A visão em paralaxe

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As pessoas não têm mais dúvidas. Na política, principalmente, elas se organizam em blocos orientados pelo mesmo pensamento crítico e se satisfazem concordando umas com os outras.

Fiquei pensando nisso, depois de ler um artigo do jornalista Tibério Vargas numa revista sobre jornalismo e publicidade que circula em Porto Alegre.  Conheci o Tibério, como professor da Famecos, onde – como muitos outros – fazia o perfil da profissional, que não se arrisca em assuntos fora da sua especialidade.

Agora, nesse artigo, ele ousa entrar na área política para tecer uma série de obviedades. Como tantos outros que recebem espaço na nossa mídia, ele oferece um pacote fechado de conceitos que poderiam ser lido também nos que pensam  igual a ele.

São os “democratas”, que não votam no Bolsonaro, mas acham que o Lula fica bem na prisão. Aliás, um segmento de intelectuais (ou semi-intelectuais) bastante numeroso hoje em dia.

Nenhuma ideia nova você vai encontrar no que escrevem.Nenhuma  dúvida sobre como lado deles representa a democracia, os bons costumes, a ética e o outro  lado, o autoritarismo, os maus costumes e a falta de ética.

E isso, vale para os dois lados. Não queremos discutir com os que pensam diferente de nós. E somos exaltados por isso.

Lembro sempre da tão festejada Márcia Tiburi se recusando a discutir,numa emissora de rádio, com Kim Katuguiri, isso depois de escrever um livro chamado Como Discutir com um Fascista.

Quem melhor comentou esse tipo de comportamento, foi o ex-governador Tarso Genro quando disse que discutir com quem pensa igual a nós é fácil, difícil é discutir com quem pensa o contrário.

Não testamos as nossas certezas. Será que temos medo de que elas podem ruir à menor crítica?

Um dos poucos intelectuais que conheço que vive fazendo o papel do advogado do diabo é o Werner Becker, mas ele é sempre visto como um provocador e certamente, vivesse em outra época, seria mal visto tanto por Stalin, quanto por Hitler.

Escrevendo nos poucos espaços públicos que tenho, me deparo sempre com esse grande bloco de pensamentos consolidados que nos impede de discutir uma série de temas.

O feminismo combatente vê manifestações explícitas de machismo até mesmo nos mais inocentes adjetivos.  Quando escrevi que o Temer “abriu as pernas” para os caminhoneiros, dando aos empresários do transporte rodoviário, tudo que eles queriam, fui taxado de um homofóbico irremediável.

Quando, ao comentar o fato de que a seleção da Argentina se recusou em jogar contra Israel em Jerusalém, lembrei o histórico da criação desse país, citando até escritores judeus, fui acusado de estimular o anti-semitismo.

Independente de que lado você se coloca, criticar, só os adversários.

Mesmo que você abomine os coxinhas, que alerte para o fascismo que cresce, que denuncie a mídia corrupta, que diga que o impeachment da Dilma foi um golpe, que repita o “Lula livre”, que denuncie o imperialismo americano, isso não basta. Você precisa acreditar piamente que Lula é um santo, e que os governos do PT não fizeram conchavos com a direita, enfrentaram a Globo, e se não fizeram a reforma agrária, foi porque ainda não era o momento.

Você não pode nem sequer repetir o Lula, quando ele disse que os empresários nunca ganharam tanto como no seu governo. Ou seja, crítica, nem a construtiva.

Por isso, é que é tão gratificante ler alguém como o filósofo esloveno Slavoj Zizek, mesmo que seja preciso enfrentar seu estilo tumultuado de escrever, discutindo tudo e todos, talvez seguindo aquela colocação de Marx de que “tudo que é sólido, pode desmanchar no ar”.

Copio e publico duas opiniões dele sobre feminismo e anti-semitismo.

“A constituição do Estado de Israel, do ponto de vista da Europa, foi a “solução final” realizada do problema judeu (livrar-se dos judeus) alimentada pelos próprios nazistas. Ou seja, o Estado de Israel, virando Clausewitz ao avesso, não foi uma forma de continuar agora contra os judeus com outros meios (políticos)? Essa não é a “mancha da injustiça” que pertence ao Estado de Israel?”

“O Holocausto é, de fato, elevado a um amalgama inigualável, tesouro escondido, o objeto “A” dos judeus – eles estão dispostos a abrir mão de tudo, exceto o Holocausto”

“A luta feminista, por exemplo, pode ser articulada num encadeamento com a luta progressista pela emancipação ou pode servir (e de fato serve) de ferramenta ideológica usada pela classe média alta para afirmar sua superioridade sobre as classes inferiores “patriarcais e intolerantes”

“É a constelação específica da própria luta de classes que explica porque a luta feminista foi apropriada pelas classes superiores. (O mesmo acontece com o racismo. É a própria dinâmica da luta de classes que explica por que o racismo declarado é forte entre os trabalhadores brancos da classe baixa)”

 

Se alguém quiser conferir as citações, procure lá no livro dele, do Zizek, “A Visão em Paralaxe”, páginas 339, 343 e 471. Não tenho mais o livro, porque o que li foi emprestado pelo Dr. Franklin Cunha e preciso devolver a ele.


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