A magia da realidade

O intelectual é por princípio um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase – “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (Deus não é grande), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

Em seu livro mais conhecido no Brasil (Deus – um delírio) Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais,

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

Dawkins propõe então chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.

O que se pode fazer pelo Brasil?

A pergunta que mais se ouve entre as pessoas razoavelmente escolarizadas é de como o Brasil chegou a situação atual, a ponto de ter como presidente um idiota e não idiota manso (dizem que o presidente americano Harry Truman era um idiota manso, o que não o impediu de mandar soltar duas bombas atômicas no Japão)  mas um idiota raivoso, tosco e que, a cada dia, a cada pronunciamento seu, se aproxima mais do modelo do fascista clássico.

E tudo isso acontece dentro das regras da democracia clássica e depois de 14 anos de governos teoricamente de esquerda, como foram os governos de Lula e Dilma, quando muitas das reivindicações históricas da população foram em parte atendidas.

Para se tentar entender o que ocorreu será preciso recorrer a duas citações clássicas de Karl Marx

– A história da sociedade humana é a história das lutas de classe

– As massas têm a ideologia da classe dominante.

Para se entender a existência do Bolsonaro será preciso recuar um pouco no tempo, dar alguns passos para trás e chegar a 1964.

Nesse ano, no fatídico dia 31 de março (segundo alguns, a data cerca seria o primeiro de abril), os militares de alta patente se rebelaram e iniciaram um golpe de estado, que eles chamaram de revolução ( diziam que era a Redentora) e que teria dois objetivos: acabar com a corrupção e a subversão

O que eles entendiam por essas duas palavras mágicas eram: a ação, ainda que extremamente tímida, do governo Goulart em favor da reforma agrária e do controle da remessa de lucros para o exterior e o apoio que era dado a essas medidas por sindicatos e entidades estudantis.

Os líderes sindicais, pejorativamente chamados de “pelegos”, porque suas entidades de classe eram mantidas por verbas oficiais e não apenas pela contribuição dos trabalhadores – era corrupção – e os estudantes, vistos como profissionais da subversão e não como alunos de escolas e faculdades,.

O golpe de 64 teve padrinhos importantes: o velho e sempre presente imperialismo americano; a religião, na ocasião representada pela Igreja Católica, o latifúndio e a mídia, já bastante atuante e liderada pelos Diários e Emissoras Associados.

E como se repetiria mais de uma vez depois, com o apoio silencioso da classe média e também dos segmentos despolitizados da classe trabalhadora.

Quando chegaram ao poder, os militares trataram de cumprir seu papel: a reforma previdenciária de hoje foi o fim da estabilidade trabalhista na época (até então o trabalhador com mais de 10 anos num emprego não podia ser despedido sem justa classe); o arquivamento dos projetos de reforma agrária e o atrelamento do país aos interesses econômicos americanos.

Aí está, na prática, as verdades de Marx: a luta de classes por atrás de palavras de ordem vazias e a alienação das classes trabalhadoras.

Quando o regime militar caducou e deixou de servir aos interesses para os quais foi criado, reconstruiu-se uma democracia de fachada, que começou com uma eleição indireta ao qual o povo não teve acesso e continuou com a primeira eleição direta, onde novamente as classes dominantes escolheram o presidente, um arrivista da pior espécie, Fernando Collor, um pré-Bolsonaro, que o povo alienado aclamou.

Quando os dois governos de FHC, que se seguiram à experiência frustrada com Collor e depois Itamar, se esgotaram, porque o milagre do Plano Real (definido por Leonel Brizola como uma tentativa de curar um câncer com analgésico) perdeu sua força, surgiu o que muita gente viu como uma revolução pacífica para levar a esquerda ao poder.

O que as pessoas quiseram esquecer é que Lula, o símbolo dessa revolução desarmada, só chegou ao poder, depois de duas derrotas consecutivas para FHC e quando se associou aos representantes do empresariado, representados na eleição de 2002 por José Alencar.

Seu governo e depois o de Dilma, foram tentativas de conciliar o inconciliável, os interesses de classes antagônicas.

Durante algum tempo isso pareceu possível. Uma série de medidas de caráter social trouxe melhorias às classes trabalhadoras como nunca tinha acontecido antes, mas bastou uma crise econômica, típica do capitalismo, atingir o Brasil, para que a classe dominante  retomasse o poder e começasse a impor sua vontade.

Os nostálgicos dos governos do PT querem reescrever o passado, colocando para discussão uma série de verbos no condicional:

– e se os governos do PT tivessem feito a reforma dos meios de comunicação para impedir a lavagem cerebral que a mídia faz diariamente na população?

– e se os governos tivessem colocados nos postos chaves da administração pessoas confiáveis?

– e se os governos do PT tivessem feito realmente a reforma agrária?

– e se os governos do PT tivessem enfrentado a ganância dos bancos e do empresariado?

