Morto no domingo de Páscoa

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Finalmente trouxeram um médico para me examinar.

O Dr. Franklin era meu médico há quase 20 anos.

Foi ele que me colocou uma ponte de safena, quando quase morri de infarto e desde então nos encontrávamos periodicamente.

Gremista doente, sempre que me prescrevia a sinvastatina para combater o colesterol  em alta, dizia brincando que se continuasse torcendo para o Inter, o remédio iria adiantar muito pouco porque as derrotas do time iriam abater minha vontade de viver e me convidava a torcer para o grêmio.

Essa vez, porém, estava extremamente sério. Não me cumprimentou, nem repetiu aquela velha brincadeira. Certamente, como era domingo de Páscoa, deve ter ficado chateado em ser chamado, possivelmente atrapalhando seu tradicional churrasco com os amigos.

O que estaria acontecendo comigo?

Acordara totalmente paralisado. Não conseguia mover nenhum músculo do corpo. E aquilo já durava várias horas. Tinha tido uma enorme vontade de urinar, mas agora passara. Só tinha fome e sede.

Ninguém me chamara para o café da manhã e possivelmente agora todos já tinham almoçado.  E eu deitado no meio da cama.

Ainda bem que dormira de pijama, o que não costumava fazer. Se tivesse ficado só de cuecas, seria um vexame porque via desfilar diante da cama, parentes que há tempos não apareciam. Até a chata da tia Eulália tinha vindo. Pior, ela se aproximou da cama, se curvou lentamente e me beijou na testa. Tive vontade de vomitar quando me senti inundado por aquele perfume barato que ela usava.

Mas agora tudo se resolveria com a presença do Dr. Franklin.

Ele tirou uma pequena lanterna de sua maleta, abriu ainda mais o meu olho direito e jogou aquele jato de luz no fundo da pupila. Depois de alguns segundos, se virou para toda aquela gente em volta da cama e falou com uma voz dramática que eu não conhecia

– Ele está morto.

Como morto, Dr. Franklin, se estou vendo e sabendo de tudo que acontece em volta?

Mas, ninguém o contestou. Todos concordaram que eu estava morto e daqui a pouco começariam a tomar as providências que se tomam com todos os mortos, como providenciar o velório, depois o enterro ou a cremação.

Eu tinha lido há alguns dias uma entrevista de uma mulher que se apresentava como A Sensitiva e dizia que de cada dez pessoas que morrem, oito se recusam a ir embora. Eu seria uma dessas oito.

E, como se isso fosse possível, as coisas ficaram ainda piores quando o Dr.  Franklin fechou meus olhos e alguém colocou um lençol cobrindo minha cabeça. Agora, além de morto, eu não podia mais enxergar e ainda, como sempre fui claustrofóbico, não conseguia respirar direito embaixo daquele pano.

Enterrado ou cremado, qualquer uma dessas soluções que me aguardavam, com o perdão da comparação, era para matar um cristão de medo.

Depois me lembrei que, pela lei, não poderiam me enterrar ou cremar antes de 24 horas e durante o velório eu teria algum tempo para pensar numa solução.

Foi o que me deixou um pouco mais animado para enfrentar as próximas horas, que, possivelmente, seriam as piores da minha vida ou, a acreditar no Dr. Franklin, da minha morte.


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2 comentários em “Morto no domingo de Páscoa”

  1. Diagnosticada a morte do paciente, assinado o atestado de óbito pelo competente cardiologista, os amigos e familiares foram para a cozinha e se puseram a comer e a beber à tripa forra, não poupadas nem duas garrafas de Catena Zapatta que o morto tinha reservado para beber com uma amiga que o visitava aos sábados. Eis senão quando, o “morto ” aparece lépido e fagueiro na porta da cozinha. O espanto foi amenizado pela advertência de uma tia que lhe ordenou: ” Volte para a cama que tu está morto”.
    Como morto se estou aqui vendo vocês se refestelando com meus queijinhos gorgonzola e emental e com o vinho que tinha guardado para a Heleninha !!!
    E a tia Zulmira:
    “Teu peito !!! Então tu quer saber mais que o dr. Franklin”?

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