O espelho mágico

Todo mundo conhece aquela história infantil da Branca de Neve e da rainha má e seu espelho mágico.

Fico imaginando o que um espelho mágico como aquele nos mostraria, hoje, se parássemos na frente dele.

Certamente nossa imagem não seria das melhores.

Como é um espelho mágico, ele não mostraria apenas a nossa aparência física, mas também os nossos sentimentos.

É claro que não precisamos sair espalhando por aí os nossos defeitos, mas eles estriam lá, mostrados pelo espelho.

Somos mesquinhos, invejosos, raivosos.

Caso o seu espelho mágico, como o meu, tenha um registro desses sentimentos, veremos que no passado, muitas vezes desejamos a morte dos nossos inimigos; tivemos inconfessáveis preconceitos de todo o tipo, de raça, de cor e de gênero; invejamos profundamente o sucesso de outros e ficamos torcendo para que, finalmente, aconteça alguma coisa errada em suas vidas.

O que espelho não mostra, porém, é que diariamente tentamos domar esses sentimentos menos nobres, porque sabemos que para viver numa sociedade, precisamos estabelecer limites para eles.

Não precisamos ler Freud e seus divulgadores para saber que civilização é repressão.

Fosse fácil viver respeitando os direitos dos nossos semelhantes, quando vemos que isso significa uma perda de espaço nosso, nossa condição de seres civilizados não teria o mérito que tem.

Eu, como tantas outras pessoas que conheço e talvez mesmo a maioria das pessoas, somos combatentes diários na conquista da vida civilizada.

Mas nem todos são assim, infelizmente.

Assistimos hoje no Brasil a ascensão de uma série de personagens que se sentem liberados para externar os piores sentimentos que o ser humano pode ter – ódio, preconceito, inveja – e se orgulharem deles.

Ao contrário de nós, que os reprimimos, eles o proclamam publicamente.

Obviamente, estou falando de Bolsonaro e seus principais seguidores.

Nunca na história recente do Brasil, mesmo durante a ditadura militar, o governo foi representado por figuras tão mesquinhas, vulgares e até mesmo caricatas, a começar pelo próprio presidente e seguindo com seus ministros como Onix Lorenzoni, Ernesto Araújo, o colombiano Ricardo Velez Rodrigues e a pastora Damares Alves, isso sem esquecer os agentes do mal, Paulo Guedes e Sérgio Moro.

Dispondo de um extraordinário poder de disseminação de suas ideias, eles estão ajudando a liberar em milhões de brasileiros esses baixos sentimentos.

Talvez esse despertar de tanto ódio forme uma torrente de sentimentos incapaz de ser contida nessa nossa geração.

Nós, que nos consideramos civilizados ou que pelo menos nos esforçamos para viver como se fôssemos, tentamos erguer contra ele uma barreira feita de argumentos racionais, que poderiam ser aceitos em outra época.

Hoje, vamos ser varridos do mundo da política sob os aplausos da maioria dos brasileiros.

Talvez, precisaremos voltar às catacumbas dos antigos cristãos ou às velhas células comunistas, para defender os pequenos espaços de sanidade que ainda nos restam.

Quem sabe, espaços para discutir literatura, cinema e lembrar como era aquela época, onde homens e mulheres se sentiam fraternalmente ligados por sentimentos de amor, justiça e igualdade.

Enquanto isso, acho que vou quebrar o meu espelho mágico.

