O que disseram Getúlio e Lula.

Quando o gaúcho Getúlio Vargas, nascido em São Borja,em 1882, se matou com um tiro no peito em 1954, no Rio de Janeiro, o pernambucano Lula, nascido em Caetés, em 1945, ainda não era conhecido por este apelido, tinha nove anos e se chamava apenas Luís Inácio da Silva.

Além de terem sido os presidentes do Brasil mais populares da história, os dois têm em comum uma habilidade política que nenhum outro político brasileiro mostrou até hoje e um repertório de frases incomuns.

Getúlio, segundo ele mesmo dizia, era capaz de transformar um inimigo político de hoje num futuro correligionário amanhã e disso deu provas várias vezes em seu mandato.

“Não tenho inimigo de quem não possa me aproximar nem amigo de quem não possa me distanciar.“

Lula não deixa por menos

“A paz está comigo desde que eu estava no útero da minha mãe. Eu não me lembro de ter entrado em uma briga”,

Homem da fronteira, criado nas lides do campo, Getúlio foi buscar no seu passado a melhor imagem para definir a paciência qual se deve tratar as questões políticas:

“Política é esperar o cavalo passar

Lula, ao contrário, chegou à política através do movimento sindical e quando na  Presidência, tinha pressa em resolver os problemas do País.

Não importa onde você está, e sim aonde quer chegar”.

Getúlio sempre se sentiu como merecedor do cargo que ocupava

Acabaram os intermediários entre o governo e o povo”

Lula, que também adorava as honrarias, as vezes fazia o papel de modesto.

Eu estou presidente. Mas sou mesmo é dirigente sindical.”

Getúlio se tornou Presidente em 1930 à frente de um movimento militar que representava as aspirações nacionalistas da oficialidade jovem do exército, contra o domínio dos conservadores paulistas e mineiros, mas logo conseguiu convencer seus antigos adversários, chamados pejorativamente de “os carcomidos”, que era a pessoa mais indicada para dar ao País uma estabilidade política que iria garantir a continuidade de seus grandes negócios.

Lula chegou à Presidência em 2002 pela via eleitoral, depois de três derrotas sucessivas, para Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso (duas vezes), vencendo no segundo turno a José Serra.

Para isso precisou se unir ao empresário José Alencar e seus evangélicos e justificou assim essa aliança:

Nós somos como Romeu e Julieta”

Getúlio agradou e desagradou sucessivamente aliados e adversários, jogando com as vaidades e o apetite de poder de cada um deles, para se manter no comando do País durante 15 anos. Flertou com o fascismo italiano e até mesmo com o nazismo alemão, mas acabou levando o Brasil a uma aliança com os Estados Unidos para combater as potências do Eixo.

Mas nada era feito sem uma contrapartida. Para o apoio aos americanos, cobrou investimentos que permitiram a construção de Volta Redonda.

Usava o poder da Presidência para conquistar as metas que se propunha, mas nunca se soube de que tirasse proveito pessoal do seu cargo, embora o mesmo não se possa dizer de outros componentes do seu governo e os amigos a quem protegia.

“Aos amigos tudo. Aos indiferentes, a lei. Aos inimigos, os rigores da lei”

Lula, apesar da ameaça dos empresários de haver uma debandada em massa dos capitais do País se ele ganhasse as eleições, fez um governo que promoveu um grande desenvolvimento econômico do País e no final se reelegeu facilmente, agora com o apoio de empresários e trabalhadores.

Para apaziguar as elites econômicas que ameaçavam deixar o País, Lula divulgou em 2002 a famosa Carta aos Brasileiros, onde procurava afastar sua candidatura da imagem de radicalismo.

“O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade.”

Quando tomou posse, disse qual era a sua principal meta de governo:

“Se no final de meu mandato cada brasileiro puder comer três vezes ao dia, terei cumprido a missão de minha vida.”

No seu segundo mandato continuou na sua política desenvolvimentista, gerando empregos para os trabalhadores e grandes negócios para os empresários.

Quando foi acusado de fazer alianças espúrias com políticos pouco sérios se socorreu da religião para explicar suas posições.

“Nunca fiz concessão política. Faço acordos. Se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria que chamar Judas para fazer coalizão.” 

