, romancistas, poetas, escultores e músicos que a humanidade já viu, puderam ter sido também os berços dos mais odiosos sistemas políticos já vistos, o nazismo, de Hitler, na Alemanha e o fascismo de Mussolini, na Itália?

Talvez, não estejamos percebendo que um regime semelhante a aqueles esteja nascendo no Brasil com a presença de uma figura ainda mais tosca do que foram Hitler e Mussolini, Jair Bolsonaro, que como aqueles dois, também chegou ao poder pela via eleitoral.

Algumas pessoas já se deram conta desse processo e estão nos alertando do perigo

Talvez o mais confiável jornalista brasileiro a ter ainda espaço na grande mídia, Janio de Freitas, traçou essa semana na sua coluna da Folha, um roteiro extremamente pessimista para o futuro do Brasil.

Analisando o atual governo, ele aponta indícios de que caminhamos para o nazi-fascismo, como ocorreu no passado com a Alemanha e Itália.

Depois de dizer que “O governo Bolsonaro não tem a direcioná-lo uma doutrina, nem de arremedo, que lhe dê fisionomia como razão de ser e de propósito, Jânio lembra algumas “coincidências históricas”: “O governo providencia, por exemplo, a criação de 108 escolas militarizadas, para início de ambicioso programa. O plano não é original, nem o era nas primeiras referências ainda na campanha eleitoral. Foi uma criação decisiva para a infiltração, ao longo dos anos 1930, do nazismo e do culto ao ditador na vida da Alemanha. O voluntariado de multidões jovens para a guerra simultânea do nazismo a dez países europeus, em 1939-40, foi obra do ensino militarizado”.

Em seguida, Janio se refere à visão de Bolsonaro e seus apoiadores sobre o cinema nacional, começando pelo entendimento deles que o filme Bruna Surfistinha seria o melhor exemplo do que é feito aqui: “Esse combate à cultura artística é usual nos governos autoritários, e se volta em especial contra percepções sexuais quando o poder é militarizado ou de submissão religiosa.

O combate ao que foi chamado de “arte degenerada”, na Alemanha hitlerista, também não começou pela censura explícita. Usou por bom tempo o arrocho financeiro e outras dificuldades, até dominar toda a arte. É o que começa aqui.”
Mais adiante, Janio de Freitas se refere a discriminação na destinação de verbas públicas “os do Nordeste não vão ter nada”: “A condição punitiva e personalista, para o direito a verbas públicas, contraria a Constituição. E foi o primeiro recurso administrativo contra o oposicionismo regional na Alemanha e na Itália fascista, assim como é comum nos poderes que buscam o  autoritarismo”.

Os sinais das práticas nazi-fascistas são realçadas pelo jornalista; “Os ataques de retaliação à imprensa, a deportação sumária e sem tempo para defesa, a desmontagem da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos são, todos, repetição do primeiro estágio de ascensão ao poder ditatorial por nazistas e fascistas.

A investida contra os índios, para a tomada exploratória de suas terras, tem semelhança com o extermínio dos ciganos dados como inúteis e viciosos pelos nazistas. Ensaio de extermínio, já anunciada por Bolsonaro as mortes de gente “como baratas”, por balas de impunidade assegurada.’

Finalmente, Jânio de Freitas chama a atenção, mais uma vez, sobre o que deveria ser uma prova para todos nós de que temos como presidente eleito uma pessoa abominável e extremamente perigosa:

“A repetição por Bolsonaro, sob a dignidade da Presidência da República, da qualificação de “herói nacional” para um torturador e responsável por pelo menos 45 mortos e desaparecidos sob sua guarda, é um desacato à Constituição. No mínimo. O coronel Carlos Brilhante Ustra foi condenado pelo que o texto constitucional define como “crimes imprescritíveis”. A transgressão de Bolsonaro, dirigida também à Presidência, é, por si só, suficiente para tornar imoral a sua continuidade no cargo.

No mínimo.”

A conspiração do silêncio.

Séculos atrás trabalhei no Jornal do Comércio dirigido na época pela família Jarros, onde escrevia uma coluna sem assinatura, com uma síntese do noticiário internacional.

Como nunca ninguém comentava nada, nem para elogiar, nem para criticar, fui dando cores cada vez mais críticas à coluna, dentro daquela linha da esquerda festiva, comum na época. Basicamente falava mal dos norte-americanos.

