Warning

Tudo de novo. Estamos em 2018. Ainda bem que agora falta pouco. Então, vou começar a me repetir. O que se segue, eu escrevi exatamente há um ano.
Sei que já tem muita gente duvidando da minha sanidade mental ao lerem estes textos que estou postando aqui no feicibuque. Até eu mesmo, as vezes fico na dúvida. Mas, estão realmente acontecendo coisas estranhas comigo nesse início de ano e por isso preciso deixar tudo registrado aqui nesse espaço e nos emails dos meus amigos. Honestamente, pelo andar da carruagem (essa é uma imagem um tanto gasta e até o final desse texto pretendo substitui-la) estou até preocupado que possa ser abduzido. Antes que isso ocorra, estou autorizando a que pesquisem na memória ran desse computador todos os indícios de um possível interesse dos alienígenas por mim. Loucura? É bem possível. Um amigo me recomendou fazer acupuntura. Outro, banhos em águas termais de Iraí. A Ingrid garante que se sou louco, mas um louco manso, que não ofereçe perigo a ninguém. Faço toda essa introdução, por quê? Porque a história que vou contar a seguir pode ser lida como uma coisa de louco. Mas, juro que é a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Essa madrugada, estava vendo pela terceira vez aquela série Narcos, quando subitamente a tela ficou toda a preta. Achei que tinham queimados os miolos do computador. Após alguns segundos começou a piscar em letras vermelhas WARNING, enquanto de fundo soava uma sirene estridente. Ainda bem que não matei todas as aulas de inglês no Julinho e entendi logo que era algum aviso importante. Isso logo ficou comprovado quando surgiu a águia americana e aquele topete inconfundível sorrindo para mim. Dear friend. Isso eu também entendi, mas logo a voz em inglês foi substituída por uma versão em português. Ficou engraçado o Donald falando com uma voz que parecia da Merryl Streep. Como tinha um delay entre a fala e a tradução, ou porque no computador é sempre assim, estava difícil entender o que ele(ou ela) dizia. Certa altura, me pareceu que ele tenha dito – o crioulo já foi embora. Acho que era problema de tradução. O cara não seria assim tão racista. De qualquer maneira, mais adiante vou voltar aqui para apagar essa expressão. Agora, ele (ela) pelo que entendi, disse que queria dar uma imagem mais democrática ao seu governo. Já tinha resolvido a cota racial ( um negro, um índio, e um amarelo) e a de gênero ( uma mulher, um gay, e um trans) e agora queria resolver o problema político. Precisava de um anarquista e um comunista no seu governo. Como não encontrara nenhum nos Estados Unidos, ficou sabendo que havia dois em Porto Alegre, o Pintaúde eu. Agora, ele queria saber quem era o que dos dois e se possível gostaria de saber a diferença entre anarquista e comunista. O Donald estava comprovando que era realmente um grande ignorante, mas o que fazer, se tratando de um americano não se poderia esperar muito. Exatamente nesse momento quando eu ia começar a citar o Karl Marx, a ligação sumiu. Alguém já me disse que os computadores americanos são programados para desligarem automaticamente quando registram alguns nomes como Marx, Lenin, Lula, Fidel, Brizola, Maestri, Santiago, Schroder, Ferreti. Por que Ferreti, não sei, mas os outros nomes faz sentido. Foi isso que aconteceu. Agora estou na dúvida se tudo foi um sonho ou o Donald está contando comigo e o Pinta em Washington/ Se for o segundo caso, preciso saber se vou precisar passaporte ou basta a carteira de identidade para chegar lá? Será que eles aceitam real nos States? Vai dar pra ver jogos do Inter pela Copa São Paulo na TV ? Preciso saber todas essas respostas antes de tomar uma decisão. Acho que vou perguntar para o Aldo. Ah…tenho que avisar o Pintaúde que ele é o anarquista nessa história. Não abro mão de ser o comunista

Como cheguei voando aos braços de Anita

Por razões óbvias, vamos chamá-la de Anita, deixando combinado desde já que esse não é o seu nome verdadeiro. Ela é minha vizinha, no andar debaixo, num prédio muito alto aqui na Zona Sul e motivo de desejo de todos os homens que circulam por aqui e acredito também de muitas mulheres.
Anita é linda, daquele tipo de beleza que é um insulto para a maioria das outras mulheres. Deve ter uns 30 anos, morena, alta, olhos verdes e como diria o Pinta, ela não caminha, flutua.
Vive com um cara que é professor de academia de ginástica e cujo braço tem a circunferência da minha perna. Nosso consolo é espalhar que ele é gay, obviamente tomando o cuidado de que ele não nos ouça.
Nessas últimas semanas, tenho vivido dividido entre duas fantasias, cair na cama da Anita e voar sobre a cidade, sem nunca ter me dar conta que a realização de uma, poderia ser o caminho para a conquista da outra.
Voar significa voar com as próprias forças, como fez o Ícaro, para os mais cultos ou o Super Homem,para a maioria.
Depois de uma longa pesquisa no Google, encontrei uma solução caseira para poder flutuar sobre Porto Alegre.
Usando centenas de sacos de supermercado (pelo jeito vou todos os dias no Zaffari) cheios de ar, fiz uma espécie de colchão, capaz de aguentar meu peso para um passeio aéreo que estimei em 30 minutos.
Tudo pronto, aproveitei o dia sem vento do sábado e me lancei ao espaço, a partir da janela do meu apartamento, no décimo quinto andar de um prédio aqui na Zona Sul.
E não é que a coisa estava funcionando. Movimentando alternadamente os braços, consegui dar alguma direção ao meu colchão voador.
Assim, cheguei próximo ao rio na região dos Jangadeiros e fui subindo até o Beira Rio, voei mais um pouco em direção à Praça da Harmonia e comecei a retornar até porque alguns sacos começaram a estourar.
Em cima da Assunção, me lancei direto em direção à janela do meu apartamento, quando me dei conta que a veneziana, mais uma vez tinha fechado sozinha
Já no desespero, dirigi meu colchão voador para a única janela que estava aberta, dois andares abaixo.
Não foi um pouso tecnicamente perfeito porque a minha nave ficou presa nas laterais da janela e eu fui jogado diretamente para a frente, indo cair, sabem aonde?
Exatamente na cama da Anita, que emocionada pelo risco que corri para encontrá-la, me acolheu nos seus braços, onde estou agora.
O único problema é que o marido dela avisou que está chegando e pela janela não pretendo mais sair.

