A versão e os fatos

Um dos casos onde a versão, mesmo falsa, é mais aceita do que a realidade dos fatos é a questão da Palestina. Há muitos anos, os grandes veículos da mídia vendem a ideia de que Israel é um pequeno Estado, ameaçado permanentemente por árabes hostis, interessados apenas em destruir uma bem sucedida experiência de desenvolvimento social e econômico em terras antes pouco aproveitadas.

Essa versão se transformou em dogma e quem tentar levantar argumentos contrários a ela é imediatamente taxado de antissemita e como tal, tem seus argumentos – ainda que bem fundamentados – totalmente desprezados.

Mesmo um historiador e professor universitário como Norman Gary Finkelstein, um judeu americano, especializado na história de Israel, sofre este tipo de discriminação. Em 2008, vindo de Amsterdam, ele foi impedido de entrar em Israel por suas posições, consideradas pelo governo de Israel como antissemitas, manifestadas nos vários livros que escreveu e proibido durante de 10 anos de entrar no País.

Isso, que Finkelstein é filho de pai e mãe judeus, sobreviventes do Holocausto. Sua mãe, Maryla Husyt Finkelstein, filha de um judeu ortodoxo, sobreviveu ao gueto de Varsóvia, ao campo de concentração de Majdanek e a dois campos de trabalhos forçados, além de ter perdido toda a sua família durante a Segunda Guerra Mundial. O pai de Norman, Zacharias Finkelstein, também foi um sobrevivente, tanto do gueto quanto do campo de concentração de Auschwitz.

Mas, o que diz, por exemplo, Finkelstein, em um dos seus livros mais conhecidos: “Israel – Palestina – Imagem e realidade do conflito” – que cobre o período de 1947 a 2002, quando da invasão do sul do Líbano por Israel. (Quem estiver interessado em conhecer este último evento não deve deixar de ler Pobre Nação, do inglês Robert Fisk):

1)  Que, quando da repartição da Palestina pela ONU em 1947, os judeus receberam 60 por cento das terras – coincidentemente as melhores para a agricultura porque tinham mais água (vital na região) – embora a população se dividisse em 1 milhão e 300 mil árabes e 600 mil judeus.

2)  Que, mesmo na área destinada à Israel pela partilha, a população árabe era praticamente a mesma dos judeus.

3)   Que, embora tendo aceito a partilha, o governo judeu sempre planejou ocupar toda a Palestina, porque um estado judeu, do Jordão ao Mediterrâneo, sempre foi um ponto de honra na versão sionista.

4)  Que Israel aproveitou a guerra de 1948 para expulsar pela força os palestinos que viviam em terras que formariam, segundo a ONU, o Estado de Israel, tomando suas casas e terras sem qualquer indenização.

5) Que em 1958, Israel desenvolveu uma guerra de conquista contra o Egito para ocupar a área do Sinai, com apoio da Inglaterra e da França e só recuou porque perdeu apoio americano e pela ameaça de intervenção da União Soviética.

6)  Que nos anos seguintes realizou operações de conquistas em áreas pertencentes a Síria e a Jordânia, ocupando terras que destinou a formação de colônias agrícolas para os judeus.

7) Que em 1967, com apoio norte-americano, iniciou um ataque de surpresa contra o Egito, ocupando áreas de Gaza e do Sinai, com a desculpa de neutralizar a liderança que Gamal Abdel Nasser começava a desenvolver entre os árabes. O histórico dirigente judeu Bem Gurion, temia que Nasser pudesse se transformar num novo Ataturk, o homem que moldou a Turquia moderna e secular.

8)  Que entre 67 e 73, Israel desconsiderou todas as ações da ONU (a famosa resolução 142) no sentido de devolver as áreas conquistadas militarmente do Egito e da Jordânia, levando os árabes a iniciar uma guerra pela reconquista de suas terras.

9 –  Que Israel nunca pôs em prática os acordos de paz de Oslo que garantiriam o surgimento de um Estado Palestino na área originalmente definida pela ONU e a solução do problema dos refugiados palestinos expulsos de suas terras.

10)  Finalmente, o mais importante que diz Finkelstein, amparado em documentos originários de fontes israelenses, é que a política externa de Israel, independentemente de qual fosse seu governo, sempre teve como meta reconstruir a geografia de Israel inspirada nos discutíveis relatos bíblicos sobre a sua extensão original, mesmo que para isso tivesse que tomar as terras secularmente em mãos dos árabes. Para isso, seus líderes seguiram duas tendências: a primeira foi de expulsar os palestinos de suas terras com uma política de transferências forçadas, numa espécie de limpeza étnica. Mais tarde, quando essa prática foi condenada por quase todo o mundo, optaram pelo modelo sul africano do apartheid. Ou seja, aceitaram, ainda que com restrições, a existência de regiões fragmentadas que ficariam sob o comando de uma fragilizada Autoridade Palestina, lembrando os antigos bantustões da África do Sul.

Para Finkelstein estes sãos os fatos. As versões, nós lemos diariamente nos jornais.

O samba de uma nota só.

Aquele velho dito de que a esquerda só se une na prisão, sempre foi visto como uma fraqueza dos partidos que pretendem representar a visão mais progressista da sociedade, comunistas, socialistas dos mais diversos matizes e até mesmo os trabalhistas, por que, quando em liberdade, são incapazes de enfrentar uma direita sempre unida.

Eu ousaria dizer que em vez de uma fraqueza, esse pode ser o grande diferencial positivo da esquerda, porque revela a necessidade de estar sempre discutindo e tentando aprimorar o processo político.

Marcha unida é coisa para militares e não políticos.

Obviamente, isso não deve impedir a união em torno de objetivos comuns, como ocorre hoje no Brasil na questão de defender a liberdade do Lula e seu direito de se apresentar como candidato à Presidência, nem de chamar o impeachment da Dilma de golpe.

Isso não significa seguir um pensamento único, nem criar ícones políticos imunes à critica.

Um exemplo: denunciar as políticas conciliatórias do PT, quando governo,  com os partidos da direita e do centro; lamentar que tenha sucumbido ao poder da mídia e apontar seu objetivo final, que sempre foi de reformar o capitalismo e não lutar pela implantação do socialismo.

Infelizmente, muitas pessoas que se dizem de esquerda abominam aese tipo de pensamento. Querem viver só com suas certezas, o que deveria ser impossível em qualquer momento da vida e muito mais na política.

