Podemos acreditar na História?

Os episódios dessa semana com divulgação pelo site Intercept dos arquivos que revelaram os acordos espúrios, dentro da Lava Jato, entre o juiz Sérgio Moro e os procuradores chefiados por Delton Dallagnol, para retirar Lula da disputa presidencial de 2018 e favorecer a candidatura Bolsonaro, trazem à baila novamente as discussões sobre a verdade na história.

É lugar comum dizer que a história é sempre contada pelos vencedores. Trata-se de uma meia-verdade. Essa é a história oficial. Existem para os fatos passados mais de uma interpretação. Eles não são como fenômenos físicos que possam ser repetidos para serem compreendidos em suas totalidades. Isso não significa ter uma visão relativa sobre eles, mas sim uma visão ideológica. Marx disse que a história da humanidade é a história das lutas de classe.

Essa duplicidade de visão existe em todos os episódios que hoje são  passados, mas que ainda são passíveis de interpretações diferentes e até mesmo opostas.como as grandes revoluções– a Francesa, a Russa, a Chinesa ou a Cubana – ou personagens históricos, Robespierre, Lenin, Mao ou Fidel, ou no caso do Brasil, Getúlio, Prestes, Brizola ou Lula.

Os fatos em si são acontecimentos objetivos: houve uma revolução na Rússia em 1917 (embora até isso possa ser discutido – não teria sido apenas um golpe de estado?) e Lula foi eleito duas vezes presidente do Brasil.

Mas isso, rigorosamente, não é História (com o “H” maiúsculo), mas uma narrativa linear da história, que normalmente não é objeto de dúvidas –  Luís Inácio Lula da Silva nasceu em 27/10/1945 e foi Presidente do Brasil entre 2003 e 2011.

Agora, os episódios envolvendo seus dois governos e o da  sua sucessora – Dilma Rousseff –  o Mensalão e o Lava Jato, são passíveis de interpretações diferentes.

O que exponho a seguir será uma tentativa de enxergar o que aconteceu, dentro da visão marxista de que foram ações decorrentes de todo um processo mais complexo de lutas de classe.

O Mensalão, em primeiro lugar, e depois o Lava Jato, foram fundamentalmente ações políticas destinadas a destruir, ou ao menos diminuir o poder do PT como agente participante das decisões econômicas e sociais que afetam a sociedade brasileira.

Desde que se tornou uma alternativa política possível para dirigir o Brasil, o PT passou a ser olhado como um inimigo das oligarquias nacionais e de seus aliados no exterior, fundamentalmente o imperialismo americano.

A habilidade política de Lula nos seus dois governos, aliada às concessões que  fez às elites brasileiras ( empreiteiras, bancos, grande mídia) e ao imperialismo americano (tropas brasileiras no Haiti,por exemplo) fez com que ele se tornasse aceitável, momentaneamente,  pelo establishment   nacional e internacional.

Para os Estados Unidos, os arroubos nacionalistas de Lula poderiam ser tolerados, até para impedir que no seu lugar surgissem mais um Chavez, um Evo Morales ou até mesmo um Rafael Correa, na América do Sul.

Internamente, o grande empresariado brasileiro e os bancos se deram conta que podam enxergar na melhoria das condições de vida dos mais pobres um aumento no número de consumidores, o que passava a ser algo interessante para eles.

Mas, uma nova crise cíclica no mundo do capital fez com que a falácia, que Lula e setores do PT defendiam, de que era possível uma conciliação de classes, desaparecesse. E isso vai acontecer quando o governo estava nas mãos da Presidente Dilma , sem o mesmo carisma de Lula e sem sua capacidade de negociação.

Uma primeira tentativa de desconstruir os governos do PT surgiu com o Mensalão, mas foi possível ao PT contornar a crise com o sacrifício de alguns dos seus líderes, como o mais importante deles, José Dirceu ( vão-se os anéis,mas ficam os dedos) e ganhar mais duas eleições.

Mas a semente estava plantada. O método testado, as denúncias de corrupção, funcionava e logo ele seria retomado com a operação Lava Jato.

Como todos os partidos que chegaram ao poder em alianças de puro interesse fisiológico e bancados com o dinheiro do grande empresariado, o PT teria que pagar a conta.

A Petrobrás, com seus grandes negócios nacionais e internacionais, foi o campo fértil para que políticos de todos os partidos governistas (PT, MDB, PTB, PDT e PP) se locupletassem com as clássicas propinas, presentes sempre em todas as licitações, como já ocorrera em outros governos passados, inclusive, ou principalmente no regime militar, quando a censura à imprensa garantia a privacidade dos negócios.

