O papel de Roosevelt

Qual foi o papel do presidente americano Franklin Delano Roosevelt na Segunda Grande Guerra?

Para a maioria dos historiados ocidentais,ele foi um democrata, defensor da paz e que ajudou a destruir o perigo nazista.

No seu livro A Formação do Império  Americano, o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira traça um retrato bem diferente de Roosevelt, dizendo que, por interesses econômicos, ele fez tudo para levar os Estados Unidos a participar da Segunda Guerra, contrariando a opinião pública americana que queria o país distante do conflito.

Em 1941, uma pesquisa Gallup mostrou que 88% do povo americano era contra a participação dos Estados Unidos na guerra da Europa.

Logo após o rompimento do conflito na Europa, fruto principalmente do choque de interesses econômicos entre a Alemanha e a Inglaterra, principalmente no que diz respeito ao domínio das colônias na África e na Ásia, os Estados Unidos se mantiveram oficialmente neutros.

Apesar dessa neutralidade formal, por ordens de Roosevelt, os Estados Unidos passaram a abastecer com todo o tipo de armas os ingleses, que depois disso nunca mais se livraram da dependência econômica americana.

Nos primeiros dias de agosto de 1941, Roosevelt foi ao encontro de Churchill  a bordo do couraçado H.M.S Prince of Wales, em Placentia Bay, quando lhe prometeu dar todo o suporte militar na guerra com a Alemanha, embora se recusasse a ajudar a Inglaterra a superar seus problemas financeiros.

Para Moniz Bandeira, isso já fazia parte da nova estratégia americana de enfraquecer a Inglaterra economicamente para depois da guerra se tornar o país dominador na Ásia e África.

No final da reunião foi emitido um pronunciamento conjunto, denominado a Carta do Atlântico, na qual se prometia “a destruição final da tirania nazista e o aparecimento de nações soberanas dentro de suas fronteiras”

Em suas memórias, Churchill comentou que achou espantoso que o s Estados Unidos, um país tecnicamente neutro, e alinhasse a uma nação beligerante ( a Inglaterra) em uma declaração equivalente a um ato de guerra.

Segundo Moniz Bandeira, a estratégia de Roosevelt para chegar a pretendida liderança mundial passava pela derrota total dos países do Eixo – Alemanha, Japão e Itália – pelo enfraquecimento econômico da Inglaterra e França, que se apoiava na exploração das colônias na Ásia e na África e pela divisão política da Europa de pós guerra em pequenos países economicamente fracos.

O primeiro passo nesse sentido seria forçar o Japão a declarar guerra aos Estados Unidos, o que levaria a Alemanha também ao conflito.

Para isso, recusou todas as tentativas dos japoneses de negociar algum tipo de acordo sobre os conflitos de interesse comum  na Ásia, deixando para eles a única alternativa da guerra.

Ainda de acordo com Moniz Bandeira, os americanos haviam quebrado códigos secretos de guerra dos japoneses e sabiam que um provável ataque ocorreria em Pearl Harbor.

Só não sabiam que ele ocorreria com a força destruidora que teve. De qualquer maneira ele foi o motivo para o início da guerra contra o Japão e logo em seguida contra a Alemanha.

Até o final da guerra na Europa, Roosevelt jamais aceitou negociar algum tipo de acordo com os generais dissidentes alemães para eliminar Hitler e formalizar uma proposta de paz.

Em vez disso, ordenou bombardeios brutais contra cidades alemãs que não tinham qualquer objetivo militar. Colônia, Dresden e outras cidades foram severamente atingidas. O bombardeio de Pforzheim, em fevereiro de 45, matou um em cada três habitantes, proporcionalmente  mais do que a bomba atômica que seria jogada em Nagazaki, em agosto, onde a taxa foi de um morto a cada sete habitantes

Ao mesmo tempo em que fazia a guerra,Roosevelt tratou de assegurar as bases materiais para a administração do mundo quando o conflito terminasse. Em junho de 44, a Conferência Monetária e Financeira de Bretton Woods, transformou o dólar,no lugar do ouro, no instrumento universal de trocas.

Roosevelt não chegou a ver a vitória de sua obra. Ele morreu 12 de abril de 1945,  cabendo ao seu sucessor, Harry Trumann, completar seu trabalho de destruição do inimigos, autorizando a explosão das primeiras bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki, cidades sem qualquer importância militar para o Japão.

Só uma coisa não deu certo nos planos de dominação mundial dos Estados Unidos, idealizados por Roosevelt: a vitória da  União Soviética sobre os nazistas, fazendo surgir uma grande potência militar em oposição aos Estados Unidos.

Tributo a um intelectual brasileiro

Como estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul nos primeiros anos da década de 1960, era um crítico, na medida em que meus conhecimentos permitiam, da maneira como os professores, quase todos extremamente conservadores, desenvolviam as disciplinas do curso. Basicamente, era quase que um mero registro dos fatos históricos, como já acontecia no grau médio do de ensino, acrescentado aqui ou ali de algum comentário de Gilberto Freyre ou de Capistrano de Abreu.