Um dia o Mário Jarros, que dirigia o jornal, me chamou na sua sala e disse que seus amigos da Associação Comercial tinham comentado que a coluna estava um pouco em desacordo com a linha conservadora do jornal e me pediu moderação. Saí feliz: finalmente algo que eu fazia tinha repercussão.

Mais tarde, nos idos de 60, quando trabalhava na TV Piratini, redigindo o Repórter Esso, classifiquei a Polícia de Choque de “famigerada”, depois que ela desancou o pau nos estudantes que protestavam contra a ditadura na Rua da Praia.

Fui advertido pelo diretor da televisão, Renato Cardoso, já falecido, para o risco de usar aquele qualificativo em tempos tão bicudos. Com o Aurélio em punho expliquei, mas não o convenci, que “famigerada” não era um termo pejorativo e que só servia para classificar, pessoas ou coisas, como famosas, para o mal ou para o bem.

O programa se chamava Repórter Esso, era patrocinado pela Esso Brasileira de Petróleo (o Brasileira do nome era de mentirinha), e a emissora pertencia aos Diários e Emissoras Associados, unha e carne com os militares que deram o golpe de 64. Mesmo assim, junto com o Luís Vicente Soares, o outro redator, nós contrabandeávamos algumas mensagens levemente subversivas no noticiário, principalmente quando se tratava da guerra do Vietnam, onde os americanos já estavam sendo surrados.

Ou eram mensagens tão leves que ninguém percebia, ou ninguém estava interessado no assunto. Nunca houve uma reclamação ou algum elogio dos telespectadores.

Depois disso, já trabalhando como professor na área de comunicação de uma universidade católica, falava sobre o desenvolvimento da mídia impressa no Brasil e relatava o fato de que na década de 50, a revista O Cruzeiro tinha alcançado uma tiragem de 500 mil exemplares, quando o país não tinha mais de 50 milhões de habitantes, na cobertura da morte do cantor Francisco Alves, o Rei da Voz, em 1952.

Em 1954, na morte de Getúlio Vargas, seriam 750 mil exemplares, mas isso nem cheguei a mencionar.

Salvo por alguns alunos que discutiam seus problemas pessoais no fundo da sala, a minha revelação foi recebida com um silêncio constrangedor. Como insistisse na importância do fato e na minha surpresa pelo desconhecimento e desinteresse deles, um dos alunos, com a arrogância típica dos ignorantes, tomou a palavra:

– Como é que o senhor quer que saibamos uma coisa que aconteceu há 50 anos?

Boa pergunta. O passado para aqueles alunos não existia.

Resolvi testar a memória deles. Como eles não lembravam um cantor da década de 50, cuja vida estava documentada em discos, revistas e jornais, certamente também não lembrariam de um personagem, cuja existência histórica é duvidosa, e que viveu há mais de 2 mil anos em terras muito distantes do Brasil.

– E Jesus Cristo, você lembram?

Todos lembravam.

Fiquei pensando que era preciso ensinar mais História do Brasil e menos religião nas escolas de segundo grau.

Muitos anos depois, na revista Press Advertising, onde escrevia artigos mensais sobre a Publicidade, comecei a implicar com os chamados “Jovens Criativos” – aqueles sujeitos que, mesmo nunca tendo lido mais do que manuais de criação, se acham os gênios da arte moderna e acreditavam que o mundo começou com eles.

O objetivo era provocar uma discussão sobre o preconceito da idade, tão comum nos departamentos de criação das agências de propaganda, onde a idéia dominante é de que aos 40 anos o sujeito é velho e aos 50, está morto e ainda não se deu conta.

Nenhuma contestação. Silêncio total.

Conto essas histórias, que possivelmente não vão interessar a ninguém, para comprovar a minha tese. Que tese? Simples: a de que no Rio Grande do Sul, em vez de criticar ou elogiar, as pessoas optam pelo silêncio. É um pacto não escrito, mas que impera no jornalismo, na publicidade e mesmo nas artes do Rio Grande: eu não falo mal de ti e tu não falas mal de mim. E assim ficamos todos felizes. Se alguém descumpre a regra, a gente faz que não vê, que não existe.

 

Os fantasmas da infância.

.Onde foram parar as histórias de assombração, tão comuns no passado?

O mundo dos vivos e dos mortos parece que não tinham barreiras os separando e personagens do passado dialogavam comumente com os do presente, quase sempre para relatarem problemas e pedirem ajuda para  suas “vidas” pós morte.Era muito comuns, os mais velhos reunirem a família para contar essas histórias.