Conscientes ou não do fato, o certo é que ao desfecharem a operação Lava Jato e prender Lula por corrupção, mesmo sem apresentar qualquer prova razoável, Moro e Dallagnol, mais do que impedir o PT de chegar ao governo, serviram diretamente aos interesses americanos ao destruir a Petrobrás e impedir que a exploração do pré-sal pela estatal brasileira significasse a redenção econômica do País.

A eleição do Bolsonaro parece ter sido apenas um efeito colateral do processo iniciado pela Lava Jato, mas foi se tornando interessante para os americanos, na medida em que o novo presidente se tornou um exacerbado entreguista, capaz de surpreender  o próprio Trump.

Agora, as denúncias públicas do Intercept colocaram  Bolsonaro numa encruzilhada: ou aproveita a chance e se livra de alguém que, desde que assumiu como Ministro, trabalha para tentar sucedê-lo em 2022 ou se solidariza com ele e assume o risco de um possível impeachment logo adiante.

 

Vai no gás

De profundo mau gosto a campanha publicitária da Coca “Vai no gás”. Será que seus marqueteiros esqueceram que os nazistas costumavam ordenar aos prisioneiros dos campos de extermínio “vai pro gás”, no caso o Zyklon B. Não deveriam, porque a Coca Cola era bebida não alcoólica favorita dos alemães, até 1941, quando os Estados Unidos entraram na guerra e o xarope não pôde mais chegar ás mais de 50 fábricas que a Coca havia implantado na Alemanha, entre 1935 e 1941. Foi então que os alemães, usando frutas nativas (inicialmente a maça) criaram o refrigerante Fanta (fantasie)

Sejamos radicais

Precisamos ser radicais.

Radicais em tudo que seja importante para nós.

Radicais na política, radicais no futebol, radicais do amor.

Jamais fazer concessões em nome de alguma coisa, por mais importante que ela seja.

Defender até o fim aquilo em acreditamos, ou até o momento, em que alguém, usando argumentos racionais, nos convença de que estamos errados.

Ser radical não é o mesmo de ser intolerante.

As pessoas têm todo o direito de pensar diferente e podemos conviver com elas tranquilamente, desde que aquilo em que elas acreditam não signifique a nossa morte ou a destruição de uma ideia que nos é muito cara.

Um exemplo: é impossível conviver com fascistas.

Outro exemplo: conviver com pessoas que usem a violência para se impor.

Mais um: conviver com pessoas ignorantes que se orgulham de ser ignorantes.

Mas, por que ser radical?

Vamos pensar, na política, onde alguns vêem no radicalismo um comportamento inadequado. Começamos fazendo uma comparação com uma lei da ciência, a lei universal da gravitação de Newton que diz: “Matéria atrai matéria, na razão direta do produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas”

Essa definição é profundamente radical, o que não impediria que outro cientista formulasse uma definição (o que nos parece hoje impossível) em sentido contrário.

Eu digo que o socialismo (e mais adiante o comunismo) é a forma mais humana e justa da organização de uma sociedade.

Logicamente, eu não posso ter nessa área de conhecimento as mesmas provas das ciências exatas, mas se eu acredito na minha tese, devo defendê-la sem concessões.

Historiadores, sociólogos e devem ser a maioria, podem pensar de forma diferente. O nipo-americano Francis Fukuyama, por exemplo, diz que a História terminou com o modelo capitalista parlamentarista ocidental.

Eu, modestamente, e outros muito mais sábios e menos modestos, como Istvan Meszaros, Alain Badiou e Slavoj Zizek, dizemos  que não, que a História continua e que o futuro é o socialismo ou a barbárie.

Mas, por que não misturar Fukuyama com Meszaros?

Por que um anula ao outro.

Prosaicamente, comparando com o futebol: posso ser torcedor do Internacional e do grêmio ao mesmo tempo?

Todos, que tenham alguma ideia da rivalidade entre os dois clubes, sabem que isso é impossível.

Então, já que o assunto que nos diz mais respeito é política, sejamos radicalmente socialistas, sonhando que um dia possamos todos ser comunistas.

 

 

 

A última utopia.

