O Bráulio

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São 7 horas da manhã. Chove e faz frio. Desço todo encapotado para fazer um exame de sangue num laboratório aqui perto, na Zona Sul. Quando ponho o pé na calçada, passa correndo por mim o Bráulio. Está de calção e camiseta. Quando já está alguns metros na frente, se volta e me faz um sinal que vai me telefonar.

O Bráulio deve ter a minha idade porque fomos colegas no Julinho. Nunca soube o que faz ou fez na vida, mas o certo é que ficou rico,  numa época. Tinha uma mansão na Zona Sul, mas a última vez que falei com ele, na saída de um jogo no Beira Rio disse que estava morando sozinho num apartamento de frente para o Guaíba, naquele edifício junto do Barra.

Quando fizeram aquela campanha de prevenção da AIDS, onde chamavam o membro masculino de Bráulio, apareceu numa entrevista naquele jornal dizendo que o seu pênis era tratado pelas mulheres com o apelido carinhoso de Nenê. Lembro que a matéria tinha o título calhorda de BRÁULIO TEM UM NENÊ. Coisa daquele jornal vagabundo.

O que o Bráulio estaria querendo comigo, agora?

À noite,ele me ligou,dizendo o que pretendia.

Estava organizando um movimento, segundo disse, em favor do macho, que precisava ser defendido dessa “onda de veados e sapatonas” que está tomando conta do mundo e sabia que eu tinha blog e podia ajudar.

– Eu fora, Bráulio, que não quero mais encrenca na vida.

Como há muito tempo não falava com ele, perguntei como ia sua vida. Foi aí que ele me deu o que chamou de “fórmula para viver 100 anos”.

– Acordo todos os dias às 6 da manhã e corro do Barra até a Praça da Tristeza. Ida e volta. Tomo banho frio e pego um café da manhã numa padaria, com  tudo que tenho direito. Leio – sempre o Zizek ou o Meszaros – até o meio-dia. Almoço no Matraca e depois descanso um pouco. À tarde, as vezes vou a um cinema, de preferência no Guion. Se tiver futebol na televisão, vejo um jogo, qualquer um e durmo cedo E tem outra coisa: duas vezes por semana, tenho relações sexuais com uma das minhas cinco amigas, cuidando para não repetir a mesma em seqüência.

Bom, esse é o Bráulio. Que ele corre todos os dias, é fácil de confirmar. Basta ficar atento aqui na Wenceslau cedo da manhã. Quanto ao restante, nunca acreditei muito nas histórias dele, mas vá que seja verdade.


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