Embora a minha turma não fosse muito exigente na cobrança de novas fontes de informação, o quadro político que cercava a universidade naqueles anos era de grande efervescência e uma visão mais analítica dos fatos e não sua simples descrição começava ser cobrada por alguns alunos. Quase que como provocação aos professores, começávamos a lembrar os nomes da Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes como fontes a serem consultadas, além daqueles que tradicionalmente faziam parte das listas de referência.

Casualmente ou não, todos eles fazendo uma leitura – no caso da história do Brasil, com uma visão – em uns, mais e em outros, menos – impregnada da leitura de Marx. Entre 1961 – a Legalidade – e o golpe militar de 1964, o Brasil vivia um período de um extraordinário otimismo sobre o futuro do País, que parecia estar prestes a se tornar socialista. Bem, o tempo mostrou que não era disso que se tratava, mas, na época, estávamos convencidos que sim.

Foi nesse clima que conheci alguém que iria reconhecer sempre como o mais importante intelectual brasileiro, Jacob Gorender, numa série de conferências sobre o Humanismo Marxista, no antigo restaurante universitário da Rua da Azenha, ironicamente transformado em Escola da Polícia, depois do golpe de 64. Gorender não era ainda o consagrado escritor de ‘Escravismo Colonial’, de 1978, nem ‘Combates nas Trevas’, de 1987, mas já era visto como um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros.

Gorender nasceu em Salvador, em 1923, filho de judeu ucraniano pobre. Estudou no Ginásio da Bahia e, a partir de 1941, na Faculdade de Direito, curso que abandonou para lutar como voluntário da FEB na Segunda Guerra, na Itália. Ao voltar ao Brasil, se ligou ao Partido Comunista, ocupando importantes postos no seu comitê central, até abandonar o partido em 1967, por divergir da sua linha reformista, para fundar o Partido Comunista Revolucionário.

Como marxista, Gorender se alinhou com as teses de Lenin num grande debate que sempre dividiu os comunistas, ao dizer que a classe operária é possuidora de uma ‘ontologia reformista’ e não ‘revolucionária’, ao criticar o determinismo histórico, ao afirmar a importância dos intelectuais para a formação da consciência revolucionária e ao defender a necessidade do Estado na sociedade socialista

Como historiador, Gorender não se limitou a analisar o Brasil apenas sob a ótica do marxismo, como fizeram outros historiadores importantes, mas de certa forma inovou nessa matéria ao criar, além das categorias tradicionais do escravismo, do feudalismo, do capitalismo e do socialismo, uma nova forma de sociedade, que chamou de ‘escravismo colonial’ e que ele definiu assim: “A mistura de trabalho escravo e capitalismo mercantil (dominante na metrópole) criou uma sociedade peculiar. Os mercadores coloniais constituíam uma burguesia mercantil integrada na ordem escravista e tão interessada na sua conservação quanto os plantadores. Boa parte desses mercadores, aliás, se dedicava ao tráfico de escravos da África para o Brasil colonial e Imperial”.

Ao prefaciar a última edição do livro ‘Escravismo Colonial’, o historiador gaúcho Mário Maestri diz que “ao criar – conceitual e analiticamente – um novo modo de produção, o escravista colonial, Gorender não infringiu heresia ao materialismo histórico, mas, ao contrário, o reforçou enquanto metodologia aplicável para a análise de um sistema econômico que destoa dos que se desenharam na Europa analisada por Marx. O modo de produção escravista colonial era calcado em duas instituições que o determinavam enquanto modo de produção propriamente dito (os modos de produção são formados pelo conjunto das forças produtivas e pelo conjunto das relações de produção, na sua interação, num certo estágio de desenvolvimento. Simultaneamente designam as condições técnicas e sociais que constituem a estrutura de um processo historicamente determinado): a plantagem e a escravidão”.

Como diz com precisão, o meu amigo, o professor Maestri, Gorender não se limitou a usar os conceitos do Marx, mas usou a metodologia marxista para analisar um sistema econômico diferente daquele na Europa que Marx analisou. Assim como ele, existe, hoje, no mundo, um grupo pensadores que se preocupa em recuperar a ideia do comunismo como solução para um sistema capitalista em crise estrutural, a partir dos ensinamentos de Marx adaptados à realidade atual. Entre eles, estão nomes com Istvan Meszaros, Pierre Broué, Jean Jacques Marie, Slavoj Zizek, Jacques Rancierin e Alain Badiou.

