Nós e eles.

Agora , quando esse episódio de Curitiba, onde o presidente do sindicato dos jornalistas “aconselhou” um colega seu a não se aproximar muito do acampamento dos ativistas a favor de Lula, porque não seria bem vindo, traz de volta a discussão sobre a possibilidade de isenção do profissional de comunicação, me animo a retomar o tema, propondo uma distinção entre jornalista e publicitário.

Tomo a liberdade de encaminhar o tema para esse lado a partir da posição de quem já foi as duas coisas na vida.

Alguém que deixou de ser jornalista, onde apesar de todo um possível “idealismo” era mais um a reproduzir a voz do ano, para se tornar publicitário e depois professor universitário nos cursos de Publicidade e Propaganda da Famecos/PUCRS e UNISINOS, por um único motivo, a possibilidade de ganhar mais dinheiro, o que deve ser também, o motivo de todo o mundo.

Jornalista que não tem interesse comercial na empresa em que atua detesta publicitário. Para ele, publicitário é um sujeito engravatado que faz com que “aquela maravilhosa matéria sobre o curandeiro de São Sepé” seja reduzida a uma foto-legenda para dar espaço a um anúncio de uma loja de calçados.

De inimigo, a gente sempre fala mal. Daí que publicitário passou a ser um alienado, almofadinha, boy de luxo e por aí vai uma série de adjetivos.

Há que se reconhecer que muitos publicitários, talvez até a maioria, fazem por merecer estes qualificativos.

A função de publicitário é, porém, bem mais progressista do que a de jornalista. Vamos aos argumentos, tomando como ponto de observação a linguagem que é, afinal, a matéria prima com que os dois trabalham.

O jornalista, quanto mais eficiente é, mais se revela um escravo da realidade. Num mundo onde a todo o momento as pessoas são chamadas a escolher um lado, ele faz profissão de fé na imparcialidade, ainda que seja manipulado por interesses que sequer percebe.

Onde o vernáculo é recriado todos os dias, ele se limita pelas regras gramaticais, mesmo que elas só reproduzam uma prática social elitista. Um ser politicamente correto, ele só pode escrever “negão”, “pila” ou “tá legal” entre aspas, como está feito aqui (isso não é um texto publicitário) e citando como autor um anônimo qualquer.

O publicitário, não. O seu campo é o simbólico. Ele é despudoradamente parcial. Não respeita a intimidade de ninguém. Diz até o nome do absorvente que aquela famosa modelo usa e revela como evitar a flatulência que pode prejudicar o fechamento de um grande negócio. Mediante uma boa remuneração, fala bem de uns e mal de outros e até se orgulha disso. Politicamente incorreto, ele escreve copiando o jeito das pessoas falarem e, o que é mais importante, sem aspas. Em vez de manipulado, ele pretende ser manipulador.

Por tudo isso é acho engraçado quando alguns jornalistas ficam indignados porque o presidente do seu sindicato mandou o seu colega intrometido e a serviço de uma rede de mentiras a escolher o seu lado, aquele protegido pela polícia.

Nunca vi publicitário falando do mal do presidente do seu sindicato, se é que publicitário sabe que tem sindicato e melhor ainda, quem é seu presidente, porque na sua onipotência, se acha o primeiro e único,ao contrário do jornalista que diz ter orgulho de pertencer a uma classe, ou casta como ele pensa.

O Brasil da lava jato, do Lula preso, de um presidente golpista, dos generais que dão conselhos aos ministros do Supremo e de uma imprensa mais venal do que nunca, não existe mais espaço para ingenuidade, e muito menos para os que escolhem o alto do muro para ditar regras do comportamento.

Felizmente, o mundo está dividido hoje entre nós e eles.

Eles já se deram conta a muito tempo disso.

Agora é a nossa vez.

 

A gorda patusca

Aquela senhora na fila do caixa do banco não tirava os olhos de mim.

Quem seria?

Talvez estivesse me achando parecido com um sobrinho.

Ela me olhava fixamente por cima dos óculos de grau, me deixando cada vez mais constrangido.

Seria a Dona Gertrudes, aquela professora de Matemática do ginásio que me deixava sempre em recuperação?

Acho que não. Li em algum lugar que a Dona Gertrudes tinha morrido.

Quem sabe aquela senhora que cuidava de mim e da Ingrid, quando nossos pais iam a alguma reunião social?

Não. Claro que não. Eu reconheceria a Dona Clara.

