Como era boa a minha francesa.

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Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e disse

-Allons.

Não era um convite, nem uma pergunta. Não tinha um ponto de interrogação no final. Se tivesse alguma coisa, seria um ponto de exclamação.

Eu ainda brinquei, fingindo de desentendido.

– Para onde?

– Chez moi. Tu habiteras avec moi.

Ela estava séria e determinada.

Eu morava em Porto Alegre e ela em Paris.

Em que língua, será que nos comunicávamos?

Meu francês era precário, mal aprendido nas aulas do professor Lovato, no Julinho.

Eu sabia recitar La Mort de Loup, de Alfred de Vigny (ou seria o Alfred de Musset?) e algumas estrofes da Marsellaise, “Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé”

Mas não devo ter recitado a poesia, nem o hino.

Naquela época eu estava mais interessado em futebol e naquela menina que morava em frente a minha casa na Rua Cruz Alta, a Lourdes Helena e que fingia que eu não existia.

Mas, a francesa era determinada e não tirava os olhos de mim. Ela falava pouco, mas não parava com as mãos.

Do português, ela aprendeu apenas “te amo”, que ela repetia com um sorriso nos lábios e pior (ou melhor), ela falava isso com aquele maravilhoso sotaque francês que me excitava ainda mais.

Afinal, eu tinha apenas 18 anos.

Pelos meus cálculos, ela teria 30.

Mais do que uma mulher maravilhosa, ela tinha aquela sensualidade que só as mulheres francesas dos filmes “rigorosamente proibidos até 18 anos” tinham

E melhor ainda, acho que estava apaixonada por mim.

Não lembro o que ela viera fazer no Brasil. Talvez algum filme passado em paisagens exóticas, como os diretores europeus gostavam de incluir em suas obras na época

E, como chegou a Porto Alegre?

Nunca fiquei sabendo. Talvez estivesse de passagem para Buenos Aires e seu avião fez uma escala aqui.

Eu era aprendiz de jornalista, na época.

Deve ter sido isso: mandaram fazer uma matéria sobre a famosa artista francesa e ela se apaixonara de cara por mim.

Será que ela me via como um “latin lover”?

Outro dia, revi minhas fotos com 20 anos. Não tinha nada do amante latino clássico. Era magrela, dentuço e com cabelos crespos.

Ainda preciso descobrir quais seriam meus encantos e se alguns deles ainda persistem.

E o que será feito da minha francesa?

Será que a minha Carla Orlandina Sanfelici,que mora em Paris, a conhece?

Ah.se eu fui com ela para Paris?

Claro que não, senão não estaria contando essa história.

Por que não fui?

Acho que tinha um jogo do Inter no fim-de-semana e eu não quis perder.

Ou, quem sabe, de repente ela mudou de ideia?

As francesas são sempre muito volúveis.


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1 comentário em “Como era boa a minha francesa.”

  1. Que reste-t-il de nos amours
    Que reste-t-il de ces beaux jours
    Une photo, vieille photo
    De ma jeunesse
    Que reste-t-il des billets doux
    Des mois d’avril, des rendez-vous
    Un souvenir qui me poursuit
    Sans cesse

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