– e se os governos do PT tivessem feito uma reforma política que acabasse com o domínio dos parlamentos pelas elites e seus representantes?

Para fazer tudo isso, os governos do PT teriam, primeiro que derrotar a classe dominante e segundo esclarecer a classe trabalhadora dos seus direitos.

Aí teria que ser um partido revolucionário, o que o PT nunca pretendeu ser.

Lula teria que ser Lênin, o que não foi e nunca quis ser

E se fosse tudo isso, mesmo assim, talvez não desse certo, como não deu certo no final para a Rússia de Lênin, que chegou ao poder, não por um processo eleitoral, mas por uma revolução.

Como nem Lula, nem Dilma fizeram, nada disso, enquanto o modelo russo durou 80 anos, mais ou menos, o do PT durou apenas 14.

Faltou entender que a história é a história das lutas de classes e que o capitalismo venceu novamente e que por isso mesmo, as massas têm e continuarão tendo durante muito tempo, a ideologia das classes dominantes.

Conclusão: nada indica que o governo Bolsonaro ou seus possíveis sucedâneos, se a classe dominante não precisar mais dele, sejam eventos passageiros.

A História que se repete

Quem se interessa pela História, pela Política e pela Cultura já ouviu centenas  de vezes essa pergunta  – como foi possível que a Alemanha e Itália, pátrias de alguns dos maiores filósofos, romancistas, poetas, escultores e músicos que a humanidade já viu, puderam ter sido também os berços dos mais odiosos sistemas políticos já vistos, o nazismo, de Hitler, na Alemanha e o fascismo de Mussolini, na Itália?

Talvez, não estejamos percebendo que um regime semelhante a aqueles esteja nascendo no Brasil com a presença de uma figura ainda mais tosca do que foram Hitler e Mussolini, Jair Bolsonaro, que como aqueles dois, também chegou ao poder pela via eleitoral.

Algumas pessoas já se deram conta desse processo e estão nos alertando do perigo

Talvez o mais confiável jornalista brasileiro a ter ainda espaço na grande mídia, Janio de Freitas, traçou essa semana na sua coluna da Folha, um roteiro extremamente pessimista para o futuro do Brasil.

Analisando o atual governo, ele aponta indícios de que caminhamos para o nazi-fascismo, como ocorreu no passado com a Alemanha e Itália.

Depois de dizer que “O governo Bolsonaro não tem a direcioná-lo uma doutrina, nem de arremedo, que lhe dê fisionomia como razão de ser e de propósito, Jânio lembra algumas “coincidências históricas”: “O governo providencia, por exemplo, a criação de 108 escolas militarizadas, para início de ambicioso programa. O plano não é original, nem o era nas primeiras referências ainda na campanha eleitoral. Foi uma criação decisiva para a infiltração, ao longo dos anos 1930, do nazismo e do culto ao ditador na vida da Alemanha. O voluntariado de multidões jovens para a guerra simultânea do nazismo a dez países europeus, em 1939-40, foi obra do ensino militarizado”.

Em seguida, Janio se refere à visão de Bolsonaro e seus apoiadores sobre o cinema nacional, começando pelo entendimento deles que o filme Bruna Surfistinha seria o melhor exemplo do que é feito aqui: “Esse combate à cultura artística é usual nos governos autoritários, e se volta em especial contra percepções sexuais quando o poder é militarizado ou de submissão religiosa.

O combate ao que foi chamado de “arte degenerada”, na Alemanha hitlerista, também não começou pela censura explícita. Usou por bom tempo o arrocho financeiro e outras dificuldades, até dominar toda a arte. É o que começa aqui.”
Mais adiante, Janio de Freitas se refere a discriminação na destinação de verbas públicas “os do Nordeste não vão ter nada”: “A condição punitiva e personalista, para o direito a verbas públicas, contraria a Constituição. E foi o primeiro recurso administrativo contra o oposicionismo regional na Alemanha e na Itália fascista, assim como é comum nos poderes que buscam o  autoritarismo”.

Os sinais das práticas nazi-fascistas são realçadas pelo jornalista; “Os ataques de retaliação à imprensa, a deportação sumária e sem tempo para defesa, a desmontagem da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos são, todos, repetição do primeiro estágio de ascensão ao poder ditatorial por nazistas e fascistas.

A investida contra os índios, para a tomada exploratória de suas terras, tem semelhança com o extermínio dos ciganos dados como inúteis e viciosos pelos nazistas. Ensaio de extermínio, já anunciada por Bolsonaro as mortes de gente “como baratas”, por balas de impunidade assegurada.’

Finalmente, Jânio de Freitas chama a atenção, mais uma vez, sobre o que deveria ser uma prova para todos nós de que temos como presidente eleito uma pessoa abominável e extremamente perigosa:

“A repetição por Bolsonaro, sob a dignidade da Presidência da República, da qualificação de “herói nacional” para um torturador e responsável por pelo menos 45 mortos e desaparecidos sob sua guarda, é um desacato à Constituição. No mínimo. O coronel Carlos Brilhante Ustra foi condenado pelo que o texto constitucional define como “crimes imprescritíveis”. A transgressão de Bolsonaro, dirigida também à Presidência, é, por si só, suficiente para tornar imoral a sua continuidade no cargo.