Ela deixou duas pessoas da fila passar na sua frente e agora está quase ao meu lado.

Pior, ela vai falar comigo.

– Eu sou a gorda patusca

– Quem?

– A gorda patusca que você vive falando naquelas bobagens que escreve.

– Mas ela é apenas uma personagem, não existe de fato.

– Tanto existe que está aqui na sua frente.

Tento contemporizar.

– Muito prazer, como é o nome mesmo da senhora

– Não venha me enrolar. Tive que cancelar minha assinatura no Facebook porque todos meus amigos agora me chamam de gorda patusca. Isso é o bullyng, é assédio moral e vou lhe denunciar.

– Não fui quem criou essa personagem, tomei emprestado do Nelson Rodrigues

– Vou denunciar os dois, então

– O Nelson já morreu, era um escritor famoso

– Certamente um machista como você.

– Ele era apenas um provocador

– Não interessa, vou chamar o gerente.

Nessa altura, todas as pessoas no interior do banco acompanhavam a nossa discussão.

A coisa estava saindo do controle. Eu precisava fazer alguma coisa

– Perdão !

– Como?

– Estou lhe pedindo perdão.

E continuei gritando cada vez mais alto

– PERDÃO ! PERDÃO ! PERDÃO! – até que o guarda veio, me pegou pelo braço, abriu a porta e quase me jogou para o meio da rua.

Nunca, na vida, fiquei tão agradecido a alguém.

Aproveitei o embalo e sai correndo, fugindo daquela gorda patusca.

O pacote misterioso

No próximo dia primeiro de maio vou me livrar de uma responsabilidade que há exatamente 40 anos é um tormento na minha vida.. Nesse dia, estarei autorizado a abrir o envelope o que me foi entregue em 1978, na Rue de Chaligny, em Paris, às 9 horas da manhã e finalmente conhecer seu conteúdo.
Nesse dia, tentando me adaptar aos hábitos franceses, carregava uma baguete, comprada numa boulangerie do Boulevard Diderot, quando fui interpelado por um homem dos seus 50 anos, alto, barba cerrada, óculos de grau, falando um português com forte sotaque nordestino.
– Marino Boeira, de Porto Alegre?
– Sim
– Hospedado no hotel Citadines Bastille, Gare de Lyon?
– Sim
Então, ele tirou de uma pasta um grosso envelope em papel pardo e me disse com voz de quem estava acostumado a mandar.
– Pegue. Você deve levar este envelope para o Brasil e só abrir no dia primeiro de maio de 2018, às 10 horas da manhã, horário de Brasília, e ligar para o telefone que está escrito na primeira linha do documento. Apenas isso.
– E por que vou fazer isso, se nem lhe conheço e não sei o que este pacote contém. O senhor parece que não sabe que vivemos numa ditadura militar no Brasil, onde todo mundo é suspeito.
– Exatamente por isso, que você deve levar o envelope. Naquele curso sobre marxismo e na vivência no Partidão, não lhe disseram que é preciso se arriscar pela causa?
– Sim, mas de que vai servir o conteúdo desse pacote, se ele só poderá ser aberto em 2018, daqui a 40 anos.
– Acredite, as coisas poderão estar,então, piores do que hoje.
Parece que o meu misterioso personagem adivinhou o futuro. As coisas estão novamente muito ruins. Quem sabe a pessoa para quem devo telefonar, tenha uma solução.

Na cama com a grande estrela de Hollywood

Vou contar o milagre, mas não vou dar o nome do santo, ou melhor, da santa.

Por volta do final dos anos 80, eu era ainda um publicitário com um razoável destaque na área. Na época, ia frequentemente  ao Rio e São Paulo para acompanhar a produção de filmes comerciais.

Naquele dia de outubro, uma terça-feira, eu estava no Rio e tinha programada  uma reunião na produtora de filmes para aprovar um copião, no fim da tarde.

Quando cheguei, havia um grande movimento de pessoas na produtora.  O Edgar, que era meu contato,  foi logo me avisando que eu só poderia revisar o copião no dia seguinte,  porque o estúdio e as ilhas de edição estavam ocupados por um pessoal americano que viera ao Brasil para filmar algumas cenas  com a famosa atriz de Hollywood.. .e aí me disse o nome da santa milagrosa que não posso revelar.