O meu pai era um desses exímios contadores, em saraus que reunia a pequena família para momentos de grandes emoções e não pouco terror.  Seu prato forte era a casa mal assombrada em que a família viveu em Lajeado no início dos anos 40 anos.

Embora fosse um bebê na época, tinha mapeada totalmente na minha cabeça a geografia da casa, localizada convenientemente ao lado da estrada do cemitério, seus inúmeros quartos , os passos que ecoavam durante toda a madrugada pelos corredores e as súbitas correntes de ar que arrepiavam as pessoas, isso sem contar com constantes batidas na porta.

Lembro como se fosse um filme, meu pai decidido, durante uma dessas noites cheias de passos que sacudiam o assoalho, a caçar o intruso.  Com os pés e as mãos sobre o chão, de quatro, como se fosse um gato, com as luzes apagadas, percorria a casa inteira para surpreender o invasor e terminava sempre sem sucesso.

Como minha mãe dizia que a casa era tão grande e família tinha poucos móveis,  que algumas peças ficavam sempre vazias e fechadas,na ânsia de encontrar uma justificativa real para aqueles passos, sopros, batidas e vozes, imaginava que alguém instalara algum equipamento de som numa das peças vazias, para assustar a família por alguma razão qualquer. Obviamente nunca levantei essa hipótese junto do meu pai.

Muitos anos depois, já casado e com filhos, me valendo da amizade com o Werner Altman, que era de Lajeado, fui visitar a cidade a procura da tal casa mal assombrada.  Ela devia ficar na entrada do cemitério católico, mas para minha decepção não havia mais nenhuma casa por ali. Se houve alguma vez, desapareceu com todos os fantasmas que acompanharam a minha infância.

Quando resolvi escrever essas lembranças, procurei no Google algum registro dos programas de rádio que contavam histórias de assombração e eram muito comuns.  No youtube,  inclusive, tem um deles, o mais famoso da época: Incrível ! Fantástico ! Extraordinário ! que o Almirante produzia na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com o patrocínio de Guaraína, um remédio para dor de cabeça.

Ouvindo a radiofonização de uma história – o da Noiva Morta – me dei conta que a gente se assustava com muito pouco na época.

Os pecados da esquerda

Foram os sucessivos governos ditos socialistas da Europa, a partir do fim da segunda guerra mundial, que abriram caminho para a consolidação das ideias nacionalistas e xenófobas que hoje formam a nova imagem do capitalismo.

Alain Badiou, o filósofo francês que defende a ideia de um retorno a Marx para a construção da sua “Hipótese Comunista”, diz sarcasticamente que os maiores inimigos da revolução popular na Europa sempre foram os que se intitulam de “socialistas democráticos”.

Especificamente sobre a França, diz Badiou, analisando os sucessivos governos “socialistas” de François Mitterand, Lionel Jaspin, e François Hollande: “que vergonha para os sucessivos governos, que rivalizaram nos temas conjugados da segurança e do “problema dos imigrantes”, para que não fosse muito visível que serviam acima de tudo os interesses da oligarquia econômica! Que vergonha para os intelectuais do neorracialismo e do nacionalismo escondido, que pacientemente cobriram o vazio deixado no povo pelo eclipse provisório da hipótese comunista com um manto de inépcias sobre o perigo islâmico e a ruína dos nossos “valores” São estes que hoje devem prestar contas sobre a ascensão de um fascismo desenfreado, de que eles encorajaram implacavelmente o desenvolvimento mental”.

Na crítica ao capitalismo e ao comunismo soviético, Badiou afirma que a sua ideia comunista “é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras”

Utópica, ou não, foi contra essa ideia que importantes dirigentes socialistas e trabalhistas na Europa, na Alemanha, de Will Brandt, na Inglaterra de Tony Blair, na Espanha, de Felipe Gonzales, na França, de Mitterand e em Portugal, de Mario Soares, agiram, ajudando a consolidar o capitalismo em oposição à construção de um sistema socialista.

Mario Soares, presidente e primeiro ministro em sucessivos governos de Portugal a partir de 1975 e falecido em 2017, é agora lembrado, não por este papel tão pouco nobre, mas por sua atuação, ainda que pálida, na luta pelo fim da ditadura portuguesa de Salazar e Marcelo Caetano em 1974.

