E agora, José?

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Vi o aviso no jornal.

Setenta e oito anos, tempo suficiente para fazer muitas coisas.

A notícia diz que ele teve quatro filhos. Cumpriu com méritos sua função primordial de preservar a espécie. Talvez até em excesso. Na China não seria bem visto.

Lendo o que saiu no jornal, me dou conta de quantas coisas o José fez na vida. Não imaginava que ele seria capaz de tanto.

Tantas promessas de saudade eterna. Tantos elogios.

O Franklin sempre lembra a frase do Borges, que um dos discursos sempre mentiroso é aquele proferido na beira do túmulo.

Por que será que ninguém fala mal dos mortos?

Bem, agora acabou.

Será que vão meter o José dentro de um caixão de madeira e depois enfiá-lo naquele nicho de cimento para que não empeste o ar que os vivos respiram, quando seu corpo começar a apodrecer?

Ou será que vão cremar o José e espalhar suas cinzas no Guaíba?

Nesse último caso, aquela previsão bíblica de que no Juízo Final todas as almas se juntarão aos seus corpos originais, não será prejudicada?

Talvez o José fosse ateu e não tivesse essa preocupação.

Era apenas mais alguém passando pela vida.

Será que o Drummond pensava em você, José, quando escreveu:

“Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Certamente que não, porque você é o José que morreu e daqui alguns dias ninguém falará mais de você.

Não adiantou nada os sacrifícios que você fez ou disse que fez, para educar os filhos, para ser honesto, para não desejar a mulher do próximo (esse capítulo você sempre pulou, não é José?), para ser alguém na vida.

Melhor ter sido mais egoísta que você conseguiu ser, de ter aceitado aquela oferta obscura, de ter traído, de ter feito aquilo que a sua natureza animal indicava ser o melhor caminho.

Mas você se dizia civilizado, quando tinha na verdade, apenas medo do seu pai e mais tarde da polícia.

Que pena, José, agora não dá mais tempo para nada.

Você virou apenas uma notícia no jornal, como naquele outro poema do Drummond, a Morte no Avião:

“Caio verticalmente e me transformo em notícia”.

Nem isso, José, você morreu deitado numa cama de hospital, provavelmente de um câncer, totalmente indigno, na próstata.

Ora bolas, José, você foi apenas mais um grande chato.

 

 


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