É possível ser comunista hoje?

Por que ser comunista nos dias de hoje? Não está mais do que provado que, quando aplicado, este sistema não deu certo? Não é verdade que o ser humano é individualista por natureza e jamais se adaptaria a um sistema que privilegia o coletivo? Os exemplos da antiga União Soviética e de Cuba, hoje, não são suficientes para demonstrar que na prática o comunismo não funciona?
Você já tentou responder mil vezes a estas questões, ora usando argumentos históricos, ora se socorrendo do que disseram grandes pensadores, mostrando aos seus inquisidores que simplificar as idéias faz mal para a inteligência, mas sempre recebeu em troca olhares de desaprovação, na maioria das vezes, ou ainda pior, de comiseração por insistir em defender uma filosofia morta e enterrada.
Mas, você insiste.
A crise atual do capitalismo é um bom argumento, mas fica longe de convencer os detratores do comunismo. Desde que a burguesia organizou de forma definitiva o sistema capitalista no final do século XVII, ele sempre enfrentou crises, mas sobreviveu, ao contrário do comunismo na União Soviética, que viveu pouco mais de 70 anos, dizem eles.
É verdade.
O capitalismo constrói e destrói tudo que cria num ritmo cada vez mais frenético, a um custo trágico para a humanidade, gerando miséria e destruição do meio ambiente.
Os mais tolerantes concordam com isso, mas perguntam: por que não teve êxito a experiência comunista na União Soviética?
Você começa a sua resposta mostrando a diferença entre o sistema imaginado por Marx e Engels, de uma sociedade sem classes e o que ocorreu na Rússia depois de 1917: o socialismo, com sua proposta de economia planejada, como primeira etapa do processo para ser chegar ao estágio do comunismo, foi interrompido sem chegar ao seu final.
Depois, você tenta explicar porque isso ocorreu: houve um desvirtuamento da idéia inicial da ditadura de uma classe social, que se transformou na ditadura de um partido e depois de um homem, Stalin; a necessidade de investir em armamentos para enfrentar a ameaça americana, impediu a melhoria na qualidade de vida de todo o povo; a falta de uma democracia interna gerou grandes focos de oposição, contidas apenas pela coerção policial; o apoio internacional para a União Soviética, granjeado pela sua liderança na luta contra o nazismo e fascismo durante a segunda guerra mundial se esvaiu pela ação permanente de desconstrução dessa imagem pelos Estados Unidos, pela mídia do mundo inteiro e pela Igreja.
É claro que seus adversários não vão concordar com isso. Então, você pode acrescentar que a curta existência do chamado “socialismo real” na União Soviética deixou pelo menos duas heranças importantes para quem vive nos países do “ocidente democrático”: a derrota do nazismo, que sem a resistência do Exército Vermelho, possivelmente teria se consolidado na Europa e o advento dos chamados “estados do bem estar social”, uma concessão dos governos capitalistas para afastar os trabalhadores dos “maus exemplos” do comunismo igualitário.
Aí, você chega ao ponto principal: o fato de não ter dado certo lá, não nos impede de pensar que se pode tentar de novo. O capitalismo levou quantos séculos para sobrepujar os antigos sistemas, escravagista e depois feudal? Quantas idas e vindas? E mesmo hoje, quando parece solidificado na América do Norte e na Europa Central, que tipo de benefícios ele traz para a maioria da população?
Esta é grande pergunta que deve ser feita: o capitalismo é capaz de levar a felicidade para a maioria das pessoas?
Nossa resposta será também de milhões de outras pessoas: não!
E o comunismo?
Talvez possa, corrigindo os erros do passado.
Rosa Luxemburgo disse uma vez que o dilema a ser enfrentado é: “socialismo ou barbárie”, complementado por István Mészáros de que “barbárie, se tivermos sorte, porque o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”.
Então, respondendo as primeiras perguntas desse texto: você é comunista porque você não quer viver na barbárie e pela mesma questão ética proposta, quando a Revolução Francesa já se encaminhava para consolidação da ordem burguesa, por Babeuf e os “Sans-Culottes”, de que “o fim da sociedade é a felicidade comum e a Revolução deve assegurar a igualdade dos usufrutos”.
Líder da Conspiração dos Iguais, Babeuf foi executado na guilhotina em 1797, mas muitos de suas idéias serviram de inspiração para Marx e Engels formularem as bases de uma sociedade comunista que Lênin e Trotsky tentaram colocá-la em prática na Rússia.

