À procura de Eric

Aos 81 amos, Ken Loach é seguramente, o mais importante diretor de cinema inglês da atualidade No ano passado, ele ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, como filme Eu, Daniel Black, um emocionante relato de como a sociedade capitalista trata as pessoas mais velhas.

Dez anos antes ele já tinha sido laureado em Cannes com Ventos da Liberdade (Wind That Shakes the Barley),  certamente o mais importante relato no cinema da luta dos republicanos do IRA pela libertação da Irlanda, apresentados com seus belos ideais e suas profundas contradições.

Loach começou na televisão inglesa, a BBC, e se destacou como roteirista e diretor durante a década de 60. Mais tarde, já nos anos 80, se integrou a um grupo de diretores como Mike Leigh e Stephen Frears, ajudando a renovar o cinema inglês e dando aos seus filmes sempre um olhar crítico sobre o capitalismo.

É dessa época alguns dos seus melhores filmes, além Ventos da Liberdade, como Terra e Liberdade e Pão e Rosas.

Portanto, sua união com o ex-jogador de futebol Eric Cantona para realizar um filme produzido e interpretado pelo ex-atleta, causou algum tipo de espanto, mas o resultado final foi muito melhor do que poderia esperar.

Eric Cantona nasceu em Marseille em 1966 e começou bastante jovem no Auxerre, passando depois por vários clubes franceses – Marseille,Bordeaux, Montempellier e Nimes – onde sempre se destacou com um dos melhores atacantes do futebol europeu, mas também pelas suas brigas com dirigentes, técnicos, colegas e torcedores.

Na busca de novos ares, chegou à Inglaterra em 1992, começando a jogar pelo Leeds United, passando depois para Manchester United, onde atuou até 1997, sendo eleito como o jogador do século do famoso clube inglês.

Em 1997, num jogo contra o Cristal Palace, protagonizou um feito que acabou por abreviar sua carreira. Expulso do jogo mais uma vez, quando se retirava para o vestiário, se irritou com a vaia dos torcedores adversários, pulou a cerca que separava as arquibancadas do gramado e deu uma “voadora” e uma saraivada de socos sobre um dos espectadores, mais tarde identificado como um hooligan, membro do grupo de extrema direita National Front.

Foi suspenso do futebol por nove meses, o que impossibilitou sua convocação, até então tida como certa, para a seleção Francesa que ganharia a Copa do Mundo do ano seguinte.

Decepcionado, Cantona abandonou o futebol e iniciou uma carreira de ator, se transformando em garoto propaganda de uma empresa de artigos esportivos. Em 2009, resolveu aplicar parte do dinheiro que tinha ganho na produção de um filme, onde, obviamente o herói seria ele mesmo.

O filme À Procura de Eric (Lookink for Eric) conta a história de um carteiro inglês, torcedor apaixonado do Manchestes United, vivendo numa enorme crise financeira e emocional, que acaba encontrando a felicidade depois de ouvir os conselhos de Cantona, inicialmente apenas um grande pôster em seu quarto, mas que depois se transforma num personagem vivo que dialoga com o carteiro.

Considerado um artista totalmente engajado em temáticas sociais e mostrando sempre uma posição de esquerda, Loach faz em “À Procura de Eric” um filme que beira a pieguice e que não escapa de um happy end digno de Hollywood, talvez até por influência do produtor Cantona. Mesmo assim é um filme que vale a pena ser visto, principalmente quando o diretor consegue trazer para a tela o clima de companheirismo entre o carteiro e seus amigos e pela sempre presente ironia inglesa nos diálogos entre os personagens principais. Uma das cenas mais engraçadas do filme é quando um dos companheiros do carteiro estimula o grupo a realizar um exercício ensinado num dos muitos livros de auto-ajuda que costuma roubar das livrarias. Cada um dos integrantes do grupo deve se inspirar num personagem famoso, como Mandela, Fidel Castro, Gandhi, e, é claro, Eric Cantona.

Quando esteve no Brasil para promover o filme, Cantona teve que responder àquela inevitável pergunta – quem foi melhor, Pelé ou Maradona?  Como craque que foi, ele foi tirou de letra : “Pelé foi um atleta extraordinário, mas como pessoa capaz de assumir riscos para fazer valer suas posições, Maradona foi muito maior”

Mesmo não figurando entre os melhores filmes de Ken Loach vale a pena ver À Procura de Eric.