Eu tinha lido no jornal que ela estava no Rio para completar as imagens de um filme de espionagem que começara por Nova York, passara por Paris, Londres e Moscou e terminava no Brasil.

Ela era a atriz do momento em Hollywood e seu casamento com um famoso produtor, fora considerado o casamento do ano por todas as revistas especializadas.

Diziam que além de extraordinariamente bonita, ela era também uma excelente atriz, candidata ao Oscar do ano.

Segundo o Edgar ela havia rodado várias cenas em pontos turísticos do Rio, mas o diretor de fotografia não havia ficado satisfeito com os closes da atriz e por isso arrendaram todas instalações da produtora para filmar os closes no estúdio, onde a luz poderia ser melhor controlada.

Quando cheguei, esse trabalho tinha terminado e o pessoal de Hollywood se preparava para ir embora para o hotel.

De longe, pude ver que a grande estrela estava no meio de um grupo e parecia irritada com o assédio das pessoas e com a demora para chegar o carro que a levaria embora.

O Edgar havia pedido o fusca da produtora para me levar para o hotel

Chovia muito nesse momento no Rio, o que aumentava a confusão.

O meu carro chegou antes do dela e quando abri a porta para entrar no banco traseiro do Fusca, a grande estrela se adiantou e perguntou

– Pode ser uma carona?

Nem esperou a resposta e aproveitando a porta aberta entrou. Rapidamente também entrei e sentei ao lado dela.

– Vamos sair daqui, disse ao motorista, enquanto olhava pela janela de trás e via o espanto dos acompanhantes da grande estrela.

Ela sabia uma meia dúzia de palavras em português e eu mais meia dúzia em inglês e com essa dúzia de palavras, acertamos nosso roteiro.

Ela não queria voltar para o hotel porque aquele pessoal que a acompanhava era muito chato –  – boaring  – e estava louca para viver um pouco como uma carioca.

– Que tal umas caipirinhas na beira da praia – on the beach – ?

Foi assim que fomos parar num bar em Copacabana, onde derrubamos várias caipirinhas com pastel de queijo e linguicinhas.

Obviamente, ela me disse que apesar de bela e rica, era uma mulher infeliz a procura de um grande amor, como seria previsível num desabafo de uma estrela do cinema.

Sem querer adiantar muito a história, decidimos, ela decidiu, que deveríamos passar a noite juntos e não seria no Copacabana  Palace, mas no hotel de três estrelas na Nossa Senhora de Copacabana que a produtora tinha reservado para mim

A vantagem é que ele ficava a uma quadra do bar. Romanticamente – just like the movie singing in the rain- como ela disse, corremos  no meio da chuva e chegamos na portaria do hotel.

O cara da recepção ficou surpreso, não tanto porque estávamos bem molhados, mas porque ele reconheceu a estrela famosa.

– É ela?

– É muito parecida, mas não é ela, respondi enquanto pegava a chave.

Já no quarto, vendo ela se despir, me dei conta que era ainda mais bonita do que no cinema.

Foi quando, incorporando o grande amante latino, me preparava para chegar ao clímax da história,  que ela tomou um rumo inesperado para o papel que eu deveria fazer.

Seja por causa das caipirinhas em excesso ou pela emoção do momento, a coisa desandou literalmente

Em vez de tentar oferecer alguma alternativa sexual para o aumento (quem sabe o sexo tântrico?) me baixou uma profunda depressão e pus a chorar compulsivamente.

Ela então me tomou nos braços e meigamente disse  easy my dear friend. Dont cry.

Não lembro bem do restante, só que acordei quando o sol já entrava pela janela. Estávamos os dois nus e abraçados, quando o espírito do amante latino baixou (literalmente) com toda a força e fiz o que se esperava de um verdadeiro amante latino  – a true latin lover .

Horas depois, fomos embora, ela num taxi para o Copacabana Palace e eu de volta à produtora.

A Clau e a Mari estão grávidas

Claudete, que todos chamavam Clau, estudava História na UFRGS.

Marinês, que todos chamavam Mari, estudava Ciências Sociais na UFRGS

Marivaldo, que todos chamavam Mariva, estudava Direito na UFRGS

Klaus, que todos chamavam mesmo de Klaus, estudava Filosofia na UFRGS

Os quatro se conheceram no Centro Acadêmico  F.D.Roosevelt, quando do movimento Diretas Já e ficaram amigos inseparáveis.