O socialismo possível

A longa crise em que vive o sistema capitalista no mundo do inteiro desde a última década do século passado, tem levado inúmeros pensadores a voltar a cogitar de uma sociedade socialista como remédio para os males da humanidade.
Istvan Meszaros recuperou aquele famoso dito de Rosa Luxemburgo de que a opção ao socialismo é a barbárie, ao qual ele acrescentou um adendo: na melhor das hipóteses.
Slavoj Zizek, Alain Bandiou e Jacques Rancieri, cada um a sua maneira, têm escrito e falado alertando que o capitalismo, financeiro e globalizado, perdeu aquele vigor antigo de destruir o velho para construir o novo e hoje é apenas uma força que destrói a natureza e empregos no mundo inteiro, transformando milhões de pessoas em não-vivos ou semi vivos.
Ao lado desses pensadores europeus com essa visão do socialismo, se destaca um brasileiro, Jacob Gorender, que infelizmente morreu em 2013, com o livro Marxismo sem Utopia.
O livro pode ser dividido em três etapas. Na primeira, Gorender faz uma revisão de alguns conceitos de Marx, reforçando o papel do acaso nas transformações sociais e defendendo a impossibilidade de extinção do Estado, como propunha o autor do Manifesto Comunista.
Na segunda parte, analisa o fracasso da experiência soviética a partir de duas variáveis: as dificuldades materiais da União Soviética, oriundas dos erros de sua política de planejamento econômico e a falta de democracia interna do país, onde o chamado “centralismo democrático” substituiu a participação popular em quase todos os seus níveis. Nem por isso, é um descrente na possibilidade de reconstruir o ideal socialista a partir dos ensinamentos de Marx e Engels e mesmo das experiências dos mais de 70 anos de vida na União Soviética.
Diz Gorender: “Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo”
Para a consecução desse objetivo revolucionário, Gorender se aproxima de uma das teses fundamentais de Lenin, que em 1917 dizia que o proletariado não estava ainda preparado para comandar revolução, que deveria então ser liderada por intelectuais comprometidos com as aspirações dos trabalhadores.
As modificações profundas que ocorreram nas relações de trabalho desde o Manifesto Comunista, levou Gorender a sintetizar como poderia ser este novo mundo socialista.
1) Permanência da divisão do trabalho entre físico e intelectual, sob a hegemonia de assalariados intelectuais. 2) Socialismo como objetivo abrangente em uma única fase, deixando de lado a visão utópica de Marx sobre o comunismo. 3) Permanência do Estado, sob o controle socialista ao invés de sua extinção. 4) Um sistema de democracia pluralista no socialismo.  5) A combinação de planejamento e mercado na economia socialista.

 

A COISA

 

O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.
Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.
Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.
Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.
Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.
A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.
O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.
Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.
O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.
Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.
É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.
Mas isso é assunto para outra história.
O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.
Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.
No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.
Interessante como esse processo é quase que universal. As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.
O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.
Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.
Em 1961, Jânio Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.
Varre, varre, varre vassourinha! / Varre, varre a bandalheira!
Que o povo já ‘tá cansado / De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasil, moralizado
Governou por sete meses e depois renunciou.
Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.
Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente.
Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.
Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.
Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.
A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.
Independente do Bolaisonaro ser um produto que vai cumprir as promessas que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.
.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.
Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.
Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida,uma coisa.
Contra pulgas e baratas,use Detefon, dizia aquele velho anúncio.
Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.
Pior, é que mais da metade dos brasileiros que votaram no ano passado, acreditaram nisso.

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A dura vida de um intelectual

Eu me considero um intelectual. Embora não tenha nenhum documento que comprove isso, acho que posso me considerar um intelectual por exclusão das outras duas possibilidades. Não sou um operário, pelo menos no seu sentido clássico, porque não sei ao menos pregar um prego e a rigor nunca precisei da força física para ganhar a vida e também não sou patrão, porque nunca vivi do trabalho de outros.Durante toda a minha vida, que já está até longa demais, vivi sempre de atividades ditas intelectuais como o jornalismo, a publicidade e o magistério, pelos quais, as vezes fui relativamente bem pago dentro dos padrões brasileiros, durante alguns períodos e mal pago na maioria deles.

Feita essa apresentação, preciso fazer uma distinção entre o intelectual que é assim considerado porque não faz trabalhos físicos – os jornalistas, os publicitários e professores – e o intelectual orgânico (vide Antonio Gramsci), aquele que atua como porta-voz de uma classe social.