 

Em mais uma arrumação buscando achar lugar para os livros que não paro de comprar, encontrei uma brochura editada pelo Instituto Estadual do Livro em 1991, durante o governo de Alceu Collares, denominado Nós e a Legalidade – Depoimentos. Entre nomes de políticos (Aldo Pinto, Geraldo Stedile, Índio Vargas e Mila Cauduro) e de intelectuais importantes, como Moacyr Scliar e Alcy Cheuiche, estava  também o meu depoimento  com o título de A Última Utopia. Normalmente, algo que você escreveu há 30 anos sobre um evento histórico, envelhece e perde a importância que pode ter tido na época. Não foi o que me pareceu e por isso me atrevo a reproduzi-lo aqui  pensando nas pessoas que não viveram aqueles dias

A perspectiva do tempo torna os fatos históricos mais claros. Olhando para trás, muitos anos depois, você sabe quem eram os heróis, quem eram os vilões.  As sutilezas se apagam e fica mais fácil distinguir o certo do errado, o progressista do reacionário. O difícil é fazer essa distinção na hora em que os fatos estão acontecendo. Algumas vezes, porém, isso ocorre.

O chamado Movimento pela Legalidade talvez tenha sido um dos últimos grandes acontecimentos da História do Brasil onde a complexidade dos interesses em jogo não impediu que as pessoas percebessem a essência dos fatos

Aquele agosto de 1961 começara tranqüilo e terminara em meio a uma grande crise, justificando a tradição de ser um mês aziago para a política brasileira.

Jânio renunciara; Jango estava na China; a cúpula militar tramava o golpe que não conseguira completar em 54, com a morte de Getúlio. Tudo se resolveria no conforto dos gabinetes e o povo seria informado depois das decisões.

Este quadro confortável acabou se desestabilizando pela ação do Governador Brizola, do Rio Grande do Sul, que inseriu no processo um elemento até então considerado desprezível pelas elites que acertavam, entre elas, o futuro do País: o respeito às normas constitucionais que regulavam a sucessão presidencial. Se o Presidente Jânio Quadros havia renunciado, em seu lugar deveria assumir o vice-presidente eleito, João Goulart.

Como sempre acontecera na História recente do Brasil, travou-se então uma guerra de ameaças e pressões na busca da neutralização daquele político gaúcho, subitamente tornado tão inconveniente.

O importante era não derramar o sangue de irmãos, impedir uma guerra fratricida, buscar a tolerância tão tradicional na alma dos brasileiros e outras frases que a retórica conservadora sempre soube usar nessas ocasiões.

Só que o inconveniente não cedia. Brizola organizava uma resistência que desafiava todas as normas da prudência.

Naqueles dias de fim de inverno e início da primavera eu era apenas mais um jovem de 20 anos, encharcado de cinema e literatura, sonhando com a chegada de uma sociedade socialista para o Brasil.

Para mim, o radical populista que ocupava o Palácio Piratini não parecia ser a pessoa mais indicada para comandar esse processo de busca do socialismo

Os seus discursos de todas as sextas feiras pela Rádio Farroupilha eram motivos de ironias e piadas. Mas o Movimento pela Legalidade começara a mudar a ótica das coisas.

Naquele meio dia, que a memória localiza hoje entre fins de agosto e início de setembro, o Governador fez o discurso mais emocionante da sua carreira de político. Os “inimigos”, os “imperialistas” iriam bombardear o Palácio Piratini e ele convocava a todos para defender a legalidade ameaçada.

Uma das figuras mais utilizadas na literatura diz que o personagem fica com um “nó na garganta” e a “voz embargada” quando a emoção é demais. Naquele dia, eu fiquei com um “nó na garganta” e a “voz embargada” ao ouvir o Brizola pelo rádio.  Como milhares de outros, fui também para frente do Palácio Piratini para defender a justiça da nossa causa. Como esses milhares, eu também tinha muito claro na cabeça, que havia um lado certo e um lado errado. Que havia heróis e vilões

Era o grande momento da virada da História do Brasil. Mesmo que houvesse luta, mesmo que se derramasse sangue, teria sido por uma causa justa. O país que emergisse dessa luta seria bem melhor, certamente. Era a prova por que passam todas as grandes nações, mas que o Brasil postergou.

As grandes raposas da política, os tancredos, os mazillis, os moura andrades, saíram rápidos de suas tocas e concertaram um grande acordo entre os militares golpistas com o janguismo. Nascia um espúrio parlamentarismo. Tiraram do Brizola a bandeira da Legalidade e o neutralizaram, enfim. Em 1964 ele tentou desfraldá-la novamente, mas não havia mais clima para isso. O Movimento da Legalidade de 1961 foi nossa última utopia. Depois disso vieram os anos de chumbo da ditadura e a pálida e mesquinha democracia dos nossos dias.