Os fantasmas da infância.

.Onde foram parar as histórias de assombração, tão comuns no passado?

O mundo dos vivos e dos mortos parece que não tinham barreiras os separando e personagens do passado dialogavam comumente com os do presente, quase sempre para relatarem problemas e pedirem ajuda para  suas “vidas” pós morte.Era muito comuns, os mais velhos reunirem a família para contar essas histórias.

O meu pai era um desses exímios contadores, em saraus que reunia a pequena família para momentos de grandes emoções e não pouco terror.  Seu prato forte era a casa mal assombrada em que a família viveu em Lajeado no início dos anos 40 anos.

Embora fosse um bebê na época, tinha mapeada totalmente na minha cabeça a geografia da casa, localizada convenientemente ao lado da estrada do cemitério, seus inúmeros quartos , os passos que ecoavam durante toda a madrugada pelos corredores e as súbitas correntes de ar que arrepiavam as pessoas, isso sem contar com constantes batidas na porta.

Lembro como se fosse um filme, meu pai decidido, durante uma dessas noites cheias de passos que sacudiam o assoalho, a caçar o intruso.  Com os pés e as mãos sobre o chão, de quatro, como se fosse um gato, com as luzes apagadas, percorria a casa inteira para surpreender o invasor e terminava sempre sem sucesso.

Como minha mãe dizia que a casa era tão grande e família tinha poucos móveis,  que algumas peças ficavam sempre vazias e fechadas,na ânsia de encontrar uma justificativa real para aqueles passos, sopros, batidas e vozes, imaginava que alguém instalara algum equipamento de som numa das peças vazias, para assustar a família por alguma razão qualquer. Obviamente nunca levantei essa hipótese junto do meu pai.

Muitos anos depois, já casado e com filhos, me valendo da amizade com o Werner Altman, que era de Lajeado, fui visitar a cidade a procura da tal casa mal assombrada.  Ela devia ficar na entrada do cemitério católico, mas para minha decepção não havia mais nenhuma casa por ali. Se houve alguma vez, desapareceu com todos os fantasmas que acompanharam a minha infância.

Quando resolvi escrever essas lembranças, procurei no Google algum registro dos programas de rádio que contavam histórias de assombração e eram muito comuns.  No youtube,  inclusive, tem um deles, o mais famoso da época: Incrível ! Fantástico ! Extraordinário ! que o Almirante produzia na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com o patrocínio de Guaraína, um remédio para dor de cabeça.

Ouvindo a radiofonização de uma história – o da Noiva Morta – me dei conta que a gente se assustava com muito pouco na época.

Os pecados da esquerda

Foram os sucessivos governos ditos socialistas da Europa, a partir do fim da segunda guerra mundial, que abriram caminho para a consolidação das ideias nacionalistas e xenófobas que hoje formam a nova imagem do capitalismo.

Alain Badiou, o filósofo francês que defende a ideia de um retorno a Marx para a construção da sua “Hipótese Comunista”, diz sarcasticamente que os maiores inimigos da revolução popular na Europa sempre foram os que se intitulam de “socialistas democráticos”.

Especificamente sobre a França, diz Badiou, analisando os sucessivos governos “socialistas” de François Mitterand, Lionel Jaspin, e François Hollande: “que vergonha para os sucessivos governos, que rivalizaram nos temas conjugados da segurança e do “problema dos imigrantes”, para que não fosse muito visível que serviam acima de tudo os interesses da oligarquia econômica! Que vergonha para os intelectuais do neorracialismo e do nacionalismo escondido, que pacientemente cobriram o vazio deixado no povo pelo eclipse provisório da hipótese comunista com um manto de inépcias sobre o perigo islâmico e a ruína dos nossos “valores” São estes que hoje devem prestar contas sobre a ascensão de um fascismo desenfreado, de que eles encorajaram implacavelmente o desenvolvimento mental”.

Na crítica ao capitalismo e ao comunismo soviético, Badiou afirma que a sua ideia comunista “é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras”

Utópica, ou não, foi contra essa ideia que importantes dirigentes socialistas e trabalhistas na Europa, na Alemanha, de Will Brandt, na Inglaterra de Tony Blair, na Espanha, de Felipe Gonzales, na França, de Mitterand e em Portugal, de Mario Soares, agiram, ajudando a consolidar o capitalismo em oposição à construção de um sistema socialista.