Pretendo, deixando a modéstia de lado, me incluir nessa categoria de intelectual orgânico, a serviço da ideia do socialismo revolucionário, ideia que, diga-se de passagem, vem ganhando um novo destaque depois de décadas de ostracismo.

A rigor, foi com Lenin, que essa figura do intelectual engajado (outro termo que logo vai voltar à evidência) ganhou destaque. Lenin dizia “às portas da revolução” (título de um livro de Zizek) que o proletariado, por si só, seria incapaz de fazer a revolução e por isso o papel dos intelectuais (os orgânicos, certamente) seria o de dirigir a revolução.

Lenin lembrava que as lideranças operárias se limitavam a lutar por conquistas sindicais e não revolucionárias, em princípio.

Trazendo esse ensinamento para os nossos dias, se por exemplo, o PT fosse comandar uma revolução, seu líder não deveria ser Lula, porque, como líder sindical, sua visão seria apenas reformista, mas sim, talvez, Tarso Genro, por ser um intelectual orgânico.

Mas, o assunto ainda não é esse.

O que estou fazendo é uma pequena análise do papel do intelectual e as dificuldades de cumprir o que se espera de um intelectual.

Sempre soube que uma das obrigações do intelectual é ler muitos livros. Põe muitos nisso. Ler continuamente, desde a alfabetização até à cegueira final.

Cinema, teatro, música, são também importantes, mas são atividades passivas, ao contrário da leitura, que deve ser sempre ativa. Você não pode fechar os olhos nunca, como na música, ou ficar divagando, enquanto as imagens passam, num filme ou os atores dialogam, no teatro.

Os livros cobram muito e algumas vezes não te entregam o que prometem, mas se você abandoná-los no meio da leitura, corre o risco de sentir culpado depois.

Não o meu amigo Werner Becker, que arrumou uma desculpa para se absolver previamente

– Já li tanto, que se o livro não estiver me agradando, a culpa não é minha, mas do livro.

Infelizmente, ainda não cheguei nesse estado

Habitualmente, escolho bem o que pretendo ler e dificilmente erro. Recomendo estes novos filósofos marxistas, como Zizek, Badiou e Meszaros; análises históricas sobre a Segunda Guerra, a Revolução Soviética ou sobre o Oriente Médio, sempre trazem alguma coisa de útil; qualquer ensaio de Robert Fisk pode ser lido sem medo; biografias (Hitler, Trotsky,  Churchill, Stalin) são sempre interessantes; caso a pedida seja um romance e se não quisermos voltar aos clássicos com Martin du Gard, Steinbeck, Faulkner, Gore Vidal, Tolstoi, Sarte ou Saramago, podemos ler sem receio qualquer livro do Phillip Roth, do Padura ou do Ian McEwan.

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, me joguei na leitura da tradução que Antonio Houaiss fez de Ullysses, de James Joyce. Virou uma guerra. Tudo me mandava colocar o livro na prateleira, mas fui heroicamente até o fim para poder dizer que tinha lido Joyce.

Há pouco, descobri lendo um artigo do Milton Ribeiro no Sul21, que o trabalho do Houaiss, apesar de meritório é confuso, que pouca gente acompanhou até o fim as desventuras de Leopold Bloom e que uma nova versão da obra, traduzida por Caetano Gallindo, poderia devolver o prazer da leitura desse livro, considerado por muitos como o mais importante da literatura inglesa.

Ainda não arrisquei, mas com o crédito que o Milton Ribeiro ficou merecedor, aceitei uma indicação dele e comprei na Estante Virtual (recomendo), Extinção, do Thomas Bernhard. Confesso que estou penando na sua leitura, como há muito não ocorria, mas prometo que vou até o fim. Agora só faltam umas cinquenta, das suas 470 páginas.

Depois, vou recomendar o livro no meu blog, esperando que outros repitam essa minha via crucis.

Parodiando Euclides da Cunha, dos Sertões, o intelectual é antes de tudo um forte

Podemos acreditar na História?

Os episódios dessa semana com divulgação pelo site Intercept dos arquivos que revelaram os acordos espúrios, dentro da Lava Jato, entre o juiz Sérgio Moro e os procuradores chefiados por Delton Dallagnol, para retirar Lula da disputa presidencial de 2018 e favorecer a candidatura Bolsonaro, trazem à baila novamente as discussões sobre a verdade na história.

