O Candidato

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– Seu jornal quer saber como começou minha carreira política?
Simples. Foi num bar da Volta do Guerino, quando conheci o Pintauva.
– Você tem tudo que um candidato precisa ter: é inteligente, sério e trabalhador.
O sujeito me disse isso, logo que sentamos na mesa do bar e depois de pedir uma água sem gás e dois cafezinhos.
Ele havia me abordado na sala de professores do colégio estadual onde eu era professor de História, e me deu seu cartão de visitas onde estava escrito Roberto Pintauva – Marketing Político.
Sentados agora na mesa do bar para onde ele me convidou, explicou que fazia muito mais do que preparar os candidatos para as eleições. Ele era um olheiro dos partidos políticos, procurando candidatos que pudessem trazer votos para suas legendas.
– Quem votaria num modesto professor de História de escola pública que tem seus salários parcelados pelo Governo todos os meses?
Pintauva me expôs então a sua teoria, o que havia de mais moderno em marketing político.
Os eleitores não querem mais saber de candidatos profissionais. Bom candidato, hoje é um sujeito sem passado.
– Alguém como você – explicou
Bastava dar um sim agora e em um mês a campanha estaria nas ruas e em outubro, a eleição seria uma barbada.
– Vamos começar com vereador, depois deputado estadual e quem sabe, daqui a quatro ou cinco anos, estaremos lançando o seu nome para o Senado.
– Eu não tenho nenhum tostão para gastar
– Não se preocupe. Os investidores bancam tudo.Você só tem que seguir minhas instruções
No primeiro dia, ele me passou as instruções referentes ao que vestir e ao que falar em público. Posteriormente eu seria preparado para encontros políticos, comícios e entrevistas na televisão.
A primeira parte estava impressa numa folha, dividida em duas colunas, que Pintauva me entregou de forma cerimoniosa.
– Leia com atenção e faça tudo que estiver escrito
No lado esquerdo da folha, numeradas de 1 a 10, estavam as normas escritas em negrito e, a direita, uma pequena explicação para elas.
A primeira mandava raspar a barba e o bigode – eu não usava nenhum dos dois – e manter o cabelo bem aparado – eu já era careca. A explicação: os eleitores associam cabeludos a rebeldes pouco responsáveis. Deveria usar sempre gravatas de cores sóbrias, para indicar respeitabilidade. Palavrões estavam terminantemente proibidos. A Bíblia era o livro mais importante até hoje editado e quando me perguntassem sobre religião, deveria responder que era espiritualista.
– Mas eu sou crente.
– Não importa, todos os candidatos vitoriosos são espiritualistas, o que não compromete ninguém.
Uma semana depois, Pintauva voltou com a minha agenda de compromissos. Segunda feira, tinha o batizado do filho do secretário da Associação dos Moradores da Vila Nova; terça, a inauguração de um bingo na Cavalhada; quarta, jantar no Clube da Saudade; quinta, estréia do Circo Volpone, na Morada da Vale II – você precisa sentar na primeira fila – chegue cedo – falou o Pintauva. Para sexta, a agenda ainda estava aberta, mas havia o possível enterro do seu Edgar, no cemitério São João.
– Mas como você está prevendo um enterro para sexta se hoje é ainda domingo?
– O Edgar não passa de quinta. Mas se ele se finar antes, aviso. Esse é um evento que você não pode faltar. O Edgar é muito querido na comunidade
O Edgar morreu na quinta e na sexta lá estava eu na capela do cemitério São João, procurando pelo extinto. O Pintauva tinha chegado antes e quando me viu, fez um sinal para não identificá-lo. Na hora em que iam fechar o caixão, ele se adiantou e tomou a palavra.
– Antes que o querido Edgar nos deixe em definitivo, gostaria que seu maior amigo, o nobre professor e futuro vereador, dissesse algumas palavras. E apontou para mim
– O que eu disse? Não lembro mais. Eu nunca tinha visto o morto.
Falei e devo ter falado bem, porque depois nunca mais pare de falar. Falei em batizado, casamento, velório, festa da terceira idade, reunião de escoteiros e inauguração de bingo.
Continuei falando na Câmara de Vereadores, na Assembléia, na Câmara Federal, no Senado e se você me der licença, eu agora tenho que falar na convenção do PSDB. O pessoal está todo me esperando e parece que tem gente querendo que eu dispute a Presidência.
– O que o senhor vai dizer?
– Sei lá. Eu nem conheço a maioria dessa gente.


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