Jacob Gorender não foi apenas um teórico. Quando a ditadura fechou todos os caminhos para um confronto democrático de ideias, ele se aliou à luta armada. No seu livro ‘Combate nas Trevas’, ele faz uma análise extremamente lúcida desse período. “Se quiser compreendê-la na perspectiva da sua história, a esquerda deve assumir a violência que praticou. O que em absoluto fundamenta a conclusão enganosa e vulgar de que houve violência de parte a parte e, uns pelos outros, as culpas se compensam. Nenhum dos lados julga pelo mesmo critério as duas violências – a do opressor e a do oprimido. É perda de tempo discutir sobre a responsabilidade de quem atirou primeiro. A violência original é a do opressor, porque inexiste opressão sem violência cotidiana incessante. A ditadura militar deu forma extremada à violência do opressor. A violência do oprimido veio como resposta.”

Jacob Gorender morreu em 2013, em São Paulo, com 90 anos de idade. Em 1999, sua importância como um grande intelectual foi reconhecida com a entrega a ele do prêmio Juca Pato por ter sido considerado o Intelectual do Ano.

Dublê de corpo

 

Fui ver na Sala Redenção da UFRGS, Dublê de Corpo, que Brian de Palma fez em 1984.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o cinema norte-americano se tornou dominador no mundo inteiro pela qualidade das produções geradas nos grandes estúdios de Hollywood.

A Metro, a Paramount, a Fox, a United e a Universal davam as condições técnicas e materiais para que grandes diretores tornassem realidade suas ideias. Kubrick Billy Wildner, Willian Wyler, John Ford e Hitchcock, entre outros, puderam produzir filmes memoráveis para a história do cinema apoiados e financiados por estes estúdios.

Brian de Palma, nascido em 1940, nunca foi uma unanimidade, mas tem em seu cartel filmes inesquecíveis, como Scarface, Carrie a Estranha, Os Intocáveis, Vestida para Matar e talvez o melhor deles, A Fogueira das Vaidades. No ano 2000, Missão em Marte foi um fracasso de público e crítica  e o afastou das grandes produções de Hollywood.

Esse ano produziu um filme de suspense na Dinamarca (Domino) e já está anunciando outro para 2019, no Uruguai, onde pretende usar o ator brasileiro Wagner Moura.

O filme que vi hoje – Dublê de Corpo – que ele roteirizou, produziu e dirigiu, é um dos menores em sua carreira, mas mesmo assim vale a pena assisti-lo até mesmo para comprovar a sua nunca negada intenção de recriar o estilo de Hitchcock.

Nesse filme até mesmo duas situações clássicas de Janela Indiscreta e um Corpo que Cai estão presentes. Do primeiro, De Palma, tomou a ideia do crime que ocorre sobre os olhos do voyer – James Stewart em Janela Indiscreta e Craig Wassan , em Dublê de Corpo. Do segundo, o problema físico que atrapalha nos momentos mais dramáticos dos filmes – a vertigem de Stewart em Um Corpo que Cai e a claustrofobia de Wassan, em Dublê de Corpo.

Filme cômico, de suspense,  pornográfico, de terror, Dublê de Corpo tem tudo isso em suas quase duas horas de projeção.

Para mim, não foi um tempo perdido.

Futebol no cinema

No Brasil, durante muito tempo chamado o País do Futebol, o nosso esporte preferido foi, entretanto, pouco utilizado no cinema para produzir dramas e comédias, ao contrário dos americanos, por exemplo, que já usaram dezenas de vezes o basquete e o basebol como temas para seus filmes.

Muitos documentários foram realizados no Brasil sobre Garrincha e Pelé, principalmente, mas poucos filmes de ficção.

Aliás, Pelé foi fazer nos Estados Unidos, junto com outros famosos jogadores, como Bobby Moore e Ardiles, em 1982, um drama de guerra, dirigido por John Huston, que conta a história de uma partida de futebol entre prisioneiros de campo de concentração e soldados nazistas, denominado A Fuga para a Vitória (Escape to Victory).

Fora isso, sobra pouca coisa, como Boleiros, de Ugo Georgetti de 1998 e Heleno, de José Henrique Fonseca, com Rodrigo Santoro, de 2011.

Enquanto isso, na Inglaterra, o futebol é tema de bons filmes, como esse Procurando por Eric, de Ken Loach.

O francês Eric Cantona, nascido em Marselha em 1966, é lembrado como o jogador do século do Manchester United da Inglaterra, onde atuou de 1992 a 1997.

Considerado um atleta temperamental, Cantona não chegou a jogar na seleção francesa, nas copas do mundo, porque em 1995 pulou o pequeno alambrado que cercava os campos de futebol na Inglaterra para bater num torcedor adversário.

Depois que o futebol acabou, ele se transformou em garoto propaganda de uma empresa de artigos esportivos e continuou a ganhar muito dinheiro.

Em 2009, resolveu aplicar parte desse dinheiro na produção de um filme, onde, obviamente o herói seria ele mesmo. O filme “Procurando por Eric” ( Looking fo Eric) conta a história de um carteiro inglês vivendo numa enorme crise financeira e emocional, que acaba encontrando a felicidade depois de ouvir os conselhos de Cantona, inicialmente apenas um grande pôster em seu quarto, mas que depois se transforma num personagem vivo que dialoga com o carteiro.

