Nós, os velhos e o poeta que faltou

 

Quando o governo do PT lançou o programa Mais Médicos e as entidades de classe foram contra, um grupo de médicos de esquerda, aqui de Porto Alegre se uniu para defender a ideia num site.

Meu ponto de contato com eles era o Dr.Franklin, que além de médico é um escritor. A convite dele me integrei ao grupo e passei a colaborar no site. Quando ele acabou, continuamos nos reunindo para fazer a coisa que mais gostamos, discutir política.

Mensalmente, nos reunimos para isso. Ontem, a reunião foi em torno de uma paella e muitos vinhos. Alguém de fora poderia dizer que são burgueses, com a vida resolvida, discursando em favor de uma hipotética revolução socialista.

Até pode ser, mas isso não é tudo. Muitos dos que estavam ali sentiram na pele como foi aquela outra ditadura, a que começou em 64, e estavam ali para exorcizar o demônio que parece querer voltar sob o aplauso de um monte de alienados políticos.

Eu, sai reconfortado da reunião. Aqueles velhos, vamos assumir essa condição, têm uma qualidade que talvez falte em outros mais jovens: eles não se entregam. Pelo contrário eles resistem.

Devíamos ter terminado ( talvez façamos na próxima reunião) declamando juntos os versos de Carlos Drummond de Andrade, o nosso poeta maior: “O poeta / declina de toda responsabilidade / na marcha do mundo capitalista / e com suas palavras, intuições, / símbolos e outras armas / promete ajudar / a destruí-lo / como uma pedreira, uma floresta,/ um verme”.

O que fazer?

O governo, formalmente constituído, se esfacelou.

Quem tem o poder hoje no Brasil?

Por que as esquerdas estão silenciosas?

Você leu ou ouviu em algum lugar uma palavra de ordem ou ao menos de esclarecimentos dos seus partidos principalmente o PT, o maior deles ?

E os seus líderes? Gleisi Hoffmann, mesmo a Dilma, o Boulos, a Manuela? E os líderes históricos, como o Tarso e o Olívio? Todos estão calados. Quem sabe o Lula,,mesmo preso, possa dizer algo.

Os partidos que falam são o dos caminhoneiros, mas não se sabe exatamente a serviço de quem eles estão e o da Rede Globo e essa todos nós sabemos o que pretende. Será que já consultaram Washington para saber quais os próximos passos? O único partido que tem força e coesão para decidir algo – o partido do Exército – está quieto até agora.

Não é preciso ser especialista em História para lembrar que caminhos podem ser seguidos a partir de uma crise como essa. Na Rússia czarista, o poder foi se derretendo nas mãos de Kerenski,a partir de fevereiro d 1917 e a esquerda tomou o poder.Mas os russos tinham líderes como Lenin e Trotski para apontar os caminhos.

Em 1933, na Alemanha, a crise levou ao nazismo e na Espanha, em 37 ao franquismo.

Qual vai ser o nosso caminho?

O que fazer?

Astrogildo, o organizador

 

 

Texto publicado originalmente no livro ¨Meu tipo inesquecível e outras histórias pouco edificantes”)

 

 

O sujeito parece caminhar em minha direção, já sorrindo. No primeiro momento não o reconheço, mas quando está a poucos metros percebo que é o Astrogildo.

Finjo que não o estou vendo, mas não adianta, ele me puxa pelo braço.

– E aí amizade, como vai essa bizarria?

O Astrogildo não muda essa frase de apresentação há 30 anos.

– Tudo bem

– Como tudo bem, virou hippie depois de velho?

Para o Astro, é assim que ele sempre foi chamado, como estou de calça de brim e tênis, sou um hippie. Ele está sempre de terno e gravata.

– E você, Astro, vai numa festa?

Confesso que minha resposta também não muda há anos.

Ele me conta, então, que está organizando um grupo de antigos revolucionários para discutir a questão política vista sob uma ótica espiritual e vai dando os nomes dos que já se comprometeram a participar da próxima reunião.

Enquanto vou ouvindo esses nomes, alguns dos quais já imaginava no andar de cima, como gosta de dizer o Sérgio Gonzales quando anuncia que o cara morreu, fico pensando em qualquer desculpa para justificar que não pretendo entrar em grupo nenhum organizado pelo Astro.