A hora da união

Toda a resistência da esquerda brasileira ao processo de consolidação de um sistema cada vez mais autoritário de direita que se instalou formalmente no Brasil em 1º de janeiro de 2019, passa necessariamente pelo PT.
Apesar de todos os seus erros, durante os 14 anos em que governou o Brasil, o mais grave de todos o de não consolidar os instrumentos de poder que a população lhe outorgou, o PT é o partido melhor estruturado no País e o único capaz de mobilizar sues quadros políticos para o enfrentamento das medidas antipopulares que se anunciam.
O PT precisa, porém, tomar uma decisão extremamente difícil, a de separar a luta pela libertação do seu fundador e líder inconteste, o presidente Lula, preso sem provas de qualquer culpa, em Curitiba, da resistência ao governo Bolsonaro, que traga consigo uma perspectiva, mesmo que distante, de reconquista do poder, junto com outras forças de esquerda.
A associação da libertação de Lula com a oposição às medidas antipopulares do novo governo vai levar as esquerdas a um beco sem saída.
Com o apoio do parlamento, a omissão do judiciário, o silêncio da mídia e a garantia das forças armadas, o governo não permitirá a liberdade de Lula enquanto imaginar que ele possa representar um perigo ao sistema.
Lula livre é uma causa justa e necessária para que possamos nos considerar uma nação que respeita uma norma elementar do direito, a de que sem provas não se pode tirar a liberdade de uma pessoa, ainda mais de alguém com a importância histórica que Lula teve para o Brasil.
Mas o enfrentamento político ao governo Bolsonaro, principalmente na área econômica representada por Paulo Guedes e da repressão aos movimentos contestatórios , que ficou sob o comando de Sérgio Moro, deve ser feito apontando para o futuro e não para o passado.
O governo se apressa para por em prática o que prometeu fazer na campanha eleitoral, como a reforma da Previdência, diminuição de direitos trabalhistas e privatização de empresas públicas.
São agendas de discussões que obviamente não têm apenas um lado de entendimento. Cada uma delas, se prejudica uma parte maior da população, beneficia outras, que mesmo minoritárias, têm poder de comunicação muito grande.
Uma simples leitura de algumas propostas do Bolsonaro mostra que mesmo aquelas que as pessoas mais bem informadas entendem como antipopulares, podem ser lidas ao contrário por outros.
Tomemos um exemplo de um discurso dele:
“É melhor para o trabalhador ter menos direitos e mais empregos.”
Esse discurso para os milhões de desempregados no Brasil soa como música. Mesmo aquele que está trabalhando, mas se sente ameaçado, pode concordar com essa máxima popular: “pouco é melhor que nada”, que está implícita no discurso.
Como enfrentá-lo?
Racionalmente, sabemos que a perda de garantias trabalhistas (Bolsonaro já falou na extinção da Justiça do Trabalho) serve apenas para aumentar os lucros dos patrões e em vez de garantir os empregos, apenas os tornam mais precários.
O problema todo é traduzir essa racionalidade para uma percepção emocional de quem vai ser atingido objetivamente por essa política, mesmo que não se dê conta inicialmente.
Será preciso discutir essa e outras agendas com a população, até mesmo se valendo de alguns meios que a equipe do então candidato Bolsonaro mostrou ser eficientes, como o uso das redes sociais, claro que não para divulgar fakes news como ela fez, mas sim com a sistemática divulgação do verdadeiro sentido das propostas do governo.
Outra agenda fundamental a ser discutida é a questão da segurança pública. A direita conseguiu consolidar na mente de uma boa parte da população a ideia de que o problema pode ser resolvido com o aumento das penas aos criminosos, seja qual for o crime praticado, a diminuição da idade para a responsabilidade penal, a construção de mais prisões e na versão simplificada de Bolsonaro e seus seguidores, a pura e simples aplicação do conceito de “bandido bom é bandido morto”.
Como mostrar de forma convincente que somente com investimentos fortes nas políticas de eliminação da miséria e nas áreas de educação e saúde das crianças, será possível ter esperanças de se criar um mundo mais seguro?
Como confrontar um discurso voltado para o futuro com o imediatismo das soluções simplistas que a direita oferece?
Obviamente é uma tarefa difícil, mas parece que não existe outro caminho para os partidos de esquerda, principalmente o PT, senão enfrentá-la.
Discutir em profundidade esses temas é o primeiro passo em busca de uma pauta comum para toda a esquerda brasileira

As histórias de assombração

Onde foram parar as histórias de assombração, tão comuns no passado?

O mundo dos vivos e dos mortos, parece que não tinha barreiras os separando e personagens do passado dialogavam comumente com os do presente, quase sempre para relatarem problemas e pedirem ajuda para suas “vidas” pós morte.

Era muito comuns, os mais velhos reunirem a família para contar essas histórias. O meu pai era um desses exímios contadores, em saraus que reunia a pequena família para momentos de grandes emoções e não pouco terror. Seu prato forte era a casa mal assombrada em que a família viveu em Lajeado no início dos anos 40 anos.