É lugar comum dizer que a história é sempre contada pelos vencedores. Trata-se de uma meia-verdade. Essa é a história oficial. Existem para os fatos passados mais de uma interpretação. Eles não são como fenômenos físicos que possam ser repetidos para serem compreendidos em suas totalidades. Isso não significa ter uma visão relativa sobre eles, mas sim uma visão ideológica. Marx disse que a história da humanidade é a história das lutas de classe.

Essa duplicidade de visão existe em todos os episódios que hoje são  passados, mas que ainda são passíveis de interpretações diferentes e até mesmo opostas.como as grandes revoluções– a Francesa, a Russa, a Chinesa ou a Cubana – ou personagens históricos, Robespierre, Lenin, Mao ou Fidel, ou no caso do Brasil, Getúlio, Prestes, Brizola ou Lula.

Os fatos em si são acontecimentos objetivos: houve uma revolução na Rússia em 1917 (embora até isso possa ser discutido – não teria sido apenas um golpe de estado?) e Lula foi eleito duas vezes presidente do Brasil.

Mas isso, rigorosamente, não é História (com o “H” maiúsculo), mas uma narrativa linear da história, que normalmente não é objeto de dúvidas –  Luís Inácio Lula da Silva nasceu em 27/10/1945 e foi Presidente do Brasil entre 2003 e 2011.

Agora, os episódios envolvendo seus dois governos e o da  sua sucessora – Dilma Rousseff –  o Mensalão e o Lava Jato, são passíveis de interpretações diferentes.

O que exponho a seguir será uma tentativa de enxergar o que aconteceu, dentro da visão marxista de que foram ações decorrentes de todo um processo mais complexo de lutas de classe.

O Mensalão, em primeiro lugar, e depois o Lava Jato, foram fundamentalmente ações políticas destinadas a destruir, ou ao menos diminuir o poder do PT como agente participante das decisões econômicas e sociais que afetam a sociedade brasileira.

Desde que se tornou uma alternativa política possível para dirigir o Brasil, o PT passou a ser olhado como um inimigo das oligarquias nacionais e de seus aliados no exterior, fundamentalmente o imperialismo americano.

A habilidade política de Lula nos seus dois governos, aliada às concessões que  fez às elites brasileiras ( empreiteiras, bancos, grande mídia) e ao imperialismo americano (tropas brasileiras no Haiti,por exemplo) fez com que ele se tornasse aceitável, momentaneamente,  pelo establishment   nacional e internacional.

Para os Estados Unidos, os arroubos nacionalistas de Lula poderiam ser tolerados, até para impedir que no seu lugar surgissem mais um Chavez, um Evo Morales ou até mesmo um Rafael Correa, na América do Sul.

Internamente, o grande empresariado brasileiro e os bancos se deram conta que podam enxergar na melhoria das condições de vida dos mais pobres um aumento no número de consumidores, o que passava a ser algo interessante para eles.

Mas, uma nova crise cíclica no mundo do capital fez com que a falácia, que Lula e setores do PT defendiam, de que era possível uma conciliação de classes, desaparecesse. E isso vai acontecer quando o governo estava nas mãos da Presidente Dilma , sem o mesmo carisma de Lula e sem sua capacidade de negociação.

Uma primeira tentativa de desconstruir os governos do PT surgiu com o Mensalão, mas foi possível ao PT contornar a crise com o sacrifício de alguns dos seus líderes, como o mais importante deles, José Dirceu ( vão-se os anéis,mas ficam os dedos) e ganhar mais duas eleições.

Mas a semente estava plantada. O método testado, as denúncias de corrupção, funcionava e logo ele seria retomado com a operação Lava Jato.

Como todos os partidos que chegaram ao poder em alianças de puro interesse fisiológico e bancados com o dinheiro do grande empresariado, o PT teria que pagar a conta.

A Petrobrás, com seus grandes negócios nacionais e internacionais, foi o campo fértil para que políticos de todos os partidos governistas (PT, MDB, PTB, PDT e PP) se locupletassem com as clássicas propinas, presentes sempre em todas as licitações, como já ocorrera em outros governos passados, inclusive, ou principalmente no regime militar, quando a censura à imprensa garantia a privacidade dos negócios.