A família, a religião e a democracia

 

No seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels mostra que a organização familiar foi a primeira forma organizada do ser humano a estabelecer regras de procedimento nas relações entre as pessoas, pondo um limite na violência atávica que permitia aos mais fortes impor suas vontades.
Baseado nos estudos do antropólogo Lewis Henry Morgan sobre os índios norte-americanos da tribo iroquesa, Engels comprovou que o desenvolvimento da família, das antigas formas tribais até chegar ao modelo monogâmico de hoje, está ligado à forma como os grupos humanos se apropriam das riquezas naturais da terra.
Segundo ele, nesse desenvolvimento histórico, podemos definir a existência de três etapas, anteriores ao atual modelo familiar:
1) A família consanguínea, com o casamento de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo.
2) A família punaluana, com o casamento coletivo de grupos de irmãos e irmãs, carnais e colaterais no seio de um grupo
3) A família sindiásmica, com as uniões por casais durante um determinado tempo, mas já com o aparecimento de uma esposar principal e de um esposo principal.
Quando, em virtude do desenvolvimento das formas de produção, o homem já havia conseguido dominar boa parte das forças da natureza e começado a acumular riquezas, desenvolveu-se nele um forte sentimento de egoísmo, fazendo com que ele sentisse a necessidade de identificar seus filhos, que seriam os herdeiros de suas riquezas.
Segundo Engels, esse modelo de monogamia teria surgido na antiguidade clássica, há três mil anos e que, de uma maneira ou outra se preserva até hoje nas suas linhas gerais.
Nesse formato de relação, Engels vê também a origem da opressão das mulheres e o estabelecimento da prostituição, desmentindo a ideia de que elas acompanhariam todas as formas de relacionamentos entre homens e mulheres.
Com a apropriação privada pelas famílias mais fortes, ou mais competentes, das riquezas que antes eram de todo o grupo, essas famílias, trataram de criar um tipo de superestrutura capaz de estabelecer regras de convívio entre todos, impedindo que, as que se atrasaram nessa corrida pelas riquezas, retomassem os procedimentos anteriores de selvageria e desrespeito à propriedade dos outros.
Surge assim o Estado, produto direto da primeira grande divisão de classes da sociedade, destinado a impedir que o status quod conquistado pelos mais ricos pudesse ser alterado.
Essa organização é ainda no seu início bastante frágil e é preciso ser defendida contra o ataque dos excluídos e para isso são estabelecidas determinadas regras, basicamente divididas em dois grupos: as regras de convivência entre pessoas e grupos e regras de compromissos éticos e morais entre os indivíduos.
Estabelecer regras de convivência entre pessoas e grupos com interesses muitas vezes opostos, demandou um esforço muito grande de convencimento, além da criação de uma força de coerção bastante eficiente.
Na Grécia, onde ele foi formulado pela primeira vez, ele tomou o nome de democracia, significando um governo do povo, mas excluía boa parte da população.
Até hoje, a ideia de democracia, principalmente na sua vertente ocidental, pode ser enaltecida em discursos acadêmicos e políticos, mas ao excluir de suas benesses boa parte da população, está sempre sob o ataque dos inconformados.
Este inconformismo pode ser dividido em dois segmentos: o daqueles, que como no ludismo dos trabalhadores inglesas, no início da revolução industrial, queriam destruir as máquinas para preservar seus empregos e são representados hoje pelos seguimentos fascistas que pretendem destruir todo o sistema democrático atual e os que, percebendo seus estreitos limites, querem sua ampliação dos seus aspectos apenas formais para todo o campo social.
Dissemos antes que haviam dois modelos de superestrutura no qual se apoiam a existência do Estado. O primeiro seria a democracia e o segundo a religião.
As grandes religiões monoteístas sempre serviram para justificar a divisão da sociedade em classes (Marx disse com propriedade que a religião era o ópio do povo), na medida em que transferem para um futuro improvável, aquilo que deveria ser conquistado aqui e com isso ajudavam a preservar as diferenças de classe.
Hoje, esses dois elementos – democracia e religião – estão sob o ataque das mentes mais esclarecidas que pretendem aprimorar o primeiro, a democracia e transformar o segundo – a religião, num sentimento apenas pessoal, mas sem maiores significados para o relacionamento social

As cores da política.

Tem gente no Brasil que, analisando a sua realidade, imagina se posicionar politicamente como se tivesse diante de um catálogo colorido, que vai do vermelho da esquerda radical ao azul da extrema direita

A rigor ninguém se assume como de direita no Brasil. De extrema direita, nem pensar. Os extremos assustam.

As pessoas se dizem de centro ou de esquerda com as devidas nuances. Podem de ser apenas de centro, ou, o que é mais comum, o centro adjetivado, centro democrático, centro conservador, centro responsável ou então de esquerda com uma variedade que só encontra similar em produtos de consumo. Tem a esquerda tradicional, a esquerda democrática, a nova esquerda e até a velha esquerda festiva.

Mas basta um determinado evento para que as nuances desapareçam e se volte ao velho e injustamente condenado, maniqueísmo,do certo ou do errado, do branco ou do preto, da esquerda ou da direita.

Na Revolução Russa, cujo centenário já estamos comemorando, todos os tons cinzas desapareceram e ficaram apenas o vermelho da revolução bolchevista e o azul dos monarquistas, cadetes, sociais revolucionários, mencheviques e seus afins.

Veja-se o episódio histórico do impeachment da Presidente Dilma.

Peça para alguém sintetizar numa frase, que tenha apenas sujeito, verbo e complementos, o que aconteceu.

Alguns dirão;

“O Congresso roubou um direito do povo”

Representam a esquerda, no caso.