Quando mais uma crise cíclica do capitalismo ameaçou as economias do mundo inteiro, fez uma frase pela qual é cobrado até hoje.

“Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar”.

Embora fosse uma unanimidade junto ao povo brasileiro, as elites nunca confiaram muito em Getúlio, nem ele, nelas.

Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.

 Eleito em 2002, Lula foi reeleito em 2006 e elegeu Dilma Roussef em 2010..

Sua liderança política era tão inconteste, que como Vargas havia feito em 1945 promovendo a eleição de um quase desconhecido general – Eurico Gaspar Dutra – bancou a candidatura de uma figura também quase desconhecida da política – Dilma Rousseff – para a sua sucessão.

“Em 2010, o governo federal estava com uma aprovação tão extraordinária, que eu elegeria qualquer pessoa que eu indicasse nesse país”.

Getúlio, como Lula, seria mais tarde, era um político que adorava o poder e a para justificar seu apego ao poder usava uma metáfora rural

“Quem não aguenta o trote, não monta o burro”.

Lula dizia ter outras razões para se sentir um homem realizado como Presidente.

Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do país. Como eu poderia não ser otimista?

Getúlio Foi derrubado em 1945 pelos mesmos generais que promovera durante seus quinze anos de governo, mas voltou cinco anos depois, quando numa manobra política de mestre, conseguiu o apoio dos dois partidos que criara, o PTB, representando os trabalhadores, e o PSD, dos conservadores mineiros e os coronéis nordestinos, isolando seus adversários abrigados na UDN.

“As vezes vencer é saber esperar”

Getúlio, no seu primeiro governo (1930/1945) foi um cético, capaz de fazer ironias com tudo.

“A constituição é como as virgens. Foi feita para ser violada”

Lula não votou a Constituição de 1988 e só foi explicar o porquê vinte e cinco anos depois

Votamos contra porque queríamos algo mais radical, que não foi possível. Assumimos o texto final porque o PT sempre teve responsabilidade com o País”.

Numa coisa parece que foram muito diferentes. Getúlio sempre foi um homem desconfiado.

No Ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.

Lula, pelo contrário, confiava nas pessoas e não esperava pelas traições que viriam depois

Eu e Palocci somos unha e carne. Tenho total confiança nele. Mexer no Palocci é a mesma coisa que pedir para o Barcelona tirar o Ronaldinho

Em 1954, Getúlio se suicidou no Palácio do Catete, deixando uma mensagem de luta para o povo brasileiro.

Deixo à sanha dos meus inimigos, o legado da minha morte. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Este ano, quando já estava condenado à prisão, Lula afirmou:

Eles não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus sonhos. Se não me deixarem andar, vou andar pelas pernas de vocês. Se não me deixarem falar, falarei pela boca de vocês. Se meu coração deixar de bater, ele baterá no coração de vocês. Não adianta achar que eu vou parar quando eu for preso, porque eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia.

 Como Getúlio Vargas, que voltou do ostracismo da Fazenda de Itu para o Palácio do Catete, nada impede que Lula possa, mais adiante, sair da prisão em Curitiba, para o Palácio do Planalto.

 

 

A hipocrisia da grande mídia

O jornalismo norte-americano sempre foi visto no Brasil como um modelo a ser seguido. Nas escolas de comunicação e nas redações dos nossos jornais, o New York Times e o Washington Post sempre foram apresentados como parâmetros de comportamento.

O livro de Gay Talese O Reino e o Poder, que conta a história do New York Times em centenas de páginas, se transformou numa bíblia para muitos jornalistas.

Apesar disso, uma coisa que sempre foi marca desses jornais americanos, não é seguida no Brasil, a opção clara e aberta por um dos candidatos nas eleições nacionais.

Em vez disso, nossos grandes jornais quase sempre optaram por uma pretensa imparcialidade.  Possivelmente porque seja mais fácil por lá escolher um lado, Democratas e Republicanos sempre foram lados de uma mesma moeda, o certo é que aqui, a mídia impressa se declara isenta em época de eleição.

Talvez, o último grande jornal brasileiro que não seguia esse modelo, tenha sido a Última Hora, criada por  Samuel Wainer para defender basicamente os interesses do PTB de Getúlio Vargas e João Goulart. Depois que o jornal acabou, na esteira do golpe de 64, todos os jornais brasileiros passaram a se declarar isentos em relação à disputa eleitoral.