Para dirigir a história, o produtor Cantona buscou o talento do famoso diretor inglês Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes no ano de 2006 com o seu filme ”Ventos da Liberdade”, sobre a luta para a criação da República da Irlanda.

Considerado um artista totalmente engajado em temáticas sociais e mostrando sempre uma posição de esquerda, Loach faz em “Procurando por Eric” um filme que beira a pieguice e que não escapa de um happy end digno de Hollywood, talvez até por influência do produtor Cantona.

Mesmo assim é um filme que vale a pena ser visto, principalmente quando o diretor consegue trazer para a tela o clima de companheirismo entre o carteiro e seus amigos e pela sempre presente ironia inglesa nos diálogos entre os personagens principais.

Uma das cenas mais engraçadas do filme é quando um dos companheiros do carteiro, estimula o grupo a realizar um exercício ensinado num dos muitos livros de auto-ajuda que costuma roubar das livrarias. Cada um dos integrantes do grupo deve se inspirar num personagem famoso. São citados: Mandela, Fidel Castro, Gandhi, e, é claro, Eric Cantona.

Ao ser entrevistado por um jornalista, quando promovia o filme no Brasil, Cantona teve que responder a clássica pergunta: quem foi melhor – Pelé ou Maradona? Cantona não vacilou: Pelé foi um atleta extraordinário, mas como pessoa capaz de assumir riscos para fazer valer suas posições, Maradona foi muito maior.

Os negros e os árabes

A democracia para todos é ainda uma utopia perseguida pela humanidade. Na Grécia, onde a palavra foi inventada para caracterizar um governo onde a soberania seria exercida pelo povo, o conceito de povo não abrangia os escravos, nem as mulheres

Os ingleses têm uma tradição democrática de séculos, mas implantaram um sistema cruel de colonialismo na África e na Ásia, onde o exercício democrático era restrito aos brancos colonizadores.

Na África do Sul, por exemplo, seus descendentes perpetuaram um dos regimes mais excludentes do mundo, o apartheid, que negava aos negros os direitos democráticos mais elementares. Foi preciso uma longa luta, que conjugou ações políticas e também armadas, para que os negros pudessem construir um país, onde a mais importante conquista democrática, a igualdade racial, fosse respeitada.

Nelson Mandela, que hoje é reconhecido, até mesmo pelos antigos colonizadores, como um defensor da Paz, foi também o comandante militar do movimento Lança de uma Nação, o braço armado do seu partido o CNA.

A conclusão que se pode tirar é que mesmo um país que adote um sistema democrático interno para o seu povo, pode se transformar num algoz para outros povos e que, os que comandam a resistência desses povos contra os invasores vindos de um país democrático, mesmo sendo chamados de terroristas (Mandela foi condenado por ações consideradas terroristas) podem ser considerados heróis para seus povos.

Você lê sempre nos jornais que Israel é uma democracia que respeita seus cidadãos. Realmente é verdade. Israel tem uma das democracias mais estáveis do Oriente Médio. Pena, que seja apenas para os seus cidadãos. Os árabes, que viram suas terras tomadas pelos judeus, quando da constituição do Estado de Israel, não têm acesso aos mesmos direitos democráticos.

Pior do que isso: hoje sofrem a ação militar de Israel, que a pretexto de combater guerrilheiros, avança sobre um dos poucos pedaços de terra que ainda sobrou para os árabes da Palestina, a estreita Faixa de Gaza.

Os jornais ocidentais costumam chamar a  atenção para o fato de que em Israel as crianças têm educação e as mulheres não são obrigadas a sair à rua debaixo de panos pretos, certamente lembrando a burka que veste as mulheres árabes onde o fundamentalismo muçulmano é mais atuante.

Os brancos que comandavam a África do Sul também davam as suas crianças a melhor educação possível e desprezavam as mulheres negras que viviam nos guetos raciais das maiores cidades. Quando Mandela iniciou sua luta, a população da África do Sul era composta por dois milhões de brancos e oito milhões de negros;

Quando a ONU partilhou a Palestina, lá viviam 1milhão e meio de árabes e 600 mil judeus. Embora Israel defenda seus direitos históricos sobre a região, o certo é que os judeus só começaram a chegar a Palestina em grande número depois da Primeira Guerra Mundial.

Em 1917, o governo inglês, através de Lord Balfour, prometeu ao Presidente da Federação Sionista Britânica, o banqueiro Lord  Rothschild, que a Inglaterra apoiaria a criação na Palestina de Um Lar Nacional para o Povo Judeu, em troca do apoio financeiro da poderosa e rica comunidade judaica à guerra que os ingleses travavam contra o Império Otomano pelo domínio da região.