Outros:

“O Congresso representou a vontade do povo”

Representam a direita, no caso

Haverá, porém, um outro grupo, muito grande, que vai querer usar uma preposição (mas, porém) dando um tom condicional a uma frase que deveria ser afirmativa

“O Congresso se apossou de um direito do povo, MAS, a Dilma deixou o PT roubar”

“O Congresso de apossou de um direito do povo, PORÉM, isso foi necessário para evitar um mal maior”

O uso da preposição encaminha os integrantes desse grupo, irremediavelmente, em termos práticos, para a direita.

Nas eleições de 2018, se não roubarem o direito Lula concorrer (novamente existe aí uma divisão maniqueísta de ser a favor ou contra), o primeiro turno será um deleite para os que olham a política como um caleidoscópio colorido, do vermelho do Ruy Costa Pimenta passando pelas cores que representam o Eymaael, o Zé Maria, a Luciana, o Lula, o Ciro, o Alckmim, o Dória, o Pastor  Everaldo, o Levy Fidelis, até chegar ao azul (talvez o melhor fosse o roxo) do Bolsonaro.

No segundo turno, todo esse colorido vai desaparecer e as pessoas terão que decidir entre o Lula, a esquerda e o Bolsonaro, a direita, sem qualquer nuance.

Será branco ou preto, direita ou esquerda, mais uma vez.

Tomara que seja a esquerda, embora hoje isso pareça mais um sonho.

Uma confusão mal intencionada

Os recentes acontecimentos de Charlottesville, nos Estados Unidos, com grupos de extrema direita se atribuindo a denominação de nazistas e exibindo inclusive o símbolo da suástica, com suas lembranças aterradoras, fez ressurgir uma velha confusão entre as denominações de socialistas e nazistas.

Nessa confusão, se unem os ignorantes dos fatos históricos e os mal intencionados representantes de segmentos de opinião pseudamente democráticos a quem interessa rotular os movimentos comunista e socialista como semelhantes ao chamado nacional socialismo de Hitler.

O professor Celso Schoreder já havia alertado em sua página no Facebook para postagens disseminando essas falsidades.

Essa semana, a Folha abordou o tema, mostrando através dos depoimentos de vários professores especialistas no tema, que o socialismo que aparece no nome do partido nazista visava gerar uma confusão na avaliação que os trabalhadores alemães faziam dos partidos que o representavam na vida política da época.

O professor Estevão Chaves Martins, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, diz que “o Partido Nacional Socialista se apropria do termo para esvaziá-lo, dizendo que os verdadeiros defensores dos interesses sociais dos operários não são os comunistas, os socialistas nem mesmo os social-democratas, mas sim os nacionais socialistas”

Já o professor Izidoro Blikstein, especialista em lingüística da USP, diz que “o mito ariano cria a ideia de que é a língua pura e quem melhor representaria essa pureza seria, entre alguns povos, o germânico. O Partido Nazista apropria-se dessa teoria para prometer um caminho para a salvação da Alemanha quase destruída depois da primeira guerra.”

É importante lembrar que a crise mundial de 1929 jogou o mundo numa profunda depressão econômica, principalmente a Alemanha, que ainda tinha o peso do pagamento das indenizações aos aliados decorrentes da primeira guerra e abalou a tênue democracia da República de Weimar.

A incapacidade de comunistas e sociais democratas, as duas grandes forças políticas da época, em se unirem, permitiu que o minoritário partido nazista de Hitler fosse chamado a formar um governo parlamentar em 1933, dando início a um sistema que logo se tornou ditatorial, com a conivência das forças armadas e da alta burguesia alemã.

O discurso nazista, anterior à chegada ao poder, contemplava de alguma maneira, muitas reivindicações populares e pelo menos, aparentemente, tinha um discurso de crítica aos grandes empresários, numa estratégia destinada a competir com socialistas e comunistas na conquista de corações e mentes dos trabalhadores.

Logo que chegou ao poder, Hitler tratou de buscar uma aliança com os militares e o empresariado, de quem dependia para o seu projeto de recuperar economia e se preparar para as conquistas militares.

O ponto de convergência definitiva para a direita é a chamada Noite das Facas Longas (Nacht der Langen Messer), quando eliminou, de uma só vez, os representantes da corrente populista dentro do nazismo e uma tênue oposição democrática de centro.

Responsáveis pelo crescimento da popularidade de Hitler diante da população alemã até 1933, os Camisas Pardas de Ernest Rohm, as AS, (Sturmabteilung) deveriam ser eliminados como exigência do exército alemão (Reichswehr) para apoiar Hitler.

Rohm, que comandava tropas de choque, que chegaram a ter três milhões de homens, se tornara um empecilho para Hitler com suas exigências políticas de uma “segunda revolução” e sua declarada condição de homossexual, contrária a pretendida pureza da raça ariana;

Na noite de 30 de julho de 1934, numa série de cidades alemãs, líderes de facções políticas que se opunham a Hitler foram eliminados fisicamente pela Gestapo e pelas SS (Schutzstaffel)de Heinrich Himmler .Além de Rohm, que nesse momento estava preso em Munique, foram mortos Gregor Strasser, que dividia com Hitler a liderança histórica no movimento nazista e o ex-chanceler democrata Kurt Von Schleicher, além de dirigentes das SA e políticos vistos como opositores ao novo chanceler.

