Nós e eles.

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Agora , quando esse episódio de Curitiba, onde o presidente do sindicato dos jornalistas “aconselhou” um colega seu a não se aproximar muito do acampamento dos ativistas a favor de Lula, porque não seria bem vindo, traz de volta a discussão sobre a possibilidade de isenção do profissional de comunicação, me animo a retomar o tema, propondo uma distinção entre jornalista e publicitário.

Tomo a liberdade de encaminhar o tema para esse lado a partir da posição de quem já foi as duas coisas na vida.

Alguém que deixou de ser jornalista, onde apesar de todo um possível “idealismo” era mais um a reproduzir a voz do ano, para se tornar publicitário e depois professor universitário nos cursos de Publicidade e Propaganda da Famecos/PUCRS e UNISINOS, por um único motivo, a possibilidade de ganhar mais dinheiro, o que deve ser também, o motivo de todo o mundo.

Jornalista que não tem interesse comercial na empresa em que atua detesta publicitário. Para ele, publicitário é um sujeito engravatado que faz com que “aquela maravilhosa matéria sobre o curandeiro de São Sepé” seja reduzida a uma foto-legenda para dar espaço a um anúncio de uma loja de calçados.

De inimigo, a gente sempre fala mal. Daí que publicitário passou a ser um alienado, almofadinha, boy de luxo e por aí vai uma série de adjetivos.

Há que se reconhecer que muitos publicitários, talvez até a maioria, fazem por merecer estes qualificativos.

A função de publicitário é, porém, bem mais progressista do que a de jornalista. Vamos aos argumentos, tomando como ponto de observação a linguagem que é, afinal, a matéria prima com que os dois trabalham.

O jornalista, quanto mais eficiente é, mais se revela um escravo da realidade. Num mundo onde a todo o momento as pessoas são chamadas a escolher um lado, ele faz profissão de fé na imparcialidade, ainda que seja manipulado por interesses que sequer percebe.

Onde o vernáculo é recriado todos os dias, ele se limita pelas regras gramaticais, mesmo que elas só reproduzam uma prática social elitista. Um ser politicamente correto, ele só pode escrever “negão”, “pila” ou “tá legal” entre aspas, como está feito aqui (isso não é um texto publicitário) e citando como autor um anônimo qualquer.

O publicitário, não. O seu campo é o simbólico. Ele é despudoradamente parcial. Não respeita a intimidade de ninguém. Diz até o nome do absorvente que aquela famosa modelo usa e revela como evitar a flatulência que pode prejudicar o fechamento de um grande negócio. Mediante uma boa remuneração, fala bem de uns e mal de outros e até se orgulha disso. Politicamente incorreto, ele escreve copiando o jeito das pessoas falarem e, o que é mais importante, sem aspas. Em vez de manipulado, ele pretende ser manipulador.

Por tudo isso é acho engraçado quando alguns jornalistas ficam indignados porque o presidente do seu sindicato mandou o seu colega intrometido e a serviço de uma rede de mentiras a escolher o seu lado, aquele protegido pela polícia.

Nunca vi publicitário falando do mal do presidente do seu sindicato, se é que publicitário sabe que tem sindicato e melhor ainda, quem é seu presidente, porque na sua onipotência, se acha o primeiro e único,ao contrário do jornalista que diz ter orgulho de pertencer a uma classe, ou casta como ele pensa.

O Brasil da lava jato, do Lula preso, de um presidente golpista, dos generais que dão conselhos aos ministros do Supremo e de uma imprensa mais venal do que nunca, não existe mais espaço para ingenuidade, e muito menos para os que escolhem o alto do muro para ditar regras do comportamento.

Felizmente, o mundo está dividido hoje entre nós e eles.

Eles já se deram conta a muito tempo disso.

Agora é a nossa vez.

 


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