Ao contrário de outras lideranças na luta contra o fascismo em Portugal, como Álvaro Cunhal, que esteve preso, muitos anos em solitárias e que foi duramente torturado, Soares viveu boa parte da ditadura no exílio da França e fez muito pouco para a queda da ditadura, mas logo que ela caiu por força da Revolução dos Cravos, se apressou a organizar o seu Partido Socialista para assumir posições de liderança no novo governo.

Comparando com alguma figura de político brasileiro que se opôs a nossa ditadura, que foi exilado, mas não preso e que na volta da democracia se beneficiou diretamente da nova situação, poderíamos dizer que Mario Soares lembra Fernando Henrique Cardoso.

Quando da morte de Mario Soares,, em seu espaço em Zero Hora, Flávio Tavares teceu um panegírico ao político português, de quem não foi apenas um admirador, mas um grande amigo.

Para nós, seus amigos, Flávio merece respeito e consideração pela sua longa trajetória de luta pessoal contra a ditadura, luta que lhe custou sofrimentos que a muitos de nós foram poupados. Até mesmo por isso, e levando em consideração seu espírito sempre aberto ao debate, é que nos propormos a divergir de suas considerações sobre Mario Soares.

Em 25 de abril de 1974, um movimento militar anti-fascista e anti-colonialista, envolvido por uma ainda pouco clara ideia socialista, derrubou a ditadura portuguesa que começara com Salazar e continuara com Marcelo Caetano e instaurou governos provisórios que persistiram até novembro de 1975, quando um golpe de estado, arquitetado por Mário Soares, entre outros, encaminhou Portugal para um governo de centro-esquerda, dentro de um modelo tolerável pelos Estados Unidos,

Vasco Gonçalves, o verdadeiro líder dos capitães do exército português que deflagraram o movimento disse, em longa entrevista, pouco antes de morrer em 2005 que “quando nos restantes países europeus se abriam as flores murchas do eurocomunismo e da social democracia, correntes que renunciavam a toda a rebelião radical, não por uma momentânea debilidade de forças, mas por princípios políticos, Portugal pôs na ordem do dia a questão do poder. Isto teve lugar em plena crise capitalista – 1973/1974 – quando o dólar e o petróleo sofreram um abalo mundial, liquidando o keynesianismo do pós guerra, abrindo caminho ao neoliberalismo. A de Portugal foi uma revolução que questionava num mesmo movimento o vínculo imanente entre capitalismo, fascismo e colonialismo. Três formas de dominação que costumam ser apresentadas como se fossem fenômenos desligados entre si”.

Como toda a revolução, chega um momento em que as forças, unidas para derrotar um alvo específico – no caso a ditadura fascista portuguesa – entram em confronto entre si e será vencedora aquela mais capaz de mobilizar o apoio da população. Vasco Gonçalves admite que os radicais de esquerda cometeram muitos erros e que depois de um ano, o apoio popular decrescia, mas enfatiza que foi a ação externa do governo americano, através do seu embaixador em Lisboa, Frank Carlucci e da ação da CIA quem realmente levou ao golpe de 75.

No texto que publicou em Zero Hora, Flávio Tavares diz que Mario Soares se deu conta que a continuidade do governo da Junta de Salvação Nacional, fortemente influenciado pelo Partido Comunista e liderado pelos militares da MFA (Movimento das Forças Armadas), que fizeram a revolução, levaria a uma intervenção militar dos Estados Unidos em Portugal, ordenada por Henry Kissinger, o todo poderoso Secretário de Estado norte-americano

A assertiva contradiz as estratégias usadas pelos americanos para desestabilizar os governos que não serviam os interesses dos Estados Unidos, muito mais centradas em cooptar lideranças conservadoras dos países e provocar cisões em suas forças militares, do que um confronto armado.

A razão é óbvia: as intervenções armadas provocavam quase sempre a união interna no país atacado para enfrentar o inimigo externo. O exemplo da guerra do Vietnam, que terminara em abril de 75 com a derrota fragorosa dos Estados Unidos, devia estar bem vivo na cabeça de Kissinger, que preferiu usar seu embaixador Frank Carlucci, para cooptar as lideranças do Partidos Socialista, especialmente Mario Soares e alguns segmentos militares que fizeram a revolução, para a criação de um governo mais palatável aos interesses dos americanos.

Flávio Tavares diz no seu texto que Mario Soares salvou Portugal dos dois “K” mais importantes da época: Kissinger e o Kremlin.

Quanto a Kissinger, parece que, usando, não as armas de guerra, mas as diplomáticas, conseguiu seu intento, mantendo Portugal dentro da área de influência econômica americana.

