PARA LER E PENSAR

A longa crise em que vive o sistema capitalista no mundo do inteiro desde a última década do século passado, tem levado inúmeros pensadores a voltar a cogitar de uma sociedade socialista como remédio para os males da humanidade.

Istvan Meszaros recuperou aquele famoso dito de Rosa Luxemburgo de há praticamente 100 anos, de que a opção ao socialismo é a barbárie, a qual Meszaros acrescentou ainda um adendo: na melhor das hipóteses.

Slavoj Zizek, Alain Bandiou e Jacques Rancieri, cada um a sua maneira, têm escrito e falado no mundo inteiro, alertando que o capitalismo, financeiro e globalizado, perdeu aquele vigor antigo de destruir o velho para construir o novo e hoje é apenas uma força que destrói a natureza e empregos no mundo inteiro, transformando milhões de pessoas em não-vivos ou semi- vivos.

Ao lado desses pensadores europeus, nessa análise, se destaca um brasileiro, Jacob Gorender, que infelizmente morreu em 2013, com o seu livro Marxismo sem Utopia, editado em 1999 pela Ática.

No livro, Gorender faz uma revisão de alguns conceitos de Marx, reforçando o papel do acaso nas transformações sociais e defendendo a impossibilidade de extinção do Estado, como propunha o autor do Manifesto Comunista.

Ele analisa o fracasso da experiência soviética a partir de duas variáveis: as dificuldades materiais da União Soviética, oriundas dos erros de sua política de planejamento econômico e a falta de democracia interna do país, onde o chamado “centralismo democrático” substituiu a participação popular em quase todos os seus níveis.

Apesar disso Gorender não é um descrente na possibilidade de reconstruir o ideal socialista a partir dos ensinamentos de Marx e Engels e mesmo das experiências dos mais de 70 anos de vida na União Soviética.

Diz Gorender: “Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo”

Para a consecução desse objetivo revolucionário, Gorender se aproxima de uma das teses fundamentais de Lenin, quando em 1917 dizia que o proletariado não estava ainda preparado para fazer a revolução, que deveria então ser liderada por intelectuais comprometidos com as aspirações dos trabalhadores.

As modificações profundas que ocorreram nas relações de trabalho desde o Manifesto Comunista, levou Gorender a sintetizar como poderá ser este novo mundo socialista:

Permanência da divisão do trabalho entre físico e intelectual, sob a hegemonia de assalariados intelectuais.

Socialismo como objetivo abrangido em uma única fase, deixando de lado a visão utópica de Marx sobre o comunismo.

Permanência do Estado, sob o controle socialista ao invés de sua extinção.

Um sistema de democracia pluralista no socialismo.

A combinação de planejamento e mercado na economia socialista.

Um poema e seus autores

Quando foi libertado do campo de concentração de Dachau, o pastor protestante Martin Niemöller publicou o seu famoso poema de crítica à alienação política dos alemães, principalmente a sua, que permitiu a consolidação do regime nazista.

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

Niemöller foi combatente na marinha alemã, durante a primeira guerra, chegando ao posto de comandante de submarinos, recebendo inclusive a Cruz de Ferro pelo seu heroísmo em combate.

Desmobilizado após a guerra, uniu-se ao grupo fascista dos Freikorps, durante a República de Weimar e apoiou decididamente à luta dos nacionais-socialistas de Hitler para chegar ao poder. Depois de estudar teologia, foi ordenado pastor para uma igreja protestante em Berlim, em 1931.

Simpatizante confesso de Hitler e ainda fortemente antissemita, Niemöller começou a se confrontar com os nazistas, quando eles tentaram criar uma Igreja Protestante do Reich, reunindo os chamados Cristãos Germânicos e eliminando as menções aos judeus feitas na Bíblia.

As diferenças teológicas entre Niemöller e os nazistas se transformaram numa ruptura quando ele passa liderar a chamada Igreja Confessional, que se proclama sujeita apenas a Jesus Cristo e o Evangelho e não ao Partido Nazista.

Em 1937 é preso, acusado de ameaçar a paz pública, mas só será julgado 7 meses depois, quando é condenado por um tribunal a uma pena equivalente à prisão preventiva que cumprira e por isso mesmo é libertado

No mesmo dia, por ordem pessoal de Hitler é preso novamente e conduzido para o campo de concentração de Sachenhausen e mais tarde de Dachau, de onde só sairá no final da guerra.

Será em Dachau, onde teve contato direto com outros prisioneiros judeus, que abandonará em definitivo o seu antissemitismo, sentimento expresso no seu famoso poema.

O poema serviria de inspiração para Bertold Brecht (1848/1956), o grande teatrólogo alemão, exilado desde 1933 em vários países europeus e finalmente nos Estados Unidos, fazer uma releitura do poema de Niemöller, dando-lhe uma conotação mais política.

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo

 Em 1964, quando a ditadura militar se instaura no Brasil e as perseguições políticas começaram, o poeta cearense Eduardo Alves da Costa, então um estudante adversário do golpe, publica um poema, provavelmente inspirado em suas leituras de Brecht.

.“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada”.

 Ao denominar seu poema de “No Caminho com Maiakovski”, Eduardo deu início a uma grande confusão.

Até hoje muitas pessoas pensam que o poeta russo Vladimir Maiakovski (1893/1930) seria autor do poema que iria inspirar Niemöller e depois Brecht, quando na verdade foram os dois alemães (o pastor e o dramaturgo) que inspiraram o poeta cearense e o russo, grande poeta, nada teve a ver com esta história.

Maiakovski, apesar de ter apoiado decididamente Revolução Soviética, não buscava inspiração em questões políticas.

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites.
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano.

O capitalismo em estado puro

Somente através da arte é que é possível representar todo o caráter amoral e aético do sistema capitalista.