Veja-se o que ocorre nessas semanas que antecedem à eleição presidencial de outubro.

Obviamente, ninguém é ingênuo para acreditar que essa imparcialidade seja real.

O fato de não assumirem publicamente uma candidatura, facilita a estes veículos um posicionamento ambíguo.

Enquanto a linha editorial oficial pode se dizer isenta, o noticiário é dirigido no sentido de favorecer o candidato (os) que esteja mais de acordo com o posicionamento do veículo.

Isso é feito, destacando ou minimizando, em textos e fotos, as atividades de cada um dos candidatos.  Tudo isso ainda poderia ser visto como uma tendência discutível que pode favorecer aleatoriamente “A” ou “B”, não fosse a presença  em cada um desses veículos  dos jornalistas de opinião que ocupam cada vez mais as páginas dos jornais.

São eles, no passado chamado de formadores de opinião, e que hoje se apresentam como “influenciadores”, que realizam esse trabalho de sapa contra os candidatos que o jornal não pretende ver como vencedores.

Aqui no Rio Grande do Sul, basta acompanhar as edições de Zero Hora no período eleitoral para ver como funciona esse sistema de apoio a um ou outro candidato, ao lado de um processo de destruição da imagem dos que devem ser vencidos, tudo isso sem abandonar a aparência de isenção.

Por tudo isso, surpreende, quando uma grande publicação nacional como a Revista Carta Capital, assume publicamente o apoio a uma candidatura à Presidência da República, no caso a de Fernando Haddad, do PT e PCdoB.

No editorial em que anuncia esse posicionamento, o Diretor de Redação da publicação, Mino Carta, diz que, “Carta Capital, conforme a tradição de publicações da Europa e Estados Unidos e da própria a esta altura, apoiou as duas candidaturas  de Lula e Dilma. Não há como imaginar, por enquanto, Lula saia da cela de 25 metros quadrados, banheiro incluso e volte à luz do sol, ou a ver as estrelas, como escreveu o já citado Dante. A partir desta edição, apoiamos  Fernando Haddad, candidato de Lula e nosso”

Abigail

 