Quanto ao outro “K” o Kremlin, o equívoco é ainda maior. O governo de Leonid Brejnev, preocupado com movimentos de contestação que começavam a surgir no Leste Europeu, em momento algum, teve algum interesse em qualquer tipo de confronto com os Estados Unidos. A política soviética no início dos anos 70 era claramente de coexistência pacífica e de respeito às áreas de influência delimitadas pelos acordos do final da segunda guerra.

Na entrevista com Vasco Gonçalves, já referida aqui, ele lembra que a 15 de setembro de 1975, apenas dois meses antes do golpe, Mario Soares denunciou publicamente os revolucionários, dizendo que Portugal corria o risco de converter-se numa espécie de Cuba na Europa, dando alento à conspiração de direita que tomaria o poder em novembro.

A identificação de propósitos entre o dirigente socialista português e o embaixador americano, que seria depois vice-diretor da CIA é confirmada pelos elogios mútuos entre os dois e uma declaração de Soares, dizendo que Carlucci foi fundamental para a instauração da democracia em Portugal.

Chico Buarque fez duas versões para a sua música de apoio à Revolução dos Cravos, a primeira em 75, saudando o movimento e a segunda em 78, registrando de forma poética o significado dos dois momentos, o da revolução e o da contra revolução.

Versão de 1975

“Sei que estás em festa, pá /  Fico contente/ E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim / Eu queria estar na festa, pá / Com a tua gente

E colher pessoalmente / Uma flor do teu jardim / Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar / Lá faz primavera, pá / Cá estou doente / Manda urgentemente / Algum cheirinho de alecrim”

Na versão de 1978, Chico trocou as duas primeiras estrofes

“Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E ainda guardo, renitente

Um velho cravo para mim / Já murcharam tua festa, pá / Mas certamente

Esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim”

Já que começamos com um pensador marxista não convencional, como o francês Alain Badiou, fica bem terminar com outro dessa mesma linha de pensamento, o esloveno Slavoj Zizek, cuja análise serve para os governos socialistas como pretendeu ser o de Mario Soares.

“Estou lentamente descobrindo uma lei quase geral. Se o objetivo é uma política neoliberal contra sindicatos e a legislação trabalhista, apenas um governo dito de esquerda pode impô-la’.

 

 

 

A banalização do mal

A Zona de Interesse (Zone of Interest) é um livro do americano Martin Amis, que a Companhia das Letras, lançou no Brasil.O nome era uma ironia macabra dos nazistas. Zona de Interesse, em Auschwitz, era o local onde os judeus que chegavam ao campo, passavam por uma triagem na estação ferroviária, processo que determinava se seriam mandados para trabalhos forçados durante algum tempo ou iriam diretamente para as câmaras de gás.

Para evitar alguma confusão, os alemães montavam um verdadeiro circo, até mesmo com banda de música e promessas de banho quente e alimentação farta para os que chegavam diariamente nos trens vindos dos diversos países ocupados pelos nazistas.

A ideia era fazer crer aos judeus que eles iriam trabalhar para os alemães durante algum tempo e depois voltar aos seus lares. A ilusão só terminava quando eram fechadas as grandes portas que deveriam levar os presos para os chuveiros, mas que eram realmente câmaras de gás.

O livro retoma na forma de ficção, o tema da banalidade do mal, que Hannah Arendt havia tornado universal com a cobertura que fez do julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1961, para a revista The New Yorker, posteriormente transformado em livro com o título de Eichmann em Jerusalém, disponível no Brasil na tradução para o português.

Antes de Amis, Jonathan Littel, dentro da mesma linha, misturou ficção e realidade para contar a história de Maximilien Aue, oficial da SS nazista que participa do extermínio de judeus na segunda guerra, no seu livro As Benevolentes)

Seguindo o procedimento burocrático, que Hannah Arendt identificou no comportamento de Eichmann, Littel mostra até que ponto a alienação da ideologia nazista transformou burocratas em verdadeiros monstros, imunes a qualquer sentimento de culpa e por isso mesmo capazes de manter uma vida “normal” fora de suas funções “profissionais”.

Jorge Semprun, em a Longa Viagem. ao descrever sua internação em Buchenwald, de certa maneira já havia antecipado essa visão de um campo de concentração nazista.

Nenhum deles conseguiu, porém, o mesmo impacto da obra de Amis que, a parte este caráter sociológico, tem uma qualidade literária admirável.

