Todos estão mortos

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-Dorme bem, sonha com os anjos.
Eu nunca sonhei com os anjos.
O melhor seria sonhar com a vizinha do lado.
Isso, porém, eu não poderia dizer para a minha mãe. Ela achava a vizinha uma sirigaita. 
A vizinha era uma gringa forte, de pernas grossas, que tinha um filho da minha idade.
Que idade eu tinha? Acho que uns 4 ou 5 anos.
Será que com essa idade já se pensa em sacanagens?
A vizinha sentava num banquinho no meio do pátio, levantava a saia e metia cara do filho no meio das coxas, baixava suas calças e lhe dava um monte de palmadas. É com isso que eu queria sonhar: ficar com cara metida no meio daquelas coxas roliças.
Sonhar com anjos não tinha a menor graça.
Pelo que o padre Bombardeli contava nas aulas de catecismo, os anjos andavam sempre limpinhos, não diziam palavrões e viviam batendo suas asas em volta de um grande trono de ouro onde Deus sentava.
Pensar que esta cena pudesse durar mais do que horas, já deixava a gente assustado. Imagine então séculos e séculos. Os anjos sempre estiveram lá, limpinhos, sem dizer palavrões, batendo suas asas. E a gente não aguentava quieto mais do que 5 minutos na aula da professora Luiza.
Mas isso, foi mais tarde. Sete anos? Foi depois da varicela e antes de quebrar o dedão do pé. A vida parecia uma longa estrada que nunca terminaria.
Agora, pelo contrário, ficou curta, parece que vai terminar logo ali.
A mãe já morreu faz tempo, a vizinha sirigaita possivelmente também. Talvez até o filho que ficava com a cabeça no meio das coxas da sua mãe.
Engraçado isso. Virou uma obsessão pensar nesta gente que estava viva num momento e logo depois está morta.
Quando o jornal mostra aquelas fotos antigas, tipo Porto Alegre nos anos 20, e surgem aqueles homens de chapéu e bengala caminhando pelas ruas eu fico pensando que a maioria já morreu.
Maioria? Certamente todos.
Talvez aquele guri com roupa de marinheiro ainda viva.
Na foto, ele parece ter uns 10 anos. Se o ano é 1920, ele teria hoje quase 100 anos.
Quem vê a foto, nem imagina que isso pudesse acontecer. Muito menos, o garoto. Ele certamente estaria pensando em ficar assim a vida inteira, um garoto com roupa de marinheiro.


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1 comentário em “Todos estão mortos”

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