Depois disso, Hitler ficou com as mãos livres para se associar em seus projetos com o alto empresariado alemão, chegando essa união ao seu ponto mais alto, quando ele transformou os campos de concentração que espalhou pela Alemanha, Polônia e Ucrânia em grandes centros fornecedores de mão de obra escrava para as grandes empresas alemãs, muitas das quais continuam ainda hoje atuantes no mercado mundial.

 

 

A guerra dos italianos

Itália e Alemanha somente se organizaram como estados nacionais tardiamente em relação às outras potências europeias e por isso ficaram de fora da partilha colonialista das riquezas da África e da Ásia.

A partir do fim da Primeira Grande Guerra, se consolidou o domínio, principalmente da Inglaterra e França, sobre as colônias africanas e asiáticas. A reivindicação de uma participação nesses butins, se tornou uma política permanente dos governos italiano e alemão quando chegaram ao poder, Benito Mussolini, na Itália, em 1922 e Adolf Hitler, na Alemanha, em 1933.

Enquanto Hitler ambicionava mais diretamente a conquista de terras no leste europeu, Mussolini sonhava em restaurar o Império Romano, começando pelos países africanos próximos ao Mediterrâneo.

O Início da Segunda Guerra deu a Mussolini a oportunidade de realizar seus sonhos imperiais, mas o que se viu foi uma sucessão  de fracassos, que só terminaram com a sua execução em Milão, em abril de 1945 pelos “partigianis” italianos.

Em abril de 1940, os italianos invadiram a Grécia, mas rapidamente foram derrotados pelos gregos , o que obrigou a uma intervenção alemã.

No ano seguinte, os italianos são derrotados pelos ingleses na Líbia, mas mesmo assim, Mussolini envia 230 mil homens para auxiliar os alemães na invasão da União Soviética, de onde serão expulsos mais tarde pelos russos.

Buscando um acordo com os aliados, o Rei Victor Emanuele destituiu Mussolini do cargo de Primeiro Ministro, em junho de 1943,nomeando para o seu lugar o General Badoglio, que assinará o armistício com os aliados em setembro.

Mussolini será preso, mais tarde resgatado por um comando alemão e levado para o norte da Itália, ainda em poder dos nazistas, para presidir a efêmera República de Saló, até tentar fugir e ser preso pelos guerrilheiros italianos.

Quando abandonou a aliança com os alemães, a Itália tinha milhares de soldados subordinados ao comando militar nazista.

Como a maioria dos soldados italianos optou por não se integrar ao exército alemão, Hitler e Himmler, decidiram que eles seriam empregados como mão de obra escrava na Alemanha.

Foram exatamente 515.470 soldados forçados a trabalhar dentro do Reich, dos quais, estima-se que, cerca de 45 mil morreram por diversas causas, incluindo fome, frio, maus tratos e completa ausência de assistência médica.

Nos últimos dias da guerra, em abril e maio de 1945, eles foram incluídos entre os milhares de prisioneiros de guerra executados pelos nazistas.

Nesses dias finais do conflito, os nazistas viviam o dilema de continuar usando os presos como a única mão de obra que ainda existia na Alemanha, ou eliminá-los antes da chegada dos aliados.

Na pequena cidade de Hildeshein, a decisão das SS e da Gestapo foi pela execução de centenas de prisioneiros italianos, que haviam se apoderado de alguns alimentos de um depósito que havia sido bombardeado pelos aliados.

A execução dos italianos foi por enforcamento na praça central da cidade e após a guerra, os aliados encontram a prova desse massacre: uma cova coletiva onde foram enterrados 230 corpos de soldados italianos.

Um novo Grande Cisma

O cisma que dividiu os até então unidos integrantes do Clube dos Ateus da Zona Sul ocorreu no dia 20 de julho de 2017, durante a reunião mensal realizada na casa do Frank Olivetti.

Velhas diferenças há muito recalcadas entre os 13 integrantes remanescentes do clube explodiram depois que o Ataliba, chamado de Liba, aproveitou seu discurso para fazer comparações, consideradas indevidas por alguns e pertinentes por outros e finalmente fez a única pergunta que nunca deveria ter sido feita.

A comparação foi feita entre o que a vida reservara para o Liba e o que reservara para o Dr. Fernando.

As palavras do Liba foram gravadas pelo Romildo, o que ele sempre fazia nas reuniões para elaborar depois suas atas.

