A COISA

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O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.
Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.
Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.
Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.
Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.
A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.
O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.
Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.
O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.
Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.
É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.
Mas isso é assunto para outra história.
O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.
Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.
No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.
Interessante como esse processo é quase que universal. As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.
O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.
Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.
Em 1961, Jânio Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.
Varre, varre, varre vassourinha! / Varre, varre a bandalheira!
Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasil, moralizado
Governou por sete meses e depois renunciou.
Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.
Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente.
Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.
Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.
Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.
A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.
Independente do Bolaisonaro ser um produto que vai cumprir as promessas que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.
.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.
Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.
Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida,uma coisa.
Contra pulgas e baratas,use Detefon, dizia aquele velho anúncio.
Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.
Pior, é que mais da metade dos brasileiros que votaram no ano passado, acreditaram nisso.

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