Vítimas e algozes

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Falar sozinho não é só coisa de louco. Você pode aprender muita coisa dialogando, honestamente e sem preconceitos, com seu alter ego.

Outro dia, por exemplo, falando comigo mesmo, perguntei:

– O que pode ser considerado hoje como a coisa mais politicamente incorreta?

Eu mesmo respondi:

– Obviamente a homofobia.

– Mais do que isso.

– Mais do que homofobia, é muito difícil que haja alguma coisa.

– Mais!

– Quem sabe achar ridículo aquele sujeito que sobe numa árvore para protestar contra o corte que vai permitir construir uma avenida, mas não move uma palha quando o especulador imobiliário derruba uma centena de casebres para construir um espigão?

– Mais do que isso.

– Mais?

– Mais!

– Não sei.

– Falar mal dos ciclistas.

– Mas, por que alguém falaria mal dos ciclistas?

– Viu só!  Você (eu) ficou espantado com essa possibilidade. Os ciclistas são hoje os queridinhos da mídia e como você (eu) sabe, a mídia faz a cabeça de todo o mundo.

– Continuo não entendo qual o problema com os ciclistas.

-Em vez de fazer as tais ciclovias, que vão a lugar algum, a prefeitura poderia usar o dinheiro para melhorar a vida desse pessoal que vive na periferia da cidade.

– Então, é uma questão de classe social?

– É isso também. Quem anda de bicicleta é a classe média. Pobre anda de ônibus, que por sinal continua caro.

– Mas, esse pessoal que protestou contra o aumento dos ônibus não é classe média?

– É meio confuso mesmo.  Pobre que anda de ônibus, não protesta contra o aumento das tarifas e a classe média que anda de bicicleta, protesta.

– Está bem, você (eu) é contra os ciclistas por causa das ciclovias?

– Não. Sou até a favor.

– Explica que não estou entendendo.

– Os ciclistas eram vítimas desses motoristas enlouquecidos que não respeitam nada, que se acham donos das ruas, que vão atropelando todo o mundo, inclusive quem anda de bicicleta.

– Então?

– Então, começaram a dizer que os ciclistas eram as grandes vítimas e que precisavam ser protegidos.

– Errado?

– Não, certo.

– Então?

– Então, eles agora não andam mais nas ruas para não serem atropelados pelos motoristas enlouquecidos. Andam nas calçadas, atropelando os pedestres desavisados.

– Passaram, então, de vítimas a algozes.

– Não são apenas crianças que os pais recomendam, com razão, que não andem pelas ruas com suas bicicletas. São homens e mulheres que pedalam disputando o espaço na calçada, que por lei deveria ser só dos pedestres. Não sei se ainda se usa a expressão -mangolão – mas você encontra exemplares desse tipo vindo na sua direção, que se você não cair fora vai ser abalroado.

– No dicionário informal do Google, “mangolão” é sujeito muito chato, embora também registre que “mangolão” é um cara com o pênis avantajado.

– Pra mim, “mangolãoi” é o sujeito grande, desajeitado, que ocupa um lugar maior que seu corpo, principalmente quando anda de bicicleta na calçada.

– E o tal “mangolão”não pede desculpa quando invade o espaço do pedestre com sua bicicleta?

– Que nada. Ele acha que você é que está errado, que deveria ficar em casa em vez de andar na calçada.

– O que você pretende fazer?

– Vamos publicar nosso protesto no blog do Sul 21  e esperar que as autoridades não façam nada, mais uma vez

– E como vamos assinar?

Marino Boeira  e seu  alter ego, pedestres.

 


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