O anjo

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Estou sentado no Matraca, saboreando lentamente cada prato do bufê. Primeiro o creme de cebola, adiante as saladas, depois a carne e a massa e como gran finale, o pudim de doce de leite condensado.
Mais do que aproveitar os 30 pilas que vou pagar no final, é preciso passar o tempo. Meu cálculo é gastar uma hora no restaurante. Quem como eu, é uma aposentado, vive sozinho, sem nada para fazer, precisa espichar todos seus poucos compromissos diários para ocupar as longas 24 horas do dia.
Estava pensando que, pelos meus cálculos precisaria gastar mais uns 40 minutos no restaurante e já tinha terminado a salada, quando o rapaz se aproximou da mesa e pediu para sentar na cadeira vazia à minha frente.
Era uma figura bem diferente das pessoas que frequentavam o local. Jovem, traços finos, longos cabelos louros, olhos azuis, maneiras delicadas, parecido com o Brad Pitt, daquele filme O Encontro Marcado.
Não sei se observei isso logo ou se foi depois que ele sentou, mas hoje, lembro dele exatamente assim.
Pensei logo: é um gay.
Dizem que os gays são pessoas inteligentes e de bom gosto. Então, confesso que pensei, se um gay estava olhando para mim, era um sinal que eu ainda era uma pessoa razoavelmente interessante.
O rapaz sentou na minha frente e a primeira coisa que disse foi:
– Eu não sou gay
Pronto, o cara agora lia pensamentos. Quem seria esse sujeito?
– Sou um anjo.
Era uma pegadinha. Devia ser um desses quadros humorísticos da televisão. Procurei alguma câmara oculta em algum canto do restaurante, mas não havia nenhuma.
– Você está aqui para comprar minha alma, tipo Fausto e Mefistófeles?
– Que bom que você já conhece essa história. Assim me poupa trabalho. Você faz um pedido, eu atendo e daqui a algum tempo eu veio lhe buscar.
– Mas na história, quem seduz o Dr. Fausto é um demônio e você diz que é um anjo.
– A história foi modernizada e depois anjo ou demônio, é tudo a mesma coisa. Então, fizemos negócio ou não? O que você quer?
– Vinte milhões para viver como um rei os próximos dois anos. Preciso visitar a China, a Índia, Israel, a África do Sul, Irlanda e Islândia, lugares onde ainda não fui. Quero ir de primeira classe pela Emirates, hotéis 5 estrelas. Ah…e isso é mais fácil e a rigor talvez nem precise de sua ajuda, quero ir a Ushuaia e Perito Moreno, aqui embaixo, na Argentina.
– Tudo bem
– E tem mais, não quero ir sozinho. Preciso de uma companhia feminina.
– Aquela moça ali?
Duas mesas adiante, aquela linda ninfeta, que até então não me dera um mísero olhar, agora sorri docemente na minha direção.
– É muito nova. Vão dizer que é minha filha ou pior, minha neta.
Do outro lado do restaurante, uma senhora – uma gorda patusca – olhava fixamente na minha direção
– Assim também não.
– Como é a mulher que você quer como companhia?
– A Isabelle Huppert, pode ser?
– Essa é difícil. Além de tudo é casada. Mas posso arranjar outra quase igual.
– E que fale francês. É um velho fetiche meu, que ainda não vivi.
– Tudo certo.
O anjo, Mefistófeles, seja lá quem for, escreveu alguns números na comanda do restaurante, dobrou o papel e colocou sobre a mesa.
– Precisamos pensar em não lhe causar problemas com o imposto de renda. No próximo dia 24 de novembro, um sábado, você vai jogar esses números na mega sena para ganhar sozinho os 20 milhões e no dia 6 de novembro de 2020 eu volto para lhe buscar.
Confesso que estava me divertindo com a história, mas se não fosse logo na mesa de doces, as outras pessoas acabariam com o pudim de leite condensado.
Então, não perdi mais tempo e parti em busca da sobremesa.
Quando voltei, o anjo tinha ido embora e o papel, meio amarrotado com os números, estava sobre a mesa. Estou com ele no meio das páginas do novo livro do Dr. Franklin Cunha para não esquecer de fazer o jogo no dia 24. Vá que o cara seja mesmo um anjo.


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