Na vida real, ele se esconde atrás de representações positivas sobre o seu papel como impulsionador do desenvolvimento e se mistura com as ações dos seus agentes – os capitalistas – que como todos os seres humanos, têm qualidades positivas e negativas.

Sua essência é o lucro a qualquer custo e nessa busca, sua única barreira é aquela erguida por suas vítimas. Em tempos de relativa normalidade, ele contorna essas barreiras usando suas poderosas armas, que vão desde a venda publicitária de suas pretensas qualidades, buscando a conquista ideológica de suas vítimas, até a mais dura repressão, quando as resistências se tornam muito fortes.

Nos momentos de crise, ele assume a sua face mais cruel e predadora. O exemplo clássico dessa radicalização total foi dado pelo capitalismo alemão, na época do nazismo, quando transformou seres humanos em itens de produção, sugados até a sua exaustão total.

As mais notórias empresas colaboradoras dos nazistas foram a Bayer, a IG Farben, a Wolskwagen, a Siemens e Hugo Boss (fabricava os uniformes nazistas), além das filiais americanas na Alemanha, da Kodak, Coca-Cola, que durante a guerra produziu o refrigerante Fanta para os soldados alemães, a IBM e a Ford.

Todas elas, direta ou indiretamente, se utilizaram do trabalho escravo de prisioneiros dos campos de concentração na Alemanha, Polônia e Ucrânia.  Em determinado momento, quatro de cada cinco empregados da Voks, eram prisioneiros de guerra.

Mesmo assim, poucos associam o nacional-socialismo de Hitler à forma mais extremada do capitalismo, preferindo ver apenas seus aspectos mais distorcidos, como a perseguição racial aos judeus, quando sua essência estava em levar às últimas consequências o lema do lucro a qualquer preço.

Esse objetivo era buscado se utilizando duas regras de ouro do capitalismo: derrotar a concorrência e produzir ao menor custo possível.

O primeiro objetivo era obtido através das guerras de conquista e o segundo, usando a mão de obra totalmente escrava.

Hoje, até por força de resistências históricas dos trabalhadores oprimidos, o sistema capitalista assume uma forma mais civilizada, mas em determinados momentos, retorna às suas origens selvagens.

Aqui entra a função da arte.

Uma leitura mais atenta da série de televisão Narcos, divulgada no mundo inteiro pelo Netflix, mostra o capitalismo com a sua cara mais destruidora.

Ao lado dos produtos estritamente necessários à sobrevivência dos seres humanos, gerados nas fábricas do sistema em todo o mundo, existem outros, que a civilização tornou importantes para à vida moderna, da arte a itens de conforto pessoal, mas também uma enorme quantidade de objetos que só existem para manter a grande máquina capitalista funcionando.

Além dessas categorias, existem também produtos totalmente nocivos aos seres humanos, reconhecidos pela maioria das pessoas, mas que continuam a ser produzidos legalmente, como no caso dos cigarros.

Numa posição extrema, existe a grande indústria ilegal da produção e distribuição de drogas, que pelo seu caráter profundamente destruidor, é tratada como uma ovelha negra do sistema capitalista, mas que com seus poderosos tentáculos se infiltra em muitas outras atividades legais.

A percepção comum das pessoas é de que se trata de uma atividade totalmente marginal com regras próprias e geridas por criminosos totalmente desumanos.

Embora, talvez não fosse intenção dos seus criadores, a série Narcos, sobre o mega traficante colombiano Pablo Escobar, se transforma numa alegoria sobre como funciona o sistema capitalista.

Os grupos familiares de traficantes são verdadeiras empresas que buscam maximizar seus lucros e como agem à margem das leis, decidem seus litígios não nos tribunais, mas através de ações armadas. Curiosamente, vendendo um produto fruto da modernidade dos costumes, se apoiam em práticas do capitalismo mais primitivo.

Suas lideranças, começando pelo próprio Pablo Escobar respeitam costumes religiosos, são amorosos pais de família e se comovem com as dificuldades materiais de seus empregados. O assistencialismo que Pablo Escobar usa para buscar apoio das comunidades onde atua, é o mesmo que o capitalista moderno usa através de suas fundações e obras de benemerência.

Até mesmo o patrocínio de times de futebol, hoje usado a não mais poder pelas grandes empresas, era praticado por Escobar em relação ao Atlético Nacional de Medelin.

Hoje, diretamente ou através de prepostos, os empresários buscam assentos nos parlamentos para influenciar em suas decisões e não poucas vezes reivindicam os maiores cargos de suas nações – Donald Trump é o maior exemplo  –  tal como   Pablo Escobar, que foi deputado no parlamento colombiano e que sonhava ser presidente.

Narcos é um retrato do sistema capitalista despido de suas vestes mais coloridas e atraentes, exatamente como ele é na sua essência

Vamos falar de Stalin?