Seu nome de batismo era Abigail e ele nunca gostou. O pai, colorado doente, escolhera o nome por causa daquela famosa defesa do Inter dos anos 40: Ivo, Alfeu e Nena; Viana, Ávila e Abigail.
Era um nome unissex, servia tanto para homem como para mulher. Chamavam Nadir, Jaci, Darci (a mulher do Getúlio Vargas se chamava Darci, com Y no final, mas o som era o mesmo do “i”), Duda, Abigail e quem respondia podia ser tanto um homem, como uma mulher.
Desde a época da escola, Abigail da Silva tinha vergonha em dizer seu nome. Nos consultórios médicos, quando alguém chamava em voz alta – Abigail, pode passar – ele tinha vontade de fingir que não era com ele.
Aos 50 anos, tomou a decisão, iria mudar de nome e apagar o Abigail da sua vida.
O Brizola não nascera Itagiba e depois trocara para Leonel? E isso deve ter mudado sua vida para melhor. Imagina na Legalidade se falar no governador Itagiba?
Estava decidido: iria deletar o Abigail da sua vida.
Foi um longo processo e ele gastou um bom dinheiro com advogados e cartórios, mas finalmente marcaram o dia para que diante de um juiz ele declarasse qual seria seu novo nome.
Aí, começou outro problema: que nome escolheria?
Parentes e amigos não paravam de dar sugestões. Parece que a cidade inteira transformou o tema em algo mais importante que as eleições. Pessoalmente, por telefone, por email, pelo facebook, choveram sugestões.
O tio Heráclito não abria mão de homenagear o velho PTB: Getúlio, Leonel ou Jango. Considerou Leonel uma boa possibilidade, com Getúlio tinha algumas divergências e Jango , explicou para o tio, era uma mistura de João com Goulart.
Tia Marieta sugeriu um nome americano da moda, alguém famoso , como Elvis, Jimmy ou Bob. O marido dela, o tio Fragoso, disse que um nome americano é sinônimo de poder, mas tem que ser alguém com mais força, como Lincoln, Kennedy ou Franklin. O primo Flaviano, filho do Fragoso e da Marieta, brincou: por que não Bush ou Trump? Trump da Silva. Esqueçam.
Tia Carina, que botava as cartas em Teresópolis, disse que o importante era a numerologia e melhor nome deveria ser Íccaro, assim mesmo com dois “cês” para atender o que dizem os astros.
Caso a mãe estivesse viva ia querer que fosse Alcides para homenagear o pai. Ele bem que merecia,mas Abigail não se sentia à altura do Velho. O pai sempre fora corajoso e revoltado, ele era medroso e conformado.
Rejana Becker sugeriu que se chamasse Werner em homenagem ao amigo. Não era uma má ideia, tinha dois amigos chamados Werner, o Becker e o Altmann. Mas e outros amigos, o Eloy, o João Batista, tão antigos como os Werners, como iam ficar?
Clau Rota sugeriu um nome francês para indicar uma boa formação cultural. Não era uma má ideia – Jean Paul, Blaise, Gustave, Honoré, Roger Martin . O problema era que poucos saberiam escrever corretamente seu nome.
Lá do Mato Grosso, o Dimiti mandou um telegrama: tem que ser um russo e comunista. Vladimir , disse ele. Vladimir, o nome de Lenin – quase bateu o martelo -mas aí surgiu outro problema: os caras vão sempre perguntar se é com “vê”, “dobre vê” ou “double u”?
Ingrid Schneider, sempre defensora das causas indígenas, sugeriu Kayke, Raoni ou Ubirajara. Gostou do último e foi ver o significado – “senhor da lança” ou “senhor da vara” – e achou que podia ter um segundo sentido meio inconveniente.
Vera Spolidoro lembrou que como tinha sido criado em lugares de colonização italiana, que tal Pietro, Giovani ou Enzo? Gostou do último e foi olhar o significado – Senhor do Lar – e desistiu. O que iam pensar dele.
O Barbosa, lá do Alegrete, que nunca desistia de homenagear os farroupilhas – todos seus filhos se chamavam Bento (Antônio Bento, João Bento…) – foi sucinto: Bento Gonçalves da Silva. Imagina o que diria o Mário Maestri se em vez de Abigial, se chamasse Bento Gonçalves da Silva.?
Uma antiga namorada mandou uma mensagem dizendo – que o meu marido não saiba, mas quando a gente tava junto ,lembra que eu te chamava de Amoreco.
Mas aí seria a desmoralização total – Amoreco da Silva.
No dia marcado para sacramentar o novo nome, compareceu diante do juiz e declarou sua escolha: Abigail da Silva.

Hasta siempre Fidel

Ao chegar ao poder em 1959, Fidel Castro (13/08/1926 – 25/11/2016) parecia ser mais um desses caudilhos latinos americanos que se erguem em armas para derrotar as oligarquias que se apossaram dos destinos de suas pátrias e que mal chegam ao governo, reproduzem essas práticas.

A simpatia que cercava os jovens barbudos de Sierra Maestra, logo começou a se desfazer entre os democratas liberais, que os apoiaram inicialmente, quando varreram de Havana a máfia corrupta que transformara o país num grande prostíbulo e se começaram a criar, a pouco mais de 100 quilômetros de Miami, um país que não aceitava mais a condição de colônia norte-americana.

Fidel Castro não pretendia reproduzir em Cuba o modelo de democracia representativa europeia, que muitos dos seus apoiadores iniciais, como Jean Paul Sartre, por exemplo, defendiam que deveria seu objetivo e deixou isso logo claro, quando levou para o ‘paredón’ os acusados de crimes contra a humanidade e prática de torturas durante o regime de Fulgência Batista.

Embora só em 1976 Cuba tenha inscrito em sua Constituição que era uma república socialista, desde o início, Fidel e seus companheiros imaginaram que poderiam desenvolver na ilha um sistema socioeconômico à margem do capitalismo, o que provocou desde logo a reação americana.

“É isso que eles não podem nos perdoar, que estejamos aqui, sob seus narizes, e que tenhamos feito uma revolução socialista debaixo dos narizes dos Estados Unidos”, disse Fidel.