O que é feito de Selma?

Nem lembro mais como a conhecera.Era uma época sem celular e sem internet. Possivelmente, cruzamos pela rua e nos interessamos, um pelo outro. Éramos menos desconfiados em relação aos desconhecidos. Eu nunca tinha encontrado uma mulher assim, tão segura de si. Casada, tinha um atelier de alta costura num edifício no Centro. Era rica e poderosa. Por alguma razão, eu desconfiava que ela poderia ser um travesti e por isso fiquei adiando o momento de convidá-la para a cama. Acredito que isso aumentou o interesse dela por mim. Quando finalmente chegou a consumação, ela mostrou quão sem sentido era minha dúvida. Quanto tempo durou essa relação?. Pouco. Um mal entendido sobre hora e local de um encontro, criou um mal estar entre os dois, que nenhum quis consertar. Depois de alguns dias sem a procurar – nem ela, nem eu, sabíamos os telefones fixos de cada um – me dei conta que não saberia como justificar minha ausência tão longa. Assim a história terminou num anti-climax e não sei porque razão me lembrei hoje de perguntar a mim mesmo: o que é feito de Selma?

(Obs.: Depois de tanto tempo, fico na dúvida se o nome dela era mesmo Selma)

Meus encontros com Elusa Maria;

Encontro a Elusa Maria no super. Fomos colegas na UFRGS. Na época, ela era considerada a mais evoluída da turma. O pessoal dizia que ela tinha começado a revolução sexual na Filosofia. Depois casou com o Mário Eduardo, da Engenharia, que segundo era voz corrente, tinha sido do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e parece que custou a se adaptar aos novos hábitos burgueses e à monogamia. A Elusa Maria, que encontro no super na área dos produtos orgânicos, virou como diria o Nelson Rodrigues, uma senhora gorda e patusca. Ela se diz escandalizada.
– Com o quê Elusa Maria?
– Essa Fátima Bernardes não se dá ao respeito. Tirando fotos com um amante 20 anos mais novo na praia. O Boner é muito mais discreto. Botou uma foto com sua nova amiga, junto com os três filhos comemorando o Natal.
Viu só Pinta ? Depois aquelas nossas amigas – a Vera, a Margarete, a Emma, a Ingrid, a Yvana, a Dinah, a Thaís e a Marilésia (faltou alguma Pinta?) ficam nos acusando de preconceituosos, nós que no passado, fomos apenas machistas estruturados (preciso perguntar para o E.F. o que vem a ser essa condição) mas que hoje somos defensores da igualdade dos sexos em tudo. Bem…em quase tudo.

XXX

Bem que a Vera Spolidoro me avisou para deixar a Elusa Maria em paz. Ela ligou para se dizer dividida a respeito do que escrevi sobre ela. Obviamente não gostou de ser chamada de gorda patusca.
– Tô bem esbelta. Eu era apenas uma mulher substanciosa como uma vez me disse a Yvana. Mas,com o “regime da lua” já perdi 10 quilos, claro isso antes daquele jantar que o Mário Eduardo chamou de “pantagruélico” (a propósito, tu que é metido a intelectual, o que é esse negócio de pantagruélico?) e patusca é a senhora sua mãe.
Adorou porém, que eu tivesse lembrado sua fama de precursora da revolução sexual na Filosofia.
– Bons tempos aqueles em que ninguém era de ninguém e todo mundo era de todo mundo – é claro que sempre com alguns cuidados com aqueles caras da Odonto e os pedreiros da Engenharia. A propósito, o Mário Eduardo não é tão careta assim, só um pouco reprimido e ele nunca foi do CCC. Pelo contrário ele era até meio socialista, depois que descobriu que o partido do Hitler era o Nacional Socialista.
Foi difícil desligar o telefone. Ela disse que agora tem um butique na Zona Sul – na parte nobre, longe do rio, onde só andam uns caras tatuados e seus cachorros – e está vendendo umas roupinhas feitas pelas presas do Madre Peletier, para ajudar essas pessoas que não são como nós, que não tiveram oportunidade na vida.
– Eu sou uma mulher solidária com os pobres, claro que mantendo uma razoável distância, porque – acredite – não aprenderam ainda qual é o talher certo para cada prato.
– Tá bem, Elusa Maria, preciso desligar para escrever mais uma provocação no face.
– Aparece e traz a família. A propósito ainda estás casado com aquela sirigaita das Letras.? Se não tá mais, posso te contar o que ela aprontava na nossa época.
Desligo, antes que a Elusa Maria comece a falar sobre o passado da Margarida Heliodora, minha quarta mulher, ou a terceira, não lembro mais. A Ingrid e a Emma foram amigas da Margaeli, como era mais conhecida e vou perguntar pra elas, onde ela entra na minha lista matrimonial. Em último caso, pergunto pro Aldo, que sabe mais que o Google.

