Jamais confie no Mendes

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Quem é que nunca sonhou em participar do seu próprio velório?
Saber o que algumas pessoas pensam a seu respeito? Finalmente descobrir se aquela mulher, especificamente aquela, vai chorar de verdade diante do seu caixão? Quais os amigos que virão e os que vão preferir um jogo na TV? E quanto tempo eles ficarão? Quais serão os vão ficar até o último minuto? Os que vão dar apenas uma passadinha, porque têm trabalho no escritório?
O problema todo é que o espetáculo reserva para você o papel principal, o de morto.
Um papel importante, mas que não lhe dará nenhuma chance de observar o ambiente para obter as respostas sonhadas.
Mas e se você se fingir de morto?
Será preciso ser um grande ator. Não poderá coçar as costas, piscar o olho e deve agüentar impávido um beijo molhado na testa daquela velha tia da qual você nem lembrava mais.
A ideia era tentadora e resolvi experimentá-la.
O Mendes, meu sócio na empresa de propaganda, tido pelo mercado inteiro como um grande oportunista, era portanto a pessoa ideal para ajudar a montar a farsa.
Diga-se de passagem, que ele adorou a ideia e disse que se encarregava de tudo. Eu só precisava bancar o morto.
É o que estou fazendo há mais de três horas, espiando por um canto de olho, quem chega e quem sai, mesmo correndo o risco de alguém gritar – vi o morto piscando – e desmaiar na hora.
Felizmente nada disso aconteceu, por que o Mendes havia providenciado para deixar o ambiente meio na penumbra.
Das minhas três ex, só não veio a Lúcia, a do meio, logo ela que eu pensei que seria a que mais lamentaria minha morte, mesmo que tecnicamente fosse apenas uma morte aparente.
Das namoradas (vamos dizer assim) vieram umas três ou quatro, todas mantendo um ar constrangido, próprio para o evento, salvo a Claudete, que de forma bem inconveniente se jogou sobre mim, aos prantos, quase derrubando o caixão.
Ainda bem que meu primo, o Cardosinho, agiu rápido e levou a Claudete para a cozinha.
A Vera trouxe o marido, o Antônio Carlos. Acho que ele nunca soube do meu caso com a sua mulher, porque bem que ouvi quando ele falou – era um bom sujeito. E a Vera, muito sacana, ainda respondeu – parece que ele bebia demais. Certamente estava pensando naquele porre que tomamos juntos. Foi tanto trago, que depois nada mais funcionou direito naquela noite.
O combinado era que durante a madrugada, quando se esperava que a freqüência de público diminuísse bastante, o Mendes, depois de uma saída estratégica, voltaria com alguém que ele apresentaria como o Doutor Sepúlveda, um médico de renome internacional e que se dispunha a fazer um teste final para saber se o morto estava realmente bem morto.
Só que já passava da meia noite e nada do Mendes chegar com o Doutor Sepúlveda.
O combinado é que ele, o Doutor Sepúlveda, pingaria umas gotas nos meus olhos e depois de alguns momentos de expectativa, eu abriria levemente o olho da direita, depois o da esquerda, diria uma frase previamente decorada – meu Deus estou vivo – sentaria no caixão e para um pouco de espanto dos ainda presentes, deixava de ser um morto e voltaria a ser tão vivo quanto os demais
Fim do espetáculo, baixam-se as cortinas e vão todos para a casa.
Acontece que, esperando que o Mendes fizesse sua parte, acabei adormecendo e quando acordei estava tudo escuro e me dei conta que tinham fechado o caixão e me levavam agora para algum lugar, que poderia ser tanto um cemitério como um crematório.
Bem que me disseram para não confiar no Mendes.


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