Quando surgiu aquele episódio da Márcia Tiburi se recusando a debater com o representante do MBL numa emissora de rádio, muitos a aplaudiram, esquecendo que, ela mesmo, havia escrito um livro chamado Como Discutir com um Fascista

É altamente recompensador para qualquer um de nós quando todos aprovam e batem palmas para o que dissemos. O difícil, falou  uma vez Taro Genro, com propriedade, é discutir com nossos opositores.

O fato de discutirmos à exaustão determinados pontos não significa que no final não vamos estar juntos na luta com eles.

Talvez o melhor exemplo disso esteja na mais importante revolução social que já viveu a humanidade, a Revolução Russa de 1917.

De fevereiro, quando da queda do Czar, até outubro, quando os bolcheviques tomaram o poder, as estratégias de luta, os objetivos, os modelos de governo, tudo foi discutido à exaustão por gente como Lenin, Totski, Martov, Dverdlov, Kamenev e Plekanov.

Mesmo depois que tinham tomado o poder, discutiu-se de forma democrática todas as questões mais importantes para a nova república soviética.

Só mais tarde, quando as ameaças internacionais e os graves problemas internos fizeram que a democracia fosse desaparecendo na URSS, é que as lutas internas dentro do governo , fossem muitas delas, resolvidas de forma sangrenta.

Hoje, no Brasil, se não vivemos numa democracia real, conservamos, pelo menos, muitos dos seus atributos, entre eles a existência de um pensamento de esquerda com muitas facetas.

Discuti-las continuamente me parece uma maneira de fazer com que a mais adequada vença no final.

Infelizmente, não é o que vemos.

Num espaço razoavelmente aberto como o Facebook, por exemplo, se você se diz não representado por um político ou candidato a político do PT, você está ajudando o inimigo.

Os mais agressivos acabam até te rotulando de admirador do Bolsonaro.

Ou seja, não se discutem  ou se contestam argumentos. Tenta-se calá-los..

Com esquerdistas tão autoritários assim, não precisamos mais dos direitistas.

Os bolsonaristas te dizem: vai pra Cuba, vai para a Venezuela.

Os lulistas te dizem: chama a senadora de Ana do Relho e diz que basta ser do PT, para ser bom.

Tem muita gente gostando do samba de uma nota só.

 

A visão em paralaxe

 

As pessoas não têm mais dúvidas. Na política, principalmente, elas se organizam em blocos orientados pelo mesmo pensamento crítico e se satisfazem concordando umas com os outras.

Fiquei pensando nisso, depois de ler um artigo do jornalista Tibério Vargas numa revista sobre jornalismo e publicidade que circula em Porto Alegre.  Conheci o Tibério, como professor da Famecos, onde – como muitos outros – fazia o perfil da profissional, que não se arrisca em assuntos fora da sua especialidade.

Agora, nesse artigo, ele ousa entrar na área política para tecer uma série de obviedades. Como tantos outros que recebem espaço na nossa mídia, ele oferece um pacote fechado de conceitos que poderiam ser lido também nos que pensam  igual a ele.

São os “democratas”, que não votam no Bolsonaro, mas acham que o Lula fica bem na prisão. Aliás, um segmento de intelectuais (ou semi-intelectuais) bastante numeroso hoje em dia.

Nenhuma ideia nova você vai encontrar no que escrevem.Nenhuma  dúvida sobre como lado deles representa a democracia, os bons costumes, a ética e o outro  lado, o autoritarismo, os maus costumes e a falta de ética.

E isso, vale para os dois lados. Não queremos discutir com os que pensam diferente de nós. E somos exaltados por isso.

Lembro sempre da tão festejada Márcia Tiburi se recusando a discutir,numa emissora de rádio, com Kim Katuguiri, isso depois de escrever um livro chamado Como Discutir com um Fascista.

Quem melhor comentou esse tipo de comportamento, foi o ex-governador Tarso Genro quando disse que discutir com quem pensa igual a nós é fácil, difícil é discutir com quem pensa o contrário.

Não testamos as nossas certezas. Será que temos medo de que elas podem ruir à menor crítica?

Um dos poucos intelectuais que conheço que vive fazendo o papel do advogado do diabo é o Werner Becker, mas ele é sempre visto como um provocador e certamente, vivesse em outra época, seria mal visto tanto por Stalin, quanto por Hitler.

Escrevendo nos poucos espaços públicos que tenho, me deparo sempre com esse grande bloco de pensamentos consolidados que nos impede de discutir uma série de temas.

O feminismo combatente vê manifestações explícitas de machismo até mesmo nos mais inocentes adjetivos.  Quando escrevi que o Temer “abriu as pernas” para os caminhoneiros, dando aos empresários do transporte rodoviário, tudo que eles queriam, fui taxado de um homofóbico irremediável.

Quando, ao comentar o fato de que a seleção da Argentina se recusou em jogar contra Israel em Jerusalém, lembrei o histórico da criação desse país, citando até escritores judeus, fui acusado de estimular o anti-semitismo.

Independente de que lado você se coloca, criticar, só os adversários.

Mesmo que você abomine os coxinhas, que alerte para o fascismo que cresce, que denuncie a mídia corrupta, que diga que o impeachment da Dilma foi um golpe, que repita o “Lula livre”, que denuncie o imperialismo americano, isso não basta. Você precisa acreditar piamente que Lula é um santo, e que os governos do PT não fizeram conchavos com a direita, enfrentaram a Globo, e se não fizeram a reforma agrária, foi porque ainda não era o momento.

Você não pode nem sequer repetir o Lula, quando ele disse que os empresários nunca ganharam tanto como no seu governo. Ou seja, crítica, nem a construtiva.

Por isso, é que é tão gratificante ler alguém como o filósofo esloveno Slavoj Zizek, mesmo que seja preciso enfrentar seu estilo tumultuado de escrever, discutindo tudo e todos, talvez seguindo aquela colocação de Marx de que “tudo que é sólido, pode desmanchar no ar”.

Copio e publico duas opiniões dele sobre feminismo e anti-semitismo.

“A constituição do Estado de Israel, do ponto de vista da Europa, foi a “solução final” realizada do problema judeu (livrar-se dos judeus) alimentada pelos próprios nazistas. Ou seja, o Estado de Israel, virando Clausewitz ao avesso, não foi uma forma de continuar agora contra os judeus com outros meios (políticos)? Essa não é a “mancha da injustiça” que pertence ao Estado de Israel?”