Conscientes ou não do fato, o certo é que ao desfecharem a operação Lava Jato e prender Lula por corrupção, mesmo sem apresentar qualquer prova razoável, Moro e Dallagnol, mais do que impedir o PT de chegar ao governo, serviram diretamente aos interesses americanos ao destruir a Petrobrás e impedir que a exploração do pré-sal pela estatal brasileira significasse a redenção econômica do País.

A eleição do Bolsonaro parece ter sido apenas um efeito colateral do processo iniciado pela Lava Jato, mas foi se tornando interessante para os americanos, na medida em que o novo presidente se tornou um exacerbado entreguista, capaz de surpreender  o próprio Trump.

Agora, as denúncias públicas do Intercept colocaram  Bolsonaro numa encruzilhada: ou aproveita a chance e se livra de alguém que, desde que assumiu como Ministro, trabalha para tentar sucedê-lo em 2022 ou se solidariza com ele e assume o risco de um possível impeachment logo adiante.

 

Vai no gás

De profundo mau gosto a campanha publicitária da Coca “Vai no gás”. Será que seus marqueteiros esqueceram que os nazistas costumavam ordenar aos prisioneiros dos campos de extermínio “vai pro gás”, no caso o Zyklon B. Não deveriam, porque a Coca Cola era bebida não alcoólica favorita dos alemães, até 1941, quando os Estados Unidos entraram na guerra e o xarope não pôde mais chegar ás mais de 50 fábricas que a Coca havia implantado na Alemanha, entre 1935 e 1941. Foi então que os alemães, usando frutas nativas (inicialmente a maça) criaram o refrigerante Fanta (fantasie)

Sejamos radicais

Precisamos ser radicais.

Radicais em tudo que seja importante para nós.

Radicais na política, radicais no futebol, radicais do amor.

Jamais fazer concessões em nome de alguma coisa, por mais importante que ela seja.

Defender até o fim aquilo em acreditamos, ou até o momento, em que alguém, usando argumentos racionais, nos convença de que estamos errados.

Ser radical não é o mesmo de ser intolerante.

As pessoas têm todo o direito de pensar diferente e podemos conviver com elas tranquilamente, desde que aquilo em que elas acreditam não signifique a nossa morte ou a destruição de uma ideia que nos é muito cara.

Um exemplo: é impossível conviver com fascistas.

Outro exemplo: conviver com pessoas que usem a violência para se impor.

Mais um: conviver com pessoas ignorantes que se orgulham de ser ignorantes.

Mas, por que ser radical?

Vamos pensar, na política, onde alguns vêem no radicalismo um comportamento inadequado. Começamos fazendo uma comparação com uma lei da ciência, a lei universal da gravitação de Newton que diz: “Matéria atrai matéria, na razão direta do produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas”

Essa definição é profundamente radical, o que não impediria que outro cientista formulasse uma definição (o que nos parece hoje impossível) em sentido contrário.

Eu digo que o socialismo (e mais adiante o comunismo) é a forma mais humana e justa da organização de uma sociedade.

Logicamente, eu não posso ter nessa área de conhecimento as mesmas provas das ciências exatas, mas se eu acredito na minha tese, devo defendê-la sem concessões.

Historiadores, sociólogos e devem ser a maioria, podem pensar de forma diferente. O nipo-americano Francis Fukuyama, por exemplo, diz que a História terminou com o modelo capitalista parlamentarista ocidental.

Eu, modestamente, e outros muito mais sábios e menos modestos, como Istvan Meszaros, Alain Badiou e Slavoj Zizek, dizemos  que não, que a História continua e que o futuro é o socialismo ou a barbárie.

Mas, por que não misturar Fukuyama com Meszaros?

Por que um anula ao outro.

Prosaicamente, comparando com o futebol: posso ser torcedor do Internacional e do grêmio ao mesmo tempo?

Todos, que tenham alguma ideia da rivalidade entre os dois clubes, sabem que isso é impossível.

Então, já que o assunto que nos diz mais respeito é política, sejamos radicalmente socialistas, sonhando que um dia possamos todos ser comunistas.

 

 

 

A última utopia.