Foi este apoio e mais tarde as revelações sobre o holocausto do povo judeu na Alemanha nazista, que criaram as condições para o surgimento do Estado de Israel, ocupando uma grande parte das terras até então pertencentes aos árabes

Desde então, o Estado de Israel, cada vez mais comandando por agrupamentos políticos de direita, em lugar dos antigos fundadores do País, quase todos de origem socialista e trabalhista, tem se dedicado a negar aos seus vizinhos árabes os mesmos direitos que desfrutam o povo judeu, assim como faziam os brancos em relação aos negros da África do Sul;

Não é por acaso, que Israel foi um dos últimos países do mundo a condenar o apartheid, mantendo relações econômicas e políticas com a África do Sul até o final do seu governo racista.

Quem condenou o racismo dos nazistas contra os judeus, dos colonizadores brancos contra a população negra africana, tem que condenar também, o mesmo sentimento dos israelenses em relação aos árabes da Palestina.

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O Diabo está de volta

Depois de um longo período em que a Igreja Católica tratava o Diabo mais como um símbolo do mal do que como Lúcifer, o anjo decaído da história bíblica, surge um movimento para recuperar sua imagem tradicional, há muito esquecida pelos padres mais esclarecidos.
É a volta Diabo, também conhecido no Brasil por muitos nomes, como Satanás, Demônio, Capeta, Satã, Cornudo, Chifrudo, Belzebu, Cão Tinhoso, Anjo Mau e Príncipe das Trevas, para disputar com Deus e sua corte celestial, a fidelidade dos homens.
Enquanto o Diabo faz o seu retorno à cena religiosa, zelosos padres paulistas se preparam para as duras batalhas que se avizinham. Matéria publicada pela Folha, conta a história do esforço que estão fazendo alguns bispos e padres do interior de São Paulo para recuperar a prática do melhor remédio que a igreja criou para expulsar o Diabo do corpo dos seus fieis, o exorcismo.
Essa prática ganhou um maior conhecimento público depois do sucesso do filme O Exorcista,dirigido por Willian Friedkin, em 1973, baseado no livro de Willian Peter Blatty foi lançado em 1971 .
Um dos padres citados na matéria jornalística chegou a afirmar que “não crer em Satanás é um fato gravíssimo que tem consequências terríveis. É um pecado pelo qual são responsáveis, desgraçadamente, muitos homens da igreja”.
Monsenhor Rubens Zani, que se diz exorcista, tem uma história para justificar a importância dessa prática de enfrentamento às artimanhas do Demônio. Diz ele que, vivendo na África conheceu um atleta que vencia todas as provas: “ninguém o vencia, quebrava recordes, era uma coisa fantástica”, conta o monsenhor. “Depois de um tempo, o feiticeiro pediu para que ele jurasse de morte um familiar como uma homenagem ao Demônio. O escolhido foi o irmão mais novo, que teria morrido repentinamente. E o esportista continuou subindo na profissão. Depois, outro pedido de morte: o beneficiário do acordo deveria ceder a alma da mãe. Ele se negou. O sucesso acabou, e o material esportivo que ele tinha em casa virou cinzas”.
São histórias fantásticas como esta que alimentam a crendice das pessoas e fazem o sucesso de quem aposta no sobrenatural. Muitas vezes, porém, elas se transformam em tragédia como o ocorrido com Anneliese Michel, em Leiblfing, Alemanha, que morreu, em 1975, desidratada e malnutrida. Apesar de ter passado por instituições psiquiátricas, onde era tratada pela epilepsia que lhe causava constantes ataques convulsivos, a garota vinha sendo exorcizada, com a anuência dos seus país, depois que um padre identificou nesses ataques uma prova de que ela estava possuída pelo demônio. A Justiça condenou os pais e o padre, mas eles cumpriram suas penas em liberdade condicional. Essa história foi contada no filme O Exorcismo de Emily Rose, dirigido por Scott Derrrickson em 2005.
Prova de que a Igreja Católica está tratando o assunto com seriedade foi a realização, em Roma de um curso de exorcismos com o objetivo de “defender os fieis do Demônio e do perigo das seitas e do esoterismo”. O curso foi organizado pelo Instituto Sacerdos, com o patrocínio da Congregação Vaticana para o Clero, com a presença de muitos padres brasileiros.
Além da luta contra o Diabo, ficou implícito no programa do curso, a preocupação com o crescimento das igrejas pentecostais, que há muito se dedicam às sessões de exorcismos como um ritual comum em suas reuniões. Tratar o Demônio como um ente quase físico como fazem os pastores das igrejas pentecostais em suas pregações para fieis pouco instruídos, faz muito mais sucesso do que a metafísica presente até agora na maioria dos discursos dos padres católicos.
A prova do sucesso das igrejas pentecostais, no Brasil por exemplo, está no número cada vez maior de fiéis calculado pelo IBGE em mais de 20 milhões de pessoas. Só a Assembleia de Deus tem cerca de 8 milhões e meio de crentes, num processo de cooptação de novos adeptos turbinado pelo uso massivo dos meios de comunicação, principalmente a televisão
As igrejas pentecostais brasileiras se transformaram em produtos de exportação. Muitas delas já atuam no Exterior, tanto nos países vizinhos do Brasil, como também nos Estados Unidos e Europa.
Quem foi mais longe é a Igreja Internacional da Graça de Deus, do Missionário R,R, Soares ( o nome completo é Romildo Ribeiro Soares), que ocupa diariamente o espaço nobre da televisao e que, fazendo jus ao seu nome, tem 2 mil templos espalhados por 11 países, inclusive o Japão e África do Sul.
Se você estiver na República Tcheca, zapeando na televisão à procura de um programa que não seja na língua local, incompreensível para nós, brasileiros, corre risco de dar de cara com o Missionário R,R. Soares, dublado para o tcheco e certamente falando dos milagres que sua igreja realiza todos os dias, mas não esquecendo de cobrar os indefectíveis dízimos, obrigatório para todos os fieis.
Nessa hora em que as igrejas falam em exorcismos e milagres, o melhor que se pode fazer é lembrar os argumentos sempre tão lúcidos de Richard Dawkins:
“Quanto mais refletimos, mais percebemos que a própria idéia de um milagre sobrenatural não tem sentido. Se acontecer algo que pareça inexplicável pela ciência, podemos, com segurança, concluir uma dentre duas coisas. Ou não aconteceu realmente (o observador se enganou, mentiu ou foi logrado por um truque) ou estamos diante de algo que a ciência ainda não sabe explicar. Se a ciência atual encontra uma observação ou um resultado experimental que não consegue entender, não devemos descansar até que ela evolua o suficiente para encontrar a explicação.”