“O Holocausto é, de fato, elevado a um amalgama inigualável, tesouro escondido, o objeto “A” dos judeus – eles estão dispostos a abrir mão de tudo, exceto o Holocausto”

“A luta feminista, por exemplo, pode ser articulada num encadeamento com a luta progressista pela emancipação ou pode servir (e de fato serve) de ferramenta ideológica usada pela classe média alta para afirmar sua superioridade sobre as classes inferiores “patriarcais e intolerantes”

“É a constelação específica da própria luta de classes que explica porque a luta feminista foi apropriada pelas classes superiores. (O mesmo acontece com o racismo. É a própria dinâmica da luta de classes que explica por que o racismo declarado é forte entre os trabalhadores brancos da classe baixa)”

 

Se alguém quiser conferir as citações, procure lá no livro dele, do Zizek, “A Visão em Paralaxe”, páginas 339, 343 e 471. Não tenho mais o livro, porque o que li foi emprestado pelo Dr. Franklin Cunha e preciso devolver a ele.

O castigo para os ateus.

 

Deus estava deveras preocupado com o crescimento do ateísmo na Terra e resolveu dar uma demonstração de força.
Convocou seu Conselho de Guerra para decidir o que seria melhor fazer.
De saída, disse que sugestões como um novo Dilúvio, bolas de fogo destruindo cidades como Sodoma e Gomorra, por exemplo, estavam fora de cogitação, até porque seriam considerados procedimentos ecologicamente condenáveis.
Alguém propôs que mandasse seu filho novamente para começar outra pregação na Palestina, mas como um pai preocupado com seu único filho, Deus disse que jamais o enviaria de novo para a Palestina. Ele explicou que a região era hoje um lugar de alto risco e provavelmente Jesus, mesmo com todo seu estoque de milagres, talvez não sobrevivesse até os 33 anos, como na primeira vez.
Ainda havia o problema do anti-semitismo, porque Jesus teria que ser morto novamente a pedido dos judeus e a reação dos árabes poderia ser fora do esquema bíblico, até porque eles, os árabes, não participaram da primeira edição e não conheciam o roteiro a ser seguido.
Gabriel sugeriu que fosse enviado um anjo de sua confiança, versado nas teorias de evolução das espécies de Darwin, para questionar o grande ateu, Richard Dawkins, em suas conferências sobre ateísmo e assim minar sua credibilidade.
Deus vetou a proposta porque detestava Darwin e não acreditava que Gabriel tivesse algum anjo com um QI suficiente para enfrentar o Dawkins.
São José, que era visto como um sujeito de poucas luzes, um ingênuo que até hoje acredita que Maria foi engravidada por um anjo, mas que era aceito no Conselho por causa dos cuidados que teve com Jesus na sua infância, o ensinando inclusive as artes da marcenaria, sugeriu que fosse espalhada a ideia de que o Bolsonaro era ateu.
Como ninguém entendeu a proposta, São José explicou:
– É que se o Bolsonaro for ateu, as pessoas vão ficar contra ele.
Realmente, São José era um sujeito muito confuso e logo todos se esqueceram dele.
O problema é que não surgira ainda a proposta vencedora para mostrar aos terráqueos a nova fúria de Deus.
Foi quando, quando alguém lembrou daquele velho político mineiro, que segundo dizia dava nó em pingo dágua, mas que, ultimamente, estava meio posto de lado pelas travessuras que seu neto andava fazendo na Terra.
– Tan – falou Deus com sua voz de trovão – tens alguma sugestão?
– A solução é simples, basta…
Quando terminou de ouvir a proposta, Deus imediatamente fechou a questão e mandou que contatassem imediatamente o Deltan em Curitiba e deu suas ordens, chamadas de Ordens Divinas, aquelas que não podem ser contestadas nem pelo STF e muito menos pelo TR4.
A partir de então, todos puderam ler na Folha, no Globo, no Estadão, em todos os sites e até mesmo naquele jornal, que a Lava Jato estava colocando na mira do Moro não apenas os petistas, mas também todos os ateus.

Os sonhos de um ateu.

 

O que somos? De onde viemos? Para onde vamos? Tentando ajudar as pessoas a responder a estas perguntas resolvi reunir numa só embalagem três contos que falam do que nos reserva o futuro. É o famoso 3 em 1.

Sonhando com o céu

Dizem que o sono é uma pequena morte. Pois, na noite passada, tive uma pequena morte bem interessante.

Por alguma falha processual, talvez pela falta de provas ou porque a tese de domínio do fato não tinha chegado lá ainda, eu passara na prova de admissibilidade e estava no Reino dos Céus, ainda que cumprindo estágio probatório.

E era exatamente como tinham nos contado: uma eterna primavera, anjos sobrevoando silenciosamente os espaços, uma música muito suave de fundo e um dolce far niente de causar inveja a general de pijama.

Vão perguntar se eu vi o Grande Chefe Barbudo e eu respondo que não.

Disseram que tem hábitos parecidos com o Kin Jong-um, da Coréia do Norte, que não gosta de aparecer muito para os comuns dos mortais, mas falei com muitos dos seus assessores mais próximos.

Dessas conversas, fiquei sabendo muitas coisas sobre o que Ele pensa (vejam como fiquei respeitoso, usando a maiúscula no inicio do seu nome) e que agora me apresso a deixar registrado aqui nesse espaço cultural.

Ele largou de mão a política, porque ficou muito ressentido com os homens, que não só não seguiram os ensinamentos do seu filho – que ele mandou à Terra para pregar o comunismo – como o mataram.

Ele não tem grandes preferências entre os países, mas dizem que gosta muito do Brasil (costuma brincar que é brasileiro) e tem uma certa bronca com os Estados Unidos.

Sobre o Moro, diz que ele não joga no seu time, mas naquele time ‘lá debaixo’.

Não se mete em eleições, mas deixou transparecer, segundo seus assessores, que gostaria de ver o Lula de volta como presidente.

Outra coisa, que pela sua posição não pode confessar, mas seus assessores sabem, é que costuma influir nos resultados de alguns jogos de futebol e que ficou tão chateado com o seu presidente, que largou o Inter (seu time do coração) de mão, no ano passado.

Aproveitando minha curta presença no céu, quis saber por onde andavam alguns brasileiros ilustres, mas meus informantes disseram que era um tema que não podia ser comentado, ainda mais comigo, cuja presença definitiva no local, ainda estava sendo discutida. Garantiram, porém, que nenhum general da ditadura tinha recebido asilo no céu, nem políticos do PMDB, PP e PSDB, chegaram recentemente.