Quanto tempo será preciso esperar para se ter um distanciamento crítico que nos permita julgar com isenção um fato histórico e seus principais personagens?
A Revolução Russa já completou 100 e anos e um dos seus principais personagem, Iossif Vassarionovitch Dzhugashvili, ou simplesmente Stalin, morreu há 65 anos, mas tanto a revolução quanto um dos seus lideres, ainda servem hoje para motivo de controversias.
Quando a Revolução Russa de 1917 foi vitoriosa, inaugurando o primeiro sistema de governo assumidamente socialista no mundo, seus grandes arquitetos eram Lenin e Trotsky. Stalin era então um modesto coadjuvante nesse processo.
Nascido em Gori, na Georgia, até a vitória da Revolução, o cargo mais importante que ocupou tinha sido o de editor do Pravda (A Verdade) junto com Molotov, a partir de 1912, quando o jornal passou a ser editado em São Petersburgo.
Com a vitória da Revolução, Stalin aproximou-se de Lenin e lentamente foi assumindo cargos cada vez mais importantes na hierarquia do Partido Comunista, até se transformar no seu poderoso Secretário Geral a partir de 1922.
Logo após a Revolução de 1917 o país estava destroçado pela longa guerra contra a Alemanha, as invasões externas e pela resistência armada de grupos fieis ao antigo regime do Czar. Para enfrentar esta situação, Lenin e seus companheiros decretaram o chamado “comunismo de guerra”, com o confisco de parte das colheitas para distribuição de alimentos nas cidades e a estatização das indústrias.
Quando se deu conta de que esta política estava levando o país à ruína, com a quebra sucessiva das safras agrícolas e com a resistência dos camponeses em entregar parte de suas colheitas, Lenin lançou a chamada Nova Política Econômica – NEP – que de alguma forma fez retornar ao país determinadas práticas capitalistas, principalmente no campo.
No dizer de Lenin, era preciso dar um passo atrás para dar dois para frente, mais adiante.
Nesse momento, começam suas divergências com Stalin, que iriam se acentuar com a doença de Lenin e sua falta de condições físicas de assumir todas as responsabilidades pelo Estado, abrindo espaço para crescimento de Stalin dentro do Partido Comunista.
Lenin acreditava que o desenvolvimento do socialismo e depois do comunismo era um longo processo, onde a educação democrática das massas era condição vital.
Stalin imaginava que o processo precisaria ser acelerado com a transferência do poder das organizações de base do partido para o seu comitê dirigente e depois apenas para o Secretário Geral, excluindo os processos democráticos para a tomada de decisões como havia sido no início da Revolução.
Lenin pensava que a Revolução só se consolidaria com a vitória de revoluções socialistas em outros países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha.
Stalin já tinha abandonado este internacionalismo, passando a defender a ideia de uma revolução em só país.
Após a morte de Lenin, em 1924, Stalin foi eliminando, um a um, todos os seus opositores dentro da política soviética, até se tornar no seu único grande líder, posição que manteve durante mais de 30 anos.
Mesmo aqueles que estiveram mais próximos de Lenin durante a Revolução e com uma tradição maior nas lutas, primeiro contra o czarismo e depois contra os mencheviques, foram sendo postos de lado por Stalin, num processo onde não faltaram traições de todos os tipos.
Dessa forma foram expulsos da cena política figuras como Trotsky, Kamenev, Zinoviev e num episódio até hoje obscuro, o grande líder de São Petersburgo, Kirov.
O longo processo que começou com uma ditadura de classe, se transformou numa ditadura de um partido, depois de um grupo e finalmente de um só homem, Stalin.
Em 1928, ele termina com o NEP e inicia um processo de coletivização forçada da agricultura e lança os planos quinquenais de industrialização acelerada, que seus acusadores, inclusive Kruchov, que na época era o dirigente todo poderoso da Ucrânia, dizem ter causado a morte pela fome de milhões de camponeses.
Por ironia da história, foi, porém, este processo que permitiu a transformação do País numa potência mundial, capaz de enfrentar e derrotar os exércitos nazistas na Segunda Guerra Mundial.
Fora de qualquer dúvida, foi o Exército Vermelho, comandado com mão de ferro por Stalin e alimentado pela capacidade inesgotável de produzir tanques, aviões e todos os tipos de armamentos, quem conseguiu deter o avanço nazista, depois que as tropas de Hitler, conquistaram, praticamente sem grandes lutas, boa parte da Europa Ocidental.
Nessa ocasião, Stalin era um herói cantado em prova e verso não apenas pelos comunistas, mas por todos os homens que viram, com alívio, chegar ao fim o pesadelo nazista.
Aos poucos, com a “Guerra Fria”, as denúncias contra as políticas de Stalin se avolumaram e de herói, ele foi transformado num grande vilão.
Milovan Djilas, que tinha sido vice-presidente da Iugoslávia após a guerra e que mais tarde se transformaria num crítico ferrenho das experiências comunistas na União Soviética e na Iugoslávia, foi um dos primeiros a criticar Stalin no seu livro Conversações com Stalin (Editora Globo – 1964)
“Se adotarmos o ponto de vista da humanidade e da liberdade, a História não conhece déspota mais brutal e cínico do que ele. No entanto, se quisermos determinar a verdadeira significação de Stalin na história do comunismo, ele deverá ser considerado, por ora, o vulto mais grandioso depois de Lenin. Não construiu a sociedade ideal, mas transformou uma Rússia atrasada numa potência mundial e num império”.