Um livro que prende a atenção do leitor da primeira à última de suas quase 400 páginas.

A história é contada, de forma intercalada, por três personagens: Angelus Thonsen, oficial do exército, sobrinho de Martin Bormann, o secretário pessoal de Hitler, um cético quanto os objetivos nazistas; Paul Doll, comandante do campo, um bufão, sempre bêbado e desprezado pela mulher, Klara, objeto de desejo de Angelus e Szmul, integrante de um “sonderkommando”, grupo formado por judeus, que em troca de algumas vantagens materiais, fazia o trabalho sujo para os alemães.

São estes “sonders” que encaminhavam os presos para as câmaras de gás e depois carregavam os cadáveres para o crematório ou para as valas comuns, não sem antes se responsabilizarem pela retirada do ouro dos dentes e os cabelos das mulheres mortas.

Na narração dos fatos, feita pelos três personagens, há uma superposição entre os acontecimentos trágicos que se desenrolam no campo – a execução diária de centenas de homens, mulheres e crianças, as monstruosas experiências médicas com os presos e a fome permanente dos judeus preservados para o trabalho escravo – com um simulacro de vida normal dos alemães que vivem no campo.

O comandante vive com a mulher e as filhas numa casa dentro do perímetro do campo; os oficiais alemães se reúnem periodicamente para jantares e para assistir peças teatrais e apresentações de balé, como se a vida continuasse igual aos tempos anteriores à guerra.

Chama a atenção a maneira como os oficiais nazistas tratam suas ações no campo de concentração, discutindo questões que representam a vida ou a morte de milhares de pessoas como negócios comuns do dia a dia.

É como se o campo de Auschwitz fosse apenas uma grande empresa capitalista cujos sócios se dividissem entre bons e maus administradores. Em muitas discussões ficam em polos opostos os que defendem um aumento na ração de alimentos para que os presos que realizam os trabalhos escravos tenham uma vida útil maior (seriam hoje os defensores de um capitalismo com preocupações sociais) e de outro lado, os fanáticos que enxergam na destruição física dos judeus um objetivo de vida (seriam hoje os defensores do capitalismo selvagem).

Como tudo aconteceu, é uma discussão que não tem fim. Como foi possível que a Alemanha, terra de grandes filósofos, poetas e cientistas, tenha se transformada no algoz de populações inteiras durante mais de dez terríveis anos?

Tudo teria obra apenas de um maluco, Hitler?

Ou a responsabilidade deve ser dividida com o seu círculo de poder, como decidiu o tribunal de Nuremberg que incriminou: Goering, Hess, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbrunner, Rosenberg, Frank, Frick, Streicher, Funk, Sauckel, Jodl, Seyss-Inquart, Speer, Neurath, Bormann, Schirach, Raeder, Doenitz, Schacht, Papen e Fritzsche?

Foram 19 condenações, 12 à forca, 3 à prisão perpétua e 4 à pena de prisão de 10 a 20 anos.

Isso significa a absolvição de todos os demais, que tornaram possível a existência de um sistema nazista de governo?

E os alemães que acreditavam que o nacional socialismo era a salvação do País e, em grande maioria, apoiaram os nazistas, pelo menos enquanto eles estavam ganhando a guerra?

Hoje se discute muito a responsabilidade das populações civis da Alemanha e de Israel em relação às atrocidades praticas nos países ocupados e mesmo dentro da Alemanha, pelos nazistas durante a guerra e hoje, na Faixa de Gaza e no sul do Líbano, pelos israelenses.

O que se diz mais comumente é que não se pode condenar toda uma população pelos crimes cometidos a mando dos seus dirigentes, embora tanto no caso da Alemanha, no passado e Israel, hoje, eles tenham chegado ao poder por processos eleitorais formalmente democráticos

Embora os maiores campos de extermínio – Auschwitz, Treblinka, Belzec e Majdanek – estivessem na Polônia, de 1933 (ano da ascensão dos nazistas) até 1945 (fim da guerra) existiram 16 campos de concentração dentro da Alemanha e alguns bem próximos de grandes cidades, como Sachsenhausen,  de Berlim; Bergen-Belsen, de Hannover; Dachau, de Munique e Buchenwald, de Weimar.

Esses campos, onde milhões de judeus, ciganos, doentes mentais e opositores políticos, principalmente comunistas, foram mortos, dispunham de um número enorme de funcionários, não apenas militares, mas também médicos, enfermeiros, dentistas e técnicos de vários níveis que, forçosamente, mantiveram relações comerciais e sociais com as populações em torno.