 

A lista


– O senhor está atrasando a fila
– É que não sei o que botar nesse item
– É simples. É escolher a profissão que você teve. A última que lhe pagou algum dinheiro. Funcionário Público, Fiscal de Bolinha, Meteorologista, Político, Domador de Circo, Gigolô,Filósofo, Foguista, Pastor, Jogador de Futebol, Aviador, Publicitário, tá tudo aí.
– Não to achando.
– Deixa lhe explicar, amigo. Esse é um processo ultra-moderno. Tem todas as profissões que existem no mundo. Lembra como você fazia com sua declaração do imposto de renda? Ou você sonegava? Claro que não, senão não estaria nessa fila, estaria naquela outra, lá embaixo. O processo é o mesmo. Você não escreve o nome da profissão. Você lembra o nome dela e puxa aqui na lista. Aí aparecem todos os nomes, com um número do lado e você clica apenas o número. Não entendeu ainda? Veja o que é a modernidade. Vou lhe mostrar: você é Ajudante de Coveiro, aí vai na letra A, procura Ajudante, o que tem de ajudante, até achar aqui, Ajudante de Coveiro, veja o número 24.599. Essa lista tem tudo, até esses anglicismos modernos, Coach, CEO. Vamos supor que você seja Cientista Social. Claro que você não é. Não leva jeito para isso. Parece ser um cara normal. Bom, nem eu sei o que faz um Cientista Social, mas tem, veja aqui, é o número 99.719. Você foi Gari. Eu sei que não, mas só para lhe mostrar. Vai na letra G e puxa a lista. Gari, 115.933. Viu só. Ainda no G, Gestualista, isso nem eu sei o que é. Gay. Hi, cara. Gay não é profissão. Ou já é agora? Acho que vou ter que falar com o Chefe para tirar Gay da lista, senão, vão dizer que até aqui tem preconceito. Vamos lá pro fim da lista. Letra V. Vedor. Essa eu conheço, é aquele cara encarregado pela FIFA e pela COMOBEL para fiscalizar os jogos de futebol. Olha aqui, Viado. Com I. Número 2424244224. Parece número de celular. Acho que o sujeito que organizou a lista é mesmo meio preconceituoso. Deixa eu confirmar aqui na lista das mulheres. Tem sim, duas listas. Quando você respondeu no item anterior Homem, você caiu na lista que estávamos olhando. Se você tivesse clicado em Mulher, entrava essa outra lista. O que é o progresso. Vamos ver o S nas mulheres. Sapatão. Realmente vou ter que avisar o Chefe que essa nossa lista vai nos trazer problema. Vamos dar uma olhadinha na letra E. Estudante, Ermeneuta. Eu bem que estava desconfiando que, além de preconceituoso, o cara que fez a lista é meio analfabeto. Vou passar esse nome para o lugar certo, no H, Hermeneuta.Mas, voltando a sua escolha. O senhor. tá vendo que tem uma fila imensa aí atrás, só porque ainda não escolheu a sua profissão. Vou lhe ajudar, mas não se acostume, porque aqui é cada um por si e o Chefe por todos. Explique o que você fazia quando vivia lá.
– Eu desestruturava certezas. Entre o sim e o não, eu falava talvez. Quando todo mundo ia para um lado eu mostrava outro caminho. Nem o Norte, nem o Sul. Quem sabe o Centro-Oeste? Ao mesmo tempo pregava a radicalismo para os indecisos. A dúvida para os que viviam confiantes na sua escolha.
– Tô entendendo, mas fazendo tudo isso, alguma vez, só para lhe chamar de alguma coisa, não disseram que você era um..
– CONTESTADOR?
– Olha aí o que você fez. A máquina entrou em alerta total. Não dá mais nem para ouvir qualquer coisa. Todos esses botões vermelhos acesos, esse som terrível. Sabe por que tudo isso?
– Heim? Não consigo lhe ouvir.
– Eu não vou pronunciar a palavra novamente, senão explode a máquina. O senhor faça o favor de se retirar rapidamente e vá para aquela outra fila, no andar de baixo.
– Mas lá não é..?
– É sim. Não adiantou nada ter sido honesto, votado sempre no PT, ter sido colorado, lido um monte de livros, gostado de cinema, o senhor era um – não vou dizer a palavra maldita – e por isso não pode ficar nessa fila. Saia logo, senão vou chamar o Gabriel e o Rafael,

O Leitor

O anúncio no jornal era realmente estranho: oferecia um emprego, muito bem remunerado – isso estava escrito em negrito – para quem estivesse disposto a passar quatro horas por noite falando com alguém que seria apenas um ouvinte. Como estava desempregado há três meses e não via perspectiva de arrumar um novo trabalho como publicitário, minha profissão escrita num diploma da universidade, resolvi ligar para o número que aparecia no anúncio.

– A pessoa com quem o senhor vai falar – se for o escolhido – sofreu um derrame e não pode responder, mas quer ouvir alguém que entenda de futebol, política, cinema, literatura e música popular brasileira, não necessariamente nesta ordem. O senhor entende desses assuntos?

  • Acho que como todo mundo.
  • Muito bem, o senhor está disposto a se submeter a um teste?
  • Quando?
  • Agora mesmo, por telefone.
  • Está bem.
  • Quem foi o goleiro do Uruguai na Copa do Mundo de 1950?
  • Roque Maspoli.
  • Quem dirigiu o filme Crepúsculo dos Deuses?
  • Billy Wilder.
  • A última. Quem escreveu Os Thibault?
  • Roger Martin du Gard.
  • Muito bem, o emprego é seu. Eu vou lhe dar um endereço. Lá uma pessoa

vai passar as instruções necessárias para o seu trabalho. São 10 mil reais, que serão depositados mensalmente em sua conta bancária. O senhor começa hoje à noite, daqui uma hora. Anote o endereço.