Tão inseparáveis que resolveram viver juntos. Como eram pessoas sem preconceitos, decidiram que formar uma espécie de união estável a quatro.

Quando, Clau e  Mari, dois anos depois, decidiram que queriam ser mães, surgiu o problema, quem seria o pai do filho de quem.

Nessa altura, Mariva, com a sua banca de advocacia ficara muito rico, enquanto Klaus, professor de Filosofia do Estado, ganhava um salário mínimo, o mesmo que Clau e Mari, também professoras.

Embora sempre houvesse aquela brincadeira de que os nomes deveriam aproximar os dois casais, ou seja,  Klaus com Clau e Mariva com Mari, decidiram democraticamente, que a parceira do Mariva seria escolhida por sorteio.

Deu a Clau,

Mariva e Clau foram morar no tríplex que ele comprara em Higienópolis, enquanto Klaus e Mari continuaram no quarto e sala da Lima e Silva.

Um ano depois, nem Clau, nem Mari conseguiram engravidar.

Resolveram então fazer uma nova combinação: Mari foi morar com Mariva, enquanto a Clau veio para o apartamento da Lima e Silva, com o Klaus.

Tentaram mais um ano e nada.

Foi então qu , numa noite em que falavam sobre os melhores poetas brasileiros,  Klaus recitou aqueles versos do Drummond:

João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria, que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. / João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, / Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história.

– Aí está a solução. Precisamos encontrar o J. Pinto Fernandes, disse a Clau

De início, os outros três não compreenderam, até que o Klaus sacou

– Precisamos encontrar o J. Pinto Fernandes para engravidar a Clau e a Mari.

No resto da semana ficaram procurando o candidato ideal. Vários nomes foram aventados e postos de lado – um por causa da idade, outro que parecia pouco saudável e um até mesmo porque era eleitor confesso do Júnior.

Finalmente, o candidato vencedor foi o Jorjão , que trabalhava como mecânico numa oficina no Cristal e inclusive era operário com consciência política, já que inclusive comandara uma greve que lhe causara a perda do emprego como soldador da GM em Gravataí.

O fato de ser casado e com muitos filhos não foi visto como problema. Ele não iria querer prolongar a relação e acima de tudo era uma prova de sua fertilidade.

O Klaus levantou algumas objeções, mas não teve coragem de dizer que lhe incomodava o fato do Jorjão ser um negro retinto e foi voto vencido

Foi a Clau que convenceu o Jorjão da importância da sua tarefa.

Durante uma semana, o Jorjão compareceu diariamente, pela manhã com a Clau e de tarde com a Mari.

Um mês depois veio a notícia, aliás, as noticias, a Clau e a Mari estão grávidas e o Mariva e o  Klaus vão ser papais.

Ilusão de ótica

 

Foi só no final da semana, que percebi que tinham colocado um enorme cartaz,quase em frente do meu prédio, com uma linda mulher de biquíni deitada em toda sua extensão.

Ontem, quando passei em frente, fiquei com a impressão que ela me seguia com os olhos. Devia ser ilusão de ótica ou uma dessas armadilhas criadas pelas publicitários para nos enganar.Parei, dei uns passos a frente, tornei a olhar e ela, sem dúvida nenhuma, movia os olhos para me seguir.

Fui até o banco pagar umas contas e fiz questão de passar novamente diante do cartaz. Essa vez, além de me seguir com os olhos,ela piscou para mim. Juro. Olhei para um lado,fingindo estar interessado em ouras coisas e quando voltei novamente minhas atenção para o cartaz, uma nova piscadela.

Pensei que aquela senhora ao meu lado, uma gorda patusca, devia ter visto também aquela linda mulher do cartaz piscando para mim. Quando perguntei se tinha visto a piscada, me olhou como se eu fosse um daqueles loucos que andam pelas ruas pedindo um troquinho pelo amor de Deus, virou as costas e foi embora sem olhar para trás.

Será que estou ficando louco? Contei até 10, mentalmente. Louco sabe contar até 10 ? Lembrei mentalmente do meu nome, endereço,CPF, nome do pai e da mãe. Tudo certinho. Acho que louco,eu não estava.

Em todo o caso resolvi voltar para casa, escrever no facebook, continuar lendo a história do New York Times,contada pelo Gay Talese e ver um filme no Netflyx. Tudo normal. Então, louco ainda não estou.