Vamos ouvir o que disse o Liba, inicialmente fazendo uma série de comparações:

– Eu moro num puxado, na casa da minha sogra na Vila dos Sargentos; ganho salário mínimo e só ando de ônibus porque tenho o passe dos idosos; quando tomo vinho, é Sangue de Boi em garrafão;   aperitivo nos fins de semana é de conhaque  Presidente;  carne, só compro com osso para o almoço de domingo; só saí um vez do Brasil e foi para ir a Treinta y Tres, no Uruguai,  com o Pedrinho,para ajudar a levar uma senhora doente;  veraneio de favor na casa do seu Aristides no Pinhal. Minha mulher se chama Maria das Dores, é gorda e chata, mas eu sou fiel porque não tenho outra alternativa.

– Enquanto isso, o Dr. Fernando mora numa mansão com quatro quartos, piscina e um monte de empregados e cachorros na Vila Assunção; tem uma frota de carros e hoje veio na reunião com um Jaguar importado; só toma vinho Catena-Zapata de safra especial e bebe Chivas 18 anos ; almoça no Bah e janta no Ya-Ya Bistrô, quase todos os dias; vive viajando de primeira classe para Europa e passa o verão em Jurerê. A mulher do Dr. Fernando, a Marcela, é bonita e magra, mas todo mundo sabe que ele come aquela secretária que já foi Miss Bumbum.

Uma pausa na gravação e o Liba faz a pergunta fatal, não uma, mas duas.

Quem é o responsável  por essa injustiça?

E quem pode um dia repará-la me levando para o céu e o Dr. Fernando para o Inferno?

A partir daí a gravação ficou imprestável com muito ruído.

Mesmo assim foi possível ouvir os gritos do Liba e do Dr. Fernando e palavras isoladas.

– Deus, Satanás, canalha, carola, corrupto.

Sabe-se hoje que o grupo se dividiu em dois, provocando o que Frank Olivetti chamou de o Grande Cisma.

O Dr. Fernando, Frank, Otávio, Aleixo, Airton, Geraldo e Ivanhoé, continuaram a formar o que se chamou desde então de O Pequeno Grupo de Ateus da Zona Sul.

O Liba, mais, o Silva, o Carlão, o Pedrinho, o Romildo e o Machado formaram outro grupo, que se reúne na casa do Machado aos domingos à tarde para puxar o rosário e passou a se chamar Graças a Deus.

Trabalho escravo

 

O sonho dos empresários da FIESP, representado por aquele pato amarelo, é lucro máximo e salário zero. Com o governo Temer, eles estão chegando quase lá, mas ainda falta um pouco para alcançar o sucesso, por exemplo, dos empresários alemães durante a guerra.

Os principais empresários alemães, responsáveis por empresas aparentemente sérias e muitas hoje ainda em atividades, se associaram a Gestapo e as SS para obter aquilo que é o sonho dourado dos empresários do mundo inteiro: empregados que trabalham em tempo integral, os sete dias da semana até se exaurir, quando então são substituídos por outros, sem nenhuma queixa.

Vamos apresentar a seguir alguns dados que o professor americano Robert Gellately  retirou de arquivos alemães, recuperados depois da guerra, que comprovam os acordos feitos em contratos oficiais entre os principais empresários alemães e o governo nazista para o uso do trabalho escravo de prisioneiros,  principalmente do Leste europeu, nos campos de concentração,construídos tanto na própria Alemanha, como nos países ocupados.

  • A fábrica de aviões Heinkel tinha em 1943 cerca de 4 mil trabalhadores do campo de concentração de Sachenhausen, em Orienienburg. O engenheiro Arhur Rudolf, que comandava o programa de criação de foguetes e depois da guerra foi trabalhar para a NASA, era um dos defensores do uso desses trabalhadores escravos.
  • As empresas fabricantes dos aviões Junkers e Messerschmidt, usaram trabalhadores oriundos do campo de Buchenwald. Como a região onde as empresas atuavam estava sendo bombardeadas pelos aliados, as fábricas foram transferidas para subterrâneos. Em Mittelbau-Dora, 8  mil homens trabalharam ali e o índice de mortes era de 20 a 25 prisioneiros por dia, embaixo da terra.
  • A IG Farben, a maior empresa da Europa na época, fechou um acordo com a SS em 1941 para usar os prisioneiros de Auschwitz numa fábrica de borracha sintética
  • Em 1944, a Siemens, a mais poderosa empresa da Europa no setor elétrico, empregava mais de 15 mil trabalhadores oriundos de vários campos de concentração.
  • A Daimler-Benz se utilizou até o final da guerra do trabalho escravo de mais de 10 mil prisioneiros.
  • A Volkswagen usou em suas fábricas cerca de 3.500 prisioneiros, principalmente judeus húngaros, recrutados em Auschwitz para trabalhar como metalúrgicos.
  • A BMW fechou um acordo com as SS para usar mais de 3 mil prisioneiros, a maioria russos, em sua fábrica de Allach.

O uso dos judeus húngaros, considerados melhores capacitados para o trabalho nas fábricas, dividiu os nazistas da SS. Enquanto alguns viam as vantagens econômicas no seu uso como trabalhadores escravos nas fábricas alemãs, outras pretendiam exterminá-los nas câmaras de gás de Auschwitz.  Dos 800 mil judeus que viviam na Hungria à época da ocupação alemã, a metade foi executada em Auschwitz.