Quando terminei de anotar o endereço, o sujeito desligou do outro lado sem dar tempo para qualquer outra pergunta. Certamente era um trote. Ninguém pagaria 10 mil reais para entreter um doente com conversas sobre futebol, cinema ou literatura. Decidi ligar de novo para o número do anúncio. Fiz isso várias vezes. O número dava sempre ocupado. O cara havia dito que o trabalho começaria em uma hora e o endereço era longe, uma rua na Zona Sul, difícil de encontrar até no mapa do celular. Decidi correr o risco, afinal seria uma decepção a mais para quem só via as portas baterem na sua cara. Peguei uma lotação na Salgado e fui até o fim da linha Serraria. Duas quadras mais adiante, numa rua sem saída, encontrei o número que o sujeito do telefone havia informado. Um muro alto cercava a casa, que só se vislumbrava ao fundo, no meio de muitas árvores, através do portão de ferro. Toquei a campainha e pelo interfone alguém perguntou:

– É a pessoa que respondeu o anúncio para conversar com o Dr. Alan?

Não era um trote. O doente tinha até nome – Dr. Alan. Quando respondi afirmativamente, o portão abriu. Havia um caminho ensaibrado, que serpenteava pelo meio das árvores até chegara à casa, um sobrado antigo, lembrando àquelas mansões de E O Vento Levou.

Quando cheguei à soleira da casa, a porta se abriu antes que eu batesse e um sujeito com ares de mordomo de filme inglês (minhas referências estavam muito cinematográficas) fez um sinal para que entrasse e me conduziu para uma grande sala, com uma lareira acesa. Um homem, com um enorme bigode e um cachimbo na boca, sentado numa poltrona de couro, fez um sinal para sentar na sua frente. Prometi que não procuraria mais lembrar de nenhum outro filme, embora tivesse certeza de que já tinha visto aquela cena, possivelmente numa história de Agatha Christie.

– Vou lhe explicar apenas uma vez as regras que o senhor deve seguir nesta casa Deve chegar pontualmente às 19.55, diariamente, menos aos domingos. O Ronald (foi quando descobri o nome daquele sujeito que parecia mordomo de filme inglês) vai levá-lo ao primeiro andar, onde está o gabinete do Dr. Alan. Antes disso, ele vai lhe entregar uma ficha com o tema sobre o qual o senhor deve falar. Estas fichas serão específicas sobre os assuntos que o senhor domina. Por exemplo, um comentário crítico sobre o filme o Ano Passado em Mariembad.

– Alguma pergunta?

– Eu teria dezenas.

– Por favor, apenas uma.

– Quem é o Dr. Alan ?

– Digamos que o Dr. Alan foi uma figura de muito destaque na vida do país, que infelizmente sofreu um derrame cerebral e perdeu a memória de fatos que são muito importantes. Ele está sendo submetido a um tratamento médico experimental e o senhor faz parte desse tratamento.

– Que tratamento?

– Nós combinamos apenas uma pergunta, em todo caso, se isso lhe deixa mais tranqüilo, a idéia é que você fale de assuntos que foram do interesse do Dr. Alan para ver se conseguimos jogar um pouco de luz na escuridão em que se transformou seu cérebro.

Quando terminou de falar, o mordomo de filme inglês já estava de pé ao meu lado dando a entender que o tempo com o personagem de Agatha Christie tinha se esgotado e que era a hora de conhecer o Dr. Alan. Na escada, subindo para o primeiro andar, ele me passou uma ficha. Meu primeiro assunto: o livro Jean Cristophe, de Romain Rolland. Eu havia lido o livro há, no mínimo, 20 atrás e me lembrava pouco da história. O Jean Cristophe do título era pianista, gostava de Beethoven, Bach e Mozart e detestava Schubert, ou seria Liszt?

 

O Dr. Alan tinha um rosto praticamente sem rugas, encimado por uma bonita cabeleira branca. O rosto podia ser de um homem de 40 anos, mas o cabelo era de alguém de 60. Fiz a média na hora e dei 50 anos ao Dr. Alan. Ele vestia um robe de chambre azul marinho deixando a mostra uma camisa também em tom azul e uma gravata grená. Estava sentado numa poltrona que parecia muito confortável, com uma alavanca lateral que permitia transformá-la numa verdadeira cama. Ao seu lado, um abajur de pé alto e uma mesinha de mármore com um jarro de água e dois copos. Apesar da luz do abajur estar acesa, a sala ficava numa meia penumbra. Grossas cortinas cobriam as janelas e além da poltrona e de uma cadeira de espaldar alto colocada na sua frente, só quando os olhos se acostumavam com a pouca luz, é que se percebiam os outros objetos que faziam parte da decoração: não mais que uma estante com alguns livros de capa dura e um grande quadro na parede, retratando um sujeito com uma farda militar do tempo do Império. É claro que não percebi isso imediatamente. Só com as novas visitas é que fui me dando conta destes detalhes. Na primeira vez que o encontrei, me chamou atenção, além do rosto sem rugas e da cabeleira branca, o olhar vago, voltado para alguma coisa situada sempre a, no mínimo, um metro acima da pessoa que sentava na cadeira de espaldar alto a sua frente. Esta seria a minha cadeira de todas as noites, como me indicou o mordomo de filme inglês, antes de fechar a porta e me deixar sozinho com o Dr. Alan.