Ouvi, porém, sons que me fizeram pensar que tinha identificado alguns brasileiros. Por exemplo, ouvi um forte sotaque gaúcho que falava em ‘interésses’ e no capital espoliativo internacional. Não deu para ouvir bem, mas imagino também ter ouvido alguns pedaços de letras de música, que me deram a certeza de que a Elis, o Gonzagão e o Gonzaguinha e o Belchior andavam por lá.

Quando minha pequena morte estava quase se transformando em vida, pude ver de longe um grupo ouvindo atentamente às lições de quem parecia ser seu mestre. Espichando o olho, tive certeza que era o Karl Marx falando para um grupo, onde rapidamente vi o Lenin, o Trotsky, o Prestes, a Rosa Luxemburgo, o Gorender e, até mesmo, o Stalin, o que me pareceu estranho. Mas aquele bigodão não me deixou dúvidas. Só podia ser ele, porque o outro bigodudo que conheço é o Olívio e esse, felizmente, está vivo. O Gorbachov não andava por lá.

Bom, agora que estou acordado, só posso dar testemunho do que vi.

Se non è vero, è bene trovato.

Vivendo do Céu

Morri e, nessa condição, me dei conta exatamente do momento em que minha alma se despegou do corpo.

Quanto tempo levou?

Talvez minutos, horas, não sei.

Antes de mergulhar naquele longo túnel que me trouxe até este lugar sobre o qual pretendo falar um pouco, consegui ver que poucas pessoas choravam minha morte. Algumas lágrimas, aqui, um lamento ali e só.

Não haveria uma informação sobre minha morte na seção de necrológios dos jornais, mesmo sem retratinho, nem um voto de pesar na Câmara de Vereadores e o pior de tudo, não fariam, em minha homenagem, um minuto de silêncio em jogo do Inter no Beira Rio.

Saí da vida, incógnito, como quando entrei.

Por isso mesmo fiquei surpreso quando fui informado que podia passar direto para o céu. Duplamente surpreso, diga-se de passagem, porque existia um céu e porque eu seria um dos seus hóspedes.

E como é o Céu?

Não posso falar muito sobre isso porque tive de assinar um termo de confidencialidade, mas posso dizer que não é nenhuma Cancun, mas também não é uma Vila dos Papeleiros.

Sabendo valorizar certas coisas é até lugar bem interessante, embora também aqui não tenham chegado algumas conquistas sociais, até comuns na terra.

Por exemplo: jornadas de oito horas de trabalho, repouso remunerado e férias de 30 dias, nem pensar.

Nós, as almas (algumas ainda são chamadas de penadas), ficamos à disposição em tempo integral para cumprir missões que a elite celestial costuma determinar.

Aliás, a divisão de classes aqui é muito rígida. O chamado círculo de poder, que nunca se mistura, é formado por aqueles caras que foram citados na Bíblia.

Citações na Bíblia são consideradas essenciais para sonhar com alguma ascensão social por aqui. Ser lembrado no Novo Testamento conta pontos, mas não é a mesma coisa do que ter aparecido no Velho Testamento.

Ontem (ou foi no século passado?) fui informado de que devo voltar à Terra em breve, comprovando que era verdade aquela história do Sérgio sobre reencarnações.

Não sei o que serei. Você não tem muitas opções: bicho ou ser humano, homem ou mulher. Eu vi que tinha uma vaga para um desses cachorrinhos de madame, tratados a pão de ló, mas um argentino (tem alguns aqui, mas poucos) se adiantou e pegou o lugar.

Escolhi uma vaga de homem, mas parece que é para viver como líder do tráfico numa vila popular de Gravataí, sinal de que não vou durar muito por ai, mas quando acabar, certamente dessa vez vou sair em algum jornal, obviamente na página policial.

Aguardem novas notícias minhas em breve.

Quando fui para o Céu como Papa

Todo mundo sabe que sou ateu e não acredito em nenhuma dessas histórias que contam a respeito de Deus, Diabo, Céu e Inferno e continuo pensando que fora da matéria não existe espírito, mas como uma pessoa formada em História (turma de 1965, da Ufrgs, na época, simplesmente Urgs) sou obrigado reconhecer a verdade dos fatos, mesmo quando eles possam contrariar a minha visão sobre eles.

Faço essa introdução para informar aos distintos leitores que, em outra encarnação (algo em que não acredito), fui Papa. Meu nome de batismo era Ambrogio Damiano Achille Ratti, nascido em 1857 e me tornei Papa em 1922, como nome de Pio XI.

Em 1929, assinei o famoso Tratado de Latrão com Benito Mussolini, o que trouxe duas vantagens: para Mussolini o reconhecimento da Itália como um estado fascista e para Igreja Católica uma base material e econômica, representada pelo Estado do Vaticano.

Morri em fevereiro de 1939 e como Papa, usando os direitos assegurados pelo meu cargo, fui direto para o Céu.

A partir daí, essa narração feita até aqui na primeira pessoa (eu) passa a ter um caráter impessoal para que possa ter mais credibilidade.

Chegado ao seu Céu, Pio XI se mostrou muito incomodado ao constatar que velhos comunistas, que ele sempre combatera, eram figuras reconhecidas por Deus pelas lutas que tiveram em favor da melhoria das condições das pessoas e gozavam de posições privilegiadas junto aos centros do poder celestial. Assim, Marx e Engels eram sempre consultados em questões econômicas, Rosa Luxemburgo era a pessoa mais ouvida quando se discutia os rumos do feminismo e Lenin era o grande estrategista nas lutas contra as hordas de Lúcifer.

Pio XI ficou tão incomodado com isso que, diariamente, pedia a Deus para voltar à Terra. Tanto insistiu que, quando ocorreu de haver um corpo ainda sem espírito (ou alma) em agosto de 1939, em Porto Alegre, concordou que Pio XI assumisse essa vaga.

A partir daqui, a narrativa volta à primeira pessoa porque vai tratar das minhas experiências.

O corpo era o meu e então durante alguns anos, sob o nome de Marino se escondia o Papa Pio XI, o que confesso agora, me trazia alguns constrangimentos.

Sendo naturalmente um ateu, me via participando de confissões e até comunhões, na Igreja São João.