Desde que nos conhecemos no ginásio do Julinho, o Astro sempre foi ‘O Organizador’. Nas peladas do recreio, acabávamos por perder um tempo enorme, com ele dividindo os times por idade, tamanho e habilidade no jogo.

Como ele era o dono da bola, tínhamos que atender suas preocupações com a organização, mesmo que no fim sobrasse pouco tempo para o jogo.

No movimento estudantil seu grande feito foi organizar as tendências de esquerda, dando notas de 5 a 10 para cada um dos componentes dos grupos em função do seu comprometimento com a causa.

Certa vez, quase fui reprovado por ter faltado uma reunião para ir ao cinema ver um filme do Kubrick.

– De um diretor americano, ainda por cima, me criticou o Astro.

– O filme é antimilitarista e o Kubrick é até um cara de esquerda.

– Não importa, você faltou exatamente no dia em que íamos decidir sobre a organização de um movimento de protesto contra o corte das verbas para o restaurante universitário.

Consegui, no final, uma nota 6 e fui aprovado, ganhando o direito de continuar participando do grupo organizado pelo Astro.

Subitamente, o Astro desapareceu. Disseram que ele tinha sido preso, torturado e até morto, mas ninguém sabia realmente dele, até que ele apareceu havia uns 10 anos transvestido no Pastor Astrogildo, da Organização Religiosa dos Filhos da Ordem.

Como ele descobriu meu endereço ainda não sei, mas desde então a sua meta parece ser a de me incluir na sua organização religiosa.

– Sou ateu, Astro, você bem sabe disso.

– Não importa. A nossa organização é aberta para todos Você vai fazer parte do grupo dos ainda não convertidos. É um processo. Você começa nesse grupo e depois passa para os neoconvertidos, e, finamente, o grupo dos eleitos.

Prometo pensar no assunto para me livrar do Astro.

Quando me aperta a mão para a despedida, me deixa um cartão.

Vejo que o cartão tem seu nome endereço e a frase, Ordem e Progresso. Ia comentar que ele estava plagiando o lema positivista da nossa bandeira, mas achei melhor cair fora porque senão o Astro iria desenvolver mais uma longa tese sobre a beleza das coisas organizadas.

Sexo em Porto Alegre

(Esta crônica faz parte do livro Meu tipo inesquecível e outras histórias pouco edificantes)

Os homens, que hoje podem usufruir dos prazeres sexuais com suas amantes ou namoradas, despreocupados e seguros em motéis confortáveis ou em suas casas, deviam interromper por alguns segundos suas atividades para prestar uma homenagem a nós, os precursores dessa batalha pelo direito do sexo livre.

Nas décadas 60 e 70, em Porto Alegre, ter uma boa e variada vida sexual não era nada fácil.  Uma boa parte das moças que nos interessavam, ainda praticava aquela velha chantagem que suas mães lhe ensinaram: sexo só depois do casamento.

Mesmo com aquelas avançadas em seu tempo, havia um grave problema de logística: onde levá-las. Quem já tinha carro, poderia arriscar ser assaltado, preso pela polícia ou, na melhor das hipóteses sofrer um torcicolo, ao transformar os bancos do seu carro (quase sempre um Fusca) em cama.

Sobravam os lugares que alugavam quartos por hora. Como acontecia com alguns prostíbulos, essas casas não tinham nenhuma sinalização que nos orientasse em sua busca. Era um segredo, passado de boca em boca.

Tinha a “casa do meio” na Botafogo, quase de domínio público, mas as outras, na sua maioria, eram lembradas pelo nome de alguma benfeitora: a casa da Emília, a casa da Dorinha, da Lourdes e assim por diante.

Eram lugares de pouca higiene e quase nenhum conforto. Em vez de um banheiro, uma bacia com um jarro de água ao lado e um rolo de papel higiênico.

Sim, pessoal, fomos os heróis desbravadores do sexo em Porto Alegre.