Os grandes campos tinham campos menores que funcionavam como unidades satélites e forneciam mão de obra escrava não apenas para empresas, mas também para serviços públicos e fazendas.

Era uma cena comum durante a guerra, em pequenas cidades alemãs, esses trabalhadores, quase sempre vestindo andrajos e usando tamancos nos pés, voltarem para o campo depois de trabalharem o dia inteiro fora em empresas industriais e fazendas.

Fora essas grandes empresas, outras menores foram recrutadas pelos nazistas para produzir materiais necessários para a administração das centenas de campos de concentração criados na  Alemanha e nos países ocupados, inclusive os famosos pijamas listrados, e também se valeram do trabalho escravo.

Ainda não chegamos a esse ponto no Brasil, mas também já estivemos bem mais longe

A tortura esquecida

Quando era vereador de Porto Alegre, o hoje deputado Pedro Ruas propôs que a Prefeitura desapropriasse o casarão do número 600 da Rua Santo Antônio, a uma quadra da Avenida Independência, para transformá-lo num Museu da Memória, mas pelo jeito a ideia não prosperou.

No local, nos primeiros anos da ditadura, entre 1964 e 1966, funcionou um centro clandestino para prisão e tortura de pessoas opositoras do golpe.

Como havia o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) da polícia gaúcha, onde os presos políticos (principalmente comunistas e brizolistas) eram mantidos publicamente sob custódia, mas também torturados clandestinamente, os militares do Exército montaram uma estrutura paralela, onde podiam esconder os seus presos sem que seus familiares e amigos pudessem saber onde estavam.

Ironicamente, chamaram o local de Dopinha, criando para os presos uma graduação no mundo subterrâneo da repressão: nos dois, os presos eram torturados, mas no DOPS oficial, outras pessoas, pelo menos sabiam onde eles estavam presos.

No Dopinha, tudo era clandestino e sua estrutura só se tornou conhecida quando do caso do sargento Raimundo, que apareceu morto no Guaíba com as mãos amarradas e ficou se sabendo que ele tinha sido uma das vitimas do Dopinha.

Enquanto no Brasil se pratica a política do esquecimento, na vizinha Argentina a situação é bem diferente.

Em Córdoba, a segunda cidade do país em população (3 milhões de habitantes)  existe um museu destinado a lembrar às novas gerações o horror da sua longa ditadura militar.

No prédio do Cabildo, uma pequena porta, na Pasage Santa Catalina, que liga a Plaza San Martin à Plazoleta del Fundador, ao lado da sua imponente catedral, era a entrada para o local onde funcionou durante 10 anos o Departamento de Informações da Polícia, um eufemismo para indicar que no local se instalou um Centro Clandestino de Tortura e Extermínio.

Segundo dados do próprio Centro, entre os anos de 1971 e 1982, passaram pelo local cerca de 20 mil pessoas. Eram pessoas, na maioria jovens estudantes, acusados de praticar um delito tipificado genericamente como “la subversión” .

Na Argentina, a perseguição ideológica contra grupos políticos considerados “peligrosos”, tem sua origem na chamada “Ley de residência”, aplicada contra imigrantes anarquistas e socialistas desde o início do século XX.

Hoje, o próprio local onde funcionava este centro clandestino se transformou no chamado “Museo de la Memoria”. O local foi mantido praticamente igual à época da ditadura. Apenas partes das paredes foram demolidas, para que os visitantes possam ter uma visão mais completa desse mundo infernal.

Foi a sociedade civil organizada, através de associações de ex-presos políticos, familiares de desaparecidos e presos por razões políticas e a Universidade Nacional de Córdoba, que levou os poderes executivo, legislativo e judicial a dar vida a este museu.

Nele está contada toda a história desses anos de terrorismo do Estado contra os cidadãos. Numa das salas que mais emocionam os visitantes, estão afixados nas paredes os retratos de pessoas ainda “desaparecidas” depois de 30 anos, enquanto pelas mesas se espalham álbuns e diários que contam a história de suas vidas interrompidas abruptamente pela violência policial.

Em outra, denominada apropriadamente “sala de escrache”, é exposta a história do ”Departamento de  Informaciones de la Policía de Córdoba”, com um organograma de seu funcionamento e as fotos dos repressores que fizeram parte do grupo operativo que atuou nesse local.

Já que a prefeitura, na administração passada, foi incapaz de levar a ideia adiante e possivelmente a atual, não teria nenhum interesse no assunto, por que as entidades que defendem os direitos humanos, os partidos políticos que combateram a ditadura, as associações que representam os jornalistas, a Universidade Federal, através do seu curso de História, não seguem o exemplo de Córdoba e criem um projeto semelhante para Porto Alegre?.

Jango

As derrotas históricas das esquerdas no Brasil sempre tiveram um componente comum: a ilusão de que elas pudessem conduzir um grande movimento de reformas sociais ao qual se uniriam segmentos de um pretenso centro democrático.