Embora fosse um bebê na época, tinha,mais tarde, delineada totalmente na minha cabeça a geografia da casa, localizada convenientemente ao lado da estrada do cemitério, seus inúmeros quartos , os passos que ecoavam durante toda a madrugada pelos corredores e as súbitas correntes de ar que arrepiavam as pessoas, isso sem contar com constantes batidas na porta.

Lembro como se fosse um filme, meu pai decidido, durante uma dessas noites cheias de passos que sacudiam o assoalho, a caçar o intruso. Com os pés e as mãos sobre o chão, de quatro, como se fosse um gato, com as luzes apagadas, percorria a casa inteira para surpreender o invasor e terminava sempre sem sucesso.

Como minha mãe dizia que a casa era tão grande e família tinha poucos móveis, que algumas peças ficavam sempre vazias e fechadas,na ânsia de encontrar uma justificativa real para aqueles passos, sopros, batidas e vozes, imaginava que alguém instalara algum equipamento de som numa das peças vazias, para assustar a família por alguma razão qualquer. Obviamente nunca levantei essa hipótese junto do meu pai.

Muitos anos depois, já casado e com filhos, me valendo da amizade com o Werner Altman, que era de Lajeado, fui visitar a cidade a procura da tal casa mal assombrada. Ela devia ficar na entrada do cemitério católico, mas para minha decepção não havia mais nenhuma casa por ali.

Se houve alguma vez, desapareceu com todos os fantasmas que acompanharam a minha infância. Quando resolvi escrever essas lembranças, procurei no Google algum registro dos programas de rádio que contavam histórias de assombração e eram muito comuns.

No youtube, inclusive, tem um deles, o mais famoso da época: Incrível ! Fantástico ! Extraordinário ! que o Almirante produzia na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com o patrocínio de Guaraína, um remédio para dor de cabeça.

Ouvindo a radiofonização de uma história – o da Noiva Morta – me dei conta que a gente se assustava com muito pouco na época.

O Barão e eu

O gaúcho de Rio Grande, Aparício Torelly (1895/ 1971) ficou famoso no Brasil inteiro como o Barão de Itararé, um dos primeiros jornalistas a cultivar um humor inteligente e crítico, que mais tarde teria seguidores como o Millor Fernandes, o maior de todos,Luís Fernando Veríssimo e o pouco lembrado Jota Be, o João Bergmann, que escreveu durante muito tempo no Correio do Povo e na Folha da Tarde.

As ironias do Barão começavam pelo título que escolheu para assinar seus textos, Itararé, uma batalha que deveria ter sido sangrenta na cidade paulista de Itararé, mas que acabou não acontecendo na Revolução de 30, porque as tropas legalistas se entregaram antes.

Alguns dos ditos do Barão são lembrados até hoje.

“A pessoa que se vende recebe sempre mais do que vale“
“Este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a. C., verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crônicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo.“
“Há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.“
“Os vivos são e serão sempre, cada vez mais, governados pelos mais vivos.“
“O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.”
“O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.“
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.
“Quando pobre come galinha, um dos dois está doente”

Em 1961, eu trabalhava como repórter na Última Hora, a profissão mais incompatível para um sujeito tímido como eu era aos 20 anos.  O que me salvava era uma certa facilidade em escrever, qualidade incomum no meio de jornalistas, quase todos analfabetos funcionais e a proteção de algumas figuras importantes na redação, os que escreviam o que os repórteres  traziam  das ruas, como o Flávio Tavares, o Ibsen Pinheiro, o Florianinho  e o Ivo Correa Pires.

Um dia, me mandaram entrevistar o Barão de Itararé, que estava hospedado no Hotel Plaza, o Plazinha da  Senhor dos Passos.

E lá fui eu, tremendo de medo, para tentar ouvir o humorista famoso, até porque o pedido viera do Rio, do Samuel Wainer, o dono da Última Hora.

Na portaria avisaram que o Barão tinha pedido para não ser importunado, mas eu poderia tentar falar com ele pelo telefone.

Foi o que fiz, apressando em me apresentar.

O Barão perguntou então o que eu queria saber dele.

Procurando colocar o sujeito, o verbo e os complementos no lugar certo, respondi

– O que o trouxe a Porto Alegre, Barão?

– Isso, posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.

Nesse momento senti que minha experiência como repórter terminava ali. No desespero,  resolvi apelar para os sentimentos de pena do Barão.

– Se o senhor não me receber, volto para o jornal agora e amanhã estou desempregado.