– Muito bem, Dr.Alan, vamos falar de Romain Rolland e seu livro.

Até hoje, eu não sei como consegui dizer alguma coisa que ocupasse as quatro horas em que deveria permanecer naquela sala. Certamente devo ter feito longos silêncios, talvez até mais duradouros que as falas. Afinal, eu me lembrava muito pouco do livro. Quando meu relógio de pulso finalmente marcou meia-noite, a porta da sala se abriu e surgiu o mordomo de filme inglês para me indicar que a sessão tinha terminado.

– Acompanho o senhor até a porta. Há um taxi esperando na saída do portão para conduzi-lo até o centro.

Enquanto o taxi me levava pelas ruas desertas da Zona Sul assumi o compromisso comigo mesmo de suportar pelo menos um mês naquele trabalho- se é que podia se chamar aquilo de trabalho – para pegar os 10 mil reais que me faziam tanta falta. Depois cairia fora. Era coisa de doido ficar falando para um sujeito durante quatro horas sem que ele sequer se dignasse a lhe lançar um olhar.

Durante uns 15 dias, o ritual foi sempre o mesmo: Ronald abria a porta, me entregava uma ficha com o tema do dia e me encaminhava para a sala onde o Dr. Alan esperava, sempre com o seu robe de chambre azul marinho. A gravata, pelo menos, era diferente todos os dias. O cara de bigodão e cachimbo, eu nunca mais vi. Os assuntos se alternavam, um dia era a seleção brasileira de 58, outro, um livro de Gore Vidal ou um filme de Robert Altmann. Eu me virava como podia. Falava um pouco, fazia longos silêncios, voltava a falar. Aquela história de medicina experimental, me parecia conversa fiada. Como eu ficava sozinho com o Dr. Alan, mesmo que ele tivesse alguma reação às minhas palavras, só eu ficaria sabendo. Será que eles esperavam um relato meu sobre as possíveis reações do doente? Se era, nunca me perguntaram nada naquelas duas semanas. Talvez ele estivesse plugado por um fio a algum aparelho fora da sala? Uma noite, fiquei tão preocupado com isso, que acabei procurando o tal fio embaixo da poltrona do Dr Alan. Obviamente, não encontrei nada. Quem sabe eles gravavam as minhas conversas? Nesse caso, poderiam dizer que eu não estava cumprindo o trato por causa dos longos silêncios. Será que eles depositariam o dinheiro na minha conta no fim-do-mês? A propósito, ninguém me perguntou pelo número da conta. Mas como eles tinham confiado tanto em mim, era justo que eu também confiasse neles. A propósito, quem eram eles?

 

No dia 25 de julho, e este dia eu não poderia esquecer porque era meu aniversário, aconteceu algo inesperado. Ao abrir a porta, Ronald não me entregou nenhuma ficha, nem me levou pelas escadas para o primeiro andar. Em vez disso, indicou uma sala a esquerda da entrada, onde havia uma grande mesa de vidro, com seis poltronas de couro. Sobre a mesa um projetor de imagens e no fundo um telão. Ao contrário do restante da casa, a sala era bem iluminada, com paredes claras e uma decoração moderna. Ao lado da mesa maior, um pequeno bar com garrafas de vários tipos de bebida, um balde de gelo e muitos copos. O Ronald indicou o bar com um aceno de mão e falou que eu ficasse à vontade, que teríamos uma reunião muito importante em seguida. Enquanto me servia de uma dose de Chivas, fiquei imaginando o motivo da tal reunião. O primeiro pensamento foi: eles sabem que estou de aniversário e querem fazer uma surpresa. Daqui a pouco, o Ronald entra na sala com um bolo de velinhas cantando Parabéns a Você. Logo pus de lado esta idéia. Seria uma situação demasiadamente ridícula, o Ronald com um bolo de velinhas. Talvez o cara de bigodão e cachimbo, com jeito de personagem de Agatha Christie e que imaginei ser o chefe de toda a operação, quisesse me passar uma reprimenda: você está falando muito pouco e se continuar assim vamos dispensá-lo imediatamente sem pagar nenhum tostão. O que poderia fazer numa situação como essa? Reclamar de quem? Pensar nisso, me deixou desconfortável. Levantei da poltrona e comecei a caminhar pela sala para me acalmar. Quando estava próximo da porta, ela se abriu e Ronald surgiu na minha frente, abrindo passagem para o sujeito de bigodão e cachimbo, que parecia personagem de Agatha Christie. Logo atrás dele, para meu espanto, vinha o Dr. Alan, com o seu rosto sem rugas e a bonita cabeleira branca. Só que agora ele não tinha aquele olhar vago. Pelo contrário, seus olhos brilhavam, enquanto me estendia mão, sorridente.

– O senhor sabe muito de futebol e engana um pouco em cinema, mas em literatura e música fica devendo.

Quase cai para trás, para não deixar de usar um clichê de livro policial.

– Surpreso?

– O senhor não estava doente, incapaz de falar?

Ainda sorrindo, o Dr. Alan me pegou pelo braço e levou para junto da mesa.

– Vamos sentar e conversar um pouco. O Ronald senta aqui ao lado e o Juvenal fica o mais longe possível para não nos sufocar com este cachimbo.

O bigodudo, de cachimbo, parecido com um personagem de Agatha Christie se chama então Juvenal, o que certamente o excluiria de qualquer história de detetive inglês. E o Dr.Alan, seria mesmo esse o seu nome? O sujeito ficava quatro horas com o olhar perdido no horizonte, sem dizer nenhuma palavra, nem emitir qualquer som e era tudo encenação. Que ator. Isso estava mudando toda a história. O mais importante agora era descobrir quem eram estes caras e qual o meu papel em tudo isso.