Quem faz a História?

Minha amiga Gisele Oliveira é apaixonada pelo Lula, tanto que foi a Curitiba só para dar um bom dia a ele. Outra amiga, Clau Rota diz que ele é um animal político. Carlos Laet de Souza chega ao extremo de classificá-lo como culto.

Sempre me pareceu inusitada essa cultura de endeusamento das nossas figuras históricas, mesmo na esquerda brasileira. Getúlio Vargas era o Pai dos Pobres, Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Leonel Brizola, foi o Deus e o Diabo aqui no Sul.

Se em 61, na Legalidade, tivesse ido até o fim, como pretendia e não tivesse sido traído por aquele acordão entre o Jango e os generais golpistas, articulado pelo Tancredo Neves, seria o quê hoje, o Brizola ?

Talvez o Pai dos Brasileiros, como Ataturk foi dos turcos.

Seria, o que o Chavez foi depois para a Venezuela, criando um governo popular e nacionalista como nunca tivemos. (Ou será que tivemos com o governo de Getúlio , entre 1951 e 1954?) Segundo Brizola, disse mais tarde, condições militares para impor um governo de esquerda em 1961 ele tinha. Mas Jango preferiu a conciliação, que custou três anos depois uma ditadura que durou 20 anos.

E como colocamos as grandes figuras, que de alguma maneira ajudaram a mudar a história do mundo nos últimos 100 anos? Lenin, Stalin, Hitler, Mussolini, Churchill, De Gaulle, sem eles a história teria sido muito diferente.

Ou, não? Outros fariam seus papeis?

Segundo a visão clássica do marxismo, “quando as relações de produção, num determinada sociedade, entram em contradição com o grau de desenvolvimento das forças produtivas, são geradas geradas rupturas políticas e institucionais. Abre-se, então, um período de mudanças históricas e nele projetam-se indivíduos capazes de exercer liderança e alterar o rumo da história, ao menos a curto e médio prazo”.

Quem mais se dedicou a essa linha de interpretação histórica do marxismo foi o russo Gueorgi Plekhanov (1856/1918), com o seu clássico livro O Papel do Indivíduo na História.  O que se constata – diz ele – é que o homem faz a história, mas a faz nas condições históricas colocadas independente da sua vontade.

Depois da bancarrota da União Soviética, muitos pensadores de esquerda se dedicaram a rever até que ponto a visão sobre o determinismo histórico de Marx ainda é válida.

Entre eles, o grande marxista brasileiro, Jacob Gorender, (1923/2013) que diz em seu livro Marxismo sem Utopia, “Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo”.

Qual seria a partir dessa nova visão marxista da História, defendida por Gorender, o papel que podemos esperar de Lula?

O desprezo pelo Outro.

Nos nossos discursos públicos sobre preconceito racial, feminismo, direitos das minorias, etc, somos politicamente corretos, assumindo posições aprovadas pelo consenso social, quando na verdade, intimamente, na maioria das vezes, somos indiferentes a eles, na medida em que poucos seres humanos nos importam realmente.

Slavoj Zizek conta no seu livro “Arriscar o Impossível”, uma passagem esclarecedora sobre isso. Numa roda de amigos, ao ouvir uma cantora de blues, ele comentou que pelo timbre da voz, deveria ser uma afro-americana, embora seu nome fosse muito europeu.  Imediatamente, foi taxado de politicamente incorreto ao identificar uma pessoa por suas características naturais, seja ela qual for.