Durante anos foi chamado de “O Guia Genial dos Povos”, mas a partir do famoso relatório de Nikita Kruchov, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956 ,passou a ser um demônio, alguém que, no dizer de Kruchov, “descartou o método leninista de convencer e educar e abandonou o a luta ideológica em favor da violência, repressões em massa e terror”
Essa nova imagem de Stalin como o gênio do mal ganhou espaço na mídia ocidental e foi repetida inclusive, ou principalmente, por comunistas arrependidos.
Durante alguns anos, após 1956, tudo era culpa de Stalin, até que com o fim do comunismo na Rússia, ela passou a ser dividida com Marx, Engels e Lenin, todos vistos como mentores do que a imprensa burguesa via como o fracasso inevitável de uma utopia socialista.
Contra Stalin sempre foram feitas duas acusações básicas: a coletivização forçada da agricultura no início da década de 30, que provocou milhões de mortos e os grandes expurgos das lideranças soviéticas em 1937.
A primeira acusação procede e Stalin mesmo a admitiu publicamente num encontro com Churchill, em Moscou, no ano de 1942.
Nas suas memórias, Churchill disse que provocou Stalin sobre o tema e que ele explicou que as populações russas sofriam ciclos periódicos de fome que matavam milhões de pessoas e que era preciso aumentar de qualquer maneira a produção de grãos no país.
“Precisávamos mecanizar nossa agricultura. Quando demos tratores aos camponeses, todos se estragaram em poucos meses. Só as fazendas coletivas, que tinham oficinas, conseguiam lidar com os tratores. Mas, os camponeses não aceitavam isso. Foi preciso usar a força. Milhões de pessoas morreram. Foi assustador e durou quatro anos. Foi tudo muito ruim e difícil, mas nós, não só aumentamos largamente o abastecimento de alimentos e afastamos o flagelo da fome, como melhoramos consideravelmente a qualidade dos grãos” teria dito Stalin para Churchill.
A outra acusação contra Stalin é ter eliminado seus adversários de maneira brutal e injusta.
Realmente, Stalin eliminou seus adversários, embora hoje fique claro para os historiadores que, desde que substituiu Lenin no comando da URSS, Stalin enfrentou ameaças de golpes permanentes dos seus adversários, incluindo Trotski, Kamenev, Zinoviev, Ovsenko, Preobrajnsky, Radek, Bukarin e o marechal Tukachevky, que certamente, se vitoriosos, também não teriam poupado sua vida, como parece ser hábito na história dos golpes internos da política russa desde a época dos czares.
O fim do regime comunista acelerou a devassa nos arquivos da União Soviética e os documentos dado à luz, pareciam a confirmar a imagem de Stalin como o traidor dos ideais dos antigos revolucionários, processo que Trotsky havia iniciado, quando comandou a oposição de esquerda a Stalin, ainda dentro da Rússia e depois nos seus vários exílios.
O inglês Simon Sebag Montefiore, no seu livro a Corte do Czar vermelho, deu o aval acadêmico a todas essas críticas, numa obra que mostra Stalin como uma figura diabólica, preocupado em se manter no poder a qualquer custo, urdindo intrigas que fariam invejas aos cortesãos das casas dos Medicis e dos Borgias, no Renascimento italiano.
Posição bem diferente é a do historiador italiano da Universidade de Urbini, Domenico Losurdo, falecido em junho último, em sua obra Stalin, a História Crítica de uma Lenda Negra (Storia Critica di uma Leggenda Nera),
Losurdo examina detidamente todas as ações de Stalin, desde sua ascensão à direção do Partido Comunista após a morte de Stalin, mas concentra sua análise no período mais crucial da vida na União Soviética, a partir dos planos quinzenais de desenvolvimento e da segunda guerra.
Mesmo que Stalin não seja um herói para o autor, o que fica da leitura do livro é que, sem ele, possivelmente o regime soviético não teria se consolidado a ponto de poder fazer frente à liderança exercida pelos Estados Unidos no mundo inteiro a partir do fim da segunda guerra
Na edição brasileira do livro, os editores incluíram um ensaio do professor Luciano Canfora, da Universidade de Bari sobre Stalin em que ele diz: “Stalin esteve do lado certo da história em três dos momentos mais dramáticos na vida da União Soviética: na paz de Brest-Litovsk, em 1918, quando se colocou ao lado de Lenin e contra Trotsky, em defesa de um acordo de paz de qualquer maneira; no pacto russo-alemão, em agosto de 1939 e no acordo de Ialta, em 1945.
O primeiro, garantiu a continuidade da experiência comunista na Rússia, em meio a uma guerra civil que não dava tréguas ao novo regime; o segundo, quando fracassaram todas as tentativas soviéticas de uma frente comum dos países europeus contra o nazismo, permitiu que o conflito envolvesse inicialmente as potências colonialistas (França e Inglaterra) contra a Alemanha, dando fôlego a União Soviética para se preparar para uma guerra inevitável; o terceiro, finalmente, definindo o respeito às fronteiras resultantes da guerra, assegurou um longo período de paz na Europa, que só hoje começa a ser desmontada.
No momento em que surgem no mundo inteiro intelectuais e historiadores dispostos a discutir novamente a opção pelo comunismo – como Istvan Meszaros, Slavoj Zizek ,Alain Badiou,Pierre Broué, Jean-Jacques Marie e Jacques Rancière, entre outros – conhecer as idéias de Stalin,uma das figuras fundamentais para a instauração de um sistema político que se assumiu pela primeira vez como uma ditadura do proletariado, segundo a definição de Marx, é muito importante. Quando mais não seja, para discordar delas.