Funcionou.

Não só.o Barão  me concedeu uma longa entrevista, falando de tudo, como me convidou para almoçar e no final me fez uma proposta inesperada.

– Como estou vendo que você não está anotando o que falei, vou escrever uma série de perguntas e suas respostas.  Você passa amanhã aqui no hotel e pega esse material.

Foi o que fiz.  No dia seguinte, estava lá portaria, em várias folhas de um bloco pautado, as perguntas e respostas do Barão, tudo escrito numa caligrafia irrepreensível.

Feliz da vida, retornei ao jornal, esperando ser recebido com aplausos. Em vez disso, o secretário de redação me disse:

– Você pensa que isso é uma revista que sai uma vez por semana?

Meio desanimado, mas ainda confiante na qualidade do material que tinha,sentei diante da minha Olivetti e escrevi uma dúzia de laudas.

No dia seguinte, estava lá na Última Hora uma síntese do que tinha escrito: “Barão de Itararé elogia em Porto Alegre o governo de Fidel.” Isso, mais umas duas ou três linhas..Era o tal espírito de síntese que os tabloides como a Última Hora deviam observar.

As páginas do bloco, com as perguntas e respostas do Barão, conservei durante algum tempo, mas depois as perdi numa das minhas mudanças de vida.

Políticos à venda

O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.

Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.

Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.

Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.

Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.

A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.

O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores  se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.

Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.

O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.

Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.

É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.

Mas isso é assunto para outra história.

O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.

Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.

No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.

Interessante como esse processo é quase que universal.  As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.

O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.

Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.

Em 1961, Jânio  Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.

Varre, varre, varre vassourinha! /  Varre, varre a bandalheira!Que o povo já ‘tá cansado /  De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasilmoralizado

Governou por sete meses e depois renunciou.

Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.

Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente. Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando  O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.

Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.

Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.

A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.

Independente do Bolaisonaro ser um produto que vai cumprir as promessas  que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.

.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.

Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.

Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida,uma coisa.

Conta pulgas e baratas, use Detefon, dizia aquele velho anúncio.

Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.

Pior é que mais da metade dos brasileiros que votaram em outubro, acreditaram nisso.

A dor da gente

Lembra aquela música do Chico, Notícia de Jornal, onde ele canta que a dor da gente não sai no jornal. Lembrei da letra por causa de uma pequena tragédia (pequena para nós, os outros) ocorrida aqui nesse mundo onde moro na Zona Sul.

São duas torres (já me avisaram que não devo dizer blocos, que aí é coisa de pobre) com 17 andares cada uma, onde vivem os representantes da classe média baixa da nossa cidade, a maioria, provavelmente eleitora do Bolsonaro. Por baixo, devem viver aqui umas 300 pessoas. Conheço poucas delas e de uma meia-dúzia no máximo, sei os nomes.

Na véspera do Natal, quando chegava no prédio, vi um movimento desusado na entrada da minha torre. Um grupo formado por uma senhora, que parecia bastante nervosa, o síndico, três brigadianos e uma outra pessoa, que soube depois ser o chaveiro, estava entrando na minha torre.

Eles iriam arrombar um apartamento, onde vivia a filha da senhora e que tinha deixando uma mensagem telefônica suspeita para ela. Como estava saindo, só hoje fiquei sabendo da história. A filha havia telefonado para a mãe para que ela viesse buscar o seu gato de companhia. Como depois disso não atendeu mais os chamados da mãe, essa contratou um chaveiro para abrir a porta.

Não sendo moradora do prédio, foi preciso a presença do síndico e dos policiais. Todo mundo já deve ter imaginado a cena que esse grupo encontrou quando arrombou a porta.
No Natal e no fim-de-ano, as pessoas que vivem sozinhas, como eu e quase todos meus vizinhos aqui no prédio, parecem ficar mais sensíveis e tentados a gestos mais ousados.

Depois passa, até porque a dor dessa gente não é notícia para os jornais.

Aos amigos e inimigos.

Como estamos chegando ao fim do ano vou aproveitar para fazer algo totalmente original nos meios de comunicação, uma retrospectiva dos principais fatos de 2018, obviamente vistos pela minha ótica pessoal.

O primeiro e maior de todos é a profunda desesperança no futuro do nosso país que sobreveio ao resultado das eleições presidenciais.