Hoje, para testar minha sanidade mental, passei novamente pelo cartaz. Lá estava ele, com a moça de biquíni, que você enxerga de longe. Lentamente, de cabeça baixa, só levantei olhos quando estava exatamente na frente do cartaz.

Essa vez, ela não apenas piscou, como sorriu para mim. Depois disso só restam três alternativas: ou,os publicitários criaram um cartaz que se movimenta na medida que as pessoas passem na frente dele, ou estou ficando louco, ou a moça de biquíni se apaixonou por mim.

A volta do macho, empoderado e vencedor

Este artigo de cunho totalmente científico é dedicado às amigas feministas Ingrid, Vera Spolidoro, Emma, Margarete, Vera Pelim, Lúcia, Tatiana, Vanessa, Lourdes, Isabel, Gisele, Cris, Denise,  Cida, Inara,  Adriana, Carmen, Lourdes, Rosane, Marilésia, Elenara, Rejana, Cau, Thaís, Yvana e tantas outras e deve ser analisado, não como uma provocação, mas como um alerta para os novos tempos que estão chegando

No ano de 2002 ,eu estava fazendo um curso sobre marxismo em Dresden e escrevia alguns textos literários para um jornal de João Pessoa, Paraíba, quando o Professor Hans Dieter Reinhardt, da Ruprecht-Universitat Heldelberg, foi citado pela mídia internacional pelos seus estudos sobre a possibilidade de uma regressão na idade biológica do homem.

Alguns jornais sensacionalistas chegaram a dizer que aquele filme, o Curioso Caso de Benjamin Button, com Brad Pitt, tinha sido expirado nas descobertas do professor Reinhardt, um especialista em genética humana que tinha feito suas experiências com nativos da Nova Zelândia.

Foi então que o pessoal do jornal de João Pessoa sugeriu que eu tentasse uma entrevista com o Professor Reinhardt.

Mandei uma carta para Heildelberg me apresentando e pedindo a entrevista (uma amiga minha traduziu para o alemão) e para a surpresa minha, logo recebi uma mensagem marcando o dia e hora para o encontro.

Quando me apresentei ao professor e fui saudado com um “bom dia” num português gutural e logo comecei a entender o porquê do Professor Reinhard ter sido tão solicito comigo, quando normalmente se recusava a falar com jornalistas.

Ele era casado com uma brasileira chamada Maria Tereza, negra e que tinha sido passista de uma escola de samba da Baixada Fluminense.

Mas, vamos ao que interessa.

Logo o professor me levou para sua sala de experiência e ajudado pela Maria Tereza, foi explicando o que estava fazendo.

Numa cadeira metálica, ligado a uma máquina enorme e cheia de mostradores, estava um homem dos seus 70 anos, magro, com ralos cabelos e um ar de conformismo.

– Este é o Franz – explicou o Professor – que tem se submetido pacientemente aos meus testes de regressão biológica.

Ele me mostrou então um relógio (pelo menos, tinha essa aparência) onde estava a sequência numérica , 72 10 15 12 25 5 , e explicou que esses números significavam a idade do Franz em anos, meses, dias, horas, minutos e segundos. Logo observei que o último número estava sempre aumentando.

O professor apertou então um botão vermelho e o marcador de segundos parou. Em seguida, ele injetou uma substância amarela de contraste,diretamente numa artéria do braço do Frantz, enquanto explicava

– Eu posso, apertando esse botão vermelho paralisar por alguns segundos o envelhecimento do paciente e quando apertar o botão amarelo, o relógio começa a marcar a sua regressão biológica..

De fato, o número 5, lentamente passou para 4 e mais adiante para 3, quando o doutor Reinhardt interrompeu a experiência.

– O Franz está muito cansado e não posso continuar com a experiência.

Maravilhado, fiz a pergunta óbvia.

– Quanto tempo de regressão o senhor já conseguiu?

– Vinte segundos, explicou ele. Mas é só o nício

Confesso que saí decepcionado de Heildelberg e nem escrevi a matéria para o jornal de João Pessoa.

Tudo aquilo para ganhar 20 segundos de vida.

Essa semana, li no Deutsche Zeitung que o Professor Reinhardt, já conseguira atrasar o relógio biológico da sua cobaia em 36 horas, 20 minutos e 13 segundos.

O assunto estava ficando interessante, pois é mais um dia de vida.

Agora a justificativa para o título desse texto ( A volta do macho, empoderado e vencedor): somente o macho tem condições de ter sua idade biológica regredida.. Pelo que entendi da notícia, as mulheres não poderão usufruir do processo pela ausência de testosterona na quantidade suficiente.

