O Barão e eu

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O gaúcho de Rio Grande, Aparício Torelly (1895/ 1971) ficou famoso no Brasil inteiro como o Barão de Itararé, um dos primeiros jornalistas a cultivar um humor inteligente e crítico, que mais tarde teria seguidores como o Millor Fernandes, o maior de todos,Luís Fernando Veríssimo e o pouco lembrado Jota Be, o João Bergmann, que escreveu durante muito tempo no Correio do Povo e na Folha da Tarde.

As ironias do Barão começavam pelo título que escolheu para assinar seus textos, Itararé, uma batalha que deveria ter sido sangrenta na cidade paulista de Itararé, mas que acabou não acontecendo na Revolução de 30, porque as tropas legalistas se entregaram antes.

Alguns dos ditos do Barão são lembrados até hoje.

“A pessoa que se vende recebe sempre mais do que vale“
“Este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a. C., verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crônicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo.“
“Há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.“
“Os vivos são e serão sempre, cada vez mais, governados pelos mais vivos.“
“O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.”
“O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.“
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.
“Quando pobre come galinha, um dos dois está doente”

Em 1961, eu trabalhava como repórter na Última Hora, a profissão mais incompatível para um sujeito tímido como eu era aos 20 anos.  O que me salvava era uma certa facilidade em escrever, qualidade incomum no meio de jornalistas, quase todos analfabetos funcionais e a proteção de algumas figuras importantes na redação, os que escreviam o que os repórteres  traziam  das ruas, como o Flávio Tavares, o Ibsen Pinheiro, o Florianinho  e o Ivo Correa Pires.

Um dia, me mandaram entrevistar o Barão de Itararé, que estava hospedado no Hotel Plaza, o Plazinha da  Senhor dos Passos.

E lá fui eu, tremendo de medo, para tentar ouvir o humorista famoso, até porque o pedido viera do Rio, do Samuel Wainer, o dono da Última Hora.

Na portaria avisaram que o Barão tinha pedido para não ser importunado, mas eu poderia tentar falar com ele pelo telefone.

Foi o que fiz, apressando em me apresentar.

O Barão perguntou então o que eu queria saber dele.

Procurando colocar o sujeito, o verbo e os complementos no lugar certo, respondi

– O que o trouxe a Porto Alegre, Barão?

– Isso, posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.

Nesse momento senti que minha experiência como repórter terminava ali. No desespero,  resolvi apelar para os sentimentos de pena do Barão.

– Se o senhor não me receber, volto para o jornal agora e amanhã estou desempregado.

Funcionou.

Não só.o Barão  me concedeu uma longa entrevista, falando de tudo, como me convidou para almoçar e no final me fez uma proposta inesperada.

– Como estou vendo que você não está anotando o que falei, vou escrever uma série de perguntas e suas respostas.  Você passa amanhã aqui no hotel e pega esse material.

Foi o que fiz.  No dia seguinte, estava lá portaria, em várias folhas de um bloco pautado, as perguntas e respostas do Barão, tudo escrito numa caligrafia irrepreensível.

Feliz da vida, retornei ao jornal, esperando ser recebido com aplausos. Em vez disso, o secretário de redação me disse:

– Você pensa que isso é uma revista que sai uma vez por semana?

Meio desanimado, mas ainda confiante na qualidade do material que tinha,sentei diante da minha Olivetti e escrevi uma dúzia de laudas.

No dia seguinte, estava lá na Última Hora uma síntese do que tinha escrito: “Barão de Itararé elogia em Porto Alegre o governo de Fidel.” Isso, mais umas duas ou três linhas..Era o tal espírito de síntese que os tabloides como a Última Hora deviam observar.

As páginas do bloco, com as perguntas e respostas do Barão, conservei durante algum tempo, mas depois as perdi numa das minhas mudanças de vida.


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