Depois daquele estelionato eleitoral que foi a eleição de Fernando Collor, em 1990, nas primeiras eleições diretas no Brasil após a ditadura militar, jamais se poderia esperar que o candidato vencedor de agora, fosse alguém que retrocederia ainda mais, alguém que colocasse como seu exemplo de Brasil, aquele tormentoso período, que começou em 1964 e se prolongou por 20 anos, com prisões, tortura e morte de milhares de brasileiros.

Todos nós, que zombávamos dos americanos por terem eleito um bufão como Donald Trump como seu presidente, fizemos pior,  elegemos como nosso presidente um ex-capitão do Exército, um indigente mental, que  tenta disfarçar sua fraqueza intelectual, com um discurso extremamente agressivo.

O ano que termina, alem da eleição para a Presidência de uma figura tão primária e tosca como Bolsonaro, será lembrado também como o ano em que uma farsa jurídica como a Lava Jato foi capaz de interferir diretamente nas eleições, ao prender sem provas, o candidato favorito à Presidência, Lula. Tudo sobre os olhares complacentes do Judiciário, do Parlamento e com amplo apoio da grande mídia.

Nessa altura do texto sobre o que foi o ano de 2018, me dou conta que pouco sobrou fora da Lava Jato, das eleições, do Lula, do Bolsonaro e do Moro, que merecesse entrar numa minha retrospectiva pessoal.

Talvez a decepção com mais um ano sem um grande título para o Internacional, ainda que em certo momento nossos corações colorados se enchessem de esperança.

Restou o prazer de ver que o grêmio também não foi longe, caindo no último momento, no que pode ter sido a nossa maior alegria esportiva do ano.

Para não dizer que nem tudo deu errado para nós, uma brasileira, não só viu Jesus Cristo, como teve um diálogo com ele num lugar extremamente imprevisível, uma goiabeira.

Foi também um ano que nunca se falou tanto na importância das mídias sociais, no Facebook e no Whats Apps, ainda que nesse campo das comunicações, eu continue preferindo a leitura da Zero Hora, porque é através dele e de boa parte dos seus comunicadores, que cada vez mais, acredito na minha teoria de que o ser humano foi uma experiência que realmente não deu certo.

Que 2019 não seja pior do que 2018, é o que desejo para meus amigos.

Para os inimigos, desejo que continue tudo assim como está.

As guerras americanas

Nenhum país do mundo como os Estados Unidos tem tantas guerras em sua história, algumas com justificativas aceitáveis e outras, a maioria, apenas para fazer conquistas territoriais ou para impor seus interesses econômicos,
Apenas duas delas foram em seu território. A primeira, contra a Inglaterra (1775/1783), a Guerra pela Independência e a segunda a chamada Guerra Indígena, quando foram exterminados cerca de 20 milhões de índios americanos para garantir a colonização branca do Oeste.
A grande vítima dos Estados Unidos foi o México, que perdeu para os americanos o Texas e a Califórnia, seus estados mais ricos, na guerra de 1846/48, o que corresponde à metade do seu tamanho original.
Com a ameaça do uso da força, os Estados Unidos compraram a Louisiana, da França; a Flórida, da Espanha e o Alasca da Rússia .
Diretamente, como no caso do Panamá, que os americanos desmembraram da Colômbia para construir o Canal e da Nicarágua, ou usando seus prepostos, os Estados Unidos impuseram na América Latina a política do big stick de Theodore Roosevel, de 1905 (fale macio e use o porrete).
Na guerra hispano-americana de 1898, os Estados Unidos intervieram na luta pela independência de Cuba, que se transformou num quase protetorado americano até a chegada de Fidel Castro.
Em 1965, usando a bandeira da OEA como disfarce, os Estados Unidores intervieram na República Dominicana
Nas duas grandes guerras, os americanos entraram nos conflitos quando eles já se encaminhavam para o final, mas ainda assim foram responsáveis pela ação mais bárbara da segunda guerra, o bombardeio atômico das cidades de Hiroshima e Nagazaki,
Depois da Segunda Guerra, os Estados Unidos lideraram os mais importantes conflitos militares do mundo: Coreia (1950/53); Vietname (1945/73); Iraque, duas vezes, em 1990 e 2002, primeiro com Bush pai e depois com Bush filho; Guerra dos Balcãs, em 1995; intervenção militar no Afeganistão em 2001 e na Síria,em 2011.
Quando não se envolveram em conflitos externos, os americanos ainda tiveram tempo para uma grande guerra interna, a chamada Guerra da Secessão, que colocou frente a frente , durante quatro anos (1861/18650, o Norte e o Sul..
Fora esses conflitos armados, os Estados Unidos foram responsáveis por áreas de tensão que poderiam degenerar em guerras com a Rússia, China, Coreia e Irã nos últimos anos.