Caso minha avaliação do que explicou o professor Reinhardt esteja certa, eu, que hoje sou mais velho (um pouco) do que as amigas que citei, logo poderei ser, pelo menos biologicamente, mais jovem que elas.

 

O Candidato

 

– Seu jornal quer saber como começou minha carreira política?
Simples. Foi num bar da Volta do Guerino, quando conheci o Pintauva.
– Você tem tudo que um candidato precisa ter: é inteligente, sério e trabalhador.
O sujeito me disse isso, logo que sentamos na mesa do bar e depois de pedir uma água sem gás e dois cafezinhos.
Ele havia me abordado na sala de professores do colégio estadual onde eu era professor de História, e me deu seu cartão de visitas onde estava escrito Roberto Pintauva – Marketing Político.
Sentados agora na mesa do bar para onde ele me convidou, explicou que fazia muito mais do que preparar os candidatos para as eleições. Ele era um olheiro dos partidos políticos, procurando candidatos que pudessem trazer votos para suas legendas.
– Quem votaria num modesto professor de História de escola pública que tem seus salários parcelados pelo Governo todos os meses?
Pintauva me expôs então a sua teoria, o que havia de mais moderno em marketing político.
Os eleitores não querem mais saber de candidatos profissionais. Bom candidato, hoje é um sujeito sem passado.
– Alguém como você – explicou
Bastava dar um sim agora e em um mês a campanha estaria nas ruas e em outubro, a eleição seria uma barbada.
– Vamos começar com vereador, depois deputado estadual e quem sabe, daqui a quatro ou cinco anos, estaremos lançando o seu nome para o Senado.
– Eu não tenho nenhum tostão para gastar
– Não se preocupe. Os investidores bancam tudo.Você só tem que seguir minhas instruções
No primeiro dia, ele me passou as instruções referentes ao que vestir e ao que falar em público. Posteriormente eu seria preparado para encontros políticos, comícios e entrevistas na televisão.
A primeira parte estava impressa numa folha, dividida em duas colunas, que Pintauva me entregou de forma cerimoniosa.
– Leia com atenção e faça tudo que estiver escrito
No lado esquerdo da folha, numeradas de 1 a 10, estavam as normas escritas em negrito e, a direita, uma pequena explicação para elas.
A primeira mandava raspar a barba e o bigode – eu não usava nenhum dos dois – e manter o cabelo bem aparado – eu já era careca. A explicação: os eleitores associam cabeludos a rebeldes pouco responsáveis. Deveria usar sempre gravatas de cores sóbrias, para indicar respeitabilidade. Palavrões estavam terminantemente proibidos. A Bíblia era o livro mais importante até hoje editado e quando me perguntassem sobre religião, deveria responder que era espiritualista.
– Mas eu sou crente.
– Não importa, todos os candidatos vitoriosos são espiritualistas, o que não compromete ninguém.
Uma semana depois, Pintauva voltou com a minha agenda de compromissos. Segunda feira, tinha o batizado do filho do secretário da Associação dos Moradores da Vila Nova; terça, a inauguração de um bingo na Cavalhada; quarta, jantar no Clube da Saudade; quinta, estréia do Circo Volpone, na Morada da Vale II – você precisa sentar na primeira fila – chegue cedo – falou o Pintauva. Para sexta, a agenda ainda estava aberta, mas havia o possível enterro do seu Edgar, no cemitério São João.
– Mas como você está prevendo um enterro para sexta se hoje é ainda domingo?
– O Edgar não passa de quinta. Mas se ele se finar antes, aviso. Esse é um evento que você não pode faltar. O Edgar é muito querido na comunidade
O Edgar morreu na quinta e na sexta lá estava eu na capela do cemitério São João, procurando pelo extinto. O Pintauva tinha chegado antes e quando me viu, fez um sinal para não identificá-lo. Na hora em que iam fechar o caixão, ele se adiantou e tomou a palavra.
– Antes que o querido Edgar nos deixe em definitivo, gostaria que seu maior amigo, o nobre professor e futuro vereador, dissesse algumas palavras. E apontou para mim
– O que eu disse? Não lembro mais. Eu nunca tinha visto o morto.
Falei e devo ter falado bem, porque depois nunca mais pare de falar. Falei em batizado, casamento, velório, festa da terceira idade, reunião de escoteiros e inauguração de bingo.
Continuei falando na Câmara de Vereadores, na Assembléia, na Câmara Federal, no Senado e se você me der licença, eu agora tenho que falar na convenção do PSDB. O pessoal está todo me esperando e parece que tem gente querendo que eu dispute a Presidência.
– O que o senhor vai dizer?
– Sei lá. Eu nem conheço a maioria dessa gente.