O aprofundamento do caráter socialista da revolução cubana – o que de certa forma não estava incluído nos manuais marxistas – só foi possível porque a conjunção internacional no início da década 60, com o crescimento do poderio econômico e militar da União Soviética, assim o permitiu.

Apesar disso, o apoio soviético nunca foi pleno e, de certa forma, atendia mais aos interesses dos russos do que aos cubanos.

Em 1962, quando da crise dos mísseis, Nikita Kruchov negociou com Kennedy o desmantelamento da base soviética em Cuba em troca da retirada dos foguetes norte-americanos da Turquia.

Cuba, no caso, foi mais uma peça no xadrez da Guerra Fria, e Kruchov, como já tinha feito Stalin durante a guerra civil espanhola, enterrava mais uma vez a ideia da solidariedade internacional dos povos, em troca da preservação da experiência do chamado socialismo real na União Soviética.

Mesmo sem o apoio integral dos soviéticos, Cuba continuou tentando construir o seu modelo de socialismo, ainda que não sendo aquele sonhado por Marx, Lenin e Trotsky, se tornaria um modelo para às esquerdas latino-americanas.

Como disse uma vez Fidel, comparando Cuba com os demais da América Latina:

“Em vez de nos agredirem como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: como é possível que Cuba, em 30 anos, tenha feito o que a América Latina não fez em 200 anos?”

Em setembro de 2015, quando o Papa Francisco visitou Cuba, Fidel Castro deu a melhor justificativa para a Revolução Cubana:

“Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana.”

Essa é a grande diferença de Fidel dos demais líderes latino-americanos, que em algum momento da história dos seus países tentaram desenvolver um modelo político à margem do imperialismo.

Foi o caso de Allende, no Chile, derrubado por um golpe militar em 1973; de Lula, no Brasil; de Lugo, no Paraguai; de Correa, no Equador; de Morales, na Bolívia; e, até mesmo do casal Kirchner, na Argentina, que avançou em conquistas sociais para os mais pobres, mas que jamais contestaram o regime capitalista.

Quem mais avançou nesse caminho foi Chávez, na Venezuela, que, mesmo assim, precisou usar o adjetivo ‘bolivariano’ para o seu movimento e não socialista, talvez até mesmo para preservar seu regime.

Esse parece ser o grande problema dos líderes da esquerda latino-americana, que sonham com um socialismo democrático à lá europeia e não dão o passo seguinte rumo ao rompimento com o modelo capitalista.

Slavoj Zizek disse que os políticos que mais temem uma revolução socialista de verdade, são os socialistas democratas.

Istaván Meszaros foi mais preciso na análise dessa política de conciliação em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista:

“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda mudança legítima. A crítica só é admissível em relação a alguns detalhes menores, visando corretivos potenciais, que apenas remenda até certo ponto a estrutura da política parlamentar estabelecida, mesmo quando se torna impossível negar sua vacuidade, deixando inalterado o próprio processo, estruturalmente arraigado, de tomada de decisões.”

Com a morte de Fidel Castro, desapareceu o único personagem da história política da América Latina que teve a coragem de tentar fazer uma verdadeira revolução socialista.

Em homenagem a Fidel Castro, nada melhor do que reproduzir um texto do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano (As veias abertas da América Latina):

“Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.

E nisso seus inimigos têm razão

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História, que abriu o peito para as balas quando veio a invasão;  que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão; que sobreviveu a 637 atentados; que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em Pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus, que essa nova Pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida, mas obstinadamente alegre, gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.”