Esse é o país ao qual Bolsonaro pretende atrelar sua política externa, quem sabe já pensando em enviar nossos soldados para futuras guerras americanas, como a ditadura de Castelo branco fez em 1965, na invasão da República Dominicana.

O canto das sereias

Segundo Homero, depois da Guerra de Troia, Ulisses, o Rei de Itaca, inicia com seus marinheiros, à volta para o seu lar e para os braços de sua esposa, Penélope.

Ulisses sabia que o perigo maior para essa volta, era as Sereias, que com seu canto atraiam os marinheiros e seus barcos para os rochedos na Ilha de Capri.

Para não sucumbir ao canto das sereias, Ulisses, aconselhado por Circe, encheu de cera os ouvidos dos marinheiros e se fez prender no mastro do navio.

A passagem é contada no capítulo XII da Odisséia, pelos versos de Homero e nos mostra Ulisses, que ao contrário dos outros heróis gregos, não era Deus, nem Semi-Deus, como um homem atormentado por dúvidas e que precisa fazer um grande esforço para não ceder ao “canto das sereias”.

Mesmo amarrado, ele pedia aos gritos para ser solto, mas seus marinheiros estavam surdos para seus pedidos.

Nada mais atual que o mito de Homero.

Como resistir ao canto fácil das sereias, na política por exemplo.

Claro que, se você é uma pessoa de esquerda, é razoavelmente fácil por de lado a sedução das ofertas da direita.

Ou deveria ser.

Mas e os falsos cantos de uma parcela da esquerda, que também existem, como fazer?

Basicamente, você só poderá se considerar uma pessoa de esquerda, se o seu projeto de sociedade seja o socialista.

Você não pode doar suas forças e energias apenas para o aperfeiçoamento da sociedade capitalista, pelo menos, não como objetivo final dos seus sonhos.

Vamos supor que a sociedade que você imagina seja aquela idealizada por Rosa Luxemburgo; “Um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Como diz Michael Lowy sobre a grande revolucionária alemã :“Sua oposição irreconciliável ao capitalismo e ao imperialismo, sua concepção de um socialismo revolucionário e ao mesmo tempo democrático, baseado na práxis auto-emancipadora dos trabalhadores, na auto-educação pela experiência e pela ação das grandes massas populares, é de uma impressionante atualidade, sobretudo aqui, no Brasil e na América Latina”

Por que, então se contentar com menos?

Será preciso nos atarmos também ao mastro do navio que representa nossa vida, para resistirmos às propostas tão sedutoras do reformismo do PT?

Talvez, se o nosso objetivo for mesmo chegar a essa nova Itaca.

Como disse Rosa Luxemburgo é socialismo ou barbárie, frase que István Meszaros (Socialismo no século XXI)  completou, dizendo: barbárie na melhor das hipóteses, porque o que se prenuncia com a radicalização do capitalismo é a destruição da humanidade.

Eu, pessoalmente, estou querendo resistir ao mavioso canto das sereias petistas me amarrando a algum mastro simbólico.

Como resistir?

Em 1964, quando os militares deram um golpe de estado, afastando o Presidente João Goulart, os partidos que formavam o núcleo de apoio ao governo deposto – basicamente o PTB e o PCB – e os representantes das entidades civis que, ainda que criticamente, defendiam o governo, os sindicatos e as entidades estudantis principalmente, cometeram dois erros de avaliação.

Primeiro, a percepção de que se tratava de mais uma quartelada e que logo as forças políticas conservadoras que apoiaram o golpe, logo voltariam a controlar o governo. O segundo erro foi quando, percebendo que os militares pretendiam se eternizar no poder, partiram para o confronto armado, dando aos militares, muito mais fortes nesse campo, a oportunidade de dizimarem as oposições, envolvendo nessa destruição não apenas os que pegaram em armas, mas também os que faziam apenas oposição política.