Então, aquela senhora, antiga prostituta que ascendeu na vida pelo seu esforço diário, a Dona Marli, revolucionou o mundo do sexo na cidade, criando o primeiro motel digno desse nome em Porto Alegre. Grande, com estacionamento, portaria, apartamentos confortáveis e banheiros com água quente.

Suas modernas instalações ficavam na Padre Cacique, quase esquina José de Alencar, onde o Prefeito Thompson construiu aquele viaduto, até hoje praticamente inútil, ao qual deu  o nome de Pedro I.

Deveria merecer uma estátua dos que defendem o capitalismo e a livre iniciativa: uma grande empreendedora, Dona Marli, mas em vez disso foi vilipendiada e perseguida.

Naquele ano de 1977, vivia-se o auge da ditadura militar no Brasil e os milicos estavam comemorando os 150 da Independência.

Dentre as solenidades previstas estava a colocação de uma urna com os ossos do imperador, trazidos de Portugal num espaço do viaduto que levava seu nome.

Ocorre que ninguém chamava aquele viaduto pelo seu nome oficial. Era o Viaduto da Marli.

O que acontece então?

O Motel da Marli é fechado, a Marli é presa e os que naquela noite se dedicavam aos prazeres do sexo foram levados para a Delegacia de Costumes (sim, existia) para prestarem esclarecimentos.

Algum tempo depois, o motel virou um estacionamento e o viaduto continua lá, inútil e enfeando a paisagem.

Acho que ainda é conhecido por alguns como o Viaduto da Marli

 

 

Uma nova agressão norte-americana

Os Estados Unidos se preparam para desencadear uma campanha de terror contra a Venezuela, que não exclui, inclusive, o uso de suas forças armadas.

A denúncia foi feita semana pela jornalista argentina Stella Calloni, 83 anos, correspondente do jornal mexicano La Jornada e da revista eletrônica Diálogos do Sul e autora do livro Os Anos do Lobo – A Operação Condor – a partir de um documento de 11 páginas do Almirante Kurt Walter Tidd, comandante das forças americanas no sul do Continente, a SouthCom, com sugestões ao Presidente  Trump  de como agir na Venezuela.

A matéria, publicada também pela edição portuguesa do site pravda.ru.  reproduz algumas das avaliações do militar americano sobre a Venezuela, tais como : «A ditadura venezuelana chavista como resultado dos seus problemas internos, da grande escassez de alimentos, do esgotamento das fontes de dinheiro externo e de uma corrupção desenfreada, que diminuiu o apoio internacional, ganho com petrodólares, e que o valor da moeda nacional dura pouco tempo e o poder aquisitivo da moeda nacional está em queda constante»

O plano vê nessa situação de crise a oportunidade para «intensificar a derrubada definitiva do chavismo e a expulsão do seu representante, minar o apoio popular ao governo e incentivar a insatisfação popular, aumentando o processo de desestabilização e de falta de abastecimento para garantir a deterioração irreversível do seu atual ditador».

Para isso, segundo, o Almirante Tidd , será preciso «exacerbar a divisão entre os membros do grupo do governo, revelando as diferenças das suas condições de vida e dos seus seguidores e, ao mesmo tempo, incitando-os a manter essas divergências num crescendo».

O documento assinado pelo Chefe do Comando Sul norte-americano defende a política de tornar o governo de Maduro insustentável, forçando-o a vacilar, negociar ou fugir, através de uma política que consiga «Incrementar a instabilidade interna para níveis críticos, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deterioração da moeda nacional, mediante a aplicação de novas medidas inflacionárias que incrementem essa deterioração».

Um dos objetivos previstos é «obstruir todas as importações e ao mesmo tempo desmotivar os possíveis investidores estrangeiros e contribuir para tornar mais crítica a situação da população».