Depois de me submeter a sessões de exorcismos, porque a igreja duvidava da minha origem mística, fui convencido que tudo era uma fantasia minha a partir de um encontro com o famoso Padre Quevedo, durante uma edição do Fantástico da Rede Globo, acho que na década de 1970, quando esse jesuíta espanhol se dedicava a desmistificar casos como o meu.

Desde então, pus de lado essa fantasia de ter sido Papa e pude assumir meu ateísmo, embora, às vezes, me pegue fazendo longas citações em latim.

Jamais confie no Mendes


Quem é que nunca sonhou em participar do seu próprio velório?
Saber o que algumas pessoas pensam a seu respeito? Finalmente descobrir se aquela mulher, especificamente aquela, vai chorar de verdade diante do seu caixão? Quais os amigos que virão e os que vão preferir um jogo na TV? E quanto tempo eles ficarão? Quais serão os vão ficar até o último minuto? Os que vão dar apenas uma passadinha, porque têm trabalho no escritório?
O problema todo é que o espetáculo reserva para você o papel principal, o de morto.
Um papel importante, mas que não lhe dará nenhuma chance de observar o ambiente para obter as respostas sonhadas.
Mas e se você se fingir de morto?
Será preciso ser um grande ator. Não poderá coçar as costas, piscar o olho e deve agüentar impávido um beijo molhado na testa daquela velha tia da qual você nem lembrava mais.
A ideia era tentadora e resolvi experimentá-la.
O Mendes, meu sócio na empresa de propaganda, tido pelo mercado inteiro como um grande oportunista, era portanto a pessoa ideal para ajudar a montar a farsa.
Diga-se de passagem, que ele adorou a ideia e disse que se encarregava de tudo. Eu só precisava bancar o morto.
É o que estou fazendo há mais de três horas, espiando por um canto de olho, quem chega e quem sai, mesmo correndo o risco de alguém gritar – vi o morto piscando – e desmaiar na hora.
Felizmente nada disso aconteceu, por que o Mendes havia providenciado para deixar o ambiente meio na penumbra.
Das minhas três ex, só não veio a Lúcia, a do meio, logo ela que eu pensei que seria a que mais lamentaria minha morte, mesmo que tecnicamente fosse apenas uma morte aparente.
Das namoradas (vamos dizer assim) vieram umas três ou quatro, todas mantendo um ar constrangido, próprio para o evento, salvo a Claudete, que de forma bem inconveniente se jogou sobre mim, aos prantos, quase derrubando o caixão.
Ainda bem que meu primo, o Cardosinho, agiu rápido e levou a Claudete para a cozinha.
A Vera trouxe o marido, o Antônio Carlos. Acho que ele nunca soube do meu caso com a sua mulher, porque bem que ouvi quando ele falou – era um bom sujeito. E a Vera, muito sacana, ainda respondeu – parece que ele bebia demais. Certamente estava pensando naquele porre que tomamos juntos. Foi tanto trago, que depois nada mais funcionou direito naquela noite.
O combinado era que durante a madrugada, quando se esperava que a freqüência de público diminuísse bastante, o Mendes, depois de uma saída estratégica, voltaria com alguém que ele apresentaria como o Doutor Sepúlveda, um médico de renome internacional e que se dispunha a fazer um teste final para saber se o morto estava realmente bem morto.
Só que já passava da meia noite e nada do Mendes chegar com o Doutor Sepúlveda.
O combinado é que ele, o Doutor Sepúlveda, pingaria umas gotas nos meus olhos e depois de alguns momentos de expectativa, eu abriria levemente o olho da direita, depois o da esquerda, diria uma frase previamente decorada – meu Deus estou vivo – sentaria no caixão e para um pouco de espanto dos ainda presentes, deixava de ser um morto e voltaria a ser tão vivo quanto os demais
Fim do espetáculo, baixam-se as cortinas e vão todos para a casa.
Acontece que, esperando que o Mendes fizesse sua parte, acabei adormecendo e quando acordei estava tudo escuro e me dei conta que tinham fechado o caixão e me levavam agora para algum lugar, que poderia ser tanto um cemitério como um crematório.
Bem que me disseram para não confiar no Mendes.

As ironias da História

Nos anos 30 do século passado, todo o Oriente Médio era área de influência inglesa e na Palestina, os árabes que lá viviam há séculos e os judeus, que começaram a chegar depois da Primeira Grande Guerra, viam os ingleses como seus inimigos e os alemães como possíveis aliados.

No seu livro Para Onde Vai o Sionismo, o filósofo esloveno Slavoj Zizek, lembra um fato que os governos de Israel, hoje, querem esquecer: “26 de setembro de 1937 é uma data qualquer que um interessado na história do anti-semitismo deve se lembrar.

Naquele dia, Adolf Eichmann e seu assistente embarcou em um trem em Berlim, a fim de visitar a Palestina. O próprio Heydrich deu permissão a Eichmann para aceitar o convite de Feivel Polkes, um alto membro da Hagannah (a organização secreta sionista), para visitar Tel Aviv e discutir lá a coordenação das organizações alemães e judias para facilitar a emigração de judeus para a Palestina.

Ambos os alemães e os sionistas queriam mover tantos judeus quanto possível para a Palestina: alemães preferiram-los fora da Europa Ocidental, e sionistas próprios queriam os judeus na Palestina para superarem os árabes o mais rápido possível.

A visita falhou porque, devido a alguma agitação violenta, os britânicos bloquearam o acesso à Palestina, mas Eichmann e Polkes se encontraram depois no Cairo e discutiram a coordenação das atividades alemãs e sionistas.
Pelo lado palestino, existe outra lembrança que ainda hoje serve de arma para os governos de Israel acusarem os árabes de antissemitismo. 

Em novembro de 1941, em plena guerra, Haj Amin Al – Hussein, o Grande Mufti de Jerusalém (líder religioso islâmico) visitou Hitler em Berlim, para pedir seu apoio na luta contra os ingleses e também contra a migração de judeus para a Palestina, seguindo o lema de que “inimigo do meu inimigo, meu amigo é.

Sabe-se que o Mufti estimulou a formação de grupos militares islâmicos da Bósnia e da Albânia para lutar ao lado dos nazistas na Segunda Guerra e ajudou a brecar uma troca de 4 mil crianças e 500 homens judeus, que estavam nos campos de extermínio nazistas por 20 mil soldados alemães, capturados pelos ingleses no Oriente Médio.