A Magia da Realidade

O intelectual é, por princípio, um radical e deve sempre radicalizar suas opiniões.

Richard Dawkins é um radical em defesa do ateísmo.

A sua frase “O criacionismo é um insulto ao intelecto” é uma prova disso.

Numa sociedade hipocritamente tolerante como a nossa, onde se prega um respeito indevido às ideias religiosas, ouvir um pensador como Dawkins dizer que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade, é um alento para quem coloca o ser humano acima de qualquer divindade.

Richard Dawkins é, ao lado de Christopher Hitchens (‘Deus não é grande’), falecido em 2011, um dos grandes divulgadores do pensamento científico da teoria da evolução das espécies, em oposição à visão bíblica da criação do homem.

Em seu livro mais conhecido no Brasil, ‘Deus – um delírio’, Dawkins argumenta que a existência de Deus é cientificamente improvável e que crer nele não só é inútil e supérfluo, mas também prejudicial. De acordo com ele, ninguém precisa de Deus para ter princípios morais, para fazer o bem e para apreciar a natureza.

Mais do que um grande polemista, Dawkins (nascido no Quênia em março de 1941) é um biólogo e grande divulgador da teoria da evolução das espécies de Darwin. Há pouco tempo atrás, a Cia das Letras lançou no Brasil o seu livro A Magia da Realidade, numa edição de alta qualidade gráfica, com capa dura e com belas ilustrações de Dave McKeans.

O livro, embora possa ser lido com grande prazer, pelas descobertas que ele traz, por todas as pessoas que em algum momento se questionaram sobre quem somos e para onde vamos, é uma leitura que deveria ser obrigatória em todas as escolas de adolescentes. Pelo menos nas escolas laicas, não contaminadas pelo vírus da religião.

Numa linguagem acessível a qualquer pessoa, Dawkins vai respondendo, amparado pelos conhecimentos disponíveis até hoje para ciência, perguntas sobre o que é realidade, o que é magia, quem foi a primeira pessoa e o que é um milagre, e outras questões que sempre perturbaram o ser humano.

Depois de explicar que através do urânio 238 e o carbono 14, é possível estabelecer a idade dos fósseis encontrados até hoje, Dawkins convida seus leitores a uma viagem por uma hipotética máquina do tempo, não para o futuro, mas sim para o passado, até 185 milhões de anos atrás, em busca dos nossos primeiros ancestrais,

Ao retornar 10 mil anos, o viajante imaginário vai encontrar humanos, alguns já agricultores e outros ainda caçadores e coletores e que têm uma aparência semelhante ao homem atual, se deixarmos de lado as roupas ou corte de cabelo. São pessoas totalmente capazes de procriar com os viajantes da nossa máquina do tempo.

Dawkins sugere que se pegue um voluntário entre essas pessoas do passado e volte mais 10 mil anos. Aos 20 mil anos, serão todos caçadores e coletores, mas ainda com seus corpos semelhantes aos atuais e capazes de cruzar com pessoas modernas e ter filhos férteis.

A viagem continua com paradas a cada 10 mil anos, sempre pegando um novo passageiro e transportando-o para o passado. Depois de muitas paradas, ao ter voltado um milhão de ano, os indivíduos encontrados serão diferentes de nós e não podem produzir filhos com as pessoas que iniciaram a jornada, mas podem fazê-lo com aqueles que embarcaram nas últimas paradas e que são quase tão antigos quanto eles.

Dawkins propõe, então, chegarmos à estação seis milhões de anos atrás. Veremos então os nossos 250 milésimos avós. Eles são grandes primatas e embora pareçam, não são chipanzés. São ancestrais que temos em comum com os chipanzés. São diferentes demais de nós e dos chipanzés para se acasalar e procriar, mas serão capazes de gerar filhos com os passageiros da estação 5,99 milhões de atrás e provavelmente também com os da estação 4 milhões de anos atrás.