Todos estão mortos

-Dorme bem, sonha com os anjos.
Eu nunca sonhei com os anjos.
O melhor seria sonhar com a vizinha do lado.
Isso, porém, eu não poderia dizer para a minha mãe. Ela achava a vizinha uma sirigaita. 
A vizinha era uma gringa forte, de pernas grossas, que tinha um filho da minha idade.
Que idade eu tinha? Acho que uns 4 ou 5 anos.
Será que com essa idade já se pensa em sacanagens?
A vizinha sentava num banquinho no meio do pátio, levantava a saia e metia cara do filho no meio das coxas, baixava suas calças e lhe dava um monte de palmadas. É com isso que eu queria sonhar: ficar com cara metida no meio daquelas coxas roliças.
Sonhar com anjos não tinha a menor graça.
Pelo que o padre Bombardeli contava nas aulas de catecismo, os anjos andavam sempre limpinhos, não diziam palavrões e viviam batendo suas asas em volta de um grande trono de ouro onde Deus sentava.
Pensar que esta cena pudesse durar mais do que horas, já deixava a gente assustado. Imagine então séculos e séculos. Os anjos sempre estiveram lá, limpinhos, sem dizer palavrões, batendo suas asas. E a gente não aguentava quieto mais do que 5 minutos na aula da professora Luiza.
Mas isso, foi mais tarde. Sete anos? Foi depois da varicela e antes de quebrar o dedão do pé. A vida parecia uma longa estrada que nunca terminaria.
Agora, pelo contrário, ficou curta, parece que vai terminar logo ali.
A mãe já morreu faz tempo, a vizinha sirigaita possivelmente também. Talvez até o filho que ficava com a cabeça no meio das coxas da sua mãe.
Engraçado isso. Virou uma obsessão pensar nesta gente que estava viva num momento e logo depois está morta.
Quando o jornal mostra aquelas fotos antigas, tipo Porto Alegre nos anos 20, e surgem aqueles homens de chapéu e bengala caminhando pelas ruas eu fico pensando que a maioria já morreu.
Maioria? Certamente todos.
Talvez aquele guri com roupa de marinheiro ainda viva.
Na foto, ele parece ter uns 10 anos. Se o ano é 1920, ele teria hoje quase 100 anos.
Quem vê a foto, nem imagina que isso pudesse acontecer. Muito menos, o garoto. Ele certamente estaria pensando em ficar assim a vida inteira, um garoto com roupa de marinheiro.

A vez de Haddad

 

O atentado contra o Bolsonaro por um insano que diz ter obedecido uma ordem de Deus, mudou totalmente o panorama eleitoral  na disputa para a Presidência.

Em primeiro lugar, garantiu a presença do candidato do fascismo brasileiro no segundo turno – a menos que ele não sobreviva aos ferimentos, o que hoje  parece uma hipótese já afastada – e esvaziou as demais candidaturas de centro direita – Alckmin, Meireles e Álvaro  Dias – e deixou sem discurso os candidatos alternativos, como Marina,Boulos e Cabo Daciano.

Sobraram para enfrentar o Bolsonaro, apenas Ciro Gomes e Fernando Haddad, esse ainda necessitando de uma confirmação imediata do Lula.

É fundamental, que as esquerdas percebam que o ocorreu em Juiz de Fora vai polarizar o pleito entre esquerda e direita, tudo que os golpistas que afastaram Dilma – setores do Parlamento, do Judiciário, de toda a grande mídia e o imperialismo americano – não queriam que acontecesse.

É preciso nessa hora tornar claro para a população quais são os projetos em disputa em outubro para que os eleitores possam decidir com algum grau discernimento.

Por representar o único grande partido da esquerda organizado em todo o País, caberá ao PT comandar essa luta, propor os grandes temas a serem debatidos, saindo fora da discussão rasteira de quem é mais honesto e quem é mais valente para enfrentar os graves problemas do País que o Bolsonaro conseguiu emplacar.

Quinta feira,  num debate na Globo News, Fernando Haddad deu uma bela demonstração de que tem todas as condições de exercer esse papel.

Num programa, em que teoricamente seria sabatinado por jornalistas, enfrentou  um verdadeiro tribunal de inquisição,  formado por inimigos do PT, alguns razoavelmente articulados,  como Gerson Camarote e Cristina Lobo, outros raivosos demais para formular um pensamento  racional, como Miriam Leitão e Andréia Sadi e finalmente dois aparentemente entrados na senilidade,  como Fernando Gabeira (onde ficou  a pessoa que escreveu  O Que É Isso Companheiro?) e Merval Pereira.

Mesmo sendo constantemente aparteado, Haddad permaneceu sereno e com alguma ironia, foi desmanchando uma a uma as provocações do grupo de ativistas de direita, transfigurados em jornalistas e se mostrou uma pessoa extremamente preparada para ser o novo Presidente do Brasil.

Resta agora usar imediatamente os espaços da mídia e passar essa imagem aos eleitores.