Isso sem falar nas grandes indústrias químicas, de remédios e também de armamentos que se estabeleceram nas proximidades para usar a mão de obra escrava proporcionada pelos campos de concentração, transformados em empresas financiadas pelos grandes empresários alemães.

No caso da Alemanha nazista, tema dos livros citados, é difícil admitir que a maioria da população não soubesse da existência dos campos de concentração. O mais certo é pensar que a maioria das pessoas não queria saber de suas existências.

Talvez a melhor explicação esteja num poema que tem duas versões A primeira, do pastor Martin Niemoller (1892/1986), ampliada depois por Bertold Brecht (10/02/1898 – 14/08/1956):

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar

(Pastor Niemoller)

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo”

(Brecht)

Vítimas e algozes

Falar sozinho não é só coisa de louco. Você pode aprender muita coisa dialogando, honestamente e sem preconceitos, com seu alter ego.

Outro dia, por exemplo, falando comigo mesmo, perguntei:

– O que pode ser considerado hoje como a coisa mais politicamente incorreta?

Eu mesmo respondi:

– Obviamente a homofobia.

– Mais do que isso.

– Mais do que homofobia, é muito difícil que haja alguma coisa.

– Mais!

– Quem sabe achar ridículo aquele sujeito que sobe numa árvore para protestar contra o corte que vai permitir construir uma avenida, mas não move uma palha quando o especulador imobiliário derruba uma centena de casebres para construir um espigão?

– Mais do que isso.

– Mais?

– Mais!

– Não sei.

– Falar mal dos ciclistas.

– Mas, por que alguém falaria mal dos ciclistas?

– Viu só!  Você (eu) ficou espantado com essa possibilidade. Os ciclistas são hoje os queridinhos da mídia e como você (eu) sabe, a mídia faz a cabeça de todo o mundo.

– Continuo não entendo qual o problema com os ciclistas.

-Em vez de fazer as tais ciclovias, que vão a lugar algum, a prefeitura poderia usar o dinheiro para melhorar a vida desse pessoal que vive na periferia da cidade.

– Então, é uma questão de classe social?

– É isso também. Quem anda de bicicleta é a classe média. Pobre anda de ônibus, que por sinal continua caro.

– Mas, esse pessoal que protestou contra o aumento dos ônibus não é classe média?

– É meio confuso mesmo.  Pobre que anda de ônibus, não protesta contra o aumento das tarifas e a classe média que anda de bicicleta, protesta.

– Está bem, você (eu) é contra os ciclistas por causa das ciclovias?

– Não. Sou até a favor.

– Explica que não estou entendendo.

– Os ciclistas eram vítimas desses motoristas enlouquecidos que não respeitam nada, que se acham donos das ruas, que vão atropelando todo o mundo, inclusive quem anda de bicicleta.

– Então?

– Então, começaram a dizer que os ciclistas eram as grandes vítimas e que precisavam ser protegidos.

– Errado?

– Não, certo.

– Então?

– Então, eles agora não andam mais nas ruas para não serem atropelados pelos motoristas enlouquecidos. Andam nas calçadas, atropelando os pedestres desavisados.

– Passaram, então, de vítimas a algozes.

– Não são apenas crianças que os pais recomendam, com razão, que não andem pelas ruas com suas bicicletas. São homens e mulheres que pedalam disputando o espaço na calçada, que por lei deveria ser só dos pedestres. Não sei se ainda se usa a expressão -mangolão – mas você encontra exemplares desse tipo vindo na sua direção, que se você não cair fora vai ser abalroado.

– No dicionário informal do Google, “mangolão” é sujeito muito chato, embora também registre que “mangolão” é um cara com o pênis avantajado.

– Pra mim, “mangolãoi” é o sujeito grande, desajeitado, que ocupa um lugar maior que seu corpo, principalmente quando anda de bicicleta na calçada.

– E o tal “mangolão”não pede desculpa quando invade o espaço do pedestre com sua bicicleta?

– Que nada. Ele acha que você é que está errado, que deveria ficar em casa em vez de andar na calçada.

– O que você pretende fazer?

– Vamos publicar nosso protesto no blog do Sul 21  e esperar que as autoridades não façam nada, mais uma vez

– E como vamos assinar?

Marino Boeira  e seu  alter ego, pedestres.