O Bráulio

 

São 7 horas da manhã. Chove e faz frio. Desço todo encapotado para fazer um exame de sangue num laboratório aqui perto, na Zona Sul. Quando ponho o pé na calçada, passa correndo por mim o Bráulio. Está de calção e camiseta. Quando já está alguns metros na frente, se volta e me faz um sinal que vai me telefonar.

O Bráulio deve ter a minha idade porque fomos colegas no Julinho. Nunca soube o que faz ou fez na vida, mas o certo é que ficou rico,  numa época. Tinha uma mansão na Zona Sul, mas a última vez que falei com ele, na saída de um jogo no Beira Rio disse que estava morando sozinho num apartamento de frente para o Guaíba, naquele edifício junto do Barra.

Quando fizeram aquela campanha de prevenção da AIDS, onde chamavam o membro masculino de Bráulio, apareceu numa entrevista naquele jornal dizendo que o seu pênis era tratado pelas mulheres com o apelido carinhoso de Nenê. Lembro que a matéria tinha o título calhorda de BRÁULIO TEM UM NENÊ. Coisa daquele jornal vagabundo.

O que o Bráulio estaria querendo comigo, agora?

À noite,ele me ligou,dizendo o que pretendia.

Estava organizando um movimento, segundo disse, em favor do macho, que precisava ser defendido dessa “onda de veados e sapatonas” que está tomando conta do mundo e sabia que eu tinha blog e podia ajudar.

– Eu fora, Bráulio, que não quero mais encrenca na vida.

Como há muito tempo não falava com ele, perguntei como ia sua vida. Foi aí que ele me deu o que chamou de “fórmula para viver 100 anos”.

– Acordo todos os dias às 6 da manhã e corro do Barra até a Praça da Tristeza. Ida e volta. Tomo banho frio e pego um café da manhã numa padaria, com  tudo que tenho direito. Leio – sempre o Zizek ou o Meszaros – até o meio-dia. Almoço no Matraca e depois descanso um pouco. À tarde, as vezes vou a um cinema, de preferência no Guion. Se tiver futebol na televisão, vejo um jogo, qualquer um e durmo cedo E tem outra coisa: duas vezes por semana, tenho relações sexuais com uma das minhas cinco amigas, cuidando para não repetir a mesma em seqüência.

Bom, esse é o Bráulio. Que ele corre todos os dias, é fácil de confirmar. Basta ficar atento aqui na Wenceslau cedo da manhã. Quanto ao restante, nunca acreditei muito nas histórias dele, mas vá que seja verdade.

Você está sendo usado

 

Você já ouviu falar tantas vezes que vivemos num mundo globalizado; que o capitalismo financeiro, que faz a riqueza de poucos e a miséria de muitos, é ainda a melhor solução; que tudo é definitivo na repartição das riquezas da terra e que nada mais nos resta senão nos preocuparmos da nossa vida como indivíduos, sem pensar mais no restante da humanidade.

De tanto que esses argumentos são repetidos, você acaba se convencendo que esta é a realidade e pronto.

Você não pode mudar o mundo.

Então, esqueça.

Vá ao cinema, de preferência para ver um daqueles filmes produzidos com grande qualidade técnica em Hollywood (Sugestão: A Forma da Água, de Guilerme Del Toro, o ganhador do último Oscar); leia um livro da Martha Medeiros e comente com os amigos como ela escreve bem; assista uma novela da Globo e independentemente da história, enalteça o padrão de qualidade das imagens; enfim, divirta-se no fecebook com seus amigos (e alguns inimigos) virtuais.

Fazendo isso, você está ajudando a consolidar esse mundo globalizado, no qual, 1% dos ricos, detém 50% da renda, sobrando os outros 50% para serem divididos em 99% dos pobres, onde, sem qualquer dúvida, nós – você e eu – estamos incluídos.

Quem dá estes números é Thomaz Piketty, no seu livro O Capital no século XXI.

Depois, podemos falar um pouco mais do livro, mas vamos voltar agora ao  facebook.

Quando Marx escreveu O Capital, a versão original, não poderia imaginar que o capitalismo chegaria a esse grau de evolução. A sua tese central, de que o capitalismo cresce através do lucro originário da mais valia, o trabalho não pago aos operários, continua verdadeira, mas ficou muito mais difícil de ser explicada.

O trabalhador, o operário da fábrica, aquele revolucionário que Marx, Engels e depois Lenin, viam no final do século XIX e no início do século XX, existe hoje, apenas nas grandes unidades de produção que o tal capitalismo globalizado espalhou pela Ásia principalmente. São os chamados países de mão de obra barata, eufemismo para trabalho escravo.

O que vemos hoje, são trabalhadores, que não acreditam nas lutas de classe; que não se consideram mais operários, porque vivem dispersos por pequenas unidades operacionais, alguns mesmo produzindo sem sair de casa, sem quaisquer vínculos com os demais trabalhadores, e – o que é mais perturbador – são trabalhadores com uma nova ideologia, a da classe dominante.

Se consideram integrantes de uma porosa classe média e introjetaram os valores que os poderosos (aquele 1% , citado antes) dizem ser universais: democracia, meritocracia, etc e tal) e jamais – e isso é fundamental – se julgam vítimas da exploração social do sistema capitalista.

Pelo contrário, falam que são anticomunistas e esperam, com sinceridade, pelo seu esforço, inteligência e dedicação, chegarem, senão naqueles um por cento dos infinitamente ricos, pelo menos bem perto.

Segundo Piketty, este é um sonho cada vez mais improvável, porque passado aqueles chamados “30 anos gloriosos” de 1960 a 1975, quando o capitalismo cresceu extraordinariamente e suas migalhas caíram da mesa e iludiram os que ainda hoje sonham com o chamado “estado do bem estar social”, o milagre terminou.

Há muito, ainda de acordo com Piketty, o chamado sistema democrático, meritocrático e igualitário, acabou.

Mas, vamos voltar mais uma vez ao facebook para dar um pequeno exemplo de como o sistema capitalista funciona hoje na sua área mais moderna, quase futurista, a da internet.

Facebook, a maior rede social do mundo, faturou no primeiro trimestre desse ano, 11 bilhões 795 milhões de dólares, o que significou para a empresa de Mark Zuckerberg, um lucro de 4,99 bilhões de dólares, 63% a mais do que no mesmo período de 2017. Ao nos associarmos ao facebook, revelamos uma série de informações sobre nossa vida pessoal (são 2 bilhões e 200 milhões de usuários ativos no mundo inteiro) que vão formar um imenso banco de dados, vendidos para anunciantes. O irônico é que ao se registrar como participante da rede você é informado que o facebook é gratuito e sempre será, quando é você que cede gratuitamente para a rede a mercadoria mais valiosa hoje, seus dados pessoais.

Assim não se surpreenda mais e fique se perguntando como é que eles sabem que estou pensando em viajar para Beijing e ficam oferecendo pacotes turísticos com as maravilhas da China.