Boicote a Israel

 

 

A Argentina cancelou o amistoso que faria sábado contra Israel, em Jerusalém, nas comemorações dos 70 anos de criação do estado judeu, depois de forte pressão da comunidade árabe de Jerusulém, que denunciou que o jogo faria parte do esforço do governo de Israel em justificar sua política expansionista na região.

No mundo artístico tem sido comum atos de denúncia contra a política de Israel em relação aos árabes. Artistas como Roger Waters, Elvis Costelo e Laurin Hill e até o brasileiro Gilberto Gil cancelaram shows em Israel por motivos políticos.

Existe inclusive hoje um movimento internacional denominado BDS, Boicotes, Desinvestimento e Sanções contra Israel para denunciar a política de apartheid que o governo do país realiza contra os palestinos.

Recorda-se que ações semelhantes no passado desestabilizaram o governo racista da África do Sul. A existência de estado assumidamente religioso, encravado dentro do mundo islâmico e protegido pelos Estados Unidos, é e será sempre uma fonte de conflitos na região.

Nascido após a segunda guerra mundial, quando mundo inteiro ficou abalado pelas revelações do holocausto, onde milhões de judeus foram dizimados pelos nazistas, ele teve o apoio inicial da União Soviética e dos Estados Unidos e a tolerância do Reino Unido, mas seus governos nunca negaram a ambição de ampliar suas fronteiras, através de guerras e limpezas étnicas às custas das terras e das vidas dos palestinos.

Para os que nunca se preocuparam em conhecer os fatos históricos, é bom lembrar que a criação de um estado judeu começou a ser discutida desde o Congresso de Basel de 1897, quando Theodor Hezl lançou o Movimento Sionista. Desde então, vários congressos foram realizados, mas a volta para Israel nunca foi unanimidade entre os judeus, principalmente aqueles já assimilados na Europa, nem onde seria formado esse novo país.

Num desses congressos chegou-se a aprovar, no início do século XX, a escolha da Uganda, então sob o domínio britânico, para ser a nova Israel. Outros lugares cogitados: Birobidjan, na União Soviética (Stalin chegou a concordar com a formação de uma república judaica autônoma no extremo oriente da URSS), a Ilha de Madagascar, a Guiana Britânica e até a Patagônia.

A opção pela Palestina só se tornou real em 1917, a partir da chamada Declaração Balfour. Como necessitava de recursos na sua guerra contra o Império Otomano,, que dominava a Palestina, o Secretário de Assuntos Estrangeiros do Reino Unido, Lord Balfour, negociou com o Barão Rothschild, líder da comunidade judaica um grande empréstimo financeiro em troca do apoio britânico à criação de “um lar judeu” na Palestina, com a ressalva que o novo país deveria respeitar os direitos das populações não judaicas da região, o que , como vimos, não aconteceu

O maior partido do Rio Grande.

 

Quando eu era assinante da Zero Hora, periodicamente cancelava a assinatura, irritado com alguma matéria mais mal intencionada que o normal. Um dia ou dois depois,recebia um telefonema e uma voz feminina, sempre amável, obviamente recitando um texto que lhe ensinaram, perguntava por que um assinante tão antigo tinha abandonado o jornal. Quando eu dizia que era pela linha cada vez mais de direita do jornal e seus colunistas, vinha sempre a mesma resposta.
– Mas temos dois colunistas de esquerda, o Luís Fernando Veríssimo e o Moisés Mendes, o senhor não gosta deles?
Isso, foi quando o PT era governo, aqui no Rio Grande e no País.
Quando o PT deixou de ser governo, a Zero Hora manteve o Luís Fernando, para não perder leitores, mas mandou o Moisés embora, porque não precisava mais dele.
Agora, ele se apresenta como candidato a deputado estadual pelo PT, logo o PT.
Como lembra a Vera Spolidoro, durante anos escreveu os editoriais do jornal e quando morreu o Paulo Santana, digo eu, já não sendo mais funcionário do jornal, escreveu um lamentável panegírico ao morto. 

Agora pretende ser mais um candidato do maior partido do Rio Grande, a RBS, a se eleger. Não bastam o Sérgio Zambiasi, a Ana Amélia, o Lasier Martins, no Senado; o Britto, deputado federal e depois governador; o Affonso Motta, na Câmara Federal e até Paulo Borges, o Homem do Tempo, na Assembléia. 

Será que a RBS precisa eleger um ex-funcionário para mostrar ainda mais o seu poder ?

