A dor da gente

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Lembra aquela música do Chico, Notícia de Jornal, onde ele canta que a dor da gente não sai no jornal. Lembrei da letra por causa de uma pequena tragédia (pequena para nós, os outros) ocorrida aqui nesse mundo onde moro na Zona Sul.

São duas torres (já me avisaram que não devo dizer blocos, que aí é coisa de pobre) com 17 andares cada uma, onde vivem os representantes da classe média baixa da nossa cidade, a maioria, provavelmente eleitora do Bolsonaro. Por baixo, devem viver aqui umas 300 pessoas. Conheço poucas delas e de uma meia-dúzia no máximo, sei os nomes.

Na véspera do Natal, quando chegava no prédio, vi um movimento desusado na entrada da minha torre. Um grupo formado por uma senhora, que parecia bastante nervosa, o síndico, três brigadianos e uma outra pessoa, que soube depois ser o chaveiro, estava entrando na minha torre.

Eles iriam arrombar um apartamento, onde vivia a filha da senhora e que tinha deixando uma mensagem telefônica suspeita para ela. Como estava saindo, só hoje fiquei sabendo da história. A filha havia telefonado para a mãe para que ela viesse buscar o seu gato de companhia. Como depois disso não atendeu mais os chamados da mãe, essa contratou um chaveiro para abrir a porta.

Não sendo moradora do prédio, foi preciso a presença do síndico e dos policiais. Todo mundo já deve ter imaginado a cena que esse grupo encontrou quando arrombou a porta.
No Natal e no fim-de-ano, as pessoas que vivem sozinhas, como eu e quase todos meus vizinhos aqui no prédio, parecem ficar mais sensíveis e tentados a gestos mais ousados.

Depois passa, até porque a dor dessa gente não é notícia para os jornais.


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1 comentário em “A dor da gente”

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