No mínimo.”

A conspiração do silêncio.

Séculos atrás trabalhei no Jornal do Comércio dirigido na época pela família Jarros, onde escrevia uma coluna sem assinatura, com uma síntese do noticiário internacional.

Como nunca ninguém comentava nada, nem para elogiar, nem para criticar, fui dando cores cada vez mais críticas à coluna, dentro daquela linha da esquerda festiva, comum na época. Basicamente falava mal dos norte-americanos.

Um dia o Mário Jarros, que dirigia o jornal, me chamou na sua sala e disse que seus amigos da Associação Comercial tinham comentado que a coluna estava um pouco em desacordo com a linha conservadora do jornal e me pediu moderação. Saí feliz: finalmente algo que eu fazia tinha repercussão.

Mais tarde, nos idos de 60, quando trabalhava na TV Piratini, redigindo o Repórter Esso, classifiquei a Polícia de Choque de “famigerada”, depois que ela desancou o pau nos estudantes que protestavam contra a ditadura na Rua da Praia.

Fui advertido pelo diretor da televisão, Renato Cardoso, já falecido, para o risco de usar aquele qualificativo em tempos tão bicudos. Com o Aurélio em punho expliquei, mas não o convenci, que “famigerada” não era um termo pejorativo e que só servia para classificar, pessoas ou coisas, como famosas, para o mal ou para o bem.

O programa se chamava Repórter Esso, era patrocinado pela Esso Brasileira de Petróleo (o Brasileira do nome era de mentirinha), e a emissora pertencia aos Diários e Emissoras Associados, unha e carne com os militares que deram o golpe de 64. Mesmo assim, junto com o Luís Vicente Soares, o outro redator, nós contrabandeávamos algumas mensagens levemente subversivas no noticiário, principalmente quando se tratava da guerra do Vietnam, onde os americanos já estavam sendo surrados.

Ou eram mensagens tão leves que ninguém percebia, ou ninguém estava interessado no assunto. Nunca houve uma reclamação ou algum elogio dos telespectadores.

Depois disso, já trabalhando como professor na área de comunicação de uma universidade católica, falava sobre o desenvolvimento da mídia impressa no Brasil e relatava o fato de que na década de 50, a revista O Cruzeiro tinha alcançado uma tiragem de 500 mil exemplares, quando o país não tinha mais de 50 milhões de habitantes, na cobertura da morte do cantor Francisco Alves, o Rei da Voz, em 1952.

Em 1954, na morte de Getúlio Vargas, seriam 750 mil exemplares, mas isso nem cheguei a mencionar.

Salvo por alguns alunos que discutiam seus problemas pessoais no fundo da sala, a minha revelação foi recebida com um silêncio constrangedor. Como insistisse na importância do fato e na minha surpresa pelo desconhecimento e desinteresse deles, um dos alunos, com a arrogância típica dos ignorantes, tomou a palavra:

– Como é que o senhor quer que saibamos uma coisa que aconteceu há 50 anos?

Boa pergunta. O passado para aqueles alunos não existia.

Resolvi testar a memória deles. Como eles não lembravam um cantor da década de 50, cuja vida estava documentada em discos, revistas e jornais, certamente também não lembrariam de um personagem, cuja existência histórica é duvidosa, e que viveu há mais de 2 mil anos em terras muito distantes do Brasil.

– E Jesus Cristo, você lembram?

Todos lembravam.

Fiquei pensando que era preciso ensinar mais História do Brasil e menos religião nas escolas de segundo grau.

Muitos anos depois, na revista Press Advertising, onde escrevia artigos mensais sobre a Publicidade, comecei a implicar com os chamados “Jovens Criativos” – aqueles sujeitos que, mesmo nunca tendo lido mais do que manuais de criação, se acham os gênios da arte moderna e acreditavam que o mundo começou com eles.

O objetivo era provocar uma discussão sobre o preconceito da idade, tão comum nos departamentos de criação das agências de propaganda, onde a idéia dominante é de que aos 40 anos o sujeito é velho e aos 50, está morto e ainda não se deu conta.

Nenhuma contestação. Silêncio total.

Conto essas histórias, que possivelmente não vão interessar a ninguém, para comprovar a minha tese. Que tese? Simples: a de que no Rio Grande do Sul, em vez de criticar ou elogiar, as pessoas optam pelo silêncio. É um pacto não escrito, mas que impera no jornalismo, na publicidade e mesmo nas artes do Rio Grande: eu não falo mal de ti e tu não falas mal de mim. E assim ficamos todos felizes. Se alguém descumpre a regra, a gente faz que não vê, que não existe.