O Ronald colocou sobre a mesa um gravador de som e ficou atento a uma ordem do Dr. Alan.

– Pode rodar, Ronald.

A gravação era de um sujeito falando ao telefone. A voz era incrivelmente parecida com a minha, mas o que ele dizia eu nunca tinha falado na vida.

Ele confessava ter participado de um assalto a banco e contara como enfrentara a polícia disparando tiros de sua metralhadora.

– O que é isso? Parece minha voz, mas está falando coisas que eu nunca disse e muito menos fiz. O sujeito está imitando minha voz. Como ele consegue ser tão perfeito?

– É a sua voz, disse o Dr. Alan. O Juvenal é o araponga mais competente que existe no Brasil. Ele vai lhe explicar como sua voz está nessa gravação.

Mais uma decepção: o Juvenal é apenas um grampeador de telefones e portanto,  não tem nada a ver com as histórias da Agatha Christie.

– Este equipamento é o que existe de mais moderno no mundo. Nós gravamos a sua voz, enquanto você falava com o Dr. Alan, depois separamos silaba por silaba e montamos tudo de novo do jeito que a gente quis. O aparelho tem um modulador de decibéis super sensível, que nos permite criar novas palavras usando uma entonação que é diferente em cada pessoa. Ou seja, nos formamos frases novas usando pedaços de outras frases de uma maneira que nenhum técnico de áudio seria capaz de identificar. Nem na Unicamp, os caras conseguem identificar esta montagem.

– E tudo isso para quê ?

– Isso, o Dr. Alan vai lhe explicar

Foi então que o Dr. Alan começou a expor a idéia mais absurda que eu já ouvi na vida, com um agravante terrível: eu seria o principal ator nessa história.

– Por que eu?

– Poderia ser qualquer um, mas você foi o primeiro a responder ao anúncio.

 

 

Duas histórias

 

O DIA EM QUE O DIABO ME VISITOU
Quando eu era criança, lá em Farroupilha, e uma porta se abria sozinha, tinha sempre alguém para alertar – cuidado o Diabo pode entrar.
Ontem, a porta do meu apartamento se abriu sozinha e o Diabo apareceu. Parecia gente de casa. Entrou sem dar bom dia e foi logo olhando as paredes, os armários, os livros.
– O que está procurando?
– Crucifixo, imagem de santo, essas coisas todas que usam contra mim.
– Não sabes que sou ateu, que não guardo esses símbolos da ignorância na minha casa?
– Melhor assim, facilita minha tarefa.
– Vieste para me buscar?
– Ainda não. Mais tarde, talvez. Hoje, vim só para te dar um conselho, de alguém que é sábio não porque é Diabo, mas porque é velho.
– Não pareces velho. Cadê os chifres? Cadê o rabo? Cadê o cheiro de enxofre? Pareces até aquele cara da televisão.
– Custaste para me reconhecer. Vês pouca televisão. Hoje, assumi a aparência do Willian Boner
– Acho que ficarias melhor naquela versão mais tradicional.
– Mas, é só tu que gosta dessa versão tradicional. As pessoas me chamavam de Satanás, Satã, Coisa Ruim, Tinhoso, Cachorro Louco, Malvadão, Chifrudo, Rabudo, Capeta. Ninguém me respeita mais. Então, estou usando a aparência de pessoas famosas. Ontem, sai de Renato, mas uns caras me jogaram pedras ali perto do Beira Rio.
– Tá bom Willian – queres que te chames assim? – vamos ao que interessa, qual é o conselho que vais me dar.
– Eu já conversei com o Schroder, com o Santiago,com o Milton, com a Vera, com a Ingrid, com o Pinta, tudo gente fina que eu admiro e que leio no feicibuque.
– Tu também tá no feicibuque?
– Todo mundo tá, mas agora quem está interrompendo é tu.
– Tá bem, dá logo o conselho
– É pra tu parar de ficar citando “aquele jornal”, que isso ajuda a divulgar uns caras que nem lá na minha casa são lidos. Se tu não acredita na minha palavra, pergunta ao Aldo.
Dito isso, o Diabo foi se mandando com um aviso.
– Semana que vem, eu volto e venho disfarçado de Moro.
Por via das dúvidas, vou trocar a fechadura da porta para não deixar o Diabo entrar nessa versão.

XXX

DIOMEDES, UM HOMEM E SUAS DÚVIDAS

Encontro o Diomedes na saída do Encouraçado Potenkin, na CCMQ. Fomos colegas na Filosofia. O reencontrei há um ano e ele me disse que se tornara um observador do comportamento humano.
– Isso é profissão, Diomedes?
– Não, mas e dá subsídios para o livro que estou escrevendo.
– O que você observou agora?
Não devia ter feito a pergunta, porque era tudo que ele queria para me tornar um ouvinte da sua nova tese.
– Você viu aquelas duas moças que saíram de mãos dadas do cinema? Vi suas pastas, são universitária da PUC, acho que da Comunicação ou Psicologia. Elas estavam dando um recado público que formam um casal.
– Atenção Diomedes. Cuidado com o preconceito.
– Longe disso. Você sabe que sempre fui um contestador, que nunca aceitei qualquer comportamento padronizado Na Filosofia tu mesmo me chamava de anarquista. Então, sou totalmente a favor de liberdade sexual, da escolha livre dos parceiros, até mesmo porque essa relação exclusiva de homem e mulher é uma coisa que vem da Bíblia – Adão e Eva – o que já me põe com um pé atrás.
– Por que então esse estranhamento?
– É que elas reproduziam o comportamento clássico do casal heterossexual. Uma fazia o papel do macho, altiva, dominadora, fálica e a outra a da fêmea, meiga quase submissa.
– E daí
– Daí eu me pergunto por que essa relação moderna se expressa atavicamente por uma imagem tão antiga?
Quando o conheci na Filosofia, as pessoas costumavam dizer, quando ele surgia na aula ou numa reunião, – Lá vem o Diomedes e suas dúvidas.
Contavam como piada, que quando o professor dava Bom Dia, o Diomedes o interpelava:- Quais são seus argumentos para lançar essa previsão sobre o nosso futuro?
Imagino que no caso das moças da CCMQ, o Diomedes vai ficar ainda algum tempo com suas dúvidas.

