A hora da união

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Toda a resistência da esquerda brasileira ao processo de consolidação de um sistema cada vez mais autoritário de direita que se instalou formalmente no Brasil em 1º de janeiro de 2019, passa necessariamente pelo PT.
Apesar de todos os seus erros, durante os 14 anos em que governou o Brasil, o mais grave de todos o de não consolidar os instrumentos de poder que a população lhe outorgou, o PT é o partido melhor estruturado no País e o único capaz de mobilizar sues quadros políticos para o enfrentamento das medidas antipopulares que se anunciam.
O PT precisa, porém, tomar uma decisão extremamente difícil, a de separar a luta pela libertação do seu fundador e líder inconteste, o presidente Lula, preso sem provas de qualquer culpa, em Curitiba, da resistência ao governo Bolsonaro, que traga consigo uma perspectiva, mesmo que distante, de reconquista do poder, junto com outras forças de esquerda.
A associação da libertação de Lula com a oposição às medidas antipopulares do novo governo vai levar as esquerdas a um beco sem saída.
Com o apoio do parlamento, a omissão do judiciário, o silêncio da mídia e a garantia das forças armadas, o governo não permitirá a liberdade de Lula enquanto imaginar que ele possa representar um perigo ao sistema.
Lula livre é uma causa justa e necessária para que possamos nos considerar uma nação que respeita uma norma elementar do direito, a de que sem provas não se pode tirar a liberdade de uma pessoa, ainda mais de alguém com a importância histórica que Lula teve para o Brasil.
Mas o enfrentamento político ao governo Bolsonaro, principalmente na área econômica representada por Paulo Guedes e da repressão aos movimentos contestatórios , que ficou sob o comando de Sérgio Moro, deve ser feito apontando para o futuro e não para o passado.
O governo se apressa para por em prática o que prometeu fazer na campanha eleitoral, como a reforma da Previdência, diminuição de direitos trabalhistas e privatização de empresas públicas.
São agendas de discussões que obviamente não têm apenas um lado de entendimento. Cada uma delas, se prejudica uma parte maior da população, beneficia outras, que mesmo minoritárias, têm poder de comunicação muito grande.
Uma simples leitura de algumas propostas do Bolsonaro mostra que mesmo aquelas que as pessoas mais bem informadas entendem como antipopulares, podem ser lidas ao contrário por outros.
Tomemos um exemplo de um discurso dele:
“É melhor para o trabalhador ter menos direitos e mais empregos.”
Esse discurso para os milhões de desempregados no Brasil soa como música. Mesmo aquele que está trabalhando, mas se sente ameaçado, pode concordar com essa máxima popular: “pouco é melhor que nada”, que está implícita no discurso.
Como enfrentá-lo?
Racionalmente, sabemos que a perda de garantias trabalhistas (Bolsonaro já falou na extinção da Justiça do Trabalho) serve apenas para aumentar os lucros dos patrões e em vez de garantir os empregos, apenas os tornam mais precários.
O problema todo é traduzir essa racionalidade para uma percepção emocional de quem vai ser atingido objetivamente por essa política, mesmo que não se dê conta inicialmente.
Será preciso discutir essa e outras agendas com a população, até mesmo se valendo de alguns meios que a equipe do então candidato Bolsonaro mostrou ser eficientes, como o uso das redes sociais, claro que não para divulgar fakes news como ela fez, mas sim com a sistemática divulgação do verdadeiro sentido das propostas do governo.
Outra agenda fundamental a ser discutida é a questão da segurança pública. A direita conseguiu consolidar na mente de uma boa parte da população a ideia de que o problema pode ser resolvido com o aumento das penas aos criminosos, seja qual for o crime praticado, a diminuição da idade para a responsabilidade penal, a construção de mais prisões e na versão simplificada de Bolsonaro e seus seguidores, a pura e simples aplicação do conceito de “bandido bom é bandido morto”.
Como mostrar de forma convincente que somente com investimentos fortes nas políticas de eliminação da miséria e nas áreas de educação e saúde das crianças, será possível ter esperanças de se criar um mundo mais seguro?
Como confrontar um discurso voltado para o futuro com o imediatismo das soluções simplistas que a direita oferece?
Obviamente é uma tarefa difícil, mas parece que não existe outro caminho para os partidos de esquerda, principalmente o PT, senão enfrentá-la.
Discutir em profundidade esses temas é o primeiro passo em busca de uma pauta comum para toda a esquerda brasileira


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