Para atingir esses fins, o plano prevê «apelar a aliados domésticos, assim como a outras pessoas inseridas no cenário nacional, com o objetivo de gerar protestos, distúrbios e insegurança, pilhagem, saques, roubos, assaltos e sequestros de navios e de outros meios de transporte, com a intenção de cortar o abastecimento do país, através de todas as fronteiras e de outras maneiras possíveis, pondo em perigo à  segurança nacional dos seus vizinhos»”

O plano desce a detalhes, tais como «causar vítimas e apontar como responsável o governo da Venezuela ampliando, perante o mundo, a crise humanitária a que está submetido o país;  ligar o governo ao narcotráfico para desacreditar a sua imagem perante o mundo e os seus seguidores internos, além de promover o cansaço entre os membros do PSUV, Partido Socialista Unificado da Venezuela, incitando a discórdia entre eles próprios, para que rompam ruidosamente as relações com o governo e para que rechacem as medidas e restrições que também os afetam e torná-los assim,tão débeis quanto a oposição, criando fricções entre o PSUV e Somos Venezuela».

A proposta vai aumentando de tom como quando apela «estruturar um plano para lograr a deserção dos profissionais mais qualificados do país, para  deixá-lo totalmente sem profissionais, o que agravará ainda mais a situação interna e neste sentido culpar o governo»

Quanto às forças armadas da Venezuela, o plano propõe «utilizar os oficiais do exército como uma alternativa de solução definitiva e continuar endurecendo a situação dentro das Forças Armadas para levar a cabo um Golpe de Estado, antes que finalize 2018, se esta crise não levar a que a ditadura colapse, ou se o ditador não se decide afastar-se».

Caso isso não dê certo, o plano propõe a «continuar o fogo contínuo na fronteira com a Colômbia, multiplicar o tráfico de combustível e outros bens, o movimento dos paramilitares, incursões armadas e tráfico de drogas, provocando incidentes armados com as forças de Segurança da Fronteira; recrutar paramilitares principalmente dos campos de refugiados em Cucuta, La Guajira e Norte de Santander, áreas sobretudo habitadas por cidadãos colombianos que emigraram para a Venezuela e que agora retornaram, fugindo do regime que intensificou a desestabilização das fronteiras entre os dois países, usando o espaço vazio deixado pelas FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], a beligerância do ELN [Exército de Libertação Nacional (Colômbia)] e as atividades na área do Cartel do Golfo (paramilitares)».

Outra alternativa prevista no plano é  obter o apoio e cooperação das autoridades aliadas de países amigos (Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana). Organizar as provisões das tropas, apoio logístico e médico desde o Panamá. Fazer bom uso das instalações de vigilância eletrônica e de sinais inteligentes; de hospitais e instalações existentes em Darién (selva panamenha), do equipamento de drones do Plano Colômbia, bem como dos terrenos das antigas bases militares de Howard e Albroock (Panamá), bem como as pertencentes ao Rio Hato,além do Centro Regional Humanitário das Nações Unidas, projetado para situações de catástrofe e emergência humanitárias, que conta com uma pista de aviação  e armazéns próprios».

Sob o ponto de vista militar, o Almirante, propõe «avançar no estacionamento de aviões de combate e helicópteros, veículos blindados, posições de inteligência e unidades militares de logística especiais (polícia, oficiais militares e prisões) e desenvolver a operação militar sob bandeira internacional, patrocinada pela Conferência dos Exércitos Latino-Americanos, sob a proteção da OEA e a supervisão, no contexto jurídico e mediático, do Secretário-Geral da OEA, além de coordenar o apoio da Colômbia, Brasil, Guiana, Aruba, Curaçao, Trinidad e Tobago e outros Estados frente ao fluxo de migrantes venezuelanos devido aos eventos da crise».

Além dos aspectos militares o plano assinado pelo Almirante Tidd trata da questão da mídia, quando apela para incrementar dentro do país, através dos meios de comunicação locais e estrangeiros, a disseminação de mensagens desenhadas e baseadas em depoimentos e publicações originadas no próprio país, fazendo uso de todas as capacidades possíveis, incluindo as redes sociais, e, por outro lado, «apelar através dos meios de comunicação para a necessidade de pôr fim a essa situação porque é, em essência, insustentável».+

Como um verdadeiro happy end (para os americanos) o plano pretende ”promover a necessidade do envio da Força Militar da ONU para imposição da paz, uma vez que a ditadura corrupta de Nicolás Maduro seja derrubada»

 

Há uma nova História do Brasil sendo contada.