Eles sabem tudo a seu respeito, mais até que você imagina.

Como isso vai acabar?

Para Piketty, a solução seria um rearranjo do capitalismo, com um imposto progressivo, quase um confisco das maiores riquezas.

Como ele não é um pensador da esquerda, mesmo quando critica o modelo capitalista, só vê essa alternativa do imposto progressivo, embora reconheça que mesmo ela, é difícil de ser viabilizada.

Seria aquela velha alternativa de dar os anéis para preservar os dedos e essência do capitalismo é querer cada vez mais, mesmo que isso possa trazer a sua destruição.

Para István Meszáros, a alternativa é outra nesse século XXI:

Socialismo ou barbárie.

Jorge Semprún e a violência do oprimido

A violência do oprimido contra o seu opressor, ainda que lamentável, é moralmente justificável. Quando a imprensa dá destaque a três ou quatro vítimas civis em Israel, de um foguete lançado da Faixa de Gaza, devemos lamentar estas mortes, mas não podemos esquecer que, ao lançar seus foguetes, os palestinos estão apenas revidando os maciços ataques de Israel contra a população civil de Gaza, que costumam causar milhares de vítimas

No seu magnífico livro de memórias sobre a sua prisão no campo de concentração de Buchenwald, nas proximidades de Weimar, “A Longa Viagem”, (Le Grand Voyage, Editora Arcádia, Lisboa, 1963), Jorge  Semprún Maura (Madrid, 10/12/1923 – Paris, 07/06/2011 – Escritor, político e roteirista cinematográfico)   narra um exemplo dramático do dilema de um combatente.

É fácil odiar o inimigo quando ele faz parte de um todo maligno, no caso de Semprún, os nazistas das SS, mas muito difícil quando ele é encarado como um indivíduo.

Após a libertação do campo de concentração e a fuga das SS, Semprun permaneceu algum tempo ainda no campo a espera de que fosse providenciado seu retorno à França. Durante os dois anos em que permaneceu preso no campo, ele pode ver que no seu entorno havia uma povoação e algumas vezes, pode vislumbrar seus moradores ao longe.

Logo que pode deixar a prisão, ele resolveu visitar esta pequena vila. Encontrou quase todas as casas fechadas. Uma delas logo lhe chamou a atenção. Era uma casa de dois pisos e ele percebeu que da varanda do segundo andar, as pessoas praticamente podiam ver tudo que se passava no interior do campo.

Ele bate na porta e depois de longa espera é atendido por uma velha senhora. Como falava bem o alemão, ele pede para entrar e chegar à varada. A dona da casa o acompanha em silêncio, até que ele pergunta, apontando para as chaminés do crematório, que ainda podiam ser vistas do lugar onde estavam agora

– O que senhora imaginava que estava acontecendo, quando via uma fumaça saindo daquelas chaminés.

A mulher que até então não parecia assustada, estremece bruscamente e diz:

– Os meus dois filhos morreram na guerra.

Diz Semprún:

“Lança-me como pasto os cadáveres dos dois filhos, protege-se atrás dos corpos inanimados dos seus dois filhos mortos na guerra. Procura fazer-me acreditar que todos os sofrimentos se equivalem que todos os mortos pesam o mesmo”

“Mas os mortos não pesam todos o mesmo, está claro. Nenhum cadáver do exército alemão pesará jamais o peso da fumaça de um dos meus camaradas mortos”.

Mesmo assim, ele vacila

“Não tenho forças para lhe dizer que compreendo a sua dor, que respeito a sua dor. Compreendo que a morte dos seus dois filhos seja para ela a coisa mais atroz, a coisa mais injusta. Não tenho forças para lhe dizer que compreendo a sua dor, mas que estou contente por seus dois filhos estarem mortos, isto é, estou contente que exército alemão esteja esmagado”.

Hoje, numa cômoda posição de observador, longe do conflito no Oriente Médio, é fácil e talvez seja o politicamente correto, lamentar a morte tanto de judeus como de árabes, mas – como fez Jorge Semprún – é preciso ter coragem para separar opressores de oprimidos e saber que Israel faz com os palestinos algo parecido com o que os nazistas fizeram na Rússia, na Ucrânia, na Polônia e mesmo na França, usando a força bruta para tomar suas terras, expulsá-los de suas aldeias e impedir que tenham acesso às fontes de água doce, cruciais para a sobrevivência naquela árida região e que, portanto, todas estas mortes não iguais.

Nossa imprensa oscila entre duas posições, ambas criticáveis: ou é decididamente a favor de Israel, justificando todas suas agressões contra os palestinos, ou fica naquela cômoda posição de condenar o que chama de “excessos” dos dois lados.

Se ainda estivesse vivo, Jorge Semprún certamente diria com clareza que sempre teve nos seus livros, que mesmo lamentando todas as mortes e compreendendo a dor dos parentes dos mortos, há uma diferença crucial entre ação do agressor que mata e o agredido, que revida, também matando.

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Um teste para a sua ética

Você se considera “uma pessoa do bem”, incapaz de fazer qualquer maldade para seu semelhante?

Então responda a seguinte questão hipotética: você é um judeu e está preso no campo de extermínio de Auschwitz e para adiar a sua morte, aceita participar de um “Sonderkommand”, grupo de judeus utilizados pelos nazistas para os trabalhos mais sujos do campo.

Sua tarefa é acionar a chave que vai lançar o gás letal dentro de uma câmara para matar centenas de judeus, homens, mulheres e crianças.

O que você fará?

Aciona a chave, matando todas essas pessoas, pensando que não é culpa sua e que se não fizer isso, outro fará no seu lugar?

Recusa matar essas pessoas e corre o risco de se imediatamente morto pelos nazistas?

