O dossiê X

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X chegou, se dizendo um professor universitário, que se apaixonara por uma aluna chamada Y e queria que eu o ajudasse a escolher uma dessas alternativas: ou se suicidava ou matava Y.
Como não gosto de fazer suspense, quero dizer logo, que ele não optou por uma das duas possibilidades.
Ele seguiu as duas.
Vou contar o caso, como ouvi de X.
Y não era uma estranha para X. Já a tinha visto pelos corredores da universidade, mas não prestara muita atenção, preocupado que estava com a defesa da sua tese sobre o novo comportamento feminino. Na contracorrente do pensamento dominante na academia, ele defendia a tese de que as mulheres deviam voltar ao lar para cuidar dos filhos e serem fieis a um homem só porque só dessa maneira poderiam ser felizes.
No dia em que apresentou seu trabalho na Faculdade de Sociologia, ele a viu novamente num canto da sala praticamente vazia e ela sorriu, parecendo estimulá-lo quando começou a falar.
Um grupo de alunas, contrário à tese que ele iria defender, foi mantido do lado de fora da sala com seus cartazes, onde o que menos se dizia dele, é que era um machista e preconceituoso.
Apenas professores e senhoras da Liga da Moralidade, além da misteriosa moça sorridente, ocupavam umas 20 cadeiras na sala.
Tudo correu dentro do esperado, ele pode expor seu trabalho, saudado pelo chefe da banca examinadora como uma contribuição fundamental para a discussão de um tema tão importante e no final, como de praxe, se colocou diante da mesa para receber os cumprimentos dos presentes.
Ela foi a última a se aproximar, sempre sorridente. Quando ele estendeu a mão para receber o cumprimento, se deu conta que ela lhe passava um bilhete, ao mesmo tempo em que aproximava o rosto para um beijo, que para seu espanto, deslizou das bochechas e tocou levemente nos seus lábios, enquanto ela dizia entre dentes:
– O senhor está muito errado professor. Vamos falar sobre isso.
O bilhete tinha apenas um Y enorme em vermelho e um número de telefone.
No nosso primeiro encontro X contou que era casado, há 10 anos com M e tinha dois filhos. Como os dois eram de famílias pobres, tiveram muitas dificuldades materiais no início do casamento, o que obrigou M a continuar trabalhando num banco até o nascimento do primeiro filho. Com o tempo, a vida foi melhorando, X conseguiu dar aulas em duas universidades e agora com o título de doutor, sua vida financeira estaria estabilizada e eles poderiam deixar de morar com a sogra e comprar um apartamento. Um pequeno carro, ele já tinha comprado em 60 vezes, sem juros. Sua próxima meta, além do apartamento, já negociado, era a viagem à Itália, prometida para a lua de mel, mas que só agora estava em vias de se concretizar.
– Foi, então, que Y começou a destruir minha vida, disse ele, com os olhos cheios de lágrimas.
Antes de pedir que ele falasse sobre Y, perguntei se ele era feliz com M. Ele respondeu que achava que sim.
Perguntei se ela tinha sido sua primeira mulher. Ele respondeu que tivera algumas pequenas aventuras, mas desde o casamento se mantinha fiel.
E ela? Perguntei. Ele ficou constrangido com a pergunta, acho que um pouco incomodado, mas assegurou que ela era virgem até o casamento.
E sexo, quantas vezes?
Mais constrangimento. Acabou explicando que de 30 em 30 dias iam a um motel, porque na casa deles não havia privacidade bastante para isso, já que os filhos dormiam no mesmo quarto.
Quando perguntei se era suficiente esse espaço de um mês para o sexo, respondeu que, antes iam todos os sábados, mas M sugeriu que podiam poupar o dinheiro do motel para a prestação do novo apartamento e foram então diminuindo a frequência.
Quando ligou para Y, ela marcou um encontro num bar da Cidade Baixa, no fim da tarde de um dia de muito calor. Ele chegou primeiro e pediu uma água sem gás. Ela chegou com quase uma hora de atraso, quando ele já estava se preparando para ir embora, sentou na cadeira em frente dele e não se desculpou pelo atraso. Em vez disso, chamou o garçom e pediu um copo de vodka pura.
Foi então que ele se deu conta de como ela era bonita. Mais do que isso, era a mulher mais excitante que vira na vida. Ela estava com um vestido curto e de tecido quase transparente e um enorme decote que punha à mostra quase todos seus seios.
Ela olhou para ele durante instantes e foi logo direto ao ponto
– Professor, sua tese é furada. Sua mulher é uma frustrada sexual, certamente mal comida pelo senhor e sonha ainda em encontrar um príncipe encantado.
Ele disse que num primeiro momento ficou impressionado com a ousadia de Y e até achou graça no que ela dizia, sem sequer o conhecer muito bem e a desafiou a continuar.
– E, eu, perguntou.
Y pegou a mão de X, que estava segurando o copo e o trouxe direto até encostar em seus seios e sussurrou em sua direção.