Por isso, o manual de boas maneiras que todos devemos seguir à risca, impede que um negro seja chamado de negro, um judeu, de judeu, um careca, de careca ou um gordo, de gordo.

Para Zizek, existe por parte dos politicamente corretos, uma proibição completa de qualquer tipo particular de identificação, o que significa que o OUTRO deve ser entendido como uma abstração, como se já estivesse morto.

Zizek é um filósofo esloveno, com uma linguagem, às vezes, um pouco hermética, mas é fácil constatar como ele tem razão, quando pensamos na hipocrisia de alguns discursos em relação a causas nobres como solidariedade social e filantropia

Quanto mais distante socialmente a pessoa é de quem se comporta como sujeito, mais o discurso politicamente correto se mostra falso.

Somos solidários com os meninos presos numa caverna da Tailândia; nos revoltamos com a foto daquele bebê morto numa praia do Mediterrâneo, depois que o bote em que seus pais tentavam clandestinamente entrar na Europa, naufragou;  podemos nos emocionar até com aquele pequeno cachorro  abandonado,desde que isso esteja apenas nas páginas dos jornais ou nas telas da televisão.

Ao vivo e a cores, quando passamos, por exemplo, por aqueles farrapos humanos que vivem sob o viaduto da Borges, apressamos o passo e olhamos firmes para frente para não perder nenhum tempo. Afinal, pode até ser gente como nós, mas são fedorentos e até mesmo perigosos.

Nos parlamentos, nos tribunais, nas igrejas, nas reuniões sociais, as pessoas tratam de se identificar através de seus trajes e linguagem como pertencentes a um grupo social que merece ser respeitado.

Aqueles que não seguem essas regras são marginalizados e, como aponta Zizek, só recebem solidariedade formal, quando se tornam vítimas de uma situação, que escancara para toda a sociedade  a verdadeira discriminação social escondida atrás de algumas regras de conduta.

Os tribunais parecem formar o cenário ideal para essa representação do drama social em que vive o nosso País.

O réu de um crime de morte, principalmente esses que envolvem a chamada guerra do tráfico, é visto não como um ser humano a ser julgado pelos seus erros, mas quase como um monstro.

Está certo que o crime e o criminoso muitas vezes se confundem na mesma ação e fica difícil para os acusadores distinguir o ser humano do ato criminoso e a partir daí, ao exorcizar o crime, desrespeitem o pouco que resta – quando ainda resta – de dignidade do acusado.

Condenados a dezenas de anos de prisão, em masmorras medievais, jamais se recuperarão e para a maioria das pessoas – principalmente aquelas que professam a importância de ser politicamente corretas – isso pouco importa.

Trata-se apenas do OUTRO, algo que não nos diz respeito, como fala Zizek em seu livro.

Minha filha, Tatiana Kosby Boeira, como Defensora Pública, vive quase que diariamente essa situação e tem me relatado muitos desses casos.

Um deles, que me pareceu paradigmático, é de um réu reincidente no crime de tráfico de droga, condenado mais de uma vez a uma pesada pena e que no mesmo dia do seu julgamento, ainda no tribunal, recebeu a notícia que sua mulher, que vivia do honesto trabalho de professora, tinha sido assassinada por uma gang rival da que fazia parte o réu.

Seu único pedido, então, normal para qualquer ser humano, era uma autorização para poder assistir o enterro da mulher. Embora isso seja um direito de qualquer preso, muitas pessoas preferem enxergar nele, não um direito, mas uma concessão da sociedade, um ato humanitário que serve para justificar os bons sentimentos dos bem-nascidos.

Sensível ao pedido da Defensora Pública, o Juiz autorizou a saída do preso e determinou que a SUSEPE providenciasse a escolta necessária para acompanhar o preso.

O que aconteceu?

Nada

Provavelmente por razões burocráticas, a ordem não foi cumprida a tempo e como o enterro não podia esperar, o réu não se despediu da sua companheira.

Num mundo de injustiças permanentes contra os mais fracos, certamente os politicamente corretos não vão dar a mínima importância ao fato.

Afinal, ele era um bandido assassino, bem diferente de nós que não matamos ninguém, pelo menos por enquanto.

Então, para terminar, com  Zizek: o OUTRO, quanto menos nos incomodar, melhor.

Num outro contexto, na relação interpessoal, podemos lembrar também a famosa frase de Jean Paul Sartre – O inferno são os outros. Embora alguns queiram ler na frase, a ideia de que os outros são os culpados de nossos problemas, na ótica do filósofo francês,  o homem é responsável por tudo que faz e o inferno está no fato de possuir consciência disso.

Zizek e Sartre nos alertam apenas para o fato de que não podemos fugir dessa relação com o OUTRO e que por mais que queiramos fechar os olhos, ele está permanentemente rompendo a nossa tranqüilidade  para nos alertar sobre a sua existência.