Mario Soares, presidente e primeiro ministro em sucessivos governos de Portugal a partir de 1975 e falecido em 2017, é agora lembrado, não por este papel tão pouco nobre, mas por sua atuação, ainda que pálida, na luta pelo fim da ditadura portuguesa de Salazar e Marcelo Caetano em 1974.

Ao contrário de outras lideranças na luta contra o fascismo em Portugal, como Álvaro Cunhal, que esteve preso, muitos anos em solitárias e que foi duramente torturado, Soares viveu boa parte da ditadura no exílio da França e fez muito pouco para a queda da ditadura, mas logo que ela caiu por força da Revolução dos Cravos, se apressou a organizar o seu Partido Socialista para assumir posições de liderança no novo governo.

Comparando com alguma figura de político brasileiro que se opôs a nossa ditadura, que foi exilado, mas não preso e que na volta da democracia se beneficiou diretamente da nova situação, poderíamos dizer que Mario Soares lembra Fernando Henrique Cardoso.

Quando da morte de Mario Soares,, em seu espaço em Zero Hora, Flávio Tavares teceu um panegírico ao político português, de quem não foi apenas um admirador, mas um grande amigo.

Para nós, seus amigos, Flávio merece respeito e consideração pela sua longa trajetória de luta pessoal contra a ditadura, luta que lhe custou sofrimentos que a muitos de nós foram poupados. Até mesmo por isso, e levando em consideração seu espírito sempre aberto ao debate, é que nos propormos a divergir de suas considerações sobre Mario Soares.

Em 25 de abril de 1974, um movimento militar anti-fascista e anti-colonialista, envolvido por uma ainda pouco clara ideia socialista, derrubou a ditadura portuguesa que começara com Salazar e continuara com Marcelo Caetano e instaurou governos provisórios que persistiram até novembro de 1975, quando um golpe de estado, arquitetado por Mário Soares, entre outros, encaminhou Portugal para um governo de centro-esquerda, dentro de um modelo tolerável pelos Estados Unidos,

Vasco Gonçalves, o verdadeiro líder dos capitães do exército português que deflagraram o movimento disse, em longa entrevista, pouco antes de morrer em 2005 que “quando nos restantes países europeus se abriam as flores murchas do eurocomunismo e da social democracia, correntes que renunciavam a toda a rebelião radical, não por uma momentânea debilidade de forças, mas por princípios políticos, Portugal pôs na ordem do dia a questão do poder. Isto teve lugar em plena crise capitalista – 1973/1974 – quando o dólar e o petróleo sofreram um abalo mundial, liquidando o keynesianismo do pós guerra, abrindo caminho ao neoliberalismo. A de Portugal foi uma revolução que questionava num mesmo movimento o vínculo imanente entre capitalismo, fascismo e colonialismo. Três formas de dominação que costumam ser apresentadas como se fossem fenômenos desligados entre si”.

Como toda a revolução, chega um momento em que as forças, unidas para derrotar um alvo específico – no caso a ditadura fascista portuguesa – entram em confronto entre si e será vencedora aquela mais capaz de mobilizar o apoio da população. Vasco Gonçalves admite que os radicais de esquerda cometeram muitos erros e que depois de um ano, o apoio popular decrescia, mas enfatiza que foi a ação externa do governo americano, através do seu embaixador em Lisboa, Frank Carlucci e da ação da CIA quem realmente levou ao golpe de 75.

No texto que publicou em Zero Hora, Flávio Tavares diz que Mario Soares se deu conta que a continuidade do governo da Junta de Salvação Nacional, fortemente influenciado pelo Partido Comunista e liderado pelos militares da MFA (Movimento das Forças Armadas), que fizeram a revolução, levaria a uma intervenção militar dos Estados Unidos em Portugal, ordenada por Henry Kissinger, o todo poderoso Secretário de Estado norte-americano

A assertiva contradiz as estratégias usadas pelos americanos para desestabilizar os governos que não serviam os interesses dos Estados Unidos, muito mais centradas em cooptar lideranças conservadoras dos países e provocar cisões em suas forças militares, do que um confronto armado.

A razão é óbvia: as intervenções armadas provocavam quase sempre a união interna no país atacado para enfrentar o inimigo externo. O exemplo da guerra do Vietnam, que terminara em abril de 75 com a derrota fragorosa dos Estados Unidos, devia estar bem vivo na cabeça de Kissinger, que preferiu usar seu embaixador Frank Carlucci, para cooptar as lideranças do Partidos Socialista, especialmente Mario Soares e alguns segmentos militares que fizeram a revolução, para a criação de um governo mais palatável aos interesses dos americanos.