O dossiê X

X chegou, se dizendo um professor universitário, que se apaixonara por uma aluna chamada Y e queria que eu o ajudasse a escolher uma dessas alternativas: ou se suicidava ou matava Y.
Como não gosto de fazer suspense, quero dizer logo, que ele não optou por uma das duas possibilidades.
Ele seguiu as duas.
Vou contar o caso, como ouvi de X.
Y não era uma estranha para X. Já a tinha visto pelos corredores da universidade, mas não prestara muita atenção, preocupado que estava com a defesa da sua tese sobre o novo comportamento feminino. Na contracorrente do pensamento dominante na academia, ele defendia a tese de que as mulheres deviam voltar ao lar para cuidar dos filhos e serem fieis a um homem só porque só dessa maneira poderiam ser felizes.
No dia em que apresentou seu trabalho na Faculdade de Sociologia, ele a viu novamente num canto da sala praticamente vazia e ela sorriu, parecendo estimulá-lo quando começou a falar.
Um grupo de alunas, contrário à tese que ele iria defender, foi mantido do lado de fora da sala com seus cartazes, onde o que menos se dizia dele, é que era um machista e preconceituoso.
Apenas professores e senhoras da Liga da Moralidade, além da misteriosa moça sorridente, ocupavam umas 20 cadeiras na sala.
Tudo correu dentro do esperado, ele pode expor seu trabalho, saudado pelo chefe da banca examinadora como uma contribuição fundamental para a discussão de um tema tão importante e no final, como de praxe, se colocou diante da mesa para receber os cumprimentos dos presentes.
Ela foi a última a se aproximar, sempre sorridente. Quando ele estendeu a mão para receber o cumprimento, se deu conta que ela lhe passava um bilhete, ao mesmo tempo em que aproximava o rosto para um beijo, que para seu espanto, deslizou das bochechas e tocou levemente nos seus lábios, enquanto ela dizia entre dentes:
– O senhor está muito errado professor. Vamos falar sobre isso.
O bilhete tinha apenas um Y enorme em vermelho e um número de telefone.
No nosso primeiro encontro X contou que era casado, há 10 anos com M e tinha dois filhos. Como os dois eram de famílias pobres, tiveram muitas dificuldades materiais no início do casamento, o que obrigou M a continuar trabalhando num banco até o nascimento do primeiro filho. Com o tempo, a vida foi melhorando, X conseguiu dar aulas em duas universidades e agora com o título de doutor, sua vida financeira estaria estabilizada e eles poderiam deixar de morar com a sogra e comprar um apartamento. Um pequeno carro, ele já tinha comprado em 60 vezes, sem juros. Sua próxima meta, além do apartamento, já negociado, era a viagem à Itália, prometida para a lua de mel, mas que só agora estava em vias de se concretizar.
– Foi, então, que Y começou a destruir minha vida, disse ele, com os olhos cheios de lágrimas.
Antes de pedir que ele falasse sobre Y, perguntei se ele era feliz com M. Ele respondeu que achava que sim.
Perguntei se ela tinha sido sua primeira mulher. Ele respondeu que tivera algumas pequenas aventuras, mas desde o casamento se mantinha fiel.
E ela? Perguntei. Ele ficou constrangido com a pergunta, acho que um pouco incomodado, mas assegurou que ela era virgem até o casamento.
E sexo, quantas vezes?
Mais constrangimento. Acabou explicando que de 30 em 30 dias iam a um motel, porque na casa deles não havia privacidade bastante para isso, já que os filhos dormiam no mesmo quarto.
Quando perguntei se era suficiente esse espaço de um mês para o sexo, respondeu que, antes iam todos os sábados, mas M sugeriu que podiam poupar o dinheiro do motel para a prestação do novo apartamento e foram então diminuindo a frequência.
Quando ligou para Y, ela marcou um encontro num bar da Cidade Baixa, no fim da tarde de um dia de muito calor. Ele chegou primeiro e pediu uma água sem gás. Ela chegou com quase uma hora de atraso, quando ele já estava se preparando para ir embora, sentou na cadeira em frente dele e não se desculpou pelo atraso. Em vez disso, chamou o garçom e pediu um copo de vodka pura.
Foi então que ele se deu conta de como ela era bonita. Mais do que isso, era a mulher mais excitante que vira na vida. Ela estava com um vestido curto e de tecido quase transparente e um enorme decote que punha à mostra quase todos seus seios.
Ela olhou para ele durante instantes e foi logo direto ao ponto
– Professor, sua tese é furada. Sua mulher é uma frustrada sexual, certamente mal comida pelo senhor e sonha ainda em encontrar um príncipe encantado.
Ele disse que num primeiro momento ficou impressionado com a ousadia de Y e até achou graça no que ela dizia, sem sequer o conhecer muito bem e a desafiou a continuar.
– E, eu, perguntou.
Y pegou a mão de X, que estava segurando o copo e o trouxe direto até encostar em seus seios e sussurrou em sua direção.
– Tu só está pensando em transar comigo.
Tentando se manter no controle da situação, X buscou dar um tom irônico a sua resposta.
-Você acha que tenho alguma chance?
– Quem sabe?
De repente, X sentiu que estava diante dele uma oportunidade inesperada de transar com uma mulher maravilhosa, certamente totalmente liberada para as mais loucas fantasias. Nessa altura, disse depois, em poucos segundos tinha perdido toda sua segurança e a única coisa que queria naquele momento era convencer Y a ir logo para a cama com ele.
– Podemos ir sim, mas antes disso, você terá que atender alguns pedidos meus, disse Y.
Num novo encontro, X disse que foi exatamente naquele momento que se deu conta de que iria se transformar num escravo de Y, que faria tudo que ela pedisse para poder um dia fazer sexo com ela, mas que esse dia nunca chegaria porque antes disso, ele acabaria com a vida dos dois.
Eu conversei com X durante dois meses antes que desaparecesse de vez e surgisse,depois, numa foto de 4 colunas, sob uma manchete da página policial do jornal que dizia “Professor Mata Aluna e se Suicida”.
A partir daquele primeiro encontro no bar, passaram-se seis meses em que Y se oferecia continuamente para ele, sem que se consumasse a relação sexual. X deveria ter percebido que sua relação com Y seria muito difícil, já naquele primeiro encontro, quando ela interrompeu a conversa para ler uma mensagem no celular. Imediatamente, se levantou e dizendo apenas para X, depois te ligo, saiu, sem sequer pagar a sua vodka.
Uma semana depois ela ligou e marcou um encontro no mesmo bar. Dessa vez, ele resolveu atrasar uma meia hora e quando chegou ela estava sentada numa mesa com uma loira muito bonita, mas bem mais madura que ela. Y apresentou a loura como sendo Z, uma amiga que conhecera na academia de musculação. X disse que nem chegou a sentar, porque Y falou que elas tinham programado algo melhor para os três.
A amiga de Y tinha um carro conversível e os três sentaram no banco da frente. Quando perguntou onde iriam, Y disse que era surpresa. Nessa altura, X começou a imaginar que o programa seria uma sessão de sexo a três em algum motel da zona sul e se perguntou se teria capacidade de agradar as duas. A sua coxa esquerda estava colada na coxa direita de Y e ele começou a ter uma ereção incontrolável, Y percebeu e chamou a atenção de Z para o fato.
– Olha o professor X com maus pensamentos.
As duas ainda estavam rindo, quando Z manobrou o carro e entrou na garagem de um prédio de luxo na Rua Santo Inácio. Quando perguntou quem morava ali e o que íamos fazer, Y disse que era a sua médica particular, a Dra.H e não quis dizer mais nada.
A médica era uma senhora de uns 60 anos, gordinha, simpática, que se apresentou como grande amiga de Y e Z. Quando X perguntou o que ele tinha a ver com tudo isso, foi Z quem tomou a palavra e explicou.
Como Y tinha contado a ela que estava pensando em transar com X, ela aconselhou que fizesse a Dra. H examiná-lo detidamente para ver se ele era um homem saudável. Era o que pretendiam fazer agora.
Ele contou que se sentiu profundamente ridículo quando foi obrigado a tirar todas as roupas em frente as três para ser examinado. O pior, disse ele, foi quando Dra. começou a estimular seu pênis para medir sua circunferência. Depois, foi obrigado a se masturbar num pequeno frasco, o que felizmente pode fazer de forma privada num banheiro. Ele, que sempre tinha evitado se expor em alguma consulta médica, agora teve que se submeter ao olhar atento da Dra. H.

