O meu analista

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É a minha primeira sessão com o analista, o Dr. Fernando.

Ia custar quase a metade do meu salário, mas certamente valeria cada tostão  investido

Não era mais possível que eu não tivesse também um analista. No grupo todos tinham.

As conversas sempre começavam com alguma coisa relacionada à análise e aos analistas.

– Meu analista falou que devo controlar essa minha pulsão de morte.

– Meu analista está falando que vai a Europa e eu não sei como vou suportar a vida nessas suas férias.

– É da linha lacaniana, sim.

– Saí deprimida da sessão.

A partir de amanhã, eu também teria o que falar.

Mas, como devo me preparar para a sessão?

Pensei em fazer um roteiro para a minha apresentação.  Falar da minha infância. Aquela vez que minha mãe não deixou usar a camisa nova, que tinha ganho de Natal.

Isso deve ter sido importante na minha formação psíquica.

Certamente  gerou um trauma que prejudicou minha relação com as mulheres.

Será que devo falar em que ainda me masturbo as vezes?

Claro que não. Um homem com quase 30 anos se masturbando. O que o analista vai dizer de mim? Provavelmente vai rir da minha cara.

Vi um filme em que o analista pergunta pro Roberto de Niro, que faz um mafioso muito grosso, se ele alguma vez desejou sexualmente sua mãe e quase levou um safanão do De Niro.

Claro, era uma comédia. O analista não vai me perguntar nada. Pelo que entendi nas conversas do grupo, o analista em princípio não pergunta nada. Ele cobra uma fortuna só para ficar te olhando. Você é que tem que falar

Mas falar o quê? Nada aconteceu de importante na minha vida até agora.

Preciso urgentemente falar alguma coisa interessante pra ele quando estiver deitado no divã.

E se não tiver divã, como nos filmes?

Eu não quis perguntar diretamente para aqueles meus amigos que se analisam, se ainda tem divã, mas, pelo que entendi, alguns analistas (tem um amigo que fala que se trata com analisante) sentam numa cadeira na sua frente.

Pelo dinheiro que estou pagando, vou exigir um divã.

Mas agora é tarde para pensar nisso.

Basta bater na porta e entrar.

Fiquei sabendo que muitos analistas não tem secretárias.

O Adroaldo brincou dizendo que é para elas, quando encontraram um paciente na rua, não saírem gritando – lá vai o louquinho do Dr. Fernando.

Suspiro fundo, seja o que Deus quiser, mas me corrijo mentalmente, o analista em princípio é ateu e não é de bom tom, nem mesmo pensar em Deus;

Abro a porta e lá está ele, finalmente, o Dr. Fernando, O MEU ANALISTA.


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