 

Luís Fernando Veríssimo, Governador

Estou lançando Luís Fernando Veríssimo como candidato das esquerdas para o Governo do Estado em 2018.

Faço isso sem consultá-lo e possivelmente, sem a concordância dele, ou melhor, contra vontade dele.

Ele certamente vai entender que é hora de dar sua cota de sacrifício pelo Rio Grande e impedir que tenhamos mais quatro de um governo, no mínimo tão ruim quanto esse do Sartori,

Dizem que o Luís Fernando não gosta de falar em público. Melhor, ele lerá seus discursos na televisão e nos comícios.

Caso não ganhe a eleição, poderá usar o que escreveu para um novo livro de sucesso garantido.

E os debates na televisão, não serão perdidos pela sua famosa timidez?

Não precisará responder nenhuma pergunta idiota dos seus adversários.  Usará o direito de permanecer em silêncio e o público entendera.

Alguém dirá, mas ele não é um político, nem pertence a qualquer partido.

Melhor, isso hoje conta voto a favor. Certas ou erradas, não importa,  as pessoas hoje estão profundamente descrentes de partidos e de políticos.

Se o Luís Fernando não aceitar, vamos nos preparar para um novo governo do Sartori, na melhor das hipóteses, porque corremos risco de alguém da mesma família do Júnior, como aquele ex-prefeito de Pelotas, o Leite, virar governador.

Com a esquerda fora no segundo turno, teremos uma eleição entre o representante  do velho PMDB do clientelismo e dos negócios pouco claros e o representante da privataria tucana.

Resta saber para que lado irá a RBS na hora de decidir a eleição.

As esquerdas vão divididas mais uma vez e como no caso da Prefeitura de Porto Alegre, provavelmente  não chegarão ao segundo turno.

O PT, a principal força da esquerda, sozinho, não ganha a eleição. Seus eleitores são disciplinados, votam no candidato que a direção escolher, seja ele qual for, mas hoje  não elegem nem governador, nem prefeito.

A chance do PT era ter um nome maior do que o partido, alguém como o Lula.

Aqui no Sul, só o Olívio e o Tarso poderiam desempenhar esse papel, mas nenhum quer assumir o risco de concorrer e perder.

Engraçado é que os dois se dizem soldados do partido, mas escolhem a batalha da qual querem participar.

Restaria a Dilma. Mesmo não sendo historicamente do PT, chegou a Presidência duas vezes em nome do partido, e poderia tentar agora o Governo do Estado.  Embora tenha feito um segundo governo desastroso, cresceu muito no final, quando enfrentou com coragem e destemor todos aqueles senadores safados no dia do impeachment.

Tem a seu favor ainda o fato de ser mulher, algo que a mídia transformou, já há algum tempo, em capital eleitoral. Mas certamente não quer ser candidata, nem os dirigentes do PT possivelmente também querem.

Eles escolheram perder com Miguel Rossetto.

Dizem, os que o conhecem, que é uma pessoa honesta, afável e inteligente, mas como político nunca apresentou qualquer qualidade que o distinguisse daquele grupo de dirigentes partidários que só se destacam quando o seu partido está no poder.

Ex-dirigente sindical, virou vice-governador quando Olívio Dutra foi eleito governador, sem que os eleitores sequer soubessem que estavam votando nele.  Naquela histórica eleição de 1998, os gaúchos escolheram Olívio Dutra, com o seu estilo inconfundível  de fazer política, como o oposto de Antônio Britto, o candidato do mercado e da RBS e o Rossetto foi na carona

Nos governos de Lula e Dilma, Rossetto ocupou mais de um ministério, mas esteve mais tempo no Ministério do Desenvolvimento Agrário, cujo nome já identificava a preocupação tanto de Lula quanto de Dilma de compor com o latifúndio.

Não é por acaso, que a grande aliada da Presidente Dilma no processo do impeachment, tenha sido a senadora Kátia Abreu, que chegou ao Senado para representar os interesses dos ruralistas, como presidenta da sua confederação nacional.

Num país que nunca fez uma reforma agrária de verdade, Rosseto poderia ter aproveitado sua presença num ministério que teoricamente teria que comandar esse processo, para tomar algumas decisões que hoje serviriam para dar força ao seu discurso de candidato.

Se o fez, pouco se sabe disso hoje.

Os demais candidatos que a esquerda pode apresentar, do PSOL e PCdoB, dificilmente terão mais força que Rossetto e estão condenados também à derrota.

Só nos resta apelar para o “gauchismo” do Luís Fernando.

Se ele tiver alguma dúvida, se deve ou não aceitar, que consulte o Analista de Bagé.

 

A maldição dos segundos

O segundo é sempre um perigo para o primeiro. É o caso do Temer, um sujeito que nasceu para ser o segundo, mas que, na falta de alguém melhor, os golpistas o transformaram em primeiro.

Historicamente, o segundo é quase sempre a negação das qualidades do primeiro. Veja-se outro segundo na história do Brasil, Café Filho.