O último grande revés foi a derrubada do Governo Dilma através de um golpe parlamentar, pondo fim a 12 anos de governos que tentaram e de certa forma conseguiram, melhorar as condições de vida da população mais pobre do País, mediante um acordo com os partidos de Centro (o PMDB) e mesmo de direita (o PP), que perdurou enquanto as condições econômicas se mantiveram estáveis e permitiram os ganhos dos grandes empresários.

Não foi a primeira vez na história recente do País que as esquerdas apostaram num projeto reformista que pretenderam viabilizar, senão com o apoio, pelo menos com a tolerância do grande empresariado internacional e nacional e se deram mal.

Um exemplo clássico disso foi o governo de João Goulart de 1961 a 1964. No final desse mês e início de setembro, vamos relembrar mais uma vez o movimento da Legalidade, que impediu o golpe de estado que tentava evitar a posse do vice-presidente João Goulart, depois da renúncia do presidente, Jânio Quadros.

O movimento foi o primeiro, depois da Revolução de 30, a contar com uma ampla participação popular, o que só viria a se repetir muitos anos depois com o Movimento pelas Diretas. Como este último, a vontade popular foi também fraudada na Legalidade, com o arranjo feito pelas elites políticas e econômicas do País para a instituição do parlamentarismo.

A Legalidade será sempre relembrada, principalmente no Rio Grande do Sul, pela ação do então Governador Leonel Brizola no episódio e pela ampla participação da população na resistência ao golpe, através dos sindicatos operários e dos estudantes.

Certamente será também mais uma oportunidade para alguns, tentar recuperar a imagem de João Goulart, cuja participação dúbia naquele evento permitiu o surgimento de um regime espúrio – um parlamentarismo consentido por um acordo com os militares – e pouco depois criou as condições para o golpe de estado de 1964.

Um dos que se esforçam para valorizar a atuação de Jango nesse episódio foi professor Jorge Ferreira, da Universidade Fluminense, como seu livro “João Goulart – uma Biografia”.

O professor Ferreira, que já havia escrito um livro valorizando o papel do velho PTB e do trabalhismo na construção da democracia brasileira, tratou de criar um personagem distante daquelas qualificações com as quais Jango foi brindado durante tanto tempo, tais como “fraco”, “despreparado”, “demagogo” e “covarde”.

Muitos desses adjetivos foram realmente criados pela direita para atingir Jango e ajudar a preparar o golpe de 64, mas objetivamente não há como esquecer que foram as vacilações de Jango que criaram as condições para o golpe e a longa ditadura que se seguiu.

Em 61, quando havia uma ampla mobilização nacional para derrotar os golpistas, ele preferiu ouvir os conselhos de Tancredo Neves, em Montevidéu, aceitando o acordo costurado pelas lideranças políticas conservadoras e os militares sublevados, abandonando os que haviam se mobilizado no Sul em defesa do seu mandato.

A desculpa era de evitar uma luta fratricida entre os brasileiros, a mesma que seria usada depois em 64 para não sufocar o golpe militar no seu nascedouro.

O primeiro sinal da fraqueza de Jango foi dado na noite em que finalmente retornou a Porto Alegre, no primeiro dia de setembro de 1961, vindo de Montevidéu.

A presença de João Goulart no Palácio Piratini foi anunciada de forma entusiástica pelo serviço de som voltado para a Praça da Matriz, logo depois da execução do Hino Nacional.

A qualquer momento, ele deveria falar para a multidão que se concentrava em frente ao Palácio Piratini. Quando ele surgiu na sacada do Piratini, a multidão pensou que este momento tinha chegado. Jango, porém, apenas acenou para o público e retornou para o interior do Palácio, decepcionando a todos.

Ele havia assumido em Montevidéu um compromisso com Tancredo Neves de não fazer manifestações públicas, atendendo uma exigência dos ministros militares.

Durante o seu curto período como Presidente, primeiro dentro do regime parlamentarista e depois quando se restaurou o presidencialismo, Jango se cercou de ministros conservadores e fez concessões enormes aos interesses norte-americanos, como no caso da encampação das concessionárias de energia elétrica.

Mesmo assim não mereceu a confiança das forças políticas da direita, que continuaram tramando o golpe em conluio com os mesmos militares que se sublevaram em 61, e perdeu o apoio das esquerdas que batalhavam por reformas sociais.

No início de 64, quando tentou retomar sua ligação com os sindicatos, os partidos de esquerda e os militares nacionalistas, no comício de 13 de março no Rio de Janeiro, suas bases de apoio já estavam fragilizadas.

Mesmo assim, teria sido possível resistir ao golpe se autorizasse medidas de força contra os insurgentes.

O golpe só se pôs em marcha pela ação de um general que não fazia parte do comando do esquema golpista – Mourão Filho, auto-intitulado de “A Vaca Fardada”- e surpreendeu o próprio General Castelo Branco, o líder do movimento, levando-o a avisar o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, para que fugisse porque o movimento tinha fracassado.