 

Em mais uma arrumação buscando achar lugar para os livros que não paro de comprar, encontrei uma brochura editada pelo Instituto Estadual do Livro em 1991, durante o governo de Alceu Collares, denominado Nós e a Legalidade – Depoimentos. Entre nomes de políticos (Aldo Pinto, Geraldo Stedile, Índio Vargas e Mila Cauduro) e de intelectuais importantes, como Moacyr Scliar e Alcy Cheuiche, estava  também o meu depoimento  com o título de A Última Utopia. Normalmente, algo que você escreveu há 30 anos sobre um evento histórico, envelhece e perde a importância que pode ter tido na época. Não foi o que me pareceu e por isso me atrevo a reproduzi-lo aqui  pensando nas pessoas que não viveram aqueles dias

A perspectiva do tempo torna os fatos históricos mais claros. Olhando para trás, muitos anos depois, você sabe quem eram os heróis, quem eram os vilões.  As sutilezas se apagam e fica mais fácil distinguir o certo do errado, o progressista do reacionário. O difícil é fazer essa distinção na hora em que os fatos estão acontecendo. Algumas vezes, porém, isso ocorre.

O chamado Movimento pela Legalidade talvez tenha sido um dos últimos grandes acontecimentos da História do Brasil onde a complexidade dos interesses em jogo não impediu que as pessoas percebessem a essência dos fatos

Aquele agosto de 1961 começara tranqüilo e terminara em meio a uma grande crise, justificando a tradição de ser um mês aziago para a política brasileira.

Jânio renunciara; Jango estava na China; a cúpula militar tramava o golpe que não conseguira completar em 54, com a morte de Getúlio. Tudo se resolveria no conforto dos gabinetes e o povo seria informado depois das decisões.

Este quadro confortável acabou se desestabilizando pela ação do Governador Brizola, do Rio Grande do Sul, que inseriu no processo um elemento até então considerado desprezível pelas elites que acertavam, entre elas, o futuro do País: o respeito às normas constitucionais que regulavam a sucessão presidencial. Se o Presidente Jânio Quadros havia renunciado, em seu lugar deveria assumir o vice-presidente eleito, João Goulart.

Como sempre acontecera na História recente do Brasil, travou-se então uma guerra de ameaças e pressões na busca da neutralização daquele político gaúcho, subitamente tornado tão inconveniente.

O importante era não derramar o sangue de irmãos, impedir uma guerra fratricida, buscar a tolerância tão tradicional na alma dos brasileiros e outras frases que a retórica conservadora sempre soube usar nessas ocasiões.

Só que o inconveniente não cedia. Brizola organizava uma resistência que desafiava todas as normas da prudência.

Naqueles dias de fim de inverno e início da primavera eu era apenas mais um jovem de 20 anos, encharcado de cinema e literatura, sonhando com a chegada de uma sociedade socialista para o Brasil.

Para mim, o radical populista que ocupava o Palácio Piratini não parecia ser a pessoa mais indicada para comandar esse processo de busca do socialismo

Os seus discursos de todas as sextas feiras pela Rádio Farroupilha eram motivos de ironias e piadas. Mas o Movimento pela Legalidade começara a mudar a ótica das coisas.

Naquele meio dia, que a memória localiza hoje entre fins de agosto e início de setembro, o Governador fez o discurso mais emocionante da sua carreira de político. Os “inimigos”, os “imperialistas” iriam bombardear o Palácio Piratini e ele convocava a todos para defender a legalidade ameaçada.

Uma das figuras mais utilizadas na literatura diz que o personagem fica com um “nó na garganta” e a “voz embargada” quando a emoção é demais. Naquele dia, eu fiquei com um “nó na garganta” e a “voz embargada” ao ouvir o Brizola pelo rádio.  Como milhares de outros, fui também para frente do Palácio Piratini para defender a justiça da nossa causa. Como esses milhares, eu também tinha muito claro na cabeça, que havia um lado certo e um lado errado. Que havia heróis e vilões

Era o grande momento da virada da História do Brasil. Mesmo que houvesse luta, mesmo que se derramasse sangue, teria sido por uma causa justa. O país que emergisse dessa luta seria bem melhor, certamente. Era a prova por que passam todas as grandes nações, mas que o Brasil postergou.

As grandes raposas da política, os tancredos, os mazillis, os moura andrades, saíram rápidos de suas tocas e concertaram um grande acordo entre os militares golpistas com o janguismo. Nascia um espúrio parlamentarismo. Tiraram do Brizola a bandeira da Legalidade e o neutralizaram, enfim. Em 1964 ele tentou desfraldá-la novamente, mas não havia mais clima para isso. O Movimento da Legalidade de 1961 foi nossa última utopia. Depois disso vieram os anos de chumbo da ditadura e a pálida e mesquinha democracia dos nossos dias.