Essa parece ter sido a grande questão moral que o nazismo colocou para a nossa civilização, quando todos os seus crimes foram descobertos e as pessoas começaram a se perguntar como isso foi possível.

No julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, no ano 1961, Hannah Arendt, que acompanhou todo o processo, escreveu um comentário que ficou famoso: “é a banalização do mal”.

Ninguém era culpado. Todos obedeciam ordens superiores.

Três meses após esse julgamento, o professor e psicólogo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, Stanley Milgram, iniciou suas pesquisas para tentar responder a seguinte questão: pode Eichmann e seus milhões de cúmplices estar apenas seguindo ordens, sem o livre arbítrio de escolha?

A experiência, feita com 40 voluntários simulava uma relação “professor” e “aluno”. O professor fazia perguntas e quando o aluno errava, devia ser castigado. Só que o castigo era um choque elétrico, aplicado por um voluntário, que ia aumentando de intensidade a medida que o aluno errava as respostas. O aluno era um assessor de Milgram, que aparentava sofrer fortes dores após cada choque e seu queixava da sua condição de ser cardíaco.

O que Milgram queria saber era até onde os voluntários da experiência suportariam ser o agente provocador da dor em outra pessoa, ao obedecer uma ordem, mesmo se defrontando com uma questão muito menos dramática do que aquelas vividas pelos prisioneiros de Auschwitz.

O equipamento gerava choques que iam de 15 volts, choque leve, a 450 volts, choque muito forte.

Dos participantes, 65% foram até o limite de 450 volts e todos foram ao menos até 300 volts, quando se recusaram a continuar.

Disse mais tarde, Milgram:

‘Eu projetei um experimento simples em Yale para testar quanta dor um cidadão comum estaria disposto a infligir em outra pessoa, porque um simples cientista deu a ordem. O acatamento a ordem da “autoridade” falou mais alto que a dor da “vítima”. A extrema disposição de pessoas adultas de seguir cegamente o comando de uma autoridade é o resultado principal do experimento, e que ainda necessita de explicação’’.

Mais informações:

  • Obviamente, embora as cobaias, como “professores”, acreditassem que estavam provocando choques no “aluno” que fez o papel de vítima (para dar credibilidade ao experimento, ele foi submetido a um pequeno choque inicialmente) ele, na realidade, não recebeu nenhum choque
  • Edward Milgram era um judeu, que nasceu 1933 e morreu em 1984, em Nova York. Foi PHD em Psicologia Social pela Harvard University.
  • O filme O Experimento Milgram (Experimenter) dirigido por Michael Almereyde, com Peter Sarsgaard no papel de Stanley Milgram, quase um documentário, está disponível no Neteflix.

O que fazer com os velhos?

Nas últimas páginas do livro Le Thibault, de Roger Martin de Gard, o personagem principal, Jacques Thibault, tenta um ato desesperado para interromper a Primeira Grande Guerra que começava entre a França e a Alemanha: a bordo de um pequeno avião, lança panfletos pedindo aos soldados que deponham suas armas.

O avião é abatido, e Jacques, muito ferido, é resgatado por uma patrulha de soldados franceses.  Durante algum tempo, ele é carregado nas costas pelos soldados. Inerte e sem qualquer reação física, ele é apelidado pelos seus salvadores de Pacote. Em determinado momento, o soldado que carrega Jacques às costas, começa a ficar para trás dos seus companheiros e pergunta desesperado o que fazer.

– Larga o Pacote, respondem os outros

Sem olhar para trás, ele larga o Pacote num canto qualquer e corre para alcançar seus companheiros.

Essa sempre foi uma dúvida para a humanidade, o que fazer com seus velhos, doentes, deficientes físicos e loucos?

São os novos pacotes, sem serventia na guerra e na paz.

A resposta mais desumana e perversa foi dada na Alemanha nazista com o desenvolvimento de um terrível plano de eugenia humana. Não eram apenas com os judeus, os ciganos, os polacos, os comunistas e os homossexuais que Hitler queria acabar.

Acreditando na falácia da raça pura, ele e seus asseclas pretenderam acabar com todas as pessoas que nasceram com deficiências físicas ou mentais ou que as adquiriram na velhice.

Joseph Mengele, que conseguiu fugir da Alemanha depois da guerra e veio a morrer no Brasil vinte anos mais tarde, era o grande teórico e também o terrível prático dessas medonhas experiências.

Adepto da eugenia, sua tese de medicina em 1939 já revelava suas preferências, um estudo de famílias sob o ângulo da fissura lábios-maxilar (lábio leporino). Alistado mais tarde na Waffen SS, realizou pesquisas a partir de1943, subvencionado pela Deutsche Forschungs-gemeinschaft (Comunidade Alemã de Pesquisas) em Auschwitz-Birkenau, principalmente sobre patologias hereditárias.

Mais do que pesquisas, foi responsável por experiências terríveis com seres humanos, como a sua tentativa de fabricar siameses, atando entre si, cirurgicamente as veias de dois gêmeos ou a de injetar substâncias químicas nos olhos de bebês na tentativa de mudar sua coloração.

No seu livro A Parte Obscura de Nós Mesmo, Elizabeth Roudinesco diz que Mengele tinha paixão pelos anões.

“Sentia prazer em selecioná-los pessoalmente entre famílias inteiras, obrigando-os a se maquiar e se vestir de maneira grotesca a fim de reinar no meio deles, qual um monarca de opereta, cigarro na boca, deleitando-se em observá-los durante horas. À noite, após empanturrar-se com tantas bufonarias, conduzia-os a pé, até o crematório”.

Obviamente, nem de longe é isso que as famílias modernas querem fazer com seus velhos, doentes e deficientes físicos e mentais.

Mas, os velhos, porque um dia não foram velhos, parecem ser aqueles cujas presenças mais causam incômodo.