 

É possível ser comunista hoje?

Por que ser comunista nos dias de hoje? Não está mais do que provado que, quando aplicado, este sistema não deu certo? Não é verdade que o ser humano é individualista por natureza e jamais se adaptaria a um sistema que privilegia o coletivo? Os exemplos da antiga União Soviética e de Cuba, hoje, não são suficientes para demonstrar que na prática o comunismo não funciona?
Você já tentou responder mil vezes a estas questões, ora usando argumentos históricos, ora se socorrendo do que disseram grandes pensadores, mostrando aos seus inquisidores que simplificar as idéias faz mal para a inteligência, mas sempre recebeu em troca olhares de desaprovação, na maioria das vezes, ou ainda pior, de comiseração por insistir em defender uma filosofia morta e enterrada.
Mas, você insiste.
A crise atual do capitalismo é um bom argumento, mas fica longe de convencer os detratores do comunismo. Desde que a burguesia organizou de forma definitiva o sistema capitalista no final do século XVII, ele sempre enfrentou crises, mas sobreviveu, ao contrário do comunismo na União Soviética, que viveu pouco mais de 70 anos, dizem eles.
É verdade.
O capitalismo constrói e destrói tudo que cria num ritmo cada vez mais frenético, a um custo trágico para a humanidade, gerando miséria e destruição do meio ambiente.
Os mais tolerantes concordam com isso, mas perguntam: por que não teve êxito a experiência comunista na União Soviética?
Você começa a sua resposta mostrando a diferença entre o sistema imaginado por Marx e Engels, de uma sociedade sem classes e o que ocorreu na Rússia depois de 1917: o socialismo, com sua proposta de economia planejada, como primeira etapa do processo para ser chegar ao estágio do comunismo, foi interrompido sem chegar ao seu final.
Depois, você tenta explicar porque isso ocorreu: houve um desvirtuamento da idéia inicial da ditadura de uma classe social, que se transformou na ditadura de um partido e depois de um homem, Stalin; a necessidade de investir em armamentos para enfrentar a ameaça americana, impediu a melhoria na qualidade de vida de todo o povo; a falta de uma democracia interna gerou grandes focos de oposição, contidas apenas pela coerção policial; o apoio internacional para a União Soviética, granjeado pela sua liderança na luta contra o nazismo e fascismo durante a segunda guerra mundial se esvaiu pela ação permanente de desconstrução dessa imagem pelos Estados Unidos, pela mídia do mundo inteiro e pela Igreja.
É claro que seus adversários não vão concordar com isso. Então, você pode acrescentar que a curta existência do chamado “socialismo real” na União Soviética deixou pelo menos duas heranças importantes para quem vive nos países do “ocidente democrático”: a derrota do nazismo, que sem a resistência do Exército Vermelho, possivelmente teria se consolidado na Europa e o advento dos chamados “estados do bem estar social”, uma concessão dos governos capitalistas para afastar os trabalhadores dos “maus exemplos” do comunismo igualitário.
Aí, você chega ao ponto principal: o fato de não ter dado certo lá, não nos impede de pensar que se pode tentar de novo. O capitalismo levou quantos séculos para sobrepujar os antigos sistemas, escravagista e depois feudal? Quantas idas e vindas? E mesmo hoje, quando parece solidificado na América do Norte e na Europa Central, que tipo de benefícios ele traz para a maioria da população?
Esta é grande pergunta que deve ser feita: o capitalismo é capaz de levar a felicidade para a maioria das pessoas?
Nossa resposta será também de milhões de outras pessoas: não!
E o comunismo?
Talvez possa, corrigindo os erros do passado.
Rosa Luxemburgo disse uma vez que o dilema a ser enfrentado é: “socialismo ou barbárie”, complementado por István Mészáros de que “barbárie, se tivermos sorte, porque o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”.
Então, respondendo as primeiras perguntas desse texto: você é comunista porque você não quer viver na barbárie e pela mesma questão ética proposta, quando a Revolução Francesa já se encaminhava para consolidação da ordem burguesa, por Babeuf e os “Sans-Culottes”, de que “o fim da sociedade é a felicidade comum e a Revolução deve assegurar a igualdade dos usufrutos”.
Líder da Conspiração dos Iguais, Babeuf foi executado na guilhotina em 1797, mas muitos de suas idéias serviram de inspiração para Marx e Engels formularem as bases de uma sociedade comunista que Lênin e Trotsky tentaram colocá-la em prática na Rússia.