No dia 11 de abril de 1974, o então o diretor da CIA, o serviço de espionagem norte-americano, Willian Colby, enviou um documento ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, o responsável pela política externa americana , informando que uma semana antes,  o recém empossado presidente brasileiro, General Ernesto Geisel, mantivera uma reunião com o  chefe do Serviço Nacional de Informações, General João Batista Figueiredo, que seria seu sucessor na Presidência, o general Milton Tavares de Souza, que estava deixando o comando do Centro de Informações do Exército e o general Confúcio Danton Paula de Andrade,que estava assumindo esse comando.

Durante a reunião, o general Milton informou algo assombroso: o exército estava executando presos políticos considerados perigosos e que pelas suas contas, 104 pessoas tinham sido mortas e recomendou que essa política fosse continuada pelo governo Geisel, com o que concordaram os demais presentes. O general Geisel teria pedido um tempo para pensar e 24 horas depois decidiu aceitar a sugestão, a condicionando porém, a casos envolvendo presos considerados mais perigosos e que cada execução deveria ter autorização prévia do general Figueiredo.

A divulgação desse documento, obtido pelo pesquisador Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, quando consultava materiais liberados pelo governo americano lpara consultas, após o término do período em que devem ficar secretos, levanta questões extremamente importantes para as narrativas da história brasileira do período ditatorial e mesmo após, confirmando muitos fatos sobre os quais havia apenas suspeitas e mudando a imagem de personagens da época.

O golpe de 64 contou com o apoio explícito do governo dos Estados Unidos e durante os  sucessivos governos militares, Washington continuou tutelando o regime de força brasileiro. As minúcias a que chega o relatório do diretor da CIA, mostra que a embaixada americana continuou durante todos os anos do regime militar monitorando as decisões dos generais brasileiros e delas tendo ciência prévia.

Fica mais uma vez desmentida  a versão de que a repressão aos adversários do regime militar não teve no Brasil o mesmo grau de brutalidade que ocorreu, por exemplo, na Argentina e Chile e que sempre ficou restrita a alguns segmentos mais radicais do Exército. O documento da CIA prova que o extermínio físico de pessoas consideradas  subversivas tinha a chancela do próprio Presidente da República e seus auxiliares mais diretos e fazia parte da política oficial do governo. O jornalista  Elio Gaspari é um dos que, nos seus livros  sobre a Ditadura Brasileira, costumava colocar os generais Geisel e Golbery como opositores à política de extermínio de uma área  radicalizada que ele denominava  de “a tigrada”. Com as revelações agora feitas, deverá mudar seu enfoque se quiser que sua obra ainda mereça algum crédito.

Os velhos políticos do PMDB, como Tancredo e Ulysses, que negociaram a transição do regime militar para o sistema democrático, aceitando uma anistia que poupou os militares de prestar contas pelos seus crimes, e que certamente sabiam o que tinha ocorrido, terão suas biografias manchadas pelo acordo feito e pelo silêncio que mantiveram depois.

A Comissão da Verdade, que trabalhou no levantamento dos crimes da ditadura, mas que esteve limitada à responsabilização de lideranças intermediárias das forças armadas, deveria  reabrir suas investigações para apurar e condenar, pelo menos perante a história, figuras até então mantidas a salvo, como Geisel e Figueiredo.

Finalmente é preciso denunciar com veemência e até mesmo responsabilizar criminalmente políticos como o Bolsonaro – alguém como disse o jornalista Janio de Freitas, sem preparo, retrógrado e com bens acumulados sem explicações – que não se envergonham de defender publicamente um regime que, mesmo em proporções menores, buscou se igualar ao nazismo.

O perigo que mora nos sites de relacionament0

Mulher, 30 anos, viúva, profissional liberal, procura senhor com 30 anos ou mais, no máximo, branco, com formação superior, para relacionamento sério.

A foto na rede social mostrava uma mulher bonita, loura, de olhos azuis. Minhas credenciais só não batiam na questão da idade exigida. Mas, como as amigas sempre me davam uns 10 anos menos na avaliação física que faziam a meu respeito – eram pessoas muito gentis comigo – resolvi arriscar, já que atendia as outras exigências. Era branco, formado em Filosofia e estava mesmo a fim de um novo relacionamento sério, depois que meu quinto casamento terminara, como terminaram os quatro primeiros, quando fora expulso de casa.