Todos nós sabemos que os militares ficaram 20 anos no poder e só admitiram o retorno dos civis após negociarem uma anistia que os livrou de todos os crimes que praticaram.

Trinta anos depois, um novo golpe derrubou a vacilante democracia brasileira e instaurou um sistema híbrido, onde permaneceram algumas conquistas democráticas, ao lado de práticas autoritárias.

O golpe parlamentar, com o apoio do Judiciário e da Mídia, que derrubou uma presidenta legitimamente eleita e colocou no seu lugar um político continuamente acusado de corrupção, só podia se encaminhar para uma eleição fraudada pelo uso de uso de instrumentos ilegais de convencimento de eleitores que colocaria no poder o mais inabilitado de todos os que exerceram essa função, mesmo considerando o período ditatorial.

A partir de primeiro de janeiro, um país gigantesco, com imenso potencial econômico, com uma população de mais 200 milhões e que já foi considerado a sexta economia do mundo, será comandado – pelo menos nominalmente – por uma figura extremamente tosca, que em cada um dos seus pronunciamentos mostra uma ignorância extrema sobre os temas que aborda.

Um capitão do exército, que um general como Geisel, o penúltimo dos presidentes da era militar, considerou um militar nocivo a instituição e que só não foi expulso pela benevolência dos juízes do tribunal militar, vai nos encher de vergonha perante o mundo civilizado quando tiver que falar em nome do País.

Como resistir, então, sem cair nos erros do passado.

O que os partidos de esquerda, com o PT a frente, derrotados nas últimas eleições, podem fazer?

De todos os segmentos de oposição hoje existentes, nos partidos, nas universidades, nos sindicatos e em outras associações de classe, só o PT dispõe de estrutura para coordenar essa luta.

São quase 50 milhões de votos dados ao PT nas últimas eleições, são quadros burocraticamente organizados internamente e que dispõe de meios de comunicação com toda a população e são principalmente alguns políticos que ainda são ouvidos pelo povo.

O PT precisa rapidamente assumir essa luta. Mas para isso, precisa ouvir as criticas que lhe são feitas e não repetir os erros do passado.

Como já disse em outro texto, não tenho dúvidas que os governos Lula e Dilma foram extremamente benéficos para os trabalhadores, mas infelizmente também para os banqueiros, os empresários e à grande mídia.
Fundamentalmente, o PT perdeu a oportunidade histórica de conquistar para os trabalhadores não apenas o governo, mas também o poder, ou pelo menos, uma parcela dele.
Foi incapaz de mobilizar politicamente o povo, preferindo em vez disso os pactos espúrios e negociações nebulosas, onde se perdeu também a respeitabilidade de muitos dos seus líderes.
Mais do que isso, armou seus inimigos e em nome de um republicanismo que ninguém nunca respeitou no Brasil, entregou postos chaves no parlamento, no judiciário e na policia federal, para inimigos declarados.
Quando se armou a farsa do impeachment contra Dilma, o PT jamais convocou o povo para sair às ruas e defender seu mandato, preferindo acreditar nas negociações parlamentares.
Quando, um juiz articulado com o movimento golpista,mandou prender o presidente mais importante da história recente do Pais, o PT o não protegeu seu líder e criador, preferindo aconselhá-lo a se entregar.

O golpe contra Dilma e a eleição do Bolsonaro, mudaram o quadro político do país, com a emergência de novos segmentos com poder de interferir nas questões mais importantes para o Brasil.

São as igrejas pentecostais com grande influência sobre as populações mais pobres, dispondo para isso de uma rede comunicação que inclui uma rede de emissoras de televisão com influência crescente na política.  São organizações proto fascistas, com o MBL, com forte capacidade de mobilização dos setores jovens da cidade.

Elas vão funcionar como organismos de ponta no combate a qualquer ideia mais progressista, agindo a serviço de quem realmente continuara mandando no país, os grandes empresários e os banqueiros, e agora, também com um novo componente, o exército,  que depois de 30 anos com seus generais voltados apenas para seus problemas internos, reassume um papel importante na vida nacional.

Esse não é apenas o fenômeno brasileiro.

O mundo inteiro marcha para um confronto inevitável entre os defensores da barbárie, com seus representantes exemplares – Trump e agora Bolsonaro – e os que defendem uma nova forma de organização social.