Um filme e suas leituras

Animais Noturnos (Nocturnal Animals), de Tom Ford é um filme inteligente, para pessoas inteligentes. Então, não é um filme fácil. Pelo contrário, ele as vezes é bem difícil no sentido de que não diverte o espectador, não o poupa, nem da violência, nem do escatológico, não faz concessões ao politicamente correto.

A apresentação do filme, com as figuras de mulheres nuas e fisicamente repelentes, já provoca uma forte sensação de desconforto no espectador, comprometido esteticamente com certos valores que se convencionou serem os aceitáveis na sociedade burguesa.

A síntese do filme é simples: Susan (Amy Adams) é uma moça, filha de família rica, que se apaixona por um ex-colega de colégio do Texas, Edward Sheffield, pobre e sonhador, a quem reencontra anos depois em Nova York. A união entre os dois não dura muito tempo e ela retoma sua vida, agora como diretora de um museu de arte e casada com alguém da sua classe social. Subitamente, quando o vazio da sua nova vida se torna quase insuportável, Edward reaparece como autor de um livro, que de certa maneira é uma explicação e também uma mea culpa dele para justificar o fracasso da união entre eles.

Se a síntese do filme é simples, ele não é. Pelo contrário é profundamente complexo e oferece muitas leituras, ao se desenvolver em vários planos, tanto do ponto de vista de tempo, como de ambientações, embora eles estejam sempre se misturando.

Na medida do temporal, o filme nos conduz para o presente de Susan, charmoso, rico e ao mesmo tempo vazio; para um passado de sonhos e projetos de vida de Susan e Edward e para um terceiro tempo, ainda no passado e o mais importante de todos, mas irreal porque é apenas uma construção literária, onde Edward se transforma em Tony Hastings.

É no tempo literário de Tony, que a violência não é controlada pelas convenções sociais e explode totalmente livre e destruidora. Ao contrário do tempo presente de Susan, que nos é mostrado dentro de uma estética cool, o tempo de Tony, aparece com imagens poluídas, sujas, desagradáveis.

Em meio a personagens violentos, sujos, doentes e que praticam o mal como diversão, Tony tenta se redimir da fraqueza moral que o torna culpado de ter sido incapaz de defender o que lhe importa na vida (no caso, representado pela família), mas fracassa mais uma vez, da mesma maneira do que, quando era Edward na vida real fracassou no seu casamento com Susan.

Entre os homens violentos que agem desse modo como uma forma de buscar o prazer e de Tony, que busca a violência como uma maneira de se redimir de sua fraqueza, o filme introduz um personagem, o policial Andes ( Michael Shannon) que se vale da sua autoridade para punir os maus de uma maneira ascética, quase que como uma força da natureza que age livre de significantes morais. Não casualmente, ele é um homem terminal, com um câncer no pulmão e prestes a se aposentar.

Como nas sociedades atuais, ondes os guetos violentos, locais onde vivem os pobres e desajustados são mantidos longe das mansões onde vivem os ricos, no filme a violência dramatizada por Tony está longe do mundo onde vive agora Susan e a essa fronteira só poderá ser ultrapassada, de forma simbólica, quando ela se reaproxima de Edward, com a leitura do seu livro.

Uma das leituras do filme é de que, quando se abre mão de coisas que foram importantes para nós em determinados momentos da vida, devemos saber que esse caminho não tem retorno e que logo seremos cobrados por este ato.

Uma outra analogia possível que o filme nos oferece, é que ele pode ser visto como uma nova leitura da oposição entre capital e trabalho na atualidade.

O capital se tornou totalmente parasitário, nada mais produz de concreto e por isso é visualizado sobre o enfoque de uma arte decadente, escatológica até, consumida apenas por ricos, vazios de qualquer conteúdo de humanismo.

O trabalho se mostra pervertido pela violência e só pode se afirmar pela destruição dos símbolos da sociedade capitalista, como seus valores familiares e seus objetos de consumo, principalmente os automóveis.

Para contar essa história de encontros e principalmente desencontros, de pouco de amor e muito desamor, Tom Ford contou com grandes intepretações de seus atores, principalmente  Jake Gyllenhaal, que compõe os dois personagens, parecidos e diferentes ao mesmo tempo, Edward e Tony, de maneira extremamente convincente; de Amy Adams, muito bem no papel da intelectual, sempre crítica das convenções, mas que assim mesmo as cumpre com elegância e principalmente Michael Shannon, perfeito no papel do policial. Numa breve aparição, como a milionária mãe de Susan, Laura Linney, está ótima na lição de cinismo que dá à filha.

Enfim, o filme se presta a muitas interpretações e provoca reações diferentes, inclusive o daquela senhora que, na saída, ainda carregando nas mãos um enorme pacote de pipocas, dizia para o seu presumível marido: que filme chato.