Marcamos um encontro no Mahomé, ali na Bonfim. Quando cheguei, levei um susto: quem me esperava era uma mulher com traços que me lembravam a foto da rede social, mas era seguramente uns 20 anos mais velha.

Antes que reclamasse de propaganda enganada, a mulher se apresentou:

– Sou Odete, mãe da Valdete.

Fui informado então que a Valdete era muito tímida, que seu casamento anterior com o Edgar, um velho diretor classe B de comerciais de varejo, fora muito ruim, e que depois da morte dele, afogado no Campeche , ela se recusava a ter um novo relacionamento. O anúncio na rede social fora posto pela Odete, que se dispusera a analisar pessoalmente todos os candidatos.

Simpatizei com a Odete e ela comigo. Logo ficou acertado que ela conversaria com a Valdete, que era dentista com consultório no Sarandi, e montaria um esquema para nos aproximar.

Dois meses, iniciamos, eu e a Valdete, um relacionamento sério. Ela veio morar no meu apartamento na Zona Sul e trouxe junto a mãe, Odete, um cachorro pequinês, o Joubert.

Eu tinha um gato malhado e castrado, chamado Hermenegildo.

Enquanto meu relacionamento entre eu, a Odete e a Valdete ia às mil maravilhas, o do Joubert, que a Odete se recusava a castrar, com o Hermenegildo, quase virara uma guerra aberta, nos obrigando a estabelecer zonas de exclusão no apartamento para o cão e o gato.

Valdete saia cedo para o seu consultório no Sarandi, a Odete passava o dia vendo os programas da Globo na televisão, enquanto eu ficava escrevendo para sites que ninguém lia ou conversando no feicibuque com o Pintaúde e o Sérgio Gonzales, sobre um pocket show que pretendíamos montar com o Roberto Callage e o Beto Soares, contando a história da MPM.

Um dia, faltou energia elétrica na Zona Sul e como não dava para ver televisão, nem escrever no computador, acabou acontecendo o que qualquer um pode imaginar que aconteceria entre a Odete e eu.

A Valdete não se incomodou muito com o ocorrido, a Odete publicou um novo anúncio nas redes sociais e ela logo encontrou um outro senhor para um novo relacionamento sério.

Era um sujeito chamado Sepé de los Angeles, muito simpático, apelidado de Foguinho, que tinha uma pet shop na Cavalhada. Os dois foram morar num condomínio na Otto Niemayer e a Valdete, felizmente levou junto a Joubert.

Como a Odete não saia da frente da televisão e eu do computador, ela sugeriu que trouxéssemos sua irmã gêmea, a Marlete, que se separara do marido, em Esteio, o Albano, para morar conosco e ajudar na cozinha e na limpeza do apartamento

Estamos juntos, os três, há quase um ano e por enquanto vai tudo bem, principalmente depois que sugeri que fizéssemos um “ménage à trois”.

Inicialmente as duas ficaram um pouco incomodadas com o uso desse galicismo, mas quando traduzi para os nossos hábitos, ficou tudo bem.

A Odete e a Marlete gritaram quase ao mesmo tempo.

– Ah… é a nossa tradicional suruba.

Por enquanto vai tudo bem. Passo o dia no computador, a Odete na televisão e a Marlete na cozinha. À noite, dividimos a mesma cama, a única que temos. O Hermenegildo recuperou o domínio de todo o apartamento.

Só quem não vai bem é a Valdete, que anda ameaçando abandonar o Albano.

Falei para a Odete e a Marlete que onde comem três, comem quatro, mas por enquanto elas ainda não aprovaram o tal “ménage à quatre

O que assistir de madrugada na TV.

A madrugada existe para que os noctívagos façam grandes descobertas. Por exemplo, um programa de perguntas inusitadas, com respostas ainda mais.

Quando cheguei no canal, o entrevistador perguntava para um sujeito, que vim a saber depois era um novo galã da Globo.

– O que você prefere sexo ou sorvete de chocolate?

Obviamente, o cara respondeu que era sorvete de chocolate, que segundo ele demorava mais para acabar e quando terminava você podia jogar a embalagem fora sem qualquer sentimento de culpa.