João Fernandes Campos Café Filho (1899/1970), um político com expressão apenas no seu Estado, o Rio Grande do Norte, em 1950 foi imposto por Adhemar de Barros, governador de São Paulo,como candidato a vice-presidente de Getúlio Vargas.

Getúlio aceitou a contra gosto porque essa era a condição para receber o apoio   de Adhemar, mas nunca confiou no seu vice.

Em 1954, viu confirmada sua suspeita, quando Café se aliou aos golpistas da Aeronáutica e do Exército que levaram Getúlio ao suicídio.

Foi presidente de agosto de 54 de novembro de 55, quando ao apoiar os que pretendiam impedir a posse de Juscelino, foi afastado do poder por um movimento liderado pelo general Teixeira Lott.

No mundo, o caso mais famoso foi o de Harry Truman, vice de Franklin Delano Roosevelt.

Fazendeiro do Missouri, Truman, político medíocre, assumiu a presidência dos Estados Unidos com a morte de Roosevelt, em abril de 45, apenas três meses depois dele iniciar seu quarto mandato

Como presidente, Truman foi responsável direto pelo início da Guerra Fria, que pôs fim as esperanças de paz no mundo, costurada pelos líderes das grandes potências (Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra) na conferência de Postdan e iniciou o período de intervenções militares dos Estados Unidos no mundo inteiro.

Seu maior crime foi ter ordenado, em agosto de 45, o bombardeio atômico das cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando quase meio milhão de pessoas, quando o Japão já estava praticamente derrotado, como forma de intimidação da União Soviética.

O governo de Truman se caracterizou internamente pelo estímulo à paranóia anticomunista e externamente, pela guerra fria com a criação da OTAN, a consolidação da divisão da Alemanha com o chamado Plano Marshall e o início, em 1953, da Guerra da Coréia.

Moral da história é preciso sempre desconfiar dos segundos.

Os generais que deram o golpe de 64 usavam os civis para em cargos menores, mas nunca quiseram dividir o poder com eles.

Em 69, quando Costa e Silva teve um AVC que o impediu de continuar governando o País, impediram que o vice Pedro Aleixo assumisse à Presidência, nomeando uma Junta Militar (os três patetas, segundo Ulysses Guimarães)  – General Lira Tavares, Almirante Augusto Rademaker e Brigadeiro Márcio Melo ( o Melo Maluco) – até que o congresso confirmasse o General Medici como novo Presidente.

Em 85, os militares, já enfraquecidos, tiveram que compor com os políticos conservadores para uma transição que esquecesse seus crimes e escolheram Tancredo Neves para essa missão.

Eleito indiretamente pelo Congresso, Tancredo morreu antes de assumir o Governo e no seu lugar apareceu outro político regional, que durante os anos da ditadura servira com fidelidade o regime militar como presidente da Arena e depois do PDS, os partidos de sustentação do sistema, José Sarney, que o Millor insistia em chamar de Ribamar, nome de batismo, que ele abandonou quando entrou na político.

Sarney viria confirmar mais uma vez a maldição que acompanha os segundos com um governo para ser esquecido.

 

 

E SE…

Não existe o SE na História.

Mesmo assim, nada é mais tentador do que imaginar como as coisas poderiam ser diferentes, SE…

Em 1917, ao instaurar o primeiro sistema socialista de governo no mundo, os russos encheram o mundo de esperanças de que finalmente uma parte da humanidade, pelo menos, viveria num lugar onde a exploração do homem pelo homem seria banida.

A necessidade de defender o novo sistema das agressões internas e externas e de um bloqueio econômico que durou décadas, impediu que a ideia de transformar o reino da necessidade no reino das liberdades se transformasse em realidade.

Mesmo assim, em determinado momento histórico, a partir da década de 60, a antiga Rússia, transformada numa confederação de repúblicas, a URSS, parecia ter consolidado sua condição de grande potência mundial e começaria a se abrir para a realidade com a qual sonharam os revolucionários de 1917.

O governo de Gorbachev seria aquele que faria essa mudança com os seus projetos da Perestroika (reestruturação)  e da Glasnost (transparência)

Aí, entram os SEs que a História não contempla.

SE, Gorbachev tivesse sido capaz de mobilizar o partido e a população para defender seus projetos, a URSS teria sobrevivido?

SE, no final da década de 80, quando Gorbachev, em vez de uma abertura política dentro do socialismo, pretendeu restaurar o capitalismo, ele fosse destituído do seu poder dentro do Comitê Central do Partido Comunista, a revolução teria sido salva?

SE, quando ficou claro, em agosto de 90, que os Estados Unidos, a OTAN e até o Papa, trabalhavam juntos para a destruição da URSS, os velhos comunistas que prenderam Gorbachev em sua dacha, tivessem tido mais determinação em suas medidas, Ieltsin teria sido vitorioso em sua pregação nacionalista?

Pensar desse jeito é apenas um jogo intelectual sem sentido, mas pode ser usado em qualquer circunstância histórica.

Pegue por exemplo, o golpe de 64 no Brasil e veja quantos SEs podem ser usados.

SE, quando aquele general Mourão, que se auto-intitulava de “vaca fardada”, começou seu movimento em Minas, contrariando a cúpula militar do golpe, Jango tivesse mandado, como queria o Ministro da Aeronáutica, bombardear a frente das colunas que desciam para o Rio, o golpe que infelicitou o Brasil por mais de 20 anos, teria se consolidado?

SE, quando Brizola quis resistir aos golpistas novamente a partir do III Exército, Jango tivesse concordado, teria acontecido a ditadura militar?

SE…