Flávio Tavares diz no seu texto que Mario Soares salvou Portugal dos dois “K” mais importantes da época: Kissinger e o Kremlin.

Quanto a Kissinger, parece que, usando, não as armas de guerra, mas as diplomáticas, conseguiu seu intento, mantendo Portugal dentro da área de influência econômica americana.

Quanto ao outro “K” o Kremlin, o equívoco é ainda maior. O governo de Leonid Brejnev, preocupado com movimentos de contestação que começavam a surgir no Leste Europeu, em momento algum, teve algum interesse em qualquer tipo de confronto com os Estados Unidos. A política soviética no início dos anos 70 era claramente de coexistência pacífica e de respeito às áreas de influência delimitadas pelos acordos do final da segunda guerra.

Na entrevista com Vasco Gonçalves, já referida aqui, ele lembra que a 15 de setembro de 1975, apenas dois meses antes do golpe, Mario Soares denunciou publicamente os revolucionários, dizendo que Portugal corria o risco de converter-se numa espécie de Cuba na Europa, dando alento à conspiração de direita que tomaria o poder em novembro.

A identificação de propósitos entre o dirigente socialista português e o embaixador americano, que seria depois vice-diretor da CIA é confirmada pelos elogios mútuos entre os dois e uma declaração de Soares, dizendo que Carlucci foi fundamental para a instauração da democracia em Portugal.

Chico Buarque fez duas versões para a sua música de apoio à Revolução dos Cravos, a primeira em 75, saudando o movimento e a segunda em 78, registrando de forma poética o significado dos dois momentos, o da revolução e o da contra revolução.

Versão de 1975

“Sei que estás em festa, pá /  Fico contente/ E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim / Eu queria estar na festa, pá / Com a tua gente

E colher pessoalmente / Uma flor do teu jardim / Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar / Lá faz primavera, pá / Cá estou doente / Manda urgentemente / Algum cheirinho de alecrim”

Na versão de 1978, Chico trocou as duas primeiras estrofes

“Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E ainda guardo, renitente

Um velho cravo para mim / Já murcharam tua festa, pá / Mas certamente

Esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim”

Já que começamos com um pensador marxista não convencional, como o francês Alain Badiou, fica bem terminar com outro dessa mesma linha de pensamento, o esloveno Slavoj Zizek, cuja análise serve para os governos socialistas como pretendeu ser o de Mario Soares.

“Estou lentamente descobrindo uma lei quase geral. Se o objetivo é uma política neoliberal contra sindicatos e a legislação trabalhista, apenas um governo dito de esquerda pode impô-la’.

 

 

 

A banalização do mal

A Zona de Interesse (Zone of Interest) é um livro do americano Martin Amis, que a Companhia das Letras, lançou no Brasil.O nome era uma ironia macabra dos nazistas. Zona de Interesse, em Auschwitz, era o local onde os judeus que chegavam ao campo, passavam por uma triagem na estação ferroviária, processo que determinava se seriam mandados para trabalhos forçados durante algum tempo ou iriam diretamente para as câmaras de gás.

Para evitar alguma confusão, os alemães montavam um verdadeiro circo, até mesmo com banda de música e promessas de banho quente e alimentação farta para os que chegavam diariamente nos trens vindos dos diversos países ocupados pelos nazistas.

A ideia era fazer crer aos judeus que eles iriam trabalhar para os alemães durante algum tempo e depois voltar aos seus lares. A ilusão só terminava quando eram fechadas as grandes portas que deveriam levar os presos para os chuveiros, mas que eram realmente câmaras de gás.

O livro retoma na forma de ficção, o tema da banalidade do mal, que Hannah Arendt havia tornado universal com a cobertura que fez do julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1961, para a revista The New Yorker, posteriormente transformado em livro com o título de Eichmann em Jerusalém, disponível no Brasil na tradução para o português.

Antes de Amis, Jonathan Littel, dentro da mesma linha, misturou ficção e realidade para contar a história de Maximilien Aue, oficial da SS nazista que participa do extermínio de judeus na segunda guerra, no seu livro As Benevolentes)

Seguindo o procedimento burocrático, que Hannah Arendt identificou no comportamento de Eichmann, Littel mostra até que ponto a alienação da ideologia nazista transformou burocratas em verdadeiros monstros, imunes a qualquer sentimento de culpa e por isso mesmo capazes de manter uma vida “normal” fora de suas funções “profissionais”.

Jorge Semprun, em a Longa Viagem. ao descrever sua internação em Buchenwald, de certa maneira já havia antecipado essa visão de um campo de concentração nazista.