– Tu só está pensando em transar comigo.
Tentando se manter no controle da situação, X buscou dar um tom irônico a sua resposta.
-Você acha que tenho alguma chance?
– Quem sabe?
De repente, X sentiu que estava diante dele uma oportunidade inesperada de transar com uma mulher maravilhosa, certamente totalmente liberada para as mais loucas fantasias. Nessa altura, disse depois, em poucos segundos tinha perdido toda sua segurança e a única coisa que queria naquele momento era convencer Y a ir logo para a cama com ele.
– Podemos ir sim, mas antes disso, você terá que atender alguns pedidos meus, disse Y.
Num novo encontro, X disse que foi exatamente naquele momento que se deu conta de que iria se transformar num escravo de Y, que faria tudo que ela pedisse para poder um dia fazer sexo com ela, mas que esse dia nunca chegaria porque antes disso, ele acabaria com a vida dos dois.
Eu conversei com X durante dois meses antes que desaparecesse de vez e surgisse,depois, numa foto de 4 colunas, sob uma manchete da página policial do jornal que dizia “Professor Mata Aluna e se Suicida”.
A partir daquele primeiro encontro no bar, passaram-se seis meses em que Y se oferecia continuamente para ele, sem que se consumasse a relação sexual. X deveria ter percebido que sua relação com Y seria muito difícil, já naquele primeiro encontro, quando ela interrompeu a conversa para ler uma mensagem no celular. Imediatamente, se levantou e dizendo apenas para X, depois te ligo, saiu, sem sequer pagar a sua vodka.
Uma semana depois ela ligou e marcou um encontro no mesmo bar. Dessa vez, ele resolveu atrasar uma meia hora e quando chegou ela estava sentada numa mesa com uma loira muito bonita, mas bem mais madura que ela. Y apresentou a loura como sendo Z, uma amiga que conhecera na academia de musculação. X disse que nem chegou a sentar, porque Y falou que elas tinham programado algo melhor para os três.
A amiga de Y tinha um carro conversível e os três sentaram no banco da frente. Quando perguntou onde iriam, Y disse que era surpresa. Nessa altura, X começou a imaginar que o programa seria uma sessão de sexo a três em algum motel da zona sul e se perguntou se teria capacidade de agradar as duas. A sua coxa esquerda estava colada na coxa direita de Y e ele começou a ter uma ereção incontrolável, Y percebeu e chamou a atenção de Z para o fato.
– Olha o professor X com maus pensamentos.
As duas ainda estavam rindo, quando Z manobrou o carro e entrou na garagem de um prédio de luxo na Rua Santo Inácio. Quando perguntou quem morava ali e o que íamos fazer, Y disse que era a sua médica particular, a Dra.H e não quis dizer mais nada.
A médica era uma senhora de uns 60 anos, gordinha, simpática, que se apresentou como grande amiga de Y e Z. Quando X perguntou o que ele tinha a ver com tudo isso, foi Z quem tomou a palavra e explicou.
Como Y tinha contado a ela que estava pensando em transar com X, ela aconselhou que fizesse a Dra. H examiná-lo detidamente para ver se ele era um homem saudável. Era o que pretendiam fazer agora.
Ele contou que se sentiu profundamente ridículo quando foi obrigado a tirar todas as roupas em frente as três para ser examinado. O pior, disse ele, foi quando Dra. começou a estimular seu pênis para medir sua circunferência. Depois, foi obrigado a se masturbar num pequeno frasco, o que felizmente pode fazer de forma privada num banheiro. Ele, que sempre tinha evitado se expor em alguma consulta médica, agora teve que se submeter ao olhar atento da Dra. H.

No final, teve que ouvir ainda uma avaliação da sua condição física pela médica. Com um sorriso simpático no rosto, ela disse que X era portador de um pênis de pequeno para médio, com uma circunferência abaixo do padrão nacional e que possivelmente sofria de ejaculação precoce. Depois, para aumentar o constrangimento de X, ela perguntou com qual das duas ele pretendia se relacionar. Quando Y disse que era com ela, a Dra. H sorriu e disse que para ter algum prazer, Y deveria cobrar de X, além do uso do pênis, também um reforço com a língua e os dedos.
X me disse então que saiu desse encontro decidido a nunca mais se encontrar com Y.
Sua decisão durou pouco, pois Y ligou dias depois, o convidando para assistir juntos o filme Cinquenta Tons de Cinza.
Foram num cinema do shopping e foi a ocasião em que chegou mais perto de finalmente transar com Y. Durante a sessão, ela deixou que ele escorregasse a mão por baixo do vestido e chegasse a introduzir os dedos em sua vagina. Na saída, e era a primeira vez que ele a levava no seu carro foram para casa numa rua do Passo da Areia. Ele pensava que ela morasse num rico apartamento da Independência e que seria convidado finalmente a subir, mas ela vivia com os pais, enquanto o apartamento não ficava pronto, disse, quando ele se surpreendeu com a modéstia da casa. Talvez para compensá-lo da decepção, Y permitiu que ele desabotoasse o corpete e começasse a beijar seus seios. O pênis ereto já estava para fora das calças e quando se aproximava para a tão esperada transa, subitamente, uma luz piscou duas ou três vezes na varanda da casa e Y rapidamente se recompôs e avisou que precisava entrar em casa imediatamente. A luz que se acendeu e apagou era o sinal que o irmão lhe dava de que o pai estava chegando e X precisava partir logo. Foi o que ele fez.
