A verdade e sua versão

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Quando criança, aprendi que as coisas importantes da política, por exemplo, só se tornavam verdade, quando publicadas no Correio do Povo.

– Deu no Correio – era o carimbo que nos garantia que o fato era verdadeiro.

Com o tempo, fui ficando cético e descobri que até mesmo o velho Correio não merecia tanto crédito assim e na medida em que essa primeira verdade se esvaiu, ficou o sentimento de que, como disse uma vez Marx, tudo que é sólido desmancha no ar.

A partir daí, tudo são versões.

Você pode escolher a sua verdade para justificar porque é de esquerda e não da direita, porque é colorado e não gremista, porque casou com a Maria e não com a Madalena, da mesma maneira que aquele seu amigo pode se justificar com a verdade dele por ser de direita, gremista e ter casado com a Madalena.

É uma ideia tentadora essa de imaginar que, salvo as nossas certezas, tudo que as outras pessoas dizem sobre filosofia, política, sexo, amor e futebol podem ser apenas versões pessoais dos fatos, nas quais não precisamos acreditar.

No folclore que faz parte da política, existe a versão ( e isso, também,talvez não seja verdade), que os mineiros seriam os mais matreiros de todos políticos brasileiros.

Essa pequena história seria uma prova:

Benedito Valadares, nos anos 40 ou 50, teria cunhado a frase “o importante não é o fato, mas a versão”, mas outro mineiro, José Maria Alkmin, o procurou para reclamar, “poxa Benedito, eu inventei essa história e você se apropriou dela e agora todos acham que ela é sua”. Resposta do Benedito: “o que prova que ela está certa”.

Mas foi o cinema americano quem melhor ilustrou essa história com o filme O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot  Liberty Valance), de John Ford, em 1962.

A história é recorrente nos faroestes: numa pequena cidade do oeste americano, chega o recém formado advogado Ranson Stoddard, interpretado por James Stewart, disposto a enfrentar os bandidos da região usando apenas a força da lei. Na cidade, ele vai encontra Liberty (a ironia do nome não é por acaso) Valance, um bandido a soldo dos criadores de gado, interpretado por Lee Marvin e Tom Doniphon, um caubói beberrão, que só acredita em resolver as questões com seu revólver.

Logicamente o papel de Tom é de John Wayne, parceiro dos grandes filmes de John Ford. Ranson e Tom, apesar das divergências se tornam amigos, ainda que disputem o amor da mesma mulher, a loira Hallye, vivida por Vera Miles. No final da história, o advogado, convencido que é incapaz de fazer respeitar os valores da civilização usando apenas a força das palavras e dos bons exemplos, decide enfrentar o grande malfeitor, Liberty Valance, num duelo no meio da cidade. Quando todos esperam que Ranson Stoddard, que aprendera a manusear a arma pouco tempo antes com Tom, seja o derrotado no duelo, um tiro certeiro na testa acaba com o facínora. O fato transforma o advogado num herói da cidade, mais tarde governador e senador

O filme começa e termina com ele, voltando à cidade, obviamente em companhia da esposa, Hallye, para o enterro do amigo caubói. Já como uma importante figura da política nacional, ele revela a um jornalista que quem matou realmente o facínora não foi ele e sim Tom Doniphon, escondido atrás de uma casa no momento do duelo.

A resposta do jornalista se tornou quase tão famosa quanto o filme: “Aqui no Oeste, quando a lenda é maior que a verdade, publica-se a lenda”.

 


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1 comentário em “A verdade e sua versão”

  1. Lacan: há três categorias para a interpretação de qualquer fato, situação, evento.
    ” O Simbólico, o Real e o Imaginário”.
    Ex: Árvore = símbolo.
    O Real é como a vemos com um tronco, folhas, flores ,frutos.
    O Imaginário dependerá que prévias experiências vitais, emocionais agradáveis, tramáticas, dolorosas foram gravadas em teu subjetivo ao ver uma árvore, ouvir a palavra , sentir o perfume de uma flor dela.
    A maioria das nossas interpretações da realidade, dependem e são influenciadas pelo nosso Imaginário.
    E tem ainda a visão em Paralaxe do Zizek, que o Pintaude gostou tanto.
    Tem um filme japa, acho que era Rashomon,doKurosava, mas em cinema não irei me meter com um cara como tu que sabe tudo ( e mais um pouco) sobre filmes. Acho que só o PF Gastal ( Calvero, lembras?) e o meu particular e saudoso amigo Romeu Grimaldi, poderiam terçar contigo.

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