Se alguém viu aquele filme de Robert Altman Short Cuts , de 1994,, o programa tinha uma estética parecida, eram cenas da vida real acontecendo em todos os lugares do mundo.

Aparecia um cara prestes a se jogar do alto de um prédio, quando um repórter da televisão punha o seu microfone na sua boca..

– Por que você vai se matar?

-Não suporto mais a programação da Globo.

Corta para o vestiário de um time de futebol. Dois jogadores estão pelados, lado a lado, tomando banho de chuveiro. Um, que parece interessado no pênis do outro, pergunta.

– Por que o seu pau é maior do que o meu?

– Porque tomo Cajurubeba concentrada, diz o outro que, em vez de sabonete, tem na mão um vidro de Cajurubeba, que ele mostra sorridente para a câmera.

– Corta para uma linda loura vestida toda de preta. Ela tira um lenço da bolsa e enxuga uma lágrima, enquanto ouve-se o áudio, que diz

– Um orgulho para os brasileiros, Maria da Silva acaba de ganhar nos Estados Unidos, o título de A Viúva Negra 2018, Aos 22 anos, ela se tornou viúva pela sétima , vez este ano.

Apresentadora de televisão fala baixinho para não atrapalhar o clima de solenidade já  que se trata do velório de um político famoso.

– A morte de alguém como o Dr. Mourão, um defensor das causas mais caras do Partido Conservador,  enche de tristezas todos seus amigos.

Nesse momento vaza com nitidez uma voz masculina:

– O filho da puta morreu sem pagar a minha comissão.

Corta para um grupo de padres, num animado carnaval de rua. Quando a câmera se aproxima se lê com nitidez o cartaz que os padres carregam : Somos todos pedófilos, e daí?

Casal na cama. Estão nas preliminares de um sexo que promete grandes emoções. A mulher diz:

– Querido, não esqueça a camisinha

Ele se volta para a câmera, exibindo uma embalagem da camiseta Prazer Total e diz numa voz poderosa.

– Claro que não, o homem moderno que preza o seu prazer e o da sua parceira, jamais deixa de usar a camisinha Prazer Total. Produzida em três tamanhos, normal, médium e king size, sempre existe uma camisinha Prazer Total adequada às suas necessidades. Compre Prazer Total nas farmácias Bom Preço e concorra a uma viagem com a sua parceira para as Ilhas Virgens.

Quando a gente pensa que terminou o comercial, ele sorri para a mulher que espera, e volta para um último recado

– Se for você o vencedor da promoção das farmácias Bom Preço e ganhar a viagem com a sua parceira para as Ilhas Virgem, não esqueça de levar um bom estoque das camisinhas Prazer Total.

Nessa hora fui ao banheiro e quando voltei tinha sumido o sinal da TV e não consegui mais achar o canal.

Bom, é possível que tudo tenha sido apenas um sonho ou mesmo um pesadelo.

Gene Tierney e a prima Iolanda

A tia Natália, irmã da minha mãe Alzira, era casada com o tio Ernesto e tinha duas filhas, a Iolanda, de 18 anos e a Jurema, de 16, quando ocorreu a história que eu, na ocasião com 10 anos, vou contar.

Iolanda era linda e Jurema muito feia. Tudo que a natureza caprichara com a primeira, esquecera de fazer com a segunda.

Eu amava a prima Iolanda e desprezava a prima Jurema e a recíproca desses sentimentos me parecia verdadeira.

Iolanda era noiva do Fritz, filho do seu Walter, dono da maioria das casas do bairro e do armazém de secos e molhados Dona Ingrid, nome da falecida mãe de Fritz .

Fritz era considerado, naquela família de alemães de classe média do tio Ernesto e tia Natália, como um bom partido e eles não cansavam de agradecer a Deus pela sorte de Iolanda e lamentar que a Jurema não encontrasse alguém com tantas qualidades como o Fritz.

De repente, um escândalo abalou aquela família. Sendo um menino, na época, eu só podia ter acesso a algumas informações, contadas como segredo pela minha mãe, Alzira,ao meu pai, Alcides, que para variar, detestava todos aqueles alemães, parentes da minha mãe.