Nessa altura, X contou que sua relação com a mulher estava ficando difícil porque, por mais que se esforçasse, ele passava o tempo inteiro pensando em Y e quando M sugeriu que o fim-de-semana era o reservado para irem a um motel, X alegou uma dor de cabeça e recusou pela primeira vez a esse convite. Desde então, M começou a desconfiar do marido e a toda hora ficava a perguntar quem era a outra.
X decidiu então que teria um último encontro com Y e se ela se recusasse mais uma vez a transar com ele a esqueceria de vez.
O encontro foi no Jardim Botânico e Y se mostrou pela primeira vez, compreensiva e disposta a encontrar uma solução para o caso dos dois. Para o espanto de X disse que era ainda virgem, que tinha se apaixonado por ele, mas que não poderia transar, enquanto ele vivesse casado com outra mulher. Disse que estava disposta a esperar o tempo necessário para isso, mas que só dormiria com ele, depois da separação. X falou então na família, nos filhos pequenos e sugeriu que Y poderia ser sua amante. X contou que ficou surpreso com a reação de Y. Ela levantou-se do banco em que estavam sentados, falou que todos os homens eram iguais, só pensavam em sexo, que ela estava ofendida e que jamais seria amante de um homem casado e que se ele pretendesse alguma coisa com ela, que só a procurasse novamente quando fosse uma pessoa livre como ela. X disse que ficou surpreendido com a sinceridade das palavras de Y e com as lágrimas que desciam pelo seu rosto. Se separaram então, sem que ele tivesse tomado alguma decisão, mas na sua cabeça já se insinuava com força a ideia de se separar de M e dos filhos.
Entre o terceiro encontro e o quarto, que foi a última que tive com X, se passou quase um mês. Nessa última vez que o vi, ele me pareceu bem diferente das vezes anteriores, quando ainda estava cheio de dúvidas sobre o que fazer. Dessa vez, me pareceu forte e decidido e eu até o cumprimentei por isso. Contou então que tinha se separado de M, que ela fora bastante compreensiva e que até se dispusera a apoiar quando fosse necessário e permitiria que ele visse os filhos quando quisesse.
– E Y, perguntei.
Eu devia ter me dado conta que sua resposta – ela vai ter o que merece – era uma ameaça, mas tomei como desabafo. Contou então que alugara um pequeno apartamento no Bonfim, que continuava dando aulas, que deixara o carro com a mulher e considerava Y um ser maligno.
Aquela menção a Y como um ser maligno me pareceu até engraçado. Lembrava coisas da religião e X, até onde eu sabia, era um ateu.
– Por que maligna?
Ele contou que levou duas semanas para tomar a decisão de separar de M e quando finalmente ficou livre, ligou para Y a fim de lhe dar a notícia. Ela não atendeu a suas várias ligações, até que a viu por acaso na frente daquele bar do seu primeiro encontro.
– Acabei de me separar.
– Agora é tarde, meu bem. Você perdeu a sua vez. A fila andou.
X não se conformou e continuou insistindo.
De tanto pedir explicações, chegou o momento em que Y resolveu abrir o jogo. Ela tinha feito uma aposta com Z, que obrigaria um professor conservador a se separar da mulher e dos filhos, só com a promessa de sexo.
Diante da sua surpresa, ela disse que estava com muita pressa, mas que ligaria à noite para a fim de explicar tudo.
Já era quase meia noite, quando o telefone tocou e Y lhe deu explicação que precipitou a tragédia que viria depois:
– Como te disse, era apenas uma aposta. Eu não sou virgem desde os 14 anos. Devo ter transado com mais mil homens. Agora mesmo estou na cama com um cara que encontrei naquele bar da Cidade Baixa e nem sei o nome dele. Estou te ligando agora que o cara começou a dormir.
Como X, num primeiro momento, pensou que Y estava inventando essa história apenas para justificar a separação e que a razão seria outra, ele continuou insistindo,
Então, X ouviu nitidamente quando Y falou:
– Oh, Negão. Acorda e diz pro meu marido o que estamos fazendo.
X ouviu então uma voz rouca de alguém ainda meio dormindo.
– Tô transando com a tua mulher, seu corno.
Confesso que fiquei surpreso em como aquela mulher pôde ser tão maligna e acho que, se soubesse previamente o que X pretendia fazer, não sei se iria tentar impedir seu gesto.
Às vezes, precisamos adotar métodos radicais em relação ao mal.
Pena que X tenha também se punido por isso.


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