No final, teve que ouvir ainda uma avaliação da sua condição física pela médica. Com um sorriso simpático no rosto, ela disse que X era portador de um pênis de pequeno para médio, com uma circunferência abaixo do padrão nacional e que possivelmente sofria de ejaculação precoce. Depois, para aumentar o constrangimento de X, ela perguntou com qual das duas ele pretendia se relacionar. Quando Y disse que era com ela, a Dra. H sorriu e disse que para ter algum prazer, Y deveria cobrar de X, além do uso do pênis, também um reforço com a língua e os dedos.
X me disse então que saiu desse encontro decidido a nunca mais se encontrar com Y.
Sua decisão durou pouco, pois Y ligou dias depois, o convidando para assistir juntos o filme Cinquenta Tons de Cinza.
Foram num cinema do shopping e foi a ocasião em que chegou mais perto de finalmente transar com Y. Durante a sessão, ela deixou que ele escorregasse a mão por baixo do vestido e chegasse a introduzir os dedos em sua vagina. Na saída, e era a primeira vez que ele a levava no seu carro foram para casa numa rua do Passo da Areia. Ele pensava que ela morasse num rico apartamento da Independência e que seria convidado finalmente a subir, mas ela vivia com os pais, enquanto o apartamento não ficava pronto, disse, quando ele se surpreendeu com a modéstia da casa. Talvez para compensá-lo da decepção, Y permitiu que ele desabotoasse o corpete e começasse a beijar seus seios. O pênis ereto já estava para fora das calças e quando se aproximava para a tão esperada transa, subitamente, uma luz piscou duas ou três vezes na varanda da casa e Y rapidamente se recompôs e avisou que precisava entrar em casa imediatamente. A luz que se acendeu e apagou era o sinal que o irmão lhe dava de que o pai estava chegando e X precisava partir logo. Foi o que ele fez.
Nessa altura, X contou que sua relação com a mulher estava ficando difícil porque, por mais que se esforçasse, ele passava o tempo inteiro pensando em Y e quando M sugeriu que o fim-de-semana era o reservado para irem a um motel, X alegou uma dor de cabeça e recusou pela primeira vez a esse convite. Desde então, M começou a desconfiar do marido e a toda hora ficava a perguntar quem era a outra.
X decidiu então que teria um último encontro com Y e se ela se recusasse mais uma vez a transar com ele a esqueceria de vez.
O encontro foi no Jardim Botânico e Y se mostrou pela primeira vez, compreensiva e disposta a encontrar uma solução para o caso dos dois. Para o espanto de X disse que era ainda virgem, que tinha se apaixonado por ele, mas que não poderia transar, enquanto ele vivesse casado com outra mulher. Disse que estava disposta a esperar o tempo necessário para isso, mas que só dormiria com ele, depois da separação. X falou então na família, nos filhos pequenos e sugeriu que Y poderia ser sua amante. X contou que ficou surpreso com a reação de Y. Ela levantou-se do banco em que estavam sentados, falou que todos os homens eram iguais, só pensavam em sexo, que ela estava ofendida e que jamais seria amante de um homem casado e que se ele pretendesse alguma coisa com ela, que só a procurasse novamente quando fosse uma pessoa livre como ela. X disse que ficou surpreendido com a sinceridade das palavras de Y e com as lágrimas que desciam pelo seu rosto. Se separaram então, sem que ele tivesse tomado alguma decisão, mas na sua cabeça já se insinuava com força a ideia de se separar de M e dos filhos.
Entre o terceiro encontro e o quarto, que foi a última que tive com X, se passou quase um mês. Nessa última vez que o vi, ele me pareceu bem diferente das vezes anteriores, quando ainda estava cheio de dúvidas sobre o que fazer. Dessa vez, me pareceu forte e decidido e eu até o cumprimentei por isso. Contou então que tinha se separado de M, que ela fora bastante compreensiva e que até se dispusera a apoiar quando fosse necessário e permitiria que ele visse os filhos quando quisesse.
– E Y, perguntei.
Eu devia ter me dado conta que sua resposta – ela vai ter o que merece – era uma ameaça, mas tomei como desabafo. Contou então que alugara um pequeno apartamento no Bonfim, que continuava dando aulas, que deixara o carro com a mulher e considerava Y um ser maligno.
Aquela menção a Y como um ser maligno me pareceu até engraçado. Lembrava coisas da religião e X, até onde eu sabia, era um ateu.
– Por que maligna?
Ele contou que levou duas semanas para tomar a decisão de separar de M e quando finalmente ficou livre, ligou para Y a fim de lhe dar a notícia. Ela não atendeu a suas várias ligações, até que a viu por acaso na frente daquele bar do seu primeiro encontro.
– Acabei de me separar.
– Agora é tarde, meu bem. Você perdeu a sua vez. A fila andou.
X não se conformou e continuou insistindo.
De tanto pedir explicações, chegou o momento em que Y resolveu abrir o jogo. Ela tinha feito uma aposta com Z, que obrigaria um professor conservador a se separar da mulher e dos filhos, só com a promessa de sexo.
Diante da sua surpresa, ela disse que estava com muita pressa, mas que ligaria à noite para a fim de explicar tudo.
Já era quase meia noite, quando o telefone tocou e Y lhe deu explicação que precipitou a tragédia que viria depois:
– Como te disse, era apenas uma aposta. Eu não sou virgem desde os 14 anos. Devo ter transado com mais mil homens. Agora mesmo estou na cama com um cara que encontrei naquele bar da Cidade Baixa e nem sei o nome dele. Estou te ligando agora que o cara começou a dormir.
Como X, num primeiro momento, pensou que Y estava inventando essa história apenas para justificar a separação e que a razão seria outra, ele continuou insistindo,
Então, X ouviu nitidamente quando Y falou:
– Oh, Negão. Acorda e diz pro meu marido o que estamos fazendo.
X ouviu então uma voz rouca de alguém ainda meio dormindo.
– Tô transando com a tua mulher, seu corno.
Confesso que fiquei surpreso em como aquela mulher pôde ser tão maligna e acho que, se soubesse previamente o que X pretendia fazer, não sei se iria tentar impedir seu gesto.
Às vezes, precisamos adotar métodos radicais em relação ao mal.
Pena que X tenha também se punido por isso.