Continuando nessa viagem proposta por Dawkins, chegaremos a estação 25 milhões de anos atrás, onde estão nossos 1,5 milionésimos avós. Serão parecidos com os macacos, embora não sejam parentes mais próximos dos macacos atuais. Serão capazes de ter filhos com os passageiros, quase idênticos, que subiram na estação 24,99 milhões de anos atrás.

Quando chegarmos à estação 73 milhões de anos atrás, vamos encontrar os nossos 7 milionésimos avós. São ancestrais de todos os lêmures e gálagos modernos, mas também são ancestrais de todos os macacos e grandes primatas modernos, inclusive o homem. Eles não seriam capazes de ter filhos com nenhum animal hoje, mas provavelmente poderiam procriar com passageiros que embarcaram na estação 62,99 milhões de anos atrás.

Na estação 105 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 45 milionésimo avô.  Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, exceto os marsupiais e os monotremados e se alimenta de insetos.

Na estação 310 milhões de anos atrás, vamos encontrar nosso 170 milionésimo avô. Ele é o mais antigo ancestral de todos os mamíferos modernos, de todos os répteis e de todos os dinossauros e das aves que evoluíram desses dinossauros.

Na parada 340 milhões de anos atrás, encontramos o nosso 175 milionésimo avô, que se parece um pouco com uma salamandra e é o mais antigo ancestral de todos os anfíbios modernos e assim como de todos os demais vertebrados modernos.

Finalmente, chegamos à estação 417 milhões de anos atrás, onde encontramos um peixe, nosso 185 milionésimo avô. A partir daqui afirma Dawkins, a viagem se torna nebulosa, porque faltam fósseis que permitam definir suas idades através do Urânio 238 e do Carbono 14.

Dawkin conclui afirmando que somos todos parentes e que nossa árvore filogenética inclui primos óbvios como chipanzés e macacos, mas também camundongos, búfalos, iguanas, cangurus, lesmas, baleias e bactérias, o que pode ser comprovado pelo DNA, a informação genética que todos os seres vivos possuem em cada uma de suas células.

Se você não ficou cansado com esta viagem pela realidade do nosso passado, não deixe de ler o livro de Richard Dawkins.

Vale a leitura.

Um circo mambembe

Os jornalistas da RBS estão em festa com a negação pelo Supremo do habeas corpus em favor do Lula. A indefectível Rosane Oliveira saudou principalmente o voto do Ministro Barroso, o mais calhorda de todos.

O ridículo Fuck, com sua esvoaçante peruca, o seminarista Fachin, o primário Alexandre Moraes, a tatibitati Rosa Weber e até a Carmen Lúcia, fizeram jus ás suas biografias pouco nobres, o que surpreendeu foi o Barroso, com o seu alardeado perfil humanista.

Falando meias verdades, quis dar um tom humanista ao seu voto, mas se mostrou um homem ressentido com o PT que o indicou para o Supremo, talvez confiando na sua condição de defensor de perseguidos pela Justiça, inclusive, de Cesare Batista.

Citar casos de pessoas importantes, como o jornalista que matou a namorada pelas costas ou o jogador de futebol que matou três pessoas em acidente de trânsito e que demoraram para serem presos ou ainda continuem livres, por causa dos recursos processuais e atribuir isso à ação de advogados, pagos para defender seus clientes, é jogar com o desconhecimento das pessoas sobre os procedimentos jurídicos e esquecer as garantias da Constituição, que valem para todos.

O que o ministro Barroso não disse, é que os advogados têm prazos rígidos para cumprir e os atrasos se devem mais a morosidade dos tribunais nos julgamentos. No próprio Supremo existem ministros que pedem vistas de processos e levam anos para tomar uma decisão, caso dos ministros Gilmar Mendes e Fuck, esse na decisão sobre os direitos dos juízes a penduricalhos destinados a aumentar seus salários.

O ministro Barroso disse que a justiça só condena meninos pobres.

Correto.

Só não disse que colocar pobres e principalmente pretos na cadeia, é uma forma de defesa da sociedade capitalista para manter a divisão de classes.

Mas aí seria pedir de mais ao “humanista Barroso.

Como disse o Ministro Marco Aurélio, se é para atender o clamor das ruas e começar a atropelar a Constituição,é bom pensar que a população, de um modo geral, que ir à tripa forra, levando ao “paredon”, as pessoas pela menor suspeita de ter cometido um crime.

Aí, não se precisa mais de Constituição e muito menos do Supremo Tribunal Federal.