A Iolanda rompera o casamento e fugira com o Joãozinho, que trabalhava como mecânico na oficina do seu Pintaúde, no Passo da Areia.

– O pior de tudo, segredou minha mãe, o Joãozinho era negro.

O nome de Iolanda foi banido das conversas na casa da tia Natália. Dizem que o tio Ernesto preferia vê-la morta, que receber sua visita.

Mas quem morreu primeiro foi o tio Ernesto e no seu enterro, para o espanto de todos, Iolanda reapareceu e, como disse o Padre Edgar na ocasião, o momento era de perdão e ela foi readmitida na família ainda que com algumas ressalvas. O Joãozinho, por enquanto, não era bem vindo.

No dia seguinte, Iolanda revelou mais um detalhe, que no inicio chocou Tia Natália, mas que logo se transformaria na grande alegria dos seus últimos anos de vida. A Iolanda tinha lhe dado um neto, um lindo mulatinho, que por uma tremenda ironia do destino, recebera o nome do avô, Ernesto.

Como essas histórias merecem ter um final feliz, Joãozinho, o marido de Iolanda e pai do Ernestinho, deixara de ser mecânico e depois de estudar a noite, ingressara na Faculdade de Direito, onde se formara com grandes méritos e já tinha se transformado num respeitável juiz. A família de Iolanda crescera e o Ernesto, agora com 10 anos, já tinha três irmãos, o Airton, o Mareu e a Verinha, todos lindos e mulatos.

E a Jurema?

Bom, pra Jurema, tudo dera errado. Quando a Iolanda deixou o Fritz sozinho, as famílias chegaram a um acordo e um ano depois ele casou com a Jurema.

O casamento durou apenas um ano, os dois se desquitaram e ela voltou para a casa, parece que trazendo o dinheiro dos aluguéis de duas ou três casas, que a família do Fritz tinha no bairro, o que de certa forma, compensou o engano.

Por que o casamento não dera certo?

A versão que consegui perceber num diálogo da tia Natália com a minha mãe era de que o Fritz não gostava muito de mulher e que meu pai, explicitou um dia, quando lhe falei sobre o assunto, anos depois.

– O Alemão era puto.

Por que me lembrei agora dessa história?

Porque o Doutor Franklin Cunha me contou uma história que teria acontecido com a grande atriz do cinema americano Gene Tierney.

Teria acontecido, no condicional, porque o Doutor Franklin é também um romancista e nunca se sabe até onde suas histórias são verdadeiras ou fruto da sua prodigiosa imaginação.

Gene Tierney  foi uma das deusas de Hollywood, tendo trabalhado com grandes diretores do cinema internacional e contracenado com atores famosos em filmes como o Egípcio, Laura, No Fio da Navalha, Amar foi Minha Ruína e Tempestade sobre Washington, entre tantos outros.

Nasceu de família rica, em 1920 e morreu em meio a uma profunda depressão, em 1991, depois de um casamento fracassado com o estilista francês, de origem russa e naturalizado americano, Oleg Cassini, que ficou famoso por ser o costureiro de Jacqueline Kennedy .

E o que tem a ver Gene Tierney  com a prima Iolanda, filha da tia Natália?

É que Gene Tierney não aproveitou a chance na vida que teve para ser feliz.

Essa foi a história que ouvi do Franklin: um escritor argentino, cujo nome ele não lembra, dedicou toda sua vida e economias para escrever um livro contando a vida de Gene Tierney. No final, fez apenas uma cópia do livro e mandou para a atriz americana, com um pedido apenas: queria introduzir na história uma entrevista final com Gene.

Como sempre ocorre nessas histórias com personalidades americanas famosas, ela se comoveu e como era rica e poderosa, chamou o escritor para Los Angeles.

Fizeram então a entrevista e muito mais do que isso,  dormiram juntos e se apaixonaram.

Mas, por alguma razão que o Dr. Franklin desconhece, o escritor voltou sozinho para Buenos Aires com a sua entrevista e Gene Tierney  foi ser infeliz para sempre com o Oleg Cassini, ao contrário da prima Iolanda, que foi feliz para sempre com o Joãozinho.