Apesar desses sinais, Jango que estava no Rio, em vez de mandar prender Lacerda e os generais que comandavam realmente o golpe, decidiu viajar para Brasília, depois para Porto Alegre, onde não aceitou os conselhos de Brizola de organizar a resistência no Sul e finalmente para o Uruguai, de onde não mais retornaria vivo ao Brasil.

Se Jango preferiu renunciar para evitar “derramar o sangue de brasileiros”, como dizem seus defensores, na esperança que o golpe fosse passageiro e que as eleições em 65 garantissem a retomada do processo formalmente democrático, ainda que com o domínio dos partidos do centro-direita, se enganou redondamente.

O regime militar se prolongou por 20 anos, com muito sangue de brasileiros derramado.

Relembrar esse episódio talvez possa servir para que as esquerdas não repitam os erros do passado fazendo as alianças que Jango fez na década de 60 do século passado e Lula e Dilma, há poucos anos.

 

A pior classe média

 

A classe média brasileira, que a Marilena Chauí diz odiar, não é um grupo homogêneo de pessoas que pensa politicamente da mesma maneira. Ela tem varias subdivisões, mas o que me interessa, até para provocar uma discussão, é a sua macro divisão em dois grandes grupos.

Existe a classe média tradicional, politicamente alienada, religiosa, ignorante, anticomunista; que se informa apenas vendo a Rede Globo e lendo a Revista Veja e jornais como O Globo, Estadão , Folha e Zero Hora; que é admiradora do Moro e batedora de panelas; que faz discursos moralista contra corrupção; que diz odiar todos os políticos;  que votou na Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciais e depois no Aécio; que diz não gostar do Bolsonaro, mas admite votar nele se seu único adversário for o Lula.

Mas existe outra classe média que talvez seja pior que a primeira. É uma classe média que passou pelos bancos universitários; que é contra qualquer tipo de preconceito, de classe, de raça ou de gênero; que gosta de citar Marx e Trotski, embora tenha lido pouco de cada um deles, que não sabe ainda o que pensar de Lenin, mas abomina Stalin; que vota sempre nos candidatos do PT; que está engajado em campanhas tipo “Fora Temer” ou “Volta Dilma”, mas que tem um defeito crucial porque sonha chegar ao paraíso consumista do mundo moderno como uma concessão da burguesia e não como um direito arrancado a força.

A maneira mais fácil de distinguir essa nova classe média daquela tradicional e ignorante é ouvi-la se apresentar como “socialista democrata” ou suas variantes, como “esquerda democrática”, “esquerda não comunista”ou “socialista anti- stalinista”. O uso do adjetivo que restringe o caráter de luta de classe, que devia ser inerente a opção pelo socialismo, é o cartão de visita que identifica esse segmento de público.

Para completar a apresentação desse componente das nossas esquerdas, que segundo Zizek e Bandiou, representam o maior entrave para uma revolução socialista, alguns dos seus integrantes podem se apresentar apenas como marxistas, o que além do glamour pelo título, justifica condenar qualquer tentativa de romper o quadro de dominação do capitalismo através de movimentos não ortodoxos, como por exemplo a chamada “revolução boliviariana”.

Não foi sem uma boa dose de ironia, que Aldo Fornangieri, na apresentação do seu livro “A Crise das Esquerdas”, recomendou que elas fossem menos marxistas e mais maquiavélicos

Enquanto as esquerdas criam cursos universitários de pós graduação para entender seu futuro (As Esquerdas no século XXI, curso oferecido em Chapecó pela Universidade da Fronteira Sul) e se preparam para disputar uma eleição, onde mais uma vez serão derrotadas, a direita não perde tempo em reforçar seu poder.

Essa semana, um dos mais inteligentes pensadores do neoliberalismo brasileiro  (até porque no passado  foi também um homem de esquerda)  o banqueiro Armínio Fraga ( Presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique) disse que  “se a mudança na direção da política econômica for mantida, consolida uma coisa muito boa. Pode acontecer o contrário, uma guinada populista e ir tudo para o brejo”

Enquanto as esquerdas pensam num possível retorno ao poder por via eleitoral,  Armínio Fraga deixa bem claro o que os novos donos do poder pensam sobre 2018.

“Se Lula for candidato, vai voltar ao mesmo padrão de mentiras e promessas de antes. Ele declarou outro dia que nunca o Brasil  precisou tanto do PT quanto hoje. Para quê? Para quebrar de novo? Para enriquecer todos esses que estão aí mamando há tanto tempo? “

As esquerdas são sonhadoras (o que em si não é um mal, desde que seus sonhos sejam factíveis) a direita é pragmática e dispõe de um arsenal de medidas jurídicas e parlamentares para impedir que a experiência reformista de Lula possa se repetir por via eleitoral.

Uma delas, a malfadada experiência parlamentarista, tentada em 1961, já está sendo novamente aventada para impedir qualquer volta do PT ao poder.

Caso nada dê certo para a direita, ela vai chamar a cavalaria novamente.