Nenhum deles conseguiu, porém, o mesmo impacto da obra de Amis que, a parte este caráter sociológico, tem uma qualidade literária admirável.

Um livro que prende a atenção do leitor da primeira à última de suas quase 400 páginas.

A história é contada, de forma intercalada, por três personagens: Angelus Thonsen, oficial do exército, sobrinho de Martin Bormann, o secretário pessoal de Hitler, um cético quanto os objetivos nazistas; Paul Doll, comandante do campo, um bufão, sempre bêbado e desprezado pela mulher, Klara, objeto de desejo de Angelus e Szmul, integrante de um “sonderkommando”, grupo formado por judeus, que em troca de algumas vantagens materiais, fazia o trabalho sujo para os alemães.

São estes “sonders” que encaminhavam os presos para as câmaras de gás e depois carregavam os cadáveres para o crematório ou para as valas comuns, não sem antes se responsabilizarem pela retirada do ouro dos dentes e os cabelos das mulheres mortas.

Na narração dos fatos, feita pelos três personagens, há uma superposição entre os acontecimentos trágicos que se desenrolam no campo – a execução diária de centenas de homens, mulheres e crianças, as monstruosas experiências médicas com os presos e a fome permanente dos judeus preservados para o trabalho escravo – com um simulacro de vida normal dos alemães que vivem no campo.

O comandante vive com a mulher e as filhas numa casa dentro do perímetro do campo; os oficiais alemães se reúnem periodicamente para jantares e para assistir peças teatrais e apresentações de balé, como se a vida continuasse igual aos tempos anteriores à guerra.

Chama a atenção a maneira como os oficiais nazistas tratam suas ações no campo de concentração, discutindo questões que representam a vida ou a morte de milhares de pessoas como negócios comuns do dia a dia.

É como se o campo de Auschwitz fosse apenas uma grande empresa capitalista cujos sócios se dividissem entre bons e maus administradores. Em muitas discussões ficam em polos opostos os que defendem um aumento na ração de alimentos para que os presos que realizam os trabalhos escravos tenham uma vida útil maior (seriam hoje os defensores de um capitalismo com preocupações sociais) e de outro lado, os fanáticos que enxergam na destruição física dos judeus um objetivo de vida (seriam hoje os defensores do capitalismo selvagem).

Como tudo aconteceu, é uma discussão que não tem fim. Como foi possível que a Alemanha, terra de grandes filósofos, poetas e cientistas, tenha se transformada no algoz de populações inteiras durante mais de dez terríveis anos?

Tudo teria obra apenas de um maluco, Hitler?

Ou a responsabilidade deve ser dividida com o seu círculo de poder, como decidiu o tribunal de Nuremberg que incriminou: Goering, Hess, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbrunner, Rosenberg, Frank, Frick, Streicher, Funk, Sauckel, Jodl, Seyss-Inquart, Speer, Neurath, Bormann, Schirach, Raeder, Doenitz, Schacht, Papen e Fritzsche?

Foram 19 condenações, 12 à forca, 3 à prisão perpétua e 4 à pena de prisão de 10 a 20 anos.

Isso significa a absolvição de todos os demais, que tornaram possível a existência de um sistema nazista de governo?

E os alemães que acreditavam que o nacional socialismo era a salvação do País e, em grande maioria, apoiaram os nazistas, pelo menos enquanto eles estavam ganhando a guerra?

Hoje se discute muito a responsabilidade das populações civis da Alemanha e de Israel em relação às atrocidades praticas nos países ocupados e mesmo dentro da Alemanha, pelos nazistas durante a guerra e hoje, na Faixa de Gaza e no sul do Líbano, pelos israelenses.

O que se diz mais comumente é que não se pode condenar toda uma população pelos crimes cometidos a mando dos seus dirigentes, embora tanto no caso da Alemanha, no passado e Israel, hoje, eles tenham chegado ao poder por processos eleitorais formalmente democráticos

Embora os maiores campos de extermínio – Auschwitz, Treblinka, Belzec e Majdanek – estivessem na Polônia, de 1933 (ano da ascensão dos nazistas) até 1945 (fim da guerra) existiram 16 campos de concentração dentro da Alemanha e alguns bem próximos de grandes cidades, como Sachsenhausen,  de Berlim; Bergen-Belsen, de Hannover; Dachau, de Munique e Buchenwald, de Weimar.