Podemos ser capazes de grandes sacrifícios para ajudar alguém com algum tipo de deficiência física ou mental, parente ou não, porque nunca fomos assim e certamente também nunca o seremos.

Os velhos, não. Eles mostram, com suas mazelas físicas e mentais, qual será o nosso futuro.

Então, apesar de muitas juras de gratidão, os queremos bem longe de nós, de preferência nesses depósitos humanos aos quais se dão nomes tão amenos como Lar e Casa de Repouso. O nome real de Asilo, fica reservado para aqueles que, a rigor, sempre viveram em algum tipo de asilo desde que nasceram.

Sob a estreita ótica capitalista, está certo. Como eles não produzem, apenas consomem, estão dificultando o progresso da sociedade.

Os governos, usando sempre eufemismos para não chocar algumas pessoas mais sensíveis, lamentam que o aumento na expectativa de vida das pessoas esteja acabando com a possibilidade de que continuem dando assistência aos mais velhos.

Fernando Henrique Cardoso, quando presidente, talvez pensando em sua aposentadoria precoce, disse que os brasileiros querendo se aposentar muito cedo, não passavam de vagabundos.

Temer, também aposentado muito cedo, pensa da mesma maneira.

Talvez tenham razão. Precisamos botar todos os nossos velhos no trabalho para o bem da Pátria.

Só um problema: está faltando trabalho até para os mais novos.

Para os velhos, então nem se fala.

É preciso saber o que fazer com os velhos que insistem em continuar vivos, antes que alguém tenha mais uma vez alguma ideia maluca, própria de um darwinismo social que parece voltou a ser moda em alguns lugares.

Uma história mal contada

O dia 14 de maio de 1948 é a data oficial de fundação do Estado de Israel. Setenta depois ainda se discute até que ponto a criação de um estado judaico em meio a populações majoritariamente árabes não  caracteriza um grande equívoco geopolítico.

O lobby judaico, o mais poderoso do mundo inteiro, tem impedido que os meios de comunicação relembrem como foi possível criar-se um estado baseado nas razões da raça e religião judaicas dentro de uma comunidade predominantemente árabe e islâmica.

Essa história precisa ser contada a partir da Primeira Grande Guerra, quando em 1917, Lorde Balfour, Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros,  interessado no apoio dos banqueiros judeus para financiar a luta da Inglaterra contra o Império Turco pelo controle do Oriente Médio, garantiu ao Presidente da Federação Sionista Britânica, Lorde Rothschild o apoio inglês à criação de um “lar para os judeus”, na Cisjordânia, ainda que registrasse em sua declaração que isso deveria ser feito sem prejudicar os interesses dos árabes, que formavam a maioria populacional na região.

A ideia de criar uma nação para abrigar os judeus espalhados pela Europa após a diáspora,foi lançada pelo jornalista judeu austro-húngaro Theodor Herzl, em 1895, mas inicialmente obteve poucas adesões e mesmo depois do apoio formal dos ingleses, não motivou uma forte migração para a Palestina.

No final da Segunda Grande Guerra, viviam na Palestina sob o controle da Inglaterra, l milhão e o meio de árabes e 600 mil judeus.

O holocausto provocado pelos nazistas, durante a guerra, criou as condições emocionais para garantir o apoio de uma maioria de nações européias e americanas para criação de Israel, que segundo decisão da ONU deveria ficar com uma parte da Palestina, reservando-se o restante para a criação de um futuro estado palestino árabe.

A premissa a justificar a criação do Estado de Israel se baseava num pretenso direito histórico sobre a região do povo judeu, expulso pelos romanos e que havia no exílio mantido a sua integridade étnica e religiosa.

A tese nunca foi comprovada e mesmo um historiador judeu, como Shlomo Sand, professor de história da Universidade de Tel Aviv, em seu livro A Invenção do Povo Judeu, admite que, unidos por uma religião dominante, os judeus da diáspora foram se mesclando com diversos povos da Europa Central e mesmo do norte da África, o que é comum em todas as etnias.

Sand argumenta que, assim como os cristãos mais contemporâneos e os muçulmanos são descendentes de pessoas convertidas e não dos primeiros cristãos e muçulmanos, o judaísmo era originalmente, assim como seus dois primos, um proselitismo religioso.

De acordo ainda com Sand, os judeus que viviam em Israel, ao contrário da crença popular, não foram exilados pelos romanos e puderam permanecer na Palestina. Muitos judeus convertidos ao Islã após a conquista da região pelos árabes se tornaram os ancestrais dos árabes palestinos atuais

A consolidação de Israel, com o apoio dos Estados Unidos e surpreendentemente também da União Soviética, o tornou uma cunha dentro do mundo árabe, gerando uma sucessão de graves conflitos no Oriente Médio, em praticamente durante toda a segunda metade do século XX.

A pergunta que se faz é se os judeus não têm direito de viver em paz na terra que escolheram?

A resposta é obviamente que sim

Só que isso não elimina a segunda pergunta: os palestinos têm direito de viver em paz na terra em que nasceram?

Obviamente que sim.

A criação de um estado Judeu, que rapidamente expandiu suas fronteiras por terras que mesmo de acordo com a partilha da ONU, pertenceriam aos palestinos, inviabilizou aquela que seria a melhor solução para os dois povos: a criação de um estado único, laico e democrático que respeitasse os direitos de árabes e judeus.

Isso agora não é mais possível e ações armadas de Israel contra seus vizinhos e as represálias dos árabes não vão solucionar a questão.

A alternativa que resta é Israel aceitar a criação de um estado Palestino, com a transformação de Jerusalém numa cidade neutra e aberta para que os dois povos possam construir uma sociedade pacífica e democrática.