Esses campos, onde milhões de judeus, ciganos, doentes mentais e opositores políticos, principalmente comunistas, foram mortos, dispunham de um número enorme de funcionários, não apenas militares, mas também médicos, enfermeiros, dentistas e técnicos de vários níveis que, forçosamente, mantiveram relações comerciais e sociais com as populações em torno.

Isso sem falar nas grandes indústrias químicas, de remédios e também de armamentos que se estabeleceram nas proximidades para usar a mão de obra escrava proporcionada pelos campos de concentração, transformados em empresas financiadas pelos grandes empresários alemães.

No caso da Alemanha nazista, tema dos livros citados, é difícil admitir que a maioria da população não soubesse da existência dos campos de concentração. O mais certo é pensar que a maioria das pessoas não queria saber de suas existências.

Talvez a melhor explicação esteja num poema que tem duas versões A primeira, do pastor Martin Niemoller (1892/1986), ampliada depois por Bertold Brecht (10/02/1898 – 14/08/1956):

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar

(Pastor Niemoller)

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo”

(Brecht)

Vítimas e algozes

Falar sozinho não é só coisa de louco. Você pode aprender muita coisa dialogando, honestamente e sem preconceitos, com seu alter ego.

Outro dia, por exemplo, falando comigo mesmo, perguntei:

– O que pode ser considerado hoje como a coisa mais politicamente incorreta?

Eu mesmo respondi:

– Obviamente a homofobia.

– Mais do que isso.

– Mais do que homofobia, é muito difícil que haja alguma coisa.

– Mais!

– Quem sabe achar ridículo aquele sujeito que sobe numa árvore para protestar contra o corte que vai permitir construir uma avenida, mas não move uma palha quando o especulador imobiliário derruba uma centena de casebres para construir um espigão?

– Mais do que isso.

– Mais?

– Mais!

– Não sei.

– Falar mal dos ciclistas.

– Mas, por que alguém falaria mal dos ciclistas?

– Viu só!  Você (eu) ficou espantado com essa possibilidade. Os ciclistas são hoje os queridinhos da mídia e como você (eu) sabe, a mídia faz a cabeça de todo o mundo.

– Continuo não entendo qual o problema com os ciclistas.

-Em vez de fazer as tais ciclovias, que vão a lugar algum, a prefeitura poderia usar o dinheiro para melhorar a vida desse pessoal que vive na periferia da cidade.

– Então, é uma questão de classe social?

– É isso também. Quem anda de bicicleta é a classe média. Pobre anda de ônibus, que por sinal continua caro.

– Mas, esse pessoal que protestou contra o aumento dos ônibus não é classe média?

– É meio confuso mesmo.  Pobre que anda de ônibus, não protesta contra o aumento das tarifas e a classe média que anda de bicicleta, protesta.

– Está bem, você (eu) é contra os ciclistas por causa das ciclovias?

– Não. Sou até a favor.

– Explica que não estou entendendo.

– Os ciclistas eram vítimas desses motoristas enlouquecidos que não respeitam nada, que se acham donos das ruas, que vão atropelando todo o mundo, inclusive quem anda de bicicleta.

– Então?

– Então, começaram a dizer que os ciclistas eram as grandes vítimas e que precisavam ser protegidos.

– Errado?

– Não, certo.

– Então?

– Então, eles agora não andam mais nas ruas para não serem atropelados pelos motoristas enlouquecidos. Andam nas calçadas, atropelando os pedestres desavisados.

– Passaram, então, de vítimas a algozes.

– Não são apenas crianças que os pais recomendam, com razão, que não andem pelas ruas com suas bicicletas. São homens e mulheres que pedalam disputando o espaço na calçada, que por lei deveria ser só dos pedestres. Não sei se ainda se usa a expressão -mangolão – mas você encontra exemplares desse tipo vindo na sua direção, que se você não cair fora vai ser abalroado.

– No dicionário informal do Google, “mangolão” é sujeito muito chato, embora também registre que “mangolão” é um cara com o pênis avantajado.

– Pra mim, “mangolãoi” é o sujeito grande, desajeitado, que ocupa um lugar maior que seu corpo, principalmente quando anda de bicicleta na calçada.

– E o tal “mangolão”não pede desculpa quando invade o espaço do pedestre com sua bicicleta?

– Que nada. Ele acha que você é que está errado, que deveria ficar em casa em vez de andar na calçada.

– O que você pretende fazer?

– Vamos publicar nosso protesto no blog do Sul 21  e esperar que as autoridades não façam nada, mais uma vez

– E como vamos assinar?

Marino Boeira  e seu  alter ego, pedestres.